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Antagônimos

Os desconcertantes vocábulos que exprimem significados contraditórios ou opostos, como SANÇÃO, RELEVAR ou APARENTE.

O leitor Jorge Luiz S. (não mencionou a cidade) vem fazer um apelo quase dramático: “Caro Professor, lamento abusar da sua paciência, mas uma dúvida consome minhas noites. O verbo relevar, bem como seus cognatos (relevante, relevância, etc.), se apresenta  com dois valores distintos. Às vezes indica destaque, importância: “É de suma relevância que se aprove a reforma da Previdência”; outras vezes, ao contrário, sugere perdão ou pouca importância: “Deus há de relevar meus pecados”. Como interpretar isso, sem dar um nó na minha, diga-se, relevante saúde mental?”.

É natural que estranhes, meu caro Jorge, este comportamento do verbo relevar. Que as palavras tenham a propriedade de ganhar novos sentidos, isso ninguém desconhece; agora, que um mesmo vocábulo exprima significados contraditórios ou opostos, isso é muito raro − raríssimo, posso assegurar. Não é um fenômeno exclusivo do Português. Em Inglês, por exemplo, exatamente como em nosso idioma, sanction (sanção) pode significar tanto “aprovação” quanto “penalidade”: “A lei aguarda a sanção presidencial” versus “O Brasil pode sofrer sanção moral se descumprir o acordo”).

Como chamar esses vocábulos que carregam sentidos opostos? Não me parece uma questão essencial; dado o pequeno número de exemplos existentes, a Linguística acertadamente não se preocupou com isso. Já sugeriram chamá-los de antagônimos, como usamos no título da coluna. Outros as denominam de palavras-Jano (só para lembrar, Jano é um dos poucos deuses que Roma não importou da mitologia grega. Ele é bifronte, ou seja, é sempre representado com duas faces que olham em direções opostas − uma voltada para o passado, a outra voltada para o futuro. Por ser a divindade que preside o fim de um ano e o início do próximo, o mês dedicado a ele foi chamado de janeiro). Não creio que esta metáfora mitológica exprima adequadamente a ambiguidade de palavras como relevar. Para mim, elas seriam mais como o Doutor Jekyll, da obra The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, conhecida aqui no Brasil com o enganoso título de O Médico e o Monstro. Neste livro de Robert Louis Stevenson, o doutor, sob efeito de uma poção que ele próprio criou, deixa aflorar temporariamente o seu lado sombrio e reprimido, o Mister Hyde que mora dentro dele. Se por um lado esta comparação me parece mais justa, sou obrigado a confessar que palavra-Dr. Jeckyll seria ainda pior que palavra-Jano…

De qualquer forma, relevar não está sozinho. Há mais alguns exemplos, além do já mencionado sancionar. O termo handicap, que no Inglês significa “desvantagem” (os handicapped são os que chamamos de  deficientes), entrou em nossos dicionários com dois significado: “(1) vantagem; (2) desvantagem”! Durante muito tempo, hóspede  designou tanto aquele que era recebido numa casa ou numa hospedaria, quanto aquele que fornecia a hospedagem (que hoje preferimos chamar de anfitrião ou hospedeiro). Aparente pode ser “aquilo que se vê” ou “o que parece, mas não é” − todos concordamos que a frase “O talento dele é aparente” é ambígua. O verbo alugar serve para os dois lados da transação: “Eu alugava um terreno na Av. Assis Brasil” − eu pagava ou recebia aluguel? E o teu relevar? Como vamos entender algo como “Há vários aspectos que devemos relevar“? Como no traiçoeiro handicap, só o contexto vai decidir de que lado devemos montar neste cavalo.

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As manhas do dicionário

Apesar de parecer sólido e oracular, o dicionário vai desapontar quem não apertar os botões corretos. Mesmo sendo cavalo mansinho, ele também tem o lado certo de montar.

Entre muitas outras coisas, a vida de professor nos ensina que nenhuma pergunta é óbvia para quem a faz. Aliás, essa é a nossa principal tarefa: a partir da dúvida do aluno, descobrir qual o fiozinho que está desligado, isto é, qual é a informação que está faltando para que ele volte, pelas próprias pernas, para o caminho certo. Até mesmo o dicionário, que era inocentemente chamado de amansa-burro (expressão que hoje pode desagradar tanto às pedagogas quanto às defensoras dos animais) — até mesmo o dicionário, repito, que parece tão sólido e oracular, vai desapontar o usuário que não souber apertar os botões corretos. Abaixo vão alguns exemplos.

A leitora Cássia A. escreve: “Sei que a palavra noz possui os diminutivos irregulares núcula e nucela; gostaria de saber se ela possui também o diminutivo regular nozinha, que não está no dicionário” — Não está porque não precisa, Cássia. Qualquer substantivo ou adjetivo pode formar, se quisermos, um diminutivo em -inho ou em -zinho. Se voz tem vozinha, luz tem luzinha, noz pode ter nozinha (aliás, usamos muito, aqui em casa, no Natal). Por medida de economia, os dicionários registram só os diminutivos e os aumentativos irregulares: chorinho, de choro, é indispensável por causa da música; folhinha, de folha, por causa do calendário; macacão, por causa do traje — e assim por diante.

