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Egito e Grécia

 

Para falar na cultura egípcia, usamos palavras gregas  – algumas delas bem pouco elogiosas.

Escrevo estas linhas a bordo do navio Mayfair, que singra o Nilo em direção ao sul do Egito. Como Heródoto, quatro séculos antes de Cristo ─ e  como Dom Pedro II, dezoito séculos depois ─, nosso grupo vai fazendo um périplo inesquecível pelos mesmos templos e túmulos que eles visitaram, enfiando um rosário de nomes que sempre viveram na minha imaginação e que só agora se concretizam à minha frente: Luxor, Karnak, o Vale dos Reis, Edfu, Philae, sem contar Alexandria ─ para muitos a cidade de Alexandre, mas para mim a cidade de Antônio e Cleópatra  e, acima de tudo, a cidade de Cavafys.

Se foi pelo olhar da Grécia antiga que o Ocidente tomou contato com a terra dos faraós, não é de espantar que só possamos falar dele usando palavras de origem grega. Assim, vendo passarem, pela janela da minha cabine, as margens verdejantes do Nilo, com seus renques de tamareiras, vou explicar a origem curiosa de alguns nomes que os gregos escolheram para falar da cultura egípcia.

Em primeiro lugar, temos os hieróglifos, que figuram por toda a parte, nas paredes dos templos e nos monumentos. Esta é uma palavra de dupla prosódia, o que significa, em vernáculo, que tanto faz pronunciá-la com a tônica no /ró/ (como eu faço) quanto no /gli/ ─ aliás, como o nome de Cleópatra, que aqui no Egito é pronunciado à moda grega, com a tônica no /pa/, rimando (que a rainha me perdoe pelo mau gosto!) com alcatra. Esta palavra é composta do adjetivo hieros (“sagrado”) mais glifo (“letra, entalhe”) ─  algo assim como “letras sagradas”, porque os gregos, embora não soubessem ler este tipo de escrita, perceberam o seu caráter nitidamente religioso.

Depois vêm obelisco e pirâmide, duas imagens que associamos desde sempre ao Egito e que espantam mais pelo seu tamanho do que propriamente pela beleza artística. Outrora prevalecia aqui o gigantismo arquitetônico, com colunas que vinte homens não podem abarcar com seus braços abertos, ou com obeliscos de granito de mais de quarenta metros (o obelisco de Luxor, hoje instalado na Place de la Concorde, em Paris, pesa centenas de toneladas e exigiu, para seu transporte, a construção de um navio especial, com várias quilhas). As pirâmides são maiores ainda. A de Quéops tem mais de 140 metros de altura e foi por 4.000 anos (até o surgimento das catedrais medievais) a mais alta construção do planeta. Ora, sendo tudo isso tão despropositadamente grande, não poderia deixar de causar má impressão nos visitantes gregos, povo sabidamente inimigo da desmedida e do exagero ─  sem falar, imagino, na inevitável ferida narcísica que a visão daquelas massas gigantescas  deve ter provocado num povo tão orgulhoso de sua superioridade que consideravam bárbaros todos os demais povos que conheciam.

Segundo Lacarrière, grande conhecedor do mundo grego, essa é a única explicação para chamarem as imensas agulhas de granito inteiriço de obelisco, termo formado de obelos (“espeto”) mais o sufixo diminutivo isco (o mesmo que está em asterisco, “estrelinha”) ─  ou seja, apelidaram-nas de “espetinho”! E por ter a forma semelhante à das pirâmides, usaram para batizá-las o nome de um pão especial feito de trigo, pyramis, reduzindo assim todas aquela pompa e magnificência a um cenário de piquenique, com espetinhos e pãezinhos  ─ e não venham me dizer que foi por acaso.

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Azul e rosa

Nas cores, tudo são convenções — umas duráveis, outras efêmeras.

Qual é a cor do menininho, perguntam. E da menininha? Ainda vale a oposição azul para o gauchinho, rosa para a prendinha? Ora, diz o velho provérbio, cores e gostos não se discutem: enquanto no Ocidente a cor do luto é o preto, em muitos países do Oriente é o branco que tem este valor. Nossas noivas ainda se vestem de branco, mas na Índia elas preferem o vermelho e na Noruega elas casam de verde. Cada povo — e também cada classe social, cada grupo etário, cada possível agrupamento de indivíduos formado pelos infindáveis critérios de simpatia ou semelhança — difere dos demais nas cores que prefere, nas combinações que valoriza e no simbolismo que a elas atribui.

