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Através dos dicionários Destaque Lições de gramática - Respostas rápidas

As manhas do dicionário

Apesar de parecer sólido e oracular, o dicionário vai desapontar quem não apertar os botões corretos. Mesmo sendo cavalo mansinho, ele também tem o lado certo de montar.

Entre muitas outras coisas, a vida de professor nos ensina que nenhuma pergunta é óbvia para quem a faz. Aliás, essa é a nossa principal tarefa: a partir da dúvida do aluno, descobrir qual o fiozinho que está desligado, isto é, qual é a informação que está faltando para que ele volte, pelas próprias pernas, para o caminho certo. Até mesmo o dicionário, que era inocentemente chamado de amansa-burro (expressão que hoje pode desagradar tanto às pedagogas quanto às defensoras dos animais) — até mesmo o dicionário, repito, que parece tão sólido e oracular, vai desapontar o usuário que não souber apertar os botões corretos. Abaixo vão alguns exemplos.

A leitora Cássia A. escreve: “Sei que a palavra noz possui os diminutivos irregulares núcula e nucela; gostaria de saber se ela possui também o diminutivo regular nozinha, que não está no dicionário” — Não está porque não precisa, Cássia. Qualquer substantivo ou adjetivo pode formar, se quisermos, um diminutivo em -inho ou em -zinho. Se voz tem vozinha, luz tem luzinha, noz pode ter nozinha (aliás, usamos muito, aqui em casa, no Natal). Por medida de economia, os dicionários registram só os diminutivos e os aumentativos irregulares: chorinho, de choro, é indispensável por causa da música; folhinha, de folha, por causa do calendário; macacão, por causa do traje — e assim por diante.

A mesma explicação, aliás, serve para a leitora Belisa F., de Macapá, que informa não ter encontrado em lugar algum a explicação da palavra inextricavelmente: basta procurar inextricável. Por ser um processo automático do idioma — todo adjetivo pode, com o acréscimo de -mente, produzir um advérbio —, os dicionários aproveitam para registrar apenas aqueles que fogem ao significado original (literalmente, por exemplo, que pode ser tanto “expressamente” quanto “totalmente”, como em “Isso foi dito literalmente” e “Estava literalmente arrasado”).  E aqui vai um caveat para ambas, Cássia e Elisa: esta é a maior, se não única,  desvantagem do dicionário eletrônico (tanto no computador quanto no celular): na edição em papel, ao procurar inextricavelmente, o usuário vai deparar com inextricável, e aí mais de meio caminho já estará andado. Na edição eletrônica, porém, vai receber apenas a chocha mensagem de “verbete inexistente”.

João Carlos C., de São Paulo, tem dúvida sobre a pronúncia do “X” no nome do filósofo grego Anaxágoras, enquanto Carlos R. Júnior, de Porto Alegre, precisa saber se a grafia correta é Groenlândia ou Groelândia. O problema é o mesmo, e mesma é a solução: nossos dicionários, ao contrário dos dicionários ingleses, não incluem nomes próprios, mas sempre podemos encontrar algum substantivo ou adjetivo derivados que nos deem a informação procurada. O dicionário Houaiss, nos verbetes anaxagoriano e anaxagórico, recomenda pronúncia /cs/, e define groenlandês como “aquele que é natural ou habitante da Groenlândia“. Está respondido.

Javier S., de Montevidéu, quer saber por que os dicionários não indicam se incesto e dolo têm a pronúncia aberta ou fechada. Caro Javier: eles indicam, sim. Nossos dicionários seguem sempre a mesma  convenção: quando deixam de indicar o timbre da vogal, é porque a consideram aberta. Em porto, cedo e lagosta, há a indicação, entre parênteses, de que a vogal é fechada — mas nada consta em verbetes como porta, credo e, da mesma forma, incesto e dolo

Finalmente, Misael P., de Recife, escreve para dizer que não encontra o significado de boxo e boxa que aparecem num poema de Drummond: “Hoje sou moço moderno,/ remo, pulo, danço, boxo,/tenho dinheiro no banco./Você é uma loura notável,/boxa, dança, pula, rema”. Ora, prezado Misael, o velho Drummond está usando o verbo boxar (variante de boxear) — e os lexicógrafos jamais registram os verbos conjugados (a cinquenta e poucas flexões por verbo, isso implicaria acrescentar mais de um milhão de formas ao corpo do dicionário). Aqui um dicionário eletrônico ganha mil pontos sobre seus colegas impressos: ao consultarmos o verbete de um verbo, podemos abrir, a um simples clique, uma janela contendo sua conjugação completinha.

 

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Rubrica

Muita gente prefere RÚBRICA à forma RUBRICA, mais aconselhável. Como vamos ver, há uma razão para isso. 

Escrevo esta coluna em Delfos, diante de uma janela que se abre para as impressionantes escarpas que abrigam o oráculo mais famoso do Mundo Antigo. Acabamos de deixar o Peloponeso, por onde viajamos cinco dias visitando aquelas cidades que vão figurar para sempre entre os lugares imortais de nossa imaginação ― Micenas, Corinto, Epidauro, Esparta e Olímpia. Nossa guia, a preciosa Konstantina, uma jovem grega que tem nome de rainha, modos de princesa e um Português que daria inveja a muita gente que conheço, faz um simpático esforço para entender os nomes gregos que pronunciamos à brasileira, tirando a sílaba tônica do lugar a que ela está habituada. Corinto, Epidauro e Olímpia são, para ela, /côrinto/, /epídauros/ e /olimpía/. Dizemos Aristóteles, Cleópatra e Tucídides; ela diz /aristotéles/, /cleopátra/ e /tucidídes/. Não há nada a estranhar: a prosódia do Português ― a colocação da sílaba tônica do vocábulo ― raramente vai coincidir com a prosódia do Grego, mas isso não vai atrapalhar nosso périplo pela Grécia: afinal, como dizia Fred Astaire na música dos irmãos Gershwin, para quem quer viver em harmonia não faz a menor diferença chamar a batata de /poteito/ ou de /potato/, e o tomate de /tomeito/ ou de /tomato/ (ouça aqui).

