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Colorados

 

Mar Vermelho Colorado

Aproveitando o nome de batismo de Hercule Poirot, seu famoso personagem, Agatha Christie escreveu Os Trabalhos de Hércules, coletânea de doze contos em que o detetive belga, metaforicamente, enfrenta os mesmos perigos que o musculoso herói grego. O cão Cérbero, que vigiava a entrada do Mundo dos Mortos, aparece aqui na figura de um ameaçador cachorro preto que monta guarda na porta de um night-club; o javali de Erimanto, que Hércules captura na neve, transforma-se num mafioso corpulento que procura se esconder numa estação de esqui na Suíça − e assim por diante. A meu ver, foi na Hidra de Lerna que a autora foi mais feliz: Poirot, ao ser contratado por um viúvo que não aguenta mais os rumores de que ele próprio tenha matado a falecida, declara, filosoficamente: “O boato é sem dúvida a Hidra de Lerna de nove cabeças, que não pode ser exterminada porque tão logo uma cabeça é cortada outra cresce em seu lugar”.

Sei muito bem o que é isso; não há semana que não apareça um desses “boatos” sobre linguagem, o qual – é uma praga − mais adeptos vai atrair quanto mais absurdo ele for. É um cardume de asneiras: uns afirmam que enfezado é coberto de fezes; outros, que aluno significa “sem luz” (credo!)… Sei que pouco eu posso fazer para matar essas bobagens na casca, mas assim mesmo nunca  desisto: se não posso extinguir o fogo, ao menos tento retardar a sua propagação − e registrar meu protesto.

Pois agora vem um obscuro blogue gaúcho avisar que empregamos a palavra colorado sem saber que o seu uso original estava ligado à escravidão! Ensina ele: “Nos dias de hoje, qualquer um responderia que colorado é a denominação dada aos torcedores do Internacional” (até aqui, morreu Neves! Esta acepção, inclusive, vem registrada no dicionário Houaiss). Ele, porém, prossegue, impávido na sua ignorância: “Mas há cem anos, quando surgiu este clube e seus primeiros torcedores, a palavra tinha um outro significado. Colorado queria dizer escuro, ou negro. Por isto, alguns rios e arroios receberam o nome de colorado. Eram rios de águas turvas, ou seja, escuras devido à presença de terra escura carregada pela correnteza”.

Olhem aí, mais um terraplanista da linguagem! Durante séculos, a língua portuguesa usou este vocábulo com o sentido de vermelho, ou colorido, ou ruborizado, mas aí chega o autor de um bloguezinho (não vou identificá-lo; não faço propaganda de coisa ruim) e num traque resolve negar todas essas evidências! Na Crônica da Ordem dos Frades Menores (de 1285), um superior admoesta um jovem frade, “o qual, todo colorado, abaixou a cabeça e entrou no refeitório, juntando-se aos outros na mesa”. Como devo entender esta passagem, então? O frade ficou preto de vergonha? Se muitos riachos e rios que receberam o nome de Colorado (inclusive o do Arizona), não seria por terem as águas avermelhadas pelo tipo de solo característico? E a sinistra gravata colorada, nome dado à degola em nossas revoluções aqui no pampa, não era uma alusão à língua ensanguentada que saía pelo talho no pescoço? E no Uruguai, nosso estimado vizinho, o partido dos colorados, eternos rivais dos blancos, por acaso não tem o vermelho como a cor-símbolo? E não será exatamente por isso, ó grande sumidade, que os torcedores do Internacional receberam esta denominação?

A esta altura, o leitor deve estar perguntando por que gasto tanta pólvora em ximango. Um blogue assinado por um amador merece assim tanta atenção? É fogueira que pode incendiar uma Austrália, ou não passa de uma chaminha que vai se extinguir sozinha? Pois, amigos, eu nem falaria nesta abstrusa teoria se ela não tivesse sido encampada por um autor de renome nacional, Laurentino Gomes, em seu livro Escravidão. Este jornalista, autor de várias reportagens sobre a História do Brasil, aqui pecou por indesculpável ingenuidade, engolindo com penas e tudo aquela peta sobre o significado “antigo” de colorado. Diz ele, textualmente: “No passado, [colorado] referia-se aos negros e mulatos… Um dos primeiros clubes de futebol a aceitar jogadores e torcedores de origem africana foi o Internacional de Porto Alegre… Por isso, hoje, os torcedores do Inter se chamam, orgulhosamente, de colorados“. Ah, para com isso! É claro que historicamente ocorreu uma maior ligação dos negros com o Inter — e não é por acaso que nosso mascote é (ou era?) um esperto saci-pererê — mas não é necessário forjar uma explicação etimológica para inventar uma falsa novidade.

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Egito e Grécia

 

Para falar na cultura egípcia, usamos palavras gregas  – algumas delas bem pouco elogiosas.

