Categorias
Acordo ortográfico Destaquinho Generalidades

ARTIGOS SOBRE REFORMA ORTOGRÁFICA

São muitos os artigos do Sua Língua que falam do Acordo Ortográfico. Reúno, abaixo, em ordem de publicação, os dez textos em que analiso mais de perto as causas, as consequências e os prejuízos desta periclitante Reforma:

01 ─ Deixem a nossa ortografia em paz!

02 ─ Esqueçam essa reforma!

03 ─ O pesadelo de Cassandra

04 ─ O pesadelo de Cassandra continua

05 ─ O que muda na ortografia?

06 ─ Mudanças na ortografia

07 ─ Não compre o novo VOLP! (1)

08 ─ Não compre o novo VOLP! (2)

09 ─ Não compre o novo VOLP! (3)

10 ─ Não compre o novo VOLP (4)

Categorias
Conceitos lingüísticos Etimologia e curiosidades Generalidades Origem das expressões Origem das palavras

Como nasce uma palavra

Quando procuramos a origem das palavras, podemos contar com o valiosíssimo testemunho dos textos escritos, mas, mesmo assim, é praticamente impossível descobrir a gênese de certos vocábulos ou expressões que surgem de repente e acabam fazendo parte de nosso léxico.

 

Uma aluna de pós-graduação escreve para perguntar se posso ajudá-la a determinar, com alguma segurança, quando foi formada e de onde veio a palavra periguete (ou piriguete, sua  variante menos culta — se é que isso é possível). A edição mais recente do Aurélio Escolar, lançado na última Bienal do Livro, já inclui o termo, definido ali como “moça ou mulher que, não tendo namorado, demonstra interesse por qualquer um”, mas nada esclarece sobre sua origem. A leitora, que está fazendo uma pesquisa séria sobre vocábulos utilizados na mídia feminina, saiu desapontada da pesquisa que fez na internet, pois as hipóteses que pôde pescar na rede pareceram-lhe mais falsas do que aquele dinheiro de plástico que circulou por aí.

Ora, prezada leitora, a palavra parece ser uma criação espontânea, popular, feita a partir do radical de perigo, acrescido do sufixo –ete (como em chacrete ou maluquete) — e isso é tudo, e para mim já bastaria. No entanto, como já observamos várias vezes nesta coluna, a etimologia é, para algumas mentes fracas, droga mais alucinógena que a ayahuasca ou o suco da jurema; algumas explicações apresentadas para periguete, por exemplo, chegam às raias do delírio. Uma delas afirma categoricamente que a palavra nasceu de um equívoco linguístico: na Bahia, visitantes estrangeiros que se dedicavam ao seu inocente turismozinho sexual de costume, “tentando imitar os brasileiros, chamavam as mulheres de gatinhas” — Epa! Frase ambígua! É melhor explicar: tanto os romeus quanto as julietas estavam em pé, e não de quatro; “gatinhas”, aqui, seria o apelativo “carinhoso” usado para enternecer as meninas. Mas segue o samba do etimólogo doido: “Eles se confundiam e, em vez de falar little cat, falavam pretty cat (ou pretty girl, alegam alguns dissidentes); os locais, ao tentar imitar os turistas (por quê, mesmo?), acabavam embolando as duas palavras e pronunciavam /piriquéte/ — e daí piriguete“. Como a Bahia atrai brasileiros de todos os estados, e a Ivete Sangalo canta uma música que ostenta este vocábulo na letra, nada mais natural, então, que ele tenha se espraiado pelo país afora…

Pois que vou dizer vale não só para periguete: é praticamente impossível descobrir a gênese dessas palavras ou expressões que surgem de repente e acabam fazendo parte de nosso léxico. Vamos encontrar muita opinião boba por aí, dando informações precisas do local, data e autor dessas invenções, mas não passam de palpites bem intencionados. O OED (Oxford English Dictionary) que o diga: este, que é o melhor dicionário do mundo, orgulha-se de incluir o primeiro registro escrito conhecido para cada palavra que examina; pois o OED passou uns dez anos sem conseguir descobrir qual tinha sido a primeira vez que a sigla HIV foi empregada no Inglês — hesitavam entre quatro ou cinco jornais de San Francisco — e isso que não se tratava de uma expressão da gíria, mas de uma sigla de origem médica, presente em centenas de artigos da imprensa laica e das publicações científicas.

Só podemos ter certeza sobre a concepção e o nascimento uma palavra quando existirem depoimentos expressos feito pelo próprio criador ou por seus interlocutores. Cícero, um dos intelectuais romanos que mais contribuiu para o crescimento do vocabulário latino (e, por tabela, do léxico de todo o Ocidente), discute explicitamente a necessidade de criar, entre outras, qualitas, individuum, vacuum, definitio, differentia e notio (“qualidade”, “indivíduo”, “vácuo”, “definição”, “diferença” e “noção).  Já o termo cientista nasceu em 1834, na Inglaterra. Uma tal Associação Britânica de amigos da ciência discutia, em reunião, qual a melhor maneira de denominar os seus membros; o grupo recusou filósofo, por ser amplo demais, e sábio, por ser pretensioso. Foi quando (está registrado na ata!) “um engenhoso cavalheiro presente propôs que, por analogia com artista, formassem a palavra cientista“. Pronto! Eis uma palavra com registro em cartório — o que é raríssimo.

