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sutilezas da crase

 

Tenho certeza, caro leitor, que você sabe muito bem que só os ingênuos acreditam em soluções simples para problemas complexos — e isso vale também para a gramática. O acento de crase  é um bom exemplo: há tantos fatores envolvidos em seu emprego que, percebendo que o gelo é fino e a mata é espessa, nenhum de nós se arrisca a usá-lo sem antes fazer uma pausa para pensar. Uma certa dose de angústia é inevitável aqui (há até quem se benza!), mas  asseguro que um pouco de calma e reflexão há de nos pôr no bom caminho.

Pois é exatamente sobre crase a consulta feita por uma enfermeira que, por razões pessoais, pede que eu não publique seu nome. Em seu trabalho na transcrição de consultas médicas, recorre constantemente a dicionários e a gramáticas, mas não consegue entender por que o A não deve ser acentuado em construções do tipo “paciente submetido A cirurgia de catarata”. Diz ela: “Um médico afirmou que é sem acento, mas, para mim, as duas condições de crase estão presentes: submetido pede a preposição A e o segundo termo é um substantivo feminino: não seria o suficiente?”.

Não, prezada amiga, não seria o suficiente. Assim como para o tango, são necessários dois participantes para que ocorra a crase: a preposição A está ali, como você percebeu, mas ela está sozinha; o outro parceiro, o artigo feminino A, não compareceu. Apesar de cirurgia ser palavra feminina, está sendo usada de modo indeterminado e, portanto, desacompanhada de artigo definido. Fica mais fácil de explicar se usarmos substantivos masculinos, pois a presença ou ausência do artigo O termina deixando tudo mais visível. Note que escrevemos “paciente submetido A exame de dependência toxicológica” — e não “ao exame”, o que prova que temos apenas a preposição. 

O que parece ser uma complicação inerente à crase não passa, na verdade, de uma sutileza do emprego do artigo, uma palavra injustiçada, que tem de importante o que tem de nanica. O que está por trás disso é a diferença entre o dado e o novo, categorias que raramente são mencionadas nas gramáticas tradicionais. Quando nos referimos ao novo, não há artigo definido: “Polícia evita assalto na BR-101″ (e não “O assalto”). 

A presença (ou não) do artigo faz muita diferença. Compare “Referindo-se A peça infantil a que assistiu na Rocinha, a deputada…” com “Referindo-se À peça infantil a que assistiu na Rocinha, a deputada…”. Ambas estão corretas, mas dizem coisas diferentes. Na primeira, peça é um dado novo, sendo usado com sentido indefinido (“uma peça”); na segunda, pressupõe-se que os leitores compartilhem o conhecimento prévio de que a deputada tinha assistido a um espetáculo infantil na Rocinha. Seu Fulaninho informa que uma vez operou a catarata; na ficha dele se registra “paciente submetido a cirurgia de catarata” (“uma cirurgia”). Seu Fulaninho comenta que não ficou satisfeito com o resultado: “referindo-se à cirurgia de catarata, o paciente… (ele está falando daquela cirurgia já mencionada). 

Como você pode ver, a resposta é complexa porque este não é mesmo um caso tão simples —  ou tosco, como a de um leitor indignado que escreveu, em estilo meio arrevesado: “O acento craseado [sic] foi colocado em um texto na palavra ègua (credo!). Em qual caso na língua portuguesa se utiliza esse tipo de acento?”. Meu pensamento voou. Éguas, cavalos, jumentos… confesso que a tentação foi grande, mas engoli a piada.

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crase com horas e minutos

Olá, Prof. Moreno! Trabalho como redator numa agência de propaganda e gostaria de tirar uma dúvida sobre o uso da crase com horários. Sei por que se usa o acento grave, por exemplo, em: “Das 14h às 18h”, mas um colega me disse que quando o segundo horário leva minutos, não se coloca esse acento: “Das 14h as 18h30″.