Há associações inconscientes, aparentemente sem motivo, ao lado de outras que parecem baseadas em razões concretas. O branco está naturalmente ligado à higiene e à saúde (nas ambulâncias, nos hospitais, na roupa dos enfermeiros). Por extensão, branca também é a pureza e a inocência (o vestido de noiva, a roupa do nenê no batizado) e a sabedoria benfazeja (os sábios da lenda sempre têm roupas e barbas brancas).

O amarelo, por sobressair sobre fundos escuros, é a cor por excelência de tudo aquilo que precisa ser chamativo (as bolas de tênis, os botes salva-vidas, as capas de chuva de quem trabalha na estrada). O verde, cor da natureza fecunda, é associado por analogia com a juventude, o que parece natural (nossos verdes anos) — mas, no imaginário popular, por alguma razão inexplicável, os homenzinhos que pilotam os discos-voadores são sempre verdes, assim como os duendes. O azul, cor do céu sereno, ficou naturalmente ligado à paz e à tranquilidade (o azul da Comunidade Européia; os capacetes azuis da Força de Paz; a expressão “está tudo azul”). O vermelho, que era a cor dos imperadores e da nobreza, é atualmente reivindicado pelos partidos de esquerda; por evocar o fogo, é também associado ao perigo (o alerta vermelho, a bandeira vermelha das praias), ao fogo (os caminhões de bombeiros, os hidrantes, os extintores de incêndio). E por aí podemos ir, explorando a aquarela.

No caso em questão − assunto momentoso para quem não tem o que fazer −, a associação hoje vigente é azul para meninos, rosa para meninas. Por que não é ao contrário? Ninguém sabe; há estudos que tentam explicar isso antropologicamente (a maior sensibilidade da mulher para nuanças de cores chamativas, adquirida pela necessidade primitiva de distinguir, na floresta e na savana, os vegetais comestíveis), mas tudo ainda é simples especulação. E desde quando? (afinal, como vimos, os valores mudam com o tempo). Os estudos sérios apontam as primeiras décadas do séc. 19 (ao contrário do propalado − e equivocado − trabalho de Jo Paoletti, que tenta demonstrar que até 1940 o costume corrente era exatamente ao contrário, azul para as meninas e rosa para os meninos). A Wikipedia, desta vez, faz um belo trabalho ao listar registros de revistas de moda e de etiqueta a partir de 1823 (aqui: https://goo.gl/TS21mB).

Na segunda metade do séc. 20, é verdade, a exploração comercial da diferença de gêneros contribuiu para reforçar o que era uma tendência inicialmente espontânea: a distinção entre produtos “masculinos” e “femininos” nas roupas e brinquedos de criança quase duplicou o mercado: até as bicicletas, bens que tradicionalmente passavam pela família inteira, deixaram de ser intercambiáveis entre irmãos e irmãs (eu, aos oito anos, já sabia que a blusa das meninas era abotoada do lado contrário da blusa dos meninos, mas não lembro qual era o lado “certo”). Foi aí que nasceu também a taxa rosa, aquele sobrepreço que onera inexplicavelmente a maior parte dos produtos femininos (um barbeador rosa, por exemplo, custa mais do que um azul − e a única diferença entre eles é a cor). Como vemos, tudo são apenas convenções − umas duráveis, outras efêmeras. Desde 1800, o bebê costuma usar no batizado um gorrinho branco, ou, no máximo, azul, se for menino,  ou rosa, se for menina  − mas nada impede que um orgulhoso papai ninja batize sua filha com uma touquinha preta. E como disse uma amiga minha: quando eu era bebê, usava rosa; agora sou mulher e uso preto, porque emagrece. E chega de nhenhenhém.

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Ovação

 

Damos valor às narrativas que reforçam nossas “certezas” e olhamos com desconfiança qualquer versão que as contrarie. Não poderia ser diferente com as palavras.

Pois as tais fake news só vicejam porque encontram terra fertilíssima dentro de nós mesmos. Assim como as lendas urbanas nascem dos nossos temores e desejos mais profundos — e por isso parecem tão verossímeis —, assim essas “notícias falsas” (como se diria em bom vernáculo) parecem bem verdadeiras porque vêm confirmar aquilo que previamente já pensávamos ou sentíamos sobre um tema. Damos valor às narrativas que reforçam nossas “certezas” e olhamos com desconfiança qualquer versão que as contrarie. Sempre foi assim, desde a caverna, e acho que nunca vai mudar. Na versão homérica, os gregos venceram a guerra e destruíram Troia; oitocentos anos depois, Dio Crisóstomo afirmou que isso era uma deslavada mentira, e que Homero havia invertido o desfecho para agradar aos gregos e fazê-los esquecer do vergonhoso fiasco…