Outras têm a sorte de aparecer pela primeira vez numa determinada obra literária ou cinematográfica. Em 1920, Karel Capek, escritor tcheco, escreveu a peça R.U.R, na qual foi empregado pela primeira vez o termo robô (criado a partir do Tcheco robota, “trabalho forçado”). Apontado como criador do vocábulo em muitos dicionários e enciclopédias, Kapek um dia veio a público e declarou, por escrito, que ele era apenas o seu divulgador, já que o verdadeiro inventor tinha sido seu irmão Josef. Da mesma forma, Fellini, no filme La Dolce Vita, ao imortalizar a figura do fotógrafo Paparazzo, acabou contribuindo com uma palavra que ingressou no léxico da maior parte das línguas ocidentais: paparazzo (plural paparazzi). Infelizmente, exemplos como esses são excepcionais, e duvido que possa existir algo semelhante para nos esclarecer sobre o surgimento das periguetes.

[publicado no jornal ZH em 03/12/2011]

Depois do Acordo:

lingüístico > linguístico

Categorias
Destaque Generalidades Livros recomendados

CAIXA ESPECIAL: GUIA PRÁTICO DO PORTUGUÊS CORRETO

Finalmente reunidos! A L&PM acaba de lançar a caixa contendo os quatro volumes do GUIA PRÁTICO DO PORTUGUÊS CORRETO — Ortografia, Morfologia, Sintaxe e Pontuação. Todo o conteúdo organizado em quase 1.000 páginas de texto.

Veja mais no YouTube: aqui



 

 

 

 

 


Categorias
Destaque Etimologia e curiosidades Generalidades Origem das palavras

A logomarca e o ornitorrinco – conclusão

Além de ter pêlo de castor e bico de pato, o ornitorrinco põe ovos mas amamenta seus filhotes. Este estranho animal, que parece uma delirante colagem cubista ou, melhor ainda, um rascunho que a Natureza esqueceu de jogar na cesta de lixo, vive nadando alegremente nos rios da Oceania. E a LOGOMARCA com isso?

3 — Como vimos nas duas colunas anteriores, a palavra logomarca chegou para ficar, invadindo o campo semântico em que logotipo reinava sozinho. Se vamos incluí-la em nossa dieta ou classificá-la como erva daninha, isso é do gosto pessoal e não cabe discutir — afinal, tenho um amigo que come jiló com quiabo e outro, para minha incredulidade, que distingue o sabor de vários tipos de chuchu… Entre um sábado e outro, porém, um leitor que ainda não está bem convencido perguntou quem deteria este poder quase divino de inventar vocábulos novos; em suma, quem teria competência para conceder (ou negar) a logomarca o direito de existir — a Academia? O sindicato dos gramáticos? Alguma comissão de lexicógrafos? A pergunta que está por trás disso tudo — como nasce uma palavra? — é assaz oportuna, e tenho certeza de que a resposta vai trazer mais um pouco de luz à discussão. Lembro, apenas, que o processo que vou descrever vale para qualquer vocábulo, inclusive para os “antigos”, os confirmados há muitos séculos, que um dia, como todos nós, também foram recém-nascidos.

A fórmula que Epicuro usava para descrever nossa curta passagem por esta existência — “Eu não era; fui; não sou mais” — pode ser aplicada integralmente às palavras. Até um determinado momento, o léxico de nossa língua não incluía em suas listas o item logomarca. É praticamente impossível determinar este “quando”, já que só em textos escritos podemos fazer uma datação razoavelmente confiável; o que sabemos é que, num belo dia (pode parecer um tanto metafísico, mas não é), ela começou a ser usada, tendo saído, obrigatoriamente, de uma das duas fontes vivas do léxico: ou foi criada aqui dentro, ou veio de fora, importada de uma língua estrangeira. Como vimos no artigo anterior, há controvérsias sobre qual desses processos nos trouxe esta palavra; enquanto alguns a consideram uma criação “tupiniquim”, prefiro ver nela um decalque do Inglês logomark — que tem a estrutura semelhante à de trademark, hallmark, wordmark, postmark, etc., em que mark é o núcleo e o elemento à esquerda é o especificador, como sói acontecer naquele idioma. Mas vamos adiante.

Nessa fase, em vez de dizer que “nasce o vocábulo”, acho mais adequado dizer que acabou de nascer “um broto vocabular”, o qual, à semelhança dos brotos vegetais, poderá ou não encontrar terreno fértil para vingar. O estranho verbo desaplaudir, por exemplo, também veio à luz (até hoje, só o encontrei em Mário de Andrade: “Não fazem mais do que se escravizar a um vício reinol e europeu, que já levava Bougainville a desaplaudir as representações de brancaranas nos teatros do Rio de Janeiro”), mas me parece um broto mirrado, inviável, fadado a secar e desaparecer, como ocorreu, aliás, com milhares de “promessas” desse tipo, que deixam aqui e ali, em textos dispersos, os vestígios de sua efêmera existência. Nesse sentido, é indiscutível a vitalidade de logomarca, que conquistou verbete em nossos melhores dicionários e está batendo, como qualquer um pode constatar, uma marca de sete dígitos no Google.

