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vou estar verificando

Não seja injusto! O erro chamado de GERUNDISMO não é culpa do pobre gerúndio.

Numa coluna muito bem-humorada, ao falar dos operadores de telemarketing ― uma praga que faltou no Egito ―, Mário Corso apontava, com ironia, um peculiar emprego do gerúndio que eles propagaram país afora: “Não foi Machado, nem Pessoa, nem ao menos um criador de palavras como Guimarães Rosa quem nos trouxe o encontro triverbal. Nunca antes usamos três verbos juntos como nesse exemplo prosaico: vou estar verificando… Como chamar isso? Talvez o professor Cláudio Moreno possa nos dizer: seria promessa de gerúndio, ou presente gerundiado, ou ainda gerúndio do gerúndio?”. Ora, amigo Mário, nestas questões de Português sofro a mesma sina que o gênio de Aladim, pois não posso deixar de atender a quem fricciona a lâmpada da dúvida.

Embora esse tipo de erro seja chamado de “gerundismo”, ele não se origina no pobre gerúndio, mas sim em um dos vários recursos que a língua oferece para expressarmos a ideia de futuro. No Português atual (falo do Brasil, apenas), é mais usada a construção [ir +qualquer verbono infinitivo]: “Amanhã vou sair bem cedo”; “Desse jeito, vais perder o marido”. Em segundo lugar, a preferência fica simplesmente com o presente do indicativo do verbo: “Amanhã eu saio bem cedo”; “Desse jeito, perdes o marido”. Nossa terceira e derradeira escolha passou a ser, há muito tempo, o futuro do presente, quase extinto no uso comum: “Amanhã sairei bem cedo”; “Desse jeito, perderás o marido” (aliás, deve ter sido a raridade de seu emprego que levou o Pinheiro Machado, nosso Anonymus Gourmet, a escolher “Voltaremos!” como bordão de seu programa).

O outro ingrediente desta complexa mistura é a sequência [estar+gerúndio], usada para expressar uma ação continuada, seja no presente, no passado ou no futuro: “Estou tentando ligar”; “Ele estava pintando o muro”; “Quando chegares, estarei dormindo“. Pois aqui está: quando o auxiliar estiver no futuro, a tendência natural, como vimos acima, é substituí-lo pela locução formada de [ir+infinitivo]: “Quando chegares, vou estar dormindo“, “Na hora do jogo, vou estar dando aula” ― frases corretas, “corretíssimas”, como diria o José Dias de Machado.

Ora, o que nos faz rejeitar frases do tipo “vou estar verificando”? Há algo nela de esquisito, mas, como vimos, não é a sequência  [ir+estar+gerúndio], pois este “encontro triverbal” é construção prevista na estrutura da língua, empregada por vários autores que escrevem bem melhor do que nós. O problema, na verdade, é a incompatibilidade do verbo verificar com o verbo estar, já que não tem caráter durativo, mas pontual (“vou estar verificando” significa, no fundo, “vou verificar”). É o mesmo motivo que nos faz rejeitar “vou estar chamando um táxi” ou “vou estar enviando o relatório”, mas aceitar “venha, que vou estar esperando na porta” ou “quando você defender a tese, vou estar torcendo aqui em casa”.

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Lições de gramática Verbos - conjugação

fi-lo?

 

O leitor Tolenti implica com o uso do pronome O em ênclise ao verbo. Diz ele: “Por que podemos utilizar fi-lo, se isso é cacafônico? Isso me lembra a série filo, família, gênero, etc., utilizados na Biologia”.

Ninguém usa fi-lo, meu amigo, a não ser, talvez, o falecido Jânio Quadros (o que, no fundo, não passa de mais uma anedota atribuída a essa excêntrica e lamentável figura). Existe (isso é outra coisa) a possibilidade de colocar o pronome O enclítico ao fiz, o que resultaria, obrigatoriamente, em fi-lo. No entanto, essa é uma forma cacofônica (e não *cacafônica) e fica no armário das curiosidades, juntamente com qué-lo, trá-lo, di-las, pu-las e quejandos. Poderíamos utilizar centenas de formas que, ao menos para nosso ouvido do século XXI, soam muito mal — e por isso nós as deixamos no depósito. Abraço. Prof. Moreno

