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xiita ou xiíta

As regras de acentuação do Português são aplicadas em níveis diferentes. É por isso que XIITA não é acentuado como SAÍDA ou JESUÍTA, e DESTRÓIER mantém o acento que JIBOIA e PARANOIA perderam com o Acordo.

A regra que determina que o I tônico nos hiatos receba o acento agudo, como ocorre em saída ou ruído, não deveria ser aplicada para se acentuar o vocábulo xiita?

Luiz Fernando R. – Petrópolis (RJ)

RESPOSTA — Meu caro Luiz Fernando: realmente, o segundo I de xiita parece atender às três condições necessárias para que nele se aplique a regra do hiato: (1) é tônico, (2) vem depois de uma vogal e (3) está sozinho na sílaba. Acontece que esta regra — sem dúvida, uma das mais importantes de nosso sistema ortográfico, antes e depois do Acordo — não se aplica SE AS DUAS VOGAIS FOREM IDÊNTICAS. Nunca se deu muita atenção a esta ressalva porque as palavras envolvidas são raras e de uso pouco frequente, como vadiice, mandriice, paracuuba ou sucuuba. Na última década, no entanto, o vocábulo xiita — não no seu sentido original, para designar uma das correntes mais importantes do Islamismo, mas no sentido alternativo de “radical, ortodoxo” — passou a ser amplamente empregado no Brasil, o que torna bem oportuna a tua pergunta.

 P.S.: “E seriíssimo, como ficaria? Não temos aqui vogais idênticas?” —  pergunta Plínio N., membro do grupo Sua Língua, do Facebook.

RESPOSTA: seriíssimo, como toda proparoxítona, leva acento obrigatório; por isso mesmo, não vai ser examinada pela regra do I e do U, que ficam num nível inferior. Existe, no nosso sistema de acentuação, uma hierarquia de regras que pouca gente conhece. Funciona assim: no primeiro nível, opera a regra das proparoxítonas; toda palavra que se enquadrar nela será acentuada, e estamos conversados. As que escapam à primeira vão ser examinadas pela regra seguinte, das oxítonas e paroxítonas; novamente, as palavras atingidas por ela receberão acento, e estamos conversados. Finalmente, os vocábulos que não forem acentuados por estas duas regras passam pela terceira e última etapa, que reúne (1) a regra dos ditongos abertos em oxítonas (fiéis, dói) e (2) a famosa regra do I e do U em hiato. Exemplificando: bau e bauru são ignoradas pela primeira (não são proparoxítonas) e pela segunda regra (oxítonas terminadas em U não levam acento), mas na terceira etapa baú ganha acento, da mesma forma que saúde ou gaúcho.

Foi aqui que a ABL lamentavalmente derrapou: como o atual Acordo reformou a regra dos ditongos abertos (ficam acentuados só os oxítonos; os demais perdem o acento: heróico e paranóia tornam-se heroico e paranoia, por ex.), a primeira edição do VOLP eliminou erradamente o acento de destróier, sem se dar conta (mais tarde voltaram atrás) de que este vocábulo já tinha sido acentuado no segundo nível (é uma paroxítona terminada em R, como dólar  e éter).

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Acentuação Como se escreve Destaque Formação de palavras

sequência de advérbios em -mente

Professor Moreno, sempre tive dúvida em relação à acentuação dos advérbios de modo usados em conjunto. Explico melhor: rapidamente não leva acento, certo? Entretanto, se eu disser “Ele se afastou rapida e silenciosamente“, devo acentuar rápida? Ou considerá-lo como uma espécie de abreviação do advérbio e deixá-lo sem acentuação?

H. Shimura, 17 anos — Guarulhos (SP)

Meu caro Shimura, essa propriedade que os advérbios de modo têm de “fatoração” revelam a sua verdadeira natureza de vocábulos compostos: todos eles são formados da combinação de um adjetivo com o “sufixo” mente (o qual, na verdade, é o nosso velho substantivo mente, o mesmo que aparece em “o poder da mente”, “mente sã em corpo são”).  É por isso que ocorre aquela concordância obrigatória do adjetivo primitivo com o substantivo feminino: duro, dura+mente; pesado, pesada+mente; etc.

