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Bajeense

Embora ainda haja polêmicas sobre a forma correta de grafar o nome de certas cidades, o nome de seus habitantes sempre seguirá a norma ortográfica em vigor.

 

Turenne, o grande marechal de Luís XIV, apesar de ser veterano de muitas guerras (ou talvez até por causa disso…), nunca deixou de sentir medo na hora do combate. De longe, seus homens ouviam-no gritar para si mesmo, com as rédeas numa mão e a espada desembainhada na outra, prestes a se precipitar no ponto mais aceso da batalha: “Tu tremes, carcaça? Pois vais tremer ainda mais quando souberes para onde estou te levando!”.

A coluna de hoje trata do vocábulo bajeense, cuja grafia ainda é discutida por aqui; a menção a Turenne não é gratuita, porque ele próprio, tenho certeza, hesitaria antes de se meter numa polêmica como essa, que já leva os seus oitenta anos e sempre termina com os defensores de *bageense fingindo que não existe a regra que os contraria.

Ninguém, muito menos eu, vai conseguir terminar com essa discussão usando apenas argumentos técnicos e racionais; aqui, como todo o mundo sabe, intervêm emoções e sentimentos inflamados que reduzem a Dona Gramática a uma tênue luz de lamparina. Entro na disputa, porém, para responder a R. Vilarinho,  leitor que confessa estar cansado de ouvir os dois lados trocarem mais insultos do que argumentos. Diz ele: “Opinião todo o mundo tem, principalmente agora, em tempos de Facebook. Eu uso bajeense porque vi que o senhor também usa, mas  não sei explicar quando me perguntam”.

Pois vamos lá. Em primeiro lugar, lembro que as regras do Acordo de 1943, que é a base de nossa ortografia (as reformas posteriores apenas retocaram o edifício), fruto do esforço getulista em modernizar a sociedade brasileira, também se aplicam aos topônimos. Com a sua aplicação, centenas de nomes geográficos foram adequados ao novo sistema. Triumpho virou Triunfo, Paraty virou Parati, Manáos virou Manaus, e assim por diante − nenhum escândalo aqui, especialmente para um país como o Brasil, que teve seu nome oficialmente escrito com Z por todo o período imperial.

O princípio é simples: os nomes geográficos, por sua própria natureza pública, precisam se adequar à norma ortográfica que estiver em vigência. A partir de 1943, por exemplo, passamos a escrever Pôrto Alegre, com o circunflexo diferencial; quando este acento caiu na década de 70, voltamos a escrever Porto, sem acento. Por sua vez, Joia, no Rio Grande do Sul, tinha acento até entrar em vigor o atual Acordo, quando então foi suprimido o acento dos ditongos abertos nos vocábulos paroxítonos. Fica claro, portanto, que o registro de fundação de um município, diferentemente do registro das pessoas físicas, não dá aos munícipes o direito de manter para sempre a grafia original. Se, no futuro, nova reforma vier a ocorrer, esses nomes sofrerão todas as modificações necessárias para se adequar à nova lei.

É natural que as gerações contemporâneas às mudanças sofram um verdadeiro choque estético diante do que lhes parece uma mutilação. O próprio texto de 1943, prevendo isso, inseriu um paragrafozinho maroto no final do texto da lei admitindo que “topônimos de tradição secular”, como Bahia, poderiam ficar fora deste regimento. Ora, esta exceção alimenta, até hoje, a discussão sobre a grafia de certos municípios − especialmente os de origem indígena, como Erexim, Bajé ou Moji, que defendem o direito de manter sua grafia “secular” preservada (Erechim, Bagé, Mogi) − livres, portanto, da padronização que sofreram os milhares de palavras que herdamos das línguas indígenas e africanas (sempre X no lugar de CH, sempre J no lugar de G e sempre Ç no lugar de SS), como em açaí, acarajé, caxinguelê, xaxim, jibóia e miçanga.

Sou obrigado a reconhecer, diante do precedente de Bahia, que estes municípios têm todo o direito de espernear. Não é disso, porém, que estamos tratando aqui, e sim dos vocábulos derivados dos topônimos, especialmente da classe dos adjetivos gentílicos. Estes seguem, na sua formação e na sua grafia, os mecanismos gerais do idioma; são palavras comuns, civis, que vão ser tratadas como todas as suas iguais. Bahia é um vocábulo de exceção, mas — como define expressamente o Acordo — os seus derivados não têm o mesmo privilégio e não podem ostentar aquele H aristocrático: baiano, baianidade, coco-da-baía, laranja-baía.

