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Colorados

 

Mar Vermelho Colorado

Aproveitando o nome de batismo de Hercule Poirot, seu famoso personagem, Agatha Christie escreveu Os Trabalhos de Hércules, coletânea de doze contos em que o detetive belga, metaforicamente, enfrenta os mesmos perigos que o musculoso herói grego. O cão Cérbero, que vigiava a entrada do Mundo dos Mortos, aparece aqui na figura de um ameaçador cachorro preto que monta guarda na porta de um night-club; o javali de Erimanto, que Hércules captura na neve, transforma-se num mafioso corpulento que procura se esconder numa estação de esqui na Suíça − e assim por diante. A meu ver, foi na Hidra de Lerna que a autora foi mais feliz: Poirot, ao ser contratado por um viúvo que não aguenta mais os rumores de que ele próprio tenha matado a falecida, declara, filosoficamente: “O boato é sem dúvida a Hidra de Lerna de nove cabeças, que não pode ser exterminada porque tão logo uma cabeça é cortada outra cresce em seu lugar”.

Sei muito bem o que é isso; não há semana que não apareça um desses “boatos” sobre linguagem, o qual – é uma praga − mais adeptos vai atrair quanto mais absurdo ele for. É um cardume de asneiras: uns afirmam que enfezado é coberto de fezes; outros, que aluno significa “sem luz” (credo!)… Sei que pouco eu posso fazer para matar essas bobagens na casca, mas assim mesmo nunca  desisto: se não posso extinguir o fogo, ao menos tento retardar a sua propagação − e registrar meu protesto.

Pois agora vem um obscuro blogue gaúcho avisar que empregamos a palavra colorado sem saber que o seu uso original estava ligado à escravidão! Ensina ele: “Nos dias de hoje, qualquer um responderia que colorado é a denominação dada aos torcedores do Internacional” (até aqui, morreu Neves! Esta acepção, inclusive, vem registrada no dicionário Houaiss). Ele, porém, prossegue, impávido na sua ignorância: “Mas há cem anos, quando surgiu este clube e seus primeiros torcedores, a palavra tinha um outro significado. Colorado queria dizer escuro, ou negro. Por isto, alguns rios e arroios receberam o nome de colorado. Eram rios de águas turvas, ou seja, escuras devido à presença de terra escura carregada pela correnteza”.

Olhem aí, mais um terraplanista da linguagem! Durante séculos, a língua portuguesa usou este vocábulo com o sentido de vermelho, ou colorido, ou ruborizado, mas aí chega o autor de um bloguezinho (não vou identificá-lo; não faço propaganda de coisa ruim) e num traque resolve negar todas essas evidências! Na Crônica da Ordem dos Frades Menores (de 1285), um superior admoesta um jovem frade, “o qual, todo colorado, abaixou a cabeça e entrou no refeitório, juntando-se aos outros na mesa”. Como devo entender esta passagem, então? O frade ficou preto de vergonha? Se muitos riachos e rios que receberam o nome de Colorado (inclusive o do Arizona), não seria por terem as águas avermelhadas pelo tipo de solo característico? E a sinistra gravata colorada, nome dado à degola em nossas revoluções aqui no pampa, não era uma alusão à língua ensanguentada que saía pelo talho no pescoço? E no Uruguai, nosso estimado vizinho, o partido dos colorados, eternos rivais dos blancos, por acaso não tem o vermelho como a cor-símbolo? E não será exatamente por isso, ó grande sumidade, que os torcedores do Internacional receberam esta denominação?

A esta altura, o leitor deve estar perguntando por que gasto tanta pólvora em ximango. Um blogue assinado por um amador merece assim tanta atenção? É fogueira que pode incendiar uma Austrália, ou não passa de uma chaminha que vai se extinguir sozinha? Pois, amigos, eu nem falaria nesta abstrusa teoria se ela não tivesse sido encampada por um autor de renome nacional, Laurentino Gomes, em seu livro Escravidão. Este jornalista, autor de várias reportagens sobre a História do Brasil, aqui pecou por indesculpável ingenuidade, engolindo com penas e tudo aquela peta sobre o significado “antigo” de colorado. Diz ele, textualmente: “No passado, [colorado] referia-se aos negros e mulatos… Um dos primeiros clubes de futebol a aceitar jogadores e torcedores de origem africana foi o Internacional de Porto Alegre… Por isso, hoje, os torcedores do Inter se chamam, orgulhosamente, de colorados“. Ah, para com isso! É claro que historicamente ocorreu uma maior ligação dos negros com o Inter — e não é por acaso que nosso mascote é (ou era?) um esperto saci-pererê — mas não é necessário forjar uma explicação etimológica para inventar uma falsa novidade.

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Bajeense

Embora ainda haja polêmicas sobre a forma correta de grafar o nome de certas cidades, o nome de seus habitantes sempre seguirá a norma ortográfica em vigor.