Ninguém a autorizou a existir; ela existe simplesmente porque foi “criada” (prefiro esse termo a “inventada”), e os falantes do Português gostaram dela e a adotaram para sempre (ou até o dia em que entre em desuso). Foi só isso — aliás, exatamente o que ocorreu, há algumas décadas, com logotipo, que também não existia e foi criada e consagrada pelo uso. Agora logotipo coexiste com a recém-chegada, o que nos obrigará a reacomodar, ao menos na terminologia técnica, a divisão de territórios entre esses dois vocábulos. Como sempre acontece nesses casos, só há dois desfechos possíveis para disputas assim: ou uma das formas sufoca a outra e a força a se aposentar, ou elas dividem o patrimônio semântico e passam a ter significados bem específicos. No presente caso, acho que por muito tempo teremos o convívio das duas palavras; cabe, portanto, aos especialistas em design e publicidade (e não aos dicionaristas ou professores de Português) a tarefa de traçar o limite mais claro possível entre elas, a fim de que a imprecisão  dos conceitos não as torne completamente inúteis.

Se lhe falta a tolerância necessária para aceitar essa e outras criações que a língua haverá de fazer, caro leitor, lembre que a Natureza plantou na Oceania a figura improvável do ornitorrinco, animalzinho esdrúxulo que tem pelo de castor e bico de pato, põe ovos, amamenta seus filhotes e tem um ferrão venenosíssimo nas patas traseiras. No início, os naturalistas suspeitaram que um animal tão incoerente fosse uma grande fraude científica, mas a grande quantidade que nada nos rios da Austrália logo os convenceu do contrário. Hoje, segundo Umberto Eco, o ornitorrinco serve para nos alertar para o fato de que sempre vai haver, bem perto de nós, alguma coisa que, embora não se enquadre nos padrões a que estamos habituados, tem todo o direito de existir.

Depois do Acordo: pêlo > pelo

Categorias
Destaque Generalidades Lições de gramática Semântica

Pleonasmo? Tem certeza?

A caça ao pleonasmo parece ter-se tornado um dos esportes mais populares nas redações de jornal e nos consultórios gramaticais. O Doutor adverte: cuidado para não atirar no bicho errado!

 

Um amigo muito próximo vem pedir minha adesão à campanha que promove contra um erro que ele considera intolerável: o emprego do adjetivo municipal ao lado do substantivo prefeitura. “Como é que as pessoas não vêem que isso é supérfluo? Então, queriam alguma prefeitura que não fosse municipal?” — esbraveja ele, ao telefone. Não quero que meu amigo se exalte, pois sei que é hipertenso, mas também não posso deixar que passe vergonha diante dos outros, ao defender uma idéia tão ingênua. Com muito tato, lembro-lhe que um indivíduo isolado jamais vai saber mais do que a comunidade lingüística em que ele vive; a vetusta seqüência prefeitura municipal, portanto, não pode ser equívoco de tantos milhões de pessoas, em tantos séculos de língua portuguesa. Não estaria ele esquecendo, por exemplo, as prefeituras distritais? Ou as prefeituras do câmpus, que existem em quase todas as grandes universidades? “Mas eu vi no Manual, na lista dos pleonasmos!”, arrisca ele, já na defensiva, porque adivinha o que vou dizer. Ele está se referindo a um desses manuais de redação jornalística que infestaram o Brasil na última década, que mereciam figurar entre as dez pragas do Egito, ao lado da peste e dos gafanhotos.

Vou ao famigerado manual que meu amigo mencionou: entre os pleonasmos que devem ser evitados (segundo o raciocínio simplista de quem escreveu o capítulo), encontro agora já, criar novos, elo de ligação (“elo já significa ligação”, explica a sumidade), estrelas do céu, exultar de alegria, habitat natural, pequenos detalhes, permanece ainda, prefeitura municipal, regra geral, recordar o passado (“e alguém poderia recordar o futuro?”), sorriso nos lábios (“e o sorriso seria na testa?”), sua autobiografia, entre tantos outros exemplos igualmente discutíveis. A julgar por essa lista, devemos lamentar que Vieira, Eça, Machado, Camilo e outros gênios da língua não tenham tido acesso a esse manual, porque assim teriam evitado os tais “pleonasmos”:

“Não afirmo que entre as duas fases da existência de Luís Soares não houvesse algum elo de união” (Machado); “se alguma coisa a pode absolver foi a sua perseverança em criar novos estabelecimentos com novos e terríveis esforços” (Eça); “Quando estes, ligando o nome à pessoa, se mostravam contentes da apresentação, não há dúvida que Luís Dutra exultava de felicidade” (Machado); “Mas descendo a pequenos detalhes” (Mário de Sá-Carneiro); “Isto não é regra geral, mas é regra geral que Deus não quer roncadores, e que tem particular cuidado de abater e humilhar aos que muito roncam” (Vieira); “Ensaios inumeráveis como as estrelas do céu” (Eça); “Ela o surpreendeu com os olhos marejados de lágrimas e um sorriso nos lábios” (Camilo); “E tentas, louco, recordar o passado?” (G. Dias); “a matéria da cobiça permanece ainda depois da morte” (Vieira). E assim por diante.

E agora, em quem acreditar? É simples, meu amigo: num dos pratos da balança, ponha os maiores autores de nosso idioma; no outro, sozinho, o intrépido jornalista… Não quero, com isso, dizer que recomendo que se escreva hoje exatamente como nossos autores clássicos faziam, já que os usos da linguagem também estão sujeitos aos ares e às modas do tempo; na verdade, estou apenas lembrando a esses desmemoriados jornalistas de hoje que a língua é muito mais rica do que eles imaginam. Se o autor daquele “manual” tivesse tido a prudência de afirmar que julga desnecessárias tais redundâncias, ou antiquadas, ou inadequadas para os leitores do jornal em que ele trabalha, ainda vá lá nosso estilo nada mais é, afinal, do que a soma das escolhas individuais que fazemos. Agora, condenar definitivamente essas expressões, usando aquela argumentaçãozinha de caracacá, vamos e venhamos!