Quando, portanto, enumeramos uma série de advérbios desse tipo, acrescentamos  “mente” (que, repito, é historicamente um substantivo) apenas ao último adjetivo da série: “rápida, instantânea e silenciosamente” — o que deixa os dois primeiros intactos, sujeitos às regras de acentuação habituais. Abraço. Prof. Moreno

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Acentuação Como se escreve Destaque

Mário Quintana – com acento

Foi só entrarmos no ano do centenário do Quintana e comecei a receber consultas sobre a maneira mais adequada de grafar seu prenome: devemos escrever Mario, como ele sempre assinou, ou Mário, acentuado, como manda a regra? Eu não hesito em escolher a segunda hipótese: é Mário, rimando fônica e graficamente com o inseparável armário. Sei que muitos defendem exatamente o oposto, baseados principalmente na idéia, ainda muito difundida, de que o nome próprio não está submetido às mesmas regras de uma palavra comum, mas obedece a simples preferências individuais. Na sua grafia, como no jogo do bicho, valeria o que está escrito — seja no registro do cartório, na certidão de batismo ou na própria assinatura do indivíduo. Desculpem, mas nas linhas que seguem eu vou explicar que não é bem assim que a coisa funciona.

Em primeiro lugar, lembro que a norma ortográfica estabelecida pelos sucessivos Acordos Ortográficos sempre valeram para todos os vocábulos de nosso idioma, sejam próprios ou comuns. Os meus leitores mais experientes (leia-se “mais velhos do que eu”) devem lembrar a alteração que houve na grafia de muitos topônimos tradicionais: Triumpho virou Triunfo; Trammandahy virou Tramandaí; a nossa Porto Alegre, coitada, virou Pôrto Alegre, até que, em 1971, com a queda do acento circunflexo diferencial, voltou a ser a Porto Alegre de hoje — e não teve coré-coré. Pois fiquem sabendo que o mesmo aconteceu com os antropônimos: passamos a escrever Inácio, Luís, Teresa, Juçara, Paraguaçu, Manuel, Cláudio e Susana. E os que não foram assim registrados? O que aconteceu com o Ignacio, o Luiz, a Tereza, a Jussara, o Manoel, o Claudio e a Suzana? Por que não tiveram de mudar o seu nome, assim como ocorreu com os nomes geográficos?

A resposta é óbvia: porque nome de pessoa não é algo que possa ser alterado assim, à moda galega. Meu nome faz parte de mim, e é natural que eu seja muito sensível quanto à sua realidade física, seja no som, seja na grafia. Espero que os outros o pronunciem como sempre fizeram meus parentes e amigos; quando alguém muda sua pronúncia, trocando o timbre de uma vogal ou alterando a posição da sílaba tônica, sinto-me no direito de corrigi-lo, mostrando-lhe como devo ser tratado. Na escrita, o conjunto de sinais usados para escrever meu nome torna-se uma espécie de grafismo com o qual me identifico e no qual eu me reconheço; desrespeitá-lo representa, no fundo, desrespeitar minha própria pessoa. Não é por acaso que todo cidadão tem, assegurado por lei, o direito de portar o seu nome na grafia em que foi registrado, se quiser. Quem é Ignacio Baptista de Assumpção pode continuar a sê-lo (apesar da inevitável trabalheira que vai ter para explicar, nos infinitos guichês e repartições desta vida, que não se chama Inácio Batista de Assunção). Os Thiagos têm todo o direito a conservar o “th” do seu nomee não faz diferença se nasceram antes da vigência do Acordo de 1943, ou se nasceram na semana passada e foram assim batizados porque este era o nome do avô, ou simplesmente porque os pais acharam que, com esse agazinho, o nome ficava com mais estilo. O direito é o mesmo.

Tudo isso perde o sentido, no entanto, quando um autor deixa este mundo ingrato e passa a integrar a reduzida galeria dos personagens imortais de nossa história cultural. Em pouquíssimo tempo a manutenção da grafia original de seu nome passa a ser impossível e contraproducente, pois as gerações que se sucedem, no seu infindável cortejo, não têm como guardar na memória esses usos peculiares de letras e de acentos, resquícios de antigos sistemas ortográficos que desapareceram. Aqui deverá prevalecer sempre a forma atual: Luís de Camões (e não *Luiz); Eça de Queirós (e não *Queiroz); Casimiro de Abreu (e não *Casemiro); Rui Barbosa (e não *Ruy); Euclides da Cunha (e não *Euclydes). Mário Quintana tinha o prenome inacentuado porque esse era o uso de seu tempo; hoje, contudo (na verdade, desde o Acordo de 1943), ganhou o seu acentinho agudo. As pessoas mais próximas de Quintana certamente vão estranhar a nova forma; talvez até se recusem a empregá-la, pois vão senti-la como um traço falso na lembrança que conservam do poeta. É uma reação compreensível e deve ser respeitada — mas o sistema lingüístico, na sua pressão inexorável pela padronização, já encerrou a questão há muito tempo. Hoje não importa mais saber de que maneira Mário de Sá Carneiro, Mário Palmério, Mário de Andrade ou Mário Quintana assinavam seus nomes, porque agora todos eles são Mários.

