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Como se escreve Destaque Lições de gramática Semântica

A gente

Quanto mais violento for seu ataque aos erros alheios, maior a chance de você mesmo se esborrachar logo ali adiante.

“Se existe alguma chance de dar errado, vai dar” é uma versão coloquial da famosa Lei de Murphy, formulada em 1949 pelo engenheiro Edward Murphy (não, não existiu uma Lady Murphy, como alguns acreditam). Se Murphy mantivesse, como eu, uma coluna sobre questões da língua, poderia acrescentar outra regra a seu currículo, desta feita sobre os que escrevem para O Prazer das Palavras: “Quanto mais violento for o  ataque aos erros dos outros, maior a chance do próprio autor da denúncia se esborrachar logo ali adiante”.

Foi exatamente assim que os deuses castigaram Xavier de Tal, um intolerante leitor de Cascavel, no Paraná, que escreveu mais para comandar do que para perguntar: “Professor, leio e guardo religiosamente todas as suas colunas desde 2003. Sou seu fã, mas gostaria de saber até quando o senhor vai tolerar este “agente procura” e “agente decidiu” que o Jornal Nacional introduziu. Essa burrice cresceu como erva daninha e agora contaminou toda a TV.  Só espero que o senhor não vá ficar em cima do muro”.

Caro Xavier, sossega o teu pito, que isso não é novo, nem burrice. Construções como “a gente precisa conversar”, “a gente vai sair perdendo”, etc., são exemplos corretos do uso desse “pronome” indeterminador que nosso idioma desenvolveu a partir do séc. 19. O dicionário Houaiss registra, como um dos significados de gente, “a pessoa que fala em nome de si própria e de outro(s); nós, como em “a gente resolveu se mudar para o campo”.

É verdade que, na origem, a gente não se referia a nós, mas sim aos outros, às demais pessoas. Camões, um pouco depois do descobrimento do Brasil, ao descrever a fina indumentária com que Vasco da Gama se apresentou aos nativos, diz que era feita de tecido carmim, “cor que a gente tanto preza” (leia-se “eles”). Este emprego ainda aparece no próprio Eça de Queirós, em O Crime do Padre Amaro: a menina Amélia, ao saber que a tia e sua comitiva perambulavam pelo olival ainda enlameado pelas chuvas, exclama: “Vai-se a gente sujar toda” (leia-se “elas”).

No entanto, no séc. 19 a expressão passa a ser usada exclusivamente como substituta do nós. Vamos encontrar, sem dificuldade alguma, dezenas de exemplos nos nossos maiores escritores, dos quais Eça de Queirós e Machado de Assis são os mais brilhantes. Em Eça, por exemplo, vamos  ler “A gente aprende no seminário, minha senhora”, “A gente gosta do que é bom”, “A gente não pode confiar em ninguém”, entre dezenas de outros. Em Machado de Assis, “A gente não esquece nunca a terra em que nasceu”, “A gente ria das respostas dele”, “Sim, mas a gente não dança com ideias, dança com as pernas”.

A força com que a gente entrou no Português quotidiano parece revelar que temos necessidade de uma forma assim — um espécie de pronome impessoal, como o on do Francês, para substituir o nós, que é muito mais particularizado. É importante notar que, do ponto de vista flexional, a gente tem a vantagem de usar a 3ª pessoa do singular, a mais simples e menos marcada de todas: “a gente foi ao cinema, “a gente precisa de apoio“, etc.

Dois perigos, contudo, rondam aqui o falante incauto. O primeiro é esquecer que a gente equivale a nós do ponto de vista semântico, mas não do ponto de vista gramatical. Dito de outra forma: enquanto nós exige o verbo na primeira do plural, a gente exige o verbo na terceira: nós vamos, mas a gente vai — e jamais a gente *vamos. Na língua escrita culta, isso é erro bravio, de mato cerrado. Há mais de trinta anos a banda Ultraje a Rigor ridicularizou esse erro — aliás, numa bela batida funque — no seu antigo sucesso  A gente somos inútil!

O segundo, que te interessa mais de perto, é a tendência equivocada de deixar o artigo colado ao substantivo, como se fosse uma palavra só, isto é, escrever *agente junto, assim como o agente secreto, o agente policial — o mesmo *agente que aparece duas vezes na tua mensagem, erro teu, erro escrito que não podes atribuir à maneira como falam na TV.

 

 

 

 

 

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sonso

 

SONSO, assim como TEMPORÃO e HANDICAP, terminou virando uma palavra dupla-face, uma espécie de antônimo de si mesma — o que exige, para seu emprego, que se tomem cautelas muito especiais.

 

Nossa língua — século mais, século menos — tem lá seus novecentos anos de existência, ao longo dos quais não foram poucas as palavras que se afastaram do  sentido original. Queiramos ou não, elas sempre vão mudar, porque este é o seu destino: ao contrário da pedra ou da chuva, elas só existem em nosso pensamento e terão o valor, portanto, que os falantes de uma determinada época, por meio de outras palavras, atribuírem a elas. Algumas mudam tanto que acabam antônimas de si mesmas, verdadeiras palavras dupla-face; este processo linguístico muito chamou a atenção de Freud e é até hoje estudado pela Psicanálise, que o chama pelo nome técnico de enantiossemia — do Grego enantio, “contrário, inverso” e semia, “significado”.