 

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Lições de gramática Verbos - conjugação

vou ir

Caro Professor Moreno: a minha dúvida é quanto ao uso da expressão vou ir. O senhor escreveu, em uma resposta a outro internauta, que esta locução verbal seria condenada por gramáticos tradicionais. Gostaria de compreender melhor a razão para tal condenação. Há quem tente explicar dizendo que não se pode usar o mesmo verbo como verbo auxiliar e verbo principal. Contudo, sempre achei que a locução tenho tido, por exemplo, não ferisse as regras da gramática. Obrigada. [Andréa L. — Rio de Janeiro]

Prezado Prof. Moreno, estamos com uma dúvida, eu e um amigo: afinal de contas, a expressão vou ir — muito utilizada no Rio Grande do Sul — está correta ou não? Eu penso que não; ele acha que sim. Podemos dizer vou fazer, vou trabalhar, etc., mas vou ir? Obrigado e novamente parabéns pelo trabalho!      [Rodrigo L.]

Minha cara Andrea: tens toda a razão: há vários exemplos de locução verbal, em nossa língua, em que aparece o mesmo verbo, tanto na posição de auxiliar quanto na de principal; os mesmos fariseus que condenam vou ir aceitam há de haver, vinha vindo, tinha tido. É evidente que o verbo só tem o seu significado pleno, originário, quando está na posição de principal; em “HÁ DE HAVER uma solução para este problema”, o auxiliar () exprime a idéia de “desejo” (leia-se: eu gostaria que houvesse) ou de “obrigatoriedade” (leia-se: deve haver), enquanto o principal é que tem o sentido usual de “existir”. Já falei sobre isso quando analisei a locução vinha vindo.

No caso de vou ir, Rodrigo, vem agregar-se um outro fato lingüístico muito importante: a forma preferida de expressar o futuro, no Português moderno, é uma locução verbal com a estrutura [ir no pres. do indicativo + qualquer verbo no infinitivo]. Essa estrutura (vou sair, vou poder, vou ficar, vou ser) concorre com outras possibilidades, também usadas, mas em menor escala: (1) o próprio PRESENTE DO INDICATIVO (“Amanhã eu posso“, “No ano que vem eu saio“); (2) o FUTURO DO PRESENTE (sairei, poderei, ficarei, serei); (3) a locução [haver + infinitivo]: hei de sair, tu hás de entender.

Estudos atualizados mostram que as hipóteses (2) e (3) são, no fundo, no fundo, a mesmíssima coisa. Como herança do Latim tardio, que substituiu a forma única do futuro por uma locução (amare habeo), nosso futuro, que parece ser uma forma una, na verdade é uma locução invertida, com o auxiliar haver à direita. Exemplifico: basta pegar “eu hei de comprar, tu hás de comprar, ele há de comprar” e inverter a ordem dos verbos: “comprar HEI, comprar HÁS, comprar HÁ”; uma pequena adaptação ortográfica, com a óbvia queda do H, e teremos comprarEI, comprarÁS, comprarÁ. Portanto, o que parece ser uma forma verbal simples é, na verdade, uma forma composta (comprar+ei, comprar+ás, etc.). 

Não é por acaso que esse futuro não admite ênclise, segundo as gramáticas tradicionais (que não entenderam ovo do problema, como sempre), mas exigiria (segundo essas mesmas gramáticas…) uma coisa chamada de “mesóclise”, definida sinistramente como “o pronome no meio do verbo”. Na verdade, só existe PRÓCLISE ou ÊNCLISE, mesmo para verbos no futuro: ou usamos o pronome ANTES do verbo, como em “Eu te pagarei”, ou usamos o pronome DEPOIS do verbo, como em “Pagar-te-[ei]”. Quando digo “antes” ou “depois”, estou falando em relação apenas ao verbo pagar. O EI, que alguns confundem com uma terminação verbal, é só o nosso velho amigo, o verbo haver, desfigurado pela ausência do H, e a chamada “mesóclise” é apenas a colocação do pronome ENTRE o verbo principal e o verbo auxiliar. 