A mesma explicação, aliás, serve para a leitora Belisa F., de Macapá, que informa não ter encontrado em lugar algum a explicação da palavra inextricavelmente: basta procurar inextricável. Por ser um processo automático do idioma — todo adjetivo pode, com o acréscimo de -mente, produzir um advérbio —, os dicionários aproveitam para registrar apenas aqueles que fogem ao significado original (literalmente, por exemplo, que pode ser tanto “expressamente” quanto “totalmente”, como em “Isso foi dito literalmente” e “Estava literalmente arrasado”).  E aqui vai um caveat para ambas, Cássia e Elisa: esta é a maior, se não única,  desvantagem do dicionário eletrônico (tanto no computador quanto no celular): na edição em papel, ao procurar inextricavelmente, o usuário vai deparar com inextricável, e aí mais de meio caminho já estará andado. Na edição eletrônica, porém, vai receber apenas a chocha mensagem de “verbete inexistente”.

João Carlos C., de São Paulo, tem dúvida sobre a pronúncia do “X” no nome do filósofo grego Anaxágoras, enquanto Carlos R. Júnior, de Porto Alegre, precisa saber se a grafia correta é Groenlândia ou Groelândia. O problema é o mesmo, e mesma é a solução: nossos dicionários, ao contrário dos dicionários ingleses, não incluem nomes próprios, mas sempre podemos encontrar algum substantivo ou adjetivo derivados que nos deem a informação procurada. O dicionário Houaiss, nos verbetes anaxagoriano e anaxagórico, recomenda pronúncia /cs/, e define groenlandês como “aquele que é natural ou habitante da Groenlândia“. Está respondido.

Javier S., de Montevidéu, quer saber por que os dicionários não indicam se incesto e dolo têm a pronúncia aberta ou fechada. Caro Javier: eles indicam, sim. Nossos dicionários seguem sempre a mesma  convenção: quando deixam de indicar o timbre da vogal, é porque a consideram aberta. Em porto, cedo e lagosta, há a indicação, entre parênteses, de que a vogal é fechada — mas nada consta em verbetes como porta, credo e, da mesma forma, incesto e dolo

Finalmente, Misael P., de Recife, escreve para dizer que não encontra o significado de boxo e boxa que aparecem num poema de Drummond: “Hoje sou moço moderno,/ remo, pulo, danço, boxo,/tenho dinheiro no banco./Você é uma loura notável,/boxa, dança, pula, rema”. Ora, prezado Misael, o velho Drummond está usando o verbo boxar (variante de boxear) — e os lexicógrafos jamais registram os verbos conjugados (a cinquenta e poucas flexões por verbo, isso implicaria acrescentar mais de um milhão de formas ao corpo do dicionário). Aqui um dicionário eletrônico ganha mil pontos sobre seus colegas impressos: ao consultarmos o verbete de um verbo, podemos abrir, a um simples clique, uma janela contendo sua conjugação completinha.

 

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Azulejo vem de azul?

Em etimologia, nem tudo que reluz é ouro, nem tudo que balança cai: pode parecer, mas AZULEJO não vem de AZUL.

O assunto foi levantado por uma professora da rede pública estadual de Santa Catarina, do município de Lajes, cujo nome, a pedido seu, não será mencionado: “Professor, sou uma grande fã sua e tenho certeza de que vai me ajudar. Um aluno me perguntou por que, ao lado do azulejo, que obviamente vem de azul, nós não temos também verdejo, branquejo ou vermelhejo. Acho que é brincadeira, não? Que resposta posso dar a ele?”.

Cara professora, a pergunta veio sacudir a árvore da memória e despertou-me a vaga lembrança de já ter tratado deste assunto. Embora conserve hábitos um tanto fora de moda ― escrevo preferencialmente a mão, com caneta tinteiro e tinta preta ―, aderi à informática desde o tempo do Windows 3.1, fazendo do computador um companheiro que só vou abandonar quando deixar este mundo. Usando de feitiço poderoso (na verdade, o Google Desktop), vasculhei os meus arquivos e encontrei, no início de 2000 (credo! já faz tantos anos!), um e-mail de nosso Luiz Achutti, enviado de Paris, comentando uma coluna em que eu afirmava, oblíqua mas claramente, que azulejo viria de azul. Dizia ele: “Escrevo apenas para dizer-te que vi ontem na TV uma matéria  sobre o Museu dos Azulejos  em Portugal. O cara lá pelas tantas falou que a palavra azulejo não veio de azul (como está implícito no teu artigo), mas sim de uma palavra árabe, de som parecido, que teria algo a ver com revestimento. Não lembro qual era a palavra do Árabe, mas espero que mesmo assim faças bom proveito da minha dica”.

A dica foi realmente valiosa; com a pulga atrás da orelha e um dicionário na mão, acabei confirmando que não há nada que ligue azulejo a azul, embora pareçam ser gente da mesma família. Corominas (conquanto seja um dicionário etimológico do Espanhol, sempre é útil quando estudamos formas compartilhadas entre os dois idiomas) diz que azulejo vem de al-zuleig ou al-zuleij (o al é apenas o artigo), que significa, aproximadamente, “pedrinha polida”, uma referência à arte dos mosaicos romanos, que os árabes conheciam tão bem. Por outro lado, azul, a cor, é uma forma reduzida de al-lzaward, vocábulo que o Árabe foi buscar no Persa e que você conhece como o segundo elemento de lápis-lazúli (do Latim lapis, “pedra” + lzaward, “azul”).