Ora, já que veio à baila o assunto da prosódia, selecionei, entre as perguntas que estão na lista de espera, uma que trata exatamente sobre este tema ― pergunta, aliás, muito original, como verão em seguida meus leitores. Sem dar o nome, alguém que usa o e-mail “professora.capixaba” escreve: “Até as pedras de Ouro Preto sabem que a palavra rubrica é paroxítona; ela não tem acento, rima com fabrica, do verbo fabricar, e pronunciá-la como /rúbrica/ é um erro clássico de prosódia. Até aqui estamos de acordo, e não canso de mostrar a meus alunos a pronúncia recomendada. O que eu gostaria de saber é por que quase todas as pessoas que conheço são naturalmente atraídas para esta malfadada /rúbrica/? Ela parece que tem um mel que a forma correta, rubrica, decididamente não tem. Isso se explica, professor, ou é modinha assim de gente de pouca instrução?”.

Cara professora, um fato linguístico de tal amplitude não pode ser casual. Se passamos a vida inteira a lembrar nossos alunos de que devemos dizer rubrica é porque deve estar agindo aí uma força que os arrasta no sentido contrário. Simples modinhas não atravessam várias gerações, como é o presente caso. A meu ver, neste verdadeiro cabo-de-guerra entre as duas formas atuam dois fatores que favorecem a opção por /rúbrica/. Primeiro, o grande prestígio que as proparoxítonas têm junto a alma popular, que costuma associá-las, não sem razão, à erudição e à tecnologia; é exatamente por isso que tantas vezes ouvimos, da boca de pessoas que querem falar bonito, estrovengas como /pégada/, /púdico/ ou /filântropo/.

O segundo fator, porém, é mil vezes mais forte que o primeiro. Nossa língua tem alguns processos derivacionais tão corriqueiros que conseguem atuar sobre o falante sem que ele perceba. No caso de rubrica, trata-se da oposição de dois termos ― de um lado, um verbo na 3ª pessoa do singular; do outro, um nome (substantivo ou adjetivo) ―, ambos criados a partir da mesma base, mas com sílabas tônicas diferentes. Alguém musica um poema, mas toca uma música; fabrica automóveis, mas trabalha numa fábrica; autentica um documento, mas tem uma atitude autêntica ― em suma, formam-se pares em que o verbo é paroxítono e o nome é proparoxítono: medica e médica; clinica e clínica; critica e crítica; pacifica e pacífica; pratica e prática; etc. Ora, segundo este modelo, é gigantesca a pressão estrutural para que o par de rubrica (o verbo) venha a ser o substantivo /rúbrica/. Eu não gosto, e muitos outros não gostarão, mas quando isso acontecer ― e assim prediz o oráculo da língua ―, o sistema terá dado mais um passo na sua inexorável regularização.

 

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Car@s amig@s

Apesar de toda a sua genialidade, o velho e bom Machado de Assis não previu, entre as várias espécies de loucura que Simão Bacamarte catalogou, a sanha que leva alguns indivíduos a propor reformas na sua língua materna — exatamente aquela que, como diria Cervantes, ele bebeu junto com o leite da mãe. Alguns, talvez entrevendo o tamanho sacrilégio que vão cometer, limitam-se a propor sistemas ortográficos próprios, delirantes, feitos em casa, que ganham os seus quinze minutos de fama na imprensa e terminam melancolicamente na barraca de aberrações do circo gramatical (não é por acaso que a totalidade dessas propostas absurdas — todas elas autoproclamadas “salvadoras” ou “simplificadoras” — venha da pena de autodidatas, que não tiveram em suas vidas um mestre que os ensinasse a evitar tanto desperdício de inteligência e criatividade).

Pois o último grito nesta nau dos insensatos é uma proposta que vai ainda mais fundo que a simples troca de letras: como o leitor pode ver no título desta coluna, trata-se da recomendação de “corrigir” também o sistema morfológico do Português, a fim de “limitar ou eliminar a hegemonia masculina” e “tornar o Português mais próximo do igualitário”, como apregoa, de boca cheia, um de seus arautos. Ora, como se aprende nos primeiros meses de qualquer curso de Letras que mereça esse nome, a tal “hegemonia masculina” não existe; usamos o gênero masculino para designar grupos mistos (o brasileiro é feliz — eles e elas) porque, como demonstrei na coluna anterior, ele é inclusivo, ao contrário do feminino, que exclui (a brasileira é feliz — apenas elas).

Infelizmente, explicar isso a esses malucos é tão inútil quanto pregar aos peixes, pois eles são surdos aos ditames da Ciência. Friso que um adepto dessa seita, horrorizado, jamais escreveria assim, mas optaria entre a arroba ou o “x” para substituir a terminação “o” ou “a” — “el@s são surd@s” ou “elxs são surdxs” — e o pior é que sairia com passo firme, orgulhoso, acreditando ter posto mais uma pedrinha na ereção (epa!) da pirâmide da igualdade dos gêneros. Para quem não se deu conta, esta proposta estapafúrdia (felizmente limitada a alguns ambientes universitários inexpressivos) é uma tentativa de melhorar aquela moda esquisita de sempre mencionar, lado a lado, os dois gêneros, que andou em voga há poucos anos, lembram? O que é uma cortesia perfeitamente aceitável em “senhoras e senhores” fica insuportável em “Quando os professores e as professoras entrarem no recinto, o coro dos alunos e das alunas vai saudá-los (las) com uma polca caprichada”. Melhor seria escrever “quando xs professorxs entrarem no recinto, o coro dxs alunxs vai saudá-lxs com uma polca caprichada”? Convenhamos que a nova alternativa é uma emenda muitíssimo pior que o soneto, e que nada se compara a “quando os professores entrarem no recinto, o coro dos alunos vai saudá-los com uma polca caprichada”.

Gostaria de encerrar com duas mensagens, já que o Ano Novo está logo ali: aos leitores, peço que não se preocupem com essa loucurada toda, que vai fazer ainda algum barulho mas logo se extinguirá como um foguete de estrelinhas; aos adeptos desta reforma radical, peço que não abandonem a luta pela igualdade de direitos para o homem e a mulher, que é nobre, mas que tomem juízo e procurem maneiras mais sensatas e eficientes de fazê-lo. Ah, e que aproveitem o feriado para ler (ou reler) A Reforma da Natureza, do Monteiro Lobato, onde vão certamente aprender algumas coisinhas.

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Antes do sol nascer

 

ANTES DO SOL NASCER - EDU

 

Como é possível que se defendam construções tão malsoantes como “Antes DE o sol nascer”, “Depois DE ele chegar”? Esta é uma regra artificial, inventada por defensores da análise lógica no início do séc. XX.