O que está acontecendo no Português moderno, ao que parece, é uma troca de auxiliar: em vez de usar o auxiliar HAVER, como nas hipóteses (2) e (3) acima, estamos utilizando cada vez mais o auxiliar IR. Isto é: quando queremos expressar a idéia de futuro, ou empregamos o presente do indicativo (menos usado) ou empregamos a locução [vou + infinitivo]. Como todo e qualquer verbo pode, em tese, ocupar a casa da direita, vão formar-se locuções do tipo vou vir, vou ir. Erradas elas não são; podem soar ainda um pouco estranho para muitos ouvidos, mas muitos outros já se acostumaram a elas, inclusive escritores e compositores de renome. Só para adoçar toda essa explicação, dou um exemplo saudoso, de um escritor de respeito: Vinícius de Moraes, na música Você e Eu, feita em parceria com Carlos Lyra, usou, muito simplesmente (e em dose dupla): 

“Podem preparar 

Milhões de festas ao luar 

Que eu não vou ir 

Melhor nem pedir 

Que eu não vou ir, não quero ir”. 

Abraço para ambos. Prof. Moreno.

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idéia > ideia

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Lições de gramática Verbos - conjugação

tu x você

Caro professor: a respeito de verbos na forma imperativa, tenho visto muitos deles usados de forma diferente da que eu aprendi na escola. Por exemplo: olhar, OLHE; escrever, ESCREVA; ligar, LIGUE. Pois bem… frequentemente em rádios e televisões, ouço “LIGA agora pra nossa central”, “ESCREVE aqui pra rádio”. Há um comercial de celular no qual o verbo, que está no imperativo, é usado como LIGA, e até mesmo em uma capa de revista apareceu “OLHA a postura!”. Puxa, vendo isto em uma revista tão atual, só me resta pensar que esses verbos estão se incorporando ou se tornando aceitáveis. Espero que o senhor resolva de vez essa minha dúvida, que pode ser a de muitos e que me deixa espantada, ao ouvir e ler esses verbos desse jeito. Abraços. [Audrey C. — São Paulo]

Prezado Prof. Moreno: em primeiro lugar, parabéns por seu trabalho brilhante (e muitas vezes paciente…) no ensino de nosso tão atropelado idioma. Aprendi, ainda quando pequena, esta oração ao Anjo da Guarda, mas penso estar errada a conjugação dos verbos no imperativo. A oração é a seguinte:

Santo Anjo do Senhor,

Meu zeloso guardador,

Se a ti me confiou a piedade divina,

Sempre me REGE, GUARDE, GOVERNE, ILUMINE.

Como seria a forma correta? Desde já agradeço. Um abraço,

Angela S. — Porto Alegre (RS)

Prezadas leitoras, o que está incomodando vocês é o cruzamento das regras de conjugação do imperativo com a forma de tratamento que está sendo empregada (TU ou VOCÊ) — uma das misturas mais indigestas para quem hoje ainda tenta escrever corretamente o nosso idioma. Essas duas áreas já são problemáticas de per si; quando se juntam, é natural que o cenário fique ainda mais confuso. Vou esclarecer por partes.

O TRATAMENTO — Quando nos dirigimos a alguém, o Português moderno permite que escolhamos livremente entre tratá-lo por TU ou por VOCÊ; embora haja certas preferências regionais (já falei sobre isso em lê ou leia), qualquer brasileiro, em qualquer parte do país, é livre para usar a forma de tratamento que lhe aprouver. Quando comecei a construir este sítio, optei pelo TU, e assim eu uso até hoje. No jargão das gramáticas tradicionais, portanto, TU e VOCÊ são duas formas igualmente corretas para tratar a segunda PESSOA DO DISCURSO (definida como aquela a quem se fala). É importante frisar que, apesar de ambos se referirem à segunda pessoa (do discurso), tu pertence à segunda e você pertence à terceira PESSOA gramatical, exigindo as formas verbais e os pronomes respectivos. Comparem a frase “Se você não trouxe seu livro, vai se arrepender” com a frase “Se tu não trouxeste teu livro, vais te arrepender” — ambas corretas. 

