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antes DO ano terminar

Qual a forma preferível — “Antes DO ano terminar” ou “Antes DE O ano terminar”? Na escrita, podemos escolher: os grandes escritores preferem a primeira, a imprensa em geral prefere a segunda. Na FALA, porém, a elisão é OBRIGATÓRIA.

De vez em quando, entre dezenas de dúvidas sobre como se escreve, aparece uma pergunta sobre como se fala. Eu até estranho esta escassez de consultas, considerando que são pouquíssimas as fontes em que os brasileiros podem pesquisar sobre a língua culta falada. É bem verdade que assistimos, no meio universitário, ao surgimento de várias tentativas de descrever a norma urbana culta, mas infelizmente seus resultados jamais atravessaram as paredes invisíveis que separam o mundo acadêmico dos simples mortais aqui fora. Quando queremos confirmar a pronúncia de um determinado vocábulo, recorremos à opinião dos gramáticos e dos dicionaristas — friso, opinião, nada mais do que isso, o que cria um sem-número de divergências por este Brasilzão afora: uns metem o pé na poça (rimando com roça), outros na poça (rimando com moça). Para uns, a grelha do assado rima com velha (Houaiss e Aurélio, por exemplo); para outros, com orelha (Luft e todos os gaúchos, imagino). Há filmes em tecnicólor (rimando com aquele ex-presidente) e filmes em tecnicolor (rimado com bolor); há viquingues e víquingues, recordes e récordes, e assim por diante, numa abundância de opções que mais nos diverte do que nos atrapalha.

A última, agora, veio de um jovem ator, meu ex-aluno, que vai atuar como mestre de cerimônias numa formatura em agosto. Ele estava repassando o texto que lhe foi fornecido quando empacou, por instinto, diante de uma construção que nunca tinha lido em voz alta: “Antes de o ano terminar…”. Cismado com aquele DE separado do artigo, achou melhor me escrever: “E aí, professor? Leio palavra por palavra ou devo dizer antes DO ano terminar, como todo o mundo? Como é que o senhor faz?”.

Pois eu, prezado amigo, sempre faço a elisão da preposição com o pronome — tanto na escrita (onde é opcional), quanto na fala (onde é obrigatória). Há muitos anos escrevi um artigo sobre isso — “Antes do jogo começar“, incluído no vol. 2 da coletânea O Prazer das Palavras, da L&PM —, mostrando que a prática tradicional, adotada pela quase totalidade dos escritores de renome, é combinar a preposição DE com o artigo ou com o pronome pessoal reto que vem depois: “Creio que foi uma apologia de amigo por ocasião dele fazer quarenta anos”, “Antes dela ir para o colégio, eram tudo travessuras de criança” (Machado); “Depois do enfermo lhe haver contado” (Bernardes); “Apesar das couves serem uma só das muitas espécies” (Rui Barbosa).

Alguns gramáticos tradicionais, no entanto, dizem que esta construção não é correta, já que o sujeito estaria, segundo eles, “regido pela preposição, o que não se admite em nossa língua”. Ora, quem acredita nisso está dizendo, em outras palavras, que Machado deveria ter escrito “antes de ela ir para o colégio”, Rui Barbosa teria feito melhor se escrevesse “Apesar de as couves serem uma só das muitas espécies”, Bernardes deveria revisar o seu estilo, e assim também Eça, Camilo e todos os demais outros escritores do passado… Uma rápida pesquisa no preciosíssimo córpus do Português organizado por Mark Davies e Michael Ferreira, que reúne 600 anos de textos literários e jornalísticos, revela um detalhe extremamente significativo: até o final do séc. 19, todos os autores juntavam a preposição com o artigo ou o pronome, com a única (e brilhantíssima) exceção do Padre Vieira, que os mantinha separados (“porque antes de o mundo ser julgado”, “depois de ele emendar os estilos”, “antes de ela chegar, chegou uma lancha sua”). Só a partir do séc. 20 é que começa, nos jornais, a aplicação maciça daquela regra, que hoje alguns erroneamente tomam como obrigatória.