Na verdade, é difícil dizer quando estamos diante de um pleonasmo condenável (do Grego pleonasmos, “superabundância, excesso”). É comum o falante recorrer voluntariamente a ele quando percebe o enfraquecimento do significado originário do vocábulo, que passa a precisar desse reforço; é o caso, para mim, de ambos os dois, meandros sinuosos e bela caligrafia. No pleonasmo involuntário, dito vicioso, no entanto, há uma repetição tão óbvia de conceitos que não parece obedecer a uma intenção consciente: um plus a mais, democracia popular, recuar para trás, duna de areia, falso pretexto, aparência exterior, hemorragia de sangue, ataque cardíaco bem no coração (costumam ser fulminantes!). Friso, no entanto, que essa é a minha opinião, e deixo a meu leitor decidir onde começa um grupo e termina o outro; nunca vai ser pão, pão; queijo, queijo. O melhor é relaxar um pouco e aproveitar o conceito como um recurso expressivo: “Solteiro feliz é pleonasmo vicioso”; “Ela consultou desculpem o pleonasmo! uma falsa cartomante“; “Bons tempos em que propaganda enganosa não era pleonasmo!”. Por último, a pérola: “Morreu virgem e mártir? Mas isso é um pleonasmo!”.

Depois do Acordo:

  • vêem>veem
  • idéia>ideia
  • lingüística>linguística
  • seqüência>sequência
Categorias
Como se escreve Destaque Formação de palavras Generalidades Origem das expressões Outros sinais

Santana ou Sant’Ana?

Os cidadãos têm o direito de escrever seu nome da maneira como consta no registro; os municípios, no entanto, como não gozam desse privilégio, devem seguir a norma ortográfica vigente.

 

Um amigo santanense que veio me visitar aproveitou — muito de leve, entre um mate e outro, assim como quem não quer nada para sondar o que eu achava da polêmica sobre o município gaúcho de Santana do Livramento. “Voltaram a discutir por lá a grafia do nome Santana“, explicou. “Sei que muita gente prefere escrever como uma coisa só, mas eu acho mais bonito com o apóstrofo entre as duas partes, como manda a tradição igual ao Paulo Sant’Ana! Bem que podiam fazer um plebiscito e decidir isso de uma vez por todas”, concluiu, passando a cuia e a palavra de volta para mim. Entendi o recado, e aqui vai minha resposta, a ele e aos vários amigos que tenho em Livramento.

Em primeiro lugar, confesso que a dieta maciça de autores do Romantismo que a escola costumava servir acabou me tornando um nostálgico admirador do apóstrofo. Alencar intitulou um de seus mais adocicados romances de Sonhos d’Ouro elegante, delicado, sugestivo; Sonhos de Ouro, ao contrário, parece mais adequado para um daqueles paradouros de Santo Antônio da Patrulha em que, nos anos 60, a caminho das praias do Atlântico, a família gaúcha renovava suas forças com sonhos fritos e café preto. Por isso, se fosse questão de gosto, eu não hesitaria em escolher Sant’Ana.

Friso: se fosse questão de gosto… mas não é. Em casos como este, não importa a minha preferência ou o meu senso estético assim como também não importa, como alguns tentam alegar, que assim está nos documentos da fundação da cidade. Todo cidadão tem o direito de portar o nome da maneira como foi registrado, é verdade; muita gente não sabe, porém, que esta regra não vale para os nomes geográficos. A grafia do nome de um município está submetida às regras ortográficas vigentes, independentemente da forma como constava nas atas de fundação. Este princípio é fundamental para um país que, como o nosso, já tem municípios com mais de 450 anos: seria quase impossível administrar todos esses nomes (o Brasil já anda lá pelos seis mil, atualmente) se cada um conservasse a grafia original, muitas vezes atribuída em épocas em que não existia uma ortografia oficial ou em que vigiam outras normas que não as atuais. Pode-se imaginar o caos que se instauraria nas placas dos automóveis, na sinalização das estradas, nos documentos públicos, nos livros didáticos e em todas as outras situações em que precisamos escrever o nome do município!

Não sei, por exemplo, como consta no registro inicial da cidade, mas sei que durante muito tempo Triumpho se escreveu assim, com ph. Com o Acordo de 1943, passou automaticamente a ser grafado Triunfo e pronto. Trammandahy, Trammanday ou Tramandahy? Não importa; na ortografia atual, é Tramandaí. A regra dos acentos diferenciais, no Acordo de 1943, deu um chapeuzinho (circunflexo) a Porto Alegre, que passou a Pôrto Alegre assim permanecendo até 1971, quando uma pequena reforma eliminou o referido acento e voltamos a escrever Porto Alegre. Se amanhã decidirem que alegre passará a ter acento no “E” (já não duvido de nada…), lá vamos nós escrever Porto Alégre e assim por diante. É assim que funciona (e deve funcionar).

