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xibolete


Mário Quintana tentou ensinar o Papa a pronunciar o nosso ÃO como se fosse um brasileiro — sem saber que, assim como as impressões digitais identificam o indivíduo, a pronúncia deste ditongo distingue quem é e quem não é falante nativo do Português.

Uma amável leitora de Pelotas manda uma cartinha à moda antiga, em papel de seda, com envelope e tudo, em que pergunta o que eu sei sobre a correspondência trocada entre Mário Quintana e o Papa João Paulo II. “Lembro que o senhor um dia escreveu sobre isso, mas esqueci de recortar e agora estou aflita”. Olha, prezada leitora, eu não sei se eles chegaram a se cartear; o que mencionei, certa feita, foram as instruções que o Mário escreveu (não sei se chegou a enviar…) para que o Papa pronunciasse corretamente o nosso ditongo “ão“. Reproduzo, com prazer: “Sendo Vossa Santidade um poliglota notável, vejo que não consegue pronunciar o famoso ão da Língua Portuguesa. E tomo a liberdade de esclarecê-lo sobre esta pronúncia. Considere o ão como dois monossílabos, “ã” mais “o“, e tente pronunciá-los cada vez mais rapidamente. Assim obterá o nosso ão. Esperando a sua benção, respeitosamente”.

Como eu disse na ocasião, é comovente ler essa ingênua sugestão que o Poeta fez a Sua Santidade. Entretanto, se a intenção era boa, a teoria era falha: com ou sem ajuda, o bom Papa poliglota jamais conseguiria pronunciar o nosso ão. Cada língua tem sons que só seus falantes nativos são capazes de distinguir e, por isso mesmo, de reproduzir. Por mais perfeita que seja nossa pronúncia de um idioma alheio, sempre haverá algum fonema que irá  trair o fato de que somos estrangeiros;  é o que se chama, lingüisticamente, de xibolete, uma peculiaridade de pronúncia que atesta se fazemos parte (ou não) de um determinado grupo lingüístico.

No seu sentido primitivo, portanto, um xibolete é um tipo de senha lingüística que identifica os componentes de uma comunidade, assim como a impressão digital identifica o indivíduo. Este estranho (mas útil) vocábulo é a transliteração de um vocábulo hebraico que alguns traduzem por “espiga de grãos”, outros por “corrente de água”. Segundo o Velho Testamento (Juízes, 12: 1-15), esta palavra foi usada para distinguir entre duas tribos semitas, os gileaditas e os efraimitas, que travaram uma grande batalha. Os gileaditas, vencedores, bloquearam as passagens do Jordão para evitar que os efraimitas sobreviventes pudessem escapar. Os sentinelas exigiam que todo o passante dissesse /shibboleth/; como os efraimitas não tinham o fonema /x/ em seu dialeto, só conseguiam pronunciar /sibboleth/ (com /si/ na primeira sílaba), sendo assim reconhecidos e executados.

Há vários exemplos conhecidos desse uso hostil da linguagem para diferenciar grupos humanos. No massacre das Vésperas Sicilianas, no séc. XIV, os odiados franceses eram reconhecidos pela maneira como pronunciavam ciceri (uma espécie de ervilha seca). Nas revoluções de 1893 e de 1923, no Sul do Brasil, quando foi amplamente empregada a execução por degola, os mercenários castelhanos eram identificados fazendo-os pronunciarem palavras que contivessem algum desses fonemas exclusivos; exemplos conhecidos são o jota (o nome da letra) e doispauzinhos. Em qualquer um dos casos, o estrangeiro estava perdido, porque teria de produzir sons que o falante nativo do Espanhol não conhece: a resposta, com suas fatais conseqüências, era sempre algo como /rôta/ ou /paucinhos/.

Ora, talvez o xibolete mais evidente do Português seja exatamente o ditongo ão, como já tinha notado Monteiro Lobato no seu Emília no País da Gramática (aliás, não por acaso, foi exatamente esse o ditonguinho que o Visconde de Sabugosa seqüestrou e que acabou sendo salvo por artes  da astuciosa boneca). As instruções do Mário eram inúteis, mesmo para um poliglota do quilate de João Paulo II: por mais que o falante estrangeiro se esmere em pronunciar este ditongo, sempre vai persistir um traço de estranheza que o ouvido nativo não deixará de captar. Vários autores afirmam, inclusive, que foi essa dificuldade que transformou a ilha de Coração, como chamavam os portugueses, na ilha de Curaçau, nas Antilhas Holandesas.