Já comentamos aqui o caso — um belo exemplo para o que acima afirmamos — de temporão. Por muito tempo este termo, nascido da mesma família que o Espanhol temprano (“cedo”), serviu para designar aquilo que acontecia antes do tempo: uma morte temporã era uma morte prematura, assim como os frutos temporões eram aqueles que amadureciam antes da hora prevista. Pois um belo dia (que durou centenas de anos), a palavra sofreu um giro de 180º e passou a significar “tardio”, num sentido diametralmente oposto ao que tinha ao nascer. Para o falante atual, um filho temporão é aquele que vem quando os outros filhos já estão criados, e os frutos temporões amadurecem quando o tempo normal da colheita já terminou. O problema surge quando lemos autores de outras épocas ou de outros países onde também se fala o Português: quando um autor fala de uma “paixão temporã“, só o contexto nos dirá qual dos lados da moeda está valendo.

Depois veio handicap, vocábulo que fomos buscar na Inglaterra, onde significa “desvantagem” (para quem se surpreende, lembro que o Inglês formou daí o termo handicapped, que abrange, de forma genérica, os deficientes físicos). Ora, como é usado para designar, no golfe e no turfe, uma certa soma de pontos que o concorrente melhor precisa ceder ao outro para que a disputa fique parelha (portanto, uma desvantagem para o mais forte, mas uma vantagem para o mais fraco), o termo assumiu no Brasil o sentido inverso daquele que tinha ao nascer, tornando-se duvidosa sua interpretação: sem a oração que vem depois do ponto-e-vírgula, seria impossível ao leitor saber com certeza o que eu quero dizer com uma frase simples como “Seu maior handicap foi ter estudado Medicina em Cuba; agora, aguente as consequências” (a propósito: para quem ainda tem dúvidas sobre qual é o nosso melhor dicionário, recomendo cotejar o verbete handicap do Houaiss com o do Aurélio ou do Aulete; a superioridade do primeiro é constrangedora!).

Explico isso tudo porque uma jovem estudante de Campos, no Rio de Janeiro, inconformada com a correção de uma prova, escreveu para o Sua Língua em busca de socorro e de conforto: numa questão valendo um ponto inteiro, a professora pediu um sinônimo para a palavra sonso nesta frase da Clarice Lispector (A Hora da Estrela) — “Assim é que os senhores sabem mais do que imaginam e estão fingindo de sonsos“. Diz ela: “Eu coloquei tolo e ela marcou errado. Reclamei, mas ela abriu o dicionário e disse que o sentido certo de sonso é dissimulado — e encerrou o assunto.  Mas professor, minha avó até hoje ralha comigo e diz que não é para eu me fazer de sonsa — isso é boba, não é?”.

Em primeiro lugar, minha jovem, vejo que tua avó é tão sabida quanto era a minha, de quem tantas vezes ouvi o “não te faz de sonso” (com o tratamento típico do gaúcho e com o imperativo negativo exatamente como deveria ser, e não com o artificialíssimo “não te faças” que nos impingiram): um dos significados de sonso (o mais antigo, vindo do zonzo do Espanhol) é mesmo o de “tolo, tanso, simplório”. O outro sentido, dominante, é exatamente o oposto. Para Bluteau, é o “maliciosamente simples”; para Morais, é “o astuto e fino que cobre a sua esperteza com ar e mostras de simpleza e tolice” — e assim para todos os dicionários modernos, que destacam o caráter dissimulado da sonsice. Em segundo lugar, fica com a consciência tranquila, pois tua resposta estava certa. A professora fez muito bem em mostrar o dicionário — o aluno só tem a ganhar nesses contatos com o “amansa burro” —, mas não percebeu, como tu percebeste, que o verbo fingir aponta para o significado mais antigo de “tolo, abobado”, já que ninguém “finge ser dissimulado”. Cá para nós, o estilo impreciso de Clarice também contribui para o embrulho: “os senhores sabem mais do que imaginam mas estão fingindo de sonsos” não tem pé nem cabeça, qualquer que seja o sentido que se atribua aqui a sonso — mas nesse banhado eu não entro, que não sou bobo. Fique o abacaxi para a crítica literária.

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PORTUGUÊS PARA CONCURSOS — Comunico aos amigos do Sua Língua que iniciam, no dia 5 de março, novas turmas do meu curso de Português para concursos de nível superior, na Casa de Ideias, no Shopping Total, em Porto Alegre. Para mais informações, basta escrever para portugues@casadeideias.com

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Destaque Etimologia e curiosidades Origem das palavras Semântica

Ouvidos e orelhas


No mundo das palavras, certas distinções que o vocabulário científico faz questão de manter muitas vezes não valem um prego aqui embaixo, na planície em que vivemos — e vice-versa.


Uma leitora que presumo muito jovem  — o e-mail veio todo enfeitado de carinhas amarelas que piscam o olho freneticamente para mim — escreve para saber se “algo” que ela ouviu de “certa” pessoa “está valendo”. O estilo é peculiar, a precisão é incomparável: “Professor: ouvido e orelha. Uma pessoa muito sábia disse que uma dessas palavras havia sido extinta de nosso idioma; a pessoa, no caso, não lembrava exatamente qual das duas. Procurei muito no Google e não achei nada sobre o fato — se é que é fato — o senhor me entende?”.