Ora, sendo o Brasil um país historicamente católico, Santana do Livramento, embora date do séc. 19, é apenas um dos vários municípios que traz Santana no nome. Numa rápida busca no IBGE encontrei mais de quinze Santanas: Santana de Parnaíba (SP) o mais antigo, fundado no séc. XVII , Santana do Matos (RN), Santana do Cariri (CE), Santana da Boa Vista (RS), Santana do Acaraú (CE), Santana da Ponte Pensa (SP), Santana da Vargem (MG), etc. além de Barra de Santana (PB), Campo de Santana (PB), Capela de Santana (RS), Feira de Santana (BA), Riacho de Santana (BA), Santana (AP), Santana (BA) todos grafados da mesma maneira, sem apóstrofo.

Aqui podemos avaliar o quão sábio é o princípio de submeter esses nomes geográficos ao sistema ortográfico vigente: se cada município resolvesse defender a grafia que recebeu no seu batismo, teríamos um desfile de variantes que incluiria “Sant’Ana”, “Sant’Anna”, “Santanna”, “Santana”, “Sant’ana” e sabe-se lá quantas outras mais. É exatamente por isso que a grafia desses nomes não está submetida à vontade ou à preferência de seus habitantes, ou dos prefeitos e vereadores. Podemos fazer um plebiscito para trocar o nome, mas não para contrariar a norma ortográfica. É perfeitamente aceitável que os habitantes de Embu, em São Paulo, votem para decidir se vão ou não trocar o nome para Embu das Artes mas seria impensável fazê-lo para mudar sua grafia para *Embú (com acento). A lei assegura aos santanenses o direito de definir o nome do município, trocando-o, se assim decidirem, por Santana, Livramento do Sul, Palomas ou qualquer outro mas não sua grafia.

Categorias
Concordância Destaque Generalidades Testes

Testes – Concordância com verbos impessoais

[Antes de fazer os testes, leia Concordância com verbos impessoais]

 

1 – Assinale a alternativa em que a concordância do verbo grifado está CORRETA:

a) Mesmo que se tratem de pessoas honestas, exija um fiador.
b) É importante que haja muitas faculdades de Letras.
c) Espero que, em fevereiro, façam dias menos ventosos.
d) Haviam quatro semanas que o navio estava no porto.
e) Se não houverem imprevistos, chegaremos amanhã.

 

2 – Assinale a alternativa em que a concordância do verbo grifado está ERRADA:

a) Onde você andava? Fazem mais de três horas que a espero.
b) Talvez houvesse soluções melhores do que aquela.
c) Você não acha que basta de provocações?
d) Vão terminar acontecendo coisas desagradáveis
e) Haviam ocorrido vários acidentes naquele local.

 

3 – Assinale a alternativa em que a concordância do verbo grifado está ERRADA

a) Acho que devem bastar duas colheres de açúcar.
b) de haver outras saídas.
c) Hão de existir outras saídas.
d) Podem tratar-se de vírus desconhecidos.
e) Deve passar das quatro horas.

 

4 – Assinale a alternativa em que o verbo grifado deve ser pluralizado, a fim de que a concordância verbal fique CORRETA:

a) Em fevereiro deverá fazer dias melhores.
b) Espero que haja sobrado algumas cervejas.
c) Já começa a haver esperanças.
d) Aqui nunca havia feito verões tão rigorosos.
e) Não pode haver hesitações

 

5 – Este ano ……….. as festas que ……….., que eu não comparecerei a nenhuma.

a) pode haver           – haver
b) podem haver        – haverem
c) pode haver           – houver
d) pode haver           – houverem
e) podem haver        – houver

 

6 – No domingo, ……… seis meses que as aulas começaram; pode-se dizer que só ………. trinta dias para as férias.

a) fará           – falta
b) farão         – falta
c) fará           – faltam
d) faz            – falta
e) fazem        – faltam

 

7 – Não ……… condições para se …….. os trabalhos; mesmo que as …….., era tarde.

a) havia              – recomeçar               – houvessem
b) haviam           – recomeçarem          – houvessem
c) haviam           – recomeçar               – houvesse
d) haviam           – recomeçar               – houvessem
e) havia               – recomeçarem          – houvesse

 

8 – ………ainda muitos dias para que ele volte? Afinal, ………bem uns dois meses que ele foi viajar.

a) Faltará           – deve fazer
b) Faltará           – devem fazer
c) Faltarão         – devem fazerem
d) Faltarão         – devem fazer
e) Faltarão          – deve fazer

 

9 – Já ……… muitos anos que só ………. ruínas das construções que…….. nesta cidade.

a) fazem       – existe           – haviam
b) fazem       – existe           – havia
c) fazem        – existem        – haviam
d) faz           – existem         – havia
e) faz           – existem         – haviam

 

10 – Todos os parafusos que ………. demais naquele relógio, noutros ………. falta. ………. dez anos que a queixa era a mesma.

a) havia           – fazia         – Havia
b) havia           – faziam      – Havia
c) haviam        – faziam      – Haviam
d) haviam        – fazia         – Haviam
e) haviam         – faziam      – Havia

 

RESPOSTAS AQUI

Categorias
Destaque Generalidades Livros recomendados

ABC da Língua Culta, nosso novo vade-mécum

O ABC da Língua Culta, de Celso Pedro Luft, passa a ser  o novo vade-mécum do Doutor, que o considera, sem exagero algum, um verdadeiro presente dos deuses da gramática.

