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Concordância em concurso

A questão pedia para assinalar a alternativa com erro de concordância. Segundo a banca, a frase com erro seria “Tanto aos capitalistas mais liberais quanto aos socialistas mais ortodoxos parecem de pouca importância o que não diz respeito ao campo estrito da economia”, mas não entendi por quê. Sujeitos ligados por “tanto.. quanto…” não levam o verbo para o plural?

A frase que marquei como errada foi  “Superaram-se, sim, no campo da técnica todas as expectivas, mas também se registre que todas as desigualdades sociais se agravaram”, porque acho que o pronome indefinido “todas” pediria o verbo no plural.

Patricia F. — Osasco, SP

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Cara Patrícia: sinto muito, mas a frase apontada pela banca realmente está errada. O verbo parecer deveria estar no singular, já que o sujeito é “o que não diz respeito ao campo estrito da economia“. Na ordem direta, fica “O que não diz respeito ao campo estrito da economia parece de pouca importância tanto aos capitalistas mais liberais quanto aos socialistas mais ortodoxos”.

O tanto e o quanto, aqui, não têm a menor importância para a concordância, simplesmente porque introduzem objetos indiretos (“tanto aos capitalistas“, “quanto aos socialistas“) — e não sujeitos.

Sinto dizer-te, também, que está corretíssima a concordância dos dois verbos da frase que assinalaste como incorreta: “Superaram-se, sim, no campo da técnica, todas as expectivas, mas também se registre que as desigualdades sociais se agravaram”. São dois casos de voz passiva sintética; o sujeito de “superaram-se” é “todas as expectativas”, e por isso ele está no plural; o de “se registre” é a oração seguinte (“que as desigualdades sociais se agravaram”) — e, como em qualquer caso de sujeito oracional, o verbo fica no singular.

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Antes do sol nascer

 

ANTES DO SOL NASCER - EDU

 

Como é possível que se defendam construções tão malsoantes como “Antes DE o sol nascer”, “Depois DE ele chegar”? Esta é uma regra artificial, inventada por defensores da análise lógica no início do séc. XX.

 

 Dona Lia, uma gaúcha gentil que mora em Florianópolis, escreve para tecer comentários elogiosos a esta coluna e aproveita a viagem para dizer que estranhou uma construção que empreguei um dia desses — “O fato DA maioria falar assim não justifica…”. Diz ela: “Aprendi que nesse caso e semelhantes, não se pode fazer a combinação da preposição de com o artigo a; eu escreveria o fato DE a maioria falar assim… Estou certa ou estou errada?”.

Olha, dona Lia, a regra a que a senhora se refere é uma regra pedagógica (não gramatical) de meados do séc. XIX, difundida por nomes importantes como Eduardo Carlos Pereira e repetida por muitos autores depois dele. Nosso idioma passava por um período em que pontificavam autoridades sem formação linguística científica, que imaginavam que a linguagem deveria ser um “sistema lógico”. Essa foi a mesma atitude equivocada que tentou, por exemplo, condenar a dupla negação como agramatical, desconhecendo que essa é uma maneira normal — em alguns casos, inclusive, obrigatória — de reforçar a negação (por exemplo, não podemos usar nada se não houver uma palavra negativa anterior: não ganhei nada).

Confundindo a análise lógica com a análise sintática e fonética, esses autores condenavam frases como “na hora DO papai chegar” alegando que papai, que é o sujeito do verbo, não poderia vir regido pela preposição de e que, por isso, deveríamos manter o artigo separado (“na hora DE o papai chegar”). Ora, autores da importância de Evanildo Bechara e Celso Pedro Luft apontam o equívoco dos gramáticos de antanho: isso nada tem a ver com subordinação sintática; a sequência de + o se transforma em do por um processo meramente fonético que recebe o nome de elisão. E tem mais: como já notou Sousa da Silveira, na fala essa elisão é obrigatória — o que é bom deixar bem claro. Que ninguém se ponha a pronunciar a preposição separada do pronome, porque tamanho disparate nunca se viu no vernáculo.