Hoje, o termo teve seu significado ampliado, podendo indicar, também, um hábito ou uma característica que sejam distintivos. Um oportuno artigo sobre etiqueta à mesa me ensinou, por exemplo,  que “a maneira como se usam os talheres para comer a fruta é o xibolete que distingue quem é quem”. Já no pólo mais sério, Freud, ao censurar a posição de Jung de diminuir deliberadamente o valor e a importância do fator sexual na Psicanálise, afirmava, em 1919: “O fator da sexualidade é o nosso xibolete“. Eu confesso que preferiria escrever xibolé ou xibolê, mas como Aurélio, Houaiss e Luft registram xibolete, eu baixo as minhas orelhas e vou puxar minha carrocinha.

Depois do Acordo:

lingüístico > linguístico
conseqüência > consequência
seqüestrou > sequestrou
pólo > polo

 

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tricampeonato precisa ser consecutivo?

Professor Moreno: estamos com uma dúvida cruel aqui na empresa: os prefixos do tipo bi, tri, penta, hexa têm que ser aplicados de forma consecutiva? Isto é, quando nos referimos a campeonatos de futebol, por exemplo, e o time ganha por dois anos consecutivos, ao perdê-lo no ano seguinte e ganhá-lo no ano posterior, ele seria tricampeão? Mesmo com esse intervalo de um ano? Partimos do princípio de que cada campeonato é único e que, por isso, se o time não vencer três campeonatos consecutivos, não poderá receber o título de tricampeão. Isso se aplica também à Seleção Brasileira, não é, professor? Agradeço se nos esclarecer mais esta dúvida.

Virgínia R.


 

Prezada Virgínia: isso é apenas uma questão de hábito e nada tem a ver com o significado do vocábulo. Na minha juventude, só computávamos um tricampeonato para nosso time se ele conquistasse três campeonatos seguidos. Assim foi a Copa de 62, em que o Brasil sagrou-se bicampeão; na Copa de 70, no entanto, todo o país comemorou o tricampeonato, demonstrando que, a partir daquela data, não estávamos mais levando em conta a antiga exigência de vitórias sucessivas. Acho que isso deve ter vindo da transmissão da Copa por emissoras estrangeiras, que devem chamar de tricampeão quem quer que tenha chegado três vezes ao campeonato.

O que já começou a acontecer, no Brasil, é a confusão entre os dois sentidos, por parte de quem ouve. É algo digno de admiração um time chegar a ser tricampeão brasileiro (no sentido sucessivo); no entanto, chegar a três campeonatos não-sucessivos é moleza. Além disso, como vamos apresentar grandes clubes como o Flamengo, por exemplo, que já foi umas quarenta vezes campeão do Rio? Ou o Internacional, em Porto Alegre, que já conquistou mais de trinta campeonatos gaúchos? Estás a ver que, em termos de Copa do Mundo (em que são poucos os países com vários títulos), isso ainda é possível; quando nos referirmos a campeonatos no Brasil, no entanto, temos de ficar com o velho sistema. Daqui a uns 50 anos, o mesmo vai acontecer quando falarmos da Copa, porque Brasil, Alemanha, Itália ou Argentina poderão acumular tantos títulos que obrigarão as pessoas a voltar ao antigo sistema consecutivo. Abraço. Prof. Moreno

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AOS NOVOS E ANTIGOS LEITORES:

Bem-vindos todos à casa nova do Sua Língua; ele deixa o antigo lar em que nasceu há nove anos para ocupar esta nova vivenda no clicRBS, mais clara, mais luminosa, mais organizada, construída com todos os requintes da moderna tecnologia. Os que me visitam vão perceber que só o ambiente mudou, pois o espírito é o mesmo, o interesse pela Língua Portuguesa é o mesmo, a seriedade é a mesma – e o Doutor continua como sempre foi: paciente com os que precisam de uma explicação, agradecido aos que colaboram, respeitoso com os que fazem críticas bem-educadas, mas implacável com os presunçosos, os malcriados e os insolentes.