Entendo, sim, e muito bem. “Uma pessoa muito sábia”? Posso imaginar! Deve ser realmente muito sabida uma criatura que faz tão absurda afirmativa — uma palavra que se extingue, vejam só! — e que, para remate da ópera, esquece de qual dos dois termos está falando. Palpiteiro e, ainda por cima, desmemoriado? Vade retro! Mas vejo que a tua intuição, prezada leitora, levantou uma peninha de desconfiança providencial, que te levou ao Google e, finalmente, a esta coluna. Para começar, não existem palavras extinguíveis; depois que elas nascem, nada as faz morrer, e o máximo que pode acontecer com elas é entrar em hibernação. Vamos continuar a usá-las — tanto orelha quanto ouvido — enquanto nosso idioma for falado em nosso planeta.

Outra coisa é o emprego desses vocábulos na linguagem técnica ou científica. O fenômeno ocorre em todas as áreas profissionais, que precisam definir — para os profissionais que fazem parte daquele ramo — o significado que deve ser atribuído a cada termo empregado. No mundo jurídico, por exemplo, roubo e furto são coisas distintas porque o primeiro pressupõe a presença da vítima, que é intimidada ou forçada a entregar o bem, enquanto o segundo é executado furtivamente pelo ladrão (apesar de lugar comum, confesso que ainda acho certa graça no eufemismo “amigo do alheio”), que vai praticar o seu crime sem que a vítima tome conhecimento. Para mim e para ti, para o mundo real, no entanto, essa distinção não vale um prego; se levaram meu carro — seja durante minha ausência, seja com ameaça ou violência contra mim, vou dizer para todo o mundo que meu carro foi roubado.

Os médicos, por sua vez, seguem, em suas comunicações, a Nomina Anatomica (é Latim, e por isso não leva acento; a pronúncia é /nômina anatômica), lista periodicamente revisada de todos os nomes relativos ao corpo humano — músculos, órgãos, tendões, ossos e tudo o mais que compõe nossa perecível carcaça. Atualmente esta publicação começa a ser substituída pela Terminologia Anatomica (também Latim, também sem acento; há os que se opõem a esta troca de nome, mas isso é assunto interno que cabe às academias médicas decidir), e ali — ao menos no Brasil — há uma tendência de substituir o termo ouvido por orelha, passando o antigo “ouvido interno”, por exemplo,  a ser chamado de “orelha interna”. Posso imaginar o espanto com que um leigo há de ouvir essa expressão… Como podes ver, a Medicina não extinguiu o termo ouvido, o que seria impossível, mas apenas passou a recomendar (repito: no Brasil, mas não em Portugal) que se adotasse preferencialmente orelha.

Não me interessa saber por que fizeram isso, pois devem ter lá razões técnicas suficientes, mas asseguro-te que essa alteração em nada vai influir em nossas vidas, prezada leitora. Eu e tu ainda continuaremos a distinguir uma “dor no ouvido” de uma “dor na orelha”; se alguém vier nos fazer uma confidência, vamos dizer “sou todo ouvidos” (e nunca “sou todo orelhas”); quem não se importar com o que os outros dizem continuará a fazer “ouvidos de mercador” (e não “orelhas de mercador”); se meu filho tiver dom para a música, vou afirmar que ele tem “um bom ouvido” (e não “uma boa orelha”) — e assim por diante.

Isso é exatamente o que acontece com os vocábulos ave e pássaro. Para mim, o condor é um grande pássaro que vive nas alturas geladas dos Andes, gigantesco como o pássaroroca das 1001 Noites; para os biólogos, contudo, o condor pode ser uma ave, mas não é pássaro coisa nenhuma — assim como também não o são o papagaio, a garça, o tucano, o beija-flor, a ema, o gavião e a rolinha. Para mim e para os leigos, pássaro é o que voa; se for pequeno, é passarinho. Na linguagem técnica do Português, todo pássaro é ave, mas nem toda a ave é pássaro diferente do Francês ou do Inglês, em que oiseau e bird, respectivamente, se aplicam a qualquer espécie de vertebrado plumado.

[Coluna O PRAZER DAS PALAVRAS – ZH de 27/8/2011]

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Como se escreve Destaque Etimologia e curiosidades Semântica

velas e velórios

 

Assim como o verbo SELAR é o ponto de encontro de duas famílias distintas — selo e sela —, VELAR também serve a dois senhores.

Imagine o leitor que dois pequenos rios, nascidos a dezenas de quilômetros um do outro, desçam para o mesmo vale e ali acabem misturando as águas para formar um

novo rio que as levará para o mar. Algo muito semelhante ocorre, com freqüência, no mundo das palavras, como você poderá ver no exemplo que descrevo a seguir: a partir do Latim sigillum, nosso idioma produziu sigilo e selo, dois vocábulos que antigamente designavam o sinete que tornava inviolável uma carta ou um documento. Com o tempo, sigilo assumiu o significado de “segredo”, enquanto selo passou a designar também a estampilha que corresponde ao porte que deve ser pago para enviar qualquer correspondência. Este é o primeiro rio.

Bem longe dali, a partir do Latim sella (“cadeira, assento”), formou-se o substantivo sela, nome genérico do assento de couro que usamos nos animais de montaria. A bicicleta, que é o cavalo urbano, recebe uma versão reduzida da sela, que se chama, não por acaso, de selim. Este é o segundo rio. Ora, selo e sela, embora sejam vocábulos de origem e significado diferentes, como vimos, acabaram produzindo um verbo derivado idêntico — selar —, misturando definitivamente suas águas. Um bom dicionário, aliás, para seguir a boa técnica, tem a obrigação de abrir dois verbetes diferentes, um para cada selar, pois se trata de dois vocábulos individuais que casualmente convergiram na mesma forma.

