Categorias
Acordo ortográfico Como se escreve Destaque Outros sinais

lava-a-jato

Na coluna anterior, mencionei en passant a operação Lava-a-Jato — escrita assim mesmo, com tudo aquilo a que tem direito — o hifenzinho e a preposição A. Sempre atenta, a nossa Maria Rita Horn, anjo da guarda da redação, achou prudente me avisar que a imprensa, embora divirja aqui e ali quanto ao emprego do hífen, vem adotando unanimemente a forma sem a preposição. Como é um texto que leva a minha assinatura, deixamos assim como estava, mas prometi explicar os motivos da minha opção por uma grafia que comete a imprudência de contrariar os hábitos de nossa mídia.

Aliás, começo com uma ressalva: não tenho pretensões a ditar moda para a imprensa. Muitas vezes as escolhas linguísticas que os jornalistas fazem serão diferentes das minhas, e vice-versa — até porque, para eles, a linguagem é um instrumento, enquanto, para mim, ela é o próprio assunto. Como em lava-a-jato o “A” átono da preposição desaparece obrigatoriamente na pronúncia (um pequeno exercício de imaginação: se o verbo estivesse, por exemplo, na primeira pessoa, a preposição seria perfeitamente audível: lavo a jato), o vocábulo foi “reformado” na escrita para uma forma mais simples: lava-jato (falarei sobre o hífen daqui a pouco). Pronto! Essa lipoaspiração deixou tudo mais prático, mais leve, mais rápido; até concordo com isso, mas não posso deixar de apontar, caros leitores, que foi uma alteração bizarra, que desconsidera alguns princípios importantes da morfologia de nosso idioma.

O nome, segundo a própria Polícia Federal, surgiu da união do objetivo principal da operação (investigar a lavagem de dinheiro e desvio de verbas públicas) com o primeiro alvo investigado, uma casa de câmbio suspeita que pertencia ao proprietário do Posto da Torre. Lavagem de dinheiro, lavagem de carros — lava-a-jato (friso que esse oportuníssimo batismo nada teve a ver com Breaking Bad, a série de TV cujo protagonista abre uma lavagem de carros para justificar o dinheiro movimentado com a droga; a operação começou em 2004, a série é de 2008).

Se desconstruirmos (ô, verbozinho mequetrefe!) uma série de vocábulos como lava louça, lava carros, lava roupa, lava pratos, lava pés, vamos encontrar uma das estruturas mais frequentes na formação de nossos compostos: um verbo acompanhado de seu objeto direto (como em guarda roupa, tira teima, porta bandeira, etc.). Neste caso, o verbo lavar é seguido pelo nome daquilo que vai ser lavado. Já em lava a frio, lava a quente, lava a seco, lava a mão, o verbo é seguido por um adjunto adverbialcomo é que se lava. É evidente que lava a jato − lavagem usando o jato com alta pressão de água − pertence ao segundo tipo.

Os leitores atentos terão percebido que não empreguei hífen algum no parágrafo anterior; eu pretendo, desta forma, ressaltar o papel importantíssimo que este sinal tem na distinção (nem sempre possível) entre o que é uma locução (um arranjo casual de vocábulos independentes) de um substantivo composto. Grosso modo, podemos afirmar que sempre teremos hífen quando ocorrer a substantivação. “O bebê aumentava de peso dia a dia“; “o filme mostra o dia-a-dia de uma aldeia gaulesa”. “Aquele posto lava carros; ele adquiriu um potente lava-carros“. “Explicou o projeto passo a passo“; “o jornal traz um passo-a-passo para renovar o passaporte”.

Chegamos assim ao meu ponto: “como ele limpa a garagem? Ele lava a jato” (frase aliás ambígua, porque tanto pode se referir ao modo de lavar quanto à rapidez com que ele lava) é diferente de “vou usar meu lava-a-jato para tirar o limo do telhado” ou “vou passar no lava-a-jato para pegar meu carro”. Aí está: lava-a-jato. Os que quiserem me acompanhar, mas hesitam em usar o hífen por causa da confusa interpretação de um artigo do Acordo Ortográfico, que levou muita gente boa a eliminá-lo dos compostos com preposição, sigam ao menos o exemplo do Aulete, um excelente dicionário on-line, que registra lava a jato. Os que quiserem…

Categorias
Como se escreve Destaque Emprego das letras Outros sinais

A cedilha de David Coimbra

EDU - CEDILHA

Quando você escreve, leitor, você é um AFLITO ou um DESPREOCUPADO? Estes usam o idioma com a feliz inocência de quem caminha sem olhar onde pisa; aqueles estão atentos a cada letra, a cada palavra que escrevem.

Diga lá, leitor, sem rodeios: quando tem de escrever alguma coisa, você se alinha entre os despreocupados ou entre os aflitos? A classificação pode parecer irônica, mas nem por isso é menos exata. Enquanto os primeiros usam o idioma com a feliz inocência de quem caminha sem olhar por onde pisa, os outros ― entre os quais me incluo ―  estão atentos a cada passo que precisam dar. Preocupação inútil, frescura acadêmica? Os aflitos acham que não; é muito mais uma questão de capricho pessoal, tão importante para nós quanto lavar o rosto, pentear o cabelo e escovar os dentes.