 

 Dona Lia, uma gaúcha gentil que mora em Florianópolis, escreve para tecer comentários elogiosos a esta coluna e aproveita a viagem para dizer que estranhou uma construção que empreguei um dia desses — “O fato DA maioria falar assim não justifica…”. Diz ela: “Aprendi que nesse caso e semelhantes, não se pode fazer a combinação da preposição de com o artigo a; eu escreveria o fato DE a maioria falar assim… Estou certa ou estou errada?”.

Olha, dona Lia, a regra a que a senhora se refere é uma regra pedagógica (não gramatical) de meados do séc. XIX, difundida por nomes importantes como Eduardo Carlos Pereira e repetida por muitos autores depois dele. Nosso idioma passava por um período em que pontificavam autoridades sem formação linguística científica, que imaginavam que a linguagem deveria ser um “sistema lógico”. Essa foi a mesma atitude equivocada que tentou, por exemplo, condenar a dupla negação como agramatical, desconhecendo que essa é uma maneira normal — em alguns casos, inclusive, obrigatória — de reforçar a negação (por exemplo, não podemos usar nada se não houver uma palavra negativa anterior: não ganhei nada).

Confundindo a análise lógica com a análise sintática e fonética, esses autores condenavam frases como “na hora DO papai chegar” alegando que papai, que é o sujeito do verbo, não poderia vir regido pela preposição de e que, por isso, deveríamos manter o artigo separado (“na hora DE o papai chegar”). Ora, autores da importância de Evanildo Bechara e Celso Pedro Luft apontam o equívoco dos gramáticos de antanho: isso nada tem a ver com subordinação sintática; a sequência de + o se transforma em do por um processo meramente fonético que recebe o nome de elisão. E tem mais: como já notou Sousa da Silveira, na fala essa elisão é obrigatória — o que é bom deixar bem claro. Que ninguém se ponha a pronunciar a preposição separada do pronome, porque tamanho disparate nunca se viu no vernáculo.

Na escrita, essa elisão foi praticada pelos melhores autores de nosso idioma: “São horas da baronesa dar o seu passeio pela chácara” (Machado). “Antes dele avistar o palácio de Porto Alvo” (Camilo). “Sabia-o antes do caso suceder” (Herculano). “Antes do sol nascer, já era nascido” (Padre Vieira). “Apesar das couves serem uma só das muitas espécies de legumes” (Rui Barbosa). Fica evidente que por séculos esta era uma construção correta, antes que alguém tentasse impor uma restrição quanto a ela, certamente levado por um raciocínio equivocado.

Infelizmente, a imprensa foi mordida pelo mosquito e passou a separar sistematicamente a preposição do artigo, dando a aparência de obrigatória a uma regra que Cegalla, na mosca, classifica de uma “inovação ao arrepio da tradição da língua”. O uso, porém, ficou tão generalizado que não se pode mais considerar errada esta construção, apesar do que ela tem de artificial e malsoante. Acerta, portanto, quem mantém a preposição separada, e acerta quem faz a elisão com o artigo ou o pronome. Como podem ver pelo título desta coluna, este é o meu caso — muito faceiro, aqui, de braço dado com o padre Vieira e com Machado de Assis.   

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Concordância Destaque Flexão nominal Lições de gramática Lições de gramática - Respostas rápidas

Um balaio de femininos

Assim como já fizemos com os plurais, aqui vai um balaio contendo vinte respostas rápidas sobre o feminino em nosso idioma.

 

elefanta, elefoa

Janaíne, de Belo Horizonte, quer saber se o feminino de elefante é elefanta ou elefoa. Diz que já assistiu a vários programas de televisão que consideram elefoa, mas nas gramáticas que consultou ela encontrou elefanta.

RESPOSTA — Minha cara Janaíne: nos textos clássicos não há registro algum de elefoa; alguns autores utilizam o feminino aliá, mas é um vocábulo oriundo do Ceilão e só se aplicaria ao elefante indiano. Tanto na linguagem culta quanto na usual a forma soberana é elefanta.

 

feminino de réu?

Fábio R. ouviu de uma colega que a mãe dela “poderia tornar-se ” num processo judicial, e quer saber se isso está correto — ou seria réu, ainda que se trate de uma mulher?

RESPOSTA — Meu caro Fábio: claro que existe o feminino! “Esta companhia é em doze processos trabalhistas”, “O juiz condenou a a dois anos de detenção”. Isso tu encontras em qualquer dicionário! Agora, em termos genéricos, falando nos dois pólos do processo, a mãe de tua amiga poderá figurar como réu: “Quem é o autor? A senhora Fulana de Tal. Quem é o réu? A senhora Beltrana dos Anzóis”.

 

anfitriã ou anfitrioa

O leitor Ubiratan diz que sempre tem ouvido anfitriã, mas que a forma anfitrioa lhe parece mais correta. E eu, o que penso?

RESPOSTA — Meu caro Ubiratan: tanto pode ser anfitrioa quanto anfitriã. Essa indefinição é uma das características dos nomes em –ão, que apresentam flexões variadas, ora em gênero, ora em número. Só para exemplificar, dei uma recorrida no Aurélio XXI e catei alguns vocábulos que admitem a variante em “-oa , além de -ã: anfitrioa, alemoa, ermitoa, faisoa, tabelioa, teceloa, viloa. Minha intuição lingüística me diz, entretanto, que as formas em são consideradas hoje mais cultas que as outras: anfitriã, alemã, ermitã, vilã.

 

tigresa

Flávio S. escreve sobre o feminino de tigre. Segundo ele, o Aurélio diz que é tigresa, porém seu professor discorda, afirmando que é “tigre fêmea“. Qual é o correto?

RESPOSTA — Meu caro Eduardo: tanto o Aurélio quanto o Houaiss registram tigresa como um feminino possível para tigre. Talvez essa forma tenha sido importada do Espanhol, onde ela é de uso comum, mas isso não importa. Tradicionalmente, aparece muito o “tigre fêmea”, mas o séc. XX viu também o incremento do uso do feminino sufixado. Escolhe o que te aprouver.

 

auto-elétrica

Adalberto, de São Paulo, diz que tem muita admiração pelo Sua Língua e aproveita para me dar os parabéns. Gostaria também de saber qual é o correto, se é auto-elétrico ou auto-elétrica.