Celso Luft e Evanildo Bechara há muito determinaram que esta regra artificial nasce de uma confusão entre sintaxe e fonética: em “antes do ano terminar”, a transformação da sequência “de o” em “do” é apenas fonética, sem qualquer efeito sintático. Infelizmente, a regrinha já está tão arraigada nos manuais de redação da imprensa brasileira que será impossível eliminar o seu emprego; no entanto, se a maciça difusão nos jornais faz com que ela seja tolerável, não a torna, nem de longe, preferível ao hábito consagrado de juntar as duas partículas. Como as duas regras passaram a conviver lado a lado, temos, na escrita, mais uma daquelas situações em que podemos escolher livremente; eu não hesito e, como afirmei no artigo citado, sempre prefiro combinar a preposição com o artigo (e confesso que me sinto muito bem na companhia de Machado, Eça e Camilo). Para o leitor que fez a pergunta, finalmente, lembro que ele deve ler “antes DO  ano terminar”, pois na fala, como já notou Sousa da Silveira, essa elisão é obrigatória: não me vá algum incauto pronunciar a preposição separada do artigo ou do pronome, porque isso nunca se viu no vernáculo.

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perder DE ou perder PARA?

Professor, qual é a forma correta de falar? “O Japão perdeu PARA o Brasil” ou “O Japão perdeu DO Brasil”?

Maria de Fátima P. – Florianópolis

Prezada Maria de Fátima, a tua dúvida é compartilhada por grande parte dos brasileiros. Qual é a forma correta? Não posso te dizer, pois há diferentes soluções que disputam a preferência dos falantes. Para mim, o Brasil ganha da Argentina, a Argentina perde para o Brasil – é assim que eu falo. No entanto, a preposição de também é muito usada com este verbo (embora não com a mesma freqüência), sendo defendida por alguns gramáticos de respeito. Os dicionários – o Aurélio, o Houaiss, o Dicionário de Regência de Celso Pedro Luft -, embora dediquem extensos verbetes ao perder, mantêm um curioso silêncio sobre este significado, tão corriqueiro, de “ser vencido pelo adversário”.

De qualquer forma, este é um excelente exemplo para nos lembrar que as línguas humanas têm muito mais flexibilidade do que pensamos. Deves te acostumar à idéia de que existem milhares de verbos que admitem duas, três ou mais regências para o mesmo sentido; as escolhas que fazemos – eu, tu e o vizinho – constituem, na verdade, nossos votos neste silencioso plebiscito que se chama língua culta.

Não sei se sabes, mas além do para e do de ainda temos a opção de usar o com, a forma preferida pelos portugueses (“O Benfica perdeu com o Atlético de Madri”). Há quem veja aí um substantivo elíptico (“O Benfica perdeu [o jogo] com o Atlético de Madri”), mas isso não faz diferença. Escolhe uma, e fica feliz. Abraço. Prof. Moreno

P.S.: Falando de confrontos esportivos, eu, particularmente, só uso o de quando se trata de escore: “o Brasil perdeu de dois a zero”; “O time perdeu de WO”.

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faz com que

Caro Prof. Moreno, tenho combatido a expressão “isto faz com que…”, porém vejo “gente grande” empregando esta muleta (?) sem pensar. Proponho sempre a forma “isto faz que…”. Gostaria de conhecer tua opinião. 

Marcos B. — Ourinhos (SP)

Meu caro Marcos: mesmo que sejas professor de Português (não sei qual a tua profissão), não deves andar por aí combatendo palavras ou expressões. Defende as formas que consideras corretas, mas evita atacar as que os outros empregam. Lembra-te das sábias palavras do professor Celso Luft, que abominava, e com razão, o famigerado a nível de: “Eu não uso; mas, e os outros com isso?”.