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Millôr desenha a Língua

Usar as palavras para descrever uma imagem pode ser difícil, mas vivemos fazendo isso, com maior ou menor sucesso. Eu quero ver é o contrário: usar uma imagem para descrever as palavras! Só alguém como Millôr, rei nas duas linguagens – a verbal e a pictórica -, consegue realizar a impossível proeza, criando essa incomparável visão do que é uma língua:

[Reproduzida por magnanimidade do autor]

(Meu atento leitor terá reparado, com certeza, nos outros temas presentes na gravura.)

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Palavras sem Fronteiras — Sergio Correa da Costa

Quando um homem chega aos 60, diz Borges, percebe que reuniu, ao longo de toda a vida, uma certa quantidade de fatos, de frases e de anedotas mais ou menos interessantes, e que a idade agora lhe dá o direito de mostrar aos outros esta coleção pessoal. Exercendo esse direito, Sérgio Correa da Costa, em seu Palavras sem Fronteiras (Ed. Record, 866 páginas), resolve nos mostrar a coleção de palavras internacionais que juntou ao longo de sua vida como diplomata de carreira: são três mil palavras e expressões, provenientes de 46 idiomas, que são compartilhadas irmãmente pelas oito principais línguas do Ocidente. O autor é também membro da Academia Brasileira de Letras, mas infelizmente, como sabemos, isso não é mais credencial de coisa alguma em nosso país.

Muito mais importante, para este livro, foi sua atividade diplomática, sua vida em embaixadas de primeira classe como Londres e Washington, sua participação nas Nações Unidas — todas elas formas douradas de exílio, que terminam desenvolvendo, nos diplomatas mais talentosos, aquela mesma intuição dos exilados e dos apátridas multilíngües, habituados a viver a tensão de várias línguas (lembro o exemplo bem mais ilustre de Guimarães Rosa, também diplomata, que incorporou ao seu Português elementos de inúmeras outras línguas, sem cair, para nossa sorte, no delírio quase onanista de um James Joyce).

O livro tinha tudo para dar certo. A idéia do Embaixador até que é boa: definir quais são as palavras que constituem aquele fundo comum, globalizado, recolhido nos quatro cantos do mundo e utilizado por todas as línguas de cultura. O gênero em que ele se aventurou é extremamente promissor: poucos textos de divulgação séria em Lingüística foram produzidos até hoje no Brasil, ao contrário da História, da Política, da Psicanálise, por exemplo, que já oferecem muitas opções para o leitor interessado, mas não especialista. O formato que ele deu a seu livro — em grande parte determinado pelo próprio material a ser descrito — também está na moda: é um desses modernos almanaques, recheados de dados e fatos pitorescos, frouxamente agrupados sob algum tema condutor, lembrando o Livro dos Fatos, do Asimov, ou o Guia dos Curiosos, de Marcelo Duarte, tão ao gosto do leitor já viciado na estrutura fragmentária da internet. Com todos os ingredientes para dar certo, o livro, contudo, é uma decepção. Parturient montes, nascetur ridiculus mus — o que, em linguagem, pode ser explicado como “a montanha pariu um ratinho”. Explico.

Quando li, em um jornal de São Paulo, sobre o lançamento do Palavras sem Fronteiras, com suas 866 páginas (o porte de um dicionário médio), fiquei fascinado com o que prometia o seu avantajado volume. Eu sabia que o autor não era do ramo, mas isso nunca me impediu de apreciar o já clássico As Línguas do Mundo, de Charles Berlitz, despretensiosa mas interessante coletânea de fatos sobre todos os idiomas do planeta. O livro do Embaixador, contudo, tem um erro de concepção, que um bom editor (no sentido anglo-americano do termo) teria evitado: o livro propriamente dito ocupa menos da quarta parte dessas tantas páginas. Mais de setecentas delas trazem apenas um córpus de 16.000 frases, diligentemente coletadas em publicações do mundo inteiro, onde aparecem as palavras que o autor selecionou. O que é pior: essas frases todas vêm sem um comentário sequer, nem ao menos a tradução — sim, porque o Embaixador as reproduz na língua original, é claro (Francês, Inglês, Português, Alemão, Italiano, Espanhol). Ainda bem que, lá pelas tantas, ele avaliou seus possíveis leitores, farejou nossa ignorância e fez uma suprema concessão: como ele mesmo afirma, “para não sobrecarregar o texto com transcrições em cirílico (!), as citações dos autores russos aparecem traduzidas para o Francês ou Inglês e situadas entre colchetes”. Tende misericórdia de nós!