A situação que acabo de descrever vai servir de resposta à pergunta de um ilustre leitor desta coluna (tem nove anos apenas, mas vai completar dez em agosto, o que, ele imagina, vai colocá-lo em outra fase da vida…). Da última vez em que conversamos, em um desses churrascos de família, mostrou-se descontente com a expressão ameaça velada, que tinha encontrado num conto de Sherlock Holmes, que ele tanto aprecia. Para ele, velado deveria designar aquilo que está bem iluminado, bem claro, mas seu pai, de quem fora se socorrer, tinha definido o termo como algo “obscuro, escondido”, conforme o texto deixava entender. Ora, dizia ele, não costumamos velar os defuntos? Não ouvia ele o avô se referir seguidamente a lâmpadas de 40 velas, de 60 velas? Afinal, não gira tudo em torno da iluminação? Então, por que ele não podia entender ameaça velada como uma ameaça feita às claras, cara a cara, olho no olho?

Se você está lendo esta coluna desde o início, meu jovem amigo, já deverá ter percebido que a solução do problema já foi antecipada pela história dos dois rios que se unem num só. Neste caso, a única diferença é que estamos diante de três (e não duas) palavras diferentes, de famílias diferentes, oriundas de radicais diferentes, que vou descrever individualmente.

(1) Uma coisa é a vela, de cera ou parafina, que acendemos na igreja ou no bolo de aniversário. Desta palavra não se forma adjetivo derivado algum — isto é, não existe um velado ligado à vela de acender. Este é o mesmo substantivo que era usado como medida da luminosidade fornecida por uma fonte; é por isso que as pessoas mais velhas ainda falam em lâmpadas de 60 velas.

(2) Outra coisa é o velório, em que um defunto é velado — isso está ligado ao verbo velar (do Latim vigilare), que significa “vigiar, ficar acordado” e pode também significar “cuidar”: “Isabel entrou no jardim; a pobre menina tinha velado toda a noite” (Alencar); “…tinha velado uma parte da noite” (Machado); “Dei-te um anjo que, de dia e noite, velando e dormindo, te assistisse” (Vieira). O fato de nossa cultura ainda usar velas durante os velórios (há países em que elas são proibidas, por medo de incêndio) é a coincidência que aumentou a confusão entre dois termos, que nada têm a ver um com o outro. Nada impede que alguém seja velado sem haver vela alguma acesa…

(3) Temos, por fim, o adjetivo velado com o sentido de “obscuro, encoberto”, vindo do Latim velare, que significava “cobrir com um véu”. Estamos dentro da mesma família semântica quando dizemos que as mulheres muçulmanas costumam sair à rua com o rosto velado (tapado por um véu): “Os longos cílios velando os brandos olhos (Alencar); “os olhos com as mãos velando” (Machado), etc.

Como você pôde ver, caro leitor, o livro de Conan Doyle estava correto ao falar em ameaça velada — aqui, uma ameaça oculta, como que encoberta por um véu, não manifestada claramente. Aliás, é desse mesmo radical que vem o verbo revelar, que os dicionários definem primeiramente como “tirar o véu”.

Depois do Acordo: freqüência > frequência

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Literalmente

O advérbio LITERALMENTE foi atacado pelo mesmo vírus da imprecisão que tornou  TEMPORÃO e HANDICAP  palavras praticamente inúteis.

Em qualquer língua viva podemos encontrar centenas de exemplos de vocábulos que mudaram de significado com o passar do tempo, ampliando ou reduzindo o alcance que tinham na sua origem. Outrora as chaminés fumavam e os índios podiam fumar seu peixe; no entanto, depois que Colombo descobriu a América, fumar passou a designar especificamente o hábito daninho de aspirar a fumaça do tabaco (uma invenção do demo, sem dúvida, mas compensada amplamente pela introdução do chocolate no Ocidente, alimento que os astecas, com muita propriedade, consideravam divino). Para compensar essa restrição de sentido que o verbo sofreu, as chaminés começaram a fumegar e os índios passaram a defumar o pescado — e ninguém saiu perdendo.

Às vezes essa mudança é tão radical que a palavra passa a designar exatamente o contrário do que originalmente significava. Um exemplo já mencionado aqui é temporão, que mereceu uma coluna inteirinha (publicada no vol. 2 de O Prazer das Palavras, na coleção L&PM Pocket). A palavra deriva do Latim temporaneus, que significava “na hora certa”, ou “antes da hora”, falando das chuvas ou dos produtos agrícolas. Em nosso idioma, designava as espécies agrícolas que amadurecem mais cedo que o habitual. Na Bíblia, na tradução clássica de Joaquim Ferreira de Almeida, há um exemplo oportuníssimo: “Temamos, agora, ao Senhor, nosso Deus, que dá chuva, a temporã e a tardia, a seu tempo”. Não é por acaso que o Espanhol, nossa língua irmã, extraiu da matriz latina o advérbio temprano (“cedo”), muito conhecido dos gaúchos que vivem na fronteira com os países do Prata.

Ora, submetido à química misteriosa da evolução lingüística, temporão teve sua abrangência estendida para incluir qualquer evento fora do tempo, sem levar em conta a distinção, outrora importante, entre o antes e o depois. Em conseqüência, os contornos semânticos da palavra ficaram tão imprecisos que sua utilidade ficou seriamente comprometida, pois hoje ela abrange significados diametralmente opostos: uns chamam de temporão o filho prematuro, enquanto outros reservam o termo para designar o rebento que nasce quando o casal há muito deixou de pensar sobre o tema. Para mim, o termo ficou inútil, pois não é possível empregá-lo sem esclarecer, em seguida, qual é o sentido que eu dou a ele.