Escrevo estas linhas a bordo do navio Mayfair, que singra o Nilo em direção ao sul do Egito. Como Heródoto, quatro séculos antes de Cristo ─ e  como Dom Pedro II, dezoito séculos depois ─, nosso grupo vai fazendo um périplo inesquecível pelos mesmos templos e túmulos que eles visitaram, enfiando um rosário de nomes que sempre viveram na minha imaginação e que só agora se concretizam à minha frente: Luxor, Karnak, o Vale dos Reis, Edfu, Philae, sem contar Alexandria ─ para muitos a cidade de Alexandre, mas para mim a cidade de Antônio e Cleópatra  e, acima de tudo, a cidade de Cavafys.

Se foi pelo olhar da Grécia antiga que o Ocidente tomou contato com a terra dos faraós, não é de espantar que só possamos falar dele usando palavras de origem grega. Assim, vendo passarem, pela janela da minha cabine, as margens verdejantes do Nilo, com seus renques de tamareiras, vou explicar a origem curiosa de alguns nomes que os gregos escolheram para falar da cultura egípcia.

Em primeiro lugar, temos os hieróglifos, que figuram por toda a parte, nas paredes dos templos e nos monumentos. Esta é uma palavra de dupla prosódia, o que significa, em vernáculo, que tanto faz pronunciá-la com a tônica no /ró/ (como eu faço) quanto no /gli/ ─ aliás, como o nome de Cleópatra, que aqui no Egito é pronunciado à moda grega, com a tônica no /pa/, rimando (que a rainha me perdoe pelo mau gosto!) com alcatra. Esta palavra é composta do adjetivo hieros (“sagrado”) mais glifo (“letra, entalhe”) ─  algo assim como “letras sagradas”, porque os gregos, embora não soubessem ler este tipo de escrita, perceberam o seu caráter nitidamente religioso.

Depois vêm obelisco e pirâmide, duas imagens que associamos desde sempre ao Egito e que espantam mais pelo seu tamanho do que propriamente pela beleza artística. Outrora prevalecia aqui o gigantismo arquitetônico, com colunas que vinte homens não podem abarcar com seus braços abertos, ou com obeliscos de granito de mais de quarenta metros (o obelisco de Luxor, hoje instalado na Place de la Concorde, em Paris, pesa centenas de toneladas e exigiu, para seu transporte, a construção de um navio especial, com várias quilhas). As pirâmides são maiores ainda. A de Quéops tem mais de 140 metros de altura e foi por 4.000 anos (até o surgimento das catedrais medievais) a mais alta construção do planeta. Ora, sendo tudo isso tão despropositadamente grande, não poderia deixar de causar má impressão nos visitantes gregos, povo sabidamente inimigo da desmedida e do exagero ─  sem falar, imagino, na inevitável ferida narcísica que a visão daquelas massas gigantescas  deve ter provocado num povo tão orgulhoso de sua superioridade que consideravam bárbaros todos os demais povos que conheciam.

Segundo Lacarrière, grande conhecedor do mundo grego, essa é a única explicação para chamarem as imensas agulhas de granito inteiriço de obelisco, termo formado de obelos (“espeto”) mais o sufixo diminutivo isco (o mesmo que está em asterisco, “estrelinha”) ─  ou seja, apelidaram-nas de “espetinho”! E por ter a forma semelhante à das pirâmides, usaram para batizá-las o nome de um pão especial feito de trigo, pyramis, reduzindo assim todas aquela pompa e magnificência a um cenário de piquenique, com espetinhos e pãezinhos  ─ e não venham me dizer que foi por acaso.

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Homofóbico

Diferentemente de HOMÔNIMO, o termo HOMOFÓBICO nasce do encontro de dois processos diferentes de formação de palavras.

“Professor, até hoje não consigo compreender o termo homofóbico. Não falo do sentido, que me parece bem claro, mas das partes que o compõem. Este homo quer dizer “semelhante”, como em homógrafo, não é? Pelo que eu entendo, homossexual é quem procura parceiros de sexo semelhante ao seu; pela mesma razão, homofóbico não deveria significar quem tem aversão a seu semelhante? Onde foi que eu me enganei?” — pergunta Alcides M., de Santos, São Paulo.

Caro Alcides, não foste o primeiro, nem serás o último a levantar este problema. Aqui mesmo, nesta coluna, tive a oportunidade de tratar do assunto, mas vou explicar de novo, pois já lá vai uma meia dúzia de anos. Vamos começar pela parte mais fácil, que é a fobia. Esta palavra fobia tem origem na mitologia grega: Fobos, (“medo”), era filho de Afrodite e Ares (em Roma, Vênus e Marte, respectivamente), fruto da mais célebre e invejada relação extraconjugal da literatura clássica, narrada por Homero no canto VIII da Odisseia. Era gêmeo de Deimos (“pavor”), e não foi por acaso que o astrônomo que descobriu os dois satélites do planeta Marte batizou-os com o nome dos irmãos.