Na escrita, essa elisão foi praticada pelos melhores autores de nosso idioma: “São horas da baronesa dar o seu passeio pela chácara” (Machado). “Antes dele avistar o palácio de Porto Alvo” (Camilo). “Sabia-o antes do caso suceder” (Herculano). “Antes do sol nascer, já era nascido” (Padre Vieira). “Apesar das couves serem uma só das muitas espécies de legumes” (Rui Barbosa). Fica evidente que por séculos esta era uma construção correta, antes que alguém tentasse impor uma restrição quanto a ela, certamente levado por um raciocínio equivocado.

Infelizmente, a imprensa foi mordida pelo mosquito e passou a separar sistematicamente a preposição do artigo, dando a aparência de obrigatória a uma regra que Cegalla, na mosca, classifica de uma “inovação ao arrepio da tradição da língua”. O uso, porém, ficou tão generalizado que não se pode mais considerar errada esta construção, apesar do que ela tem de artificial e malsoante. Acerta, portanto, quem mantém a preposição separada, e acerta quem faz a elisão com o artigo ou o pronome. Como podem ver pelo título desta coluna, este é o meu caso — muito faceiro, aqui, de braço dado com o padre Vieira e com Machado de Assis.   

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Salve, Jorge!

 

O vocativo vem separado por vírgula para evitar que o leitor o confunda com uma parte integrante da estrutura sintática: “Não coma gordura animal” é muito diferente de “Não coma gordura, animal”. Seja em títulos, saudações, insultos, não importa: “Salve, Jorge!”; “Ave, César!”; “Oh, Susana!”; “Acorda, Brasil!”  — a vírgula sempre estará lá.

Resolvi aproveitar esta coluna para responder, de uma só vez, a vários amigos que escreveram para perguntar se realmente é necessário usar uma vírgula para separar os vocativos — e já vou dizendo, sem delongas, que sim: esta vírgula é absolutamente indispensável, pois evita que o vocativo, que sempre será um corpo estranho na estrutura sintática, seja tomado pelo leitor como parte integrante da frase. É ela que nos permite distinguir entre coisas tão diferentes quanto “Não coma gordura animal” e “Não coma gordura, animal”…

Jéssica, que informa ter 10 aninhos (golpe baixo, porque nunca deixo de responder aos leitores mirins), está um pouco atrapalhada com o tema de Português (colégio bom, esse!): ela quer saber se existe diferença de sentido entre “Você entende Joaquim?”e “Você entende, Joaquim?”. Pois é claro que existe, mocinha. Em “Você entende, Joaquim?” a vírgula assinala a presença de um vocativo — isto é, estamos falando com alguém chamado Joaquim. A versão sem vírgula diz outra coisa; estamos perguntando a alguém se ele entende um tal de Joaquim (como em “Ninguém entende Maria” ou “Só a mãe entende seus filhos”).

Genivaldo, de Fortaleza (esta coluna vai longe, nas asas da internet…), tem outra preocupação: em exclamações de apoio ou repúdio (mas é bem específico esse nosso amigo, hein?), como é que funciona o ponto de exclamação? Escrevemos “Valeu! Amigo!”, ou é obrigatório usar a vírgula no vocativo? Pois caro Genivaldo, a vírgula continua a mesma, e no mesmo lugar; basta deixar o ponto de exclamação no fim, que já é suficiente: “Valeu, amigo!”; “Cuidado, Corisco!”; “Epa, camarada!”; “Vade-retro, Satanás!”; “Cala a boca, Galvão!”.

Já a secretária Rebeca manda dizer que ela e os colegas não chegaram a um acordo sobre a pontuação da frase “Vagabundo, vai estudar” — “A vírgula não estaria separando o sujeito do verbo?”. Não, prezada Rebeca: nesta frase, o sujeito do imperativo é TU (está elíptico); vagabundo é o vocativo e, exatamente por isso, pode se deslocar livremente (sempre acompanhado, é claro, das vírgulas indispensáveis): “Vai estudar, vagabundo”; “Vai, vagabundo, estudar”.  Se trocássemos o sujeito para VOCÊ, o verbo teria de acompanhar: “estudar, vagabundo!”.