Este é exatamente o caso de Bajé; os partidários do G alegam que um tal de “Conselho Federal de Cultura”, durante o governo do general Médici, aprovou o enquadramento do município nesta fluida categoria de “topônimo secular”, que pode assim manter o Bagé original; seus oponentes, contudo, não reconhecem a competência dessa entidade para legislar sobre ortografia e ressaltam que a tal “tradição secular” é metafórica, não se limitando especificamente a um século. A questão persistirá por tempo indeterminado − mas, escreva-se Bajé ou Bagé, Moji ou Mogi, Erexim ou Erechim, os adjetivos que daí derivam, pela regra clara e cristalina, serão bajeense, mojiano e erexinense − sem choro nem vela.

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Como se escreve Destaque Emprego das letras Outros sinais

A cedilha de David Coimbra

EDU - CEDILHA

Quando você escreve, leitor, você é um AFLITO ou um DESPREOCUPADO? Estes usam o idioma com a feliz inocência de quem caminha sem olhar onde pisa; aqueles estão atentos a cada letra, a cada palavra que escrevem.

Diga lá, leitor, sem rodeios: quando tem de escrever alguma coisa, você se alinha entre os despreocupados ou entre os aflitos? A classificação pode parecer irônica, mas nem por isso é menos exata. Enquanto os primeiros usam o idioma com a feliz inocência de quem caminha sem olhar por onde pisa, os outros ― entre os quais me incluo ―  estão atentos a cada passo que precisam dar. Preocupação inútil, frescura acadêmica? Os aflitos acham que não; é muito mais uma questão de capricho pessoal, tão importante para nós quanto lavar o rosto, pentear o cabelo e escovar os dentes.

Digo isso porque o David Coimbra, um amigo tão aflito quanto eu, na sua coluna desta terça, aqui na ZH, depois de expor suas íntimas incertezas sobre a grafia da palavra xucro e sobre a origem da enigmática cedilha, faz uma eloquente confissão: “Escrevo todos os dias, quase que o dia inteiro; quando não escrevo, leio. E, ainda assim, as dúvidas me angustiam. Como queria ser igual ao Professor Moreno…”.  Por que dizes isso, David? Julgas que assim terminariam tuas dúvidas? Ledo engano, meu caro. Elas me aparecem no café, no almoço e no jantar, e, sem exagero, até no sono já vieram me assombrar; a sorte é que aprendi com mestre Luft a estabelecer com elas uma convivência não só pacífica, como também divertida e enriquecedora. Algumas vão me acompanhar a vida toda, insolúveis, e mesmo as que parecem resolvidas podem voltar a  produzir chama alta se algum vento novo soprar sobre a sua brasa.

O adjetivo xucro (ou chucro) é uma dessas dúvidas que ficarão sem resposta. Como dizes no teu artigo, este vocábulo vem do Quíchua ― língua principal do Império Inca, assim como também vieram lhama, mate, condor, coca (da cocaína), cancha e tambo. Os que a escrevem com X aplicam-lhe o princípio que rege a grafia de todos os vocábulos oriundos de línguas que não tinham escrita (xaxim, orixá, xiru, etc.). Ocorre, no entanto, que essa palavra, ao chegar aqui, já tinha passado pelo Espanhol platino, onde foi transliterada com CH (chúcaro), exatamente como ocorreu com charque. E aí? Escolhe. Segue o rumo do teu próprio coração ― e tranqüilo, porque os bons dicionários (e a Academia Brasileira de Letras) registram ambas as  variantes.

Quanto à cedilha, ela é um sinal extra que o Português, o Francês e o Catalão colocam embaixo do C para formar o cê-cedilha ou cedilhado (se te serve de consolo, no Romeno e no Turco ela é usada sob outras letras, além do C!). Aquele “rabinho”, como chamam as crianças, é na verdade um Z minúsculo; o nome vem de cedilla, que no Espanhol antigo significava “pequeno Z“. Na nossa ortografia, o cê-cedilha é usado para representar o som de /s/ entre duas vogais, papel que disputa, com larguíssima vantagem, com o S duplo; sem ele, seria difícil manter a uniformidade de grafia de algumas famílias de palavras, como doce e adoçar, ou laço, enlace e enlaçar, pois nos permite atribuir à letra C dois sons diferentes.

