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ventosa

Aluno não aprende sozinho, ciscando como um pinto solto entre livros e apostilas. A aprendizagem sem professor é difícil, demorada e geralmente imperfeita, pois só ele é capaz de identificar os desvios e os becos sem saída em que o pensamento do aluno se perdeu.

Ao contrário do que alguns andam apregoando por aí, aluno não aprende sozinho, ciscando como um pinto solto entre livros e apostilas. A aprendizagem sem professor é difícil, demorada e geralmente imperfeita, pois só ele é capaz de identificar os desvios e os becos sem saída em que o pensamento do aluno se perdeu. Um bom professor deve ser um obsessivo leitor de sinais — as expressões do rosto, as exclamações, as perguntas, tudo vai contribuir para que ele descubra a melhor maneira de ajudar aquele que está ali, à sua frente, à espera desta ajuda. É mais ou menos o que acontece aqui quando me fazem uma pergunta: sem entender exatamente onde reside a dúvida do leitor, é impossível auxiliá-lo — mas, acreditem, isso exige paciência e muita atenção.

De uma pequenina cidade do agreste do Rio Grande do Norte — santa internet! —escreveu uma leitora para pedir notícias sobre o paradeiro de um vocábulo que sua família sempre usou mas que, como verificou com surpresa, não consta no dicionário. “Professor, cresci ouvindo meu pai dizer que a praia de Pirangi era muito ventosa, batida pelos ventos do Atlântico — mas o dicionário que consultei não registra este significado. É um sentido arcaico da palavra, ou não passa mesmo de fala de matuto?”.

É evidente que não levei a informação dela muito a sério, porque a experiência me ensinou que a trágica frase “não consta no dicionário” muitas vezes quer dizer, na verdade, “procurei num dicionariozinho escolar caindo aos pedaços — o único que temos aqui em casa — e não encontrei”. Por isso, com muito tato, tratei de aconselhar à leitora que pesquisasse num dicionário melhor — um Aurélio, um Houaiss, um Aulete —, já que não se trata de regionalismo ou palavra obsoleta, mas, bem ao contrário, de adjetivo usado correntemente, significando “com ventos fortes, com muito vento”. Meu conselho era didaticamente honesto: procura — e encontrarás!

A resposta não se fez esperar: ela costumava consultar nada mais, nada menos que o Houaiss on-line, e podia jurar que lá não havia menção alguma a esta associação com o vento, que tanto ela quanto eu atribuíamos ao vocábulo. “Só pode ser falha deles! Acho que não dá para confiar nesses dicionários da internet; digitei ventosa várias vezes e sempre deu a mesma coisa: fala de tratamento médico, de polvos, de árvores, mas nada sobre o vento”. Bingo! — só então me dei conta de qual era o verdadeiro problema que a afligia, qual era o nó que precisava ser desatado: apesar de escrever com certa desenvoltura, minha leitora não conhecia os rudimentos básicos de uma consulta ao dicionário. Coube a mim explicar-lhe que a palavra que estava procurando era um adjetivo — e que todos os adjetivos vêm sempre registrados no masculino, sobrando para os usuários a tarefa de deduzir o plural e o feminino; que encontramos bonito, mas não bonita, bonitos e bonitas; e que, portanto, se ela digitasse ventoso, finalmente apareceria o adjetivo que buscava, com o sentido de “com muito vento”, mais antigo do que a Sé de Braga. Daí as tardes ventosas, a praia ventosa de Pirangi. Como ela digitava indevidamente o feminino, abria-se o verbete ventosa, agora um substantivo, vocábulo de origem latina que designa aquilo que o polvo tem nos tentáculos e, por semelhança, aquelas campânulas de vidro que se aplicavam nas costas do paciente, consideradas pela medicina antiga como um meio eficaz para tratar diferentes problemas do organismo. Estava solucionada a questão: ela tivera a coragem de perguntar, e eu, felizmente, a coragem de explicar um detalhe que me parecia vergonhosamente óbvio, mas que, como ela mesma confidenciou depois, jamais lhe teria ocorrido espontaneamente.