Esse mesmo fenômeno de erosão vem ocorrendo com literalmente. Fiel à sua origem latina (littera é “letra”), literalmente significa “ao pé da letra, no rigor da letra”. É um advérbio valioso para avisar meu interlocutor que vou empregar determinado vocábulo ou expressão no seu sentido estrito, não no sentido figurado. Numa frase como “A chegada da seleção literalmente parou o trânsito na cidade”, ele serve para indicar que “parou o trânsito” aqui não tem o sentido metafórico que habitualmente atribuímos à expressão (como em “uma morena de parar o trânsito”), mas que o trânsito realmente ficou interrompido. Quando Raul Pompéia diz, em O Ateneu, que os meninos foram arrastados ao gabinete do diretor Aristarco, “onde deviam ser literalmente seviciados”, está nos avisando que o castigo vai ser brutal, mesmo, e que não se trata, aqui, de uma hipérbole (a famosa figura de exagero, do tipo “estou morrendo de calor”, “fui devorado pelos mosquitos”, etc.). Quando usado junto com figurativamente, o contraste deixa ainda mais nítido o seu significado: “João Gilberto nunca se importou de ficar horas no seu canto (literal e figurativamente), repassando as mesmas notas no seu violão”; “Quem desempenha um cargo tão importante sempre terá quem lhe abra portas (literal ou figurativamente)”; “Eu não compro um iPad porque não cabe, literal e figurativamente, no meu bolso”.

Então, um belo dia, como na antiga parlenda, deu tangolomango neste advérbio e ele começou a inverter seu sinal, servindo de reforço, e não de advertência, para figuras de exagero! “Estou com tanta fome que seria capaz de comer um boi, literalmente“; “Ela estava literalmente morta de cansaço e preferiu ficar no hotel”. Aqui o vocábulo deixa de ser um sinal de que as palavras estão sendo usadas no sentido real e passa a indicar exatamente o contrário do que fazia: “Estou com tanta fome que seria capaz de comer um boi, figurativamente“. Se alguém me diz que sua cabeça está “literalmente explodindo”, é tamanho o exagero que fica fácil perceber com que intenção foi empregado o advérbio; no entanto, o mesmo não acontece se me dizem que “o estádio estava literalmente lotado”, pois não posso determinar se é para valer ou se é apenas uma forma de dizer. Lamento que isso esteja acontecendo, pois acho que a língua empobrece um pouco sempre que se apaga uma distinção como essa. Infelizmente não há nada que possamos fazer; o fruto já está envenenado e logo, logo ficará imprestável.

Depois do Acordo:

conseqüência > consequência
lingüística > linguística
Pompéia > Pompéia

[Coluna O PRAZER DAS PALAVRAS – Jornal Zero Hora – 12/03/2011]

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Pleonasmo? Tem certeza?

A caça ao pleonasmo parece ter-se tornado um dos esportes mais populares nas redações de jornal e nos consultórios gramaticais. O Doutor adverte: cuidado para não atirar no bicho errado!

 

Um amigo muito próximo vem pedir minha adesão à campanha que promove contra um erro que ele considera intolerável: o emprego do adjetivo municipal ao lado do substantivo prefeitura. “Como é que as pessoas não vêem que isso é supérfluo? Então, queriam alguma prefeitura que não fosse municipal?” — esbraveja ele, ao telefone. Não quero que meu amigo se exalte, pois sei que é hipertenso, mas também não posso deixar que passe vergonha diante dos outros, ao defender uma idéia tão ingênua. Com muito tato, lembro-lhe que um indivíduo isolado jamais vai saber mais do que a comunidade lingüística em que ele vive; a vetusta seqüência prefeitura municipal, portanto, não pode ser equívoco de tantos milhões de pessoas, em tantos séculos de língua portuguesa. Não estaria ele esquecendo, por exemplo, as prefeituras distritais? Ou as prefeituras do câmpus, que existem em quase todas as grandes universidades? “Mas eu vi no Manual, na lista dos pleonasmos!”, arrisca ele, já na defensiva, porque adivinha o que vou dizer. Ele está se referindo a um desses manuais de redação jornalística que infestaram o Brasil na última década, que mereciam figurar entre as dez pragas do Egito, ao lado da peste e dos gafanhotos.

Vou ao famigerado manual que meu amigo mencionou: entre os pleonasmos que devem ser evitados (segundo o raciocínio simplista de quem escreveu o capítulo), encontro agora já, criar novos, elo de ligação (“elo já significa ligação”, explica a sumidade), estrelas do céu, exultar de alegria, habitat natural, pequenos detalhes, permanece ainda, prefeitura municipal, regra geral, recordar o passado (“e alguém poderia recordar o futuro?”), sorriso nos lábios (“e o sorriso seria na testa?”), sua autobiografia, entre tantos outros exemplos igualmente discutíveis. A julgar por essa lista, devemos lamentar que Vieira, Eça, Machado, Camilo e outros gênios da língua não tenham tido acesso a esse manual, porque assim teriam evitado os tais “pleonasmos”:

“Não afirmo que entre as duas fases da existência de Luís Soares não houvesse algum elo de união” (Machado); “se alguma coisa a pode absolver foi a sua perseverança em criar novos estabelecimentos com novos e terríveis esforços” (Eça); “Quando estes, ligando o nome à pessoa, se mostravam contentes da apresentação, não há dúvida que Luís Dutra exultava de felicidade” (Machado); “Mas descendo a pequenos detalhes” (Mário de Sá-Carneiro); “Isto não é regra geral, mas é regra geral que Deus não quer roncadores, e que tem particular cuidado de abater e humilhar aos que muito roncam” (Vieira); “Ensaios inumeráveis como as estrelas do céu” (Eça); “Ela o surpreendeu com os olhos marejados de lágrimas e um sorriso nos lábios” (Camilo); “E tentas, louco, recordar o passado?” (G. Dias); “a matéria da cobiça permanece ainda depois da morte” (Vieira). E assim por diante.