 

Turenne, o grande marechal de Luís XIV, apesar de ser veterano de muitas guerras (ou talvez até por causa disso…), nunca deixou de sentir medo na hora do combate. De longe, seus homens ouviam-no gritar para si mesmo, com as rédeas numa mão e a espada desembainhada na outra, prestes a se precipitar no ponto mais aceso da batalha: “Tu tremes, carcaça? Pois vais tremer ainda mais quando souberes para onde estou te levando!”.

A coluna de hoje trata do vocábulo bajeense, cuja grafia ainda é discutida por aqui; a menção a Turenne não é gratuita, porque ele próprio, tenho certeza, hesitaria antes de se meter numa polêmica como essa, que já leva os seus oitenta anos e sempre termina com os defensores de *bageense fingindo que não existe a regra que os contraria.

Ninguém, muito menos eu, vai conseguir terminar com essa discussão usando apenas argumentos técnicos e racionais; aqui, como todo o mundo sabe, intervêm emoções e sentimentos inflamados que reduzem a Dona Gramática a uma tênue luz de lamparina. Entro na disputa, porém, para responder a R. Vilarinho,  leitor que confessa estar cansado de ouvir os dois lados trocarem mais insultos do que argumentos. Diz ele: “Opinião todo o mundo tem, principalmente agora, em tempos de Facebook. Eu uso bajeense porque vi que o senhor também usa, mas  não sei explicar quando me perguntam”.

Pois vamos lá. Em primeiro lugar, lembro que as regras do Acordo de 1943, que é a base de nossa ortografia (as reformas posteriores apenas retocaram o edifício), fruto do esforço getulista em modernizar a sociedade brasileira, também se aplicam aos topônimos. Com a sua aplicação, centenas de nomes geográficos foram adequados ao novo sistema. Triumpho virou Triunfo, Paraty virou Parati, Manáos virou Manaus, e assim por diante − nenhum escândalo aqui, especialmente para um país como o Brasil, que teve seu nome oficialmente escrito com Z por todo o período imperial.

O princípio é simples: os nomes geográficos, por sua própria natureza pública, precisam se adequar à norma ortográfica que estiver em vigência. A partir de 1943, por exemplo, passamos a escrever Pôrto Alegre, com o circunflexo diferencial; quando este acento caiu na década de 70, voltamos a escrever Porto, sem acento. Por sua vez, Joia, no Rio Grande do Sul, tinha acento até entrar em vigor o atual Acordo, quando então foi suprimido o acento dos ditongos abertos nos vocábulos paroxítonos. Fica claro, portanto, que o registro de fundação de um município, diferentemente do registro das pessoas físicas, não dá aos munícipes o direito de manter para sempre a grafia original. Se, no futuro, nova reforma vier a ocorrer, esses nomes sofrerão todas as modificações necessárias para se adequar à nova lei.

É natural que as gerações contemporâneas às mudanças sofram um verdadeiro choque estético diante do que lhes parece uma mutilação. O próprio texto de 1943, prevendo isso, inseriu um paragrafozinho maroto no final do texto da lei admitindo que “topônimos de tradição secular”, como Bahia, poderiam ficar fora deste regimento. Ora, esta exceção alimenta, até hoje, a discussão sobre a grafia de certos municípios − especialmente os de origem indígena, como Erexim, Bajé ou Moji, que defendem o direito de manter sua grafia “secular” preservada (Erechim, Bagé, Mogi) − livres, portanto, da padronização que sofreram os milhares de palavras que herdamos das línguas indígenas e africanas (sempre X no lugar de CH, sempre J no lugar de G e sempre Ç no lugar de SS), como em açaí, acarajé, caxinguelê, xaxim, jibóia e miçanga.

Sou obrigado a reconhecer, diante do precedente de Bahia, que estes municípios têm todo o direito de espernear. Não é disso, porém, que estamos tratando aqui, e sim dos vocábulos derivados dos topônimos, especialmente da classe dos adjetivos gentílicos. Estes seguem, na sua formação e na sua grafia, os mecanismos gerais do idioma; são palavras comuns, civis, que vão ser tratadas como todas as suas iguais. Bahia é um vocábulo de exceção, mas — como define expressamente o Acordo — os seus derivados não têm o mesmo privilégio e não podem ostentar aquele H aristocrático: baiano, baianidade, coco-da-baía, laranja-baía.

Este é exatamente o caso de Bajé; os partidários do G alegam que um tal de “Conselho Federal de Cultura”, durante o governo do general Médici, aprovou o enquadramento do município nesta fluida categoria de “topônimo secular”, que pode assim manter o Bagé original; seus oponentes, contudo, não reconhecem a competência dessa entidade para legislar sobre ortografia e ressaltam que a tal “tradição secular” é metafórica, não se limitando especificamente a um século. A questão persistirá por tempo indeterminado − mas, escreva-se Bajé ou Bagé, Moji ou Mogi, Erexim ou Erechim, os adjetivos que daí derivam, pela regra clara e cristalina, serão bajeense, mojiano e erexinense − sem choro nem vela.