 

Depois do Acordo:

idéia > ideia

lingüístico > linguístico

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Acentuação Como se escreve

til não é acento

Lucia Alves Vieira presenciou uma discussão de dois professores de Português a respeito do til. Um dizia que era acento; outro dizia que era símbolo de nasalização. Pergunta: “E aí, o que o senhor acha?”.

Minha cara Lúcia, essa discussão já foi resolvida há muito tempo: o til não é acento. Os acentos (agudo e circunflexo) só podem recair sobre a sílaba tônica da palavra; ora, como o til não é acento, mas apenas um sinal indicativo de nasalização, ele tem um comportamento que os acentos não têm: (1) ele pode ficar sobre sílaba átona (órgão, sótão), (2) pode aparecer várias vezes num mesmo vocábulo (pãozão, alemãozão, por exemplo) e (3) não é eliminado pela troca de sílaba tônica causada pelo acréscimo de –zinho e de -mente: rápido, rapidamente; café, cafezinho — mas irmã, irmãzinha; cristã, cristãmente; e assim por diante. Abraço. Prof. Moreno

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Acentuação Como se escreve

acento de nêutron

Júlio M., de Caxias do Sul, tem uma dúvida sobre acentuação: “Gostaria de saber se prótons, nêutrons e elétrons levam acento. A regra diz que as paroxítonas terminadas em N são acentuadas, no entanto, não fala se seguidas ou não de S. O plural de hífen não é acentuado. Qual a regra? Será estrangeirismo?”

Prezado Júlio: desculpa, mas não há tal “regra”. Como deves saber, as paroxítonas, para fins de acentuação, são divididas em dois grupos: (1) as que, por existirem em grande número, não levam acento (as terminadas em A(s), E(s), O(s), EM e ENS); (2) as demais, que são acentuadas. É simples assim.

Hífen tem acento porque o N não está entre os finais mais comuns; já hifens faz parte de um grande grupo, juntamente com itens, polens, homens, jovens, nuvens, etc., e vai ficar, por isso mesmo, sem acento. Agora, nêutron, nêutrons, cátion, cátions, ânion, ânions — todos estão fora do grupo livre de acento. Abraço. Prof. Moreno

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Acentuação Como se escreve

tem e têm, contém, contêm

Caríssimo professor, gostaria que você tirasse uma dúvida que me persegue desde sempre: a acentuação (ou ausência desta) e grafia correta dos verbos ter e conter. Ele tem um carro. Mas… eles têm, têem ou nenhum dos dois? Isto contém aquilo? E no plural ? Qual a regra? Grata. Lea — Rio de Janeiro

Minha cara Lea:

Não me admiro que perguntes sobre essas duas formas verbais: são casos especialíssimos, ortográfica e morfologicamente. A comissão que tratou de nossos acentos procurou — e conseguiu na grande maioria dos casos — criar regras que tenham um valor geral e sejam aplicáveis a todo e qualquer vocábulo que se enquadre em determinado perfil prosódico e ortográfico. Para solucionar o problema de têm e vêm, contudo, não teve outro remédio senão criar uma regra ad hoc.

Numa espécie de azar flexional, a 3ª pessoa do sing. e a 3ªdo plural do Presente de TER e VIR, dois de nossos mais importantes verbos, são absolutamente idênticas: ele TEM, eles TEM; ele VEM, eles VEM. Muita gente me escreve “sugerindo uma solução” para o problema (Santa ingenuidade! Como o mundo pode ser tão simples assim para alguns?): bastaria dobrar o E no plural: ele tem, eles têem, e pronto! O que eles não sabem é que as formas terminadas em –êem na 3ª do plural correspondem, morfologicamente, a uma 3ª do singular terminada em –ê: ele , eles lêem; ele provê, eles provêem; ele relê, eles relêem. Ninguém decidiu que seria assim; é assim porque o Português assim se estruturou, sem pedir sugestão ou opinião de professor, de gramático, de leitor ou de transeunte. Portanto, fica descartada a brilhante solução.