Só podemos exigir fazer que quando a expressão tiver o conhecido significado de “fingir”: “Na escola moderna, o professor faz que ensina, enquanto o aluno faz que aprende”. No sentido de “causar, ocasionar”, no entanto, a escolha é totalmente livre; tanto se escreve “isso fará que ele aprenda”, quanto “isso fará com que ele aprenda”. Acho precipitado chamares de “muleta” uma prática que vem acompanhando o Português desde que ele começou a ser escrito. Para exemplo (e para nosso divertimento), vou relacionar algumas passagens colhidas na literatura:

Na sua História da Província de Santa Cruz (1576), escreve Pero de Magalhães Gandavo: “Mas porque a mãe sabe o fim que hão de dar a esta criança, muitas vezes, quando se sente prenhe, mata-a dentro da barriga e faz com que não venha à luz”. 

No Tácito Português, de Francisco Manuel de Melo (1608-1666), vais encontrar: “A pouca introdução que nos negócios permitia ao duque de Barcelos o duque seu pai fez com que ambos vivessem desconfiados”. 

Machado de Assis emprega regularmente a preposição: “… o remorso de não haver sufocado aquele grito de seu coração fez com que Estêvão, quase no mesmo instante, murmurasse…” (A Mão e a Luva). “Um anônimo ou anônima que passe na esquina da rua faz com que metamos Sírius dentro de Marte” (D. Casmurro). Ou ainda: “Até aí os conselhos; mas um pouco de glória fez com que Paulo cantarolasse entre os dentes, baixinho, para si, a primeira estrofe da Marselhesa”. Mais adiante: “… a certeza de que podia acender-lhes novamente os ódios fazia com que as opiniões de Pedro e de Paulo ficassem entre os seus amigos pessoais” (Esaú e Jacó). Nos seus contos, aqui e ali encontramos a bendita: “A desgraça porém que o perseguia fez com que o primeiro amigo tivesse de ir no dia seguinte a um casamento e o segundo a um baile”. Outra: “A minha boa fortuna fez com que o senhor me avisasse a tempo…”. E mais outra: “O caiporismo, que o perseguia, fazia com que as dezenove prosperassem, e a vigésima lhe estourasse nas mãos”.

Camilo Castelo Branco usa e abusa: “… esta menina disse que o rapaz talvez se ofendesse, e fez com que ele ficasse sem os doze vinténs” (Novelas do Minho); “porque entendo que é uma imprudência pôr-se em campo o Partido Realista, e isso só fará com que os Cabrais triunfem” (Maria da Fonte); “Disse que não tinha inclinação a viajar, e fez com que o pai inventasse desculpas que dispensassem a filha” (O Romance de um Homem Rico).

Eça de Queirós é outro a quem a expressão não desagrada: “Só a porção de Matéria que há no homem faz com que as mulheres se resignem à incorrigível porção de Ideal”; “Talvez o requinte em retardar, que fazia com que La Fontaine, dirigindo-se mesmo para a felicidade, tomasse sempre o caminho mais longo” (Fradique Mendes). E mais: “aquela alta superioridade que fazia com que madama Recamier se erguesse, ao cumprimentar” (As Farpas). E ainda: “Enfim, a moda é ter só uma mulher — e isto, mais do que tudo, faz com que os haréns do Cairo se vão transformando lentamente no nosso avaro e limitado casamento monógamo” (O Egito). 

Como estás a ver, prezado Marcos, não podemos, eu e tu, comparar-nos aos nomes que citei. Haveria muitos outros, mas achei que Machado e Eça já bastariam para mudar a tua opinião. Continuas tendo o direito de preferir o fazer que, sem o com — acompanhado, aliás, por excelentes escritores —, mas não podes condenar aquilo que a tradição culta aprovou, ao longo dos séculos. Abraço. Prof. Moreno

P.S.: por falar nisso: eu só uso “fazer com que”.  

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doa a quem doer

Caro Professor, uma dúvida: por que o “doa a quem doer”, como diz o irado Bóris Casoy, não é “doa em quem doer”? Afinal, o que dói, dói em alguém, e não a alguém, não é? Obrigado.