Numa espécie de darwinismo lingüístico, as duas formas passaram a disputar a preferência dos falantes. Ambas estão ainda em uso, mas a direção de tendência — ou seja, o rumo inexorável para onde os dados lingüísticos apontam — parece ser a supremacia absoluta do você e a retirada de cena do tu, assim como já aconteceu com o vós (lembro apenas que essa disputa vai durar alguns séculos, ao longo dos quais as hesitações vão naturalmente continuar ocorrendo). Nosso quadro verbal, então, vai reduzir-se a quatro pessoas (eu; ele,você; nós; eles, vocês). 

O IMPERATIVO — Para fazer um convite, uma exortação, ou dar uma ordem — aquilo que a mitologia gramatical denominou de imperativo —, deveríamos usar formas verbais muito diferentes para o tu e para o você — eu disse “deveríamos”, porque na prática quase nunca isso acontece (leiam, por exemplo, vem pra Caixa você também). A forma que corresponde ao você é idêntica ao presente do subjuntivo, enquanto a que corresponde ao tu é uma forma própria, exclusiva, obtida a partir do presente do indicativo, com a perda do S característico:

COLABORE você COLABORA tu

DEVOLVA você DEVOLVE tu

INSISTA você INSISTE tu

FIQUE você FICA tu

Pois as formas com que cismaste, minha cara Audrey, são as que correspondem ao tu: “LIGA agora pra nossa central”, “ESCREVE aqui pra rádio”, “OLHA a postura!”. Pelo que dizes, presumo que preferirias ligue, escreva e olhe, correspondentes ao você. Elas não estão erradas; o que fez acender a tua luz de alerta, ao ver aqueles comerciais, foi simplesmente o fato de empregarem o tu acompanhado de suas respectivas formas verbais, que já soam estranhas para grande parte dos brasileiros. 

Quanto a ti, minha prezada Ângela, estás certa em desconfiar do texto da oração, porque ele realmente está errado. Se a prece se dirige ao Anjo tratando-o por tu (como podemos ver na frase “se a TI me confiou…”), as formas do imperativo devem ser da segunda pessoa: “… me rege, guarda, governa e ilumina“. Acho que o E de REGE (que está correto) terminou influenciando na conjugação errônea dos três outros. Abraço. Prof. Moreno

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Lições de gramática Origem das expressões Verbos - conjugação

particípios abundantes

Professor, minha dúvida é com o uso do particípio, tendo os verbos ter/haver e ser/estar como auxiliares. Sei que ter/haver impõem particípios regulares (“Tinha matado“, “havia gastado“). E que, com ser/estar, os particípios tornam-se irregulares: “Foi morto“, “estava gasto“. Porém, frequentemente leio nos jornais (e na fala coloquial) frases como, por exemplo, “o time tinha ganho o jogo”, ou “o homem havia pego o ônibus errado”. Gostaria de esclarecer se a regra que citei permite exceções. E se existem, em que casos. Obrigado pela atenção.” Nivaldo N. — São Paulo

Meu caro Nivaldo, os verbos que têm particípios duplos são poucos (não chegam a cem — perto dos 50 ou 60.000 verbos de nossa língua). Os gramáticos tentam fazer listas completas; contudo, se cotejares duas ou três listas, verás que há uma razoável discrepância entre elas. De qualquer forma, QUANDO HOUVER DOIS PARTICÍPIOS, funciona um princípio geral de uso: a forma longa, regular (em -ado ou -ido) é usada nas locuções verbais na voz ativa, com o auxiliar TER ou HAVER, enquanto a forma mais curta, irregular, é usada com SER e ESTAR: “Eu tinha acendido o fogo/ o fogo já estava aceso; a gráfica havia imprimido as cédulas falsas / as cédulas foram impressas no exterior”.

Nota que esse é um princípio geral. Em primeiro lugar, muitos verbos abundantes estão perdendo a forma regular, em virtude da preferência do falante pela forma mais curta em qualquer situação: “a conta já foi paga/ela tinha pago a conta”, “este dinheiro foi ganho com meu trabalho/eu tinha ganho este dinheiro com meu trabalho”. Eu ainda uso pagado e ganhado, mas percebo que meus ouvintes estranham; isso significa que, em breve, deixarão de ser abundantes e ficarão, como dizer e fazer, apenas com o particípio curto (dito, feito).