Os próprios acadêmicos que reformaram nossa ortografia nada poderiam fazer quanto a esse “defeito” flexional dos dois verbos. Só tinham poderes para decidir sobre a maneira de grafá-los — e aí eles puderam dar sua pequena contribuição: assinalaram o plural com um acento circunflexo, tornando as duas formas distintas ao menos na escrita: ele tem, eles têm; ele vem, eles vêm. Friso que a pronúncia continua exatamente a mesma, não vá algum desavisado tentar pronunciar com mais força e entusiasmo a 3a. do plural.

Dentro do que podiam fazer, estava solucionado o problema. Quer dizer: quase, porque mexer em ortografia é como mexer em abelheiro — vem inseto zumbindo de todos os lados. Não podemos esquecer que ter e vir produzem muitos outros verbos deles derivados, formados com o acréscimo de prefixos: manTER, conTER, entreTER, absTER, deTER, etc.; proVIR, conVIR, sobreVIR, interVIR, adVIR, etc. Ora, como todos os verbos derivados herdam as características flexionais de seus primitivos, vamos encontrar aqui o mesmo problema: ele contem, eles contem; ele provem, eles provem. Dizendo melhor: o problema é o mesmo, mas agora com um novo complicador — contem e provem, com o acréscimo do prefixo, já não são formas monossilábicas, estando, por isso, submetidas à regra geral que acentua todas as oxítonas terminadas em –ém (armazém, porém, também): ele contém, eles contém; ele provém, eles provém. Agora essas formas estão corretamente acentuadas, mas voltaríamos à estaca zero: a 3ª do singular continuaria idêntica à 3ª do plural — se não entrasse em cena, de novo, o circunflexo que identifica o plural: ele contém, eles contêm; ele provém, eles provêm (não preciso dizer outra vez: a pronúncia é idêntica; a grafia é que é diferente!).

Recapitulando, Lea:

(1) para TER e VIR: ele tem, eles têm; ele vem, eles m (o singular, sem acento, contrasta com o plural, acentuado);

(2) para todos os seus derivados: ele contém, eles contêm; ele provém, eles provêm (ambos, o singular e o plural, são acentuados; a diferença está no tipo de acento — o singular recebe o acento agudo das oxítonas terminadas em –ém, enquanto o plural recebe o acento circunflexo diferencial). Este é um bom exemplo para os leitores perceberem como um sistema ortográfico está sempre em luta contra suas limitações intrínsecas. E sejamos justos: é também um bom exemplo de uma solução inteligente encontrada pela comissão de 1943, mantida até hoje. Abraço. Prof. Moreno

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Acentuação Como se escreve

quê?

Caro professor: na frase “Tudo o que você põe na sua casa, menos o cansaço”, este que deve ser acentuado? Sei que, no final da frase, ele tem acento (“Não sei bem por quê“), mas nesse caso fiquei em dúvida… Muito obrigada! Sua aluna virtual. Sandra Ambrosio

Minha cara Sandra: este “que” não tem acento. Sabes que esta partícula — seja ela pronome, seja conjunção — é apenas um monossílabo átono, assim como se, lhe, me, etc., escapando, portanto, à regra de acentuação. Para que ela receba o circunflexo, é indispensável que ela se torne tônica, passando então a fazer parte daquele grupo integrado também por lê, você, dê, vê, entre outros.

Essa mudança na tonicidade vai ocorrer em duas situações: em primeiro lugar, quando o “que” se encontra no final da frase (refiro-me à FALA, não à escrita) :

— Obrigado! Não há de quê.

— Não há de quê, amigo.

— Você está falando do quê?

— Quero pagar, mas não tenho com quê.

Em segundo lugar, quando o “que” se tornar um substantivo (admitindo, nesse caso, o plural). Isso acontece quando ele passa a ser o núcleo de um sintagma, precedido daqueles vocábulos que habitualmente acompanham os substantivos: artigos, pron. possessivos, pron. indefinidos adjetivos, pron. demonstrativos adjetivos:

— Ela tinha UM quê de fascinante.