Digo isso porque o David Coimbra, um amigo tão aflito quanto eu, na sua coluna desta terça, aqui na ZH, depois de expor suas íntimas incertezas sobre a grafia da palavra xucro e sobre a origem da enigmática cedilha, faz uma eloquente confissão: “Escrevo todos os dias, quase que o dia inteiro; quando não escrevo, leio. E, ainda assim, as dúvidas me angustiam. Como queria ser igual ao Professor Moreno…”.  Por que dizes isso, David? Julgas que assim terminariam tuas dúvidas? Ledo engano, meu caro. Elas me aparecem no café, no almoço e no jantar, e, sem exagero, até no sono já vieram me assombrar; a sorte é que aprendi com mestre Luft a estabelecer com elas uma convivência não só pacífica, como também divertida e enriquecedora. Algumas vão me acompanhar a vida toda, insolúveis, e mesmo as que parecem resolvidas podem voltar a  produzir chama alta se algum vento novo soprar sobre a sua brasa.

O adjetivo xucro (ou chucro) é uma dessas dúvidas que ficarão sem resposta. Como dizes no teu artigo, este vocábulo vem do Quíchua ― língua principal do Império Inca, assim como também vieram lhama, mate, condor, coca (da cocaína), cancha e tambo. Os que a escrevem com X aplicam-lhe o princípio que rege a grafia de todos os vocábulos oriundos de línguas que não tinham escrita (xaxim, orixá, xiru, etc.). Ocorre, no entanto, que essa palavra, ao chegar aqui, já tinha passado pelo Espanhol platino, onde foi transliterada com CH (chúcaro), exatamente como ocorreu com charque. E aí? Escolhe. Segue o rumo do teu próprio coração ― e tranqüilo, porque os bons dicionários (e a Academia Brasileira de Letras) registram ambas as  variantes.

Quanto à cedilha, ela é um sinal extra que o Português, o Francês e o Catalão colocam embaixo do C para formar o cê-cedilha ou cedilhado (se te serve de consolo, no Romeno e no Turco ela é usada sob outras letras, além do C!). Aquele “rabinho”, como chamam as crianças, é na verdade um Z minúsculo; o nome vem de cedilla, que no Espanhol antigo significava “pequeno Z“. Na nossa ortografia, o cê-cedilha é usado para representar o som de /s/ entre duas vogais, papel que disputa, com larguíssima vantagem, com o S duplo; sem ele, seria difícil manter a uniformidade de grafia de algumas famílias de palavras, como doce e adoçar, ou laço, enlace e enlaçar, pois nos permite atribuir à letra C dois sons diferentes.

Depois do Acordo: tranqüilo > tranquilo

Ilustração de Edu Oliveira – jornal Zero Hora]

Junte-se ao nosso grupo no Facebook:  www.facebook.com/groups/sualingua

Categorias
Como se escreve Destaque Formação de palavras Outros sinais

irmãmente

Uma leitora não encontra o advérbio IRMÃMENTE no dicionário e quer saber se mesmo assim pode utilizá-lo. O Doutor explica que sim e tece algumas considerações sobre o uso do til.

 

A leitora Ana Beatriz escreve de São Paulo com uma dúvida surpreendente: ela quer saber se a frase “vamos dividir a despesa como irmãos” pode ser reescrita como “vamos dividir a despesa irmãmente“. E acrescenta: “Eu achava que era possível, mas pesquisei nos dicionários que utilizo normalmente e não encontrei esta palavra. Gostaria de saber se ela existe e, em caso positivo, se está correto grafá-la com til”. Digo que é uma dúvida surpreendente porque cresci usando este vocábulo e nunca tinha me passado pela cabeça, até agora, verificá-lo no amansa-burro. Pois fui bater o olho no Houaiss e no Aurélio (nessa ordem, e na proporção de cinco para um, os autores que mais consulto) e não achei nem sombra dele (para fazer justiça, devo registrar que ele está muito bem explicado no Caldas Aulete digital, sem dúvida o melhor dicionário gratuito da internet brasileira).

O curioso é que o vocábulo já aparece em textos portugueses do séc. 16, no tempo em que os brasileiros ainda andavam nus e assavam o vizinho para o almoço. Tudo indica que continuou a ser usado sem interrupção, pois vem registrado no avô e no bisavô de nossos dicionários: “irmãmente — com amor de irmãos”, define Bluteau (1712); “a modo de irmãos, em boa paz e harmonia”, define Morais (1813). Além disso, os bons escritores decididamente o aprovaram, porque não faltam exemplos de seu emprego. No Brasil, basta ouvir Machado de Assis: “dividimos muita vez esse pão da alegria e da miséria, irmãmente, como bons irmãos que éramos”; “homem e macaco sentam-se em face um do outro na sala de jantar e comem irmãmente as duas refeições”; “posto que Bernardo Guimarães fosse mais velho que nós, partíamos irmãmente o pão da intimidade”. Em Portugal, escolho Camilo: “Depois, esgotado irmãmente o cálice, morrerem ambos”; “dois comendadores gordos, que devoravam  irmãmente um pastelão de ostras”. Só com esses dois curingas eu poderia dar o jogo por encerrado, mas, se quiserem, há ainda Eça de Queirós, Euclides da Cunha e até o modernosíssimo Guimarães Rosa (“o Fafafa, que estimava irmãmente os cavalos, deles tudo entendia, mestre em doma e em criação”).

A esta altura, acredito que nem o mais empedernido descrente terá a coragem de negar que o vocábulo existe e que é moeda boa, de livre circulação. A leitora, porém, tem todo o direito de ficar intrigada com a sua ausência nos dicionários usuais.  Sabemos que, por economia, os dicionaristas normalmente não incluem os advérbios em -mente porque seu processo de criação (basta acrescentar –mente a qualquer adjetivo) é totalmente automático e conhecido pelos falantes: quando Antônio Houaiss registrou suave, sabia que não precisava registrar suavemente. Existem, no entanto, certos casos — e irmãmente me parece ser um deles — que devem ser incluídos no dicionário porque adquiriram alguma nuança nova de significado, desvinculada de sua origem. O usuário precisa ser avisado de que diametralmente, além de indicar o sentido do diâmetro (transversal), significa também “diretamente, inteiramente”, como podemos ver na expressão “diametralmente oposto”. É indispensável, também, que se registre que redondamente significa “completamente” (“Estávamos redondamente enganados”) e nada tem a ver com a forma geométrica. Pelo mesmo motivo, acho que deveria constar que irmãmente, além de significar “fraternalmente, harmonicamente”, adquire um sentido de exatidão e simetria quando é usado com o verbo dividir; dividir irmãmente uma despesa significa dividi-la em partes rigorosamente iguais.

