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Molhos e molhes

 

Reúna o molho de pimenta, o molho de chaves, os molhos do fondue e os molhes da barra e terá uma maçaroca de significados e de pronúncias.

 

— A leitora Balbina V. quer resolver uma pequena disputa doméstica: visitando a Serra gaúcha juntamente com os netos,  seu marido, ao se referir aos molhos que costumam acompanhar o fondue borguinhão (o de carne, não o de queijo), pronunciou /mólhos/, com o que ela não concordou. Diz ela: “Para mim, molhos com o O aberto é aquela construção de pedra que vai mar adentro, como fizeram na barra do Cassino e do Mampituba, aqui no Rio Grande do Sul. Na comida, deve ser com a vogal fechada mesmo. O que o senhor acha? Aliás, não é por isso que escrevemos com acento circunflexo?”.

Cara leitora, sem querer ser deselegante, eu diria que deste uma martelada no prego mas várias na tábua. Para deixar tudo bem claro, no entanto, temos de fazer algumas distinções etimológicas. Em primeiro lugar — no caso do fondue — temos o molho, o qual, segundo a pitoresca definição de Morais, é “líquido temperado segundo a arte dos cozinheiros, em que vêm certos guisados de peixe ou de carne para terem melhor sabor” (para quem estranhar o guisado de peixe, lembro que aqui o termo está empregado no sentido original de “refogar em temperos”; no Brasil, só os gaúchos usam este termo com o sentido de “carne moída”). Aqui a razão está contigo: o O fica fechado tanto no singular quanto no plural.

Em segundo lugar, temos um outro molho (/ó/), que significa “feixe, conjunto de coisas unidas”. Podemos ter um molho de cenouras, de lenha, de gravetos, de ervas, de espigas, de rosas, de cordas e, naturalmente, um molho de chaves. Neste caso, o O fica aberto tanto no singular, quanto no plural. Vou ceder aqui à despudorada tentação de citar a mim mesmo, em coluna mais antiga: “Como nos ensinavam as boas professoras de antigamente, um molho (/ó/) de espinafre é bem diferente de um molho (/ô/) de espinafre — o que torna o molho (/ô/) de chaves, como muita gente diz, uma radical inovação culinária”.

Em terceiro lugar, aparece mole, aparentemente um estranho no ninho. Este vocábulo vem do Latim moles (“imenso volume ou massa”) e hoje está circunscrito à linguagem literária, tanto no sentido real quanto figurado: “No meio daquela vasta mole de pedra, em que os sons discordes reboavam” (Alexandre Herculano); “A moça teve um deslumbramento: em seu espírito, subitamente iluminado, fez-se vácuo enorme, desmoronou-se fragorosa a mole das ilusões” (Júlio Ribeiro).

De inhapa, uma curiosidade: é daí que vem a molécula (diminutivo latino de moles), termo que antigamente significava “pequena massa; pequena partícula de um corpo”. Pois também é daí que vem o molhe, que Bluteau define, na sua saborosa linguagem setecentista, como “lanço de muro grosso, a moda de cais, que se faz em alguns portos de mar para abrigar os navios do ímpeto das ondas”. Aqui, cara Balbina, tua martelada errou o prego e deu na tábua: o que temos na barra da Lagoa dos Patos, em Rio Grande, são molhes — e não molhos, como pensavas.

Por fim, também te enganas quanto ao acento — mas este é um equívoco totalmente desculpável; quem já tem tem netos em idade de comer fondue deve ter sido alfabetizado antes de 1971, ano em que foi abolido aquele acento que distinguia pares homógrafos que se diferenciam apenas pelo timbre da vogal, como porto:pôrto, almoço:almôço, gelo:gêlo e molho:môlho, entre vários outros (o único a ser poupado até hoje foi pode:pôde). Muitos lamentam a perda deste acento, mas o contexto dá conta do recado. Não há dúvida de que não estamos falando em comida em exemplos como “Depois do almoço fui à casa de D. Plácida; achei um molho de ossos, envolto em molambos” (Machado) ou “No seu farto cabelo, crespo e reluzente, puxado sobre a nuca, havia um molho de manjericão” (Aluísio Azevedo).

 

 

 

 

 

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Destaque Formação de palavras Origem das palavras

Homofóbico

Diferentemente de HOMÔNIMO, o termo HOMOFÓBICO nasce do encontro de dois processos diferentes de formação de palavras.