— Esta cidadezinha tem lá OS SEUS quês.

No entanto, em frases como “tudo o que você fez”, “não sei o que queres”, este O não é um artigo, mas um pronome demonstrativo substantivo (equivalente a aquilo: tudo aquilo que você fez), que não vai alterar a tonicidade do “que”.

Um antigo gramático sugeria a seguinte maneira prática de distinguir o que tônico do átono: quando ele é átono, o falante pode pronunciá-lo como /kê/ ou /ki/ (com preferência esmagadora pela segunda forma); quando ele é tônico, só pode pronunciá-lo como /kê/. Seguindo esse útil critério, o fato de podermos dizer “tudo o /ki/ você fez” reforça o que já sabíamos: esse “que” é átono.

Detalhe: quando o vocábulo estiver substantivado em metalinguagem — isto é, quando estivermos falando dele, como ocorreu várias vezes nas linhas acima —, não devemos acentuá-lo, mas grifá-lo ou colocá-lo entre aspas, como fiz. Abraço. Prof. Moreno

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Acentuação Como se escreve Questões do momento

hifens — sem acento!

Professor Moreno: hoje, um aluno me questionou o porquê das palavras hífen, sêmen, pólen levarem o acento gráfico no singular e não tê-lo grafado quando plural. Fiquei mudo, porque eu não sabia responder. Não me parece correto a grafia de polens, semens e hifens sem acento, uma vez que todos aqueles casos de paroxítonos que terminam em ditongos ou nas letras L, I, N, U, R, X, Ã, ÃO não dispensam o emprego deste acento quando no plural. Entendo que homens, jovens e itens não levam acento porque suas formas de singular são grafadas sem este, mas como explicar o caso das paroxítonas terminadas em N? Seria o caso de dizer que esta é apenas uma exceção ao que se estabelece para os demais casos? Gostaria de saber como explicar mais esta exceção à regra, pelo que lhe serei bastante grato. Professor — Porto Velho (RO)

Meu prezado Professor: nosso sistema de acentuação gráfica não tem exceções, eu te asseguro (os acentos de pôr, pôde, têm e vêm não contam, porque são casos especialmente definidos). Todas as palavras que preencherem determinados critérios serão acentuadas — sem choro, nem vela. No entanto, por causa de todos esses maus exemplos de que nosso país está cheio — em que alguns poderosos ou “espertos” conseguem facilmente burlar a lei —, nossos alunos têm uma grande dificuldade em imaginar uma regra que se aplique democraticamente a todos os indivíduos semelhantes, sem haver algum “jeitinho” ou algum privilégio. Para eles, se existe uma lei ortográfica, forçosamente deve haver uma série de exceções… Ledo engano!

É importante mostrar para eles que nosso léxico se compõe de uma grande maioria de palavras sem acento, ao lado de uma minoria que vai ganhar acento gráfico. Qual foi o critério utilizado para fazer essa divisão? Muito simples: a Comissão de 1943 deixou inacentuados os vocábulos de perfil mais comum — no caso, os paroxítonos terminados em A(s), E (s), O(s), EM e ENS. Inversamente, todos os que tiverem outros finais (I, UM, Ã, L, R, PS, etc.) ficarão com acento. É por isso que escrevemos tolo, cera, coroa, totem, vezes, doce, gelo, deve, (sem acento), mas hífen, ônix, flúor, ímã, órgão, ravióli, álbum (com acento). Esta distribuição de acento nos paroxítonos vai determinar o acento dos oxítonos, classe muito menos importante:

Nota que, aplicando-se o quadro acima, homem, jovem, selvagem e item ficam no grupo dos não-acentuados, enquanto pólen, hífen, hímen ficam com acento. Ora, acontece que o plural de todos eles tem exatamente o mesmo final –ens; por isso, homens, jovens, selvagens, itens, polens, hifens, himens não terão acento (sem interessar, nesse caso, qual era a forma singular). Exceção seria — aí sim, meu caro Professor! — se a regra acentuasse hífens, pólens e hímens, mas não homens, jovens ou itens; isso seria um verdadeiro pesadelo, porque obrigaria o usuário a saber quais vocábulos pertencem a cada grupo. Trocando em miúdos: a norma estabelece que todos os paroxítonos terminados em –ens NÃO terão acento, e pronto!