E agora, em quem acreditar? É simples, meu amigo: num dos pratos da balança, ponha os maiores autores de nosso idioma; no outro, sozinho, o intrépido jornalista… Não quero, com isso, dizer que recomendo que se escreva hoje exatamente como nossos autores clássicos faziam, já que os usos da linguagem também estão sujeitos aos ares e às modas do tempo; na verdade, estou apenas lembrando a esses desmemoriados jornalistas de hoje que a língua é muito mais rica do que eles imaginam. Se o autor daquele “manual” tivesse tido a prudência de afirmar que julga desnecessárias tais redundâncias, ou antiquadas, ou inadequadas para os leitores do jornal em que ele trabalha, ainda vá lá nosso estilo nada mais é, afinal, do que a soma das escolhas individuais que fazemos. Agora, condenar definitivamente essas expressões, usando aquela argumentaçãozinha de caracacá, vamos e venhamos!

Na verdade, é difícil dizer quando estamos diante de um pleonasmo condenável (do Grego pleonasmos, “superabundância, excesso”). É comum o falante recorrer voluntariamente a ele quando percebe o enfraquecimento do significado originário do vocábulo, que passa a precisar desse reforço; é o caso, para mim, de ambos os dois, meandros sinuosos e bela caligrafia. No pleonasmo involuntário, dito vicioso, no entanto, há uma repetição tão óbvia de conceitos que não parece obedecer a uma intenção consciente: um plus a mais, democracia popular, recuar para trás, duna de areia, falso pretexto, aparência exterior, hemorragia de sangue, ataque cardíaco bem no coração (costumam ser fulminantes!). Friso, no entanto, que essa é a minha opinião, e deixo a meu leitor decidir onde começa um grupo e termina o outro; nunca vai ser pão, pão; queijo, queijo. O melhor é relaxar um pouco e aproveitar o conceito como um recurso expressivo: “Solteiro feliz é pleonasmo vicioso”; “Ela consultou desculpem o pleonasmo! uma falsa cartomante“; “Bons tempos em que propaganda enganosa não era pleonasmo!”. Por último, a pérola: “Morreu virgem e mártir? Mas isso é um pleonasmo!”.

Depois do Acordo:

  • vêem>veem
  • idéia>ideia
  • lingüística>linguística
  • seqüência>sequência
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fim ou final?

Um leitor chamado Michelângelo confessou que achava estranho dizermos “final de semana”, “final do jogo” e todos esses outros finais que andam por aí. No seu modo de ver, o correto seria empregar fim, que é um substantivo, e não final, que é um adjetivo. Seu argumento era simples: “Se final de semana é correto, também seria correto inicial de semana — o senhor não acha?”. Respondi que não, que não achava, pois, como consta em qualquer bom dicionário, final também pode ser substantivo, com o sentido de “última parte, conclusão, remate” — sendo, portanto, um sinônimo para fim, amplamente usado por todas as pessoas que falam e escrevem bem o Português — “cheguei ao final do livro”, “o filme teve um final feliz”, e assim por diante.

Na volta do correio, o leitor apresentou suas fontes: o Manual de Redação e Estilo do jornal O Estado de S. Paulo, escrito por Eduardo Martins, e A Imprensa e o Caos na Ortografia, de Marcos Costa. Ambos compartilham a mesma ojeriza ao nosso “final de jogo”, “final do século” ou “final do baile”. O segundo (que, além de jornalista, tem lá o seu curso de Letras) é mais saidinho e faz um arrazoado que, à primeira vista, até poderia passar por douto. Depois de apresentar um latinzinho inicial, para impressionar o leigo, aceita o fato de que final pode ser usado como substantivo,mas será sempre o adjetivo substantivado, carregará sempre esse ranço. Quem usa final como substantivo parece que gosta precisamente do ranço, como há quem goste de caça faisandé. A imprensa, entretanto, deve evitá-lo. O normal é que no fim (substantivo) da missa o padre dê a bênção final (adjetivo)… Quando está no minuto final (adjetivo), o jogo está chegando ao fim (substantivo). Esse é o emprego natural, despojado, distante de ostentações. Comunicar-se é simplificar”.

Que reparo podemos fazer ao que ele disse? Primeiro, o tom categórico, próprio dos manuais destinados à circulação interna. Afinal, é para isso que existem: homogeneizar o texto de uma publicação, padronizando as escolhas estilísticas e antecipando as dúvidas que poderão atrapalhar os repórteres e jornalistas. Um manual desses representa a soma da experiência acumulada pelos profissionais da empresa — mas seu caráter normativo não tem nenhum valor aqui fora. O Estadão define como quer que sua equipe escreva, a Folha de São Paulo faz o mesmo, a Zero Hora também, cada um segundo as suas preferências. Marcos Costa tem todo o direito de especificar que, em seu jornal, sempre vão preferir fim a final — mas essa decisão não representa nada para quem estuda a língua portuguesa, pois na mesma cidade, em outra esquina, o editor de outro jornal pode pensar de outra forma.