Outro leitor — sintonizado, aliás, com o atual clima de Páscoa —, veio perguntar se a  expressão “entrou como Pilates no Credo” serve para crítica ou elogio, porque ouviu usarem-na a respeito de um amigo recentemente nomeado para cargo importante numa emissora estatal de televisão. Tenho de ser sincero: é uma crítica, meu caro leitor. Pôncio Pilatos (e não Pilates, que é o método de ginástica…) era o governador romano da Judeia quando Cristo foi crucificado; como seu nome é casualmente mencionado no Credo (do Latim, “creio”), uma das orações mais tradicionais da Igreja Católica, ele acabou se tornando, por isso, o símbolo do sujeito que não tem nada a ver com a situação em que se encontra — aquilo que o povo descreve como “entrar de gaiato”.

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O livro do MEC (conclusão)

 

Do ponto de vista científico, desconhecer o Português padrão não representa deficit algum; do ponto de vista social, no entanto, esse desconhecimento é uma verdadeira SENTENÇA CONDENATÓRIA.

 

1 — O conhecimento da NGB é indispensável — Terminei a coluna anterior declarando, taxativamente, que a condição mínima para um aluno estudar de forma sistemática o Português é o domínio de uma metalinguagem comum, consolidada, usada por todos os professores e por todos os livros que tratam do idioma. É por isso, aliás, que todos os países do mundo exigem que o aluno saia da escola dominando algum tipo de nomenclatura obrigatória. O Brasil tem a NGB, Portugal tem a NGP — modelos certamente discutíveis do ponto de vista da Lingüística, mas que, com algumas pequenas correções, são satisfatórios para a prática do ensino, baseados no mesmo fundo comum greco-romano adotado pela gramática escolar de todas as línguas do Ocidente (Portugal viveu há pouco uma frustrada tentativa de mudança, quando uma comissão de lingüistas fez aprovar uma terminologia gramatical “inovadora”, que, para alívio de todos, foi jogada no lixo ao cabo de quatro anos desastrosos).

2 — O professor de Português não é feio como pintam — Os defensores desse novo ensino light e descafeinado do Português têm um saco de pancadas preferido: o professor retrógrado e prescritivista, que tratava o idioma como coisa estática e imutável, inelástica, redutível a uma “pilha de regras” caprichosas, às quais todos os usuários deveriam se submeter. Este ogro autoritário não admitia contestação, e ai de quem se insurgisse contra algum dos princípios que defendia, pois logo tratava de acalmá-lo usando os escritores clássicos (nem sempre os melhores) como um verdadeiro porrete: e toma Filinto Elísio, e dê-lhe Castilho, e toma Coelho Neto.

Ora, como diria um personagem do Eça, não me venham com lérias! Este personagem há muito desapareceu de nossa escola, junto com o guarda-pó e a palmatória; é apenas um bicho-papão inventado para assustar as crianças do curso de Letras e promover a posição “libertária” defendida por esses novos adeptos de Rousseau. É — vou escrever bem devagar — apenas uma caricatura grosseira, uma verdadeira injustiça para os tantos bons e verdadeiros professores que honram nossa profissão. O professor de Português procura incutir em seus alunos o interesse pela palavra, pelo texto, pelo livro e pelo dicionário, explicita a estrutura de nossa língua, destaca as diferenças entre a escrita e a fala, discute criticamente as regras “consagradas”, aponta as várias alternativas existentes para cada situação — e também recorre aos clássicos, mas com o intuito de mostrar a riqueza do idioma e pôr no seu devido lugar aqueles tiranozinhos que passam a vida a condenar construções como “risco de vida”, “faz com que” ou “a grande maioria”.

3 — A escola tem a obrigação de ensinar uma língua padrão — O repúdio àquele ensino dogmático do passado não pode servir de pretexto para banir da Escola toda e qualquer atitude prescritivista, nem altera a verdade absoluta de que todo estudante precisa dominar a língua standard para usá-la nos contextos e nas situações em que ela for mais adequada e recomendável. Aqui existe um mal-entendido tragicômico: quando os lingüistas dizem (às vezes, chegam a gritar!) que uma variedade do idioma é tão boa quanto as outras, o público simplesmente os ignora. Sei que, aos olhos de um cientista, esta indiferença do leigo para com a espantosa complexidade de qualquer variedade lingüística deve parecer irracional, mas ele precisa entender que do ponto de vista social não há irracionalidade alguma em privilegiar uma variedade sobre as outras. Aos olhos de um cientista, isso é uma manifestação do que ele chama de preconceito lingüístico; aos olhos de qualquer brasileiro, o preconceito lingüístico — assim como dezenas de outros preconceitos, aliás — existe, existiu e existirá, mesmo se “um mundo melhor for possível”. É exatamente por isso que ele procura dominar um sistema que o livre de julgamento negativo por parte dos outros; a existência de uma norma padrão que possa orientá-lo faz com que ele se sinta mais seguro e confiante de que suas escolhas serão aceitas dentro do consenso lingüístico da comunidade em que vive.