Embora haja um marcante predomínio do azul nos ladrilhos portugueses, todas as outras cores sempre estiveram presentes. Numa descrição da China, em 1520, o viajante informa que “As casas são ladrilhadas de azulejos de muitas cores“. Em 1603, Fernão Mendes Pinto (1603) descreve “um coruchéu [campanário] de azulejos de porcelana muito fina brancos e pretos“. Já no séc. 18, contudo, o bom Bluteau se encarregava de espalhar a falsa etimologia em seu dicionário: “azulejo – “espécie de ladrilho envernizado, com figuras ou sem elas; há brancos e verdes, mas pela maior parte são azuis, e desta cor tomou esta obra o nome“. Sendo ele o grande nome que foi em nossa lexicografia, desconfio que tenha contribuído ― e muito! ― para espalhar esta lenda.

 

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Velharias

 

Posso usar palavras tiradas do baú? Pode, é claro — assim como pode andar com chapéu de três bicos e sapatão com fivela.

Aldrovando K., de Ponta Grossa, Paraná, advogado recém-formado, esbarrou num pedregulho colocado em seu caminho por um colega veterano: “A petição assinada por ele fala todo o tempo no imóvel “suso descrito” e nos compradores “juso relacionados”, vocábulos que não constam na minha edição eletrônica do dicionário Houaiss. Pela posição em que a descrição do imóvel vem no texto, imagino que suso seja um sinônimo de “acima”, e juso seja um sinônimo de “abaixo”. Mas de onde saiu isso, professor? Posso usar também? E já que estou aqui, aproveito para perguntar sobre tirante, palavra que me soa muito refinada, mas que um amigo me disse que é velharia. O que o senhor acha? Formas históricas devem ser evitadas?”.

Caro Aldrovando, teu colega está empregando vocábulos que no Bluteau, avô de todos os nossos dicionários, aparecem com a rubrica “antiquados” já no séc. 18. Suso vem do Lat. sursum, “acima”, o mesmo que aparece no sursum corda (“corações ao alto”) da liturgia cristã. Seu oposto é juso, “abaixo, debaixo”, que vamos encontrar em jusante, “maré baixa, rio abaixo”. O Livro de Alveitaria de Mestre Giraldo, um tratado primitivo de veterinária publicado em 1318, no capítulo sobre anomalias, afirma que os cavalos podem nascer “com sua queixada de juso mais longa que a de suso …” (leia-se “a de baixo mais longa do que a de cima”). Os testamentos dos primeiros reis de Portugal estão repletos, como a petição a que te referes, de “suso ditos”, “juso descritos” e outros que tais. Se podes usar também? Claro — como também podes comparecer à audiência com um chapéu de três bicos, casaca com galões dourados e sapatões com fivela, se quiseres te fantasiar de capitão da marinha de Dom João VI. O baú das palavras também está cheio de velharias, prezado leitor, e na linguagem, assim como na vestimenta, tudo é uma questão de adequação aos costumes vigentes…

Já o tirante ainda circula com desenvoltura em nossa língua atual — e nos seus dois sentidos (refiro-me à preposição; como substantivo, tirante é de uso comuníssimo, indo dos vestidos aos arreios da carroça, passando pelas estruturas arquitetônicas). Até o séc. 18 ele era usado apenas no sentido exemplificado tanto por Antônio Morais, em seu dicionário (“cor tirante a amarelo, isto é, que se aproxima a ele”) quanto pelo padre Bluteau (“Ametista — pedra preciosa da cor da púrpura, tirante a roxo”). A partir do séc. 19, no entanto, o termo adquiriu também o sentido de “exceto”: “Tirante esta última hipótese, bem pouco provável” (Rui Barbosa); “Tirante este incidente, o dia passou em completa paz” (Euclides da Cunha). Na linguagem usual, familiar, tirante realmente soaria como pedantismo (preferimos dizer “a cor puxa pelo roxo” e “tirando esta última hipótese”); na linguagem técnica, porém, de terno e gravata, ele não chamará maior atenção.

E para quem aprecia estas nossas discussões quinzenais, participo que vou ministrar um curso rápido intitulado “Origem e Evolução da Língua Portuguesa”, no Instituto Ling, nos dias 22 e 29 deste mês de maio. O motivo desta escolha? Está assim expresso no programa:  “É nossa língua que nos faz ocidentais, herdeiros da Grécia e de Roma, do Velho e do Novo Testamento, da cristandade, da matemática decimal, do calendário gregoriano. Ela foi usada por santos e cruzados, por navegadores, por carrascos e por vítimas da Inquisição. Quando o Brasil foi descoberto, foi nela que Pero Vaz e Caminha, o escrivão da frota, relatou o feito ao rei de Portugal; foi nela que Camões cantou seus amores e Vieira pregou na Igreja contra as invasões holandesas, falando a colonos, índios e escravos. Quem viajar pela história de nossa língua vai entender o quanto devemos ao Grego e ao Latim, vai poder avaliar a dívida cultural que temos para com os árabes, os povos indígenas e africanos e − para a surpresa de muitos − descobrir o quanto o Português contribuiu para outras línguas do mundo”.

