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Bajeense

Embora ainda haja polêmicas sobre a forma correta de grafar o nome de certas cidades, o nome de seus habitantes sempre seguirá a norma ortográfica em vigor.

 

Turenne, o grande marechal de Luís XIV, apesar de ser veterano de muitas guerras (ou talvez até por causa disso…), nunca deixou de sentir medo na hora do combate. De longe, seus homens ouviam-no gritar para si mesmo, com as rédeas numa mão e a espada desembainhada na outra, prestes a se precipitar no ponto mais aceso da batalha: “Tu tremes, carcaça? Pois vais tremer ainda mais quando souberes para onde estou te levando!”.

A coluna de hoje trata do vocábulo bajeense, cuja grafia ainda é discutida por aqui; a menção a Turenne não é gratuita, porque ele próprio, tenho certeza, hesitaria antes de se meter numa polêmica como essa, que já leva os seus oitenta anos e sempre termina com os defensores de *bageense fingindo que não existe a regra que os contraria.

Ninguém, muito menos eu, vai conseguir terminar com essa discussão usando apenas argumentos técnicos e racionais; aqui, como todo o mundo sabe, intervêm emoções e sentimentos inflamados que reduzem a Dona Gramática a uma tênue luz de lamparina. Entro na disputa, porém, para responder a R. Vilarinho,  leitor que confessa estar cansado de ouvir os dois lados trocarem mais insultos do que argumentos. Diz ele: “Opinião todo o mundo tem, principalmente agora, em tempos de Facebook. Eu uso bajeense porque vi que o senhor também usa, mas  não sei explicar quando me perguntam”.

Pois vamos lá. Em primeiro lugar, lembro que as regras do Acordo de 1943, que é a base de nossa ortografia (as reformas posteriores apenas retocaram o edifício), fruto do esforço getulista em modernizar a sociedade brasileira, também se aplicam aos topônimos. Com a sua aplicação, centenas de nomes geográficos foram adequados ao novo sistema. Triumpho virou Triunfo, Paraty virou Parati, Manáos virou Manaus, e assim por diante − nenhum escândalo aqui, especialmente para um país como o Brasil, que teve seu nome oficialmente escrito com Z por todo o período imperial.

O princípio é simples: os nomes geográficos, por sua própria natureza pública, precisam se adequar à norma ortográfica que estiver em vigência. A partir de 1943, por exemplo, passamos a escrever Pôrto Alegre, com o circunflexo diferencial; quando este acento caiu na década de 70, voltamos a escrever Porto, sem acento. Por sua vez, Joia, no Rio Grande do Sul, tinha acento até entrar em vigor o atual Acordo, quando então foi suprimido o acento dos ditongos abertos nos vocábulos paroxítonos. Fica claro, portanto, que o registro de fundação de um município, diferentemente do registro das pessoas físicas, não dá aos munícipes o direito de manter para sempre a grafia original. Se, no futuro, nova reforma vier a ocorrer, esses nomes sofrerão todas as modificações necessárias para se adequar à nova lei.

É natural que as gerações contemporâneas às mudanças sofram um verdadeiro choque estético diante do que lhes parece uma mutilação. O próprio texto de 1943, prevendo isso, inseriu um paragrafozinho maroto no final do texto da lei admitindo que “topônimos de tradição secular”, como Bahia, poderiam ficar fora deste regimento. Ora, esta exceção alimenta, até hoje, a discussão sobre a grafia de certos municípios − especialmente os de origem indígena, como Erexim, Bajé ou Moji, que defendem o direito de manter sua grafia “secular” preservada (Erechim, Bagé, Mogi) − livres, portanto, da padronização que sofreram os milhares de palavras que herdamos das línguas indígenas e africanas (sempre X no lugar de CH, sempre J no lugar de G e sempre Ç no lugar de SS), como em açaí, acarajé, caxinguelê, xaxim, jibóia e miçanga.

Sou obrigado a reconhecer, diante do precedente de Bahia, que estes municípios têm todo o direito de espernear. Não é disso, porém, que estamos tratando aqui, e sim dos vocábulos derivados dos topônimos, especialmente da classe dos adjetivos gentílicos. Estes seguem, na sua formação e na sua grafia, os mecanismos gerais do idioma; são palavras comuns, civis, que vão ser tratadas como todas as suas iguais. Bahia é um vocábulo de exceção, mas — como define expressamente o Acordo — os seus derivados não têm o mesmo privilégio e não podem ostentar aquele H aristocrático: baiano, baianidade, coco-da-baía, laranja-baía.