 

 

(anterior)

3 – Há palavras, caro leitor, que ficaram para sempre associadas, na minha memória, ao livro em que as vi pela primeira vez. Conheci vade-mécum ao ler, no tempo do ginásio, o adocicado romance Inocência, do Visconde de Taunay. Cirino, o “doutorzinho” da roça, extraía toda a sua ciência das páginas do Chernoviz, o famoso manual de medicina popular que se tornou presença obrigatória em todas as casas de fazenda deste país. “Era o seu inseparável vade-mécum… Noite e dia o manuseava; noite e dia o consultava à sombra das árvores ou junto ao leito dos enfermos”. Vade-mécum! Mas que bela palavra! Se nos limitássemos a traduzir seus dois componentes latinos, produziríamos um prosaico “vai comigo”; felizmente os deuses da língua nos deram o bom senso de mantê-la intacta, fazendo apenas as alterações ortográficas necessárias para conservar a sonoridade original, clássica e elegante (vadameco também é forma aceitável, mas me soa absolutamente  chinfrim).

Os vade-mécuns (como diria um gramático zombeteiro, “Mas que plural tão singular!”) são manuais completos e organizados que reúnem todas as regras e dados indispensáveis para o exercício de um determinado ofício ou atividade. Úteis, práticos e geralmente portáteis, constituem uma preciosa fonte instantânea de referência, um companheiro inseparável de quem sabe usá-los — “um livro que anda sempre comigo”, como diz seu nome. Há vade-mécuns destinados ao advogado, ao agrônomo, ao enfermeiro, ao panificador, ao horticultor, ao criador de canários, ao tradutor e a tudo mais que o leitor puder imaginar. Para a língua portuguesa, há o ABC da Língua Culta.

Segundo a bem humorada classificação proposta por um linguista inglês, os seres humanos se dividem, no que se refere ao domínio do idioma, em duas categorias: os despreocupados e os aflitos. Para os primeiros, a linguagem é invisível, assim como é invisível para o peixe a água em que ele vive. Os outros, contudo em cujas fileiras estamos nós, caro leitor , estão sempre atentos para as palavras que empregam, para os torneios de frase, para as seqüências sonoras, para os mínimos detalhes da linguagem que utilizam. Uma palavra desconhecida, uma flexão que fere o ouvido, uma dúvida quanto ao uso, por menor que seja, leva-os a consultar e não sem um certo prazer o dicionário, a gramática, o guia ortográfico. Dá mais trabalho, mas não preciso dizer, é claro, que os aflitos conseguem comunicar o que sentem e o que pensam de uma forma muito mais precisa e articulada do que os despreocupados…

Quem faz parte desta tribo sabe, porém, que as informações necessárias geralmente andam esparsas por várias obras de referência dicionários de língua, de regência ou de etimologia, gramáticas, guias ortográficos, manuais de conjugação verbal, etc. Quais são os autores confiáveis para esclarecer minhas dúvidas? A quem posso perguntar se frase com dupla negação tem sentido afirmativo? Ainda persiste a antiga distinção entre estada e estadia? A expressão melhor boa-fé está correta? Existe diferença entre debaixo e de baixo? E qual é a certa: “duas vezes dois” ou “dois vezes dois”? “Falamos desde nossos estúdios” isso pode? E quando se usa mais bem? Etc.

Além disso, há centenas de situações em que a própria língua culta hesita entre formas variantes. Como definir qual a melhor escolha? Pronuncio algoz com o O aberto ou fechado? Escrevo deficit sem acento, como vocábulo latino, ou uso as formas modernizadas déficit ou défice? Escrevo (e pronuncio) clítoris ou clitóris? O melhor nome da letra W é dábliu, dáblio, doblevê ou vê-duplo? Eu me dou o luxo ou ao luxo? Viquinge, víquingue ou viking? Os gregos brigavam entre si ou entre eles? Cabine ou cabina? Desprezável ou desprezível? E por aí vai a valsa.

Pois imagine, amigo, que agora podemos fazer todas essas perguntas, e muitas outras, ao próprio professor Luft, que ele não deixará nenhuma sem resposta. É aqui que entra o seu ABC. Lá estão, em ordem alfabética, milhares de questões como essas, com as escolhas que ele recomenda e as soluções que ele propõe. Podemos discordar em alguns pontos, mas sempre vamos encontrar ali a voz serena de uma grande autoridade. Sem diminuir o valor dos dicionários e gramáticas que ele escreveu, arrisco-me a dizer que esta passará a ser sua obra mais importante, pois coloca à disposição de todos seja leigo, seja especialista a soma de toda a sua vastíssima cultura linguística, um verdadeiro tesouro de informações claras e organizadas.

Tenho alguns amigos que fogem ao trabalho de pesquisa e ligam para mim sempre que têm alguma dúvida, assim economizando seu tempo à custa do meu esforço. Pois agora eles andam intrigados com a rapidez e a boa vontade com que os atendo e elogiam a precisão de minhas respostas; não sabem que mantenho, ao lado do telefone, o meu exemplar do ABC da Língua Culta, o vade-mécum supremo dos aflitos!

LUFT, Celso Pedro. ABC da Língua Culta. São Paulo, Editora Globo, 2010. 555 p.    [ISBN: 9788525047939]

Depois do Acordo: seqüências>sequências

Categorias
Destaque Generalidades Livros recomendados

O ABC da Língua Culta

Sai, finalmente, o tão esperado “ABC da Língua Culta”, de Celso Pedro Luft. O Doutor não hesita um só segundo: “É o mais importante lançamento do ano!”.