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Tecnicamente, o termo fobia designa um medo incontrolável, irracional, muitas vezes exagerado, que nos domina em determinadas situações e terminam atrapalhando nossa vida. Quem sofre de claustrofobia, como eu, por exemplo, não consegue controlar seu pânico ao entrar em lugares fechados ou exíguos — e já sei que vou me ver em betas quando visitar as pirâmides do Egito neste outubro próximo. Originalmente, fobia só se juntava a outros elementos gregos, como ela — xenofobia (de xenos, “estrangeiro”); acrofobia (de ákros, “altura”); hidrofobia (de hydro, “água” — nome antigo da raiva, porque um dos sintomas de quem foi infectado pelo vírus é a dificuldade de ingerir qualquer líquido); fotofobia (de foto, “luz”). Com o tempo, porém — como era natural — fobia passou a fazer parte dos utensílios básicos de nossa cozinha linguística, capaz de ser acrescentado a vocábulos quotidianos do Português, como em gordofobia, veganofobia, islamofobia, velhofobia (uma versão popular para a gerontofobia, “antipatia por idosos”) e muitos outros mais que se usam ou usarão nesta época de infinitas intolerâncias.

Agora, vamos ao homo. Aqui vais ver em ação um novo processo de formação de palavras, razoavelmente recente (não chega a ter cem anos, o que, em linguagem, é muito pouco): no momento em que palavras complexas, de origem erudita, ingressam no vocabulário usual do brasileiro, há uma forte tendência a reduzi-las a um padrão prosódico mais confortável. Foi assim que fotografia virou foto e motocicleta virou moto, por exemplo. É um progresso, sem dúvida — mas nem todo o mundo se deu conta de que, por trás desta simples operação de encurtamento, a língua portuguesa estava parindo um novo vocabulozinho que iria fazer concorrência com seu pai. Em fotossíntese, fotocélula, fotofobia e fotografia, podemos ver claramente que este elemento foto tem, como no Grego, o significado de “luz”,  Ora, no momento em que reduzimos fotografia para foto, criamos um vocábulo com a mesma forma mas com sentido completamente diferente: em fotomontagem ou fotojornalismo, foto significa “fotografia”, e não “luz”.  Em autobiografia, autocomiseração e automóvel, o auto original significa “a si mesmo”; no momento em que encurtamos automóvel para auto, com o sentido de carro, passamos a ter uma novidade como automecânica, que é uma mecânica de carros, e não uma mecânica de si mesma. Temos, portanto, um autoA e um autoB — e um bom dicionário deveria abrir uma entrada diferente para cada um.

Pois foi exatamente isso o que aconteceu com homo, que recebemos do Grego com o sentido de “igual, semelhante” (o antônimo de hétero), como se vê em palavras eruditas como homônimo (“o mesmo nome”) e homossexual (“o mesmo sexo”). Este último, ao sair do restrito mundo acadêmico e ingressar na fala de todo o mundo, sofreu o natural encurtamento para homo, figurando já com o novo sentido em compostos como homoafetivo, homoerótico e homofobia, onde não mais significa “semelhante”. Como um Lego infinito, nosso idioma, sem parar, combina e recombina suas peças para acompanhar nossa realidade.

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Azul e rosa

Nas cores, tudo são convenções — umas duráveis, outras efêmeras.

Qual é a cor do menininho, perguntam. E da menininha? Ainda vale a oposição azul para o gauchinho, rosa para a prendinha? Ora, diz o velho provérbio, cores e gostos não se discutem: enquanto no Ocidente a cor do luto é o preto, em muitos países do Oriente é o branco que tem este valor. Nossas noivas ainda se vestem de branco, mas na Índia elas preferem o vermelho e na Noruega elas casam de verde. Cada povo — e também cada classe social, cada grupo etário, cada possível agrupamento de indivíduos formado pelos infindáveis critérios de simpatia ou semelhança — difere dos demais nas cores que prefere, nas combinações que valoriza e no simbolismo que a elas atribui.

Há associações inconscientes, aparentemente sem motivo, ao lado de outras que parecem baseadas em razões concretas. O branco está naturalmente ligado à higiene e à saúde (nas ambulâncias, nos hospitais, na roupa dos enfermeiros). Por extensão, branca também é a pureza e a inocência (o vestido de noiva, a roupa do nenê no batizado) e a sabedoria benfazeja (os sábios da lenda sempre têm roupas e barbas brancas).

O amarelo, por sobressair sobre fundos escuros, é a cor por excelência de tudo aquilo que precisa ser chamativo (as bolas de tênis, os botes salva-vidas, as capas de chuva de quem trabalha na estrada). O verde, cor da natureza fecunda, é associado por analogia com a juventude, o que parece natural (nossos verdes anos) — mas, no imaginário popular, por alguma razão inexplicável, os homenzinhos que pilotam os discos-voadores são sempre verdes, assim como os duendes. O azul, cor do céu sereno, ficou naturalmente ligado à paz e à tranquilidade (o azul da Comunidade Européia; os capacetes azuis da Força de Paz; a expressão “está tudo azul”). O vermelho, que era a cor dos imperadores e da nobreza, é atualmente reivindicado pelos partidos de esquerda; por evocar o fogo, é também associado ao perigo (o alerta vermelho, a bandeira vermelha das praias), ao fogo (os caminhões de bombeiros, os hidrantes, os extintores de incêndio). E por aí podemos ir, explorando a aquarela.