Além disso, ao examinarmos um vocábulo quanto à acentuação, NÃO podemos levar em consideração as diferentes formas de seu paradigma (singular, plural, masculino, feminino). Quando dizemos que aos oxítonos terminadas em ES levam acento, não estamos nos referindo, necessariamente, ao plural de vocábulos terminados em E: japonês, português, três são bons exemplos. Escrevemos juíza, juízes e juízas com acento, mas não juiz, porque o masculino não se enquadra na regra do hiato; da mesma forma, a acentuação não precisa saber que raízes é o plural de raiz. Cada forma é examinada isoladamente; se ela satisfizer o perfil normal, fica sem acento.

Para acostumar meus alunos a esse tipo de raciocínio, sempre usei o exemplo dos verbos: saí, saíste, SAIU, saímos, saístes, saíram— a 3ª do singular fica fora da regra do hiato, mas isso não é nenhum escândalo. Pode ter certeza de que, mostrando a lógica do sistema de acentuação, o aluno vai ficar muito mais seguro na hora de acentuar — podendo, inclusive, estabelecer analogias com as palavras que ele conhece (se homem não tem acento, item e modem também não têm — e assim por diante). A Comissão de 1943 trabalhava sob o espírito democrático dos países que se aliaram contra o Eixo, na 2ª Guerra; certamente por causa disso consagraram, como princípio básico de nossa acentuação, “o que vale para um, vale para todos”. Abraço. Prof. Moreno

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Acentuação Como se escreve

Guiana

Professor, eu me interesso bastante pela nossa língua e tenho uma dúvida sobre o nome dos países Guiana e Guiana Francesa. O U é pronunciado? Já ouvi gente pronunciando e não pronunciando. Pelo que conheço, deveria ser um U mudo, mas como é nome de país, fico na dúvida. E se for pronunciado mesmo, não fica estranho demais? Mas, por outro lado, me parece impossível indicar que ele não é mudo usando as regras comuns de ortografia.Obrigado.

Marcus Aurelius F.  — Santa Maria (RS)

Meu caro Marcus: talvez não tenhas percebido, mas o raciocínio (absolutamente correto) que desenvolveste desvela um problema de que pouca gente tem consciência: nosso sistema ortográfico foi minuciosamente construído para representar, por escrito, os vocábulos do Português, mas não os de outras línguas. Quem se queixa da arbitrariedade de nossa ortografia não entende muito do que está falando: cada língua tem um sistema ortográfico que atende a suas necessidades particulares. É evidente que um construto dessa magnitude, que vai sendo aprimorado e modificado ao longo dos séculos, precisa estar intimamente relacionado com a realidade fonológica de cada idioma. A ortografia inglesa não tem como representar os nossos ditongos nasais /õy/  /ãw/ (como em põe e mão) simplesmente porque eles inexistem na realidade fonológica do Inglês. Por sua vez, a ortografia do Português não tem como representar o “L molhado” ou o “U com biquinho” do Francês; e assim por diante. Quando entra em nosso sistema um desses vocábulos estrangeiros, somos obrigados, inapelavelmente, a adaptar sua grafia (e a sua pronúncia, também): maquillage vira maquiagem ou maquilagem; purée vira purê (ou pirê, como querem os meus filhos); bureau vira birô; groseille vira groselha; e assim por diante (já escrevi sobre isso, quando discuti o plural de gol).

Alguns desses vocábulos exóticos, entretanto, JAMAIS serão grafados satisfatoriamente em nosso sistema. Todas as tentativas de adaptar pizza foram infrutíferas, e ela ficou assim mesmo. O fato de hesitarmos entre cãibra ou câimbra (com este acento sobrenatural!) revela que não estamos ainda bem convencidos; quem sabe cãimbra? Ou cambra, como era no séc. XV? Pois Guiana é outro desses enguiços. Primeiro, vamos à PRONÚNCIA: não esqueças que a fala vem acima de tudo; a escrita é algo posterior, acessório, uma tentativa de representar a realidade fonológica. A pronúncia é /gúyana/ — o que constitui, como percebeste, uma seqüência sonora que ultrapassa a capacidade de nosso sistema gráfico. Mesmo se continuássemos a usar o trema, recentemente abolido, e escrevêssemos *Güiana, estaríamos indicando a pronúncia /gwíana/, proparoxítona, com o I tônico. Se usássemos o acento (*Gúiana), pior ainda seria a emenda, porque estaríamos alterando a vogal tônica do vocábulo. A única maneira literal — mas absolutamente intragável — de representar essa seqüência de fonemas seria *Gui-Ana, uma aberração morfológica, porque estaríamos transformando em composto o que sempre foi um vocábulo simples. É por essa razão que nós, sabiamente, escrevemos Guiana, mas pronunciamos /guyAna/, escrevemos pizza, mas pronunciamos /pitça/, freezer, mas pronunciamos /frízer/, blazer, mas pronunciamos /blêizer/ — como todos os vocábulos estrangeiros que precisamos usar mas ainda não foram (e talvez nunca venham a ser) aportuguesados. Abraço. Prof. Moreno