A dúvida sobre a grafia é compreensível, já que nenhum advérbio em –mente conserva o acento do vocábulo de origem (rápida, rapidamente; , somente; espontânea, espontaneamente). O motivo é simples: quase todos os sufixos de nosso idioma são tônicos e, portanto, assumem a sílaba tônica de qualquer vocábulo novo que vierem a formar. Dessa forma, todos os advérbios formados com –mente são paroxítonos (a sílaba tônica é “men”) e, ipso facto, não se enquadram em regra alguma de acentuação — nem antes, nem depois do famigerado Acordo. Isso, contudo, não interfere na presença do til, que é apenas um sinal indicador da nasalidade da vogal e não pode ser confundido com os acentos gráficos, o que fica bem claro em exemplos como órfã, em que o til convive com o acento, ou alemãozão, em que o vocábulo recebe dois tis. Irmãmente vai ostentar obrigatoriamente aquele til, assim como fazem cristãmente, vãmente, temporãmente e louçãmente — ou, com outros sufixos, em manhãzinha, irmãzinha, lãzudo, pãozinho, pãozão, avelãzeira.

Depois do Acordo: nenhuma palavra deste texto sofre alteração na sua grafia.


Categorias
Como se escreve Destaque Formação de palavras Generalidades Origem das expressões Outros sinais

Santana ou Sant’Ana?

Os cidadãos têm o direito de escrever seu nome da maneira como consta no registro; os municípios, no entanto, como não gozam desse privilégio, devem seguir a norma ortográfica vigente.

 

Um amigo santanense que veio me visitar aproveitou — muito de leve, entre um mate e outro, assim como quem não quer nada para sondar o que eu achava da polêmica sobre o município gaúcho de Santana do Livramento. “Voltaram a discutir por lá a grafia do nome Santana“, explicou. “Sei que muita gente prefere escrever como uma coisa só, mas eu acho mais bonito com o apóstrofo entre as duas partes, como manda a tradição igual ao Paulo Sant’Ana! Bem que podiam fazer um plebiscito e decidir isso de uma vez por todas”, concluiu, passando a cuia e a palavra de volta para mim. Entendi o recado, e aqui vai minha resposta, a ele e aos vários amigos que tenho em Livramento.

Em primeiro lugar, confesso que a dieta maciça de autores do Romantismo que a escola costumava servir acabou me tornando um nostálgico admirador do apóstrofo. Alencar intitulou um de seus mais adocicados romances de Sonhos d’Ouro elegante, delicado, sugestivo; Sonhos de Ouro, ao contrário, parece mais adequado para um daqueles paradouros de Santo Antônio da Patrulha em que, nos anos 60, a caminho das praias do Atlântico, a família gaúcha renovava suas forças com sonhos fritos e café preto. Por isso, se fosse questão de gosto, eu não hesitaria em escolher Sant’Ana.

Friso: se fosse questão de gosto… mas não é. Em casos como este, não importa a minha preferência ou o meu senso estético assim como também não importa, como alguns tentam alegar, que assim está nos documentos da fundação da cidade. Todo cidadão tem o direito de portar o nome da maneira como foi registrado, é verdade; muita gente não sabe, porém, que esta regra não vale para os nomes geográficos. A grafia do nome de um município está submetida às regras ortográficas vigentes, independentemente da forma como constava nas atas de fundação. Este princípio é fundamental para um país que, como o nosso, já tem municípios com mais de 450 anos: seria quase impossível administrar todos esses nomes (o Brasil já anda lá pelos seis mil, atualmente) se cada um conservasse a grafia original, muitas vezes atribuída em épocas em que não existia uma ortografia oficial ou em que vigiam outras normas que não as atuais. Pode-se imaginar o caos que se instauraria nas placas dos automóveis, na sinalização das estradas, nos documentos públicos, nos livros didáticos e em todas as outras situações em que precisamos escrever o nome do município!

Não sei, por exemplo, como consta no registro inicial da cidade, mas sei que durante muito tempo Triumpho se escreveu assim, com ph. Com o Acordo de 1943, passou automaticamente a ser grafado Triunfo e pronto. Trammandahy, Trammanday ou Tramandahy? Não importa; na ortografia atual, é Tramandaí. A regra dos acentos diferenciais, no Acordo de 1943, deu um chapeuzinho (circunflexo) a Porto Alegre, que passou a Pôrto Alegre assim permanecendo até 1971, quando uma pequena reforma eliminou o referido acento e voltamos a escrever Porto Alegre. Se amanhã decidirem que alegre passará a ter acento no “E” (já não duvido de nada…), lá vamos nós escrever Porto Alégre e assim por diante. É assim que funciona (e deve funcionar).