Depois do Acordo: tranqüilo > tranquilo

Ilustração de Edu Oliveira – jornal Zero Hora]

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Destaque Emprego das letras Etimologia e curiosidades Grafia de estrangeirismos Origem das palavras

Argélia ou Algéria?

Um leitor pergunta por que nós escrevemos “Argélia”, quando o mundo todo parece preferir “Algéria”. A explicação é histórica: quando o mundo optou pelas formas francesas, “Alger” e “Algérie”, nosso léxico já usava “Argel” e “Argélia” há muito tempo.

No mês da Copa, nada mais natural que este desfile feérico de times e torcedores estrangeiros acabasse despertando dúvidas nos leitores desta coluna. A primeira questão foi uma provocação bem-humorada que nosso amigo Leo Iolovitch publicou em sua página no Facebook (para quem ainda não se deu conta, o Face não serve apenas para postar fotos de pratos de comida ou de gatinhos se espreguiçando): “Em todo o mundo se escreve Algéria, nós escrevemos Argélia. Acho que é coisa do Hortelino Trocaletra. Consulto os universitários e os professores universitários”.

O que houve? Nada de mais. Essas variantes na forma dos topônimos podem parecer estranhas ao nosso olhar, acostumado ao mundo globalizado do noticiário da TV, mas são extremamente comuns quando se trata de lugares descobertos ou visitados há centenas de anos. Nossos antepassados interpretaram à sua moda os nomes estranhos que ouviram ― friso: apenas ouviram, porque a escrita, geralmente em alfabetos exóticos, não entrava aqui em cogitação ― e assim fixaram-se certos nomes que destoam dos que são utilizados por outros países. Said Ali, em seu brilhante ensaio Nomes Próprios Geográficos, não fala da Argélia, mas menciona centenas (literalmente) de exemplos de nomes vindos do Alemão, do Francês, do Espanhol e de várias línguas asiáticas que apresentam discrepâncias semelhantes.

No caso do Português (e, em amplitude menor, no Espanhol), devemos também levar em conta que nossos navegadores, por chegarem primeiro a diferentes partes do globo, introduziram no idioma formas que ainda não existiam em nenhuma outra língua. Quando o mundo optou pelas formas francesas, Alger e Algérie (muito mais fiéis, façamos justiça, ao nome árabe), nosso léxico já usava Argel e Argélia há muito tempo. Não haveria razão alguma para mudarmos ― até mesmo porque seria um trabalho insano tentar uniformizar a maneira como as diferentes línguas adaptam esses nomes. Só no norte da África, a Argélia, a Tunísia e o Marrocos já encabeçam uma lista infindável: no Espanhol,Argelia, Túnez e Marruecos; no Inglês, Algeria, Tunisia e Morocco; no Francês, Algérie, Tunisie e Maroc

João de Barros, em suas Décadas da Ásia (1552), já menciona Argel e Tunes. No século seguinte, Francisco Manuel de Melo, Rodrigues Lobo e o incomparável Padre Vieira só usam Argel. Rafael Bluteau, no seu famoso dicionário (que é do início do séc. 18), deixa bem claro que esta diferença era consabida e consagrada por estas bandas ao registrar: “Alger – cidade de África. Vide Argel“.

No romance As Meninas, Lígia Fagundes Telles se inspira nessa troca de letras para produzir um feliz anagrama: ao ficar sabendo que o namorado, preso político, está incluído no grupo que vai ser libertado e enviado para a Argélia, uma das protagonistas devaneia: “Com a ponta do dedo, ao invés de Argélia, escreveu Algéria, pensando em Alger. No vidro esbranquiçado pelo hálito, se transferisse o “e” para junto do “l”, Algéria ficaria sendo alegria“.

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Como se escreve Destaque Emprego das letras Questões do momento

tuitar

Antes que o estimado leitor desista de ler esta coluna, apresso-me em esclarecer que, apesar do título [alguns moderninhos escreveriam “de o título”, mas eu, para honrar os bons professores que tive, não posso cair nessa armadilha; a explicação está aqui] — apesar do título, repito, referir-se a um fenômeno da internet, pretendo tratar exclusivamente de assuntos de nosso idioma — aliás, como vem acontecendo aqui nesta coluna, sábado sim, sábado não, há quase oito anos. Marta de tal, revisora de texto (“mas de primeira viagem”, acrescenta ela, simpaticamente), quer saber como ficaria em Português o verbo relativo ao Twitter, atualmente uma das formas mais populares de relacionamento na internet. “Minha colega, também revisora, aportuguesou para tuitar, mas eu defendo twittar, respeitando a origem da palavra. Qual das duas o senhor prefere?”.