RESPOSTA — Meu caro Adalberto: auto-elétrico é um adjetivo composto, do mesmo tipo que médico-cirúrgico. Como tal, ele vai concordar com o substantivo a que estiver ligado, flexionando sempre o segundo elemento do composto: tratamento médico-cirúrgico, clínica médico-cirúrgica, plantões médico-cirúrgicos. Da mesma forma, serviços auto-elétricos, oficinas auto-elétricas. Na rua, geralmente vemos auto-elétrica porque aqui se pressupõe claramente o vocábulo oficina (o mesmo substantivo feminino que está por trás da concordância de “retificadora de motores”, “vulcanizadora de pneus”, etc.

 

feminino de Reitor

Acir C., de Ponta Grossa (PR) pergunta: “Em nossa universidade surgiram algumas polêmicas e ninguém chegou a conclusão alguma. Nosso Reitor é um homem. A vice dele é uma mulher. Como ela deve ser chamada? Vice-Reitor ou Vice-Reitora? As mulheres são pró-reitores ou pró-reitoras?”

RESPOSTA — Prezado Acir, vejo que o machismo aí é pior do que em meu estado, o Rio Grande do Sul! Na UFRGS, tivemos, há pouco tempo, uma reitora; ela indicou vários pró-reitores e várias pró-reitoras. Com a inevitável ascensão da mulher, todos os cargos estão sendo flexionados no feminino: temos desembargadoras, senadoras, prefeitas, reitoras, juízas, promotoras (dá uma lida em Existe generala?). O que as mulheres daí dizem dessa polêmica?

 

gênero de omelete

Valquíria C., de São Bernardo do Campo, tem uma dúvida para qual ainda não encontrou resposta: deve dizer “vou fazer um omelete ou uma omelete”?

RESPOSTA — Minha cara Valquíria: embora o Houaiss omelete como sendo indiferentemente masculino ou feminino, prefiro seguir a lição do mestre Aurélio e considerar o vocábulo como feminino; não foi por acaso que a variante que se formou (e que ambos os dicionários registram) é omeleta. Portanto, fica com “vou fazer uma omelete” — e bom proveito.

 

gênero de “marmitex”

As professores Lena e Nilma F. perguntam se marmitex é palavra masculina ou feminina, formada por derivação de marmita.

RESPOSTA — Minhas caras: Marmitex, que eu saiba, não é palavra, mas uma marca comercial de papel aluminizado e afins (certamente derivada de marmita). Qual é o gênero? Não sei, porque a concordância, em casos como esse, é feita com relação ao objeto designado. Se for uma dessas “quentinhas” de alumínio, seria então “uma marmitex” — do mesmo modo que “uma gilete” (lâmina), “um modess” (absorvente), “uma havaiana” (sandália) — todas elas tradicionais marcas da indústria.

 

numeral no feminino

Alguém (ou algo) chamado Mweti, extremamente gentil, pergunta se o numeral 31.202, na frase “Durante o ataque, 31.202 mulheres foram feridas”, deveria ser lido “trinta e UMA mil, duzentas e duas mulheres”.

RESPOSTA — Prezado Mweti (?): tua intuição está correta; “trinta e uma mil mulheres” + “duzentas e duas mulheres” = “trinta e uma mil, duzentas e duas mulheres”.

 

feminino de beija-flor

Renata M. escreve da Virgínia, nos EUA, perguntando se a palavra beija-flor possui feminino, e por quê.

RESPOSTA — Minha cara Renata: não, beija-flor não tem feminino. As pessoas (e, conseqüentemente, o idioma) não distinguem os sexos das aves, exceto aquelas que, pela importância econômica (produção de ovos, por exemplo), precisam ser separadas em machos e fêmeas: pato, pata; galo, galinha; peru, perua; marreco, marreca. As demais — garça, pardal, ticotico, bem-te-vicurrupião, pintassilgo, águia, etc. — são tratadas como sendo de um só gênero. Às vezes hesitamos na hora de determinar o gênero de uma delas, mas isso é outra coisa: uns dizem um, outros uma sabiá, mas vão usar consistentemente a sua opção tanto para machos quanto para fêmeas.

 

plenário, plenária

O leitor Rosalino pergunta a diferença entre plenário e plenária.

RESPOSTA — Prezado Rosalino: Plenário é a sala onde se reúnem os parlamentares, os deputados, etc. (“Muitos servidores públicos lotavam o plenário da Assembléia“). Plenária é uma forma reduzida de referir-se a uma reunião: “Poucos professores participaram da [reunião] plenária de ontem à noite”.

 

búfala

Cleide A., de São Paulo, relata uma discussão com os amigos, numa pizzaria: “O correto é pedir pizza de mozarela de búfala, como está no cardápio, ou mozarela de búfalo? Logo alguém alegou que búfalo não tem feminino…”

RESPOSTA — Prezada Cleide: como não tem feminino? Claro que tem! É búfala, mesmo. Cuidado quando olhares no dicionário: quando ali diz “s.m.”, isso não significa que não tenha feminino. Basta procurar aluno, ou menino, e vais ver que o dicionário apenas diz qual é o gênero desta forma que encontraste — mas isso não se refere à  existência ou não da forma feminina. O Houaiss registra, com todas as letras, no verbete búfalo: “Fem.: búfala”.

 

muito dó

A leitora Tânia C., gaúcha, mantém uma discussão cordial com alguns amigos mineiros, que juram que a palavra (“pena”) é do gênero feminino, empregando expressões como “tenho uma de fulano” ou “me dá uma daquelas”. Qual é a forma correta?

RESPOSTA — Minha cara Tânia: , no sentido de “pena, piedade”, é um substantivo masculinotanto na opinião do Houaiss, como na do Aurélio, nossos dois dicionaristas mais abalizados. Aliás, a quase totalidade dos oxítonos em Ó são masculinos, como xodó, cipó, , etc., o que me faz estranhar muito essa tendência de certos estados do país (não é só Minas…) usarem como feminino. A única explicação seria uma confusão semântica com pena, a partir de analogias do tipo “estou com muita pena” = “estou com *muita dó“.

 

o gride de largada

Milton Sebastião pergunta sobre o gênero da palavra grid: é masculino ou feminino? Usamos O grid ou A grid?