Em segundo lugar, a língua, em seus caminhos misteriosos, se encarrega de anular, às vezes, o princípio geral: é o caso de imprimir, que, se é abundante em seu sentido normal (dei exemplos acima), no sentido de “introduzir, incutir” só vai ter o particípio regular, mesmo em locução com o verbo SER: “A entrada do atacante tinha imprimido maior velocidade ao ataque/Um novo ritmo foi imprimido ao trabalho da equipe” (e não *impresso). E assim por diante; continuo a usar aquele princípio por ser didático, sabendo, no entanto, que não é absoluto.

Recomendo-te a leitura do tópico sobre pego e pegado. O que escrevi ali é um importante complemento ao que expus acima. Abraço. Prof. Moreno.

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Lições de gramática Verbos - conjugação

FAZÊ-LO — por que o O vira LO?

Caro Professor Moreno: escrevo-lhe pela segunda vez para que o senhor me esclareça uma questão em que jamais teria pensado, se não fosse uma estrangeira me ter perguntado. Nas frases, “Eu gostaria de vê-lo“, “Deixem-no em paz”, eu não sei explicar por que se usa o N e o L para ligar o verbo com o pronome. Obrigada.

Aida Sousa — Paris

Minha cara Aida: nada como o olhar de estrangeiros para nos fazer estranhar o que sempre nos pareceu óbvio. Essas consoantes adicionais a que te referes aparecem para permitir a harmonização da forma verbal com o pronome a ela ligado. Explico: dentre os pronomes átonos do Português, o pronome O (e suas flexões A, OS e AS), por ser vocálico, precisa sofrer pequenas alterações fonológicas para que possamos ligá-lo com naturalidade à forma verbal; em outras palavras, o conjunto [verbo + pronome] deve ser bem ajustado para que não se torne um estorvo para a nossa fala.

Tenho certeza de que tu (e a maioria dos meus leitores) ficaria espantada com a quantidade de teses que já foram escritas sobre o tema dos clíticos (assim são chamadas essas pequenas partículas átonas, como os artigos e os pronomes oblíquos átonos, que vivem na periferia dos vocábulos tônicos); posso te assegurar que no ar mais rarefeito do Everest acadêmico as pesquisas continuam — e devem continuar. Minha missão, contudo, é traduzir, na linguagem usual da planície em que todos vivemos, um pouco do que já se descobriu, a fim de ajudar falantes interessados como tu a perceber que existe um padrão coerente por trás de todos os fatos de nossa língua. No fundo, não há acasos, nem exceções; o que às vezes parece um simples capricho termina se revelando uma necessidade interna do organismo do Português. 

É fácil visualizar o que acontece no caso dos pronomes: uma forma verbal qualquer é formada por uma seqüência de sons (que chamamos de fonemas). O pronome, por sua vez, também é um fonema (ou dois, quando está no plural). Quando o último fonema do verbo se encontra com o fonema do pronome, acontece o mesmo que no encontro entre duas pessoas: ou há empatia entre os dois e as coisas vão bem, ou alguma coisa desagradável termina transformando o encontro num verdadeiro choque. Em termos objetivos, todas as formas verbais do Português podem ser classificadas em três grupos distintos, quanto à sua terminação: (1) as terminadas em vogais (vendi, comprou, devolva, procuro); (2) as terminadas em nasal (fazem, vão, estudam, põe); e (3) as terminadas em R, S ou Z (essas duas letras representam o mesmo fonema, /s/). O pronome O, imitando o genial personagem Zellig, do Woody Allen, vai alterar sua forma para NO ou LO de acordo com a circunstância, conseguindo assim adaptar-se perfeitamente ao “ambiente” fonológico:

HIPÓTESE 1 — A forma verbal termina em VOGAL— Como o pronome também é uma vogal, não há necessidade de adaptação alguma, uma vez que o Português lida muito bem com encontros vocálicos: vendo-o, devolvo-as, encontrei-os, perdeu-a

HIPÓTESE 2 — A forma verbal termina em NASAL — Agora o pronome vai aparecer na sua forma nasalizada, permitindo uma conexão suave com o verbo: fazem-na, dão-nas, estudaram-no. Queres fazer um teste doméstico? Experimenta pronunciar esses exemplos aí de cima usando o pronome sem a nasal — *fazem-a, *estudaram-o — e vais ver o que é bom!