No caso em questão − assunto momentoso para quem não tem o que fazer −, a associação hoje vigente é azul para meninos, rosa para meninas. Por que não é ao contrário? Ninguém sabe; há estudos que tentam explicar isso antropologicamente (a maior sensibilidade da mulher para nuanças de cores chamativas, adquirida pela necessidade primitiva de distinguir, na floresta e na savana, os vegetais comestíveis), mas tudo ainda é simples especulação. E desde quando? (afinal, como vimos, os valores mudam com o tempo). Os estudos sérios apontam as primeiras décadas do séc. 19 (ao contrário do propalado − e equivocado − trabalho de Jo Paoletti, que tenta demonstrar que até 1940 o costume corrente era exatamente ao contrário, azul para as meninas e rosa para os meninos). A Wikipedia, desta vez, faz um belo trabalho ao listar registros de revistas de moda e de etiqueta a partir de 1823 (aqui: https://goo.gl/TS21mB).

Na segunda metade do séc. 20, é verdade, a exploração comercial da diferença de gêneros contribuiu para reforçar o que era uma tendência inicialmente espontânea: a distinção entre produtos “masculinos” e “femininos” nas roupas e brinquedos de criança quase duplicou o mercado: até as bicicletas, bens que tradicionalmente passavam pela família inteira, deixaram de ser intercambiáveis entre irmãos e irmãs (eu, aos oito anos, já sabia que a blusa das meninas era abotoada do lado contrário da blusa dos meninos, mas não lembro qual era o lado “certo”). Foi aí que nasceu também a taxa rosa, aquele sobrepreço que onera inexplicavelmente a maior parte dos produtos femininos (um barbeador rosa, por exemplo, custa mais do que um azul − e a única diferença entre eles é a cor). Como vemos, tudo são apenas convenções − umas duráveis, outras efêmeras. Desde 1800, o bebê costuma usar no batizado um gorrinho branco, ou, no máximo, azul, se for menino,  ou rosa, se for menina  − mas nada impede que um orgulhoso papai ninja batize sua filha com uma touquinha preta. E como disse uma amiga minha: quando eu era bebê, usava rosa; agora sou mulher e uso preto, porque emagrece. E chega de nhenhenhém.

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Antagônimos

Os desconcertantes vocábulos que exprimem significados contraditórios ou opostos, como SANÇÃO, RELEVAR ou APARENTE.

O leitor Jorge Luiz S. (não mencionou a cidade) vem fazer um apelo quase dramático: “Caro Professor, lamento abusar da sua paciência, mas uma dúvida consome minhas noites. O verbo relevar, bem como seus cognatos (relevante, relevância, etc.), se apresenta  com dois valores distintos. Às vezes indica destaque, importância: “É de suma relevância que se aprove a reforma da Previdência”; outras vezes, ao contrário, sugere perdão ou pouca importância: “Deus há de relevar meus pecados”. Como interpretar isso, sem dar um nó na minha, diga-se, relevante saúde mental?”.

É natural que estranhes, meu caro Jorge, este comportamento do verbo relevar. Que as palavras tenham a propriedade de ganhar novos sentidos, isso ninguém desconhece; agora, que um mesmo vocábulo exprima significados contraditórios ou opostos, isso é muito raro − raríssimo, posso assegurar. Não é um fenômeno exclusivo do Português. Em Inglês, por exemplo, exatamente como em nosso idioma, sanction (sanção) pode significar tanto “aprovação” quanto “penalidade”: “A lei aguarda a sanção presidencial” versus “O Brasil pode sofrer sanção moral se descumprir o acordo”).

Como chamar esses vocábulos que carregam sentidos opostos? Não me parece uma questão essencial; dado o pequeno número de exemplos existentes, a Linguística acertadamente não se preocupou com isso. Já sugeriram chamá-los de antagônimos, como usamos no título da coluna. Outros as denominam de palavras-Jano (só para lembrar, Jano é um dos poucos deuses que Roma não importou da mitologia grega. Ele é bifronte, ou seja, é sempre representado com duas faces que olham em direções opostas − uma voltada para o passado, a outra voltada para o futuro. Por ser a divindade que preside o fim de um ano e o início do próximo, o mês dedicado a ele foi chamado de janeiro). Não creio que esta metáfora mitológica exprima adequadamente a ambiguidade de palavras como relevar. Para mim, elas seriam mais como o Doutor Jekyll, da obra The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, conhecida aqui no Brasil com o enganoso título de O Médico e o Monstro. Neste livro de Robert Louis Stevenson, o doutor, sob efeito de uma poção que ele próprio criou, deixa aflorar temporariamente o seu lado sombrio e reprimido, o Mister Hyde que mora dentro dele. Se por um lado esta comparação me parece mais justa, sou obrigado a confessar que palavra-Dr. Jeckyll seria ainda pior que palavra-Jano…

De qualquer forma, relevar não está sozinho. Há mais alguns exemplos, além do já mencionado sancionar. O termo handicap, que no Inglês significa “desvantagem” (os handicapped são os que chamamos de  deficientes), entrou em nossos dicionários com dois significado: “(1) vantagem; (2) desvantagem”! Durante muito tempo, hóspede  designou tanto aquele que era recebido numa casa ou numa hospedaria, quanto aquele que fornecia a hospedagem (que hoje preferimos chamar de anfitrião ou hospedeiro). Aparente pode ser “aquilo que se vê” ou “o que parece, mas não é” − todos concordamos que a frase “O talento dele é aparente” é ambígua. O verbo alugar serve para os dois lados da transação: “Eu alugava um terreno na Av. Assis Brasil” − eu pagava ou recebia aluguel? E o teu relevar? Como vamos entender algo como “Há vários aspectos que devemos relevar“? Como no traiçoeiro handicap, só o contexto vai decidir de que lado devemos montar neste cavalo.