Finalmente, uma leitora do Rio de Janeiro escreveu, alguns meses atrás, para reclamar de um erro na TV: “Professor, a pontuação dos títulos não é igual à pontuação normal? Vocativo não leva vírgula? Como é que a atual novela da Globo não tem vírgula?”. Ora, há mais de trinta anos não sei o que é novela; nada tenho contra elas, pois cada um tem o direito de se divertir como quer, mas confesso que, de minha parte, prefiro perder meu tempo assistindo aos vídeos divertidos do Animal Planet. Como nada mais constava na mensagem, fui pedir ajuda à vizinha, noveleira profissional, que me esclareceu que a novela a que a leitora se referia era uma tal de “Salve, Jorge”. A informação não me bastou. Haveria algum personagem chamado Jorge, que devia ser salvo? Nesse caso, o título deveria ser escrito sem vírgula, para não separar o verbo de seu objeto direto: “Salve Jorge” — assim como “Salvem as baleias” ou, mais radical, “Salvem o planeta”. Não, não, respondeu a prestativa vizinha; ela tinha lido uma entrevista em que a autora, Glória Perez, dizia que o título provinha de uma saudação a São Jorge, muito usada nas religiões afro-brasileiras. Bom, então certa estava a leitora: falta uma vírgula no título. “Salve, Jorge!”; “Ave, César!”; “Oh, Susana!” — tudo é vocativo.

A pontuação se assemelha ao xadrez ou a qualquer outro jogo de tabuleiro: as regras devem ser as mesmas para os dois jogadores — no caso, o que escreve e o que lê. É isso que condena ao fracasso, de antemão, qualquer inovação nesta área, pois o que não for consensual simplesmente não vai funcionar (como definiu Garrincha, com aquela precisão invejável, é preciso antes combinar com os russos…). Falando de suas primeiras experiências literárias, Jorge Luís Borges, com seu manso sorriso de esfinge egípcia, recordava a ingenuidade de seus verdes anos: “Na biblioteca de Alexandria, os primeiros editores de Homero inventaram a pontuação; uns dois mil anos depois, nós, poetas jovens, rechaçamos essa perigosa inovação”. Concluo com uma nota imprescindível, maldoso leitor: não, Borges não estava, com isso, ironizando a discutível “inovação estilística” de José Saramago, que pontua seus textos à moda galega; o genial escritor — falo do argentino, é claro —, que nunca foi agraciado com o prêmio Nobel, morreu em 1986 e não chegou a conhecer, portanto, a obra do português, premiada em 1998.

[Zero Hora – 20/07/2013]

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antes DO ano terminar

Qual a forma preferível — “Antes DO ano terminar” ou “Antes DE O ano terminar”? Na escrita, podemos escolher: os grandes escritores preferem a primeira, a imprensa em geral prefere a segunda. Na FALA, porém, a elisão é OBRIGATÓRIA.

De vez em quando, entre dezenas de dúvidas sobre como se escreve, aparece uma pergunta sobre como se fala. Eu até estranho esta escassez de consultas, considerando que são pouquíssimas as fontes em que os brasileiros podem pesquisar sobre a língua culta falada. É bem verdade que assistimos, no meio universitário, ao surgimento de várias tentativas de descrever a norma urbana culta, mas infelizmente seus resultados jamais atravessaram as paredes invisíveis que separam o mundo acadêmico dos simples mortais aqui fora. Quando queremos confirmar a pronúncia de um determinado vocábulo, recorremos à opinião dos gramáticos e dos dicionaristas — friso, opinião, nada mais do que isso, o que cria um sem-número de divergências por este Brasilzão afora: uns metem o pé na poça (rimando com roça), outros na poça (rimando com moça). Para uns, a grelha do assado rima com velha (Houaiss e Aurélio, por exemplo); para outros, com orelha (Luft e todos os gaúchos, imagino). Há filmes em tecnicólor (rimando com aquele ex-presidente) e filmes em tecnicolor (rimado com bolor); há viquingues e víquingues, recordes e récordes, e assim por diante, numa abundância de opções que mais nos diverte do que nos atrapalha.

A última, agora, veio de um jovem ator, meu ex-aluno, que vai atuar como mestre de cerimônias numa formatura em agosto. Ele estava repassando o texto que lhe foi fornecido quando empacou, por instinto, diante de uma construção que nunca tinha lido em voz alta: “Antes de o ano terminar…”. Cismado com aquele DE separado do artigo, achou melhor me escrever: “E aí, professor? Leio palavra por palavra ou devo dizer antes DO ano terminar, como todo o mundo? Como é que o senhor faz?”.