Não poderia ser diferente com as palavras. A etimologia pretendia, como diz o nome (do Grego etymon, “verdadeiro”) chegar ao verdadeiro significado das palavras; a realidade, no entanto, reduziu-a aos limites do possível, e ela passou a estudar a história das palavras − ou seja, as narrativas que se tecem sobre elas. Nossos primeiros dicionaristas de renome − Bluteau (1728), e depois dele Morais (1789) − definiam enfezar como “meter fezes”, “encher de fezes o que está limpo”. De onde veio isso? Do Latim? De costumes romanos? Jacaré deu algum exemplo disso? Não? Pois nem eles. Ao menos ambos tiveram a prudência de registrar, como observação lateral, que o termo pode significar também “enfadar muito, fazer encolerizar”. Os dicionários modernos preferem derivá-lo do Latim infensare, “encarniçar-se contra, ser hostil a”, hipótese mais provável que a anterior, mas sempre uma hipótese. Há pontos que ainda falta esclarecer, especialmente no significado, pois hoje enfezar significa tanto “aborrecer, irritar” (“Verias como se pôs a mana Rosa; olha que quando se enfeza é uma víbora” – Macedo) quanto “impedir o desenvolvimento; não se desenvolver; tornar-se raquítico” (“a sexta classe, a cuja frente vinha eu, o mais pirralho e enfezadinho da turma” – Alencar). Veremos qual será a próxima explicação…

O mesmo se dá com ovação. A etimologia popular, na sua comovente simplicidade, fixou-se na evidente semelhança com o radical de ovo e inventou uma história condizente: seria uma cerimônia típica da caserna, uma espécie de trote em que o vencedor era saudado com uma chuva de ovos − podres, acrescentam alguns, para aumentar a macheza da ocasião. Afinal, como disse Flaubert no seu famoso Dictionnaire, a etimologia só precisa de um pouco de Latim e de imaginação…

Os homens de letras, no entanto, contestaram com veemência essa versão ginasiana; diferentemente da espetacular cerimônia do triunfo, que tinha pompa e luxo capazes de matar Hollywood de inveja, a ovação era a comemoração de uma vitória militar de menor importância (combate a escravos ou a piratas, ou vitórias sem derramamento de sangue), ao cabo da qual era sacrificada uma ovelha − em Latim, ovis (daí o nosso ovino). Essa seria, segundo Plutarco, a verdadeira origem do nome. Alguns estudiosos, no entanto, acharam a teoria da ovelha insatisfatória, duvidaram dos conhecimentos que Plutarco teria do Latim (ele só falava e escrevia em Grego) e sugeriram que ovação vem do verbo ovare “lançar gritos de entusiasmo e de alegria”, mais ou menos como o evoé das festas dionisíacas. Achei esta melhor do que as duas outras, até porque existe, em nossa língua, o adjetivo ovante, “triunfante, vitorioso”, que Eça usa mas só fui conhecer agora: “Pus uma rosa ao peito e saí, ovante“, conta o patife do Teodorico, em A Relíquia. E é neste ponto que estamos − por enquanto.

 

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Através dos dicionários Destaque Etimologia e curiosidades Etimologia e curiosidades - Respostas rápidas

Azulejo vem de azul?

Em etimologia, nem tudo que reluz é ouro, nem tudo que balança cai: pode parecer, mas AZULEJO não vem de AZUL.

O assunto foi levantado por uma professora da rede pública estadual de Santa Catarina, do município de Lajes, cujo nome, a pedido seu, não será mencionado: “Professor, sou uma grande fã sua e tenho certeza de que vai me ajudar. Um aluno me perguntou por que, ao lado do azulejo, que obviamente vem de azul, nós não temos também verdejo, branquejo ou vermelhejo. Acho que é brincadeira, não? Que resposta posso dar a ele?”.

Cara professora, a pergunta veio sacudir a árvore da memória e despertou-me a vaga lembrança de já ter tratado deste assunto. Embora conserve hábitos um tanto fora de moda ― escrevo preferencialmente a mão, com caneta tinteiro e tinta preta ―, aderi à informática desde o tempo do Windows 3.1, fazendo do computador um companheiro que só vou abandonar quando deixar este mundo. Usando de feitiço poderoso (na verdade, o Google Desktop), vasculhei os meus arquivos e encontrei, no início de 2000 (credo! já faz tantos anos!), um e-mail de nosso Luiz Achutti, enviado de Paris, comentando uma coluna em que eu afirmava, oblíqua mas claramente, que azulejo viria de azul. Dizia ele: “Escrevo apenas para dizer-te que vi ontem na TV uma matéria  sobre o Museu dos Azulejos  em Portugal. O cara lá pelas tantas falou que a palavra azulejo não veio de azul (como está implícito no teu artigo), mas sim de uma palavra árabe, de som parecido, que teria algo a ver com revestimento. Não lembro qual era a palavra do Árabe, mas espero que mesmo assim faças bom proveito da minha dica”.