RESPOSTA — Prezado Milton: embora alguns (poucos) usem o feminino, talvez por associarem a grade, a esmagadora maioria dos brasileiros (na informática, na cartografia, no automobilismo) usa o vocábulo como masculino (o grid, ou, como vai terminar ficando, o gride). É como substantivo masculino que o vocábulo vem registrado no dicionário Houaiss.

 

gênero de paradigma

Rita, de Belo Horizonte, que trabalha em um escritório de advocacia, escreve para dizer que o seu chefe, ao falar de um acusado, costuma dizer que ele é um paradigma; se for uma acusada, diz que ela é uma paradigma. “Afinal, paradigma é um substantivo de dois gêneros?”

RESPOSTA — Prezada Rita: se entendi bem, o problema é saber se paradigma se comporta como analista: um analista, uma analista. Ora, é claro que não; paradigma, como testemunha, é vocábulo de um gênero só: ele é uma testemunha, ela é uma testemunha; ele é um paradigma, ela é um paradigma.

 

formanda

Renato G., de Porto Alegre, reclama que o Aurélio, tanto quanto o Houaiss, indicam o verbete formando como substantivo masculino. Pergunta: “Devo falar nos convidados do formando ou da formanda Denise?”

RESPOSTA — Meu caro Renato: este é um cacoete de nossos dicionários. Eles registram os substantivos no masculino singular (o que é boa técnica), mas insistem em especificar, a seguir, “s.m.” — como se esse fosse o único gênero que o vocábulo admite. Examina aluno e cantor , por exemplo, e vais encontrar essa indicação defeituosa. Eles deveriam indicar que o vocábulo tem os dois gêneros, ou limitar-se a indicar “s.m.” e “s.f.” quando se tratasse de substantivo de um só gênero. É claro que existe formanda, assim como formandos e formandas.

 

gênero de mascote

A leitora Vera H. vem gentilmente perguntar se mascote é masculino ou feminino.

RESPOSTA — Minha cara Vera: mascote é um substantivo feminino; “aquele carneiro é a mascote do regimento”, “o papagaio era a mascote preferida dos indígenas”, e assim por diante. Assim vem no Houaiss e no Aurélio; acho que há, contudo, uma forte tendência a considerar este substantivo como um comum-de-dois, como estudante (O mascote, A mascote), dependendo do gênero do animal a que se refere. Em breve os dicionários vão ter de registrar essa dupla possibilidade.

 

masculinos terminados em A

Kleber S. escreve de Hannover, Alemanha, indagando sobre substantivos masculinos que terminam em A. Diz ele: “Conheço uma exceção clássica como planeta e sei que existem aqueles que se aplicam aos dois gêneros, como pateta. Existe algum outro substantivo masculino terminado em a ou feminino com final o?”.

RESPOSTA — Meu caro Kleber: existem vários substantivos masculinos terminados em A: planeta, cometa, mapa, tapa, tema, diadema, sofisma, diagrama, telefonema, aneurisma, etc. — muitos deles, não por acaso, considerados femininos até o século XVI (Camões usava escrever “A cometa”, “A planeta”). Agora, femininos em O são raríssimos; temos tribo, libido e reduções de vocábulos maiores, como foto e moto.

 

arquiteto, arquiteta

Escreve a leitora Gabriela A.: “Bondoso Professor, gostaria de esclarecer a seguinte dúvida: arquiteto é um substantivo exclusivamente masculino? Posso escrever que uma mulher é uma renomada arquiteta, ou essa palavra não é usada no feminino?

RESPOSTA — É evidente, dona Gabriela, que arquiteto é um substantivo masculino, mas arquiteta é a forma feminina correspondente! “Fulana é uma renomada arquiteta“, é claro. Esse é um erro técnico de nossos dicionários: registrar, ao lado dos substantivos de dois gêneros, a rubrica s.m., entre parênteses. Olha em qualquer dicionário e vais encontrar “aluno (s.m.), “lobo (s.m.)”, dando a falsíssima impressão de que eles só têm uma forma — quando, sabes muito bem, o Português tem aluna e loba desde o séc. 12. Só na França, por uma dessas coisas inexplicáveis, os substantivos ligados a profissões não admitem feminino — mas as francesas já estão fazendo um movimento bem aguerrido para terminar com essa discriminação.

 

a cal

Fábio M., de Juiz de Fora (MG), entregou um trabalho seu para ser revisado e ficou em dúvida quanto a uma correção feita pela professora de Português: “Escrevi que O cal era utilizado na indústria para neutralização química, e ela modificou para A cal. Gostaria de saber sua opinião”.

RESPOSTA — Ora, Fábio, a “minha opinião” é que a razão está com a professora que te corrigiu. Todos os dicionários dão cal como substantivo feminino (ao contrário de sal, por exemplo, que é masculino). É por isso que se fala em cal hidratada, cal viva, etc.


Depois do Acordo:

pólos>polos
lingüística> linguística
conseqüentemente>consequentemente
Assembléia>Assembleia

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o terceiro balaio de plurais

software/hardware

Estamos finalizando um folheto publicitário e deparamos com uma dúvida atroz: na frase “O Governo Federal adota vários softwares produzidos por esta empresa”, aquele plural está correto? Meu chefe disse que não existe o plural de software, assim como também não existe o de hardware. ciO cliente está correto?

Luciana G. São Paulo

 

RESPOSTA Prezada Luciana, o Inglês já tem o plural softwares; embora os puristas da Informática defendam a existência apenas do singular, este plural passou a ser empregado largamente a partir do momento em que o vocábulo passou a ser usado como sinônimo de “programa de computador” (como mostra muito bem o teu exemplo). Só para teres uma idéia, hoje (maio de 2010) hardwares cravou mais de dois milhões ocorrências no Google, enquanto softwares abre bem os olhos! bateu bem mais de cem milhões de ocorrências. O teu chefe disse que “não existe”? Ele não entende nada de linguagem. Ele poderia alegar, isso sim, que o uso técnico recomenda o singular — mas até isso, como podemos ver por estes números astronômicos, já está ficando discutível.

 

correios?

A EBCT usa, até no seu símbolo, o nome correios, mas o Aurélio não apresenta essa palavra. Aliás, define correio como sendo a repartição pública que recebe e expede correspondência. Perguntando à empresa, ela respondeu que o correto é mesmo correios. Afinal, qual é o certo?