Pois eu, prezado amigo, sempre faço a elisão da preposição com o pronome — tanto na escrita (onde é opcional), quanto na fala (onde é obrigatória). Há muitos anos escrevi um artigo sobre isso — “Antes do jogo começar“, incluído no vol. 2 da coletânea O Prazer das Palavras, da L&PM —, mostrando que a prática tradicional, adotada pela quase totalidade dos escritores de renome, é combinar a preposição DE com o artigo ou com o pronome pessoal reto que vem depois: “Creio que foi uma apologia de amigo por ocasião dele fazer quarenta anos”, “Antes dela ir para o colégio, eram tudo travessuras de criança” (Machado); “Depois do enfermo lhe haver contado” (Bernardes); “Apesar das couves serem uma só das muitas espécies” (Rui Barbosa).

Alguns gramáticos tradicionais, no entanto, dizem que esta construção não é correta, já que o sujeito estaria, segundo eles, “regido pela preposição, o que não se admite em nossa língua”. Ora, quem acredita nisso está dizendo, em outras palavras, que Machado deveria ter escrito “antes de ela ir para o colégio”, Rui Barbosa teria feito melhor se escrevesse “Apesar de as couves serem uma só das muitas espécies”, Bernardes deveria revisar o seu estilo, e assim também Eça, Camilo e todos os demais outros escritores do passado… Uma rápida pesquisa no preciosíssimo córpus do Português organizado por Mark Davies e Michael Ferreira, que reúne 600 anos de textos literários e jornalísticos, revela um detalhe extremamente significativo: até o final do séc. 19, todos os autores juntavam a preposição com o artigo ou o pronome, com a única (e brilhantíssima) exceção do Padre Vieira, que os mantinha separados (“porque antes de o mundo ser julgado”, “depois de ele emendar os estilos”, “antes de ela chegar, chegou uma lancha sua”). Só a partir do séc. 20 é que começa, nos jornais, a aplicação maciça daquela regra, que hoje alguns erroneamente tomam como obrigatória.

Celso Luft e Evanildo Bechara há muito determinaram que esta regra artificial nasce de uma confusão entre sintaxe e fonética: em “antes do ano terminar”, a transformação da sequência “de o” em “do” é apenas fonética, sem qualquer efeito sintático. Infelizmente, a regrinha já está tão arraigada nos manuais de redação da imprensa brasileira que será impossível eliminar o seu emprego; no entanto, se a maciça difusão nos jornais faz com que ela seja tolerável, não a torna, nem de longe, preferível ao hábito consagrado de juntar as duas partículas. Como as duas regras passaram a conviver lado a lado, temos, na escrita, mais uma daquelas situações em que podemos escolher livremente; eu não hesito e, como afirmei no artigo citado, sempre prefiro combinar a preposição com o artigo (e confesso que me sinto muito bem na companhia de Machado, Eça e Camilo). Para o leitor que fez a pergunta, finalmente, lembro que ele deve ler “antes DO  ano terminar”, pois na fala, como já notou Sousa da Silveira, essa elisão é obrigatória: não me vá algum incauto pronunciar a preposição separada do artigo ou do pronome, porque isso nunca se viu no vernáculo.

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adjunto adnominal ou complemento nominal?

 


Caro Doutor, necessito de sua ajuda. No período “A explicação destes assuntos ao diretor será dada pelo funcionário”, destes assuntos é adjunto adnominal ou complemento nominal?

Pedro M.C. — Uberaba (MG)

Meu caro Pedro: quando se trata de elemento preposicionado, a distinção entre o adjunto adnominal e o complemento nominal geralmente é muito simples. Podemos apontar várias situações em que não há dificuldade alguma em identificá-los:

(1)  Se o elemento preposicionado estiver ligado a um substantivo concreto, só pode ser adjunto (casa de pedra, lápis de Antônio, estante de livros).

(2) Se estiver ligado a um adjetivo ou advérbio, só pode ser complemento (capaz de tudo, apto para o serviço, perto de casa).

(3) Se estiver ligado a um substantivo abstrato por qualquer preposição que não seja DE, só pode ser complemento (obediência às leis, simpatia por crianças, insistência no detalhe).

A única situação em que se admite dúvida entre adjunto adnominal e complemento nominal é quando temos [substantivo abstrato + preposição DE + substantivo] — exatamente como na frase que mandaste: a explicação + de + estes assuntos.