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Desemalando dinheiro

“Professor, um amigo meu usou o verbo bocaberteou (de boca-aberta) para dizer que o irmão tinha sido descuidado com o celular, que terminou sendo roubado no ônibus. Isso é um neologismo, não é? A gente pode inventar palavras para nossa língua? Essa até que eu achei legal” — pergunta Celso B., estudante de Rio Grande. Pois eu também, Celso; essas brincadeiras feitas com nossa língua são papa-fina para mim, um adicto incorrigível do prazer que as palavras produzem — mas tenho de informar que essas preciosas criações dificilmente vão fazer parte ativa de nosso léxico. São formações momentâneas, expressivas, adequadas a uma situação muito específica, mas que chamam demasiada atenção por sua novidade e estranheza e não atingem a frequência de uso das palavras comuns. Mário de Andrade, por exemplo, brinca maliciosamente com isso: “a musa sentiu-se farta, bifarta, centifarta, multifarta“; “estrambólicas, sonambúlicas e não-me-amólicas“; “o poeta fogo-de-artificiou o Centenário Independentriz e Brasilial“; “entusiasmo pela “luso-poetice guerrajunqueiriz e juliodantal (de Guerra Junqueiro e Júlio Dantas) − tudo isso para falar da obra de um poeta que devemos, pois, “vaiar, fiaufiauizar, batatizar, ovopodrizar“… Servem para o momento, mas não vingam. Outro Mário, o nosso  Quintana, não hesitou em escrever “Um dia, os padres se desbatinaram” − um exemplo mais sutil, de maior finura, mas que também morreu ali mesmo.

E já que estamos falando de neologismo, aproveito para mandar um recado, por via indireta, para aqueles que ainda empregam esse termo: de uma vez por todas, deixem de lado esse vocábulo, tão inútil, inexato e anticientífico. Já lembrei diversas vezes nesta coluna que este conceito sempre se afoga nas águas profundas do rio do tempo. Como o novo de hoje sempre será o velho de amanhã, o rótulo de “novo” que dou a um vocábulo não terá valor algum para as próximas gerações, a não ser que haja uma contextualização histórica: na primeira metade do séc. 19, quando Dom Pedrinho II começava seu longo reinado no Brasil, o termo cientista acabava de ser criado na Inglaterra; quando chegamos à República em 1889, o vocábulo apendicite era tido como raro e novo; em 1905, The Spectator ainda pedia desculpas aos leitores pelo uso da palavra intelectual, alegando ser um neologismo consciente.

Para demonstrar o quão precária pode ser a nossa avaliação do que é antigo e do que é recente no idioma, proponho (velho vezo de professor!) um pequeno teste para o amigo. Em cada frase há uma palavra em destaque; assinale as que você colocaria no balaio dos neologismos: (1) “A PF pediu a ajuda de um banco para desemalar e contar os milhões encontrados no imóvel de Geddel”; (2) “Era muito desengraçado quando menino, mas tornou-se homem atraente”; (3) “Em vez de ajudar, a opinião dos pais pode desajudar a noiva”; (4) “O camponês desnarigado por um golpe de facão sofreu cirurgia reparativa”; (5) “O laboratório descontinuou a produção do medicamento sem nenhuma justificativa”.

E aí, leitor, quer saber quantas acertou? É muito simples: tantas marcou, tantos erros cometeu. São todas elas palavras velhas, mas bem velhinhas mesmo, que já constavam no empoeirado Bluteau, nosso primeiro grande dicionário, publicado em 1728 — um pouco antes da fundação da cidade de Rio Grande e do início ocupação portuguesa do território gaúcho. Como dá para ver, as aparências enganam.

[a ilustração é do  grande Edu  Oliveira, da ZH]

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Férias no dicionário

Edu sáb ago 2015

Veja como um bom dicionário pode transportar seus filhos para um mundo de aventuras e descobertas.

Para aqueles que, como eu, ainda têm criança em casa, a segunda metade de julho é a época ideal para chegar mais perto dos petizes e compartilhar com eles alguns breves mas preciosos momentos culturais (suspeito, às vezes, que o prazer seja bem mais nosso do que deles, mas não faz mal: todos vão sair ganhando). Se não tiver um bom livro ou um bom filme à mão, aconselho a recorrer ao dicionário, que tantas aventuras pode oferecer. Quer ver como é fácil, leitor? Pois há dias se ouve aqui em casa (muito mais vezes, confesso, do que eu gostaria) a música Pomar, do incomparável grupo Palavra Cantada ― uma composição infantil bem ritmada em que desfilam todas as frutas conhecidas e as árvores que as produzem (“mamão, mamoeiro; banana, bananeira; pera, pereira…”). O que dá para tirar daí? Muito mais do que se pensa, como vamos ver.

Primeiro, tenho certeza de que nosso pequeno ouvinte não ficará indiferente ao ser informado de que, em nossa língua, a árvore sempre tem o mesmo gênero que sua fruta: abacate, abacateiro, mas laranja, laranjeira, e que este princípio vale para todas elas ― com a enigmática exceção do figo, que nasce na figueira. Como esse é um caso único entre centenas, temos aí um bom pretexto para voltar ao passado, no período em que a nossa e as demais línguas românicas se formavam ― quando descobriremos que, no Catalão, a fruta também é feminina (una figa). Não fica difícil, assim, defender a ideia de que o Português preferiu dar o gênero masculino à fruta para distinguir da figa, aquela mãozinha sem-vergonha com o polegar enfiado entre o dedo médio e o indicador, gesto usado tanto para afastar o mau-olhado quanto (tirem as crianças da sala!) para sugerir aquilo que Luzia foi fazer na horta.