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Egito e Grécia

 

Para falar na cultura egípcia, usamos palavras gregas  – algumas delas bem pouco elogiosas.

Escrevo estas linhas a bordo do navio Mayfair, que singra o Nilo em direção ao sul do Egito. Como Heródoto, quatro séculos antes de Cristo ─ e  como Dom Pedro II, dezoito séculos depois ─, nosso grupo vai fazendo um périplo inesquecível pelos mesmos templos e túmulos que eles visitaram, enfiando um rosário de nomes que sempre viveram na minha imaginação e que só agora se concretizam à minha frente: Luxor, Karnak, o Vale dos Reis, Edfu, Philae, sem contar Alexandria ─ para muitos a cidade de Alexandre, mas para mim a cidade de Antônio e Cleópatra  e, acima de tudo, a cidade de Cavafys.

Se foi pelo olhar da Grécia antiga que o Ocidente tomou contato com a terra dos faraós, não é de espantar que só possamos falar dele usando palavras de origem grega. Assim, vendo passarem, pela janela da minha cabine, as margens verdejantes do Nilo, com seus renques de tamareiras, vou explicar a origem curiosa de alguns nomes que os gregos escolheram para falar da cultura egípcia.

Em primeiro lugar, temos os hieróglifos, que figuram por toda a parte, nas paredes dos templos e nos monumentos. Esta é uma palavra de dupla prosódia, o que significa, em vernáculo, que tanto faz pronunciá-la com a tônica no /ró/ (como eu faço) quanto no /gli/ ─ aliás, como o nome de Cleópatra, que aqui no Egito é pronunciado à moda grega, com a tônica no /pa/, rimando (que a rainha me perdoe pelo mau gosto!) com alcatra. Esta palavra é composta do adjetivo hieros (“sagrado”) mais glifo (“letra, entalhe”) ─  algo assim como “letras sagradas”, porque os gregos, embora não soubessem ler este tipo de escrita, perceberam o seu caráter nitidamente religioso.

Depois vêm obelisco e pirâmide, duas imagens que associamos desde sempre ao Egito e que espantam mais pelo seu tamanho do que propriamente pela beleza artística. Outrora prevalecia aqui o gigantismo arquitetônico, com colunas que vinte homens não podem abarcar com seus braços abertos, ou com obeliscos de granito de mais de quarenta metros (o obelisco de Luxor, hoje instalado na Place de la Concorde, em Paris, pesa centenas de toneladas e exigiu, para seu transporte, a construção de um navio especial, com várias quilhas). As pirâmides são maiores ainda. A de Quéops tem mais de 140 metros de altura e foi por 4.000 anos (até o surgimento das catedrais medievais) a mais alta construção do planeta. Ora, sendo tudo isso tão despropositadamente grande, não poderia deixar de causar má impressão nos visitantes gregos, povo sabidamente inimigo da desmedida e do exagero ─  sem falar, imagino, na inevitável ferida narcísica que a visão daquelas massas gigantescas  deve ter provocado num povo tão orgulhoso de sua superioridade que consideravam bárbaros todos os demais povos que conheciam.

Segundo Lacarrière, grande conhecedor do mundo grego, essa é a única explicação para chamarem as imensas agulhas de granito inteiriço de obelisco, termo formado de obelos (“espeto”) mais o sufixo diminutivo isco (o mesmo que está em asterisco, “estrelinha”) ─  ou seja, apelidaram-nas de “espetinho”! E por ter a forma semelhante à das pirâmides, usaram para batizá-las o nome de um pão especial feito de trigo, pyramis, reduzindo assim todas aquela pompa e magnificência a um cenário de piquenique, com espetinhos e pãezinhos  ─ e não venham me dizer que foi por acaso.

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Molhos e molhes

 

Reúna o molho de pimenta, o molho de chaves, os molhos do fondue e os molhes da barra e terá uma maçaroca de significados e de pronúncias.

 

— A leitora Balbina V. quer resolver uma pequena disputa doméstica: visitando a Serra gaúcha juntamente com os netos,  seu marido, ao se referir aos molhos que costumam acompanhar o fondue borguinhão (o de carne, não o de queijo), pronunciou /mólhos/, com o que ela não concordou. Diz ela: “Para mim, molhos com o O aberto é aquela construção de pedra que vai mar adentro, como fizeram na barra do Cassino e do Mampituba, aqui no Rio Grande do Sul. Na comida, deve ser com a vogal fechada mesmo. O que o senhor acha? Aliás, não é por isso que escrevemos com acento circunflexo?”.