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Schadenfreude

Sentir prazer com a desgraça alheia? Sim, há um nome para isso.   

Não existem no mundo duas línguas que compartilhem exatamente o mesmo vocabulário − e olha que ainda restam mais de seis mil línguas vivas (por enquanto…)! Mesmo entre as línguas românicas, irmãs de sangue, haverá muitas palavras que existem numas e faltam noutras. Em inúmeros casos a presença (ou a ausência) de algum termo se deve a diferenças geográficas ou culturais; não seria justo exigir que o Francês conhecesse todo o vocabulário que gravita em torno do chimarrão nosso de cada dia, nem que o Inuíte (dos esquimós) incluísse todos os termos que os árabes usam para falar do camelo.

Esse tipo de lacuna não tem importância. É natural que a fauna, a flora e os costumes de cada região, sendo diferentes, façam brotar um léxico também distinto; se precisarmos um dia falar num desses itens exóticos, vamos buscar a palavra lá na língua de origem, adaptando-a à nossa fonologia ou comendo-a como veio, crua mesmo. Assim aconteceu com iglu, tobogã, vodca, jipe, gêiser, conhaque, pizza, blecaute e similares: quando precisamos delas, fomos laçá-las na planície e as incorporamos ao rebanho.

Na caverna escura da psiquê humana, no entanto, os contornos não são tão nítidos, a começar por uma grande dúvida: todos os seres humanos têm as mesmas emoções? Existe uma psicologia universal?  Se me perguntarem, só posso responder que sou sábio o suficiente para evitar qualquer palpite. Mas sei, no entanto, que outras línguas têm palavras que invejo, pois designam emoções ou comportamentos que conhecemos muito bem. É o caso, por exemplo, de frotteur (literalmente, “esfregador” − do Francês frotter, “roçar, esfregar”), termo usado para designar aqueles pervertidos que andam por aí aproveitando as aglomerações ou a superlotação do nosso transporte público para abusar da (ou do) infeliz que estiver na sua frente, esfregando-lhe no corpo as partes em que não bate o sol.

É o caso também de schadenfreude, o tema desta coluna, dúvida de uma leitora catarinense que assina com o pseudônimo de Criptonita Nacional: “Na segunda-feira devorei o jornal para ler sobre a eleição e encontrei uma palavra que parece alemã: schadenfreude. Ali dizia que depois da apuração a cara do Ciro Gomes devia ser de total isso aí. Pode me esclarecer?”.

Prezada Criptonita, o idioma está certo! Schadenfreude, do Alemão, foi cunhada no séc. 18, composta de schaden (“dano”) e freude (“alegria”). Ela designa aquele prazer maldoso que sentimos quando testemunhamos ou ficamos sabendo dos fracassos ou humilhações alheias, mesmo que disso não extraiamos benefício algum. Para as boas almas, é um sentimento condenável, como observou um severo linguista do séc. 19: “Que coisa assustadora é saber que uma língua tenha uma palavra para expressar o prazer provocado pela infelicidade dos outros, pois a simples existência do termo já prova que o sentimento existe”. Schopenhauer vai ainda mais longe: para ele, este é “o pior traço da natureza humana. É um sentimento próximo da crueldade, e dela só difere, no fundo, como a teoria difere da prática”.

Para outros, como Robert Burton (The Anatomy of Melancholy) ou Nietzsche (Humano, Demasiado Humano), é um sentimento comum a todos nós. Na chuvarada de domingo, um vizinho comentou, sorrindo, na fila do açougue: “E meu cunhado foi para a praia com toda a família!”. Peter Gay, um historiador judeu, guardou para sempre na memória a alegria com que viu os nazistas perderem, uma após a outra, as medalhas de ouro na Olimpíada de 1936. Queres imaginar o que disse o jornal? Na série de animação infantil Corrida Maluca, o cachorro do Dick Vigarista − Muttley (a.k.a. Rabugento) − tinha um riso que era pura schadenfreude. Põe o Ciro no lugar de Muttley e vais entender o que o jornalista queria dizer.

 

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As manhas do dicionário

Apesar de parecer sólido e oracular, o dicionário vai desapontar quem não apertar os botões corretos. Mesmo sendo cavalo mansinho, ele também tem o lado certo de montar.

Entre muitas outras coisas, a vida de professor nos ensina que nenhuma pergunta é óbvia para quem a faz. Aliás, essa é a nossa principal tarefa: a partir da dúvida do aluno, descobrir qual o fiozinho que está desligado, isto é, qual é a informação que está faltando para que ele volte, pelas próprias pernas, para o caminho certo. Até mesmo o dicionário, que era inocentemente chamado de amansa-burro (expressão que hoje pode desagradar tanto às pedagogas quanto às defensoras dos animais) — até mesmo o dicionário, repito, que parece tão sólido e oracular, vai desapontar o usuário que não souber apertar os botões corretos. Abaixo vão alguns exemplos.