Nossa revisora — que, ao contrário de muitos de seus colegas, tem a rara virtude de confessar que está em dúvida sobre alguma coisa — acrescenta, na sua mensagem, que um professor de Pernambuco defende a mesma forma que ela, alegando que, sendo Twitter um nome estrangeiro, teríamos de aplicar aqui a “regra da nova ortografia que manda escrever com K, W e Y as palavras derivadas de um nome próprio estrangeiro escrito com essas letras”, como darwinismo (de Darwin) ou kardecista (de Kardec). Pois eu, prezada Marta, vou discordar de ti e do insigne professor, baseado em alguns princípios fundamentais que regulam o processo de aportuguesamento de um vocábulo estrangeiro.

Para os que não pertencem à tribo dos cibernautas, explico que o Twitter é uma rede social que nos permite enviar e receber mensagens curtas (apenas 140 toques — o que corresponde ao texto que escrevi do início deste parágrafo até o parêntese de abrir). Como essas curtíssimas mensagens podem ser comparadas a um breve pio, seus idealizadores batizaram a rede de Twitter, verbo do Inglês que, segundo o Oxford English Dictionary, é uma onomatopéia para designar exatamente a voz dos passarinhos. Pois aí já começa a inana: nos países de língua inglesa existe, para este verbo, a variante to tweet. Se simplesmente importássemos (meio à moda galega…) um desses verbos do Inglês, teríamos aqui uma escolha ingrata entre tweetar e twittar (não sei qual dos dois é mais horrendo). No entanto, se fizermos com eles — nota que não importa qual deles — a nacionalização que nossa língua costuma fazer com todos os vocábulos importados, ele vai ingressar aqui necessariamente como tuitar, significando “postar uma mensagem no tuíter“. Esta é a forma que recomendo, assim como recomendo tuíter também para o aportuguesamento do substantivo tweeter, nome dado ao alto-falante para sons agudos, vocábulo corriqueiro para quem trabalha no campo da sonorização de carros e de ambientes.

Outra coisa: aquele professor se refere a uma regra “da nova ortografia” que manda grafar com W os vocábulos derivados de nomes próprios estrangeiros. Para começar, essa regra é velha como a serpente. Sempre foi assim, desde o Acordo de 1943. O Novo Acordo, na sua desonestidade implícita, anunciou como novidade o que já era velho; sempre se escreveu shakespeariano, kleiniano, wagneriano, etc., seguindo o princípio absolutamente sensato de preservar a forma original dos grandes nomes das ciências e das artes que servem para batizar movimentos, teorias, correntes filosóficas e artísticas, incluindo aí vários epônimos médicos e técnicos que derivam do nome de seus inventores e pesquisadores. Se aportuguesássemos keynesiano para queinesiano — como costumamos fazer com os vocábulos comuns — seria muito difícil reconhecer, neste mostrengo, o nome de Lord Keynes, um dos mais importantes teóricos da história da Economia.

Não me parece, no entanto, que o twitter tenha esse perfil. Ele é apenas uma marca registrada estrangeira que, por sua popularidade, acabou se tornando um vocábulo comum em dezenas de idiomas (e por isso, a meu ver, já merece minúscula). Fenômeno similar ocorreu com Jeep, Teletype, Yo-yo ou Bakelite — que figuram alegremente em nossos dicionários como jipe, ioiô, teletipo e baquelite. Até mesmo nome de gente, quando não se enquadrar entre os nomes da ciência e do mundo da cultura a que nos referimos no parágrafo anterior, passa pelas devidas adaptações ortográficas ao ingressar em nosso léxico: por exemplo, de Lynch extraímos linchar, linchamento, etc.; de Boycott, boicote e boicotar. E assim por diante. Por tudo isso, acho que deverias ficar com tuitar, conjugando-o como um bom e pacato verbo regular: eu tuíto, tu tuítas, ele tuíta — ou, quem sabe, ele não tuíta, não tem vontade de tuitar e tem raiva de quem anda tuitando. A propósito: quanto a mim, eu tuíto, sim, com o codinome de @moreno_ — o que se lê, em bom vernáculo, “moreno anderlaine”.