Em seguida, que tal uma história de sangue e horror, daquelas que sempre agradaram aos pequenos? Que tal contar-lhes a lenda do Papa-Figo, o velho sinistro que raptava meninos para extrair-lhes o fígado, usado na tentativa de cura de um ricaço leproso? E explicar que o tal velho papão devia se chamar, na verdade, Papa-Fígado, mas que esse Papa-Figo popular não é tão errado como parece, porque figo e fígado nasceram juntos, na mesma hora e na mesma maternidade? Basta lembrar que era costume entre os romanos engordar os gansos com figos em passa, a fim de que sua carne ficasse com sabor mais refinado, e que a parte mais requintada era o jecur ficatum  (jecur, “fígado” + ficatum “com sabor de figo”). Com o tempo, o primeiro elemento se apagou e só restou ficatum ― exatamente como aconteceu com uma (linha) diagonal, um (dente) canino, uma (carta) circular, entre tantos outros.

Como um guia na floresta, você continua mostrando os caminhos que ligam pontos que pareciam tão distantes: o sobrenome Figueiredo que aparece na lista de chamada do colégio vem de um bosque de figueiras, assim como de árvore saiu arvoredo e de vinha saiu vinhedo. E mais ainda teria para contar, se não terminassem antes as férias, tão curtas, ou  a paciência dos filhos.

[A ilustração tem a marca registrada do genial Edu Oliveira]

Convido os amigos leitores a me acompanhar no grupo Sua Língua no Facebook, onde conversamos sobre tudo o que diz respeito a nosso idioma.

PORTUGUÊS AO VIVO – Acaba de entrar no ar o meu curso de Língua Portuguesa – aulas, exercícios e testes, todos gravados por este que vos escreve.

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bimensal

Um leitor de Porto Alegre, que usa o pitoresco pseudônimo de Fenergan, diz não ter entendido muito bem a declaração de um proprietário de casa noturna dada a um telejornal local: depois de informar que tinha contratado uma firma especializada para fazer inspeções bimensais na rede elétrica de seu estabelecimento, aproveitou para avisar o público de que, a cada dois meses, teria de fechar por três dias seguidos para que este serviço pudesse ser feito. “A cada dois meses, professor? Bimensais? Eu jurava que seriam de quinze em quinze dias, mas, para minha surpresa, as obras que fui consultar não me tiraram a dúvida, pois Napoleão Mendes de Almeida, em seu Dicionário de Questões Vernáculas, sustenta que bimensal é sinônimo de bimestral; para tanto, remonta à origem latina e menciona Aulete e Cândido Figueiredo como autoridades”.

Meu caro Fenergan, não há dúvida alguma de que ambos foram feitos do mesmo barro: ambos ostentam o prefixo bi– e ambos derivam de mês. O produto final, contudo, é totalmente diferente. O velho Napoleão Mendes de Almeida, às vezes tão esperto, às vezes nem tanto, faz aqui uma grande mistura de opinião com etimologia. Recorre ao Latim e ao Inglês para nos informar, com veemência, que bimensal e bimestral  vêm do mesmo radical (até aí morreu Neves…), para então deduzir que as duas palavras podem ser usadas uma pela outra, já que dizem mesma coisa. Ora, esse é aquele tipo de raciocínio equivocado que chamamos de non sequitur (“não se segue”, isto é, a conclusão não é apoiada pela premissa), pois nele está escondida a presunção absurda de que uma palavra é imutável como uma pedra preta.

O discutido Cândido Figueiredo, assim como Caldas Aulete, nosso venerável dicionarista da Belle Époque, realmente registraram bimensal com o mesmo significado que atribuímos hoje a bimestral (“de dois em dois meses”). No entanto, se os  dois termos um dia chegaram a ser sinônimos, hoje deixaram de sê-lo, pois felizmente a língua fez aqui o que sempre deveria fazer nessas situações: aproveitou a duplicidade de formas para marcar, com elas, uma utilíssima  diferença semântica. O Aulete atual faz uma distinção taxativa entre os dois vocábulos, acompanhando o Houaiss e o Aurélio: bimestral, que está vinculado a bimestre (da mesma série de trimestre, quadrimestre, etc.), é o que ocorre de dois em dois meses; bimensal, que deriva de mensal, é o que ocorre duas vezes por mês. Uma casa noturna que sofra inspeções bimestrais estaria muito mais segura se elas fossem bimensais; neste último caso, em nome da clareza, seria recomendável falar em quinzenal, uma palavra que todos entendem da mesma maneira.       

Infelizmente, nosso idioma não dispõe de distinção semelhante quando se trata de anos. O léxico não é necessariamente simétrico. Se bimensal significa duas vezes ao mês e biebdomadário significa duas vezes por semana,  bianual deveria corresponder a duas vezes por ano, cabendo a bienal, associada a biênio, designar as coisas que acontecem a cada dois anos. Os falantes, contudo, também usam bianual com este mesmo sentido; a Bienal do Mercosul, por exemplo, é um evento bianual…  Alguns dicionários registram uma terceira forma, bisanual, perigosamente ambígua (e, portanto, inútil), por atribuírem a ela ambos os significados (tanto de dois em dois anos quanto de duas vezes ao ano).  