Cara leitora, sem querer ser deselegante, eu diria que deste uma martelada no prego mas várias na tábua. Para deixar tudo bem claro, no entanto, temos de fazer algumas distinções etimológicas. Em primeiro lugar — no caso do fondue — temos o molho, o qual, segundo a pitoresca definição de Morais, é “líquido temperado segundo a arte dos cozinheiros, em que vêm certos guisados de peixe ou de carne para terem melhor sabor” (para quem estranhar o guisado de peixe, lembro que aqui o termo está empregado no sentido original de “refogar em temperos”; no Brasil, só os gaúchos usam este termo com o sentido de “carne moída”). Aqui a razão está contigo: o O fica fechado tanto no singular quanto no plural.

Em segundo lugar, temos um outro molho (/ó/), que significa “feixe, conjunto de coisas unidas”. Podemos ter um molho de cenouras, de lenha, de gravetos, de ervas, de espigas, de rosas, de cordas e, naturalmente, um molho de chaves. Neste caso, o O fica aberto tanto no singular, quanto no plural. Vou ceder aqui à despudorada tentação de citar a mim mesmo, em coluna mais antiga: “Como nos ensinavam as boas professoras de antigamente, um molho (/ó/) de espinafre é bem diferente de um molho (/ô/) de espinafre — o que torna o molho (/ô/) de chaves, como muita gente diz, uma radical inovação culinária”.

Em terceiro lugar, aparece mole, aparentemente um estranho no ninho. Este vocábulo vem do Latim moles (“imenso volume ou massa”) e hoje está circunscrito à linguagem literária, tanto no sentido real quanto figurado: “No meio daquela vasta mole de pedra, em que os sons discordes reboavam” (Alexandre Herculano); “A moça teve um deslumbramento: em seu espírito, subitamente iluminado, fez-se vácuo enorme, desmoronou-se fragorosa a mole das ilusões” (Júlio Ribeiro).

De inhapa, uma curiosidade: é daí que vem a molécula (diminutivo latino de moles), termo que antigamente significava “pequena massa; pequena partícula de um corpo”. Pois também é daí que vem o molhe, que Bluteau define, na sua saborosa linguagem setecentista, como “lanço de muro grosso, a moda de cais, que se faz em alguns portos de mar para abrigar os navios do ímpeto das ondas”. Aqui, cara Balbina, tua martelada errou o prego e deu na tábua: o que temos na barra da Lagoa dos Patos, em Rio Grande, são molhes — e não molhos, como pensavas.

Por fim, também te enganas quanto ao acento — mas este é um equívoco totalmente desculpável; quem já tem tem netos em idade de comer fondue deve ter sido alfabetizado antes de 1971, ano em que foi abolido aquele acento que distinguia pares homógrafos que se diferenciam apenas pelo timbre da vogal, como porto:pôrto, almoço:almôço, gelo:gêlo e molho:môlho, entre vários outros (o único a ser poupado até hoje foi pode:pôde). Muitos lamentam a perda deste acento, mas o contexto dá conta do recado. Não há dúvida de que não estamos falando em comida em exemplos como “Depois do almoço fui à casa de D. Plácida; achei um molho de ossos, envolto em molambos” (Machado) ou “No seu farto cabelo, crespo e reluzente, puxado sobre a nuca, havia um molho de manjericão” (Aluísio Azevedo).

 

 

 

 

 

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Cláudio Moreno na Academia Brasileira de Filologia

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Homofóbico

Diferentemente de HOMÔNIMO, o termo HOMOFÓBICO nasce do encontro de dois processos diferentes de formação de palavras.

“Professor, até hoje não consigo compreender o termo homofóbico. Não falo do sentido, que me parece bem claro, mas das partes que o compõem. Este homo quer dizer “semelhante”, como em homógrafo, não é? Pelo que eu entendo, homossexual é quem procura parceiros de sexo semelhante ao seu; pela mesma razão, homofóbico não deveria significar quem tem aversão a seu semelhante? Onde foi que eu me enganei?” — pergunta Alcides M., de Santos, São Paulo.

Caro Alcides, não foste o primeiro, nem serás o último a levantar este problema. Aqui mesmo, nesta coluna, tive a oportunidade de tratar do assunto, mas vou explicar de novo, pois já lá vai uma meia dúzia de anos. Vamos começar pela parte mais fácil, que é a fobia. Esta palavra fobia tem origem na mitologia grega: Fobos, (“medo”), era filho de Afrodite e Ares (em Roma, Vênus e Marte, respectivamente), fruto da mais célebre e invejada relação extraconjugal da literatura clássica, narrada por Homero no canto VIII da Odisseia. Era gêmeo de Deimos (“pavor”), e não foi por acaso que o astrônomo que descobriu os dois satélites do planeta Marte batizou-os com o nome dos irmãos.