HIPÓTESE 3 — A forma verbal termina em R, S ou Z — Este é o caso mais drástico: o fonema final do verbo terminaria formando sílaba com a vogal do pronome, criando pérolas do tipo *estudar-o (/estudaro/)ou *fiz-o (/fizo/). Por isso, uma regra interna suprime aquela consoante final e o pronome aparece encabeçado pela consoante L: comprá-lo, parti-lo, encontramo-lo. Não te esqueças de reexaminar a forma verbal quanto às regras de acentuação, já que seu perfil vai ser alterado quando a consoante for suprimida; escrevi sobre isso em acento em verbo com pronome.

Quando eu prestei meu exame vestibular para o curso de Letras, uma das questões era (ô, tempinho difícil aquele!) “conjugue o verbo pôr no presente do indicativo, com o pronome O enclítico”. Hoje eu sei a resposta:

Deu para enxergar a sutil diferença entre o põe-lo e o põe-no? Outra coisa que deves ter percebido é a esquisitice de algumas dessas formas. Na verdade, elas raramente são vistas em uso, porque preferimos, no Brasil, a próclise na maioria dos casos (a correta colocação do pronome em relação ao verbo é outro assunto). Elas continuam vivas, mas lá no zoológico; de vez em quando levo as crianças para olhar um “fá-lo” (faz+o), um “di-lo” (diz+o), um “qué-lo” (quer+o). Elas acham muito divertido. Abraço. Prof. Moreno

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lê ou leia

Professor, qual a forma correta: ouve o que eu falo ou ouça o que eu falo; olhe esta flor ou olha esta flor; cheire este perfume ou cheira este perfume? Abraço. Lucilia  L.

Minha cara Lucília, todo brasileiro tem o direito de escolher entre tu ou você como forma de tratar seu interlocutor. Geralmente, a turma aqui do Sul prefere o tu, enquanto o pessoal de Santa Catarina para cima prefere o você. De qualquer forma, a escolha é livre. Acontece que, feita a escolha, as conseqüências gramaticais (verbos, pronomes, etc.) devem estar de acordo com a opção, já que o tu é um pronome de pessoa, enquanto você é de . Por isso, eu, que sempre uso o tu, vou dizer: “LÊ isto aqui, OUVE bem o que te digo, FICA quieta, PRESTA atenção”. Alguém que use o você vai dizer: “LEIA isto aqui, OUÇA bem, FIQUE quieta, PRESTE atenção”. 

Um aviso, no entanto, minha cara leitora: o uso do tu é para quem está acostumado. Essa forma, que está sendo progressivamente abandonada pelo Português do Brasil, pode tornar-se uma armadilha fatal para recém-chegados. Dá uma ouvida no último CD do Milton Nascimento e do Gilberto Gil, e vais entender o que digo. Na faixa Dinamarca, os dois (que usam você desde pequeninos) resolveram dirigir-se a um homem do mar tratando-o por tu — e não deu outra: escorregaram duas vezes na flexão verbal. A primeira, no imperativo: “Capitão do mar… lembres que o mar também tem coração” — usassem ou lembra (tu), ou lembre (você). A segunda, no pretérito perfeito: “Depois do dia em que tu partistes“. Eles misturaram o tu com o vós; a segunda pessoa do singular  partiste. Para um especialista, esses são claros sinais de que o tu” está desparecendo como pessoa gramatical, sendo preservado apenas como uma forma de tratamento. Mas isso vai ser assunto de outra Lição de Gramática. Abraço. Prof. Moreno.

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Lições de gramática Verbos - conjugação

irregular defectivo

Caro professor, tenho dúvida sobre os verbos defectivos, pois um amigo meu, estudante igual a mim, disse que o verbo polir é irregular e eu disse que achava que era defectivo, por não possuir a 1ª pessoa do singular. Apostei com meu amigo que era um absurdo. Continuo achando que o verbo polir é defectivo. O senhor poderia me ajudar?” 