“Professor, até hoje não consigo compreender o termo homofóbico. Não falo do sentido, que me parece bem claro, mas das partes que o compõem. Este homo quer dizer “semelhante”, como em homógrafo, não é? Pelo que eu entendo, homossexual é quem procura parceiros de sexo semelhante ao seu; pela mesma razão, homofóbico não deveria significar quem tem aversão a seu semelhante? Onde foi que eu me enganei?” — pergunta Alcides M., de Santos, São Paulo.

Caro Alcides, não foste o primeiro, nem serás o último a levantar este problema. Aqui mesmo, nesta coluna, tive a oportunidade de tratar do assunto, mas vou explicar de novo, pois já lá vai uma meia dúzia de anos. Vamos começar pela parte mais fácil, que é a fobia. Esta palavra fobia tem origem na mitologia grega: Fobos, (“medo”), era filho de Afrodite e Ares (em Roma, Vênus e Marte, respectivamente), fruto da mais célebre e invejada relação extraconjugal da literatura clássica, narrada por Homero no canto VIII da Odisseia. Era gêmeo de Deimos (“pavor”), e não foi por acaso que o astrônomo que descobriu os dois satélites do planeta Marte batizou-os com o nome dos irmãos.

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Tecnicamente, o termo fobia designa um medo incontrolável, irracional, muitas vezes exagerado, que nos domina em determinadas situações e terminam atrapalhando nossa vida. Quem sofre de claustrofobia, como eu, por exemplo, não consegue controlar seu pânico ao entrar em lugares fechados ou exíguos — e já sei que vou me ver em betas quando visitar as pirâmides do Egito neste outubro próximo. Originalmente, fobia só se juntava a outros elementos gregos, como ela — xenofobia (de xenos, “estrangeiro”); acrofobia (de ákros, “altura”); hidrofobia (de hydro, “água” — nome antigo da raiva, porque um dos sintomas de quem foi infectado pelo vírus é a dificuldade de ingerir qualquer líquido); fotofobia (de foto, “luz”). Com o tempo, porém — como era natural — fobia passou a fazer parte dos utensílios básicos de nossa cozinha linguística, capaz de ser acrescentado a vocábulos quotidianos do Português, como em gordofobia, veganofobia, islamofobia, velhofobia (uma versão popular para a gerontofobia, “antipatia por idosos”) e muitos outros mais que se usam ou usarão nesta época de infinitas intolerâncias.

Agora, vamos ao homo. Aqui vais ver em ação um novo processo de formação de palavras, razoavelmente recente (não chega a ter cem anos, o que, em linguagem, é muito pouco): no momento em que palavras complexas, de origem erudita, ingressam no vocabulário usual do brasileiro, há uma forte tendência a reduzi-las a um padrão prosódico mais confortável. Foi assim que fotografia virou foto e motocicleta virou moto, por exemplo. É um progresso, sem dúvida — mas nem todo o mundo se deu conta de que, por trás desta simples operação de encurtamento, a língua portuguesa estava parindo um novo vocabulozinho que iria fazer concorrência com seu pai. Em fotossíntese, fotocélula, fotofobia e fotografia, podemos ver claramente que este elemento foto tem, como no Grego, o significado de “luz”,  Ora, no momento em que reduzimos fotografia para foto, criamos um vocábulo com a mesma forma mas com sentido completamente diferente: em fotomontagem ou fotojornalismo, foto significa “fotografia”, e não “luz”.  Em autobiografia, autocomiseração e automóvel, o auto original significa “a si mesmo”; no momento em que encurtamos automóvel para auto, com o sentido de carro, passamos a ter uma novidade como automecânica, que é uma mecânica de carros, e não uma mecânica de si mesma. Temos, portanto, um autoA e um autoB — e um bom dicionário deveria abrir uma entrada diferente para cada um.

Pois foi exatamente isso o que aconteceu com homo, que recebemos do Grego com o sentido de “igual, semelhante” (o antônimo de hétero), como se vê em palavras eruditas como homônimo (“o mesmo nome”) e homossexual (“o mesmo sexo”). Este último, ao sair do restrito mundo acadêmico e ingressar na fala de todo o mundo, sofreu o natural encurtamento para homo, figurando já com o novo sentido em compostos como homoafetivo, homoerótico e homofobia, onde não mais significa “semelhante”. Como um Lego infinito, nosso idioma, sem parar, combina e recombina suas peças para acompanhar nossa realidade.

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Como se escreve Destaque Lições de gramática Semântica

A gente

Quanto mais violento for seu ataque aos erros alheios, maior a chance de você mesmo se esborrachar logo ali adiante.