A alegação dele é que a crase passa a se referir também aos minutos, que é substantivo masculino, junto com a hora. Então hora e minuto viram um elemento só, e o horário, nesse caso, termina no masculino. Eu não concordo; para mim, aqui também ocorre a crase, porque aquele “s” só pode ser por causa do plural do artigo, mas confesso que os argumentos do meu colega ainda me deixam confuso. Ele não lembra onde viu essa suposta regra. Você pode confirmar, por favor?
Gustavo — Sorocaba (SP)

Prezado Gustavo, não sei por que perdes tempo dando ouvidos aos palpites desse teu colega! Ele não lembra de onde veio a tal regra? Pois eu arrisco um palpite: ou veio do sonho ou do fundo de um copo! Percebo que sabes muito bem por que acentuamos, por exemplo, “das duas às quatro horas”. Pois bem: o que vier depois disso (minutos, segundos, etc.) não vai participar da relação sintática da preposição A com o artigo que acompanha o substantivo horas. Como tu mesmo bem disseste, a crase continua ocorrendo e é necessário manter o acento correspondente: “das duas às quatro horas e doze minutos”, “das duas às quatro horas, doze minutos e vinte segundos”. Como vês, tua argumentação inicial estava corretíssima. Tens de ter mais fé nos teus conhecimentos, Gustavo, e não sair correndo só porque alguém gritou, ao longe, “fogo na floresta”. Abraço. Prof. Moreno

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à Maria, a Maria

Professor Moreno: ao escrever uma carta para minha filha, me surgiu uma dúvida. Como devo preencher o destinatário? À Maria ou simplesmente A Maria, sem o acento de crase? Obrigada pela sua atenção.

Alexandra – São Paulo

Minha cara Alexandra: escreve como tu quiseres. Acontece que os falantes do Português se dividem em dois grupos: os que usam e os que não usam artigo antes de nomes próprios. Quando eu falo do meu filho Matias, eu digo “o Matias passou por aqui”, mas sua namorada, que é do Rio de Janeiro, já prefere dizer “Matias passou por aqui”. No feminino — é o teu caso —, uns dizem “Encontrei Maria no jogo”, outros dizem “Encontrei a Maria no jogo”. Ora, como deves te lembrar do teu tempo de colégio, tudo o que mexe com o artigo feminino tem reflexos no acento de crase. Se usas o artigo quando falas da tua filha (“estou pensando NA Maria”, “o noivo DA Maria”), vais escrever “À Maria” (preposição + artigo = crase). Se não empregas o artigo (“o quarto DE Maria”, “o noivo DE Maria”), é evidente que estarás escrevendo apenas a preposição: “A Maria“. Escolhe aí um João, escreve uma carta para ele e tudo vai ficar mais claro: ou escreves “Ao João”, ou “A João”. A decisão é tua. Abraço. Prof. Moreno

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das oito às doze

A forma correta de escrever é “das 8h AS 12h” ou “das 8h ÀS 12h”? Ou as duas formas são corretas? Nesse caso o A está substituindo o até ou o para? Da mesma forma, pergunto: é “de segunda A quinta-feira” ou “de segunda À quinta-feira”? Um abraço e muito obrigado. Fabio M. —    Jaraguá do Sul (SC)

Meu caro Fábio: como deves saber, a crase (assinalada, na escrita, pelo acento grave) é o encontro da preposição A com o artigo A. Na tua pergunta, quando escreves “DAS 8h”, fica claro que o artigo está presente (das é formado pela preposição de mais o artigo as); conseqüentemente, antes de 12h ele também deverá estar: “DAS 8h ÀS 12h” — com acento indicativo de crase. Se algum felizardo começa a trabalhar às 8h e encerra o batente às 12h, essa é a única maneira correta de escrever. Outra coisa bem diferente é “DE oito A doze”: “ele trabalha DE oito A doze horas por dia” não se refere a “quando” ele começa e termina, mas sim a “quantas” horas de trabalho são cumpridas.

Com os dias da semana é um pouco mais sutil. Vamos examinar primeiro a construção “DE segunda A sexta-feira”. O de aqui é apenas a preposição, pois o artigo feminino não está sendo usado antes de “segunda”; logo, antes de “sexta” também não estará, o que fica bem claro antes do masculino: “DE segunda A sábado”. 

Outra coisa é escrever “DA segunda À sexta-feira”. Aqui, ao contrário, o “da segunda” mostra que o artigo está presente; conseqüentemente, “DA segunda À sexta”. Isso fica bem visível no masculino: “DA segunda AO sábado”. Ambas as construções estão corretas; tu podes escolher entre elas, desde que não as mistures. Abraço. Prof. Moreno

 P.S.: Um conselho: pára com esse mau hábito de tentar substituir a preposição A por outra (até, para, etc.). Eu sei que alguns gramáticos menores vivem recomendando este “recurso”. É charlatanice! Preposições não se substituem; das 600.000 palavras de nossa língua, apenas umas vinte — repito: só perto de vinte! – são preposições. Achas que haveria a possibilidade de duas delas se equivalerem? Nem em dez milhões de anos. 