Pedro B. – Natal

RESPOSTA – Ô, Pedro, o Aurélio registra o singular o que não significa que o vocábulo não possa ter plural! O nome da empresa, se notaste, usa o plural em correios e em telégrafos desde a proclamação da República, o que parece indicar que desde aquela época o conceito engloba vários tipos de correio talvez correio aéreo, correio terrestre, correio militar, assim como hoje falamos de correio-papel, de correio-eletrônico, etc. Se a empresa diz que é assim, assim é; o que o dicionário registra vale para a palavra, não para a pessoa jurídica. Da mesmas forma, temos as Lojas Americanas, as Casas Pernambucanas, e por aí vai a valsa.

 

histórico-geográfico

Eu gostaria de saber se está correto o plural de histórico-geográfico na frase “O geógrafo pediu vários levantamentos histórico-geográficos da região”.

Elianai C.

RESPOSTA – Prezado Elianai, qualquer adjetivo composto de dois outros adjetivos só pode flexionar no seu segundo elemento: clínicas médico-cirúrgicas, levantamentos histórico-geográficos, etc.

 

microempresa

Professor, aqui no trabalho estamos com uma dúvida cruel. Meu chefe insiste em colocar no site da empresa o termo micros empresas. Aprendi que não usamos prefixos no plural. E agora?

Keli O.

RESPOSTA Keli, o vocábulo é microempresa – tudo junto, sem hífen e sem espaço. Como é que vamos enfiar um S de plural ali no meio? Impossível. O plural é microempresas; agora, ninguém é obrigado a escrever as palavras da maneira correta, especialmente os chefes…

 

dias da semana

Gostaria de tirar uma grande dúvida com relação ao plural dos dias da semana. O correto é segundas-feira ou segundas-feiras?

Sônia A.

RESPOSTA – Prezada Sônia: todos os sábados, domingos, todas as segundas-feiras, terças-feiras — e assim por diante.

 

4ª-feira

Gostaria de saber se, quando escrevo “todas as 4ªs feiras”, devo passar tanto o numeral quanto feira para o plural.

Irma M. Lins (SP)

RESPOSTA – Cara Irma, tua dificuldade nasce do fato de usares essa bizarra combinação de abreviatura numérica com a flexão natural do vocábulo por extenso. Por que não quartas-feiras? Quando o ordinal for um dos elementos constitutivos de substantivo composto, não deve receber a abreviação de simples numeral. Vais escrever primeiro-ministro, mas nunca 1º-ministro; vais escrever “Tenho ensaio todas as quartas“, mas nunca “Ensaio todas as 4ªs“.

 

plural no adjunto adnominal

Caro professor Moreno, meu filho pediu-me que passasse a frase “Não havia água mais fresca e gelada que água de cacimba” para o plural. Respondi que devia ser “Não havia águas mais frescas e geladas que águas de cacimbas” — e o danado disse que errei, pois cacimba não deve ir para o plural. Ele está certo?

Sandro

RESPOSTA – Um dia, Sandro, isso começa a acontecer conosco e não pára mais: os filhos começam a saber mais do que a gente. Ele tem razão; muito, mas muito raramente se justifica a pluralização do adjunto adnominal ligado por preposição: casa de sapê, casas de sapê; floco de neve, flocos de neve; pastel de forno, pastéis de forno; água de cacimba, águas de cacimba.

 

ponte-rolante

Surgiu uma dúvida, aqui na empresa, sobre o plural de uma palavra composta, ponte-rolante. Eu flexionei como pontes-rolantes porque a regra diz que substantivo e adjetivo variam em gênero e número. Mas a maioria concordou que o plural seria pontes-rolante. Quem tem razão?

Cláudio R. S.

RESPOSTA É uma triste constatação, Cláudio, mas geralmente a maioria não tem razão. O raciocínio correto é o teu: compostos de substantivo+adjetivo flexionam em ambos os elementos: ponteslevadiças, onçaspintadas, pontesrolantes.

 

mercado-nicho

Professor, aprendi que, num composto de substantivo+substantivo, só o primeiro irá para o plural quando o segundo servir apenas para indicar a finalidade do primeiro: navio-escola, navios-escola. E quando eu escrevo, por exemplo, “o valor das ações nos mercados-nicho“, trata-se do mesmo caso? E precisa deste hífen?

Maristela M.

RESPOSTA – Prezada Maristela, mencionaste corretamente a regra que se aplica neste caso: quando o segundo elemento de um composto substantivo+substantivo indicar finalidade, só o primeiro vai flexionar. Além disso, embora se trate de um mostrengo vocabular, deves usar o hífen: palavra-chave, palavras-chave; mercado-nicho, mercados-nicho. É bom que saibas, no entanto, que não existe regra para isso. O uso do hífen com prefixos foi regulamentado, mas o resto como o presente caso ainda é uma Terra de Ninguém. Basta ver as grafias ponto e vírgula e ponto-e-vírgula, entre as quais se dividem até hoje os gramáticos e dicionaristas (gente que, como era de se esperar, deveriam ter mais certeza ao escrever).

 

gaze

Trabalho na área da saúde como intrumentadora cirúrgica em um hospital; um dia desses surgiu uma dúvida, e meus colegas me encarregaram de encontrar resposta… Qual é o plural de gaze? Alguns dizem que não existe, outros que seria gazes; outros simplesmente contornam o problema e dizem compressas de gaze e ninguém quer cometer um erro, já que os cirurgiões adoram corrigir as pessoas “inferiores”.

Luciana V. – Sorocaba

RESPOSTA – Minha cara Luciana, o plural de gaze (registrado, inclusive, no Houaiss) segue a norma de qualquer substantivo terminado em “E”: gazes. O que talvez os médicos estranhem é o uso do plural em um substantivo que é geralmente “de massa”, não-contável como algodão. Este também tem plural, mas raramente temos a oportunidade de empregar algodões (como arrozes, açúcares, méis, etc.), a não ser quando nos referimos a vários tipos da mesma substância (“Os algodões da Ásia são diferentes dos algodões do Brasil”). No teu trabalho, no entanto (principalmente se a gaze e o algodão presentes na sala de cirurgia obedecerem a dimensões padronizadas), acho perfeitamente adequado utilizar esses vocábulos de maneira individualizada: “Preciso de uma gaze“, “Um algodão só não vai ser suficiente”, “O doutor esqueceu duas gazes e três algodões dentro do paciente”.