A dica foi realmente valiosa; com a pulga atrás da orelha e um dicionário na mão, acabei confirmando que não há nada que ligue azulejo a azul, embora pareçam ser gente da mesma família. Corominas (conquanto seja um dicionário etimológico do Espanhol, sempre é útil quando estudamos formas compartilhadas entre os dois idiomas) diz que azulejo vem de al-zuleig ou al-zuleij (o al é apenas o artigo), que significa, aproximadamente, “pedrinha polida”, uma referência à arte dos mosaicos romanos, que os árabes conheciam tão bem. Por outro lado, azul, a cor, é uma forma reduzida de al-lzaward, vocábulo que o Árabe foi buscar no Persa e que você conhece como o segundo elemento de lápis-lazúli (do Latim lapis, “pedra” + lzaward, “azul”).

Embora haja um marcante predomínio do azul nos ladrilhos portugueses, todas as outras cores sempre estiveram presentes. Numa descrição da China, em 1520, o viajante informa que “As casas são ladrilhadas de azulejos de muitas cores“. Em 1603, Fernão Mendes Pinto (1603) descreve “um coruchéu [campanário] de azulejos de porcelana muito fina brancos e pretos“. Já no séc. 18, contudo, o bom Bluteau se encarregava de espalhar a falsa etimologia em seu dicionário: “azulejo – “espécie de ladrilho envernizado, com figuras ou sem elas; há brancos e verdes, mas pela maior parte são azuis, e desta cor tomou esta obra o nome“. Sendo ele o grande nome que foi em nossa lexicografia, desconfio que tenha contribuído ― e muito! ― para espalhar esta lenda.

 

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verba volant

VERBA VOLANT-EDU

As palavras, caro leitor, não são como as moedas, que têm para mim o mesmo valor que têm para os outros. Eu me lembro disso cada vez que deparo com frases corriqueiras ou surradíssimos lugares-comuns empregados com um sentido completamente diferente daquele que eu jurava ser o único possível. Numa dessas manhãs, ganhei meu dia ao encontrar uma dessas surpresas na tira do Hagar, o horrível, um dos meus personagens favoritos dos quadrinhos do jornal. Como viking que é, Hagar ganha a vida sitiando castelos e enfrentando inimigos tão aguerridos como ele. Na tira em questão, o sábio Dr. Zook sentencia, solenemente: “Violência gera violência!”. Hagar pensa um pouco no que acabou de ouvir e depois, com ar satisfeito, exclama: “É justo!”. Bingo! Hagar acabava de me mostrar que a tradicional mensagem pacifista podia ter uma interpretação diametralmente oposta daquela que parecia ser a única.  

Pois nesta semana, a expressão latina que Michel Temer escreveu na carta dirigida à presidente – verba volant, scripta manent – foi medida, cheirada e explicada em praticamente todos os jornais do país. Se é relativamente fácil descobrir o seu significado − uma tradução honesta desta frase seria “A palavra falada voa, a palavra escrita permanece”, ou, como quis um autor clássico, “as falas voam, os escritos ficam” −, é importante frisar que ela pode ter duas leituras também opostas.

Eu sempre tinha lido (e empregado) essa frase como um conselho para registrar as coisas por escrito, a fim de não perdê-las em algum desvão da memória. Para mim e para milhões de outras almas deste mundo −  incluindo, certamente, Michel Temer −, essa era uma advertência contra a volatilidade da palavra falada; não me passava pela cabeça a hipótese de que outros tantos milhões vissem nela um alerta contra o uso desta técnica tão perigosamente indiscreta.

Pois se Hagar me ensinou alguma coisa, agora foi a vez de Plutarco me surpreender: ao narrar a vida de Alexandre, conta que o grande conquistador censurou Aristóteles, seu mestre e tutor, quando soube que ele tinha decidido publicar seus tratados mais importantes: “Que vantagem terei sobre o resto dos homens, se as valiosas lições que tu me deste vão ficar ao alcance de todos?”. Cáspite! Então Alexandre não se importava com a transitoriedade do que Aristóteles falava, mas sim com a permanência do que ficaria escrito! Bingo, de novo! O que eu sempre tinha considerado uma virtude da escrita era, para ele, o seu maior perigo e desvantagem!