Vilma S. L. — São Paulo

Minha cara Vilma, não é bem assim. Para começar, os verbos dividem-se, quanto à sua conjugação, em regulares (a maioria) — os que não mudam o radical em toda sua conjugação — e irregulares (os que sofrem alterações no radical). Há outra divisão, que nada tem a ver com essa, em verbos completos e verbos defectivos. Estes seriam aqueles que não podem ser conjugados em todas as formas, por motivos (absolutamente discutíveis) de eufonia. Portanto, admitindo-se que haja verbos defectivos (repito: não se conjugam em todas suas formas; têm lacunas no quadro da conjugação), eles ainda podem ser regulares ou irregulares na parte que lhes resta. Posso exemplificar com os verbos precaver e reaver. O primeiro é defectivo e regular (não possui todas as formas, mas, nas que existem, conjuga-se como o modelo da 2ª conjugação); o segundo é defectivo e irregular (nas formas que existem, segue o verbo haver, completamete irregular). Percebes que uma coisa não exclui a outra. Agora, quanto a teu verbo polir, (1) ele é um verbo completo (não é defectivo), (2) mas irregular; conjuga-se, no presente, pulo, pules, pule, polimos, polis, pulem. Consegui ser claro? Teu amigo estava com a razão. Abraço. Prof. Moreno.

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eu tinha “compro”?

Prof. Moreno: tenho ouvido com muita freqüência expressões do tipo “eu tinha compro uma caneta”, “nós deveríamos ter compro aquele carro”. Qual o motivo dessas expressões se tornarem tão usadas? Do jeito que as coisas estão indo, daqui a pouco passaremos a ouvir “nós perdemos a oportunidade de ter fecho o negócio”. Explique-nos onde está o erro, se é que está errado. Já estou começando a ter dúvidas. Um abraço.

 Bruna – Goiânia

Minha cara Bruna: não sei onde tens ouvido essa barbaridade, mas aconselho-te a evitar as pessoas que falam “eu tinha compro“(!). Imagina se os verbos regulares começassem a formar esse particípio mais curto, ao lado da tradicional forma terminada em -ado ou -ido! Íamos ouvir “eu tinha lavo“, “eu tinha vendo“, “eu tinha falo” — ou, como tu bem notaste, “eu tinha fecho”. Alguns verbos (poucos, na verdade) têm dois particípios, mas eles não passam de uma centena, perto dos 50.000 verbos que o Português tem hoje. Dá uma lida no que escrevi sobre pego e chego, e escolhe melhor as tuas companhias. Abraço. Prof. Moreno

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Vimos ou viemos?

Professor, qual é a forma correta? “Nós viemos aqui para beber ou para conversar?” ou “Nós vimos aqui para beber ou para conversar?”. Por gentileza, explique os motivos fundamentados da resposta. Agradeço desde já.

Cristina K. —  Santos (SP)

 

Minha cara Cristina: ambas podem estar corretas. Depende do tempo verbal que resolveres usar. Para ficar mais claro, vou traçar uma analogia com a 1ª pessoa do singular (eu): (1) Nós viemos aqui para beber ou para conversar? = Eu vim aqui para beber ou para conversar?; (2) Nós vimos aqui para beber ou para conversar? = Eu venho aqui para beber ou para conversar?

É evidente que estamos (em ambos os casos) diante de uma pergunta que não está perguntando, isto é, a pessoa que profere qualquer uma dessas frases não está indagando o que ela veio (ou vem, se for habitual) fazer ali, mas sim lembrar ao interlocutor que ele está ali para beber. É uma pergunta retórica, a qual, na verdade, usa a interrogação para afirmar, com ênfase, alguma coisa. Se alguém te perguntar “Vieste aqui para dançar ou para ficar sentada?”, é claro que vais entender que ele não quer uma resposta tua; na verdade, está afirmando que tu estás ali para dançar, não para ficar sentada. Não é assim?

Na versão (1), estamos usando o pretérito perfeito de vir (vim, vieste, veio, viemos, viestes, vieram); na versão (2), o presente do indicativo (venho, vens, vem, vimos, vindes, vêm). Geralmente usamos o presente quando se trata de um fato habitual, costumeiro (compara, por exemplo, “visitei tua página” com “visito tua página”; “vim a este bar no verão” com “venho a este bar no verão”). Espero ter solucionado tua dúvida. Abraço. Moreno