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Tecnicamente, o termo fobia designa um medo incontrolável, irracional, muitas vezes exagerado, que nos domina em determinadas situações e terminam atrapalhando nossa vida. Quem sofre de claustrofobia, como eu, por exemplo, não consegue controlar seu pânico ao entrar em lugares fechados ou exíguos — e já sei que vou me ver em betas quando visitar as pirâmides do Egito neste outubro próximo. Originalmente, fobia só se juntava a outros elementos gregos, como ela — xenofobia (de xenos, “estrangeiro”); acrofobia (de ákros, “altura”); hidrofobia (de hydro, “água” — nome antigo da raiva, porque um dos sintomas de quem foi infectado pelo vírus é a dificuldade de ingerir qualquer líquido); fotofobia (de foto, “luz”). Com o tempo, porém — como era natural — fobia passou a fazer parte dos utensílios básicos de nossa cozinha linguística, capaz de ser acrescentado a vocábulos quotidianos do Português, como em gordofobia, veganofobia, islamofobia, velhofobia (uma versão popular para a gerontofobia, “antipatia por idosos”) e muitos outros mais que se usam ou usarão nesta época de infinitas intolerâncias.

Agora, vamos ao homo. Aqui vais ver em ação um novo processo de formação de palavras, razoavelmente recente (não chega a ter cem anos, o que, em linguagem, é muito pouco): no momento em que palavras complexas, de origem erudita, ingressam no vocabulário usual do brasileiro, há uma forte tendência a reduzi-las a um padrão prosódico mais confortável. Foi assim que fotografia virou foto e motocicleta virou moto, por exemplo. É um progresso, sem dúvida — mas nem todo o mundo se deu conta de que, por trás desta simples operação de encurtamento, a língua portuguesa estava parindo um novo vocabulozinho que iria fazer concorrência com seu pai. Em fotossíntese, fotocélula, fotofobia e fotografia, podemos ver claramente que este elemento foto tem, como no Grego, o significado de “luz”,  Ora, no momento em que reduzimos fotografia para foto, criamos um vocábulo com a mesma forma mas com sentido completamente diferente: em fotomontagem ou fotojornalismo, foto significa “fotografia”, e não “luz”.  Em autobiografia, autocomiseração e automóvel, o auto original significa “a si mesmo”; no momento em que encurtamos automóvel para auto, com o sentido de carro, passamos a ter uma novidade como automecânica, que é uma mecânica de carros, e não uma mecânica de si mesma. Temos, portanto, um autoA e um autoB — e um bom dicionário deveria abrir uma entrada diferente para cada um.

Pois foi exatamente isso o que aconteceu com homo, que recebemos do Grego com o sentido de “igual, semelhante” (o antônimo de hétero), como se vê em palavras eruditas como homônimo (“o mesmo nome”) e homossexual (“o mesmo sexo”). Este último, ao sair do restrito mundo acadêmico e ingressar na fala de todo o mundo, sofreu o natural encurtamento para homo, figurando já com o novo sentido em compostos como homoafetivo, homoerótico e homofobia, onde não mais significa “semelhante”. Como um Lego infinito, nosso idioma, sem parar, combina e recombina suas peças para acompanhar nossa realidade.

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A gente

Quanto mais violento for seu ataque aos erros alheios, maior a chance de você mesmo se esborrachar logo ali adiante.

“Se existe alguma chance de dar errado, vai dar” é uma versão coloquial da famosa Lei de Murphy, formulada em 1949 pelo engenheiro Edward Murphy (não, não existiu uma Lady Murphy, como alguns acreditam). Se Murphy mantivesse, como eu, uma coluna sobre questões da língua, poderia acrescentar outra regra a seu currículo, desta feita sobre os que escrevem para O Prazer das Palavras: “Quanto mais violento for o  ataque aos erros dos outros, maior a chance do próprio autor da denúncia se esborrachar logo ali adiante”.

Foi exatamente assim que os deuses castigaram Xavier de Tal, um intolerante leitor de Cascavel, no Paraná, que escreveu mais para comandar do que para perguntar: “Professor, leio e guardo religiosamente todas as suas colunas desde 2003. Sou seu fã, mas gostaria de saber até quando o senhor vai tolerar este “agente procura” e “agente decidiu” que o Jornal Nacional introduziu. Essa burrice cresceu como erva daninha e agora contaminou toda a TV.  Só espero que o senhor não vá ficar em cima do muro”.

Caro Xavier, sossega o teu pito, que isso não é novo, nem burrice. Construções como “a gente precisa conversar”, “a gente vai sair perdendo”, etc., são exemplos corretos do uso desse “pronome” indeterminador que nosso idioma desenvolveu a partir do séc. 19. O dicionário Houaiss registra, como um dos significados de gente, “a pessoa que fala em nome de si própria e de outro(s); nós, como em “a gente resolveu se mudar para o campo”.