 

viés

Professor Moreno: por gentileza, estimaria saber o plural de viés. Fica assim mesmo, ou recebe alguma terminação?

Alice Rosa

RESPOSTA Minha cara Alice, o plural é vieses como revés, reveses ou convés, conveses.

 

o quadrado dos catetos

Deixando de lado a matemática e pensando friamente nas concordâncias de nosso Português, qual a forma correta? Espero que Pitágoras não revire em seu túmulo, mas a hipotenusa é igual à raiz quadrada da soma do quadrado dos catetos ou da soma dos quadrados dos catetos.

Emerson O.

RESPOSTA Meu caro Emerson: nada impede que se use o plural, como se vê bastante nos livros de Matemática (“a soma dos quadrados dos catetos”). Parece-me, no entanto, que nossa língua prefere usar simplesmente o singular, quando se refere a vários possuidores do mesmo item. “O nariz dos indianos é afilado”, “A boca das espanholas é mais vermelha”, “Isso ficou para sempre no coração dos brasileiros“. Da mesma forma, “a área dos triângulos”, “o quadrado dos catetos”, “a base dos cilindros”. É uma questão que hoje ainda divide os falantes em dois grupos quase iguais, mas acho que pouco a pouco começa a prevalecer o singular.

 

terra natal

Oi, professor! Qual seria o plural correto da frase “No inverno a pessoa volta para sua terra natal”? Seria “as pessoas voltam para sua terra natal” ou “para suas terras natais”?

Camilla

RESPOSTA Ora, Camilla, a tua pergunta, na verdade, não é sobre o plural, mas sim sobre a necessidade de flexionar a expressão que se refere a muitas pessoas. “Os esquimós coçam o nariz“, “os torcedores do Flamengo saíram com a alma lavada notaste como usamos o singular? Portanto, “Os dois amigos vão voltar para sua terra natal mesmo que um volte para a Inglaterra e o outro para a França

 

baleia-franca

1) Tenho uma dúvida que não quer calar! O plural de baleia franca é baleias franca, certo?

Jaqueline – Imbituba (SC)

RESPOSTA O plural de baleia-franca (tem hífen!) é baleias-francas, Jaqueline; franca é, aqui, um adjetivo, e deve portanto flexionar normalmente.

2) Porém franca não é um adjetivo e sim o nome vulgar de uma espécie animal. Não quero dizer que as baleias são francas mas sim que tenho duas ou três baleias de determinado nome, entende?

Jaqueline – Imbituba (SC)

RESPOSTA Jaqueline, franca é um adjetivo, sim, assim como azul, bicuda e branca. Por isso, no plural, ambos os elementos flexionam: baleias-francas, baleias-azuis, baleias-bicudas e baleias-brancas assim dizem o dicionário do Houaiss e o do Aurélio. Diferente seria se o segundo elemento do composto fosse um substantivo: baleias-piloto, baleias-pamonha nesse caso, só o primeiro elemento flexionaria. Sinto muito, mas não tens razão.

 

câncer

Professor Moreno, o plural de câncer é cânceres ou câncers?

Mozara T. – Porto Alegre

RESPOSTA Prezada Mozara: não temos finais em “RS” em nosso idioma. Revólver, revólveres; mártir, mártires; câncer, cânceres.

 

box

Uma amiga me pede ajuda na difícil tarefa de pluralizar uma palavra estrangeira. Qual é o plural de box (local de estacionamento): boxes ou boxs? No google, eu encontrei ambas, portanto permaneço na dúvida. Desde já lhe agradeço.

Luís Augusto L.

RESPOSTA – Meu caro Luís: o ponto de partida já está equivocado. O espaço de estacionamento (assim como o “quartinho” onde fica o chuveiro) é boxe (com “E” no fim), plural boxes. Se a tua amiga insistir em escrever o vocábulo na sua grafia original (box, no Inglês), o plural estrangeiro ainda assim seria boxes. “*Boxs” não existe nem aqui, nem na Inglaterra.

 

meio-fio

Como é o plural de meio-fio (cordão da calçada)?

Isabel – Porto Alegre

RESPOSTA – Prezada Isabel: meio é um numeral fracionário e concorda em gênero e número com o substantivo que acompanha: meios-fios, como meias-entradas, meias-solas, meias-garrafas, é meio-dia e meia [hora].

 

café

Estamos diante de um impasse: os cultos dizem que o certo é cafezes. Já os leigos discordam e preferem cafés. E aí, quem ganha esta peleja? Eu fico no time dos leigos…

Amigo

RESPOSTA Desculpa, amigo, mas jamais ouvi alguém “culto” dizer cafezes. Isso não existe, que eu saiba. Todos os cultos e os incultos dizem cafés, que sempre foi o plural.

tricô

Professor, qual seria o plural de tricot? Sempre ouvi falar em tricots, com “S” no final, mas será que tricotes também nao estaria certo?

Alex M. – Rio de Janeiro

RESPOSTA – Meu caro Alex, a palavra é tricô, plural tricôs. Tricot é Francês, plural tricots.

extraclasse

Professor, discutimos muito na escola e temos várias dúvidas, entre elas qual seria o plural de extraclasse. Qual o uso correto? Extraclasses? Ou a palavra fica invariável?

Luciana S. – Gravataí (RS)

RESPOSTA Prezada Luciana: a meu ver, extraclasse fica invariável; os vocábulos com “extra” costumam flexionar porque quase sempre o elemento à direita é um adjetivo (extraconjugais, extracurriculares, extraoficiais, etc.) o que não é o caso, aqui, em que classe é um substantivo. Portanto, se o considerarmos análogo àqueles adjetivos compostos em que um dos elementos é um substantivo (casas verde-mar, raios ultravioleta, etc.), ele não vai flexionar.

 

blitz

Outro dia o jornal local estampou a manchete de que a polícia havia efetuado “várias blitze“. Eu conhecia só blitz. Se já temos “ZZ” (em pizza), “TCH”, “PS”, “PN”, que mal há em ter uma palavra terminada em “TZ”? Aquele “E” foi para aportuguesar? E por que faltou o “S” do plural?

Marcus F.