Ora, sendo o Brasil um país historicamente católico, Santana do Livramento, embora date do séc. 19, é apenas um dos vários municípios que traz Santana no nome. Numa rápida busca no IBGE encontrei mais de quinze Santanas: Santana de Parnaíba (SP) o mais antigo, fundado no séc. XVII , Santana do Matos (RN), Santana do Cariri (CE), Santana da Boa Vista (RS), Santana do Acaraú (CE), Santana da Ponte Pensa (SP), Santana da Vargem (MG), etc. além de Barra de Santana (PB), Campo de Santana (PB), Capela de Santana (RS), Feira de Santana (BA), Riacho de Santana (BA), Santana (AP), Santana (BA) todos grafados da mesma maneira, sem apóstrofo.

Aqui podemos avaliar o quão sábio é o princípio de submeter esses nomes geográficos ao sistema ortográfico vigente: se cada município resolvesse defender a grafia que recebeu no seu batismo, teríamos um desfile de variantes que incluiria “Sant’Ana”, “Sant’Anna”, “Santanna”, “Santana”, “Sant’ana” e sabe-se lá quantas outras mais. É exatamente por isso que a grafia desses nomes não está submetida à vontade ou à preferência de seus habitantes, ou dos prefeitos e vereadores. Podemos fazer um plebiscito para trocar o nome, mas não para contrariar a norma ortográfica. É perfeitamente aceitável que os habitantes de Embu, em São Paulo, votem para decidir se vão ou não trocar o nome para Embu das Artes mas seria impensável fazê-lo para mudar sua grafia para *Embú (com acento). A lei assegura aos santanenses o direito de definir o nome do município, trocando-o, se assim decidirem, por Santana, Livramento do Sul, Palomas ou qualquer outro mas não sua grafia.

Categorias
Acordo ortográfico Artigos Como se escreve Destaque Outros sinais

o “não” como prefixo

Professor, não tenho certeza sobre como devo grafar “anti-inflamatórios não-esteróides (é uma classe de medicamento). As gramáticas que consultei não falam sobre o emprego daquele hífen depois do não, mas sei que é assim, hifenizado, que o vocábulo aparece em muitos livros e manuais médicos. Afinal, qual é o correto? Em que casos podemos usar o hífen depois da palavra não?

Áurea A. – São Paulo (SP)

 

Prezada Áurea: para desmentir aqueles que vivem resmungando que nosso idioma só piora com o passar do tempo, este não com valor de prefixo, estrela recém-chegada no firmamento da língua, constitui um notável (e moderníssimo) mecanismo para a formação de antônimos. Você quer saber quando ele vem seguido de hífen? Pois sou obrigado, por desencargo de consciência, a registrar que há uma certa controvérsia sobre este ponto, principalmente depois das trapalhadas da última edição do VOLP (mais sobre isso depois). Por isso, como você terá de escolher um dos lados desta disputa, faço questão de lhe fornecer os subsídios que julgo necessários para uma decisão consciente. Em primeiro lugar, reproduzo, abaixo, o que consta sobre o tema no livro Português para Convencer, escrito por Túlio Martins e por este seu criado:

 

“Historicamente, o Português sempre formou palavras negativas usando os prefixos i(n)– e des: ilegal, improdutivo, intempestivo; desleal, desarmônico, descabido. Desde o século passado, no entanto, teve início a prática (também presente em outras línguas, como o Inglês, o Francês e o Espanhol) de usar o não como um prefixo negativo universal, que se acrescenta a um vocábulo já existente (geralmente adjetivo ou substantivo abstrato) para formar um antônimo perfeito.

“O uso do não como prefixo foi uma das grandes novidades com que a língua nos brindou no fim do século XX, permitindo que tudo possa ser dividido em duas categorias complementares, X e não-X — o que constitui uma ferramenta muito útil no discurso argumentativo. Com esse providencialíssimo não, podemos criar divisões binárias de praticamente tudo o que quisermos: os votantes e os não-votantes, os alfabetizados e os não-alfabetizados, os hispânicos e os não-hispânicos, os marxistas e os não-marxistas. Ele até nos permite falar no não-eu ou no não-ser, vocábulos que seriam impensáveis com nossos prefixos negativos clássicos, o ine o des. (…)

“Em muitos vocábulos esse prefixo vai concorrer com os tradicionais prefixos negativos, e geralmente com vantagem. É o que está acontecendo entre duas formações relativamente recentes, inocorrência e não-ocorrência. Ambos são amplamente usados em textos jurídicos, com uma leve preferência, por enquanto, pela primeira forma, que é tradicional. No entanto, não temos dúvida de que a segunda vai prevalecer em poucos anos; o não prefixal permite uma decodificação muito mais rápida do significado do vocábulo por parte do leitor, o que é sempre uma grande vantagem na disputa entre duas formas linguísticas concorrentes.”

[MORENO & MARTINS. Português para Convencer. São Paulo, Ática, 2006. p. 169]

 

Como você pode ver, não se trata de uma simples moda, mas sim de um processo que veio para ficar, superior em muito às outras formas de antonímia porque preserva integralmente o vocábulo original que está sendo antagonizado. Este recurso permite uma simetria perfeita entre afirmativa e negativa, o que nem sempre se consegue através de construções tradicionais.

Qual é a natureza deste processo? Não importa. Sejam formadas por derivação prefixal ou por composição (para muitos, aliás, dois nomes para um mesmo fenômeno), as novas palavras ficam melhor com hífen. Alguns gramáticos mais antigos negavam-se a usá-lo, mas a prática já o consagrou, especialmente porque ele serve para assinalar que o não, aqui, não é um advérbio de negação, mas sim um elemento da composição do vocábulo. Os bons dicionários o usam; o Houaiss, embora declare textualmente que considera este hífen mais adequado em substantivos (não-violência, não-proliferação, não-alinhamento), não deixa de registrar também adjetivos hifenizados, “especialmente no caso de tecnônimos, pois o uso assim os havia consagrado no jargão técnico ou tecnológico escrito”. Apuradas as urnas, constata-se que há uma inegável tendência a empregar o hífen, mesmo que persistam divergências quanto a alguns punhados de palavras.