A leitora Cássia A. escreve: “Sei que a palavra noz possui os diminutivos irregulares núcula e nucela; gostaria de saber se ela possui também o diminutivo regular nozinha, que não está no dicionário” — Não está porque não precisa, Cássia. Qualquer substantivo ou adjetivo pode formar, se quisermos, um diminutivo em -inho ou em -zinho. Se voz tem vozinha, luz tem luzinha, noz pode ter nozinha (aliás, usamos muito, aqui em casa, no Natal). Por medida de economia, os dicionários registram só os diminutivos e os aumentativos irregulares: chorinho, de choro, é indispensável por causa da música; folhinha, de folha, por causa do calendário; macacão, por causa do traje — e assim por diante.

A mesma explicação, aliás, serve para a leitora Belisa F., de Macapá, que informa não ter encontrado em lugar algum a explicação da palavra inextricavelmente: basta procurar inextricável. Por ser um processo automático do idioma — todo adjetivo pode, com o acréscimo de -mente, produzir um advérbio —, os dicionários aproveitam para registrar apenas aqueles que fogem ao significado original (literalmente, por exemplo, que pode ser tanto “expressamente” quanto “totalmente”, como em “Isso foi dito literalmente” e “Estava literalmente arrasado”).  E aqui vai um caveat para ambas, Cássia e Elisa: esta é a maior, se não única,  desvantagem do dicionário eletrônico (tanto no computador quanto no celular): na edição em papel, ao procurar inextricavelmente, o usuário vai deparar com inextricável, e aí mais de meio caminho já estará andado. Na edição eletrônica, porém, vai receber apenas a chocha mensagem de “verbete inexistente”.

João Carlos C., de São Paulo, tem dúvida sobre a pronúncia do “X” no nome do filósofo grego Anaxágoras, enquanto Carlos R. Júnior, de Porto Alegre, precisa saber se a grafia correta é Groenlândia ou Groelândia. O problema é o mesmo, e mesma é a solução: nossos dicionários, ao contrário dos dicionários ingleses, não incluem nomes próprios, mas sempre podemos encontrar algum substantivo ou adjetivo derivados que nos deem a informação procurada. O dicionário Houaiss, nos verbetes anaxagoriano e anaxagórico, recomenda pronúncia /cs/, e define groenlandês como “aquele que é natural ou habitante da Groenlândia“. Está respondido.

Javier S., de Montevidéu, quer saber por que os dicionários não indicam se incesto e dolo têm a pronúncia aberta ou fechada. Caro Javier: eles indicam, sim. Nossos dicionários seguem sempre a mesma  convenção: quando deixam de indicar o timbre da vogal, é porque a consideram aberta. Em porto, cedo e lagosta, há a indicação, entre parênteses, de que a vogal é fechada — mas nada consta em verbetes como porta, credo e, da mesma forma, incesto e dolo

Finalmente, Misael P., de Recife, escreve para dizer que não encontra o significado de boxo e boxa que aparecem num poema de Drummond: “Hoje sou moço moderno,/ remo, pulo, danço, boxo,/tenho dinheiro no banco./Você é uma loura notável,/boxa, dança, pula, rema”. Ora, prezado Misael, o velho Drummond está usando o verbo boxar (variante de boxear) — e os lexicógrafos jamais registram os verbos conjugados (a cinquenta e poucas flexões por verbo, isso implicaria acrescentar mais de um milhão de formas ao corpo do dicionário). Aqui um dicionário eletrônico ganha mil pontos sobre seus colegas impressos: ao consultarmos o verbete de um verbo, podemos abrir, a um simples clique, uma janela contendo sua conjugação completinha.

 

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Caminhão

Por acaso um vocábulo tecnicamente “malformado” como CAMINHÃO não tem o direito de viver? É nos desvios da norma que a língua está realmente inovando.

Confesso que fiquei emocionado quando vi, entre os e-mails de sempre, uma mensagem de antiga colega da quinta série, quando eu me preparava para o Exame de Admissão. Muito gentil, ela faz questão de informar que está morando em São Paulo mas acompanha o meu trabalho há muitos anos, até porque — eu não sabia — cursou a faculdade de Jornalismo e sempre trabalhou como revisora de texto. “Já usei várias de tuas colunas para amansar clientes teimosos — sabes como é, aqueles que embirram contra as correções que proponho. Também pesquiso bastante no teu site, mas desta vez não achei o que eu preciso: o dono de uma pequena rede de clubes noturnos leu em algum lugar que é errado chamar de consumação aquela quantia mínima que se cobra na entrada, pois o certo seria consumição — aquilo que será consumido. Não posso negar que haja certa lógica no que ele afirma, mas minha intuição e alguns bons dicionários dizem que sempre foi assim e que seria imprudência mexer nisso. Só não tenho nenhum argumento técnico para contrariá-lo; como dizia nosso hino, “pela glória do Instituto e a grandeza do Brasil”, podes ajudar esta velha colega?”.