É por isso também que as tentativas de tranquilizá-lo, de convencê-lo de que o Português que ele usa é tão bom quanto o das “elites” são encaradas como pura conversa para boi dormir. Do ponto de vista científico, desconhecer o Português padrão não representa deficit algum; do ponto de vista social, no entanto, esse desconhecimento é uma verdadeira sentença condenatória. O cidadão procura limites bem claros, que ele possa enxergar para não transgredir — preocupação, aliás, compartilhada por todos nós, do aluno do EJA aos pós-graduandos em Lingüística. Ele quer, ora bolas, dominar um modelo que o deixe seguro ao redigir seu convite de casamento, ao registrar o nome do filho, ao rabiscar um cartaz para seu carrinho de cachorro-quente, ao fazer um concurso público ou ao escrever a conclusão de sua tese de doutorado. No meio acadêmico, já ouvi quem criticasse — e com que direito, meu deus? — o pragmatismo, o imediatismo (juro que foram palavras textuais) “dessa gente que só quer aprender o idioma para melhorar na vida e conseguir um emprego melhor”…

4 — O que há de errado com o livro do MEC? — O livro do MEC não passa de um manual insosso, banal, assistemático, ruim como muitos, sem nada que o faça se destacar entre dezenas de outras obras da mesma laia. O volume que examinei reúne, no mesmo capítulo, generalidades sobre os pronomes pessoais, o ponto, a concordância e a acentuação — uma sopa rala e confusa, servida morna para o pobre aluno do EJA. Na verdade, nem mereceria ser discutido, não fosse ter atraído sobre si a luz dos holofotes. Não que nele se ensine a falar errado; o criticado *nós pega peixe figura ali apenas como exemplo de uma das variantes populares. O livro adverte, inclusive, que escrever é diferente de falar e que essa não seria a forma recomendada pela norma culta. O que provocou a reação negativa, no entanto, foi ver como o ensino da língua aparece ali subjugado ao discurso ideológico desta Lingüística pós-moderna: a norma culta é vista como a língua da classe dominante, todas as variantes são consideradas eficientes como meio de comunicação, quem critica a variante popular é tachado de preconceituoso — ou seja, a questão da língua padrão é abordada numa perspectiva completamente inadequada para aquilo que a Escola se propõe a fazer. Os autores esqueceram a porta da cozinha aberta e subitamente o público se deu conta de como está sendo feita a comida que a Escola serve à nossa juventude — daí a gritaria.

Pela primeira vez veio a público aquela briga surda que se trava há mais de vinte anos entre os verdadeiros professores de Português de um lado e os lingüistas/pedagogos do outro. Nosso mestre Luft escreveu Língua e Liberdade para se contrapor aos seus adversários da vida inteira, os gramáticos puristas, normativos ferrenhos, geralmente adeptos da perniciosa “análise lógica”; se agora estivesse entre nós, certamente estaria ocupado em fazer a Lingüística recuar para o seu campo legítimo de atuação, que é a pesquisa, e não o ensino da língua materna, onde ela desempenha apenas o papel de disciplina auxiliar.

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O livro do MEC (3)

O linguista dedica-se a observar e analisar os fatos da linguagem para melhor entendê-la; o seu compromisso é com a CIÊNCIA. Pois nós, professores de Português, não somos nem pretendemos ser cientistas.Longe disso; o compromisso que temos é com a CULTURA.

 

Gostaria de lembrar meu prezado leitor de que procurei, nas colunas anteriores, descrever, de forma simples mas honesta, a diferença essencial que existe entre a função do lingüista, de um lado, e a do professor de Português, do outro. O lingüista trabalha para expandir os limites da teoria, dedicando-se a observar e analisar os fatos da linguagem para melhor entendê-la; o seu compromisso é com a ciência. Pois nós, professores de Português, não somos, nem pretendemos ser cientistas. Longe disso; o compromisso que temos é com a cultura. Nossa função (eu preferiria o termo missão, mas já o empregaram tantas vezes como pretexto para explorar nossa classe que, vamos convir, ele ficou imprestável) — nossa função, repito, é ensinar o aluno a se apropriar do magnífico idioma que herdamos e usá-lo para seu crescimento pessoal e profissional. Nós somos os encarregados de fazer esse patrimônio comum passar de uma geração para a outra; assim fizeram um dia comigo e com você, caro leitor; assim espero que meus alunos venham a fazê-lo com meus netos e bisnetos.