“Se existe alguma chance de dar errado, vai dar” é uma versão coloquial da famosa Lei de Murphy, formulada em 1949 pelo engenheiro Edward Murphy (não, não existiu uma Lady Murphy, como alguns acreditam). Se Murphy mantivesse, como eu, uma coluna sobre questões da língua, poderia acrescentar outra regra a seu currículo, desta feita sobre os que escrevem para O Prazer das Palavras: “Quanto mais violento for o  ataque aos erros dos outros, maior a chance do próprio autor da denúncia se esborrachar logo ali adiante”.

Foi exatamente assim que os deuses castigaram Xavier de Tal, um intolerante leitor de Cascavel, no Paraná, que escreveu mais para comandar do que para perguntar: “Professor, leio e guardo religiosamente todas as suas colunas desde 2003. Sou seu fã, mas gostaria de saber até quando o senhor vai tolerar este “agente procura” e “agente decidiu” que o Jornal Nacional introduziu. Essa burrice cresceu como erva daninha e agora contaminou toda a TV.  Só espero que o senhor não vá ficar em cima do muro”.

Caro Xavier, sossega o teu pito, que isso não é novo, nem burrice. Construções como “a gente precisa conversar”, “a gente vai sair perdendo”, etc., são exemplos corretos do uso desse “pronome” indeterminador que nosso idioma desenvolveu a partir do séc. 19. O dicionário Houaiss registra, como um dos significados de gente, “a pessoa que fala em nome de si própria e de outro(s); nós, como em “a gente resolveu se mudar para o campo”.

É verdade que, na origem, a gente não se referia a nós, mas sim aos outros, às demais pessoas. Camões, um pouco depois do descobrimento do Brasil, ao descrever a fina indumentária com que Vasco da Gama se apresentou aos nativos, diz que era feita de tecido carmim, “cor que a gente tanto preza” (leia-se “eles”). Este emprego ainda aparece no próprio Eça de Queirós, em O Crime do Padre Amaro: a menina Amélia, ao saber que a tia e sua comitiva perambulavam pelo olival ainda enlameado pelas chuvas, exclama: “Vai-se a gente sujar toda” (leia-se “elas”).

No entanto, no séc. 19 a expressão passa a ser usada exclusivamente como substituta do nós. Vamos encontrar, sem dificuldade alguma, dezenas de exemplos nos nossos maiores escritores, dos quais Eça de Queirós e Machado de Assis são os mais brilhantes. Em Eça, por exemplo, vamos  ler “A gente aprende no seminário, minha senhora”, “A gente gosta do que é bom”, “A gente não pode confiar em ninguém”, entre dezenas de outros. Em Machado de Assis, “A gente não esquece nunca a terra em que nasceu”, “A gente ria das respostas dele”, “Sim, mas a gente não dança com ideias, dança com as pernas”.

A força com que a gente entrou no Português quotidiano parece revelar que temos necessidade de uma forma assim — um espécie de pronome impessoal, como o on do Francês, para substituir o nós, que é muito mais particularizado. É importante notar que, do ponto de vista flexional, a gente tem a vantagem de usar a 3ª pessoa do singular, a mais simples e menos marcada de todas: “a gente foi ao cinema, “a gente precisa de apoio“, etc.

Dois perigos, contudo, rondam aqui o falante incauto. O primeiro é esquecer que a gente equivale a nós do ponto de vista semântico, mas não do ponto de vista gramatical. Dito de outra forma: enquanto nós exige o verbo na primeira do plural, a gente exige o verbo na terceira: nós vamos, mas a gente vai — e jamais a gente *vamos. Na língua escrita culta, isso é erro bravio, de mato cerrado. Há mais de trinta anos a banda Ultraje a Rigor ridicularizou esse erro — aliás, numa bela batida funque — no seu antigo sucesso  A gente somos inútil!

O segundo, que te interessa mais de perto, é a tendência equivocada de deixar o artigo colado ao substantivo, como se fosse uma palavra só, isto é, escrever *agente junto, assim como o agente secreto, o agente policial — o mesmo *agente que aparece duas vezes na tua mensagem, erro teu, erro escrito que não podes atribuir à maneira como falam na TV.