Posso, sim — e com todo o prazer. Estamos diante de um dos incontáveis exemplos da legítima criatividade linguística — a verdadeira, a genuína —, diferente da criatividade estrutural, intrínseca a qualquer idioma. Como bem sabes, há processos de formação que estão registrados no DNA da língua portuguesa, segundo os quais as mesmas causas sempre vão produzir os mesmos efeitos: a partir de verbos transitivos diretos, por exemplo, podemos gerar adjetivos com o sufixo –vel: lavar, lavável; crer, crível; comer, comível. Quando aquele ministro do Collor se saiu com um imexível, ele não estava criando o termo, como foi dito na época, mas apenas usando um mecanismo regular que o Português põe à nossa disposição.

Do mesmo modo, -ção é um dos sufixos usados para derivar um substantivo abstrato a partir de um verbo: agitar, agitação; atribuir, atribuição; definir, definição. Por esse modelo, consumirconsumição, mesmo — e consumação deriva de consumar (lembro a “consumação do casamento”, por exemplo). No entanto, por influência do Fr. consommation, os brasileiros consagraram o derivado de consumar para exprimir o ato de consumir. Para alguns autores, esta irregularidade basta para condenar o recém-nascido; para outros (que eu prefiro), é nestes desvios da norma que a língua está realmente inovando. E por acaso esses vocábulos tecnicamente “malformados”, esses “acidentes genéticos” não têm o direito de viver?  Quem vai decidir é o plebiscito silencioso do uso: cada vez que alguém o emprega, está votando por sua existência, e hoje, no Google, “consumação mínima” está batendo cinco milhões e meio de ocorrências. Como meu mestre Luft dizia, entre amigos, “palavra nova é como macarrão; atirou na parede e colou? Então essa não morre mais”.

Queres um outro exemplo, dolorosamente atual? Caminhão veio do Fr. camion, termo usado desde o séc. 14 para designar uma carroça reforçada para o transporte de fardos pesados,  pedras de construção ou barricas de vinho (meu Robert Historique é taxativo: não há nenhuma hipótese satisfatória para sua origem, mas isso é lá problema deles). O vocábulo francês entrou em nosso idioma no séc. 20, quando se inventou o automóvel de carga, e camion logo se tornou camião, forma ainda hoje preferida em Portugal.

No entanto — e aqui entram aqueles fatores não previstos pelas regras de formação — por influência de caminho, criou-se a variante caminhão, que sempre foi a preferida dos brasileiros. A depender da forma escolhida para designar o veículo, assim serão seus derivados: camionista, camioneiro ou caminhonista, caminhoneiro. A escolha, assim como o voto, é livre e personalíssima.

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Ovação

 

Damos valor às narrativas que reforçam nossas “certezas” e olhamos com desconfiança qualquer versão que as contrarie. Não poderia ser diferente com as palavras.

Pois as tais fake news só vicejam porque encontram terra fertilíssima dentro de nós mesmos. Assim como as lendas urbanas nascem dos nossos temores e desejos mais profundos — e por isso parecem tão verossímeis —, assim essas “notícias falsas” (como se diria em bom vernáculo) parecem bem verdadeiras porque vêm confirmar aquilo que previamente já pensávamos ou sentíamos sobre um tema. Damos valor às narrativas que reforçam nossas “certezas” e olhamos com desconfiança qualquer versão que as contrarie. Sempre foi assim, desde a caverna, e acho que nunca vai mudar. Na versão homérica, os gregos venceram a guerra e destruíram Troia; oitocentos anos depois, Dio Crisóstomo afirmou que isso era uma deslavada mentira, e que Homero havia invertido o desfecho para agradar aos gregos e fazê-los esquecer do vergonhoso fiasco…

Não poderia ser diferente com as palavras. A etimologia pretendia, como diz o nome (do Grego etymon, “verdadeiro”) chegar ao verdadeiro significado das palavras; a realidade, no entanto, reduziu-a aos limites do possível, e ela passou a estudar a história das palavras − ou seja, as narrativas que se tecem sobre elas. Nossos primeiros dicionaristas de renome − Bluteau (1728), e depois dele Morais (1789) − definiam enfezar como “meter fezes”, “encher de fezes o que está limpo”. De onde veio isso? Do Latim? De costumes romanos? Jacaré deu algum exemplo disso? Não? Pois nem eles. Ao menos ambos tiveram a prudência de registrar, como observação lateral, que o termo pode significar também “enfadar muito, fazer encolerizar”. Os dicionários modernos preferem derivá-lo do Latim infensare, “encarniçar-se contra, ser hostil a”, hipótese mais provável que a anterior, mas sempre uma hipótese. Há pontos que ainda falta esclarecer, especialmente no significado, pois hoje enfezar significa tanto “aborrecer, irritar” (“Verias como se pôs a mana Rosa; olha que quando se enfeza é uma víbora” – Macedo) quanto “impedir o desenvolvimento; não se desenvolver; tornar-se raquítico” (“a sexta classe, a cuja frente vinha eu, o mais pirralho e enfezadinho da turma” – Alencar). Veremos qual será a próxima explicação…