Um bom editor chega a cortar capítulo inteiro de escritor consagrado, se julgar necessário. Comparem, por exemplo, a versão editada do Red Badge of Courage, do Stephen Crane (uma pequena obra-prima), com a versão original do autor, lenta e desigual. O Embaixador precisava de um editor assim, que lhe apontasse com energia o caminho óbvio para escrever um grande livro (se a tanto o ajudar o engenho e arte, é claro): (1) eliminar aquele amontado de frases (700 páginas!), que estão ali apenas como testemunho de que determinada palavra é usada nesta ou naquela língua; (2) relacionar todas as palavras que ele escolheu e fazer um verbete de cada uma (este, aliás, é um livro por fazer; está caindo de maduro, sr. Embaixador). A grande contribuição que o autor poderia dar seria explicar o significado e o uso dessas palavras que, ele tem razão, constituem uma parte do vocabulário universal: déjà vu, laissez-faire, angst, diktat, apparatchik, avatar, leitmotiv, weltanschauung (o que me lembra de acrescentar: não esquecer a pronúncia!).

Como não é do ramo, às vezes suas incursões pela Lingüística levam-no ao desastre. Numa seção bizarramente intitulada “O Inglês, gêmeo do Chinês“, divulga a idéia maluca de um tal Bodmer, que afirma ter o Inglês evoluído de uma forma assemelhada à do Chinês! Para sustentar tal disparate, Mr. Bodmer observa que ambos os idiomas têm muitos monossílabos, ambos têm muitos homófonos e ambos levam em conta matizes de entonação. Ora, confundir o Inglês com o Chinês é como confundir um porco com uma ovelha, só porque os dois andam de quatro e têm o focinho oposto à cauda. O tom, para o Chinês, é muitas vezes o único traço que permite distinguir entre duas ou mais palavras cuja composição em termos de vogais e consoantes é exatamente a mesma. No exemplo clássico, /ma/, dependendo do tom com que é pronunciada, significa (1) mãe; (2) cânhamo; (3) cavalo; ou (4) reprimenda. Por isso sempre se usa o Chinês (Mandarim) como exemplo de uma língua tonal, enquanto o Inglês (e todas as línguas do Ocidente) são atonais. Aliás, por esse mesmo motivo a espionagem mundial descobriu que a leitura labial é quase inútil para descobrir, de longe, o que um chinês está falando.

No confronto que o autor faz, a cada passo, entre o Inglês e o Francês, ele torce — honesta e abertamente — pela língua dos diplomatas, o Francês, usado desde o final do séc. XVIII nos tratados entre povos de línguas diferentes. É por isso que todo o vocabulário do ofício diplomático provém desta língua; deve ser também por isso, imagino, que o desastrado Itamarati (que teima em usar aquele seu Y, kitsch quanto um cisne empalhado) eliminou o Francês dos requisitos básicos para ingresso na carreira diplomática brasileira. O Embaixador — que é do ramo — não diz uma vírgula sobre isso. Segue comparando Inglês e Francês, numa atitude de juiz completamente parcial. No capítulo sobre o Inglês, vai direto ao fígado, citando Dickens quando se lamenta, em carta a um amigo: “A dificuldade de escrever em Inglês me aborrece extremamente. Ah, meu Deus! Se eu pudesse escrever sempre nessa bela língua da França!”. Podemos avaliar a enormidade desse desabafo se o puséssemos na boca de um Eça de Queirós ou de um Machado. Tendo confirmado a hegemonia absoluta dos traços culturais franceses e anglo-americanos, o Embaixador, depois de lembrar que os dois gigantes são seguidos de muito perto pelo Latim (ele se refere às expressões e palavras ainda usadas em Latim, e não aos radicais), escreve o melhor capítulo do livro, ao entrar no mundo do Latim moderno e sua luta para se adaptar à civilização atual. Embora nada tenha a ver com o tema do livro, é um saboroso parêntese, em que o Embaixador revela um fino gosto pela palavra, um ouvido aguçado para aquelas ressonâncias sugestivas que fazem a delícia do leitor. Ou não é significativo saber que a famigerada CIA é Sedes Centralis Exploratoria (Sede Central de Exploração)? Que nossa inocente fita adesiva vira uma taenia glutinosa? Que estar online é estar directe colligatio? Que a ninfomania é ardor insanus, e uma ninfeta é uma puella inverecunda (“donzela impudente”)? E, finalmente, que a união das esquerdas é confoederatio sinistra?