 

1Para os que se interessam, como nós, pela língua portuguesa, esta é, sem dúvida,  a mais importante notícia do ano: a Editora Globo acaba de lançar o tão esperado ABC da Língua Culta, do nosso insubstituível professor Luft. O professor Voltaire Schilling, meu grande amigo, ao ser informado da notícia, apenas exclamou, entre encantado e boquiaberto: “Quinhentas páginas? Do Luft? Que maravilha!”. E é sobre isso que venho falar.

Não faz muito tempo, dediquei duas colunas inteiras à etimologia e ao significado da palavra aluno. Algumas leitoras mais sensíveis ficaram impressionadas diante do tom ríspido, quase desaforado, que adotei naqueles textos, como se eu estivesse (disse uma delas, bem-humorada) “aos tapas e safanões com algum desafeto invisível”. Pois estava mesmo, cara leitora; aquela era uma velha rixa que resolvi acertar de uma vez por todas, cansado de assistir à detratação sistemática que alguns setores pedagógicos vêm fazendo às duas figuras que realmente importam na educação — o professor e o seu aluno. Que aqueles teóricos defendam lá suas idéias, é direito assegurado pela Constituição mas não me venham, por favor, falsificar a etimologia de uma palavra tão nobre para justificar aquela ficção lamuriosa que defendem (para eles, o termo aluno é ofensivo porque significaria “sem luz”, blablablá, blablablá). E pensar que temos de escrever artigo sobre artigo (já se publicaram dezenas, todos denunciando a mesma impostura) para esclarecer uma questão que poderia (e deveria) ser encerrada com uma simples consulta a qualquer bom amansa-burro…

Na ocasião, declarei, com muito orgulho, que fui e ainda sou aluno de Celso Pedro Luft, professor e verdadeiro mestre, cuja obra deixou uma marca indelével no estudo e no ensino do Português no Rio Grande do Sul um caráter único, peculiar, que não se encontra nos demais estados (prometo, prezado leitor, que não vou fazer nenhuma declaração ufano-separatista). Teorias sociológicas à parte, isso não teria ocorrido sem ele, sem suas virtudes pessoais. O professor Luft foi o único gramático de renome que reuniu a formação sólida de um filólogo clássico, a atitude eternamente investigativa de um cientista, a valiosa experiência de um professor e o bom-senso e a tolerância de um homem sábio. Os outros estados viviam uma guerra civil gramatical, declarada entre os lingüistas (que se dedicam a descrever o idioma e a entender o seu funcionamento) e os prescritivistas (gramáticos autoritários, caga-regras intolerantes, juízes absolutos do que é certo ou errado). Os primeiros se entrincheiraram nas universidades e se recolheram à pesquisa, enquanto os últimos trataram de assumir o poder dos livros didáticos, das bancas de concursos públicos e dos consultórios gramaticais. Como parte de sua estratégia bélica, cada exército lutava para dominar o ensino do Português e, assim, perpetuar seus ideais. “Solta a linguagem!”, diziam uns; “Prende!”, diziam os outros (este conflito, aliás, ainda continua vivo em muitos corações e mentes por aí…).

Pois nós tivemos muita sorte. A presença de mestre Luft por aqui inibiu qualquer beligerância. Os cães raivosos do “é proibido”, do “absolutamente errado”, do “não pode” foram lamber as feridas no canil; os lingüistas mais serelepes, os libertários pós-Woodstock, defensores do “pode tudo”, perderam um pouco de seu ânimo juvenil ao encontrar pela frente não os adversários sectários de sempre, mas a figura serena de um estudioso de mente aberta, que estava disposto a entendê-los e que e é aqui que bate o ponto conhecia nossa língua muito mais do que todos eles reunidos. A superioridade de mestre Luft nesta área era tão flagrante que jamais se soube de alguém que a contestasse. Para que o leitor julgue o quanto isso é excepcional, saiba que, segundo o saudoso Jose Pedro Rona (mais um professor!), nada é mais terrível, na natureza, que a briga de dois cachalotes – exceto, é claro, a discussão entre dois gramáticos….

Ninguém conseguiu, como Luft, fazer a mediação entre o estudo científico da linguagem e a gramática escolar do Português. Nunca pretendeu ombrear com os especialistas em Lingüística; mantinha com eles, aliás, uma relação absolutamente cordial, acompanhando com entusiasmo e admiração verdadeira o trabalho que eles desenvolviam. Não se filiou a nenhuma escola em particular, pois seu interesse era outro: aproveitar o poder explanatório das novas teorias para melhor entender e, assim, melhor explicar a estrutura e o funcionamento do idioma. Aproveitava o que lhe parecia útil. Este ecletismo, que certamente deixou um ou outro acadêmico de nariz torcido, era consciente e intencional:  “Procuro deitar as redes onde me palpita haver peixe”, disse ele, textualmente, no prefácio da Moderna Gramática Brasileira.

2Na coluna anterior, os leitores me viram anunciar, com o maior entusiasmo do mundo, a chegada às livrarias do tão esperado ABC da Língua Culta, do professor Celso Pedro Luft. Publicado em fatias ao longo de vários anos, nas páginas do Correio do Povo, o ABC, que agora vem à luz na forma de um robusto volume de mais de quinhentas páginas, é, sem dúvida, o lançamento mais importante do ano.