 

 

 

 

 

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Conceitos lingüísticos Destaque Gênero Lições de gramática

Patinete

Quando se trata de determinar o gênero das visitantes francesas, tudo pode acontecer

Luís Carlos W., de Guarulhos (SP), comparece com uma novidade: “Vi um lançamento no jornal que me deixou em dúvida, professor. Como já ocorre com bicicletas, em breve vamos dispor também de patinetes para alugar. O problema é que a reportagem fala todo o tempo em patinetes compartilhadas e patinetes elétricas, e eu, que já tenho netos, passei toda a minha vida usando patinete como masculino. Minha filha tem um dicionário que diz que é feminino mesmo, mas eu não me conformo. Falei errado todo esse tempo? E meus amigos também? Isso é coisa do novo Acordo Ortográfico?”.

Começo respondendo à tua última pergunta: a resposta é não. O Acordo, mesmo que tenha seus defeitos (e não são poucos, como cansei de expor nesta coluna), não trata disso. Ele regula apenas a maneira de escrever as palavras, ou seja, o uso das letras e dos sinais de que se utiliza nosso sistema ortográfico.

Agora, vamos à tua dúvida central: patinete é masculino ou feminino? Que o termo vem do Francês patinette, ninguém discute. Nas margens do Sena, é um substantivo feminino. E aqui? Em que porta do banheiro ele vai entrar – “Eles” ou “Elas”? “Damas” ou “Cavalheiros”? Ou, como vi num desses cafés de estrada, na porta do “Adão” ou na da “Eva”? (este maniqueísmo, considerado conservador para alguns, corresponde a um mundo em que os banheiros eram distribuídos por sexo, não por gênero).

Ora, como sabes, atribuímos um gênero a todos os nossos substantivos. Os que correspondem a seres sexuados (leão, professor, mestre) geralmente apresentam uma forma masculina e uma feminina; nesses casos, o gênero combina biologicamente com o sexo. O gênero dos demais substantivos, contudo, é arbitrário: eles se distribuem entre masculinos e femininos segundo critérios imponderáveis. Como apontou Jorge Luiz Borges,  nada explica − nem o significado, nem o tamanho − por que espada e alfinete têm o gênero que têm.

No caso de palavras importadas, a hesitação é praticamente inevitável, já que nada pode nos dizer, de antemão, se o vocábulo vai ser masculino ou feminino quando chegar aqui. Ao ingressar em nosso idioma, qualquer vocábulo imigrante deverá ser classificado mentalmente pelo falante num dos dois gêneros que o Português reconhece, sem garantia alguma de que vá coincidir com o gênero que tinha no idioma de origem. Há casos clássicos de palavras que mudaram de gênero na travessia do Atlântico: por exemplo la cocarde virou o cocar, la purée virou o purê (ou, na linguagem das crianças, o pirê) e la enveloppe virou o envelope.

Quanto às visitantes francesas terminadas em -ette (que lá são feminininas), os brasileiros (incluindo os vetustos gramáticos e os intrépidos lexicógrafos) se dividem − e aqui tudo pode acontecer. Essas autoridades nos concedem, por exemplo, o direito de escolher o gênero que quisermos para omelete. De minha parte, prefiro considerar o vocábulo como feminino; não foi por acaso que a variante que se formou (e que todos os dicionários registram) é omeleta. Não consigo entender, no entanto, por que não estendem a mesma liberalidade a patinete, a que atribuem, sem perdão, o gênero feminino − quando, na pesquisa implacável do Google, o masculino é a preferência de cinco de cada seis usuários.

Vai terminar acontecendo o mesmo que aconteceu com croquete, que (nada mais moderno!) está trocando de gênero. Inicialmente era apontado como feminino, mas o uso privilegiou esmagadoramente o masculino − aliás, com o apoio da famosa geração do Pasquim, que usava “agasalhar um croquete” como sinônimo de “entubar uma brachola” ou “enfornar um robalo”, se bem me entendem.

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Através dos dicionários Destaque Lições de gramática - Respostas rápidas

As manhas do dicionário

Apesar de parecer sólido e oracular, o dicionário vai desapontar quem não apertar os botões corretos. Mesmo sendo cavalo mansinho, ele também tem o lado certo de montar.

Entre muitas outras coisas, a vida de professor nos ensina que nenhuma pergunta é óbvia para quem a faz. Aliás, essa é a nossa principal tarefa: a partir da dúvida do aluno, descobrir qual o fiozinho que está desligado, isto é, qual é a informação que está faltando para que ele volte, pelas próprias pernas, para o caminho certo. Até mesmo o dicionário, que era inocentemente chamado de amansa-burro (expressão que hoje pode desagradar tanto às pedagogas quanto às defensoras dos animais) — até mesmo o dicionário, repito, que parece tão sólido e oracular, vai desapontar o usuário que não souber apertar os botões corretos. Abaixo vão alguns exemplos.