Depois do Acordo: multilíngüe > multilíngue

idéia > ideia

Lingüística > Linguística

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Malan e a sílaba tônica

Ainda no governo de FHC, ao falar diante de empresários e repórteres na VI Cúpula Econômica do Mercosul 2000, ocorrida no Rio de Janeiro, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, gerou um curioso incidente diplomático-lingüístico. Os integrantes da mesa respondiam à pergunta proposta pelo mediador sobre a conveniência ou não de ser mantida a paridade entre o peso argentino e o dólar. “Se a Argentina deve manter a conversibilidade? Acho que a minha resposta é simples: cabe aos argentinos decidir”, respondeu Malan, numa prudente atitude de isenção diante dos problemas alheios.

Alguns ouviram sim, no lugar de simples, e estava armado um pequeno qüiproquó, que nasceu e morreu mais ou menos nos bastidores da grande imprensa, com direito a desmentidos e a notas de retificação. Renata Lo Prete, a ombudsman da Folha de São Paulo, é quem narrou todo o incidente, comparando, muito bem, duas diferentes maneiras de entender o fato: “Frase de Malan confunde platéia” , disse o Globo, que acrescentou que a confusão havia surgido de “uma palavra mal pronunciada”. Como muitos dos presentes entenderam bem o simples, a ombudsman achou mais adequada a explicação do Correio Braziliense, que falou em “palavra mal ouvida”. Quem está com a razão? O que realmente ocorreu aqui? Quem é o responsável pelo mal-entendido — o Ministro ou os seus ouvintes?

Bem, a resposta já está dada desde sempre: quando alguém entende mal minha minha mensagem, o único, exclusivo, e solitário responsável sou eu, que não a cerquei de todos os requisitos necessários para que ela tivesse sucesso. O que Malan não levou em conta e, por isso, não teve a devida cautela? A dramática superioridade da sílaba tônica de uma palavra sobre todas as demais sílabas, em nossa língua. Em cada vocábulo, a sílaba tônica é um espaço especial, privilegiado, em que os sons estão claramente definidos, iluminados por uma intensa luz hospitalar. Ali tudo é claro, todas as diferenças ficam aguçadas, todos os traços são perceptíveis. Nas sílabas que ficam antes da tônica — ou, pior ainda, nas que ficam depois dela — uma espécie de véu começa a toldar a nitidez daquilo que, na posição imperial da tônica, estava tão claramente definido. Um exemplo bem simples: só na posição tônica você vai ouvir a diferença entre um E ou O aberto e um E ou O fechado; nas sílabas átonas, o Português só apresenta essas vogais fechadas. Em porta, todos ouvimos /ó/; em todos os seus derivados, contudo, como a sílaba /por/ deixou de ser tônica, só vamos ouvir /ô/: porteiro, portaria, portal. Em certo, da mesma forma, podemos ouvir o /é/; nos derivados, porém, como a sílaba tônica passou a ser outra, só ouvimos /ê/: certeiro, certeza, acertar.

Além disso, quando falamos, levamos a pronúncia da palavra até a sua sílaba tônica; o que vier depois vai mais ou menos se diluir, sem que isso chegue a atrapalhar a quem nos ouve. Que o leitor preste atenção à sua volta; ouça como pronunciam médico, e verá que depois do /mé/ você vai ouvir, talvez, um /di/ abafado, e quase nada do /co/ — e não vai fazer falta. Isso explica por que, na contagem das sílabas poéticas que fazíamos no colégio (decassílabos, dodecassílabos — lembra?), computávamos apenas até a sílaba tônica da última palavra, porque o resto não conta. “Minha terra tem palmeiras” tem sete sílabas (mi/nha/te/rra/tem/pal/mei), igual a “Não gorjeiam como lá” (não/gor/jei/am/co/mo/lá) — /mei/ e /lá/ são as duas últimas tônicas de cada verso. 