Sempre coerente na sua onipotência, contudo, a comissão de Lexicologia da ABL, encarregada de elaborar o novo VOLP, foi muito além das chinelas — isto é, foi muito além do texto do Acordo Ortográfico e anunciou, em uma Nota Explicativa, que tinha decidido excluir o hífen dos casos em que a palavra não funciona como prefixo, mencionando, como exemplos, não-agressão e não-fumante, grafados por ela como não agressão e não fumante. No entanto, logo depois, no parágrafo seguinte da mesma Nota — talvez prevendo a inevitável reação contra esta decisão unilateral —, a douta comissão dá uma contemporizada tipicamente brasileira: “Está claro que, para atender a especiais situações de expressividade estilística com a utilização de recursos ortográficos, se pode recorrer ao emprego do hífen nestes e em todos os outros casos que o uso permitir”. Que tal? Firmes como uma rocha…

Eu escreveria, sem a menor hesitação, “anti-inflamatórios não-esteróides“, seguindo o consenso da maioria culta; respeito a decisão dos que preferem não fazê-lo, mas não me venham alegar uma pretensa “grafia oficial” a seu favor, pois aquela Nota Explicativa é apenas a opinião isolada de alguns acadêmicos e não integra o Acordo que o Brasil assinou com os demais países lusófonos. Agora cabe a você, Áurea, escolher o caminho que lhe aprouver. Abraço. Prof. Moreno.

 

Depois do Acordo: esteróides > esteroides

Categorias
Como se escreve Destaque Formação de palavras Outros sinais Questões em aberto

anti-EUA

Jamais devemos esquecer que as normas ortográficas foram (e ainda são) feitas por homens, mortais como nós, com momentos de brilhantismo e outros de absoluta estupidez. Nosso sistema ortográfico até que  é muito razoável, se levarmos em conta o que significa regulamentar a grafia de uma gigantesca quantidade de fatos de linguagem; o que não podemos exigir dele é que seja perfeito e que dê conta de todas as situações possíveis que o uso nos faz descobrir, como aconteceu no caso do hífen.

O emprego deste infeliz “tracinho”, de utilidade discutível, foi definido pelos elaboradores do Acordo de 1943 e aperfeiçoado pelo Acordo de 1990. É bem assim que funciona no Brasil: decide-se num gabinete qual a melhor grafia para as palavras, publica-se no Diário Oficial da União (não estou brincando!), dá-se um prazo para sua utilização compulsória, emitem-se pareceres, baixam-se portarias, etcétera e tal; isso é suficiente para despertar no brasileiro comum aquele respeito pela leizinha, aquele amor ao carimbo, aquele prazer bem ibérico pelo regulamentozinho chinfrim de cartório. E ai de quem lhe diga que a regra pode estar equivocada, ou incompleta, ou incongruente: vai olhá-lo como a um sacrílego que tentasse emendar os Dez Mandamentos. Felizmente esta coluna é lida por pessoas que têm miolo e que já devem ter percebido que a regra do hífen não é uma lei interna do idioma, mas uma simples disposição concebida por pessoas que talvez não tenham imaginado todas as suas conseqüências, como veremos.

Pelas novas regras, este prefixo deve ser hifenizado antes de H e de I, o que nos leva a escrever anti-Holanda, anti-Israel, como anti-hemorrágico e anti-islâmico. Até aqui, tudo bem. E o resto? Vamos deixar de escrever anti-Cuba, anti-Afeganistão, anti-Rússia e anti-França, para escrever anticuba, antiafeganistão, antirrússia (credo!) e antifrança? Em vez de anti-EUA, como escrevo, vou escrever antieua? Quem sabe antissarkozy (tipo antissemita, antissísmico), em vez de anti-Sarkozy? Enlouqueceram?

É evidente que todos sentimos o hífen aqui como indispensável; na verdade, este prefixo, cada vez mais em moda (tem gente que consegue ser anti-tudo!), sugere que se é “contra tudo aquilo que estiver do lado direito do hífen”. Um crítico que não gosta do Cinema Novo é anti-Cinema Novo, e não anticinema novo, como gostariam os idiotas da objetividade (o prefixo estaria se opondo a “cinema”). Há os anti-Lula, os anti-Fernando Henrique, os anti-privatização da Petrobrás, os anti-Sarney, os anti-stalinistas

Este é um belo exemplo de como os fatos concretos atropelam as leis feitas pelo homem; lá pelos anos 40, ninguém poderia prever a intensidade e a variedade do emprego de anti no início do século 21  — e a regra não estava preparada para isso. O novo Acordo (1990) já deveria ter tomado consciência dessa nova realidade; deveria, mas não tomou.  Isso tudo sem falar em outro uso moderno para anti-, mais profundo, em que ele exprime uma posição de “negação” conceptual do que vem depois. O anti futebol (ou seria antifutebol, ou anti-futebol?) não é contra o futebol, assim como o anti cinema não é contra o cinema, mas um tipo de  futebol ou cinema (ambos muito chatos) que se opõe a tudo aquilo que tradicionalmente se conhece por cinema ou futebol. E aí? Esse anti está contido naquela regrinha, é um novo prefixo ou é um daqueles elementos que se independentizou, como súper ou máxi? Esta é uma questão que só o uso poderá decidir.