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pára > para

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crase em àquele

Prof. Moreno: embora não se use o acento grave, indicador da crase, antes de palavra masculina, o uso de àquele (contração da preposição A com o pronome demonstrativo aquele) — “Diga àquele rapaz que não faça tanto barulho” — seria exceção à regra geral? Não o sendo, qual a explicação? Grata.

Silvia

Minha cara Sílvia: não há nada de especial quanto ao acento de àquele; acontece que foste mais uma vítima do mau ensino de Português. NÃO EXISTEM CASOS NEGATIVOS DE CRASE. Isto é, não existem regras sobre o não-uso do acento grave. A crase ocorre quando dois As se encontram, e pronto. Em 90% das vezes, trata-se do encontro [preposição A + artigo A]. Ora, como este precioso artiguinho feminino só pode aparecer antes de substantivos femininos, é uma conseqüência lógica (não uma proibição!) que isso não ocorra antes de substantivos masculinos.

No entanto, nos outros 10%, a crase ocorre quando a preposição A (esta não pode faltar nunca a este baile) se encontra com o A inicial dos pronomes demonstrativos AQUELE (e suas flexões AQUELA, AQUELES, AQUELAS) e AQUILO. “Não me refiro a este aluno, mas sim àquele“; “Quanto àquilo, posso assegurar-te …” — e assim por diante. Nada de mais.

Ocorre que há dezenas de péssimos manuais, usados por professores de formação apressada, que tratam a crase como se fosse um sistema de regras determinadas por alguém — como se fosse uma lei, com artigos e parágrafos e incisos e casos especiais. Por causa disso, muitos se revoltam contra a crase, julgando-a uma imposição arbitrária; não poucos leitores já me escreveram perguntando quando é que vão “revogá-la“! Para piorar o quadro, esses manuais vivem chamando a atenção de seus desafortunados leitores (ou alunos) para os casos em que “a crase é proibida” [sic]! Não estranho, portanto, que fiques cismada com o acento de àquele. O próprio Millôr — para mim, um dos escritores brasileiros mais conscientes da linguagem que utiliza — andou escrevendo a respeito, apontando àquele como um exemplo da fragilidade das regras de crase. Mestre Millôr errou de alvo: este é, na verdade, um excelente exemplo de uma regra mal formulada por esses gramatiquinhos que disseminam por aí sua deficiente compreensão dos fenômenos da língua. Agora tenho certeza de que vais ficar em paz com o acento de àquele. Abraço. Prof. Moreno

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crase precisa de artigo!

Da mesma forma que a ocorrência da crase é muito mais limitada do que parece, as dúvidas sobre ela também giram sobre os mesmos pontos de sempre. Quatro leitores apresentam suas dúvidas sobre o emprego do acento de crase; à primeira vista, podem parecer quatro perguntas diferentes, mas veremos que todas tratam da presença do artigo feminino.

(1) Oi, Prof. Moreno: qual é a forma correta? “A revista foi feita À muitas mãos” ou “A revista foi feita A muitas mãos” (sem crase)? Ou seja, utilizo crase antes de muitas ou não? Desde já, fico muito agradecida. Geda L.

Prezada Geda: é evidente que nesta frase não está presente um dos ingredientes indispensáveis para a crase, que é o artigo feminino. Se ele estivesse na frase, terias um AS antes de muitas. O A que temos aí é simplesmente uma preposição e, ipso facto, NÃO pode receber acento de crase. Abraço. Prof. Moreno

(2) Caro prof. Moreno, tenho uma dúvida que pode parecer banal, mas não consigo sanar: em “embalagem A vácuo” e “empacotado A vácuo”, ponho ou não ponho acento de crase? Não se trata de uma maneira de embalar ou empacotar? Muito obrigada. Telma F.