Isso pode levar a confusões tão prejudiciais que fez a Marinha Brasileira redesenhar uma palavra tradicional para evitar problemas em suas operações; se não estou enganado, isso se deu por volta da Guerra do Paraguai. A antiga distinção entre bombordo (o lado esquerdo da embarcação) e estibordo (o lado direito) mostrou-se inoperante em situações de batalha, uma vez que as ordens gritadas no meio da fuzilaria e da canhonada deixavam ouvir apenas a tônica, que é /bor/ em ambos os casos. Considerando a importância de que os maquinistas e timoneiros entendessem as ordens dadas, nossa Marinha sabiamente inovou: pegou estibordo, reordenou seus elementos e saiu-se com um boreste, agora funcional, porque as duas tônicas se bastam para distingui-las (bomBORdo, boRESte).

A frase de Malan ignorou este perigo. “Acho que minha resposta é SIMples: cabe aos argentinos decidir” foi ouvida como “acho que minha resposta é SIM: cabe aos argentinos decidir”— como se vê, uma frase de estrutura perfeitamente aceitável e, pior, num contexto em que essa resposta era uma das hipóteses cabíveis. O azar do Ministro foi que a tônica de simples é exatamente o nosso sim… Se tivesse dito “minha resposta é esta:… “, ou “minha resposta é só uma:…”, ou “minha resposta é simplesmente que …” — ou qualquer outra das infinitas escolhas que temos a nosso dispor, não haveria mal-entendido algum. Mas nosso Ministro, talvez atraído pelo abismo (o que nos leva a indagar sobre as estranhas motivações de nossas escolhas lingüísticas), terminou escolhendo o simples. Deu no que deu.

Depois do Acordo: lingüístico > linguístico

qüiproquó > quiproquó

platéia   > plateia

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rima para cisne

A leitora Márcia C. precisa muito saber qual é a rima para a palavra cisne.

Minha prezada Márcia, a palavra cisne, considerada uma rima rara, só tem paralelo no presente do subjuntivo do verbo tisnar (“tornar negro, sujar de carvão, de fumaça”): que eu tisne, que tu tisnes, que você tisne. Rimar, rima; o difícil é usar as duas palavras num mesmo poema, porque uma nada tem a ver com a outra. Os poetas parnasianos, sempre em busca desses virtuosismos, já tentaram, mas ficou muito forçado. Assim como o craque de futebol quer fazer um gol de bicicleta para mostrar que é incomparável, Olavo Bilac encaixou esta rima em um de seus sonetos, com um efeito lamentável (na minha opinião, evidentemente; há quem goste): “No horrendo pântano profundo / Em que vivemos, és o cisne / Que o cruza, sem que a alvura tisne / Da asa no limo infecto e imundo”. Abraço. Prof. Moreno

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Palavras que o Inglês veio buscar no Português

Para aqueles que se queixam do ingresso de vocábulos estrangeiros em nossa língua, é bom lembrar que, semelhante ao que acontece com as mercadorias e as matérias-primas, exporta quem tem, importa quem precisa. Se o Português hoje é francamente importador, já teve o seu tempo de fornecedor de vocábulos novos para o léxico do Inglês e das demais línguas modernas. Não podemos esquecer que, no séc. XVI, no seu impressionante avanço pela África e pela Ásia, Portugal tornou-se os olhos e os ouvidos de toda a Europa, trazendo do Oriente especiarias, frutas, animais e costumes exóticos, todos eles acompanhados pelas palavras que os denominavam. Foi pela mão portuguesa que entraram nas línguas ocidentais termos como macaco, chimpanzé, manga, banana, mosquito, quimono, mandarim. Com a descoberta e a ocupação do Brasil, os portugueses assimilaram e espalharam no continente europeu os nomes das plantas e animais do novíssimo mundo: não há bom dicionário de Inglês que não inclua piranha, tapioca, caju (cashew, escrevem eles), curare, jaguar, entre muitos termos oriundos de nossas línguas indígenas. Além dessas, algumas palavras realmente portuguesas terminaram sendo incorporadas pelo léxico do Inglês. As mais usadas são:

negro — (igual, com a pronúncia /nigro/) — Infelizmente, Portugal também ficou famoso pelo domínio mundial do tráfico negreiro, e não é de espantar que o termo negro tenha sido adotado pelo inglês para designar especificamente o africano escravizado. Nos anos 60, com a recuperação do orgulho racial nos EUA, o vocábulo negro, considerado pejorativo, foi substituído definitivamente por black, como atestam os movimentos dos Black Panther e do Black Power.