A leitora Cássia A. escreve: “Sei que a palavra noz possui os diminutivos irregulares núcula e nucela; gostaria de saber se ela possui também o diminutivo regular nozinha, que não está no dicionário” — Não está porque não precisa, Cássia. Qualquer substantivo ou adjetivo pode formar, se quisermos, um diminutivo em -inho ou em -zinho. Se voz tem vozinha, luz tem luzinha, noz pode ter nozinha (aliás, usamos muito, aqui em casa, no Natal). Por medida de economia, os dicionários registram só os diminutivos e os aumentativos irregulares: chorinho, de choro, é indispensável por causa da música; folhinha, de folha, por causa do calendário; macacão, por causa do traje — e assim por diante.

A mesma explicação, aliás, serve para a leitora Belisa F., de Macapá, que informa não ter encontrado em lugar algum a explicação da palavra inextricavelmente: basta procurar inextricável. Por ser um processo automático do idioma — todo adjetivo pode, com o acréscimo de -mente, produzir um advérbio —, os dicionários aproveitam para registrar apenas aqueles que fogem ao significado original (literalmente, por exemplo, que pode ser tanto “expressamente” quanto “totalmente”, como em “Isso foi dito literalmente” e “Estava literalmente arrasado”).  E aqui vai um caveat para ambas, Cássia e Elisa: esta é a maior, se não única,  desvantagem do dicionário eletrônico (tanto no computador quanto no celular): na edição em papel, ao procurar inextricavelmente, o usuário vai deparar com inextricável, e aí mais de meio caminho já estará andado. Na edição eletrônica, porém, vai receber apenas a chocha mensagem de “verbete inexistente”.

João Carlos C., de São Paulo, tem dúvida sobre a pronúncia do “X” no nome do filósofo grego Anaxágoras, enquanto Carlos R. Júnior, de Porto Alegre, precisa saber se a grafia correta é Groenlândia ou Groelândia. O problema é o mesmo, e mesma é a solução: nossos dicionários, ao contrário dos dicionários ingleses, não incluem nomes próprios, mas sempre podemos encontrar algum substantivo ou adjetivo derivados que nos deem a informação procurada. O dicionário Houaiss, nos verbetes anaxagoriano e anaxagórico, recomenda pronúncia /cs/, e define groenlandês como “aquele que é natural ou habitante da Groenlândia“. Está respondido.

Javier S., de Montevidéu, quer saber por que os dicionários não indicam se incesto e dolo têm a pronúncia aberta ou fechada. Caro Javier: eles indicam, sim. Nossos dicionários seguem sempre a mesma  convenção: quando deixam de indicar o timbre da vogal, é porque a consideram aberta. Em porto, cedo e lagosta, há a indicação, entre parênteses, de que a vogal é fechada — mas nada consta em verbetes como porta, credo e, da mesma forma, incesto e dolo

Finalmente, Misael P., de Recife, escreve para dizer que não encontra o significado de boxo e boxa que aparecem num poema de Drummond: “Hoje sou moço moderno,/ remo, pulo, danço, boxo,/tenho dinheiro no banco./Você é uma loura notável,/boxa, dança, pula, rema”. Ora, prezado Misael, o velho Drummond está usando o verbo boxar (variante de boxear) — e os lexicógrafos jamais registram os verbos conjugados (a cinquenta e poucas flexões por verbo, isso implicaria acrescentar mais de um milhão de formas ao corpo do dicionário). Aqui um dicionário eletrônico ganha mil pontos sobre seus colegas impressos: ao consultarmos o verbete de um verbo, podemos abrir, a um simples clique, uma janela contendo sua conjugação completinha.

 

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Dois a um

“Conhecer uma língua estrangeira aumenta em muito a nossa capacidade de entender nossa língua materna”

Ao longo desses quase vinte anos de coluna, já devo ter respondido algumas vezes à pergunta que me envia Nise P., de Juiz de Fora: afinal, em termos de vocabulário, quem leva a melhor − o Inglês ou o Português? Diz ela: “Na minha última viagem à Inglaterra, fiquei surpresa quando o atendente da quitanda não entendeu meu comentário de que as bananas estavam green, isto é, verdes; foi só no hotel, olhando o Google, que me dei conta do mico: a palavra certa seria unripe, porque green só serve para a cor. Por que eles têm duas palavras onde só temos uma?”.