Tagore

Meu caro Tagore: eu sempre usei e vi “doa a quem doer”. No entanto, como levantaste a dúvida, fui pesquisar no Google (ele pode não ser científico, mas fornece dados que não são de desprezar) e obtive o seguinte (e surpreendente) resultado: 5710 ocorrências de “doa a quem doer” contra apenas míseras 98 (noventa e oito!) ocorrências de “doa em quem doer”. Acho que não há dúvida sobre qual delas deverás usar; no entanto, isso não pode ser apenas uma questão de estatística. Quem trabalha no ramo, sabe: se a diferença de opções (5700 x 100) é tão grande assim, aí deve estar atuando algum princípio do idioma, acima das opiniões individuais. Basta procurar, e vamos achar a explicação.

No teu caso, a resposta é muito simples: esta é uma expressão muito antiga, e o verbo doer, como deves saber, sempre admitiu a preposição A. Deves conhecer construções como “doeu-me ter de fazer isso”, “dói-lhe a visão da pobreza”, etc. — e aí, como podes ver, o que dói, dói A alguém. Só muito modernamente começamos a usar (em pouquíssimos casos, aliás) a preposição EM — até porque, na maioria dos casos, usamos doer como intransitivo: “meu braço está doendo”, “quando a luz aumenta, o olho dói”. É um bom exemplo para nos lembrar, Tagore, que nunca — mas nunca, mesmo — vamos descobrir “erros” dentro do que a tradição lingüística, inclusive os bons escritores, vem usando há vários séculos. Podemos adotar formas mais modernas, mas não tentar “corrigir” o que nunca esteve errado. Abraço. Prof. Moreno

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pisar na grama

Professora, tenho uma dúvida cruel; a Sra. poderia saná-la? O correto é “não pise NA grama” ou “não pise à grama”? Muito obrigado pela atenção e parabéns pelo site.

Marco Alberto G. — Rio Grande (RS)

Meu caro Marco: em primeiro lugar, que negócio é esse de “professora”? Deste uma olhada na seção “Sobre o Autor”? Parece que não … Bom, ao menos não me chamaste de tia...

Eu uso “não pise NA grama”; alguns professores caturras insistem em dizer que o verbo pisar é transitivo direto, e o correto seria “não pise A grama” (sem crase, Marco). Eles estão tentando apenas paralisar a língua na sua evolução. Há mais de um século o uso estabeleceu que também se pode pisar no tapete, na linha amarela, no chão de minha terra. Seria completamente lunático defender, como única forma aceitável, “pisar o tapete”, “pisar a linha amarela” ou “pisar o chão de minha terra”. 

Celso Pedro Luft, em seu Dicionário Prático de Regência Verbal (Ed. Ática), diz que é normal usar esse “pisar em X” em vez do primitivo “pisar x“, e que esta prática já era comum em autores como Gregório de Matos, Camilo, Castilho, Machado (“por saber em que terreno pisa”), Vieira (“pisamos nessas sepulturas”). Em expressões como pisar em ovos (“andar de mansinho, agir com cuidado”) ou pisar nos calos (“atingir o ponto sensível de alguém”), já nem conseguimos imaginar a construção sem a preposição. Como sempre acontece nesses casos, as duas regências (ambas estão corretas) entram em competição, e o tempo vai dizer qual das duas prevalecerá. Eu não tenho a menor dúvida de que a regência deste verbo, que já foi trocada na fala, também está sendo alterada na escrita. Abraço. Prof. Moreno

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arroz-de-leite, arroz-com-leite

Ele: “Professor Moreno, gostaria de saber se é correto o nome do doce arroz-de-leite , sinônimo de arroz-doce. Minha mulher insiste que está errado. Está grafia consta no Aurélio, enquanto a que ela diz ser a correta, arroz-com-leite, não consta. Por favor, esclareça-nos. Muito obrigado.” [Ernesto – Porto Alegre]