É verdade que, na origem, a gente não se referia a nós, mas sim aos outros, às demais pessoas. Camões, um pouco depois do descobrimento do Brasil, ao descrever a fina indumentária com que Vasco da Gama se apresentou aos nativos, diz que era feita de tecido carmim, “cor que a gente tanto preza” (leia-se “eles”). Este emprego ainda aparece no próprio Eça de Queirós, em O Crime do Padre Amaro: a menina Amélia, ao saber que a tia e sua comitiva perambulavam pelo olival ainda enlameado pelas chuvas, exclama: “Vai-se a gente sujar toda” (leia-se “elas”).

No entanto, no séc. 19 a expressão passa a ser usada exclusivamente como substituta do nós. Vamos encontrar, sem dificuldade alguma, dezenas de exemplos nos nossos maiores escritores, dos quais Eça de Queirós e Machado de Assis são os mais brilhantes. Em Eça, por exemplo, vamos  ler “A gente aprende no seminário, minha senhora”, “A gente gosta do que é bom”, “A gente não pode confiar em ninguém”, entre dezenas de outros. Em Machado de Assis, “A gente não esquece nunca a terra em que nasceu”, “A gente ria das respostas dele”, “Sim, mas a gente não dança com ideias, dança com as pernas”.

A força com que a gente entrou no Português quotidiano parece revelar que temos necessidade de uma forma assim — um espécie de pronome impessoal, como o on do Francês, para substituir o nós, que é muito mais particularizado. É importante notar que, do ponto de vista flexional, a gente tem a vantagem de usar a 3ª pessoa do singular, a mais simples e menos marcada de todas: “a gente foi ao cinema, “a gente precisa de apoio“, etc.

Dois perigos, contudo, rondam aqui o falante incauto. O primeiro é esquecer que a gente equivale a nós do ponto de vista semântico, mas não do ponto de vista gramatical. Dito de outra forma: enquanto nós exige o verbo na primeira do plural, a gente exige o verbo na terceira: nós vamos, mas a gente vai — e jamais a gente *vamos. Na língua escrita culta, isso é erro bravio, de mato cerrado. Há mais de trinta anos a banda Ultraje a Rigor ridicularizou esse erro — aliás, numa bela batida funque — no seu antigo sucesso  A gente somos inútil!

O segundo, que te interessa mais de perto, é a tendência equivocada de deixar o artigo colado ao substantivo, como se fosse uma palavra só, isto é, escrever *agente junto, assim como o agente secreto, o agente policial — o mesmo *agente que aparece duas vezes na tua mensagem, erro teu, erro escrito que não podes atribuir à maneira como falam na TV.

 

 

 

 

 

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Azul e rosa

Nas cores, tudo são convenções — umas duráveis, outras efêmeras.

Qual é a cor do menininho, perguntam. E da menininha? Ainda vale a oposição azul para o gauchinho, rosa para a prendinha? Ora, diz o velho provérbio, cores e gostos não se discutem: enquanto no Ocidente a cor do luto é o preto, em muitos países do Oriente é o branco que tem este valor. Nossas noivas ainda se vestem de branco, mas na Índia elas preferem o vermelho e na Noruega elas casam de verde. Cada povo — e também cada classe social, cada grupo etário, cada possível agrupamento de indivíduos formado pelos infindáveis critérios de simpatia ou semelhança — difere dos demais nas cores que prefere, nas combinações que valoriza e no simbolismo que a elas atribui.

Há associações inconscientes, aparentemente sem motivo, ao lado de outras que parecem baseadas em razões concretas. O branco está naturalmente ligado à higiene e à saúde (nas ambulâncias, nos hospitais, na roupa dos enfermeiros). Por extensão, branca também é a pureza e a inocência (o vestido de noiva, a roupa do nenê no batizado) e a sabedoria benfazeja (os sábios da lenda sempre têm roupas e barbas brancas).

O amarelo, por sobressair sobre fundos escuros, é a cor por excelência de tudo aquilo que precisa ser chamativo (as bolas de tênis, os botes salva-vidas, as capas de chuva de quem trabalha na estrada). O verde, cor da natureza fecunda, é associado por analogia com a juventude, o que parece natural (nossos verdes anos) — mas, no imaginário popular, por alguma razão inexplicável, os homenzinhos que pilotam os discos-voadores são sempre verdes, assim como os duendes. O azul, cor do céu sereno, ficou naturalmente ligado à paz e à tranquilidade (o azul da Comunidade Européia; os capacetes azuis da Força de Paz; a expressão “está tudo azul”). O vermelho, que era a cor dos imperadores e da nobreza, é atualmente reivindicado pelos partidos de esquerda; por evocar o fogo, é também associado ao perigo (o alerta vermelho, a bandeira vermelha das praias), ao fogo (os caminhões de bombeiros, os hidrantes, os extintores de incêndio). E por aí podemos ir, explorando a aquarela.