Depois do Acordo: onomatopéia > onomatopeia

[da coluna O PRAZER DAS PALAVRAS – CADERNO DE CULTURA – ZH – 24/4/2010]

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Destaque Emprego das letras Flexão nominal Lições de gramática

homem não é o masculino de mulher

Com a devida vénia, mas o professor confundiu-me… ou os outros… Sou português de 51 anos a viver em S. Paulo há apenas 4 anos. Aprendi na Escola Primária (portuguesa) que o masculino de abelha era zângão e eis que me deparo com esta sua resposta: “Tomemos a abelha como exemplo: o macho da espécie é raro e tem outra palavra para designá-lo, o zangão. Do ponto de vista gramatical, porém, abelha NÃO tem masculino (só do ponto de vista biológico)” (Masculino de formiga).Também o site português Priberam, que para além de nos oferecer a consulta gratuita do Dicionário de Língua Portuguesa nos dá umas dicas gramaticais, diz que zângão é o masculino (de radical diferente) de abelha. E agora? Em quem devo acreditar? Se me permite, e após confirmação no “conceituado” Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, zangão é bem diferente de zângão

António N. –  São Paulo

Meu caro António: primeiro, vamos ao Ciberdúvidas. Como em Portugal a forma preferida é zângão (para o inseto), zangão (o que anda zangado) parece ser um vocábulo diferente. Como aqui no Brasil usamos zangão para ambos, consideramos os dois a mesma palavra. O dicionário Houaiss, atualmente o que temos de melhor em lexicografia do Português (deste e do outro lado do Atlântico), traz um extenso verbete para zangão, com todos esses significados incluídos, e registra, no final, a possibilidade de se usar a “variante” zângão. Trata-se, portanto, de uma questão de ponto de vista: quem olha daqui, vê uma só palavra com vários significados; quem olha de lá, vê duas palavras diferentes. Escolhe o lado que melhor te aprouver.

Quanto à questão de zangão ser o feminino de abelha, esse é um equívoco clássico da gramática tradicional, e que pode ser tolerado em autores que tenham escrito suas obras antes de 1965. Depois dessa data, com a divulgação da teoria estruturalista (hoje, já ultrapassada por dezenas de teorias mais modernas) – e, no caso do Português, com as análises fundamentais feitas por Joaquim Mattoso Câmara Jr., não se admite que um estudioso confunda “sexo biológico” com “gênero gramatical”. Que o zangão é macho biológico da abelha, qualquer garoto que tenha passado algumas manhãs no jardim deve saber muito bem; isso é sexo. No entanto, do ponto de vista do gênero gramatical, abelha não tem masculino, nem zangão tem feminino. O gênero, numa língua como a nossa, é marcado pela desinência (ou sufixo flexional) que fica à direita do radical. Menino, menina; lobo, loba; rato, rata; mestre, mestra; cantor, cantora – aqui temos pares masculino/feminino marcados gramaticalmente pela presença da vogal “A” para o feminino. Agora, em homem, mulher; bode, cabra; boi, vaca; abelha, zangão, temos pares macho/fêmea biológicos, mas não temos gênero gramatical marcado por desinência. Foi por isso que fiz aquela afirmativa que estranhaste: “Do ponto de vista gramatical, porém, abelha NÃO tem masculino (só do ponto de vista biológico)”.

Em suma: para distinguir o macho da fêmea dos seres sexuados, nosso idioma se vale de vários mecanismos diferentes:

(1) usa a flexão de gênero (masculino/feminino) marcada pela desinência: pato e pata; leitor e leitora.

(2) recorre a algum sufixo derivacional especializado: imperador e imperatriz, conde e condessa;

(3) recorre a palavras diferentes, uma para o macho, outra para a fêmea: boi e vaca, dama e cavalheiro;

(4) recorre ao acréscimo de “macho” ou “fêmea” ao vocábulo invariável: cobra macho, cobra fêmea.

A abelha se enquadra, como vês, na hipótese (3), em que fica bem marcada a diferença biológica, mas não se pode falar em diferença de gênero gramatical. Agora, não te apoquentes com isso. Como tu, eu também, no meu tempo de escola, aprendi que homem era o masculino de mulher, e assim por diante – mas eu usava a gramática do Rocha Lima, na edição de 1958, e os meus professores haviam estudado por autores mais tradicionais ainda. Hoje, em pleno séc. XXI, no entanto, só continua a ensinar assim quem não passou, no Curso de Letras, por uma cadeira de Morfologia que mereça o nome que tem. Aliás, aqui vai um segredo profissional: quando sou chamado a avaliar livros didáticos para adoção no colégio que coordeno, esse é um dos itens que eu sempre verifico. A forma como o autor expõe essa parte do conteúdo (entre outros) é, para mim, um valioso indicador do tipo de formação que ele teve. Abraço. Prof. Moreno

 

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Concordância Destaque Emprego das letras Etimologia e curiosidades - Respostas rápidas Lições de gramática Sintaxe das classes gramaticais

os seis melhor colocados

Professor, eu só leio a parte esportiva do jornal e não sou a pessoa mais indicada para achar erro nos outros. Confesso, porém, que fiquei cabreiro quando um grande  jornal de São Paulo noticiou que ia haver um torneio entre os “seis melhores colocados“. Isso não está errado? A gente não devia falar nos “seis mais bem colocados“?