RESPOSTA Puxa, Marcus, que confusão eles fizeram! Que eu saiba, o vocábulo alemão blitz faz o plural blitzen. No entanto, o aportuguesamento (sempre benéfico) deste vocábulo dá blitze no singular, blitzes no plural. A manchete quis ficar em cima do muro e errou; que escrevessem, então, “várias blitzen” (o que 90% dos leitores estranhariam), ou “várias blitzes“.

 

quaisqueres?

Olá, prof. Moreno: ainda hoje estava jogando War com meus amigos e num dos cartões do jogo estava escrito: “Escolha dois territórios quaisquer“. Um de meus colegas disse que está errado e que o plural de qualquer é quaisqueres. Confesso que fiquei na dúvida apesar de nunca ter ouvido tal termo. Qual é o certo, afinal?

Felipe P. – São João da Boa Vista (SP)

RESPOSTA Meu caro Felipe, qualquer é um pronome que tem a estrutura (particularíssima) de um vocábulo composto. O singular é formado de qual+quer; quais+quer formam o plural, que é interno. Não existem *qualqueres ou *quaisqueres.

 

quaisquer

Ellen, leitora de Cuiabá, tem dúvida quanto à diferença entre qualquer e quaisquer. “Possuem o mesmo significado? Como devem ser empregadas?”

RESPOSTA Minha cara Ellen: quaisquer é o plural de qualquer. Compara “eu não tenho qualquer dúvida” com “eu não tenho quaisquer dúvidas“. Dois exemplos do Machado de Assis: “Quaisquer que fossem as cores…”; “o casamento, quaisquer que sejam as condições, é um antegosto do paraíso”.

 

os guarani?

José Ricardo B. Almeida, de São Paulo, diz ter lido num livro escolar uma frase que começava assim: “Os jesuítas entraram em contato com os Guarani“. Isto está certo?

RESPOSTA – Não, meu caro José ao menos em livros escolares. Isso aí foi uma moda inventada pelos antropólogos: há uma convenção de uso, entre eles, de sempre deixar o nome das tribos indígenas no singular: “os bororo“, “os guarani“. Isso não vale, no entanto, para a linguagem das pessoas normais (como, aliás, convenções específicas usadas entre matemáticos ou químicos também não valem). Vamos escrever “os guaranis“, “os tupis“, “os tupinambás“, “os timbiras“, como sempre escreveram os nossos melhores autores (basta ler Vieira, Alencar e Gonçalves Dias, por exemplo).

Depois do Acordo: pára > para (equivocadamente, aliás)

 

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coletivo de moto

Rafael Bunese, de São Paulo, pergunta: “O senhor poderia me dizer qual o coletivo de moto? É frota?”

Prezado Rafael: frota era originariamente aplicado apenas a embarcações. Contudo, seu sentido foi-se ampliando e hoje o Houaiss registra, como seu segundo emprego, “conjunto de quaisquer veículos, em geral pertencentes a uma mesma pessoa física ou jurídica”. É por isso que se usa – e bastante! – frota de tratores, frota de automóveis, frota de ambulâncias, frota de motocicletas, frota até de bicicletas.

Como o conceito de frota está ligado ao de “propriedade”, é evidente que o vocábulo não pode ser usado à toa para designar qualquer conjunto  de motos, paradas ou em movimento. “Na estrada, fomos ultrapassados por uma *frota de motos” ou “O estacionamento do clube estava ocupado por uma *frota de motos” são exemplos desse emprego inadequado. Como nosso idioma não se preocupa mais em formar novos coletivos, aqui só podemos recorrer aos genéricos (grupo, bando, monte, montão, etc.); jocosamente, porém, sempre se pode arriscar “uma motaiada”, “uma motança”, ou outras formações de brincadeira. Abraço. Prof. Moreno

 

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crase com horas e minutos

Olá, Prof. Moreno! Trabalho como redator numa agência de propaganda e gostaria de tirar uma dúvida sobre o uso da crase com horários. Sei por que se usa o acento grave, por exemplo, em: “Das 14h às 18h”, mas um colega me disse que quando o segundo horário leva minutos, não se coloca esse acento: “Das 14h as 18h30″.

A alegação dele é que a crase passa a se referir também aos minutos, que é substantivo masculino, junto com a hora. Então hora e minuto viram um elemento só, e o horário, nesse caso, termina no masculino. Eu não concordo; para mim, aqui também ocorre a crase, porque aquele “s” só pode ser por causa do plural do artigo, mas confesso que os argumentos do meu colega ainda me deixam confuso. Ele não lembra onde viu essa suposta regra. Você pode confirmar, por favor?
Gustavo — Sorocaba (SP)

Prezado Gustavo, não sei por que perdes tempo dando ouvidos aos palpites desse teu colega! Ele não lembra de onde veio a tal regra? Pois eu arrisco um palpite: ou veio do sonho ou do fundo de um copo! Percebo que sabes muito bem por que acentuamos, por exemplo, “das duas às quatro horas”. Pois bem: o que vier depois disso (minutos, segundos, etc.) não vai participar da relação sintática da preposição A com o artigo que acompanha o substantivo horas. Como tu mesmo bem disseste, a crase continua ocorrendo e é necessário manter o acento correspondente: “das duas às quatro horas e doze minutos”, “das duas às quatro horas, doze minutos e vinte segundos”. Como vês, tua argumentação inicial estava corretíssima. Tens de ter mais fé nos teus conhecimentos, Gustavo, e não sair correndo só porque alguém gritou, ao longe, “fogo na floresta”. Abraço. Prof. Moreno

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Concordância Destaquinho Lições de gramática Lições de gramática - Respostas rápidas

meias verdades

Danielle M. estava conversando com uma colega, professora de Português, quando usou a expressão meias verdades. Diz ela: “Minha colega me corrigiu, dizendo que o certo era meio verdades. Bom, achei aquilo tudo muito estranho, mas não iria discutir com uma professora… Será que o senhor poderia me dar uma mãozinha?”.

Danielle, não acredito que uma professora de Português tenha dito isso. Será que ela não estava falando numa estrutura tipo “isso é meio verdade” (ou seja, isso é mais ou menos verdadeiro)? No caso de meia verdade, meias verdades, o vocábulo meio é um numeral fracionário e obrigatoriamente concorda em gênero e numero com o substantivo que acompanha: meia entrada, meias entradas (“Quero uma inteira e duas meias”), meio sanduíche, dois meios tempos, e assim por diante. Abraço. Prof. Moreno