No caso em questão − assunto momentoso para quem não tem o que fazer −, a associação hoje vigente é azul para meninos, rosa para meninas. Por que não é ao contrário? Ninguém sabe; há estudos que tentam explicar isso antropologicamente (a maior sensibilidade da mulher para nuanças de cores chamativas, adquirida pela necessidade primitiva de distinguir, na floresta e na savana, os vegetais comestíveis), mas tudo ainda é simples especulação. E desde quando? (afinal, como vimos, os valores mudam com o tempo). Os estudos sérios apontam as primeiras décadas do séc. 19 (ao contrário do propalado − e equivocado − trabalho de Jo Paoletti, que tenta demonstrar que até 1940 o costume corrente era exatamente ao contrário, azul para as meninas e rosa para os meninos). A Wikipedia, desta vez, faz um belo trabalho ao listar registros de revistas de moda e de etiqueta a partir de 1823 (aqui: https://goo.gl/TS21mB).

Na segunda metade do séc. 20, é verdade, a exploração comercial da diferença de gêneros contribuiu para reforçar o que era uma tendência inicialmente espontânea: a distinção entre produtos “masculinos” e “femininos” nas roupas e brinquedos de criança quase duplicou o mercado: até as bicicletas, bens que tradicionalmente passavam pela família inteira, deixaram de ser intercambiáveis entre irmãos e irmãs (eu, aos oito anos, já sabia que a blusa das meninas era abotoada do lado contrário da blusa dos meninos, mas não lembro qual era o lado “certo”). Foi aí que nasceu também a taxa rosa, aquele sobrepreço que onera inexplicavelmente a maior parte dos produtos femininos (um barbeador rosa, por exemplo, custa mais do que um azul − e a única diferença entre eles é a cor). Como vemos, tudo são apenas convenções − umas duráveis, outras efêmeras. Desde 1800, o bebê costuma usar no batizado um gorrinho branco, ou, no máximo, azul, se for menino,  ou rosa, se for menina  − mas nada impede que um orgulhoso papai ninja batize sua filha com uma touquinha preta. E como disse uma amiga minha: quando eu era bebê, usava rosa; agora sou mulher e uso preto, porque emagrece. E chega de nhenhenhém.

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Através dos dicionários Destaque Etimologia e curiosidades

Antagônimos

Os desconcertantes vocábulos que exprimem significados contraditórios ou opostos, como SANÇÃO, RELEVAR ou APARENTE.

O leitor Jorge Luiz S. (não mencionou a cidade) vem fazer um apelo quase dramático: “Caro Professor, lamento abusar da sua paciência, mas uma dúvida consome minhas noites. O verbo relevar, bem como seus cognatos (relevante, relevância, etc.), se apresenta  com dois valores distintos. Às vezes indica destaque, importância: “É de suma relevância que se aprove a reforma da Previdência”; outras vezes, ao contrário, sugere perdão ou pouca importância: “Deus há de relevar meus pecados”. Como interpretar isso, sem dar um nó na minha, diga-se, relevante saúde mental?”.

É natural que estranhes, meu caro Jorge, este comportamento do verbo relevar. Que as palavras tenham a propriedade de ganhar novos sentidos, isso ninguém desconhece; agora, que um mesmo vocábulo exprima significados contraditórios ou opostos, isso é muito raro − raríssimo, posso assegurar. Não é um fenômeno exclusivo do Português. Em Inglês, por exemplo, exatamente como em nosso idioma, sanction (sanção) pode significar tanto “aprovação” quanto “penalidade”: “A lei aguarda a sanção presidencial” versus “O Brasil pode sofrer sanção moral se descumprir o acordo”).

Como chamar esses vocábulos que carregam sentidos opostos? Não me parece uma questão essencial; dado o pequeno número de exemplos existentes, a Linguística acertadamente não se preocupou com isso. Já sugeriram chamá-los de antagônimos, como usamos no título da coluna. Outros as denominam de palavras-Jano (só para lembrar, Jano é um dos poucos deuses que Roma não importou da mitologia grega. Ele é bifronte, ou seja, é sempre representado com duas faces que olham em direções opostas − uma voltada para o passado, a outra voltada para o futuro. Por ser a divindade que preside o fim de um ano e o início do próximo, o mês dedicado a ele foi chamado de janeiro). Não creio que esta metáfora mitológica exprima adequadamente a ambiguidade de palavras como relevar. Para mim, elas seriam mais como o Doutor Jekyll, da obra The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, conhecida aqui no Brasil com o enganoso título de O Médico e o Monstro. Neste livro de Robert Louis Stevenson, o doutor, sob efeito de uma poção que ele próprio criou, deixa aflorar temporariamente o seu lado sombrio e reprimido, o Mister Hyde que mora dentro dele. Se por um lado esta comparação me parece mais justa, sou obrigado a confessar que palavra-Dr. Jeckyll seria ainda pior que palavra-Jano…