nlbino — (igual, no Inglês) — O termo vem de albo, forma antiga de alvo, sinônimo de “branco” (por isso se fala de “alvejante de roupa”), e refere-se adequadamente à pele leitosa e ao cabelo praticamente branco dos albinos. O vocábulo foi usado por um explorador português do séc. XVII para designar os primeiros negros-aças que ele avistou na África. Depois, generalizou-se para qualquer ser vivo despigmentado, inclusive animais, entre os quais se incluem o elefante branco da Tailândia, a vaca branca da Índia e, possivelmente, a baleia Moby Dick. 

cobra — (igual, no Inglês, com o O fechado) — Ao lado do genérico snake, usam cobra para designar aquelas serpentes que têm a capacidade de inflar a pele do pescoço, formando uma espécie de sinistro capuz. Entre elas está a conhecida naja da Índia — a preferida dos encantadores de serpentes — e a mamba da África doSul. Quando os portugueses chegaram à Índia em 1496, deram a este estranho animal o nome de “cobra de capelo” (cobra de capuz); os ingleses importaram o nome, mas reduziram-no para cobra.

casta — (caste) — Casta é o feminino de casto, adjetivo que significa “puro, intacto”; como substantivo, designa uma linhagem vegetal ou animal com origem comum e caracteres semelhantes: “este vinho é feito com uvas das melhores castas”. O termo serviu, portanto, como uma luva para designar os fechados grupos sociais em que se dividia a sociedade da Índia — sistema até então desconhecido pelos portugueses —, no qual um indivíduo fica preso até sua morte na casta em que nasceu, sem que se admita mistura ou contato com os membros das demais castas. Logo o inglês e a maioria das língua européias adotaram o vocábulo.

tanque — (tank) Quando foi importado pelo Inglês, significava apenas “reservatório”. Durante a 1a. Guerra, contudo, quando os ingleses desenvolviam secretamente os primeiros carros de combate que rodavam sobre esteiras, espalharam o boato de que estavam construindo reservatórios de água motorizados para a campanha na Mesopotâmia. Para despistar a eficiente espionagem alemã, tiveram o cuidado, inclusive, de escrever “tank” nos engradados de madeira que levaram as peças para o solo francês, onde foram montados para entrar em ação. O estratagema produziu dois resultados: o novo veículo pegou os alemães totalmente desprevenidos, e o nome tanque ficou definitivamente consagrado.

marmelada — (marmalade) — Na tradição culinária portuguesa, é o tradicional doce de marmelo (sólido ou em forma de geléia), que acabou sendo suplantado, no Brasil, pela invencível goiabada. O termo foi levado para a Inglaterra, no entanto, para designar o doce feito com a polpa de qualquer fruta, especialmente as cítricas; basta ver que a campeã inglesa de preferência é a orange marmalade, uma “marmelada” de laranja! Só não importaram ainda o sentido figurado que damos ao vocábulo; um inglês não entenderia a frase “a última corrida da Ferrari foi uma vergonhosa marmelada”.

bucaneiro — (buccaneer) — Designava os habitantes das ilhas de Hispaniola e Tortuga que caçavam bois selvagens e defumavam sua carne numa espécie de grelha conhecida em Francês por boucan, que veio do moquém de nossos índios; trocado em miúdos, seria algo assim como um churrasqueiro. Com o tempo, esses assadores encontraram uma atividade mais lucrativa na pirataria, e o nome colou neles. Em 1661, registra-se o seu uso no Inglês no primeiro sentido; em 1690, já aparece para designar os piratas das Antilhas. Este é um caso especial: uma palavra nossa, nativa, produziu uma derivada francesa, que se tornou comum nas Antilhas, ingressando no Inglês, no Espanhol e — lá vamos nós! — no Português moderno. 

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européias > europeias

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Pontuação: charadas resolvidas

1) Um navio holandês entrava no porto um navio inglês — Essa frase não deve ser pontuada; entrava não é do verbo entrar, mas sim o presente do indicativo de entravar. Seria algo assim como “Um navio holandês atrapalha no porto um navio inglês”. Se quiseres, podes colocar “no porto” entre vírgulas, por se tratar de um adjunto adverbial deslocado, ou deixá-lo assim mesmo, devido à sua pequena extensão.