Dejair F. L.  — Sorocaba (SP)

Meu caro Dejair, tua intuição está muito mais afiada que a do jornalista que escreveu essa pérola. Embora seja uma construção inadmissível na língua culta, todo dia aparece na imprensa algo como esse “Seis *melhores colocados” (lembro que o asterisco  assinala formas agramaticais). A dupla natureza do vocábulo melhor, no entanto, constitui uma atenuante para este equívoco; como a forma melhor corresponde ora a “mais bom”, ora a “mais bem”, cria-se aqui um daquelas encruzilhadas em que tanta gente boa acaba se perdendo. Vou mostrar.

Primeiro, com o sentido de “mais bom”,  melhor é ADJETIVO, com plural e tudo (melhores):

Este filme é [mais bom] que o anterior = Este filme é melhor que o anterior.
Os italianos são bons, mas os brasileiros são [mais bons] = os brasileiros são melhores.

Em segundo lugar, com o sentido de “mais bem”, melhor é ADVÉRBIO (e, como tal, invariável):

Jonas joga bem, mas o irmão joga ainda [mais bem] = o irmão joga ainda melhor.
Na casa nova, eles estão ainda [mais bem] do que estavam= melhor do que estavam

É muito raro um erro de concordância nominal nesses casos. Dificilmente alguém deixaria o adjetivo no singular em “Os italianos são bons, mas os brasileiros são *melhor“, ou tentaria flexionar o advérbio em “Na casa nova, eles estão ainda *melhores do que estavam”. No entanto, é na situação que já descrevi em mais bem e melhorantes de um particípio — que o perigo nos espreita. Como devemos preencher a lacuna nas frases abaixo? Com melhor ou com melhores?

Ele escolheu as dez cadeiras   …….  pintadas.

Agora só vão jogar os quatro  …….. colocados.

Que tipo de vocábulo vai entrar nessa estrutura? Será o  ADJETIVO melhor [mais bom], que é variável, ou o ADVÉRBIO melhor [mais bem], que é invariável ? A resposta é simples: o ADVÉRBIO.

Ele escolheu as dez cadeiras mais bem pintadas = as dez cadeiras melhor pintadas.
Agora só vão jogar os quatro  mais bem colocados = os quatro melhor colocados.

Não há hipótese de imaginarmos, aqui, a presença do ADJETIVO:

Ele levou as dez cadeiras *mais boas pintadas = as dez cadeiras *melhores pintadas.
Agora só jogam os quatro  *mais bons colocados = os quatro *melhores colocados.

Na imprensa, estes erros pulam como camarão em terra seca. Um bom jornalista, contudo, deveria ser capaz de perceber que são duas estruturas diferentes:

(1) Agora só vão jogar os quatro mais bem classificados.
(2) Agora só vão jogar os quatro melhor classificados.
(3) Agora só vão jogar os quatro melhores times.
(4) *Agora só jogam os quatro melhores classificados.

As frases (1) e (2) são sinônimas; ambas estão corretas, mas eu só uso a primeira, pois a segunda soa muito mal para meu gosto (o que explica, aliás, por que nosso idioma aceita naturalmente a forma analítica “mais bem” antes dos particípios). A frase (3) está correta, pois agora não se trata do ADVÉRBIO, mas sim do ADJETIVO melhor (“os quatro times mais bons“). A frase (4) não tem defesa, pois a estrutura de nossa língua não comporta aquele ADJETIVO (“melhores”) ligado a um particípio.

 

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translineação com dígrafos

Caro mestre Moreno: minha pergunta é pontual e fácil de ser respondida, mas como a dúvida surgiu no ambiente de trabalho e as opiniões estão muito divididas, gostaria que me esclarecesse de uma vez por todas. Na partição da palavra CLASSIFICADO, no final da linha, eu posso dividi-la assim:  CLASSI-FICADO?