É por causa disso que o professor de Português, ao contrário do lingüista, jamais poderá abandonar esta perspectiva cultural e histórica. A língua em que escrevo esta coluna de hoje vem sendo usada há quase mil anos, e isso faz muita diferença. É uma belíssima construção de quase um milhão de palavras, com raízes nas duas grandes línguas do passado, o Latim e o Grego; foi usada por reis e camponeses, por santos e bandidos, por vítimas e carrascos da Inquisição; atravessou desertos e oceanos, passou por épocas e lugares distantes e se enraizou em vários pontos do planeta. Esta é a idéia que precisamos transmitir aos alunos: é a língua portuguesa que nos faz ocidentais e que nos torna herdeiros da Grécia e de Roma, do Velho e do Novo Testamento, da cristandade, da matemática decimal, do calendário gregoriano e da Revolução Francesa.

Em toda a parte — na ortografia, na formação de palavras, na estrutura do nome ou do verbo, no emprego dos pronomes, na conjugação verbal, na sintaxe da frase — em toda a parte, repito, nossa língua carrega marcas deste passado e desta riqueza, e um bom professor de Português  deve estar preparado para ensinar o aluno a reconhecê-las e a entender sua motivação. Há quase dez anos mantenho no ar o saite www.sualingua.com.br, e aprendi, com os milhares de consultas feitas pelos leitores, a identificar dezenas de áreas em que só a orientação segura de um professor pode desmanchar os “coágulos” que atrapalham a compreensão do usuário interessado e sua adesão ao que chamamos de norma culta.

É imprescindível, por exemplo, que o aluno seja informado de que o vós também pode ser usado para designar a segunda pessoa do singular — ou ele vai ficar intrigado com muitos diálogos da obra de Alencar ou, mais simples ainda, não vai entender por que na Ave-Maria, que constitui claramente um discurso dirigido a uma só pessoa, a mãe de Jesus, consta “bendita sois vós entre as mulheres”. Da mesma forma, é indispensável um passeio histórico pelo absolutismo português para que o artigo definido el, que era de uso exclusivo do rei, não seja visto como uma aberração morfológica — assim como uma análise do estranho comportamento dos substantivos terminados em –ão, que têm apenas um singular para três plurais diferentes (mãos, leões, alemães), mostrará que a língua caminha, lenta mas inexoravelmente, para um plural genérico em –ões — o que, além de simplificar o modelo, explica por que uma palavra como corrimão já admite, além do esperado corrimãos (como mão, mãos), o cada vez mais comum corrimões.

O que vou dizer pode parecer uma verdadeira platitude, mas meu inocente leitor ficaria espantado se soubesse quanta gente procura negar o inegável: só poderemos manter esse diálogo com o aluno se ele dominar um vocabulário gramatical básico que nos permita falar com ele sobre a linguagem. Como podemos explicar a pontuação se ele não estiver familiarizado com os termos da sintaxe? Como fazê-lo perceber a racionalidade que está por trás de nossa acentuação gráfica se não pudermos recorrer a conceitos como sílaba tônica, ditongo, hiato ou semivogal? Isso leva a outra daquelas tarefas que precisamos realizar a qualquer custo: deixar o aluno familiarizado com uma terminologia lingüística que tenha livre curso em todas as escolas e em todos os livros didáticos do país. Ela já existe; embora esteja envelhecida e necessite de remendos, a NGB — a Nomenclatura Gramatical Brasileira — continua sendo uma presença indispensável nas aulas de Português. Por mais críticas que possamos fazer a ela (e não são poucas), ela é tão importante para o ensino do idioma que eu não hesitaria em chamar de irresponsável o professor que sonegá-la de seus alunos. (continua)

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O livro do MEC (2)

A Escola precisa falar claramente com a Linguística: “Fico-lhe muito grata por sua importante contribuição, amiga, mas vamos esclarecer uma coisa: o meu compromisso é com a Cultura”.

