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A OSPA e a osga

Uns enfiam o pé na /pôça/, outros na /póça/; uns dizem /algôz/, outros preferem /algóz/ —  e todos clamam que estão com a razão. A mesma hesitação se manifesta na hora de pronunciar as vogais de uma sigla: a Ospa (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre) é /ôspa/ ou /óspa/? Veja o que está por trás disso tudo.

Publicar alguma coisa na internet gera conseqüências tão imprevisíveis quanto lançar ao mar uma mensagem na garrafa. Há quase dez anos, quando o www.sualingua.com.br era tão jovem que ainda não comia com a mão, respondi a uma consulta de um casal de músicos de Porto Alegre, integrantes da Ospa, que estavam intrigados com o fato dos vocábulos harpa e arpejo serem escritos de maneira diferente. “Se ambos vêm da mesma raiz, arpejo também não deveria ter H?”, perguntavam os dois, com absoluta propriedade. A razão desta discrepância ortográfica, expliquei, foi a loucura que fez a Itália ao suprimir o H inicial de todos os vocábulos (Port. homem, Esp. hombre, Fr. homme — mas It. uomo; Port. hora, Esp. hora, Fr. heure — mas It. ora). Ora, arpejo, como a maior parte de nossos termos musicais, veio do Italiano arpeggio — e como lá a velha harpa virou arpa, deu no que deu…

Vai daí que esta garrafa vagou pelo ciberespaço por quase uma década, até que minha antiga resposta veio despertar no jovem Michel P., de 15 anos incompletos, uma dúvida que ele classifica de “atroz” (não lembro bem, mas acredito que, nesta idade, minhas dúvidas também costumavam ser “atrozes”): “Professor, como é que se diz em voz alta o nome de nossa orquestra? É /óspa/ ou /ôspa/? Meu avô, aqui em Lajeado, fala com o O fechado, mas ele é meio alemão e aí não conta, porque fala tudo assim, até /bôsta/” [uso as barras inclinadas para assinalar que estamos falando da pronúncia, não da grafia].

Talvez não saibas, meu caro Michel, que a resposta à tua pergunta serve para dividir os gaúchos em duas facções que não se bicam, assim como chimangos e maragatos, gremistas e colorados. Conversando com Luiz Osvaldo Leite, presidente honorário da república de seus amigos e um dos grandes incentivadores da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, fiquei sabendo que não há entrevista sobre a Ospa em que não lhe perguntem a opinião: afinal, como é que se diz? A resposta que ele dá é a mesma que eu daria: cada um pode escolher a que mais lhe aprouver — mas a tendência dominante é, sem dúvida, a pronúncia aberta do O. Cabe a mim, nesta coluna, explicar o porquê disso tudo.

Em primeiro lugar, por que existe esta dúvida? Ora, ela nasce da tradicional hesitação que os brasileiros têm na determinação do timbre do O e o E em dezenas de vocábulos. Nossas gramáticas e dicionários vivem discutindo a pronúncia de dolo, algoz (dizemos /ô/ ou /ó/?), quibebe, coeso, extra, obsoleto (dizemos /ê/ ou /é/?), entre muitos outros em que a escolha entre aberto e fechado ainda não está consolidada pelo uso. E não se espante com isso o leitor: se, por um lado, a ortografia é regulamentada e fixada por uma norma específica, nada semelhante existe para a língua falada, que abriga um sem-número de variantes regionais, etárias e sociais. Como já mencionei em colunas anteriores, uns metem o pé na /póça/, outros o metem na /pôça/; há quem faça /ióga/, há quem prefira /iôga/. Não é de estranhar, portanto, que as pessoas se dividam quanto ao nome da nossa orquestra sinfônica.

Em segundo lugar, a tendência a priorizar a pronúncia /óspa/ coincide com o padrão dominante nessa configuração fonológica: birosca, cosca, gosma, losna, bosta, morta, amostra, aposta, costa, hoste, posta, resposta (e, muito parecida, a osga, nome daquela simpática e inofensiva lagartixinha de parede). Vocábulos femininos com O fechado existem, mas são minoria: mosca, rosca, lagosta, fosca, tosca, crosta, ostra ─  e não é por acaso que se ouve, por hipercorreção, um e outro candidato a celebridade pronunciando /óstra/… É por isso, aliás, que nossos bons dicionários  indicam, entre parênteses, quando o E ou o O são fechados; quando nada mencionam, é porque a pronúncia é /ó/ ou /é/, ou seja, as vogais abertas são tomadas como “default“.