Depois do Acordo: conseqüências > consequências

Categorias
Como se escreve Destaque Emprego das letras Outros sinais

translineação com dígrafos

Caro mestre Moreno: minha pergunta é pontual e fácil de ser respondida, mas como a dúvida surgiu no ambiente de trabalho e as opiniões estão muito divididas, gostaria que me esclarecesse de uma vez por todas. Na partição da palavra CLASSIFICADO, no final da linha, eu posso dividi-la assim:  CLASSI-FICADO?

Para mim, não há problema algum: as duas primeiras sílabas ficam numa linha e as demais na linha seguinte. Vários colegas de trabalho, porém, me disseram que eu estava “assassinando” a língua portuguesa, já que eu deveria ou separar no dígrafo SS (CLAS-SIFICADO), ou deixar as duas últimas sílabas na linha seguinte (CLASSIFI-CADO). Argumentei de todas as formas, desenhei a divisão silábica e demonstrei que a mesma não estava sendo desrespeitada, mas nada os convenceu. Então, caro mestre, quem está com a razão??

Lislaine  – Ribeirão Preto (SP)

Prezada Lislaine, confesso que não entendi o ponto de vista de teus colegas. Parece que eles ouviram o galo cantar mas não sabem muito bem onde… O que não se pode fazer, em Português, é deixar o dígrafo SS na sílaba inicial da linha seguinte, como faz o Espanhol; nós temos de separar um S do outro (não há nenhum razão lógica para isso, mas é assim que ficou estabelecido). Portanto, dependendo do ponto da palavra em que recair o final da linha, poderíamos ter CLAS/SIFICADO, CLASSI/FICADO, CLASSIFI/CADO ou CLASSIFICA/DO – nota que não estou separando todas as sílabas, mas apenas indicando, com o sinal “/”, o final de uma linha e o início da outra. O que estaria completamente errado seria *CLA/SSIFICADO.

O mesmo ocorre com os demais dígrafos separáveis, como o SC e o RR. Se a palavra RENASCIMENTO ficar no final da linha e tiver de ser dividida, dependendo do espaço de que dispusermos nós vamos ter RE/NASCIMENTO, RENAS/CIMENTO, RENASCI/MENTO ou RENASCIMEN/TO.

Agora, vamos convir que tudo isso começa a ser cultura inútil, já que as máquinas de escrever, que alinhavam os espaços por colunas rígidas, na vertical, já podem ser consideradas verdadeiras relíquias; os processadores de texto, com a possibilidade de justificar as linhas, torna raríssima a necessidade de separar as sílabas na margem da direita. Abraço. Prof. Moreno

Na volta do correio:

Prezado Mestre Moreno: obrigada pela rapidez e clareza na resposta; acho que com o seu texto, mais alguns recortes da Folha de São Paulo e do Estadão exemplificando a partição de vários dígrafos, eu consegui convencer os colegas, mas confesso: não foi nada fácil, muitos são teimosos…

Queria apenas lhe dizer que não concordo que tudo isso seja cultura inútil. Acho uma pena as pessoas pararem de escrever à mão; eu sempre faço um rascunho com papel e caneta antes de digitar no computador, justamente para não perder o hábito e começar a esquecer as regras de acentuação e ortografia. Na época em que me preparava para o vestibular ,fiz bons cursos de redação, e hoje sinto um grande dó ao ver crianças e adolescentes escreverem tão mal e terem tanta dificuldade na interpretação de textos. Sem contar que somos pais e mães e iremos ajudar os professores dos nossos filhos desde a alfabetização até a preparação para o temido vestibular, onde a redação ainda tem, e espero que continue a ter, um grande peso na nota. É isso! Mais uma vez obrigada!

Lislaine


Concordo com quase tudo, Lislaine, mas reafirmo que a translineação está se tornando uma cultura para lá de inútil. Trabalho com centenas de adolescentes que se preparam para o vestibular, e podes ter certeza de que nenhum deles vai separar qualquer vocábulo no final da linha se puder evitar. Essa obsessão é característica do Brasil do tempo da datilografia, por uma deformação em nossa cultura: enquanto os falantes do Inglês e de outros idiomas nunca se preocuparam em manter a margem da direita uniforme (basta ver que o Word vem, de fábrica, configurado para alinhar à esquerda), em nosso pobre e inculto país essa mesma margem tornou-se obrigatória e indicadora do grau de habilidade que tinha o datilógrafo. Na nossa mente tupiniquim, o texto datilografado tinha de ser uma imitação do texto impresso, composto em linotipo (máquina que, essa sim, tinha justificação).

Eu sei muito bem o trabalho que dava porque era funcionário de um banco e tinha de escrever num papelzinho à parte a palavra que ia encerrar a linha, a fim de contar os espaços necessários para obter um alinhamento homogêneo; quando vieram as máquinas elétricas de esfera, eu aprendi a empurrar a esfera manualmente para mudar o espaçamento entre os caracteres, obtendo assim uma margem direita perfeita! Tudo isso poderia ter sido evitado se nos tivéssemos  acostumado com o alinhamento à esquerda; como tal não aconteceu, tivemos de esperar anos para que, finalmente, os processadores de texto acabassem com o problema, justificando cada linha automaticamente. Estudar separação de sílabas? É fundamental, porque dela dependem vários princípios de nossa ortografia, entre eles o da acentuação. Estudar a separação de sílabas na translineação? Cultura inútil, como eu disse. O novo Acordo, na sua incomparável vocação para o supérfluo, incluiu uma regra que determina a repetição do hífen de separação quando coincidir com o hífen dos vocábulos compostos ou dos pronomes enclíticos – como diz Umberto Eco, um  belo exemplo da tetrapilectomia, a inútil arte de dividir, em quatro partes, um fio de cabelo ao comprido. Abraço. Prof. Moreno