Prisioneiro da minha própria interpretação, que parecia óbvia, nunca tinha examinado essa frase com mais atenção. Fui consultar os dicionários especializados e − para minha vergonha! − vi que para muitos o verba volant é um conselho de discrição: sejam  circunspectos nas situações em que pode ser imprudente deixar uma prova material sobre algo que foi dito; e vocês, escritores, cuidado com o que publicam, pois os livros ficarão para sempre como testemunhas do seu talento −  ou da falta dele.

[Ilustração de Edu – ZH 19/12/2015]

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Concordância Destaque Emprego das letras Etimologia e curiosidades - Respostas rápidas Lições de gramática Sintaxe das classes gramaticais

os seis melhor colocados

Professor, eu só leio a parte esportiva do jornal e não sou a pessoa mais indicada para achar erro nos outros. Confesso, porém, que fiquei cabreiro quando um grande  jornal de São Paulo noticiou que ia haver um torneio entre os “seis melhores colocados“. Isso não está errado? A gente não devia falar nos “seis mais bem colocados“?

Dejair F. L.  — Sorocaba (SP)

Meu caro Dejair, tua intuição está muito mais afiada que a do jornalista que escreveu essa pérola. Embora seja uma construção inadmissível na língua culta, todo dia aparece na imprensa algo como esse “Seis *melhores colocados” (lembro que o asterisco  assinala formas agramaticais). A dupla natureza do vocábulo melhor, no entanto, constitui uma atenuante para este equívoco; como a forma melhor corresponde ora a “mais bom”, ora a “mais bem”, cria-se aqui um daquelas encruzilhadas em que tanta gente boa acaba se perdendo. Vou mostrar.

Primeiro, com o sentido de “mais bom”,  melhor é ADJETIVO, com plural e tudo (melhores):

Este filme é [mais bom] que o anterior = Este filme é melhor que o anterior.
Os italianos são bons, mas os brasileiros são [mais bons] = os brasileiros são melhores.

Em segundo lugar, com o sentido de “mais bem”, melhor é ADVÉRBIO (e, como tal, invariável):

Jonas joga bem, mas o irmão joga ainda [mais bem] = o irmão joga ainda melhor.
Na casa nova, eles estão ainda [mais bem] do que estavam= melhor do que estavam

É muito raro um erro de concordância nominal nesses casos. Dificilmente alguém deixaria o adjetivo no singular em “Os italianos são bons, mas os brasileiros são *melhor“, ou tentaria flexionar o advérbio em “Na casa nova, eles estão ainda *melhores do que estavam”. No entanto, é na situação que já descrevi em mais bem e melhorantes de um particípio — que o perigo nos espreita. Como devemos preencher a lacuna nas frases abaixo? Com melhor ou com melhores?

Ele escolheu as dez cadeiras   …….  pintadas.

Agora só vão jogar os quatro  …….. colocados.

Que tipo de vocábulo vai entrar nessa estrutura? Será o  ADJETIVO melhor [mais bom], que é variável, ou o ADVÉRBIO melhor [mais bem], que é invariável ? A resposta é simples: o ADVÉRBIO.

Ele escolheu as dez cadeiras mais bem pintadas = as dez cadeiras melhor pintadas.
Agora só vão jogar os quatro  mais bem colocados = os quatro melhor colocados.

Não há hipótese de imaginarmos, aqui, a presença do ADJETIVO:

Ele levou as dez cadeiras *mais boas pintadas = as dez cadeiras *melhores pintadas.
Agora só jogam os quatro  *mais bons colocados = os quatro *melhores colocados.

Na imprensa, estes erros pulam como camarão em terra seca. Um bom jornalista, contudo, deveria ser capaz de perceber que são duas estruturas diferentes:

(1) Agora só vão jogar os quatro mais bem classificados.
(2) Agora só vão jogar os quatro melhor classificados.
(3) Agora só vão jogar os quatro melhores times.
(4) *Agora só jogam os quatro melhores classificados.

As frases (1) e (2) são sinônimas; ambas estão corretas, mas eu só uso a primeira, pois a segunda soa muito mal para meu gosto (o que explica, aliás, por que nosso idioma aceita naturalmente a forma analítica “mais bem” antes dos particípios). A frase (3) está correta, pois agora não se trata do ADVÉRBIO, mas sim do ADJETIVO melhor (“os quatro times mais bons“). A frase (4) não tem defesa, pois a estrutura de nossa língua não comporta aquele ADJETIVO (“melhores”) ligado a um particípio.