De qualquer forma, relevar não está sozinho. Há mais alguns exemplos, além do já mencionado sancionar. O termo handicap, que no Inglês significa “desvantagem” (os handicapped são os que chamamos de  deficientes), entrou em nossos dicionários com dois significado: “(1) vantagem; (2) desvantagem”! Durante muito tempo, hóspede  designou tanto aquele que era recebido numa casa ou numa hospedaria, quanto aquele que fornecia a hospedagem (que hoje preferimos chamar de anfitrião ou hospedeiro). Aparente pode ser “aquilo que se vê” ou “o que parece, mas não é” − todos concordamos que a frase “O talento dele é aparente” é ambígua. O verbo alugar serve para os dois lados da transação: “Eu alugava um terreno na Av. Assis Brasil” − eu pagava ou recebia aluguel? E o teu relevar? Como vamos entender algo como “Há vários aspectos que devemos relevar“? Como no traiçoeiro handicap, só o contexto vai decidir de que lado devemos montar neste cavalo.

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Schadenfreude

Sentir prazer com a desgraça alheia? Sim, há um nome para isso.   

Não existem no mundo duas línguas que compartilhem exatamente o mesmo vocabulário − e olha que ainda restam mais de seis mil línguas vivas (por enquanto…)! Mesmo entre as línguas românicas, irmãs de sangue, haverá muitas palavras que existem numas e faltam noutras. Em inúmeros casos a presença (ou a ausência) de algum termo se deve a diferenças geográficas ou culturais; não seria justo exigir que o Francês conhecesse todo o vocabulário que gravita em torno do chimarrão nosso de cada dia, nem que o Inuíte (dos esquimós) incluísse todos os termos que os árabes usam para falar do camelo.

Esse tipo de lacuna não tem importância. É natural que a fauna, a flora e os costumes de cada região, sendo diferentes, façam brotar um léxico também distinto; se precisarmos um dia falar num desses itens exóticos, vamos buscar a palavra lá na língua de origem, adaptando-a à nossa fonologia ou comendo-a como veio, crua mesmo. Assim aconteceu com iglu, tobogã, vodca, jipe, gêiser, conhaque, pizza, blecaute e similares: quando precisamos delas, fomos laçá-las na planície e as incorporamos ao rebanho.

Na caverna escura da psiquê humana, no entanto, os contornos não são tão nítidos, a começar por uma grande dúvida: todos os seres humanos têm as mesmas emoções? Existe uma psicologia universal?  Se me perguntarem, só posso responder que sou sábio o suficiente para evitar qualquer palpite. Mas sei, no entanto, que outras línguas têm palavras que invejo, pois designam emoções ou comportamentos que conhecemos muito bem. É o caso, por exemplo, de frotteur (literalmente, “esfregador” − do Francês frotter, “roçar, esfregar”), termo usado para designar aqueles pervertidos que andam por aí aproveitando as aglomerações ou a superlotação do nosso transporte público para abusar da (ou do) infeliz que estiver na sua frente, esfregando-lhe no corpo as partes em que não bate o sol.

É o caso também de schadenfreude, o tema desta coluna, dúvida de uma leitora catarinense que assina com o pseudônimo de Criptonita Nacional: “Na segunda-feira devorei o jornal para ler sobre a eleição e encontrei uma palavra que parece alemã: schadenfreude. Ali dizia que depois da apuração a cara do Ciro Gomes devia ser de total isso aí. Pode me esclarecer?”.

Prezada Criptonita, o idioma está certo! Schadenfreude, do Alemão, foi cunhada no séc. 18, composta de schaden (“dano”) e freude (“alegria”). Ela designa aquele prazer maldoso que sentimos quando testemunhamos ou ficamos sabendo dos fracassos ou humilhações alheias, mesmo que disso não extraiamos benefício algum. Para as boas almas, é um sentimento condenável, como observou um severo linguista do séc. 19: “Que coisa assustadora é saber que uma língua tenha uma palavra para expressar o prazer provocado pela infelicidade dos outros, pois a simples existência do termo já prova que o sentimento existe”. Schopenhauer vai ainda mais longe: para ele, este é “o pior traço da natureza humana. É um sentimento próximo da crueldade, e dela só difere, no fundo, como a teoria difere da prática”.

Para outros, como Robert Burton (The Anatomy of Melancholy) ou Nietzsche (Humano, Demasiado Humano), é um sentimento comum a todos nós. Na chuvarada de domingo, um vizinho comentou, sorrindo, na fila do açougue: “E meu cunhado foi para a praia com toda a família!”. Peter Gay, um historiador judeu, guardou para sempre na memória a alegria com que viu os nazistas perderem, uma após a outra, as medalhas de ouro na Olimpíada de 1936. Queres imaginar o que disse o jornal? Na série de animação infantil Corrida Maluca, o cachorro do Dick Vigarista − Muttley (a.k.a. Rabugento) − tinha um riso que era pura schadenfreude. Põe o Ciro no lugar de Muttley e vais entender o que o jornalista queria dizer.