Pois aí está, de forma bem concreta, prezada Nise, a comprovação de que conhecer uma língua estrangeira aumenta em muito a nossa capacidade de entender a “língua que bebemos com o leite”, na bela expressão de Cervantes para descrever a língua materna. A inevitável comparação entre os dois sistemas nos faz enxergar, a cada passo, características que antes passavam despercebidas, especialmente no léxico, e nos damos conta, como tu, de que nossa língua pode fazer distinções que a outra não tem, e vice-versa. Reconheço que fiquei muito orgulhoso quando fiquei sabendo que o Espanhol  designa com uma só palavrinha (celo, celos) o que nós distribuímos meticulosamente entre três, zelo, cio e ciúme  — mas logo ali adiante vi o jogo empatar, ao saber que eles distinguem entre sino e pero onde temos apenas o nosso mas.

Na verdade, o idioma inglês tem um léxico mais rico do que o nosso. As razões são conhecidas: sendo uma língua do tronco germânico, como o Holandês e o Alemão, o Inglês recebeu também forte influência do Latim da Igreja e do Francês (através dos Normandos, que ocuparam a Inglaterra do séc. 11 ao séc. 12 − o que, aliás, teria daria um simbolismo especial a uma decisão da Copa entre a Inglaterra e a França, não tivesse a Croácia surpreendido os súditos da rainha Elizabeth). Por causa disso, o léxico apresenta uma variada mistura dessas três diferentes origens − o que faz com que os falantes do Inglês tenham mais escolhas do que nós, dispondo de dois vocábulos onde temos apenas um.

As redes sociais comentam o aborto da cantora? Lá seria feita a distinção entre abortion (como em “legalização do aborto”) e miscarriage (“O choque provocou o aborto”). O nosso voto lá é trocado por dois: vote (“pôs o voto na urna”) e vow (“voto de pobreza”). Eles têm dois tipos de banco: bank (onde mora o dinheiro) e bench (o banco da praça). Nossa política lá vai ser traduzida por politics (na pena corrosiva de Ambrose Bierce, “a condução dos negócios públicos para proveito dos particulares”) ou policy (a política da empresa). Falamos sobre o sucesso de um casamento? Essa frase é ambígua para nós, mas nunca o seria no Inglês, pois ele distingue wedding (a cerimônia) de marriage (a convivência).

Às vezes o escore aumenta para três a um. Onde temos raio, por exemplo, eles têm (1) ray (“raio de luz”, “pistola de raios”), (2) radius (o “raio de um círculo”) e (3) lightning (a “descarga elétrica”). Aqui, podemos dobrar o papel, o braço, a aposta e dobrar à esquerda; lá, fold o papel, bend o braço, double a aposta e turn à esquerda. Usamos tocar onde eles usam touch (fazer contato), play (tocar um instrumento) e ring (o telefone). A nossa receita corresponde, na língua deles, a recipe (culinária), prescription (médica) e revenue (“a receita do município”).

Esses, Nise, são apenas alguns dos tantos exemplos que eu poderia mostrar. Confesso que alguns deles me deixam com inveja (no mundo da linguagem, distinções precisas de significado são ouro puro), mas me contento com o nosso tesouro, que eu não trocaria por toda essa lista de casos: a oposição entre ser e estar. Nós distinguimos naturalmente “ela é bonita” de “ela está bonita”, coisa que o Inglês não pode fazer porque dispõe, para ambos os casos, do simples verbo to be, sendo obrigado a recorrer a expressões auxiliares para assinalar a distinção entre o permanente e o transitório, fundamental na vida e na Filosofia.

[Publicado em ZH – 12/07/2018  | Ilustração de Edu Oliveira]

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Língua brasileira?

O Brasil se expressa de uma forma tão peculiar que nos permita falar de uma LÍNGUA BRASILEIRA?

O leitor Vanderlei S.T, de Caxias, Rio de Janeiro, vem ressuscitar uma questão há muito sepultada: “Professor, vendo na TV as entrevistas dos jogadores portugueses na Copa, lembrei que o grande compositor Orestes Barbosa, que nos deu o imortal Chão de Estrelas, dizia que não importava quem tinha descoberto o Brasil, porque a língua que falamos é a língua brasileira e não a língua portuguesa. Por que esse assunto não é mais discutido?”.