Ela: “Caro professor Moreno, há um debate entre mim e meu marido a respeito do nosso famoso doce regional, o arroz-doce, que já está virando polêmica familiar. Eu sou do interior e ele de Porto Alegre. Quando começamos a namorar, achavam estranho, na casa dele, eu falar arroz-com-leite, pois todos falavam arroz-de-leite. Desde então o debate vem crescendo e está se tornando cada vez mais acirrado. Eu argumento que de leite não se faz arroz. Pode-se fazer um doce de leite, uma rapadura de leite, mas nunca arroz. Eles argumentam que é o nome do doce e que, por isso, pode. Tive a idéia de entrar em contato quando li sua explicação sobre déjà vu — o que não é torna-se aceito e tido como verdadeiro e correto. Será que teremos também o *cunós ou *cunóis tido como correto algum dia? Um abraço.” 

Marta — Porto Alegre

Meus caros Ernesto e Marta: façam as pazes, porque os dois têm razão. O tradicional doce português, o arroz-doce, pode ser chamado tanto de arroz-de-leite quanto de arroz-com-leite. Não tentem encontrar uma ordem onde ela inexiste: infelizmente o uso da preposição na denominação dos pratos de nossa cozinha não segue a estrutura-padrão de nossos sintagmas. Entendo a posição da Marta: o arroz-doce é feito “com” leite, e não “de” leite. No entanto, uma pesquisa detalhada em livros de culinária consagrados me fez suspeitar que não é tão simples assim. Encontrei feijão de azeite, feijão de alho, cocada de ovos, arroz de polvo, arroz de marisco, arroz de frango, arroz de alho, arroz de coco (Luís Câmara Cascudo), arroz de pequi, arroz de leite (Gilberto Freyre) — em todos eles, aposto que a Marta substituiria o “de” pelo “com”.

Em alguns cardápios, inclusive, vi distinguirem arroz-com-leite, prato salgado em que o arroz é cozido no leite e não na água, do arroz-de-leite, incluído entre as sobremesas. Em outros, no entanto, o próprio arroz-de-leite aparece como salgado; um típico restaurante do Rio Grande do Norte oferece à gula dos fregueses vários pratos da cozinha regional do Seridó, entre eles carne-de-sol com arroz-de-leite, rabada de boi, guiné torrado, buchada, entre outros. Deu para perceber? Neste caso, não existe um padrão sedimentado quanto ao emprego do “com” ou do “de”.

Agora, Marta, senti uma ponta de ironia quando perguntas se um dia teremos como correto o famigerado *cunós ou, pior ainda, o *cunóis — assim como se eu tivesse insinuado que o errado passará a ser certo, já que a maioria fala assim. Nada disso; o caso do arroz-de-leite é bem diferente. Não estamos falando em substituir uma forma do Português culto (conosco) por uma do Português falado substandard (*cunóis) — a distância é grande demais para ser transposta—, e sim usar uma preposição em vez de outra (fato comum e freqüente em nosso idioma). Querem um conselho? Depois de ler este artigo, comemorem em torno de um belo prato de arroz-de-leite (ou com leite) morninho, com uma canelinha por cima, o fato de ambos terem razão. E voltem sempre! Um abraço para os dois. Prof. Moreno 

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entrega a domicílio

Às vezes eu me surpreendo (ingenuidade a minha!) com a veemência com que certas perseguições lingüísticas são desencadeadas em nosso pouco culto país. Vindas do nada, ondas de intolerância atravessam o pequeno espaço onde se discute nossa língua, banindo certas formas ou corrigindo outras já consagradas. “Não pode ser risco de vida, só pode ser risco de morte“, vociferam uns; “não existe televisão A cores; o que temos é televisão EM cores”, berram outros. “Está na hora DE O governo assumir”, exigem outros tantos; é errado dizer “está na hora DO governo assumir”, porque sujeito não pode estar regido por preposição (errados estão eles, mas isso fica para outro artigo).