Em suma, caro Michel, eu uso e recomendo a pronúncia aberta, embora nada tenha contra  os partidários de /ôspa/. Só lhes peço que aposentem o velho argumento de que o O, nesta sigla, como representa a vogal inicial de /ôrquestra/, também deveria ser fechado. Não é assim que as coisas funcionam; basta ver, em siglas corriqueiras, que não há correspondência necessária entre o timbre da vogal da sigla com o da vogal da palavra representada: IBOPE (o O está por “Opinião”); SEC (o E está por “Educação”), GBOEX (o E está por “Exército”), CEP (o E está por “Endereçamento”), BO (o O está por “Ocorrência”), e por aí vai a valsa.

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BOLETIM:  o Sua Língua agora publica um boletim quinzenal com tópicos diversos (e inéditos) sobre nosso idioma. Veja o 1º da série AQUI.

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bisesdrúxulas

Prezado professor: no ano passado, minha professora, ao explicar a posição da sílaba  tônica de uma palavra, disse que ocorre uma bisesdrúxula quando a tonicidade se localiza antes da antepenúltima sílaba. Eu gravei o nome e  fiquei interessado; porém, nunca encontrei nada a respeito. Diga-me: isso realmente existe?

Fernando  –  Maringá (PR)

Prezado Fernando: em primeiro lugar, uma pequena nota histórica, para que os leitores mais jovens entendam de onde veio esse estranho vocábulo. Antes de 1958, usava-se dividir os vocábulos, quanto à posição da tônica,  em agudos, graves e esdrúxulos, denominações que foram substituídas, respectivamente, pelos insossos oxítonos, paroxítonos e proparoxítonos de hoje. Se a Nomenclatura Gramatical Brasileira teve esse mau gosto, nossos vizinhos castelhanos resistiram, continuando a usar os mesmos nomes que abandonamos.

A posição da sílaba tônica de nossas palavras está submetida a uma restrição conhecida, em Lingüística, por “Janela de Três Sílabas” — o que significa, em  termos práticos, que a tônica deverá ser, obrigatoriamente, uma das três últimas sílabas. Ora, a idéia de uma bisesdrúxula (de bis + esdrúxula) implicaria a existência de uma tônica em sílaba anterior à antepenúltima. Isso não seria possível em um único vocábulo, mas ocorreria em certas seqüências fonéticas, como, por exemplo, [verbo + pronome clítico]. Esses, aliás, são os exemplos que encontramos no Aurélio XXI: tomávamolo, erguia-se-lhe.

O fato vai, no entanto, um pouco além dessas combinações de verbo e pronome. Como já expliquei em pronúncia dos encontros consonantais, os encontros consonantais imperfeitos são desmanchados pela inserção de uma vogal epentética (sempre o /i/), o que resulta, naturalmente, no surgimento de uma sílaba extra. Por causa disso,  África e afta (/afita/)  têm exatamente o mesmo número de sílabas; ritmo (/ritimo/) é uma proparoxítona das boas; pneu (/pineu/) tem duas sílabas; e assim por diante. Não quero insultar a inteligência de meus leitores alertando que tudo isso que explico nada tem a ver com a separação das sílabas na escrita, onde af-ta e rit-mo são dissílabos e pneu é monossílabo (!).

Ora, essa sílaba extra que existe nos encontros imperfeitos é o que vai permitir o aparecimento de verdadeiras bisesdrúxulas: rítmico, técnico, elíptico, helicóptero, apocalíptico e mais algumas, que são geralmente pronunciadas /rí-ti-mi-co/, /he-li-có-pi-te-ro/ — com três sílabas, portanto, depois da sílaba tônica. As gramáticas escolares não falam sobre isso, nem devem; os autores competentes são os que selecionam aquilo que o usuário comum precisa conhecer para entender o seu idioma – e o conceito de bisesdrúxula só passa a ser relevante para quem estuda o Português na Faculdade de Letras. Abraço. Prof. Moreno

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imbróglio?