Nesse caso — repito, que é o único em que se admite a dúvida entre o AA e o CN —, começo lembrando que explicação é um substantivo abstrato de ação, formado a partir do verbo explicar, num processo que podemos chamar de nominalização. Ora, sabe-se que os substantivos assim formados têm sua sintaxe dependente da sintaxe do verbo que lhes deu origem — ou, dito de outra forma,  a sintaxe do verbo primitivo vai determinar a sintaxe do substantivo que dele se formar.  O princípio é simples: o que era sujeito do verbo passa a ser adjunto adnominal do substantivo derivado, e o que era complemento do verbo passa a ser complemento nominal. Essa equivalência fica bem clara se compararmos um par de frases como (1) “A repórter contestou o cálculo do ministro” e (2) “A repórter contestou o cálculo dos juros“. Em (1), do ministro é AA de cálculo (“o ministro calculou”); em (2), dos juros é CN de cálculo (“alguém calculou os juros).

Outro par semelhante: (1) “A construção da casa foi embargada” e (2) “A construção de Sérgio Naya foi embargada”. Como a frase (1) provém de  “alguém constrói a casa“, casa é CN de construção; no entanto, na frase (2), que provém de “Sérgio Naya constrói alguma coisa”, Sérgio Naya é AA de construção.

Como podes ver, no exemplo que enviaste — “a explicação destes assuntos” — destes assuntos é complemento nominal de explicação. Ficou mais claro assim? Abraço. Prof. Moreno

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complemento nominal?


Diferentemente dos adjuntos adnominais, que só podem estar ligados a substantivos, os complementos nominais podem ligar-se também a adjetivos e a advérbios.

Prezado Professor, tudo bem? Na frase “Virgínia, moradora na Rua das Acácias, foi assassinada quando saía de casa”, a expressão em destaque é complemento nominal ou adjunto adnominal? Aprendi que os complementos nominais completam apenas o sentido de substantivos abstratos — o que não é o  caso de moradora, que me parece ser um substantivo concreto.

Fernando Bueno

Prezado Fernando: houve aqui uma pequena confusão. Quando dizemos que o complemento nominal completa apenas substantivos abstratos, estamos afirmando, implicitamente, que ele não se refere aos concretos. Isso apenas define o problema quanto aos substantivos. No entanto, o alcance do complemento vai mais adiante: pode ligar-se também a adjetivos (temente a Deus, obediente à lei, apto para o serviço) ou a advérbios (perto da minha casa). Na frase que você menciona, moradora é um adjetivo derivado do verbo morar, que exige um tipo de complemento que o prof. Luft chama de complemento adverbial (mora na floresta, vive no mundo da Lua, etc.). Pela transformação clássica, os complementos verbais sempre se transformam em complementos nominais — o que nos autoriza a dizer que na Rua das Acácias é complemento, e não adjunto.

Entendo por que você classificou moradora como substantivo: houve aqui aquela substantivação habitual que os adjetivos ligados a seres humanos podem sofrer. Por exemplo, o adjetivo bebedor em “Fulano de tal, bebedor de cerveja” pode aparecer substantivado em “os bebedores de cerveja fazem muito barulho”, mas isso não altera o fato de que  de cerveja é um complemento nominal de bebedor. Foi o que ocorreu nesta frase que estamos analisando

Finalmente, em “Virgínia, moradora na Rua das Acácias“, quero chamar sua atenção para um detalhe valioso que não posso deixar de mencionar: a presença da preposição EM. Nunca esqueça, amigo: a hesitação entre adjunto adnominal e complemento nominal só existe quando tivermos um sintagma preposicionado com a preposição DE, e só com ela; quando você enxergar qualquer outra preposição que não seja esta, pode ter certeza de que está diante de um complemento. Abraço. Prof. Moreno




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VIVER como verbo de ligação?

Caro Professor Moreno: na oração “Mário VIVE cansado”, o verbo viver — como ensinado nas escolas — é intransitivo. Porém, um aluno perguntou sobre a eventual possibilidade do mesmo ser verbo de ligação, como é o caso de andar na oração “Mário ANDA cansado”. Estaria correta a posição dele? Agradecida.