2) Voar da Europa à América uma andorinha só não faz, verão — Novamente uma charada que se baseia no equívoco entre duas formas homógrafas: verão é a 3ª pessoa do plural do Presente do Indicativo de ver; nosso ouvido, no entanto, é sugestionado pelo velho provérbio “Uma andorinha só não faz verão”.

3) Um fazendeiro tinha um bezerro e a mãe; do fazendeiro era também o pai do bezerro — Essa é de Almanaque do Biotônico. O fazendeiro tinha um bezerro e a mãe [do bezerro — entenda-se: Dona Vaca]; o pai do bezerro [o touro] era também do fazendeiro. A construção é caprichosa, mas vale a intenção. 

4) a charada das três irmãs

Veja como o namorado indeciso entre as três belas irmãs pontua seu poema de quatro maneiras diferentes: 

a) O poeta confessa seu amor por Soledade:

Se consultar a razão,

digo que amo SOLEDADE.

Não Lia, cuja bondade

ser humano não teria.

Não aspiro à mão de Iria, 

que não tem pouca beldade.

b) O poeta confessa seu amor por Iria:

Se consultar a razão,

digo que amo Soledade?

Não! Lia, cuja bondade

ser humano não teria?

Não! Aspiro à mão de IRIA, 

que não tem pouca beldade.

c) O poeta confessa seu amor por Lia

Se consultar a razão,

digo que amo Soledade?

Não! LIA, cuja bondade

ser humano não teria.

Não aspiro à mão de Iria, 

que não tem pouca beldade.

d) O poeta está hesitante entre as três: 

Se consultar a razão,

digo que amo Soledade?

Não Lia, cuja bondade

ser humano não teria?

Não aspiro à mão de Iria, 

que não tem pouca beldade?

Não sei quem é o autor da charada. Eu a encontrei nos excelentes Exercícios de Português, de M. Cavalcanti Proença, escritos no fim da década de 50 para os cursos de oratória e redação da Academia Militar das Agulhas Negras, famosa pela qualidade e pelo rigor de seu ensino de Português. Quando me falam na necessidade de “preparar quadros”, cito sempre esse exemplo da AMAN — e aí ficam brabos comigo! O que queriam? Qualidade sem esforço? 

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Etimologia e curiosidades Faits divers

pontuação: charadas

Doutor Cláudio Moreno, aí vai uma charada para tentares decifrar! Pontua a seguinte frase de modo que faça sentido: “João toma banho quente e sua mãe diz ele quero banho frio”. Coloca essa à disposição na tua página para o pessoal tentar resolver também.

Alexandre D. (17 anos) Brasília

Meu caro Alexandre: tu és jovem, mas a frase é velha; não quero ser demancha-prazeres para os meus leitores, mas vou resolver o enigma de uma vez: 

João toma banho e sua. “Mãe”, diz ele, “quero banho frio”. 

A chave é o vocábulo sua, aqui a 3ª pessoa do presente do verbo suar (e não o pronome possessivo). Esta é uma charada clássica de pontuação, irmã daquelas outras, que deves conhecer (as respostas estão em Pontuação: charadas resolvidas [linque]): 

“Um navio holandês entrava no porto um navio inglês.” 

“Voar da Europa à América uma andorinha só não faz verão.”

“Um fazendeiro tinha um bezerro e a mãe do fazendeiro era também o pai do bezerro.” 

No meu tempo de estudante conheci também um poema que fala de três atraentes irmãs; dependendo da pontuação empregada, o poeta declara seu amor por Soledade, por Lia ou por Iria, ou ainda confessa estar indeciso entre as três. Vou reproduzir o poema; a pontuação, nas suas quatro versões, pode ser vista aqui:

Três belas que belas são

Querem que por minha fé

Eu diga qual delas é

Que adora o meu coração

Se consultar a razão

Digo que amo Soledade

Não Lia cuja bondade

Ser humano não teria

Não aspiro à mão de Iria

Que não tem pouca beldade. 

 

Essas charadas, ou enigmas, muito populares nos anos 50, espelham muito bem o saudável espírito de brincar com a linguagem, tão comum naquela época. Fico entusiasmado ao ver que jovens como tu estão descobrindo o que chamo de “o prazer das palavras“, para mim a verdadeira pedra de toque das pessoas que têm espírito. Um abraço. Prof. Moreno