Para mim, não há problema algum: as duas primeiras sílabas ficam numa linha e as demais na linha seguinte. Vários colegas de trabalho, porém, me disseram que eu estava “assassinando” a língua portuguesa, já que eu deveria ou separar no dígrafo SS (CLAS-SIFICADO), ou deixar as duas últimas sílabas na linha seguinte (CLASSIFI-CADO). Argumentei de todas as formas, desenhei a divisão silábica e demonstrei que a mesma não estava sendo desrespeitada, mas nada os convenceu. Então, caro mestre, quem está com a razão??

Lislaine  – Ribeirão Preto (SP)

Prezada Lislaine, confesso que não entendi o ponto de vista de teus colegas. Parece que eles ouviram o galo cantar mas não sabem muito bem onde… O que não se pode fazer, em Português, é deixar o dígrafo SS na sílaba inicial da linha seguinte, como faz o Espanhol; nós temos de separar um S do outro (não há nenhum razão lógica para isso, mas é assim que ficou estabelecido). Portanto, dependendo do ponto da palavra em que recair o final da linha, poderíamos ter CLAS/SIFICADO, CLASSI/FICADO, CLASSIFI/CADO ou CLASSIFICA/DO – nota que não estou separando todas as sílabas, mas apenas indicando, com o sinal “/”, o final de uma linha e o início da outra. O que estaria completamente errado seria *CLA/SSIFICADO.

O mesmo ocorre com os demais dígrafos separáveis, como o SC e o RR. Se a palavra RENASCIMENTO ficar no final da linha e tiver de ser dividida, dependendo do espaço de que dispusermos nós vamos ter RE/NASCIMENTO, RENAS/CIMENTO, RENASCI/MENTO ou RENASCIMEN/TO.

Agora, vamos convir que tudo isso começa a ser cultura inútil, já que as máquinas de escrever, que alinhavam os espaços por colunas rígidas, na vertical, já podem ser consideradas verdadeiras relíquias; os processadores de texto, com a possibilidade de justificar as linhas, torna raríssima a necessidade de separar as sílabas na margem da direita. Abraço. Prof. Moreno

Na volta do correio:

Prezado Mestre Moreno: obrigada pela rapidez e clareza na resposta; acho que com o seu texto, mais alguns recortes da Folha de São Paulo e do Estadão exemplificando a partição de vários dígrafos, eu consegui convencer os colegas, mas confesso: não foi nada fácil, muitos são teimosos…

Queria apenas lhe dizer que não concordo que tudo isso seja cultura inútil. Acho uma pena as pessoas pararem de escrever à mão; eu sempre faço um rascunho com papel e caneta antes de digitar no computador, justamente para não perder o hábito e começar a esquecer as regras de acentuação e ortografia. Na época em que me preparava para o vestibular ,fiz bons cursos de redação, e hoje sinto um grande dó ao ver crianças e adolescentes escreverem tão mal e terem tanta dificuldade na interpretação de textos. Sem contar que somos pais e mães e iremos ajudar os professores dos nossos filhos desde a alfabetização até a preparação para o temido vestibular, onde a redação ainda tem, e espero que continue a ter, um grande peso na nota. É isso! Mais uma vez obrigada!

Lislaine


Concordo com quase tudo, Lislaine, mas reafirmo que a translineação está se tornando uma cultura para lá de inútil. Trabalho com centenas de adolescentes que se preparam para o vestibular, e podes ter certeza de que nenhum deles vai separar qualquer vocábulo no final da linha se puder evitar. Essa obsessão é característica do Brasil do tempo da datilografia, por uma deformação em nossa cultura: enquanto os falantes do Inglês e de outros idiomas nunca se preocuparam em manter a margem da direita uniforme (basta ver que o Word vem, de fábrica, configurado para alinhar à esquerda), em nosso pobre e inculto país essa mesma margem tornou-se obrigatória e indicadora do grau de habilidade que tinha o datilógrafo. Na nossa mente tupiniquim, o texto datilografado tinha de ser uma imitação do texto impresso, composto em linotipo (máquina que, essa sim, tinha justificação).