Categorias
Casos Decididos Como se escreve Destaque Outros sinais

Bom dia, bom-dia

Caro Professor, em uma mensagem eletrônica ou em uma carta, o cumprimento “bom diapode ser escrito sem hífen? Lucia — Curitiba

Em qualquer circunstância, Lucia — carta, bilhete, e-mail, etc. —  a saudação vai ser escrita sem hífen: “Bom dia!”. Quando for um substantivo, no entanto, deve ser hifenizado: “Deu um bom-dia sem graça e foi sentar em seu lugar”. Neste caso, tem até plural: “Já estava cansada daqueles bons-dias cheios de segundas intenções”. Pois nada disso muda, com o Acordo; as novas regras de hífen dizem respeito a formação com prefixos — o que não é o caso. Abraço.  Prof. Moreno

Mas caro Professor, de acordo com o VOLP, saudação protocolar é vocábulo grafado com hífen. O Houaiss ratifica tal ponto de vista. Assim, ao iniciar o dia, o bom-dia é um cumprimento, pois não? O Acordo de 1990 não aborda a questão. E aí?

Lucia — Curitiba

Minha cara Lúcia, nota que o Houaiss registra apenas o substantivo masculino (com hífen, aliás, como já te disse na mensagem anterior). Deves perceber que isso nada tem a ver com “Bom dia!”, aquele segmento de frase que dizemos quando encontramos alguém, ou dele nos despedimos. É uma locução, o que significa que já pertence ao mundo da sintaxe — e isso a deixa fora do âmbito do hífen, que fica restrito ao interior de um vocábulo composto. “Bom dia!” é da mesma tribo de “Boas festas!”, “Bons ventos!”, “Bom Carnaval!”, “Boa viagem”,”Bom almoço!”, “Boa hora” (que se diz para as gestantes), e assim por diante. Um exemplo que deixa bem clara esta diferença é “boa tarde”. Compara a concordância de gênero em “Tenha uma boa tarde” (locução) com “Deixo aos ouvintes o meu boa-tarde” (substantivo composto). Abraço. Prof. Moreno

Categorias
Acordo ortográfico Artigos Destaque Outros sinais

Não compre o novo VOLP! 3ª parte

[publicado em 19/06/2009]

Neste artigo, como nos dois primeiros, o tema não é o novo Acordo, do qual sou crítico declarado e inimigo irredutível, mas o Vocabulário Ortográfico que nossa Academia deu à luz, em parto desastrado e prematuro. Isso significa que não vou avaliar aqui as mudanças propostas pela última Reforma, sobre (e contra) as quais já escrevi tantas vezes, mas sim apontar ao meu prezado leitor o equívoco que a comissão brasileira cometeu ao tentar interpretá-las, comprometendo irremediavelmente esta quinta edição do VOLP e condenando-a ao depósito de papel velho. É o que pretendo demonstrar.

Quando o Diário Oficial da União publicou o texto do Acordo, percebeu-se que ele continha várias regras conflitantes ou redigidas de maneira confusa. E olhe, caro leitor, que não se trata da opinião pessoal de um adversário birrento como eu; esta foi a mesma impressão que tiveram todos os que se dispuseram a enfrentar aquele estilo pedestre, fossem eles do contra, fossem a favor. Todos nós — os bons e os maus, os crédulos e os descrentes — recolhemos as armas e ficamos na expectativa do vocabulário que a ABL deveria editar. Os acordistas tranquilizavam os aflitos (e a si mesmos) anunciando que todas as dúvidas e perplexidades que porventura restassem deixariam de existir no momento em que ele fosse publicado; os não-acordistas (com hífen, porque é assim que devem escrever aqueles que conhecem o idioma) esperavam, céticos, o parto da montanha, curiosos apenas em saber em que medida o VOLP reduziria o dano anunciado.

Diante desta disputa, um daqueles camponeses proverbiais, montado em seu burrico, teria sentenciado, abanando a cabeça: “De mau ovo, mau corvo”. E dito e feito: o VOLP veio decepcionar todo o mundo, pois a nossa comissão, em vez de trazer o bálsamo prometido, só veio aumentar a ardência da ferida, extrapolando sua competência ao tomar decisões que iam além e mesmo contra o que estava disposto. O caso de co-herdeiro foi típico. Em todo o Acordo perpassa a ideia de preservar sempre o H inicial do segundo elemento dos compostos (anti-higiênico, super-homem, neo-helênico, geo-história), o que representa um bem-vindo aperfeiçoamento do sistema de 1943, que não usaria hífen nos dois últimos exemplos acima. Nossa ortografia sempre manteve o H inicial de hora, hábito ou histérico — da mesma maneira que o Francês, o Inglês ou o Espanhol — para deixar visível o DNA desses vocábulos, inserindo-os na tradição greco-romana do Ocidente. Fiel a este espírito, a Reforma determinou que ele também seja conservado no interior dos vocábulos compostos, o que é decididamente um progresso; nossa ABL entendeu tão bem o princípio que o estendeu a um prefixo importante como sub-, transformando os antigos (e absurdos) subumano, subepático e subabitação, por exemplo, nos simpáticos sub-humano, sub-hepático e sub-habitação, com uma construção muito mais transparente para o usuário. Ora, depois de acertar tão bem no prego, essa mesma comissão, por razões insondáveis, resolveu dar uma martelada na tábua e transformou co-herdeiro (que continuamos a escrever assim, seja pelo modelo tradicional, seja pelo princípio atual) num esquisitíssimo *coerdeiro (está assim no VOLP), que desfigura totalmente o segundo elemento. Não importa se foi um cochilo ou se foi uma decisão deliberada, mas é um erro que precisa ser corrigido; escrito assim, o vocábulo contraria o princípio geral e, o que é mais espantoso, vai expressamente contra o texto do Acordo, que usa este vocábulo como exemplo, grafando-o, como era de esperar,  com hífen e com H.