Teresinha M. — São José dos Campos

Minha cara Teresinha, acho que o teu aluno tem toda a razão. O verbo VIVER, no exemplo que deste, não é o VIVER intransitivo; aqui ele é classificado como uma espécie de verbo de ligação — um tanto especial, porque não é tão-somente relacional, mas “traduz uma noção além do estado (predicado verbo-nominal). Ex.: “Eles viviam escondidos no mato”. Há aqui noção de vida + estado oculto do sujeito”, diz Celso Pedro Luft, em sua Moderna Gramática Brasileira (aviso a meus leitores: esta gramática só deve ser utilizada por professores ou estudantes de Letras; para o usuário comum, ela é técnica e inovadora demais). O mesmo Luft, no seu utilíssimo Dicionário Prático de Regência Verbal, vai mais longe: já classifica VIVER, nesta acepção, como verbo de ligação, com o significado de estar sempre (aspecto durativo, continuativo ou permansivo): “Ele vive gripado”; “Vive com dores de cabeça”.

Nota que aqui está uma boa oportunidade de reformular a maneira de ensinar os verbos de ligação: em vez de fornecer aos alunos uma lista fechada (eu próprio aprendi, no meu tempo, a desfiar, de cor, aquela ladainha do “ser, estar, ficar, permanecer, etc.”), é muito melhor ensiná-los a raciocinar. Podemos, por exemplo, levantar a seguinte hipótese: se viver for um verbo de ligação, ele estará ligando o sujeito a seu predicativo; ora, os predicativos têm a propriedade sintática de concordar, em gênero e número, com o sujeito (ELA está NERVOSA, ELE está NERVOSO, ELES estão NERVOSOS, ELAS estão NERVOSAS). Se na tua frase — “Mário vive cansado” — trocarmos Mário por Maria, vamos ter “Maria vive cansada“: a flexão nos assegura que estamos diante de um predicativo. O mesmo vale para frases como “Ele virou delegado”, “O menino saiu vencedor”, “Ela acabou ferida”, em que os verbos virar, sair e acabar funcionam como verbos de ligação, e delegado, vencedor e ferida são predicativos.

Quanto a teu aluno curioso, fica de olho nele; ele parece ter uma boa sensibilidade lingüística, como podes ver. Quem sabe não temos aí um futuro colega nosso? Abraço. Prof. Moreno

Depois  do Acordo: lingüística > linguística

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Análise sintática

da passiva sintética para a ativa

Professor, uma oração na voz ativa somente pode ser passada para voz passiva sintética quando o sujeito dela for indeterminado? Por exemplo: “Eu comprei um carro — Um carro foi comprado por mim”, mas ” Compraram um carro — Comprou-se um carro”. Está correto o exemplo dado?”

Frederico Martins

Prezado Frederico: teu raciocínio está correto; é exatamente isso! Parabéns, porque acertaste bem no prego e este é, sem dúvida, um dos assuntos mais complexos da nossa gramática. No entanto, para não ficar sombra de dúvida, peço-te que examines o conjunto de exemplos abaixo:

(1) ativa: Procuram um pianista

(2) pas. analítica: Um pianista é procurado

(3) pas. sintética: Procura-se um pianista

(4) ativa: O maestro procura um pianista

(5) pas. analítica: Um pianista é procurado pelo maestro

(6) pas. sintética: não admite

Para sofrer a transformação para a passiva analítica, basta que a frase tenha objeto direto na ativa; a frase (1) e a frase (4), como satisfazem esta condição, transformam-se em (2) e (5), respectivamente. No entanto, para que admita também a passiva sintética, a frase da ativa, além do objeto direto obrigatório, tem de ter um sujeito indeterminado. Só a frase (1) satisfaz esta segunda condição e pode, por isso, transformar-se em (3). 

Quando o sujeito da frase for determinado, como em (4), duas coisas ocorrerão: primeiro, vai aparecer o agente da passiva (“pelo maestro”, na frase (5)); segundo, não é possível ocorrer a sintética, pois ela é, na sua essência, uma passiva sem agente. Jamais vais encontrar “compram-se carros por Fulano“. Para tua informação, o Português quinhentista ainda conhecia a sintética com agente; as gramáticas citam muito o exemplo de Camões: “o mar, que das feias focas se navega” — ou seja, o mar, que é navegado pelas feias focas. Isso, contudo, foi há séculos, e esta estrutura está em plena evolução, como já mencionei em concordância com a passiva sintética. Abraço. Prof. Moreno

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Análise sintática Lições de gramática

sujeito oracional

Caro prof. Moreno: gostaria que o senhor definisse o sujeito oracional. Eu tenho dúvidas sobre quando este sujeito surge.  Muito obrigado pela atenção!