Eu sei muito bem o trabalho que dava porque era funcionário de um banco e tinha de escrever num papelzinho à parte a palavra que ia encerrar a linha, a fim de contar os espaços necessários para obter um alinhamento homogêneo; quando vieram as máquinas elétricas de esfera, eu aprendi a empurrar a esfera manualmente para mudar o espaçamento entre os caracteres, obtendo assim uma margem direita perfeita! Tudo isso poderia ter sido evitado se nos tivéssemos  acostumado com o alinhamento à esquerda; como tal não aconteceu, tivemos de esperar anos para que, finalmente, os processadores de texto acabassem com o problema, justificando cada linha automaticamente. Estudar separação de sílabas? É fundamental, porque dela dependem vários princípios de nossa ortografia, entre eles o da acentuação. Estudar a separação de sílabas na translineação? Cultura inútil, como eu disse. O novo Acordo, na sua incomparável vocação para o supérfluo, incluiu uma regra que determina a repetição do hífen de separação quando coincidir com o hífen dos vocábulos compostos ou dos pronomes enclíticos – como diz Umberto Eco, um  belo exemplo da tetrapilectomia, a inútil arte de dividir, em quatro partes, um fio de cabelo ao comprido. Abraço. Prof. Moreno

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portfolio, portfólio ou portifólio?

Paulo Ricardo, de Porto Alegre, andou pesquisando nos dicionários a grafia de portfolio e continuou com dúvida, porque encontrou também a forma acentuada  portfólio.

Meu caro Paulo Ricardo: a forma correta é portfolio — em itálico e sem acento, porque ainda é vocábulo do Inglês (assim registra o mais novo e melhor dicionário que temos em nosso idioma, o Houaiss). Se vier a ser aportuguesada (o que acredito que vai acontecer em breve, tamanho é o uso que se faz desse vocábulo na publicidade e nas artes gráficas), vai dar algo como portifólio, forma que, aliás, eu já uso há alguns anos. Nota que, nesse caso, a palavra passa a ter acento e um “i” para desmanchar aquele encontro consonantal [r+t+f], inexistente nos nossos padrões fonológicos. Aurélio-vivo, o da 2ª edição, registra porta-fólio, que tem lá sua lógica, mas é muito estranha. A forma portfólio — mais uma daquelas cruzas de jacaré com cobra-d’água, pois mantém a estrutura do Inglês, mas com o acento de nosso sistema ortográfico — veio registrada no confuso Aurélio-XXI, que introduziu várias novidades discutíveis depois que faleceu o mestre Aurélio Buarque de Holanda. Abraço. Prof. Moreno

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Como se escreve Emprego das letras

Luísa

Sara A., corujíssima avó de São José dos Campos (SP), tem uma questão sobre a grafia correta do nome da netinha que vai nascer em breve: “Uns apostam que é Luisa, outros Luísa; outros mais, Luiza e Luíza. As alegações vão desde o “assim é mais bonito” e “o da bisavó era assim, com z e acentuado”, até “mas tratando-se de nome próprio, pode”. Por favor, resolva essa pendenga, antes que a fofíssima nasça”. 

Minha prezada Sara, Luísa é o nome da minha filha mais moça (quatro aninhos). O nome é histórico, usado por reis da França, e sua grafia correta, pela regra, é Luís, diminutivo Luisinho, feminino Luísa — com S e com acento. Se quiseres escrever com Z, ou sem acento, ou com H no fim, ou com tudo isso junto, tens o direito, porque, no Brasil, ninguém contesta grafias alternativas para um nome próprio, na hora de registrar. Em países desenvolvidos, não é assim; no cartório há uma lista imensa de nomes masculinos e nomes femininos, e os pais escolhem a partir dali. Tens o direito, repito, mas vais legar à tua netinha um nome com imperfeições gráficas. Achas que vale a pena? Abraço. Prof. Moreno

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regras para formar novas siglas

Beatriz Campetti gostaria de saber se existem regras para a formação de uma sigla e se existe um limite para o número de caracteres.

Prezada Beatriz: não existem regras. As siglas são formadas à vontade do usuário, mas a maioria delas fica restrita ao ambiente em que são utilizadas (eu trabalhei no Banco do Brasil na década de 60, por exemplo, e vivíamos mergulhados em siglas que, tenho certeza, cinco anos depois não faziam o menor sentido). Podes usar apenas a letra inicial das palavras representadas (CD-ROM, “compact disk reading only memory“; TPM, “tensão pré-menstrual”) ou a(s) primeira(s) sílaba(s) de cada palavra (SEDOC, “Secretaria de Documentação”; PETROBRAS, “Petróleo Brasileiro”), ou misturar os dois sistemas, como quiseres. O ideal é que a sigla fique dentro de um dos padrões habituais dos vocábulos do Português, isto é, que forme um conjunto pronunciável. Abraço. Prof. Moreno