Em segundo lugar, esse autor não tem a leitura necessária para falar de modo tão taxativo. Quem disse que usar final como substantivo é ranço? Quem decretou que o correto é empregar fim? Certamente não foram os bons autores. Em Portugal, Camilo Castelo Branco, um de meus preferidos, discorda: “No final de cada ato, saía a visitar uma amiga”; “No final das jornadas parece que o vigor do caminhante se recobra”. Eça de Queirós parece não saber disso: “o realejo do bairro … veio tocar o final da Traviata“; “quando Ernestinho contara o final do seu drama”; “Craft, procurando troco para o cocheiro, contava o final das corridas”. Os leitores pós-modernos poderiam objetar que cito autores de outro século; pois não seja por isso: Saramago comparece com “eu podia ter posto no final da sua frase” e “A noite está quente neste final de Agosto”. A seu lado, Lobo Antunes completa: “no final de cada exame”. Todos rançosos?

No Brasil, Euclides da Cunha oferece um balaio de exemplos: “triunfam num final de luta”; “O narrador destes dias chega no final de um drama”; “no final de um dia inteiro de fadigas”. E Machado? Xiii, nosso gênio não leu esses manuais de redação: “O meu sonho foi quase assim, ao menos no final“; “A quem quer que este final de monólogo pareça egoísta”; “Já é alguma cousa neste final de século”. Bilac, então, apenas verseja: “E, fatigado de calar teu nome/ Quase o revelo no final de um verso”. Querem modernos? Clarice Lispector: “um prenúncio do que ia acontecer no final da tarde”. Guimarães Rosa: “Mas, no final dos comentários, infalível era a harmonia”; “No final do feijoal, a variante se bifurca”; “como o vento ronda, no final das águas”. Nelson Rodrigues: “E, no final, tive a vaia e tive a apoteose”; “Gostou de uma menina e, no final da tarde, os dois passeavam”;  “Neste final de século, a Imaturidade é a musa perfeita, sereníssima, universal”. Encerro, simbolicamente, com Drummond: “E por que o nome dela não pode sair no final de uma notícia que nem sequer a elogia?”. Acho que chega. Dá para perguntar, como a gente fazia, no colégio, nas lutas de brinquedo: “E aí? Vocês se rendem?”. Procurem ser mais tolerantes com o uso que as outras pessoas fazem do idioma; para uma mesma situação pode haver mais de uma escolha. Afinal, escrever bem é eleger, entre várias formas corretas, a que soa melhor para o contexto. Só isso.

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Destaquinho Faits divers Lições de gramática Semântica

tricampeonato precisa ser consecutivo?

Professor Moreno: estamos com uma dúvida cruel aqui na empresa: os prefixos do tipo bi, tri, penta, hexa têm que ser aplicados de forma consecutiva? Isto é, quando nos referimos a campeonatos de futebol, por exemplo, e o time ganha por dois anos consecutivos, ao perdê-lo no ano seguinte e ganhá-lo no ano posterior, ele seria tricampeão? Mesmo com esse intervalo de um ano? Partimos do princípio de que cada campeonato é único e que, por isso, se o time não vencer três campeonatos consecutivos, não poderá receber o título de tricampeão. Isso se aplica também à Seleção Brasileira, não é, professor? Agradeço se nos esclarecer mais esta dúvida.

Virgínia R.


 

Prezada Virgínia: isso é apenas uma questão de hábito e nada tem a ver com o significado do vocábulo. Na minha juventude, só computávamos um tricampeonato para nosso time se ele conquistasse três campeonatos seguidos. Assim foi a Copa de 62, em que o Brasil sagrou-se bicampeão; na Copa de 70, no entanto, todo o país comemorou o tricampeonato, demonstrando que, a partir daquela data, não estávamos mais levando em conta a antiga exigência de vitórias sucessivas. Acho que isso deve ter vindo da transmissão da Copa por emissoras estrangeiras, que devem chamar de tricampeão quem quer que tenha chegado três vezes ao campeonato.

O que já começou a acontecer, no Brasil, é a confusão entre os dois sentidos, por parte de quem ouve. É algo digno de admiração um time chegar a ser tricampeão brasileiro (no sentido sucessivo); no entanto, chegar a três campeonatos não-sucessivos é moleza. Além disso, como vamos apresentar grandes clubes como o Flamengo, por exemplo, que já foi umas quarenta vezes campeão do Rio? Ou o Internacional, em Porto Alegre, que já conquistou mais de trinta campeonatos gaúchos? Estás a ver que, em termos de Copa do Mundo (em que são poucos os países com vários títulos), isso ainda é possível; quando nos referirmos a campeonatos no Brasil, no entanto, temos de ficar com o velho sistema. Daqui a uns 50 anos, o mesmo vai acontecer quando falarmos da Copa, porque Brasil, Alemanha, Itália ou Argentina poderão acumular tantos títulos que obrigarão as pessoas a voltar ao antigo sistema consecutivo. Abraço. Prof. Moreno

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várias alternativas?

Professor: na sua resposta sobre o uso correto do vocábulo alternativa encontra-se a construção “várias alternativas”. Estranhei, pois tenho que alternativa é possibilidade de escolha entre duas opções. Agradeceria seu esclarecimento.