Este é exatamente o caso de Bajé; os partidários do G alegam que um tal de “Conselho Federal de Cultura”, durante o governo do general Médici, aprovou o enquadramento do município nesta fluida categoria de “topônimo secular”, que pode assim manter o Bagé original; seus oponentes, contudo, não reconhecem a competência dessa entidade para legislar sobre ortografia e ressaltam que a tal “tradição secular” é metafórica, não se limitando especificamente a um século. A questão persistirá por tempo indeterminado − mas, escreva-se Bajé ou Bagé, Moji ou Mogi, Erexim ou Erechim, os adjetivos que daí derivam, pela regra clara e cristalina, serão bajeense, mojiano e erexinense − sem choro nem vela.

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Antes do sol nascer

 

ANTES DO SOL NASCER - EDU

 

Como é possível que se defendam construções tão malsoantes como “Antes DE o sol nascer”, “Depois DE ele chegar”? Esta é uma regra artificial, inventada por defensores da análise lógica no início do séc. XX.

 

 Dona Lia, uma gaúcha gentil que mora em Florianópolis, escreve para tecer comentários elogiosos a esta coluna e aproveita a viagem para dizer que estranhou uma construção que empreguei um dia desses — “O fato DA maioria falar assim não justifica…”. Diz ela: “Aprendi que nesse caso e semelhantes, não se pode fazer a combinação da preposição de com o artigo a; eu escreveria o fato DE a maioria falar assim… Estou certa ou estou errada?”.

Olha, dona Lia, a regra a que a senhora se refere é uma regra pedagógica (não gramatical) de meados do séc. XIX, difundida por nomes importantes como Eduardo Carlos Pereira e repetida por muitos autores depois dele. Nosso idioma passava por um período em que pontificavam autoridades sem formação linguística científica, que imaginavam que a linguagem deveria ser um “sistema lógico”. Essa foi a mesma atitude equivocada que tentou, por exemplo, condenar a dupla negação como agramatical, desconhecendo que essa é uma maneira normal — em alguns casos, inclusive, obrigatória — de reforçar a negação (por exemplo, não podemos usar nada se não houver uma palavra negativa anterior: não ganhei nada).

Confundindo a análise lógica com a análise sintática e fonética, esses autores condenavam frases como “na hora DO papai chegar” alegando que papai, que é o sujeito do verbo, não poderia vir regido pela preposição de e que, por isso, deveríamos manter o artigo separado (“na hora DE o papai chegar”). Ora, autores da importância de Evanildo Bechara e Celso Pedro Luft apontam o equívoco dos gramáticos de antanho: isso nada tem a ver com subordinação sintática; a sequência de + o se transforma em do por um processo meramente fonético que recebe o nome de elisão. E tem mais: como já notou Sousa da Silveira, na fala essa elisão é obrigatória — o que é bom deixar bem claro. Que ninguém se ponha a pronunciar a preposição separada do pronome, porque tamanho disparate nunca se viu no vernáculo.

Na escrita, essa elisão foi praticada pelos melhores autores de nosso idioma: “São horas da baronesa dar o seu passeio pela chácara” (Machado). “Antes dele avistar o palácio de Porto Alvo” (Camilo). “Sabia-o antes do caso suceder” (Herculano). “Antes do sol nascer, já era nascido” (Padre Vieira). “Apesar das couves serem uma só das muitas espécies de legumes” (Rui Barbosa). Fica evidente que por séculos esta era uma construção correta, antes que alguém tentasse impor uma restrição quanto a ela, certamente levado por um raciocínio equivocado.

Infelizmente, a imprensa foi mordida pelo mosquito e passou a separar sistematicamente a preposição do artigo, dando a aparência de obrigatória a uma regra que Cegalla, na mosca, classifica de uma “inovação ao arrepio da tradição da língua”. O uso, porém, ficou tão generalizado que não se pode mais considerar errada esta construção, apesar do que ela tem de artificial e malsoante. Acerta, portanto, quem mantém a preposição separada, e acerta quem faz a elisão com o artigo ou o pronome. Como podem ver pelo título desta coluna, este é o meu caso — muito faceiro, aqui, de braço dado com o padre Vieira e com Machado de Assis.