Caro Vanderlei, não existe uma língua brasileira. Nós falamos a língua portuguesa, da mesma forma que Portugal, Angola, Moçambique e os demais países que integram a chamada comunidade lusófona. O âmago é o mesmo: o sistema flexional é o mesmo, os processos de formação de palavras são os mesmos, o sistema de subordinação é o mesmo, e mesma também é conjugação dos verbos — num quadro similar, mutatis mutandis, ao que acontece com o Inglês, no qual se reconhecem variações britânicas, americanas, australianas e sabe-se lá quantas outras.

As diferenças que existem entre essas variedades, se por um lado ajudam a identificar sua proveniência, são insuficientes para caracterizar um idioma diferente. Um brasileiro diria “Passei a manhã lendo o jornal”, “Te amo”, “Preciso falar com você“; já um português preferiria “Passei a manhã a ler o jornal”, “Amo-te“, “Preciso falar consigo” — mas isso é muito pouco. Na pronúncia, é verdade, o Brasil e Portugal (com sua redução do quadro das vogais) se afastaram muito, o que exige de brasileiros como eu e tu, diante de um programa de TV gerado em Portugal, um esforço inicial para acomodar o ouvido ao novo sistema.

A diferença mais chamativa — e talvez a que mais influa na sensação de que haveria uma língua brasileira autônoma — está no léxico, isto é, nos nomes que damos às coisas. Ora, se isso ocorre mesmo dentro do Brasil, onde uns param no sinal, outros no farol, outros na sinaleira e outros ainda no semáforo, nada mais natural que isso ocorra entre países com realidades tão diversas — ainda mais que Portugal não teve, como nós, a contribuição enriquecedora das línguas indígenas e africanas. A compilação mais completa que conheço foi feita por Mauro Villar, nome assaz conhecido por ser o diretor do instituto que edita (e cultiva) o dicionário Houaiss. Em 1989, depois de passar alguns anos no Velho Mundo, o autor publicou o interessantíssimo Dicionário Contrastivo Luso-Brasileiro, no qual relaciona os vocábulos usados em Portugal e dá o seu equivalente no léxico brasileiro; embora não tenha sido escrito com a intenção de ser cômico, é uma excelente e divertida leitura (a obra está esgotada, mas pode ser encontrada na Estante Virtual,  o  sebo de todos os sebos.

Ali, por exemplo, podemos enxergar nitidamente a riqueza dos nossos processos de formação de palavras: nossa parada do transporte coletivo lá é paragem; aposentadoria é aposentação; bolsista é bolseiro; canadense é canadiano; a indústria automobilista é a indústria automóvel. O refrigerador é o frigorífico, enquanto o salva-vidas é o banheiro (na minha distante Rio Grande, nós o chamávamos de banhista); o que chamamos de banheiro lá é a casa de banho, prima do nosso quarto de banho. (Friso que esses exemplos e todos os que virão abaixo datam de 1989; se nesse meio tempo houve uma ou outra alteração neste quadro, o número certamente será desprezível).

Há casos em que a lógica que presidiu a formação é a mesma, mas a base escolhida é diferente. Nosso aquecedor é lá o esquentador; os mergulhadores portugueses usam barbatanas onde os nossos usam pés-de-pato; nós pisamos nos freios para frear, eles nos travões para travar. O encanador é o canalizador, e o batedor de carteiras, nosso punguista, lá se chama de carteirista.

Também divergimos da língua onde fomos buscar o vocábulo: nosso concreto lá é  betão (do Fr. béton — de onde veio, aliás, a betoneira); a tela é o ecrã (do Fr. écran); o grampo (para grampear papéis) é agrafe (do Fr. agrafe); a mamadeira dos nossos bebês lá é o biberão (do Fr. biberon). Nossa herança indígena e africana nos deu excelentes termos genéricos como capim e pereba, que eles não têm. Nossa caxumba é a papeira deles, o camundongo é simplesmente o ratinho e ONDE temos a bunda eles têm a nádega ou o rabo − e assim por diante, numa lista de menos de mil vocábulos numa língua que tem mais de meio milhão. Como eu disse, é muito pouco.

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Galicismos

Podemos viver sem as palavras de origem francesa? Imagine se nosso léxico fosse atingido por um raio desgalicizador! Ao acordar pela manhã, você não poderia mais falar em abajur, avalanche, omelete ou tricô.