Um dia desses, em uma entrevista na TV, ao comentar a confusão legislativa que se criou em torno da desastrada reforma ortográfica com que andam nos ameaçando, eu a chamei de imbroglio (“confusão, maçaroca”), vocábulo que muito aprecio, pronunciando-o à italiana — /imbrólho/. Pois duas horas não eram passadas e eu já recebia, pelo correio eletrônico, uma crítica um tanto impertinente de um cidadão que, pelo jeito, não gostou da minha pronúncia e resolveu pedir satisfações. Entre outras coisas, escreveu o ferrabrás: “Trata-se de uma palavra já aportuguesada, pois no dicionário está imbróglio, sem grifo. Como o senhor deve saber, a listagem das palavras oficialmente existentes em nosso léxico é o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, e ali não há nada que impeça a pronúncia da letra G na palavra imbróglio. Portanto, tenho para mim que tal palavra deve ser pronunciada com o G bem destacado, pois, pelo que sei, falamos Português e não Italiano. Peço a Vossa Senhoria que me dê uma resposta a tal dúvida o mais brevemente possível”. Meus leitores deverão ter notado o tom implicante e descortês da cartinha, cheia de expressões mordazes (“como o senhor deve saber” ou “pelo que sei, falamos Português e não Italiano”), bem como a conclusão áspera, intimativa, que parece mais um desafio para um duelo no Parque da Redenção do que o convite para uma discussão filológica. Qual dos dois ele tinha em mente, não importa; seja um ou seja outro, digamos que ele veio bater na porta certa.

Caro cidadão, sinto dizer-te que não tens razão. Foste ao VOLP da Academia, para examinar a lei —  o que é muito bom e saudável — , mas esqueceste um pequeno mas fundamental detalhe: o “O” da sigla VOLP representa “ortográfico”, como tu mesmo bem escreves no extenso. Vou repetir, com pausa entre os dois elementos: ortográficográfico, porque se refere à maneira como deveríamos escrever as palavras, e não pronunciá-las. Não existe — repito, e bem devagar — não existe nenhuma legislação sobre a maneira de pronunciar as palavras do Português, quanto mais as estrangeiras. Isso não é uma omissão da lei, como pode parecer, mas uma sábia decisão, porque assim se assegura que, neste grande Brasil, todos escrevam da mesma maneira, embora não pronunciem da mesma maneira. Uns dizem /pôça/, outros /póça/; uns dizem /dois/, outros /doix/; uns dizem /medicina/, outros /médicina/ — mas todos escrevem essas palavras da mesma forma. As gramáticas e os dicionários fornecem, no máximo, sugestões quanto à pronúncia, baseadas nas preferências de seus autores, os quais, como seria de esperar, nem sempre estão de acordo.

Vamos ao nosso imbróglio. O raciocínio de que a leitura dos vocábulos aportuguesados segue o nosso sistema ortográfico está corretíssimo; o problema é que este é um daqueles vocábulos mutantes que não sofreram o processo completo, e que aparecem nos dicionários numa grafia híbrida, metade nacional, metade estrangeira. A rigor, deveríamos escrever imbroglio (em Italiano e, portanto, em grifo e sem acento) ou imbrolho (em Português), mas fizeram aqui a clássica cruza de jacaré com cobra d’água e criaram a belezinha do imbróglio. Talvez isso seja corrigido um dia, talvez não o seja — mas não vai afetar em nada a sua pronúncia, que continuará a ser /imbrólho/.