Minha cara Telma: para que haja acento de crase, é necessário que a preposição A se encontre com o artigo feminino A: “entregue isso A (preposição) + A (artigo) diretora” = À diretora. Logo, é impossível encontrar esse segundo A (o artigo feminino) antes de um vocábulo masculino como vácuo. É por isso, Telma, que se diz que não ocorre acento de crase antes de masculinos: é pela absoluta falta do segundo elemento necessário, o artigo. Embalagem a vácuo, motor a diesel, navio a vapor, preencha a lápis — todos sem acento, porque todos são masculinos. Abraço. Prof. Moreno

(3) Prezado Moreno, em “atendimento especial A clientes”, o A leva acento de crase? Por favor, responda esta, porque a briga aqui interna é grande. Grato. Klein  

Meu caro Klein: para que haja acento de crase, é necessário que a preposição A se encontre com o artigo feminino A. Supondo que vocês só tivessem mulheres como clientes (um Centro de Ginecologia, por exemplo — o que não me parece ser o caso de vocês…—, o anúncio poderia prometer “Atendimento ÀS clientes”. Nota que a presença do S final revela claramente que o artigo feminino está ali, junto com a preposição. No caso de “Atendimento A clientes”, no entanto, esse A é indiscutivelmente uma preposição isolada; NÃO há hipótese, portanto, de receber o acento de crase. Abraço. Prof. Moreno

(4) Caro professor Cláudio Moreno, uma dúvida gerou muita confusão entre meus colegas de trabalho: “Folheado À ouro” ou “Folheado A ouro”? Alguns argumentaram que, devido a palavra “ouro” ser masculina, a crase não se aplica; outros argumentaram que ela se aplica, pois a palavra feminina está implícita. Você pode pode nos ajudar com essa dúvida? Muito obrigado. Toni L.

Prezado Toni: aqui não há como tentar enxergar uma palavra feminina elíptica (subentendida) antes de ouro. Portanto, não há artigo feminino e, conseqüentemente, não pode haver acento de crase. E mais: mesmo que fosse “folheado a prata“, também não haveria o acento, porque aqui, em ambos os casos (ouro ou prata), não está sendo empregado o artigo definido; o A é apenas a preposição. Abraço. Prof. Moreno

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crase e subentendimento

Caríssimo professor: em expressões do tipo a setenta graus, em que se subentende a palavra temperatura, usa-se ou não o acento de crase? Obrigada pela luz!!!” 

Olga Martins

Minha cara Olga: tua pergunta revela que conheces o princípio fundamental da crase — ela só pode ocorrer antes de uma palavra feminina, esteja ela expressa ou subentendida. Contudo, neste caso não há subentendimento algum; deves escrever “A setenta graus”, sem acento de crase, porque aqui o A é uma simples preposição. Vou mostrar uma construção com vocábulo elíptico (o que chamas de subentendido), para veres a diferença: “A massa fica pastosa à temperatura de cinqüenta graus, mas se liquefaz quando chega À DE setenta graus”. Se mostrares essa construção para qualquer pessoa, ela vai recuperar a palavra “temperatura” entre o A e o DE. Como esse vocábulo subentendido traz consigo o artigo feminino, temos aqui uma crase. Se mostrares, no entanto, a frase “A água ferve a cem graus”, o máximo que se poderia subentender (com boa vontade…) seria “a cem graus de temperatura” — no final do sintagma, longe portanto daquela preposição A. Espero que esta “luz” possa te esclarecer. Abraço. Prof. Moreno

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crase com pronome de tratamento

Caro professor: em “vimos solicitar A Vossa Excelência”, o A não leva mesmo acento de crase? E se eu raciocinar que a frase é “vimos solicitar a (a) Vossa Excelência” — não existe aí uma duplicidade de As? A propósito, em uma dedicatória o correto é escrever “À minha amiga Maricota”  ou “A minha amiga Maricota”? 

Afonso —  Campo Grande (MS).

Meu caro Afonso: jamais vais encontrar um acento de crase antes de Vossa Excelência (e demais formas de tratamento) pela simples razão de que não existe artigo antes dessas formas! “O discurso DE  Vossa Excelência” (e não DA), “Confio EM Vossa Excelência” ( e não NA). Ora, sabes muito bem que a crase ocorre quando a preposição encontra o artigo; logo … 

Quanto ao uso de artigo antes de pronomes possessivos, essa é uma daquelas situações em que o falante tem total liberdade de escolher. Eu digo “o carro de (ou do) meu filho”, “eu estava pensando em (ou na) minha filha”. Dessa forma, no caso que mencionaste, podes usar o artigo (com o conseqüente acento de crase: À minha amiga) ou não (nesse caso, o A vai ser uma preposição pura: A minha amiga). A crase não é bicho bravio, não; com jeito, ela se amansa. Abraço. Prof. Moreno

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crase com possessivos

Prezado Professor: ao responder a uma pergunta de um leitor, escreveste: “Cheguei À tua consulta de dezembro do ano passado…”. Existe essa crase antes de pronome possessivo? Klein

Meu caro Klein: eu podia ser chato no bodoque e responder, simplesmente: “Se eu usei, é porque tem, ora!”. Mas, como sou um eterno professor, lembro-te que não se trata de “existir crase” antes dos possessivos. A crase é a aproximação da preposição A com o artigo feminino A — mais ou menos como aproximar um fósforo da gasolina. Se eles entrarem em contato, nada vai impedir a combustão; da mesma forma, se os As se encontrarem, vai acontecer o fenômeno chamado de crase.