Essas diferenças, quando existem, são extremamente valiosas, e a morte de uma delas sempre deixa a língua mais pobre. Uma que está periclitante, atualmente, é a que existe entre atrativo e atraente. “Com as novas taxas, nossos fundos de investimento ficaram muito mais atrativos“, diz o comercial. Não; ficaram mais atraentes. Embora venham ambos do verbo atrair, têm valor e uso diversos. Atraente é o adjetivo que qualifica aquilo que atrai, seduz, encanta: “a proposta  era atraente”, “a solução mais atraente”, “era uma pessoa muito atraente”. Atrativo é o substantivo que designa os detalhes que atraem: “esta ilha tem atrativos turísticos”, “seu maior atrativo era a baixa taxa de juros”, “é difícil resistir a seus atrativos”. Para o uso geral, vale ainda a velha (mas interessante) correlação entre ter e os substantivos  e entre ser e os adjetivos. Lembram os leitores? Os bons professores ensinavam que temos substantivos, mas somos adjetivos: eu tenho medo (substantivo), mas sou medroso (adjetivo); elas têm inteligência (substantivo), mas são inteligentes (adjetivo); a poupança tem novos atrativos (substantivo); ela é (ou ficou, parece, etc.) mais atraente (adjetivo).

Aproveito para lembrar aos amigos que no último DOMINGO da Feira do Livro de Porto Alegre, dia 17,  às 18 horas, estarei autografando (calma, revisor: esta construção é Português da gema!) o terceiro volume de O PRAZER DAS PALAVRAS. Quem puder passar por lá vai me dar grande prazer. 

 

            

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ventosa

Aluno não aprende sozinho, ciscando como um pinto solto entre livros e apostilas. A aprendizagem sem professor é difícil, demorada e geralmente imperfeita, pois só ele é capaz de identificar os desvios e os becos sem saída em que o pensamento do aluno se perdeu.

Ao contrário do que alguns andam apregoando por aí, aluno não aprende sozinho, ciscando como um pinto solto entre livros e apostilas. A aprendizagem sem professor é difícil, demorada e geralmente imperfeita, pois só ele é capaz de identificar os desvios e os becos sem saída em que o pensamento do aluno se perdeu. Um bom professor deve ser um obsessivo leitor de sinais — as expressões do rosto, as exclamações, as perguntas, tudo vai contribuir para que ele descubra a melhor maneira de ajudar aquele que está ali, à sua frente, à espera desta ajuda. É mais ou menos o que acontece aqui quando me fazem uma pergunta: sem entender exatamente onde reside a dúvida do leitor, é impossível auxiliá-lo — mas, acreditem, isso exige paciência e muita atenção.

De uma pequenina cidade do agreste do Rio Grande do Norte — santa internet! —escreveu uma leitora para pedir notícias sobre o paradeiro de um vocábulo que sua família sempre usou mas que, como verificou com surpresa, não consta no dicionário. “Professor, cresci ouvindo meu pai dizer que a praia de Pirangi era muito ventosa, batida pelos ventos do Atlântico — mas o dicionário que consultei não registra este significado. É um sentido arcaico da palavra, ou não passa mesmo de fala de matuto?”.

É evidente que não levei a informação dela muito a sério, porque a experiência me ensinou que a trágica frase “não consta no dicionário” muitas vezes quer dizer, na verdade, “procurei num dicionariozinho escolar caindo aos pedaços — o único que temos aqui em casa — e não encontrei”. Por isso, com muito tato, tratei de aconselhar à leitora que pesquisasse num dicionário melhor — um Aurélio, um Houaiss, um Aulete —, já que não se trata de regionalismo ou palavra obsoleta, mas, bem ao contrário, de adjetivo usado correntemente, significando “com ventos fortes, com muito vento”. Meu conselho era didaticamente honesto: procura — e encontrarás!

A resposta não se fez esperar: ela costumava consultar nada mais, nada menos que o Houaiss on-line, e podia jurar que lá não havia menção alguma a esta associação com o vento, que tanto ela quanto eu atribuíamos ao vocábulo. “Só pode ser falha deles! Acho que não dá para confiar nesses dicionários da internet; digitei ventosa várias vezes e sempre deu a mesma coisa: fala de tratamento médico, de polvos, de árvores, mas nada sobre o vento”. Bingo! — só então me dei conta de qual era o verdadeiro problema que a afligia, qual era o nó que precisava ser desatado: apesar de escrever com certa desenvoltura, minha leitora não conhecia os rudimentos básicos de uma consulta ao dicionário. Coube a mim explicar-lhe que a palavra que estava procurando era um adjetivo — e que todos os adjetivos vêm sempre registrados no masculino, sobrando para os usuários a tarefa de deduzir o plural e o feminino; que encontramos bonito, mas não bonita, bonitos e bonitas; e que, portanto, se ela digitasse ventoso, finalmente apareceria o adjetivo que buscava, com o sentido de “com muito vento”, mais antigo do que a Sé de Braga. Daí as tardes ventosas, a praia ventosa de Pirangi. Como ela digitava indevidamente o feminino, abria-se o verbete ventosa, agora um substantivo, vocábulo de origem latina que designa aquilo que o polvo tem nos tentáculos e, por semelhança, aquelas campânulas de vidro que se aplicavam nas costas do paciente, consideradas pela medicina antiga como um meio eficaz para tratar diferentes problemas do organismo. Estava solucionada a questão: ela tivera a coragem de perguntar, e eu, felizmente, a coragem de explicar um detalhe que me parecia vergonhosamente óbvio, mas que, como ela mesma confidenciou depois, jamais lhe teria ocorrido espontaneamente.