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Acentuação Como se diz Como se escreve

É fluido ou fluído ?

Caro Professor: estou navegando há dias pela Internet em busca de auxílio para uma questão e nada tenho encontrado. Como achei o seu site e acredito que seu conhecimento pode em muito me orientar, estou lhe escrevendo pedindo socorro!  Estou tentando abrir uma empresa de cosméticos feitos com essências naturais e pretendo nomeá-la “Fluidos da Natureza”. Seria “Fluidos” ou “Fluídos“? Este é o ponto em questão. Já obtive uma informação de outro site, mas em nada me esclareceu; pelo contrário: fiquei ainda mais confusa sobre qual seria mais adequado ao meu caso. Carla C.

Prezada Carla: Nomezinho bem complicado tu foste escolher para tua empresa! É bonito e sugestivo; digo que é complicado porque nunca será pronunciado corretamente pelos teus clientes (e nem sei se seria desejável). Vou explicar por quê.

Quanto à Gramática, distinguem-se dois vocábulos diferentes:

1 — O primeiro, fluido, tem o “U” tônico e divide-se em duas sílabas: FLUI-DO. Se te lembras de teu tempo de colégio, o UI aqui é um ditongo. Este vocábulo tem o sentido genérico de “líquido”: mecânica dos fluidos, fluido de freio; “a Aids se transmite pela troca de fluidos do corpo”. Modernamente, acho que passou também a significar algo “gasoso”; pelo menos, é o que sugere o uso que dele fazem as pessoas místicas: “Nesta sala há maus fluidos“, “podem-se perceber os bons fluidos“, etc. Em todos os exemplos acima, é classificado como substantivo; às vezes é usado como adjetivo (ainda com o mesmo sentido de “líquido”): “estava muito quente, e o mel ficou mais fluido“; “Ó formas vagas, fluidas, cristalinas” (no antológico poema Antífona, de Cruz e Sousa).

2 — O segundo, fluído, tem o “I” tônico; é uma palavra de três sílabas (FLU-Í-DO). É o que chamamos de hiato, lembras? Aliás, é exatamente por ser um hiato que o I precisa levar esse acento gráfico. Agora estamos diante do particípio do verbo fluir (“correr, transcorrer”), formado da mesma maneira que caído (de cair) e saído (de sair): “As horas tinham fluído sem que nós nos déssemos conta”; “todo o óleo tinha fluído para o chão da garagem”. Nota que os dois vocábulos são diferentes na pronúncia, na grafia e no sentido.

Até aqui, moleza. Agora, o teu problema: para mim, é evidente que o nome da tua empresa deve ser “FLUIDOS da Natureza”. Estamos falando do primeiro sentido; a idéia é a de que forneces essências, líquidos, substâncias que a Natureza produz (ligada, muito bem, a meu ver, com aquela outra conotação moderna do vocábulo fluido, mais mística e, como tal, extremamente vendável). Acontece que nove entre dez brasileiros não distinguem um vocábulo do outro, pronunciando /flu-í-do/ em ambos os casos. Em geral, as pessoas dizem flu-í-do de freio, mecânica dos flu-í-dos, maus flu-í-dos — e vão falar de teus cosméticos como “Flu-í-dos Da Natureza”. Dessa não vais escapar; aliás, qualquer insistência para que eles digam a forma correta, flui-do, pode ser contraproducente para a divulgação da marca. Esse é o dilema em que tu te meteste, ao escolher esse nome. Minha sugestão? Registra e escreve corretamente (fluidos, sem o acento), mas deixa rolar livremente a pronúncia (que, aposto meus diplomas, vai ser flu-í-dos). Abraço. Professor Moreno