André Luiz

André, aqui vai uma resposta rápida: as várias partes da frase (sujeito, objeto direto, predicativo, etc.) podem ser representadas por uma oração subordinada substantiva. É exatamente por esse motivo que, entre as substantivas, temos uma objetiva direta, uma predicativa, uma subjetiva — nomes que revelam a qual parte da frase elas correspondem. Quando o sujeito da oração principal for uma substantiva subjetiva, dizemos que o sujeito é oracional (faz sentido, não é?). Vais reconhecer os dois tipos básicos:

(1) as introduzidas pela conjunção integrante que:

Era indispensável que eu voltasse cedo.

Convém que todos fiquem sentados.

É estranho que o cão esteja latindo.

Aqui a oração grifada é subjetiva, isto é, exerce a função de sujeito (oracional) da oração principal, cujo verbo fica, convenientemente, 3ª pessoa do singular: era, convém, é.

(2) as reduzidas de infinitivo:

Estudar é importante.

Ficarmos aqui pode trazer sérias conseqüências.

Descobrir o assassino era uma tarefa para Sherlock Holmes.

Aqui a oração grifada também é subjetiva, só que reduzida de infinitivo. Como o sujeito é oracional, o verbo da principal, mais uma vez, vai ficar na 3ª pessoa do singular: é, pode, era. Deu para entender? Acho que deves olhar, também, o que escrevi sobre a voz passiva sintética. Abraço. Prof. Moreno

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a hora DA/DE A onça beber água

Prezado Doutor: lendo seu excelente artigo sobre arigatô vem de obrigado?, fiquei em dúvida, no último parágrafo, quanto ao trecho “que falavam seu idioma mil anos antes DOS portugueses aparecerem por lá”. Nos anos 60, aprendi, com o saudoso professor Godofredo de Macedo, que era abominável a contração da preposição DE com o artigo antes de um verbo no infinitivo, devendo-se usar, portanto, “antes DE OS portugueses aparecerem…” Gostaria que me esclarecesse se esta regra mudou, ou se se tornou “mais elástica”, como tudo nos dias em que vivemos. Obrigado.

Luiz B. – Médico — Novo Hamburgo (RS)

Meu caro Luiz: o legendário professor Godofredo não inventou aquela regra; ele seguia a lição de um gramático do séc. XIX (Grivet), depois difundida pelo respeitado Eduardo Carlos Pereira e, a partir daí, repetida por muitos autores de livros escolares. Infelizmente eles se enganavam; confundiam a velha análise lógica, em que foram educados, com a análise sintática e fonológica. Como o problema já está suficientemente estudado, limito-me a recorrer ao trabalho de duas autoridades muito significativas para mim, Celso Pedro Luft, meu mestre e amigo, e Evanildo Bechara, o atual gramático-chefe do Brasil. Os argumentos e os exemplos são deles; o que não ficar bem claro deve ser debitado à minha falta de jeito.

Podemos dizer que aquela velha regra nasceu de um silogismo que parece inatacável:

(1) As preposições sempre subordinam o termo que vem à sua direita (termo regido).

(2) O sujeito, assim como o predicado, é um dos termos “nobres” da oração e não pode, por isso mesmo, estar subordinado.

(3) Logo, o sujeito jamais poderá vir regido por preposição.

Seguindo esse raciocínio, uma frase como “hoje é dia DELE voltar para casa” seria inaceitável, porque o sujeito “ele” estaria regido pela preposição “de”; a forma adequada seria “hoje é dia DE ELE voltar para casa”. Tudo parece muito lógico — aliás, era imprescindível que assim fosse, ou a hipótese não teria seduzido tantas boas cabeças brasileiras e portuguesas, como é o caso de Rebelo Gonçalves e de Eduardo Carlos Pereira. Ocorre, no entanto, que eles são gramáticos anteriores até mesmo a Ferdinand de Saussure, considerado o fundador da Lingüística Moderna, com o seu Curso publicado em 1916 (e que só veio a ser lido no Brasil muitos anos depois). Se fossem médicos, seriam, mutatis mutandis, como Hipócrates ou Galeno, exercendo a Medicina antes mesmo de surgir Pasteur.