Outro leitor — sintonizado, aliás, com o atual clima de Páscoa —, veio perguntar se a  expressão “entrou como Pilates no Credo” serve para crítica ou elogio, porque ouviu usarem-na a respeito de um amigo recentemente nomeado para cargo importante numa emissora estatal de televisão. Tenho de ser sincero: é uma crítica, meu caro leitor. Pôncio Pilatos (e não Pilates, que é o método de ginástica…) era o governador romano da Judeia quando Cristo foi crucificado; como seu nome é casualmente mencionado no Credo (do Latim, “creio”), uma das orações mais tradicionais da Igreja Católica, ele acabou se tornando, por isso, o símbolo do sujeito que não tem nada a ver com a situação em que se encontra — aquilo que o povo descreve como “entrar de gaiato”.

Após o Acordo: Judéia > Judeia

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Cigano (conclusão)

Expurgar o dicionário do lado “ruim” das palavras, retirar do verbete as acepções depreciativas de cigano, como quer o procurador, implicaria apagar uma parte da nossa história, fechando a possibilidade de entendermos determinadas posturas que nossa sociedade assumiu ao longo do tempo, por mais condenáveis que elas possam parecer ao observador de hoje.

 

Na coluna anterior, manifestei minha apreensão diante da absurda hipótese de vermos o Houaiss censurado por força de uma ação do Ministério Público Federal, que enxergou um “claro caráter discriminatório” na redação do verbete cigano daquele dicionário. Como o assunto é muito sério — talvez muito mais do que pareça, à primeira vista —, prometi que a ele voltaria, promessa que agora vou cumprir.

Como vimos, há um equívoco fundamental no raciocínio que embasa esta ação. Para seu autor, procurador federal de Uberlândia, o dicionário seria uma obra que, “pela própria natureza, encerra um sentido de verdade” — e que, portanto, ao incluir no verbete  significados depreciativos como cigano velhaco e trapaceiro, estaria demonstrando uma “postura preconceituosa e discriminatória” contra aquela injustiçada etnia.

Ora, isso é ignorar supinamente a natureza de um dicionário como o Houaiss (ou como o Aurélio, o Aulete ou o Michaelis), que é, como dizem os alemães com seus imponentes vocábulos, um Sprachwörterbuch (dicionário de palavras, também conhecido como dicionário de língua), e não  um Sachwörterbuch (dicionário de coisas). Um dicionário de língua não tem a pretensão de definir o que as coisas são, mas de relacionar o que as palavras significam (ou melhor, relacionar os significados que brasileiros e portugueses atribuíram a cada vocábulo ao longo do tempo). E é exatamente por fazer isso que um bom dicionário constitui a chave indispensável para abrir as portas da tradição, pois nele estão registradas as marcas que nossa história social e cultural vem deixando nas palavras desde o primeiro texto que se escreveu em língua portuguesa.

Pois a palavra cigano, além de designar o povo propriamente dito, pode ter vários outros empregos. “É uma nossa-senhorazinha, é uma cigana, é uma coisa/Que me faz chorar na rua, dançar no quarto”, diz o poema de Vinícius, falando de uma doce namoradinha — e para que possamos entender a intenção do poeta, o dicionário nos informa que cigana pode designar uma pessoa graciosa, sedutora. “Tornar-me-ia de novo meio cigano, meio selvagem, andaria numa corrida vagabunda pelas fazendas sertanejas”, diz Graciliano Ramos — e devemos saber que termo aqui se refere a uma vida errante e solitária. “E se te aparecem uns valdevinos, uns vagabundos, uns ciganos, se te assaltam e roubam, se te matam”, escreve Saramago — agora se referindo a indivíduos perigosos, ladrões e malfeitores. “Emília sempre fora interesseira…virou uma perfeita cigana, dessas que não fazem nada de graça” — e descobrimos, com Monteiro Lobato, que o vocábulo também foi empregado como sinônimo de “avarento, pão-duro”. Para minha saudosa avó, embalada pelas novelas da Rádio Nacional na década de 50, a palavra cigano sempre evocou um povo romântico e passional, fanático por casamentos, que dançava em volta das fogueiras ao som de violinos (no vocabulário dela, o povo suspeito de sequestrar crianças e roubar cavalos não eram os ciganos, mas os “beduínos”; eu e meus primos éramos avisados para tomar cuidado, quando havia “beduínos” na cidade…).

Pois todos esses diferentes significados precisam ser enumerados, explicados, apresentados em ordem de importância e — como fez o Houaiss, tecnicamente impecável —, classificados com rótulos de uso que alertem o consulente para isso só se usa no Sul do país, aquilo é  estritamente informal, aquiloutro tem valor pejorativo, e assim por diante. Expurgar o dicionário do lado “ruim” das palavras, retirar do verbete as acepções depreciativas de cigano, como quer o procurador, implicaria apagar uma parte da nossa história, fechando a possibilidade de entendermos determinadas posturas que nossa sociedade assumiu ao longo do tempo, por mais condenáveis que elas possam parecer ao observador de hoje. Locais religiosos como sinagoga e pagode já foram empregados com o significado de “confusão, balbúrdia”; xiita, que é uma das correntes mais respeitadas do Islã, é usado com o sentido genérico de “radical” (uma vegetariana xiita); missa pode designar uma tarefa interminável (Foi uma missa!); gaúcho já foi sinônimo de “vagabundo”; coronel pode designar aquele que sustenta mulheres; judeu aparece às vezes com o sentido de usurário — e tudo isso deve constar no dicionário, seja para esclarecer o significado do texto, seja para deixar registrados os preconceitos do passado. Suprimir estas informações do dicionário seria iniciar aquele apavorante revisionismo linguístico que, como Orwell já anunciava em seu profético 1984, sempre foi e sempre será uma característica de todos os regimes totalitários.