O mesmo se dá com ovação. A etimologia popular, na sua comovente simplicidade, fixou-se na evidente semelhança com o radical de ovo e inventou uma história condizente: seria uma cerimônia típica da caserna, uma espécie de trote em que o vencedor era saudado com uma chuva de ovos − podres, acrescentam alguns, para aumentar a macheza da ocasião. Afinal, como disse Flaubert no seu famoso Dictionnaire, a etimologia só precisa de um pouco de Latim e de imaginação…

Os homens de letras, no entanto, contestaram com veemência essa versão ginasiana; diferentemente da espetacular cerimônia do triunfo, que tinha pompa e luxo capazes de matar Hollywood de inveja, a ovação era a comemoração de uma vitória militar de menor importância (combate a escravos ou a piratas, ou vitórias sem derramamento de sangue), ao cabo da qual era sacrificada uma ovelha − em Latim, ovis (daí o nosso ovino). Essa seria, segundo Plutarco, a verdadeira origem do nome. Alguns estudiosos, no entanto, acharam a teoria da ovelha insatisfatória, duvidaram dos conhecimentos que Plutarco teria do Latim (ele só falava e escrevia em Grego) e sugeriram que ovação vem do verbo ovare “lançar gritos de entusiasmo e de alegria”, mais ou menos como o evoé das festas dionisíacas. Achei esta melhor do que as duas outras, até porque existe, em nossa língua, o adjetivo ovante, “triunfante, vitorioso”, que Eça usa mas só fui conhecer agora: “Pus uma rosa ao peito e saí, ovante“, conta o patife do Teodorico, em A Relíquia. E é neste ponto que estamos − por enquanto.

 

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Azulejo vem de azul?

Em etimologia, nem tudo que reluz é ouro, nem tudo que balança cai: pode parecer, mas AZULEJO não vem de AZUL.

O assunto foi levantado por uma professora da rede pública estadual de Santa Catarina, do município de Lajes, cujo nome, a pedido seu, não será mencionado: “Professor, sou uma grande fã sua e tenho certeza de que vai me ajudar. Um aluno me perguntou por que, ao lado do azulejo, que obviamente vem de azul, nós não temos também verdejo, branquejo ou vermelhejo. Acho que é brincadeira, não? Que resposta posso dar a ele?”.

Cara professora, a pergunta veio sacudir a árvore da memória e despertou-me a vaga lembrança de já ter tratado deste assunto. Embora conserve hábitos um tanto fora de moda ― escrevo preferencialmente a mão, com caneta tinteiro e tinta preta ―, aderi à informática desde o tempo do Windows 3.1, fazendo do computador um companheiro que só vou abandonar quando deixar este mundo. Usando de feitiço poderoso (na verdade, o Google Desktop), vasculhei os meus arquivos e encontrei, no início de 2000 (credo! já faz tantos anos!), um e-mail de nosso Luiz Achutti, enviado de Paris, comentando uma coluna em que eu afirmava, oblíqua mas claramente, que azulejo viria de azul. Dizia ele: “Escrevo apenas para dizer-te que vi ontem na TV uma matéria  sobre o Museu dos Azulejos  em Portugal. O cara lá pelas tantas falou que a palavra azulejo não veio de azul (como está implícito no teu artigo), mas sim de uma palavra árabe, de som parecido, que teria algo a ver com revestimento. Não lembro qual era a palavra do Árabe, mas espero que mesmo assim faças bom proveito da minha dica”.

A dica foi realmente valiosa; com a pulga atrás da orelha e um dicionário na mão, acabei confirmando que não há nada que ligue azulejo a azul, embora pareçam ser gente da mesma família. Corominas (conquanto seja um dicionário etimológico do Espanhol, sempre é útil quando estudamos formas compartilhadas entre os dois idiomas) diz que azulejo vem de al-zuleig ou al-zuleij (o al é apenas o artigo), que significa, aproximadamente, “pedrinha polida”, uma referência à arte dos mosaicos romanos, que os árabes conheciam tão bem. Por outro lado, azul, a cor, é uma forma reduzida de al-lzaward, vocábulo que o Árabe foi buscar no Persa e que você conhece como o segundo elemento de lápis-lazúli (do Latim lapis, “pedra” + lzaward, “azul”).

Embora haja um marcante predomínio do azul nos ladrilhos portugueses, todas as outras cores sempre estiveram presentes. Numa descrição da China, em 1520, o viajante informa que “As casas são ladrilhadas de azulejos de muitas cores“. Em 1603, Fernão Mendes Pinto (1603) descreve “um coruchéu [campanário] de azulejos de porcelana muito fina brancos e pretos“. Já no séc. 18, contudo, o bom Bluteau se encarregava de espalhar a falsa etimologia em seu dicionário: “azulejo – “espécie de ladrilho envernizado, com figuras ou sem elas; há brancos e verdes, mas pela maior parte são azuis, e desta cor tomou esta obra o nome“. Sendo ele o grande nome que foi em nossa lexicografia, desconfio que tenha contribuído ― e muito! ― para espalhar esta lenda.