Como deverias saber, o aportuguesamento incide fundamentalmente sobre a grafia do vocábulo estrangeiro, adaptando-a ao sistema vigente do Português, mas procurando conservar a pronúncia original. É por isso que abat-jour entrou aqui como abajur, lasagna entrou como lasanha, mousse como musse. Escrever um vocábulo usando letras que não sustentem a sua pronúncia é, para mim, o melhor sinal de que este vocábulo ainda não passou pelo processo de aportuguesamento. Se escrevemos bacon (/bêicon/), pizza (/pitça/) ou mouse (/mause/), é sinal de que eles ainda são estrangeiros em visita ao nosso idioma, que só vão ganhar a nacionalidade brasileira quando tivermos a coragem de escrever bêicon, pitza ou mause. Friso: o que poderá mudar, no futuro, é a grafia; a pronúncia continuará a mesma, usada, inclusive, pelos analfabetos, que utilizam essas palavras sem ter a menor idéia de como elas se escrevem. A escrita obedece à fala, e não o contrário — essa é a primeira grande lição que recebemos no curso de Letras. Em qualquer idioma, a escrita (sistema restrito aos que passaram por uma escola) é uma tentativa, nem sempre bem-sucedida, de representar os sons da fala (sistema usado por todos nós, desde os dois anos de idade, tenhamos ou não escolaridade). Para mim, que sou professor, é muito fácil entender e desculpar o teu equívoco, nascido de uma crença errônea na supremacia da escrita sobre a pronúncia; difícil, mesmo, é tragar esse teu humor birrento de matungo velho.

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pronúncia do X

Marcelo R., de Passo Fundo (RS), gostaria de saber se há regras gramaticais e de fonética para determinar pronúncia correta do X. “Eu sempre pronunciei, por exemplo, esdrúxulo como /esdrúcsulo/ e não /esdrúchulo/, tóxico como /tócsico/ e não /tóchico/ — o que gerou uma aposta entre amigos, após algumas garrafas de vinho (a dúvida persistiu no dia seguinte, junto com a dor de cabeça)”.

Prezado Marcelo: não pode haver regras para a pronúncia do X, já que ele pode aparecer com diferentes valores no mesmo ambiente fonológico. Entre vogais, por exemplo, ora ele tem o valor de /ch/ (abacaxi), ora de /z/ (exato), ora de /ks/ (fixo), ora de /s/ (máximo). É o uso e a tradição que foi fixando o seu valor em cada palavra. Em tóxico, a única pronúncia aceitável é /ks/; /ch/, aqui, é visto como marca de fala inculta — “Meu filho se /intochicou/”. Agora, em esdrúxulo, só se aceita o /ch/; aliás, nunca ouvi alguém tentando dizer esse X como /ks/. Tu és o primeiro; parabéns pelo vanguardismo… Abraço. Prof. Moreno

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Para tem duas sílabas?

 

Olá, Doutor. Tudo bem? Falando sobre a palavra para, o senhor afirmou: “Só se ouve para, completinho, com as duas sílabas, em leitura de criança recém-alfabetizada ou na fala de estrangeiro que está aprendendo Português”. Mas quando uso a combinação para com, por exemplo (“Isso não é honesto para com você”), eu digo para com duas sílabas mesmo, como uma criança ou como um estrangeiro… Como o sr. diz? Pra com ou ? Ou evita esse modo de falar? 

Anselmo Maruyama — Japão

Prezado Anselmo, ensinamos, no Curso de Letras, que uma coisa é o que a gente diz, outra o que a gente pensa que diz. Há uma série de exercícios que são feitos com os alunos-mestres, gravando, por exemplo, o que eles dizem em situações descontraídas, e depois confrontando a gravação com o que eles juravam costumar fazer. O para preposição é um dos raros vocábulos átonos que é dissílabo na escrita, mas, como é óbvio, monossílabo na fala: /pra/. Evidente que, na fala escandida, posso pronunciá-lo com duas sílabas cheias — quando eu dito, por exemplo, ou quando quero ser enfático, ou quando foco na preposição (focar, em linguagem, é destacar um determinado segmento da fala através de uma peculiar alteração na sua pronúncia: “Ela tinha dito que ia AO Rio, não PARA o Rio”). 