Encerrei a coluna anterior declarando que a reação contra o livro do MEC não era um repúdio ao saber dos lingüistas, mas sim um recado que eles insistem em não ouvir: não é isso o que esperamos da Escola. Como era de imaginar, minha frase provocou o aplauso de muitos leitores, a vaia de outros tantos e a indignação declarada de alguns, que se disseram revoltados com a insinuação feita por mim, nas entrelinhas, de que os lingüistas não sabiam exatamente como deve ser o ensino da língua. Insinuação? Mas eu nada insinuei, caro leitor, pois esse não é o meu feitio; na verdade, eu disse isso — e com todas as letras, a começar pela epígrafe: eles continuam sem entender (ou admitir) o tratamento que a Escola, por sua própria finalidade e natureza, deve dar ao idioma. Acho oportuno, portanto, traçar desde já uma linha separando esses dois campos de atividade, pois o ensino da Língua Portuguesa, embora às vezes caminhe junto com a Lingüística, tem objetivos e interesses completamente diversos.

A Lingüística é uma ciência que procurar entender, em toda a sua infinita variação, o fenômeno da linguagem; seu horizonte abrange a totalidade do planeta, pois cada língua, cada dialeto traz sua contribuição para a compreensão desta que é a mais complexa atividade humana. Para o lingüista, portanto, afirmar que uma língua é mais fácil ou mais completa do que outra é tão absurdo quanto, para um biólogo, afirmar que o leão é mais bem construído que a girafa ou que o ronco do bugio é mais eficiente do que o grasnar do pato. Ele não avalia, não critica, não faz juízo de valor — ele descreve, compara, analisa e tenta entender. Para ele, como para o biólogo, não há certo, nem errado — há o natural, o orgânico, o espontâneo.

A Escola, bem ao contrário, é uma instituição criada e mantida pela sociedade para  assegurar, de uma geração para outra, a transmissão de uma memória cultural comum, sem a qual, como o homem percebeu há milênios, não há comunidade ou civilização que sobreviva. Em qualquer regime, portanto — seja ele democrático ou não —, ela vai ser obrigada a proceder a uma seleção dos conhecimentos e dos valores que os seus alunos deverão compartilhar; cabe a ela, em nome da sociedade que representa, determinar o que é pertinente (e o que não é) em História, em Matemática, em Química,  em Literatura e, muito especialmente, em Língua Portuguesa, sem dúvida uma das disciplinas em que mais se faz sentir esse incontornável caráter político da instituição.

A Escola sabe — graças ao trabalho dos lingüistas, aliás — que em nosso território convive uma grande diversidade de “dialetos”, de formas de dizer e de falar, característicos de determinadas regiões, faixas etárias, classes sociais ou profissões — e, exatamente por isso, julga necessário difundir e consolidar uma língua culta padrão (standard, em Inglês), comum a todos, a qual, sem pretender anular ou substituir as demais variedades, sirva de fator de coesão do tecido social e cultural do país. Este padrão, predominantemente escrito, vai inevitavelmente privilegiar, entre as variedades atualmente praticadas no país, aquela que, por reduzir ao máximo as diferenças e idiossincrasias, mais se aproxima de uma espécie de Português consensual; criticá-lo por ser a variedade usada pela “classe dominante”, como fazem alguns lingüistas de esquerda, é tomar a causa pelo efeito: ele não é o melhor porque foi adotado pelas “elites”, mas, ao contrário, foi adotado pelas “elites” porque é um instrumento admirável, que vem sendo polido e aperfeiçoado ao longo de séculos, adquirindo, descontadas pequenas diferenças, uma estabilidade impressionante.

Aqui a sociedade faz, porque precisa fazer, algo que a Lingüística jamais faria: determinar que uma das opções é preferível às outras (dizer que a estrutura de um cavalo é melhor que a de um cabrito não tem o menor sentido para um cientista que estuda os seres vivos, mas tem todo o sentido do mundo para quem precisa usar o animal como montaria). É uma escolha essencialmente cultural, e a tarefa de difundi-la universalmente é entregue à Escola. É uma tarefa de Hércules, e é para isso — e só para isso — que nós, os professores de Português, existimos. Podemos transmitir em aula uma visão crítica deste padrão e da nomenclatura que teremos de usar para falar sobre ele (mais sobre isso depois), mas simplesmente não temos o direito de não ensiná-lo a nossos alunos. Os que aprendem a usar a língua escrita culta (que, como veremos, não está engessada por um conjunto imutável de princípios retrógrados, como apregoa solertemente a contrapropaganda) têm a liberdade de optar por ela sempre que quiserem expressar-se de conformidade com os parâmetros de aprovação social ou atingir o maior número possível de leitores, estejam eles a 4 mil quilômetro ou a 300 anos de distância. Os que não aprendem não têm opção alguma, a não ser carregar o pesado fardo da exclusão social a que foram condenados em nome de duvidosos “princípios científicos”. (Continua)

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Sobre o livro do MEC (1)

Quem reagiu contra a publicação do MEC não estava repudiando os princípios da ciência da Linguística, mas sim enviando um claríssimo recado que os linguistas insistem em não ouvir: não é isso o que esperamos da escola.