E assim segue o desfile de bobagens pregadas em tom carrancudo e pretensamente erudito, sempre repressivo, policialesco, onde não posso deixar de perceber sempre, ao fundo, aquele espírito vingativo e invejoso das almas pequenas. Seus agentes são incrivelmente ativos, espalhados por toda parte: na área jurídica (já foi mais pretensiosa; agora começa a perceber, aos poucos, que a Língua Portuguesa não é assunto de sua competência), na área médica, na área política (pois não é que temos deputados federais metendo a colher torta em nosso idioma?), na imprensa — e como tem jornalista por aí dissertando sobre a Língua Portuguesa! E manual de redação de jornal servindo de base para estudos do idioma! Mas quem são eles, meu deus! Não se enxergam, não? Deveria ser obrigatório, em qualquer escola de jornalismo, o estudo do vocábulo ultracrepidário.

É claro que todos nós, independentemente do que fazemos para viver, podemos trazer valiosas contribuições aos estudos do Português — o médico, o jurista, o geólogo, o dramaturgo, o publicitário, até o jogador de futebol, todos podem iluminar um uso especial que ainda não foi registrado nos dicionários gerais, ou o significado de expressões técnicas, pertencentes a uma terminologia específica — mas cada um na sua competência. O açougue que entrega a carne na casa do cliente faz entrega a domicílio; nossos censores de plantão querem que seja “em domicílio”, por analogia com “em casa”. “Não se entrega a casa; logo, não se entrega a domicílio“. O professor Sírio Possenti, da Unicamp, acerta um direto no queixo desse raciocínio de jerico: se aqui está operando uma analogia, quem disse que o pólo correto é “entrega em casa“? Por que não considerar “a domicílio” como a base do modelo, e considerar errado “entrega em casa“? A resposta dos gramatiquinhos seria, indubitavelmente, “porque sempre se disse e se escreveu, no Brasil, em casa” — o que viraria imediatamente contra eles, porque também sempre se disse e se escreveu no Brasil “a domicílio“.

Não existe obrigatoriedade de uso da mesma preposição em situações de paralelismo semântico: volto A pé, volto A cavalo, mas volto DE carro, volto DE avião. Além disso, há várias estruturas sintáticas em que o A e o EM são intercambiáveis: a tempo, em tempo; em busca de, à busca de; na falta de, à falta de; em favor de, a favor de. E daí? Ninguém prometeu que a língua seria simétrica e lógica; ela é como ela é, nos seus secretos (mas sempre sábios) desígnios. E com o verbo levar? Leva-se EM casa, mas leva-se A domicílio (os portugueses usam entrega ao domicílio, levar ao domicílio).

Na verdade, a domicílio e em domicílio são duas iguarias totalmente diferentes que a língua está cozinhando. A preposição A que usamos em a domicílio é a mesma preposição que o Português geralmente seleciona para indicar movimento. Por isso, entrega-se, leva-se a domicílio. Assim confirmam Houaiss e Celso Pedro Luft, só para citar esses dois bambas. A preposição EM, por outro lado, é preferida para indicar permanência, local onde se está. O Decreto nº 94.406, que regulamenta o exercício de Enfermagem, diz que ao parteiro incumbe “assistir ao parto normal, inclusive em domicílio“. A Lei de Fiscalização de Entorpecentes, de 1938, diz, no Art. 28, que “não é permitido o tratamento de toxicômanos em domicílio“. Nossa Constituição fala, no Art. 139, V, em “busca e apreensão em domicílio“. O Art. 83 da CLT dispõe que “é devido o salário mínimo ao trabalhador em domicílio, considerado este como o executado na habitação do empregado ou em oficina de família”. E assim por diante. Agora sim: este em domicílio é genuíno; aqui realmente seria um absurdo oceânico tentar usar a preposição A. O trabalhador EM domicílio, uma das modalidades crescentes de emprego deste século, realiza suas tarefas ali onde mora; um trabalhador A domicílio iria realizar seu trabalho no local determinado por quem contratasse seu serviço.

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