Depois do Acordo: seqüestro > sequestro


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Cigano

No dia em que registrar os valores depreciativos que certos vocábulos assumiram ao longo do tempo for considerado um crime, nossa língua — ou melhor, nossa civilização terá embarcado numa viagem sem volta para a noite escura da desmemória.

 

Esta semana constatei, não sem surpresa, que muita gente graduada não sabe distinguir uma enciclopédia de um dicionário. É verdade que ambos são fontes de referência que organizam suas entradas por ordem alfabética, providenciais bancos de dados a que recorremos quando precisamos de uma informação a la minuta. A grande diferença entre eles, no entanto, é o tipo de informação que um e outro fornecem: enquanto dicionários como o Aulete ou o Houaiss nos informam sobre palavras, enciclopédias como a sólida Britânica ou a controvertida Wikipedia nos informam sobre os seres e os fenômenos em geral.

E não é pouca diferença! Quero saber o significado de burlantim? Vou ao dicionário (sossegue, leitor; é um simples sinônimo de funâmbulo…). Tenho dúvida sobre o gênero de ou hesito na hora de pronunciar o “E” de incesto? Vou ao dicionário e fico sabendo que é masculino (“Sentia um imenso do padrinho”) e que incesto tem o “E” aberto, rimando com funesto. Agora, se preciso descobrir quanto dura a gestação do elefante, qual foi o último rei de Cartago ou quem descobriu os anéis de Saturno, só uma boa enciclopédia poderá me socorrer.

O dicionário reúne e organiza dados linguísticos; o seu assunto é a própria linguagem e o uso que dela fazemos. A enciclopédia, por seu lado, reúne dados sobre a natureza, os povos, os personagens históricos, as coisas, as obras de arte; o seu assunto é o mundo real, concreto, extralinguístico. Mesmo que o dicionário muitas vezes não possa prescindir de uma certa dose de informação enciclopédica (carrapato — “designação comum aos ácaros da família dos ixodídeos e argasídeos”), ele sempre vai muito além dela, pois tem a obrigação de registrar (o que seria inadequado numa enciclopédia) que carrapato também designa um “indivíduo importuno, que não larga outro; indivíduo que se apega com muita força a algo”. De uma enciclopédia espera-se que apresente os conhecimentos que a Humanidade conseguiu acumular sobre o ilustre carrapato; de um dicionário exige-se que relacione e discrimine os sentidos que os falantes dão (ou deram) a este termo.

Pois não é que esta semana o Brasil inteligente ficou sabendo, estarrecido, que um procurador da República de Uberlândia quer obrigar o Instituto Antônio Houaiss a retirar de circulação todas as edições do dicionário Houaiss, que contêm, segundo a excelentíssima sumidade, “expressões pejorativas e preconceituosas relativas aos ciganos”? Confesso que há muito eu não ouvia tamanho disparate, e fiquei tão chocado com a notícia que, a princípio — imaginando que fosse mais um desses boatos propagados pelas ondas do mar da internet —, pus minha mão no fogo pelo procurador: “Um membro do Ministério Público não vai cometer o erro primário de confundir o texto de um dicionário com o de uma enciclopédia”, sentenciei — mas, ai de mim, logo me convenci de que teria feito melhor se tivesse deixado a mão no bolso: era tudo verdade!

Ocorre que este dicionário — de longe, o melhor que já tivemos em língua portuguesa — não faz mais do que a obrigação ao registrar que o termo cigano tem oito acepções, entre elas duas que Houaiss expressamente rotula como “pejorativas”: “aquele que trapaceia; velhaco, burlador” e “aquele que faz barganha, que é apegado ao dinheiro; agiota, sovina”. Afinal, este é, como vimos, o compromisso tácito que todo lexicógrafo que se preze assume conosco: apresentar o repertório de significados atribuídos a cada palavra e indicar as particularidades de seu uso (“informal”, “antiquado”, “chulo”, “regional”, etc.). Nosso douto procurador deveria ter percebido que as informações apresentadas pelo Houaiss — que, desculpem lembrar a obviedade, não é uma enciclopédia — se referem ao termo, e não ao povo cigano. No dia em que registrar os valores depreciativos que certos vocábulos assumiram ao longo do tempo for considerado um crime, nossa língua — ou melhor, nossa civilização terá embarcado numa viagem sem volta para a noite escura da desmemória.

O problema é tão sério que voltaremos a ele na nossa próxima coluna. Enquanto isso, prezado leitor,  divirta-se e instrua-se com a leitura do excelente texto de Danilo Nogueira, Santa Ignorância, no site www.tradutorprofissional.com, que contribui com novos argumentos para esta cruzada contra o obscurantismo.

(conclusão: aqui)


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