O exemplo que tu mandaste é significativo: para com é uma construção erudita, exclusiva do Português Escrito Formal (no Falado, só aparece em discurso escrito ou semi-escrito, como a fala de desembargadores em sala de sessão, por exemplo); aposto um boi gordo que tu, quando o escolheste como exemplo, estavas mais lendo mentalmente do que usando-o espontaneamente — daí te parecer quase impossível aparecer aqui o /pra/. Não é impossível, não; só que, como expliquei, o momento em que normalmente se usa para com é aquilo que chamamos fala tensa, em que o falante está aplicando conscientemente o sistema de regras da escrita. Eu, em aula, falo de uma forma que seria inadmissível na minha vida normal: pronuncio os erres finais dos verbos no infinitivo, digo /fêcho/, etc. Se um estudioso estrangeiro gravasse minhas aulas, não poderia, com esse material, descrever nossa Língua Portuguesa, pois se trata apenas de um uso muito particular dela. Abraço. Moreno

 

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inox

Prezado Prof. Moreno: recentemente descobri teu sítio na Internet, e como sou apaixonado por curiosidades lingüísticas, volta e meia dou uma olhada nele. No ponto xerox ou xérox, citas diversas palavras que entraram no Português, como durex, inox, etc. A mim me parece que a palavra inox nao é um estrangeirismo (o que talvez pudesse justificar uma possível confusão na sua pronúncia), mas sim uma corruptela de inoxidável, do Português mesmo. Provavelmente não venha do idioma inglês, pois aço inoxidável em Inglês é stainless steel. Tampouco é uma marca registrada, pois há inox da Acesita, Usiminas e assim por diante. Alguma idéia? Duas observações: (1) sou engenheiro metalúrgico, daí a curiosidade; (2) desculpa a falta de acentos circunflexos, cedilhas e tils (til tem plural?). Estou na Alemanha e o teclado que estou usando não possui a configuração para o Português… Grande abraco e parabéns pelo excelente trabalho.” 

Rodrigo Villanova

Meu caro Rodrigo: muito me alegra ter um leitor atento aí nessa lonjura; obrigado pelos cumprimentos. Quanto ao inox, uma pequenina retificação: eu não disse (ou escrevi) que é vocábulo estrangeiro, mas sim que é um “vocábulo que entrou no nosso idioma depois da Segunda Guerra”. Atualmente, em Lingüística, tentamos definir as leis do comportamento das palavras de uma língua e descrever os modelos que estão operantes. Antes da Grande Guerra, os vocábulos terminados em X que “entravam” no Português eram marcados com a tônica na penúltima. Certamente aqui está o meu erro de expressão: usei entrar com o sentido de “passar a fazer parte”, o que engloba os vocábulos formados internamente, importados de outras línguas ou simplesmente inventados — e não apenas os estrangeirismos (não gosto desta palavra xenófoba). 

Depois que Hitler deu seu último suspiro em algum bunker perdido aí por onde tu andas, parece que o paradigma começou a trocar: todos os novos vocábulos com esta terminação passaram a um modelo com a tônica final. Isso inclui importações (durex, pirex), reduções (inox, redox) e até mesmo marcas comerciais (que, como hoje sabemos, também são inventadas dentro do “molde” prosódico que está vigendo no momento em que são criadas): Gumex, Mentex, Jontex, Giroflex. É por isso que xerox (importada) entrou aqui já dentro desse novo esquema prosódico. Vou ter que refrasear aquele artigo, para ficar mais claro. Estás a ver que Drummond tem toda a razão: “lutar com as palavras é a luta mais vã”! Não tinha me ocorrido que eu estivesse escrevendo de uma forma a deixar espaço para duas leituras. Um abraço. Prof. Moreno

P.S.: na medida em que til é um vocábulo de nossa língua, tem, como seus demais colegas de idioma, o direito a um plural; por que não? Cantil, cantis; funil, funis; til, tis.

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xerox ou xérox?

Eu sempre disse /xeróx/ (com a tônica na última sílaba), mas aqui no Tribunal já me corrigiram várias vezes para /rox/. Afinal, qual é a forma correta? E na escrita, leva ou não leva acento?

Secretária — Londrina

É sempre mais complicado definir a forma correta de pronunciar uma palavra, Secretária. As pessoas sentem-se mais seguras no que se refere à escrita, porque esta, por sua própria função de registro, é mais estável — sem contar que existe, no Brasil, uma lei que (mal ou bem) ajuda a fixar uma grafia uniforme: afinal, sempre podemos consultar o vocabulário ortográfico (um dicionário em que as palavras não são definidas, mas simplesmente relacionadas, numa grande lista, com a forma que a Academia resolveu achar correta). No que se refere à pronúncia, contudo, o falante precisa basear-se no exemplo das pessoas cultas e na opinião dos gramáticos e dos dicionaristas (faço questão de frisar: a pronúncia que um dicionário indica para uma determinada palavra representa apenas a opinião de seu autor; é uma opinião especializada, mas é uma opinião).