 

O artigo que publiquei na semana passada — “Que língua a escola deve ensinar?” —  expõe, de maneira sincera, o que deveria ser, para mim, o ensino do idioma; agora, como conseqüência lógica, preciso dizer a meus leitores o que penso sobre esta polêmica que vem dividindo o país. Desde a primeira hora, sem hesitar, fiz questão de deixar bem claro que considerava equivocado este material, lamentando que o MEC o tivesse aprovado para ser distribuído no atacado para os alunos do EJA. No entanto, como a urgência daqueles dias era derrotar a famigerada lei dos estrangeirismos (oportunamente vetada pelo governador), dediquei a ela nossa última coluna e coloquei o livro do MEC na lista de espera.

Ora, antes que o demo esfregasse um olho, o milharal pegou fogo e o assunto levantou uma fumaceira como há muito não se via; desde que eu me conheço por gente nunca tinha visto um livro didático de língua portuguesa levantar tamanha discussão neste país. Intelectuais, professores, lingüistas, alunos de Letras, imortais da ABL, jornalistas, curiosos, ONGs de toda espécie e loucos de todo gênero se engalfinharam numa verdadeira batalha campal, passando a se alvejar mutuamente com artigos, colunas, a-pedidos, declarações, desmentidos e cartas circulares pela internet, uns a defender, outros a atacar a iniciativa do Ministério.

Não foi um debate elegante, muito menos esclarecedor. Tanto um lado quanto o outro — uns por desconhecimento, outros por estratégia — se apegaram a detalhes secundários do problema. Em questão de horas as possíveis linhas de discussão tinham se reduzido praticamente a uma só: condenar ou justificar concordâncias do tipo *”os livro” ou *”nós pega os peixe”, apresentados pela autora como exemplo de construções legítimas dentro da variante popular de nossa língua. Lá em cima, os lingüistas, acuados mas organizados, concentraram seus esforços em informar ao povo da planície que há quase um século a Ciência aceita como fato indiscutível a existência de variedades dentro de um mesmo idioma — aproveitando, en passant, para criticar a mentalidade tacanha daqueles que ainda dividem o mundo da linguagem em “certo” e “errado”. Em outras palavras, escolheram o ponto mais favorável para defender a muralha, pois é muito improvável, se não impossível, que alguém ainda tenha topete e argumento para afirmar que a linguagem que emprego neste momento seja idêntica à variedade usada por meu bisavô, por um cortador de cana do Nordeste ou por uma adolescente da Barra da Tijuca.

Aqui embaixo, no entanto, o restante da população brasileira (uns 90%, eu diria), com forcados e tochas acesas, fazendo ouvidos moucos às explicações dos especialistas, tratou de investir, com toda a fúria, contra o castelo do MEC, bradando contra o desperdício de dinheiro público e contra a ineficiência do ensino de Português. Uma onda avassaladora de revolta tomou conta das redes sociais na internet, onde não faltaram os trogloditas de sempre, que aproveitaram o tumulto para pregar a volta da gramática autoritária, com suas regras artificiais e imutáveis. O significativo é que este movimento espontâneo, incontrolável, não é, como quiseram alguns fiéis remanescentes da antiga igreja marxista, um movimento comandado pela elite, inconformada com a ascensão econômica e política das classes menos favorecidas. Tivessem eles o hábito de ouvir o povo que pretendem defender, fizessem eles uma enquete entre os próprios estudantes a que o manual se destina, e veriam — posso imaginar sua supresa! — que essa concessão que o livro faz às variantes populares, que esse tratamento simpático e acolhedor dispensado, por exemplo, ao *”nós pega peixe”, vai contra tudo o que os alunos do EJA esperam da escola que freqüentam com tanto sacrifício (e esses eu conheço muito bem; lecionei, por anos a fio, nas turmas da noite do Supletivo).