Em “hoje é dia DELE voltar para casa”, o “de” não está regendo o pronome “ele”, mas sim toda a oração infinitiva, da qual o pronome é o sujeito: Hoje é dia DE + [ele voltar para casa]

Tanto Luft quanto Bechara perceberam que o equívoco dos velhos mestres nasceu da confusão entre sintaxe e fonética. A transformação da frase “a hora DE ELE voltar” em “a hora DELE voltar” é de ordem fonética (é a tradicional elisão), mas não afeta a ordem sintática (não houve a subordinação de “ele” a “dia”). Na fala, como já notou Sousa da Silveira, essa elisão é OBRIGATÓRIA; na escrita, admitindo-se que possamos escolher entre fazê-la ou não, assim mesmo foi praticada pelos melhores escritores de nosso idioma (não cito os posteriores à Semana de Arte Moderna de 1922 para que não digam que estou sendo tendencioso):

—”São horas da baronesa dar o seu passeio pela chácara” (Machado)

— “Antes dele avistar o palácio de Porto Alvo” (Camilo)

— “Sabia-o antes do caso suceder”  (A. Herculano)

— “Antes do sol nascer, já era nascido”  (Vieira)

— “Depois do enfermo lhe haver contado” (Bernardes)

— “Apesar das couves serem uma só das muitas espécies” (Rui)

Por outro lado, há também exemplos de autores clássicos (Vieira é um deles, e de peso!) que quase nunca fazem a combinação da preposição com o artigo ou o pronome; como são anteriores a Grivet (1881), não podemos atribuir a responsabilidade dessas escolhas à influência de sua famosa gramática. Citando Rodrigues Lapa, Bechara sugere que interfiram aqui fatores de ordem muito mais estilística do que gramatical, como, em certos casos, o desejo de deixar a preposição em destaque, evitando que ela fique “enfraquecida” pela elisão. Isso ainda vai ser estudado — se é que já não foi. De qualquer forma, recomendo ao amigo o exame dosubstancioso artigo “Está na hora da onça (ou de a onça) beber água?”, do prof. Bechara, que faz parte da coletânea Na Ponta da Língua-2 (Rio de Janeiro, Ed. Lucerna, 2000. p. 176-188). Abraço. Prof. Moreno

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Análise sintática Questões do momento

a persistirem os sintomas

Oi, Professor Moreno: estou no meio de uma grande polêmica na agência onde trabalho, pois temos que finalizar um comercial com a mensagem obrigatória do Ministério da Saúde… Os comerciais que estão no ar dizem o seguinte: “Ao persistirem os sintomas, o médico deverá ser consultado” (esse texto consta nas normas da Vigilância Sanitária). Eu acho que o certo é “A persistirem os sintomas, o médico…”. Gostaria de esclarecer definitivamente esse tema.

Andréa G. — Porto Alegre

Minha prezada Andrea, o problema é muito simples: trata-se de duas estruturas diferentes, e vocês deverão optar entre elas com base no que pretendem dizer. “A persistirem os sintomas” é uma estrutura CONDICIONAL; equivale a “se persistirem os sintomas“. “Ao persistirem os sintomas” é TEMPORAL; equivale a “quando persistirem os sintomas”. Não entendo de Medicina, mas nessa frase do Ministério da Saúde parece que o significado implícito é “se os sintomas persistirem”, embora o nexo temporal também tenha lá a sua lógica. Aliás, pergunto: por que vocês não usam o se ou o quando, que vai ser entendido por todos? O fato de teres feito esta consulta (e não foste a primeira!) indica que a interpretação não está muito clara para o leitor em geral. Por que insistir no “A persistirem“, que, apesar de correto, vai dar muito pano para manga? Abraço. Prof. Moreno

Pela volta do correio, a leitora respondeu:

Oi, Professor, obrigada pela dica. Concordo que poderíamos evitar uma polêmica maior substituindo o “A” pelo “Se“. Já fiz algo parecido… Deu o maior “bolo”. Não sabia, na época, que o texto era “imexível”. Fomos obrigados a usar o “Ao“, depois obrigados a trocá-lo pelo “A“. Muito obrigada pela ajuda. Abraços.

Como se depreende da narração de nossa leitora, o Ministério da Saúde não quis abrir mão de sua firme indecisão gramatical …