Entretanto, se examinar com cuidado as palavras e as frases de uma língua, um especialista em Fonologia pode ir além da simples opinião e estabelecer alguns fatos concretos sobre a organização intrínseca dos sons que a compõem — e, o que me parece mais importante, identificar quais são as tendências que essa língua apresenta no momento. Por exemplo, no caso do xerox, posso apontar uma tendência mais ou menos nítida, a partir dos anos 50, para os vocábulos terminados em X (na fala, pronunciado como /cs/): até a primeira metade do século XX, eram unanimente paroxítonas, isto é, com a tônica na penúltima, e com um indisfarçável caráter erudito. No Aurélio, entre outros, encontrei tórax, bórax, clímax, córtex, látex, sílex, cóccix, fênix, ônix.

De 1950 para cá, todavia, o modelo parece ter-se deslocado nitidamente: as palavras novas que entraram no Português desde então foram recebendo a tônica na sílaba final: durex, inox, pirex, gumex, telex, jontex, relax, prafrentex, redox. Não importa que muitas ainda sejam, ou tenham sido, nomes comerciais: os falantes dão-lhes instintivamente o padrão que a língua está usando neste momento para palavras com este perfil. Não tenho a menor dúvida de que todas as próximas que virão (e as palavras não param nunca de ingressar no nosso léxico) seguirão este padrão.

Como é que eu arrisco a data dos anos 50? Bem, aqui temos apenas mais uma confirmação de que a verdadeira análise lingüística precisa levar em consideração o componente cultural e histórico da língua que está estudando. O pirex e o inox, por exemplo, apontam para o final da 2ª Guerra, como subprodutos do avanço tecnológico que o esforço bélico produziu. A eles eu acrescento um vocábulo que omiti nas relações acima: dúplex, o avô de nossas coberturas, em que um apartamento é ligado ao de cima por uma escada interna (naquela época, um dos símbolos de status da classe poderosa de Rio e São Paulo; alguns chegavam ao clímax ao adquirirem um tríplex). Ora, dúplex é uma palavra muito antiga, usada como sinônimo de dúplice (“convento dúplex – convento para frades e freiras”, ensina Antenor Nascentes), portadora daquela nítida aura de palavra erudita e alatinada. Ao passar a denominar esse tipo de apartamento (que assim se chama até hoje), o vocábulo entrou verdadeiramente na corrente sangüínea do Português e tomou a forma duPLEX. O Aurélio, com honestidade, registra, no verbete dúplex: “Pronuncia-se correntemente como oxítono”; o Houaiss, um tanto ambíguo, registra duplex como “forma não preferível e mais usada do que dúplex“…

O xerox é recente, como o telex, e não vejo por que não seria pronunciado dessa forma. O Aurélio registra as duas — xérox e xerox—, embora indique preferência pela primeira.. . Isso está coerente com a orientação deste dicionário, que é excelente em muitos aspectos, mas nitidamente atrasado em sua orientação fonológica.  O Houaiss, mais moderno, prefere xerox, indicando expressamente, entre parênteses, a pronúncia /ócs/.

Como vemos, a pronúncia xérox representaria uma volta ao molde que a própria língua já abandonou (que levaria a algo como *télex, *dúrex, *pírex). Por outro lado, entre as pessoas que dizem xérox, suspeito que algumas o façam numa tentativa equivocada de manter a pronúncia estrangeira, com todo aquele prestígio que o Inglês dá aos vocábulos tecnológicos; se for por isso, deram com os burros n’água, já que no Inglês a palavra soa /zirocs/, com a tônica no /zi/ e o “o” bem aberto, como vovó. Abraço. Prof. Moreno