Ilmar Mello C. — São Paulo 

Meu caro Ilmar: o significado primitivo do vocábulo realmente era restrito a duas opções mutuamente exclusivas, praticamente um sinônimo do que os gregos denominavam de dilema, em que também se vê a noção de dualidade; o termo grego, contudo, implica sempre uma escolha difícil, o que nem sempre vai ocorrer com alternativa: “A alternativa é lutar ou morrer“. “A alternativa é água ou vinho“, e assim por diante.

No entanto, o léxico de uma língua cresce não só pela criação de vocábulos novos, mas também pela criação de novos significados para os vocábulos já existentes; isso é o que explica aquela sucessão de entradas num mesmo verbete de dicionário (1… 2… 3…). Logo esta palavra passou a designar também apenas uma das opções (“Eu vou lutar, porque não me agrada a alternativa” — no caso, “morrer”) ou ambas (“Entre essas alternativas, eu fico com a primeira”). Daí para englobar mais de duas opções foi um pequeno passo: “Eliminadas as outras alternativas, só nos restam duas: lutar ou morrer“. 

No Português do Brasil, o sentido primitivo está praticamente esquecido, especialmente depois da década de 70, quando foram introduzidos os testes de escolha simples nos vestibulares e nas provas de concurso. Na TV, todas as questões desses programas da moda têm várias alternativas. Só o mundo letrado, erudito, conhece essa antiga conotação dual que tinha no Latim — mas não pode usá-la livremente, porque uma frase como “A alternativa é lutar ou morrer” deixaria atônita a maioria dos leitores; os mais abusados até ririam do confuso sábio, que deveria reservar este vocábulo para os seus iguais. 

O interessante é que a mesma coisa ocorreu no Inglês (só não sei a partir de quando, nem por que razão). Os dicionários daquele idioma registram aquele significado primitivo, mais restrito, lado a lado com o mais moderno, que abrange mais de duas escolhas. Houve quem tentasse reagir contra isso, alegando a etimologia do vocábulo. No entanto, o próprio H. W. Fowler, o duríssimo mestre de etiqueta da língua inglesa, apesar de sua orientação claramente tradicional, fuminou no ato: “A idéia de que alternativa, por ser derivada do Latim alter (uma ou outra), não pode ser usada para designar a escolha entre mais de duas possibilidades é um FETICHE” [as maiúsculas são dele!]. Abraço. Prof. Moreno

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dupla negativa

Acho estranho o hábito que as pessoas têm de usar duas negativas juntas: “eu não quero nada“, “eu não sou de nada“, “não pedi nada para ninguém”, etc. Apesar de autodidata, acho muito esquisito (ou, como diriam outros, esdrúxulo) falar ou escrever dessa maneira; a frase, dita ou escrita dessa maneira, parece perder o seu sentido negativo e ganhar sentido afirmativo. Quem diz “eu não quero nada“, alguma coisa está querendo. Gostaria que o professor me desse uma resposta decisiva sobre este assunto. Muito obrigado! José B. A. da Silva— Cruzeiro (SP)

Meu caro José: Em primeiro lugar, ninguém pode dar respostas decisivas sobre questões de linguagem; como na Medicina ou na Biologia, as respostas sempre refletem nosso atual estágio de conhecimento. Na Ciência, como tu bem sabes, o hoje certamente deverá ser suplantado amanhã. O que eu faço é fornecer a meus leitores o que me parece, no momento, ser a orientação melhor e mais sensata.

Em segundo lugar, não existe nada, em Português, que vede a dupla negação (percebeste o não... nada?). Isso até pode valer para certos ramos da da Lógica formal, onde duas negativas levam a uma afirmativa (como na Matemática, onde menos com menos mais). Embora a gramática padrão do Inglês não aceite a dupla negação, a maioria das línguas humanas (que vão muito, mas muito além da Lógica Formal) utilizam tranqüilamente essa construção, multiplicando, na mesma frase, vocábulos negativos que se reforçam uns aos outros; “os falantes espalham uma fina camada de coloração negativa sobre a frase inteira, em vez de concentrá-la num único lugar”, como diz o lingüista dinamarquês Otto Jespersen.

Vais encontrar construções como “Não devo nada a ninguém”, “Não quero saber de nada“, “Nunca vi nada parecido”, e assim por diante, em todos os nossos bons escritores, inclusive no maior de todos eles, o incomparável Machado. Nos mais antigos, deparamos com formas mais radicais ainda: por volta de 1500, Gil Vicente escrevia “Nem tu não hás de vir cá”; “A ninguém não me descubro”; “Nem de pão não nos fartamos”.

Muitas são as situações em que empregamos instintivamente duas ou mais palavras com carga negativa. Para usarmos nenhum, por exemplo, é indispensável que a frase inclua antes um não: embora na posição de sujeito possamos encontrar o pronome nenhum sem o não anterior (“Nenhum jogador quis falar”), nas demais posições sintáticas, contudo, a correlação “nãonenhum” é praticamente obrigatória: “Esta geladeira não é nenhuma Bastemp”; “Não encontrei nenhum defeito”; etc. Além disso, deves estar familiarizado com frases do tipo “aquilo não vale nada, não“, com esse não adicional que costumamos acrescentar ao final de uma negativa enfática. E não te esqueças: no quotidiano, no calor da hora, quando tivermos de negar alguma coisa muito importante mesmo, vamos usar todas as palavras negativas que conseguirmos enfiar numa frase, como ouvi um dia, por cima do muro, um vizinho meu gritar para a mulher: “Já te disse que não tenho nadica de nada a ver com Marina nenhuma!”. Abraço. Moreno

Depois do Acordo:

tranqüilamente > tranquilamente

lingüista > linguista