Lê o que escrevi em à Maria, a Maria: verás que antes dos nomes próprios podemos usar (ou não) artigo; dessa forma, nossa decisão vai influir na ocorrência (ou não) do artigo necessário para que a crase ocorra. Algo semelhante acontece antes dos pronomes possessivos: nosso idioma nos permite optar entre usar —  ou não — o artigo antes deles. Uns dizem “a janela DE meu quarto”; outros, “DO meu quarto”. “Leve isso A meu filho” ou “AO meu filho”. No feminino, portanto, “entregue isso A minha filha” (só preposição) ou “entregue isso À minha filha”  — preposição + artigo = bingo! Aqui ocorre uma crase, que deverá ser acentuada. Tudo depende da tua decisão de usar ou não o artigo.

Alguns autores dizem que aqui a crase seria opcional; seria o mesmo que dizer que, juntando o fósforo à gasolina, a explosão vai ser opcional. Claro que não é; o que depende de nossa opção é aproximarmos ou não o maldito fósforo. Uma vez tomada a decisão, as conseqüências fogem a nosso controle. A maior prova disso aparece quando usamos possessivos no plural; aí a trama fica bem visível. “Entregue isso A minhas filhas” (o A é preposição pura, sem acento) ou “entregue isso ÀS minhas filhas” (o S revela que o artigo está presente, e a acentuação é obrigatória). Abraço. Prof. Moreno

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crase antes de Terra

Professor, gostaria de dizer, primeiramente, que o admiro muito. Sempre leio seus textos e comentários em torno das questões da linguagem. Em relação à minha dúvida, gostaria que esclarecesse o emprego da crase diante da palavra terra, sobretudo nesta oração: “Os marcianos voltaram a Terra“. Afinal, usaremos o acento diante do substantivo próprio Terra, referindo-nos ao planeta em que  vivemos?

Petrúcio Jr.

Meu caro Júnior: acho que conheço a origem remota dessa tua dúvida. No (mau) ensino tradicional da crase, relacionavam-se os casos em que “a crase era proibida” [sic!] — e entre eles figurava a palavra terra, quando usada por oposição a bordo: “Os marinheiros foram a terra“. Ora, professor de Português que se preze já abandonou, há muito tempo, essa forma jurássica e equivocada de explicar o A acentuado. Como este acento só poderá ocorrer quando houver a crase (fusão) da preposição com o artigo, não é necessário ficar enumerando as dezenas de casos em que tal encontro não acontece, como se fossem regras específicas. Um professor que ensina a seus alunos que “não existe crase antes de verbo” está transmitindo a seus infelizes alunos a idéia errônea e nefasta de que possa existir uma lista de palavras favoráveis e outra de palavras desfavoráveis à crase. O que ele deve fazer é, a partir do princípio geral (não há crase sem o artigo feminino), mostrar ao aluno que ele sequer deveria se preocupar em acentuar um A que esteja antes de um verbo, ou antes de um pronome indefinido, ou antes de uma palavra masculina, etc. — casos esses em que é impensável a presença do artigo.

Isso nos traz de volta à tua pergunta: podemos acentuar o A antes de terra? A resposta é simples: desde que a preposição encontre um artigo feminino antes desta palavra. No exemplo acima, dos marinheiros, o vocábulo é usado com um sentido indefinido, que não admite o artigo (“O navio está em terra”, “O grito veio de terra”). Observa, no entanto, a sequência: a espaçonave deixou a Terra, a espaçonave saiu da Terra, a espaçonave caiu na Terra, a espaçonave voltou à Terra. Como podes ver, sempre usamos o artigo definido com o nome de nosso planeta. Isso  também ocorre quando empregamos terra para indicar o lugar que se opõe ao céu, no sentido místico ou mitológico: “Zeus saiu da vastidão azul do céu e voltou mais uma vez à terra“; “Cristo veio à terra para salvar os homens”. Abraço. Prof. Moreno