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Como se diz Como se escreve

transar, obséquio e subsídio

1) Meu caro Mestre Moreno: não é errado transar? Não estou me referindo ao ato em si, mas ao modo com que esta palavra aparece escrita em jornais e revistas. Para mim não resta dúvida: deveria ser tranzar. Aprendi, desde minha alfabetização, já faz muitos anos, que a letra S só tem o som de /z/ quando está entre vogais. Ora, se vejo escrita a palavra transar e escuto na TV falarem /tranzar/, alguma coisa deve estar errada! Será que no ato de tranzarem estão fazendo tranças? Estou parecendo um tanto irônico, mas acho que devemos aprender a escrever corretamente as palavras, sejam elas quais forem… Mesmo que seja um “neologismo”! Concorda? Obrigado! René O. F. — São Paulo

2) Professor, é um prazer ler seus comentários a respeito da nossa língua. Tenho, porém, uma dúvida, mais etimológica que propriamente fonética. Por que o S de obséquio é pronunciado como um /z/?  Obrigada. Gisele Fragoso

3) Prezado Professor, gostaria que esclarecesse a minha dúvida a respeito da pronúncia da palavra subsídio. O S tem som de /z/ ou de /s/?”. Obrigado. Ezequiel P. — Rio de Janeiro

Meus caros amigos: é um princípio geral de nosso sistema ortográfico que o S depois de consoante tenha sempre o som de /s/: observar, subsolo, absoluto, imprensa, denso, lapso. Nessa posição, o S só vai ter o som de /z/ em obséquio (e derivados) e nos vocábulos formados com trans-: transa, transação, transacionar, transalpino, transandino, transamazônico, transatlântico, transoceânico, transe, transeunte, trânsito, transigir, transição, transistor. Notem que isso só não acontece quando o vocábulo originário começa por /s/: transaariano (trans + Saara), transecção, (trans + secção), transecular, (trans + secular), transexual (trans + sexual). 

Por que obséquio e transar se afastam do princípio geral? Podemos descobrir aqui a influência de alguns fatores fonológicos, mas o problema ainda permanece obscuro. Digamos que são idiossincrasias de nosso idioma; cada língua tem as suas manias (o Inglês tem muitas, o Português quase nada — por incrível que possa parecer ao observador leigo). 

Afora esses dois casos, há outros que começam pouco a pouco a despontar, embora ainda sejam repelidos pela fala culta. O primeiro é subsídio. A pronúncia do S em subsolo, subseqüente, subserviente, subsistema aponta para a pronúncia /subcídio/, /subcidiar/. É assim que as gramáticas e os dicionários recomendam, e assim devemos usar na fala cuidada, consciente, de banho tomado e de cabelo penteado. É impossível negar, contudo, que a tendência natural dos falantes é dizer /subzídio/. Eu diria que 95% das pessoas que usam o vocábulo preferem o som de /z/, e isso é muito significativo, não pela força da estatística, mas porque revela a atuação de alguma força concreta e irresistível. Será a mesma que leva os falantes (eu, inclusive) a pronunciar como /z/ o S de subsistência, subsistir, contrariando a lição do próprio Aurélio, que recomenda a pronúncia /subcistência/, /subcistir/? Ou aqui é apenas um caso isolado, que sofre a influência de existência, existir? Não sei dizer, mas mantenho o ouvido atento. Abraço para todos. Prof. Moreno 

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Acentuação Como se diz Como se escreve

É fluido ou fluído ?

Caro Professor: estou navegando há dias pela Internet em busca de auxílio para uma questão e nada tenho encontrado. Como achei o seu site e acredito que seu conhecimento pode em muito me orientar, estou lhe escrevendo pedindo socorro!  Estou tentando abrir uma empresa de cosméticos feitos com essências naturais e pretendo nomeá-la “Fluidos da Natureza”. Seria “Fluidos” ou “Fluídos“? Este é o ponto em questão. Já obtive uma informação de outro site, mas em nada me esclareceu; pelo contrário: fiquei ainda mais confusa sobre qual seria mais adequado ao meu caso. Carla C.

Prezada Carla: Nomezinho bem complicado tu foste escolher para tua empresa! É bonito e sugestivo; digo que é complicado porque nunca será pronunciado corretamente pelos teus clientes (e nem sei se seria desejável). Vou explicar por quê.