Para que o leitor mais jovem possa avaliar a contribuição que Luft deu a este estado (aqui, com inicial minúscula, como deve ser e como ele sempre ensinou), fique sabendo que ele realizou a proeza inimaginável de manter, ao longo de mais de dez anos, uma coluna diária sobre os fatos de nosso idioma. Diária, meu caro leitor! De 1970 a 1984, todos os dias, ano após ano, onze meses por ano, lá estavam elas, incansáveis. Mantenho sempre à mão a caixa de sapatos (na verdade, a caixa de um par de botas campeiras) em que guardo as colunas que recortei. Muitas se extraviaram em algum distante caminhão de mudança, mas ainda me restam duas mil, pouco mais que a metade. Duas mil! e todas elas colunas densas, ricas de exemplos e de explicações valiosíssimas. As minhas estão arrumadas em ordem crescente; a última leva o número 3885 e discorre sobre o vocábulo “reiuno”, a pedido de um CTG de Veranópolis. Era assim mesmo; choviam consultas de toda a parte, de todas as cores e credos, e, aos poucos, O Mundo das Palavras (este era o nome da coluna) foi se tornando o oráculo de todos nós, o lugar onde os aflitos e os curiosos sabiam que iam encontrar as respostas que procuravam.

Como o professor Luft desenvolveu este longo trabalho antes do surgimento da internet (que só chegou por aqui nos anos 90), este vastíssimo material acabou adquirindo uma curiosa estrutura cíclica e, à primeira vista, repetitiva: assim como os golfinhos mergulham para reaparecer lá adiante, certas perguntas apareciam aqui para voltar a aparecer acolá, anos ou meses mais tarde. A razão fica muito clara, se compararmos os recursos de hoje com os que estavam disponíveis naqueles anos heróicos: num saite como o Sua Língua, o material é cumulativo; aqui convivem, lado a lado, todos os artigos que publiquei até hoje do primeiro, de oito anos atrás, ao último, postado na semana passada. Resposta dada é resposta arquivada, que ficará aqui para sempre, disponível para qualquer pessoa que venha a ter uma dúvida semelhante. Nosso mestre Luft, no entanto, que só contava com o jornal, tinha de voltar ao mesmo tema cada vez que um leitor o trouxesse à baila, apesar de já ter escrito sobre ele várias vezes. Era um verdadeiro trabalho de Sísifo. Por exemplo e considerando que minha coleção está bastante incompleta , o emprego dos sufixos “eano” e “iano” foi explicado nas colunas 26, 158, 699, 2389 e 3638; a locução haja vista compareceu nas colunas 156, 382, 2407 e 3702; o gênero de soja, nas de número 58, 644 e 985. Embora as sucessivas reapresentações jamais sejam simples cópias das respostas anteriores (porque ele, incansável pesquisador, sempre dava um jeito de enriquecê-las com exemplos novos e argumentos mais recentes), esse caráter reiterativo impede que o material seja automaticamente transformado em livro, tornando necessário um trabalho de consolidação das diferentes versões. O gigantesco texto acumulado ao longo de quatro mil artigos tornou-se, assim, uma verdadeira montanha aurífera que esconde, em seu interior, vários livros possíveis. Dois já foram publicados pela Editora Ática O Romance das Palavras e A Vírgula , e muitos outros ainda estão lá dentro, prontos para ser extraídos.

Existiam, no entanto, espalhadas no meio desses milhares de colunas, aquelas a que o próprio Luft dava o título especial de “O ABC da Língua Culta”; em vez das tradicionais respostas aos leitores, estas já nitidamente organizadas para publicação em forma de livro traziam, em ordem alfabética, uma relação sistemática das questões que normalmente nos fazem hesitar, na hora de escrever. Era uma obra completa, servida como afirmei acima em fatias; faltava apenas encontrar o editor que as reunisse num volume e as transformasse em livro. No meio de vários outros projetos, no vaivém da existência, contudo, o tempo passou rápido demais, e o professor Luft nos deixou sem ver o ABC publicado. Pois agora, finalmente sob a orientação cuidadosa da Lya Luft , a Editora Globo finalmente completou o ciclo que tinha ficado em suspenso por mais de dez anos e nos deu, a todos os que compartilham o prazer pelas palavras, este verdadeiro presente. (continua aqui)

Depois do Acordo:

idéia, heróico, lingüista e lingüística > ideia, heroico, linguista e linguística.

Categorias
Destaque Destaquinho Generalidades

Primeiro aniversário: um milhão de leitores

Hoje, dia 18 de junho, faz um ano que nos mudamos para este endereço, de roupa nova e cabelo penteado. Os leitores que nos acompanhavam há alguns anos foram unânimes em aprovar as modificações: além de ter sido totalmente redesenhado pela talentosa equipe do clicRBS, o Sua Língua ganhou uma estrutura mais ágil e mais dinâmica, facilitando bastante a pesquisa e a leitura.

Não tenho equipe; trabalho sozinho e vou mantendo, como posso, o ritmo das atualizações, pois todos os textos são de minha autoria, da  primeira maiúscula até o ponto final — assim como também sou eu quem responde às perguntas que recebo. A recompensa está aí: neste primeiro aninho, o Sua Língua teve mais de UM MILHÃO de acessos individuais (para ser mais preciso, 1.054.098, no momento em que escrevo estas linhas). Sei que isso não seria nada demais para um blogue sobre política ou celebridades, mas, para uma página dedicada exclusivamente ao nosso idioma, é o suficiente para me encher de orgulho e gratidão.