Não é por um detalhe como esse, no entanto, que vamos condenar esta quinta edição. É natural que numa lista de centenas de milhares de itens existam dezenas de pequenos equívocos a corrigir (ainda mais se considerarmos a pressa com que foi feita e a duvidosa qualificação da equipe que a elaborou). Sempre foi assim, com as edições anteriores; mesmo o venerável e consistente vocabulário de 1943, enquanto vigeu, teve várias imperfeições e incoerências apontadas pelos especialistas. O que inutiliza o presente vocabulário, no entanto, é um equívoco teórico de base, que levou a comissão a grafar erradamente várias centenas de vocábulos, escrevendo sem hífen, por princípio, todos os compostos de mais de dois elementos. Num absurdo linguístico, como vou demonstrar na próxima coluna, defendem a retirada do hífen em vocábulos como fora-da-lei, pé-de-moleque, tomara-que-caia, dois-de-paus! É de estarrecer! Assim como está, o VOLP, como se diz, é “impróprio para o consumo”, tão funesto quanto o medicamento vencido ou a merenda estragada; espero sinceramente que já não esteja em curso alguma gigantesca operação para fornecê-lo a todas as escolas “desse” país. A ver.

[1] [2] [3] [4]

Categorias
Acordo ortográfico Outros sinais Questões em aberto

hífen ou travessão

1) Silvio Gomes, de Santos, diz que sempre distinguiu o hífen do travessão (encontrável, segundo ele, digitando-se Alt+0150 no teclado numérico). Por isso mesmo, não entende por que a imprensa trata os dois sinais da mesma forma. “Afinal, eles não têm diferenças de forma e de emprego?”

Meu caro Sílvio, tens razão ao dizer que não são caracteres iguais, embora a prática da imprensa, no Brasil, esteja fundindo as duas coisas. Eu sempre os distingo, quando escrevo; abri a janela de “Symbol”, no Word, e atribuí ao travessão uma combinação cômoda de teclas. A diferença fundamental entre eles é o âmbito em que aparecem. O hífen está restrito ao âmbito do vocábulo; serve para separar sílabas ou unir os elementos que formam um vocábulo composto. O travessão é um sinal de pontuação da frase, com vários empregos importantes que serão examinados oportunamente em artigo sobre a pontuação. Uma de suas funções é ligar o ponto inicial e o ponto final de um trajeto ou de um período de tempo: a rodovia Belém—Brasília, o triênio 1971—1974, e assim por diante.

Agora, se quiseres precisão milimétrica, deves ler os livros de editoração em Inglês. Ali, eles distinguem entre o m-dash, o mm-dash e o mmm-dash — velha denominação tipográfica que se refere a um travessão da largura de uma, duas ou três letras M“, cada um com seu emprego distinto. Abraço. Prof. Moreno

2) Prezado professor, não consigo perceber diferenças entre o hífen e o travessão, fora o fato do segundo ter mais ou menos o dobro do tamanho do primeiro. Tenho visto, em seu site, que o senhor às vezes usa o travessão duplo no lugar de vírgulas, mas também lembro que usávamos, na escola, este sinal para indicar a mudança da pessoa no diálogo. Existe uma diferença clara entre eles? Homero Z. — Goiânia

A diferença fundamental entre os dois sinais, meu caro Homero, é o seu âmbito de atuação. O hífen, presente no teclado, é um sinal que atua no interior do vocábulo; o travessão, que se obtém digitando (no teclado numérico) 0151, enquanto se mantém a tecla ALT pressionada, é um sinal de pontuação interna da frase.

É por isso que usamos o hífen apenas em três situações: (1) para indicar que dois vocábulos formam um novo vocábulo composto (couve-flor, decreto-lei); (2) para ligar o pronome enclítico ao seu verbo (fazê-lo, vendeu-o); e (3) para separar as sílabas numa eventual translineação. É por causa disso — por esse uso exclusivamente morfológico, e não sintático — que o hífen não é considerado, propriamente, um “sinal de pontuação”, mas um simples sinal ortográfico, como os acentos, o til ou o trema.

O travessão já é vinho de outra pipa; ele serve (1) para indicar, num diálogo, o início da fala de um personagem; (2) para, exatamente como os parênteses, indicar a intercalação de um elemento na frase (como eu próprio fiz, no último período do parágrafo anterior); (3) para introduzir, ao final de um argumento ou de uma enumeração, uma síntese ou conclusão (“Imagine um entardecer de domingo, escuro e frio, debaixo de uma chuva fina, numa estaçãozinha de trens do interior do estado — uma verdadeira desolação!”; (4) para indicar o ponto inicial e final de um percurso ou de um espaço de tempo: a ponte Rio—Niterói; a obra de Tobias Barreto (1839—1869). Abraço. Prof. Moreno

DEPOIS DO ACORDO — Eu já devia saber que, quanto mais rezo, mais assombração me aparece! Pois não é que esse primor de Acordo Ortográfico, que consegue ser, a cada dia, pior do que na véspera, determina, com todas as letras, que devemos usar o hífen, e não o travessão, para os dois pontos extremos de um trajeto? Ou seja, segundo eles, deveríamos escrever “Ponte Rio-Niterói“, e não “Rio—Niterói“, desrespeitando, de uma vez por todas, o limite entre o que é vocábulo composto (com hífen) do que é uma locução (com travessão)! É mais um ponto na lista do que vai ter de ser revisado por essas desastradas “autoridades”…

Veja a regra aqui