Quanto à Gramática, distinguem-se dois vocábulos diferentes:

1 — O primeiro, fluido, tem o “U” tônico e divide-se em duas sílabas: FLUI-DO. Se te lembras de teu tempo de colégio, o UI aqui é um ditongo. Este vocábulo tem o sentido genérico de “líquido”: mecânica dos fluidos, fluido de freio; “a Aids se transmite pela troca de fluidos do corpo”. Modernamente, acho que passou também a significar algo “gasoso”; pelo menos, é o que sugere o uso que dele fazem as pessoas místicas: “Nesta sala há maus fluidos“, “podem-se perceber os bons fluidos“, etc. Em todos os exemplos acima, é classificado como substantivo; às vezes é usado como adjetivo (ainda com o mesmo sentido de “líquido”): “estava muito quente, e o mel ficou mais fluido“; “Ó formas vagas, fluidas, cristalinas” (no antológico poema Antífona, de Cruz e Sousa).

2 — O segundo, fluído, tem o “I” tônico; é uma palavra de três sílabas (FLU-Í-DO). É o que chamamos de hiato, lembras? Aliás, é exatamente por ser um hiato que o I precisa levar esse acento gráfico. Agora estamos diante do particípio do verbo fluir (“correr, transcorrer”), formado da mesma maneira que caído (de cair) e saído (de sair): “As horas tinham fluído sem que nós nos déssemos conta”; “todo o óleo tinha fluído para o chão da garagem”. Nota que os dois vocábulos são diferentes na pronúncia, na grafia e no sentido.

Até aqui, moleza. Agora, o teu problema: para mim, é evidente que o nome da tua empresa deve ser “FLUIDOS da Natureza”. Estamos falando do primeiro sentido; a idéia é a de que forneces essências, líquidos, substâncias que a Natureza produz (ligada, muito bem, a meu ver, com aquela outra conotação moderna do vocábulo fluido, mais mística e, como tal, extremamente vendável). Acontece que nove entre dez brasileiros não distinguem um vocábulo do outro, pronunciando /flu-í-do/ em ambos os casos. Em geral, as pessoas dizem flu-í-do de freio, mecânica dos flu-í-dos, maus flu-í-dos — e vão falar de teus cosméticos como “Flu-í-dos Da Natureza”. Dessa não vais escapar; aliás, qualquer insistência para que eles digam a forma correta, flui-do, pode ser contraproducente para a divulgação da marca. Esse é o dilema em que tu te meteste, ao escolher esse nome. Minha sugestão? Registra e escreve corretamente (fluidos, sem o acento), mas deixa rolar livremente a pronúncia (que, aposto meus diplomas, vai ser flu-í-dos). Abraço. Professor Moreno

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Como se diz Como se escreve

recorde

Prof. Moreno: em todos os livros de Português, vejo a palavra recorde com a sílaba tônica assim: /reCORde/. Por que, então, nos telejornais (Globo, Record, Bandeirantes…) e em jornais de rádio, alguns conceituados como a Jovem Pan, além do Jô Soares, enfim… toda essa mídia, fala-se /REcord/e (puxado com a fonética do Inglês record)? Que salada! Por favor, qual, afinal, é a forma correta?

Geraldo.

Meu caro Geraldo: não existe a “forma correta”. Se considerares (como eu e a maioria dos que escrevem sobre nosso idioma) o vocábulo como já aportuguesado, vais defender /reCORde/; se, no entanto, ainda o considerares um vocábulo estrangeiro, vais defender /REcord/, com a tônica no /re/. Tanto no Houaiss quanto no Aurélio já se encontra a forma nacionalizada recorde, sem acento (portanto, paroxítona), com o “e” epentético no final. Tua hesitação, no entanto, é natural: todos os vocábulos estrangeiros que entram no Português passam por um tempo de indefinição, em que as forças mais progressistas defendem a forma adaptada e as forças conservadoras se plantam ainda na forma tradicional, estrangeira. Eu, por exemplo, já uso xópin, no lugar de shopping; e tu? 

Agora, por que tanta gente na mídia prefere a forma em Inglês, isso eu não sei responder não; posso apenas especular que deve se tratar de uma tentativa de soar chique, sofisticado. A vizinha da minha avó costumava dizer que ia ao /restorã/, quando falava no restaurante; seu marido, para combinar, só tomava /vermu/ (em vez de vermute) doce. Pode? Abraço. Prof. Moreno