Examinando objetivamente o que aconteceu nesses últimos dias, somos obrigados a admitir que os dois grupos têm lá suas razões, e que sua divergência irredutível nasce das concepções de linguagem praticamente opostas que cada um deles alimenta. A Lingüística, ciência moderna, estuda a língua como um organismo multifacetado, em constante mutação, impossível de ser aprisionado em preceitos que regulem o seu emprego; o usuário comum, por sua vez, quer estudar a língua como um sistema padronizado de regras aceitas pelo consenso das pessoas cultas. O grande contingente que reagiu contra a publicação do MEC não estava, a meu ver, repudiando o saber dos cientistas, mas sim, como veremos na próxima coluna, enviando um claríssimo recado que os lingüistas insistem em não ouvir: não é isso o que esperamos da escola. (continua)

 

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Sim, professores devem corrigir!

Uma jovem professora, bastante cautelosa, envia uma pergunta que soa muito mais como um pedido de socorro: “Não sei se o senhor vai achar minha dúvida um tanto infantil, mas gostaria que opinasse sobre algo que aconteceu com uma colega na escola em que leciono: uma aluninha de 2ª série escreveu em sua prova “ bom”, e ela corrigiu para “está bom”. O pai da criança não gostou da correção e disse que a professora estava errada ao se comportar assim; e o senhor, o que pensa sobre isso? Ela poderia ter corrigido a redação da criança, ou não?”.

Minha prezada colega, não sei muito bem em que termos foi feita a correção, mas, em princípio, a professora estava com toda a razão ao fazê-la. A criança vai para a escola para aprender a língua culta padrão, principalmente a escrita. Falar, ela já fala, e muito bem; na escola, vai aprender que existe uma modalidade especial de Português, que servirá para que ela ingresse no mundo escrito e dele participe para sempre, ao longo de sua vida como cidadã.

Acontece que no início da década de 70, bem no espírito libertário daqueles anos, apareceram alguns românticos extraviados que se puseram a defender a valorização e a consagração das “formas genuínas de falar”, das “manifestações espontâneas da linguagem do povo”. Pois esse até hoje é um dos maiores cânceres que ameaçam o ensino de nosso idioma: confundir a valorização científica de todas as variedades de uma língua (o que é uma coisa boa e desejável para o lingüista, para o antropólogo ou o sociólogo) com o papel que o professor, especialmente o de Língua Portuguesa, deve desempenhar. Nossa função é pegar os brasileirinhos pela mão e conduzi-los nesse mundo totalmente especializado da palavra escrita, mostrando-lhes como ele funciona, quais as suas regras, quais os seus recursos e suas limitações, como ele se compara com o mundo mais familiar da palavra falada. Mesmo quanto à fala, é obrigação do bom mestre fazer a criança entender que existem níveis socialmente caracterizados, ensinando-lhe, inclusive, o que ela ainda não souber, e procurando, acima de tudo, encantá-la e surpreendê-la com as possibilidades do idioma, ao abrir-lhe os olhos (e ouvidos!) para a maneira criativa e enriquecedora com que os grandes escritores souberam utilizá-lo.

É para isso — e só para isso — que nós, os professores de Português, servimos; se não o fizermos, a pretexto de qualquer mistificação pedagógica ou antropológica, estaremos roubando de nossos alunos o mais importante ingrediente de uma digna cidadania, abandonando-os à própria sorte, condenados que estão por sua língua hesitante, com a qual não conseguem expressar as nuanças de sua revolta, nem entender muito bem a sutileza dos estatutos e das leis que os aprisionam.

Repito: não sei se a correção foi feita de modo condenável e inadequado para uma pequerrucha da 2ª série (com ironia, ou rispidez, ou severidade, ou grosseria); quanto a isso, portanto, não posso opinar. Contudo, era obrigação da professora mostrar a essa aluninha que, no texto de uma redação, não se usa o da fala, mas sim o está da escrita. O pai da pequena deverá ficar muito preocupado — aí sim! — no dia em que os professores deixarem de corrigir o que sua filha escreve. Olha, colega, quando penso em todos os mestres que tive, vejo que só tenho gratidão para com aqueles que se deram ao trabalho (e à incomodação, em certos casos) de me ensinar o que achavam que eu deveria saber; esses não renunciaram a seu papel, e ficaram para sempre na galeria de minha memória.

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