Em 1882, na abertura de seus Papéis Avulsos, dirigindo-se ao leitor, como de costume, Machado de Assis encerra assim sua apresentação: “Deste modo, venha donde vier o reproche, espero que daí mesmo virá a absolvição”. Ah, não deu outra: na edição seguinte, ele se sente na obrigação de acrescentar uma nota ao final, onde informa, com sua habitual elegância: “Cerca de dois anos para cá, recebi duas cartas anônimas, escritas por pessoa inteligente e simpática, em que me foi notado o uso do vocábulo reproche. Não sabendo como responda ao meu estimável correspondente, aproveito esta ocasião. Reproche não é galicismo” — e segue a explicação, citando autores clássicos e respeitáveis. Duas cartas em dois anos! E de um correspondente educado! Que inveja! Penso no frenético Facebook e imagino hoje o pobre Machado enfrentando aquela lista interminável de opiniões tiradas do oco do umbigo (para não citar outro oco mais ao sul) e de bordões como “Fora Temer” e “Lula na prisão”…

Mas a que se deve essa manifestação de Machado? Por que acusar o  recebimento de uma banal carta anônima? A quem se dirigia, realmente, esta justificativa? Ora, sem dúvida alguma, ao clã dos puristas: no final do 2º Império, a extraordinária (e benéfica, a meu ver) influência da França em nossa cultura e em nossa língua começou a receber a oposição de um seita de radicais conservadores, absolutamente xiitas, que bradavam, com muita vontade e pouca ciência, contra a adoção desses galicismos, termo despectivo com que  tentavam fulminar os vocábulos franceses. Este grupo militante, é claro, pregava aos peixes, exaurindo-se numa causa equivocada, travada bem no momento em que mais forte foi sentida a influência do Francês em nossa vida (é significativo que um simpósio sobre a influência da cultura francesa no Brasil Imperial, ocorrido na USP em 2009, tenha escolhido como mote “O Século 19: um imenso galicismo”. Já o século 20, com as duas guerras e o cinema, traria, como sabemos, a ascensão vertiginosa do Inglês).

Para avaliar a extensão do equívoco dos puristas, imagine o amigo leitor que numa noite trágica nosso léxico fosse banhado por um raio desgalicizador, que eliminasse todos esses intrusos: ao acordar de manhã, você não poderia mais falar em abajur, avalanche, batom, bege, bijuteria, boate, boné, bufê, buquê, cachê, camelô, cassetete, chalé, chantagem, chique, chofer, creche, croquete, cupom, dossiê, filé, garagem, garçom, greve, guichê, lingerie, maiô, maionese, maquete, marrom, menu, omelete, placar, raquete, reprise, revanche, sutiã, toalete, tricô — e isso seria apenas a entrada, porque ainda faltariam os pratos quentes, a sobremesa e o licor. Alguns desses empréstimos eram desnecessários e apenas duplicavam palavras que já tínhamos; o tempo os eliminou, e só os consagrados sobreviveram.

Um caso curioso é rastaquera, que serve de título a esta coluna. Na aparência, poderia ser tomada por uma daquelas  expressões de origem obscura, como brega ou mocorongo, por exemplo; no entanto, ela nos veio do  Francês rastaquouère, termo usado para designar os novo-ricos latino-americanos que ostentavam sua riqueza e seu mau gosto na Paris no final do séc. 19. Incultos, ruidosos, inconvenientes, eles se carregavam “profusamente de joias — para faiscarem de longe”, diz Eça de Queirós (ele escreve rastaquère mesmo, despachando aqueles ditongos incômodos). Os dicionários mais rigorosos da França, no entanto, dizem que o termo é uma adaptação francesa do Espanhol rastracueros, literalmente “arrasta couros”, uma referência ao fato de que esses milionários da América Latina deviam sua fortuna principalmente ao comércio de couro. Não é para nos gabar, mas brasileiro foi usado por muito tempo na Europa como sinônimo para rastaquera, principalmente por causa dos emigrados que voltavam para o Velho Mundo com suas riquezas bem ou mal havidas, dispostos a tudo para “brilhar” na sociedade — até mesmo a enrolar um guardanapo na cabeça para executar, num restaurante grã-fino, aquela constrangedora dancinha que marcou, simbolicamente, o fim de Sérgio Cabral e sua quadrilha.

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Caminhão

Por acaso um vocábulo tecnicamente “malformado” como CAMINHÃO não tem o direito de viver? É nos desvios da norma que a língua está realmente inovando.

Confesso que fiquei emocionado quando vi, entre os e-mails de sempre, uma mensagem de antiga colega da quinta série, quando eu me preparava para o Exame de Admissão. Muito gentil, ela faz questão de informar que está morando em São Paulo mas acompanha o meu trabalho há muitos anos, até porque — eu não sabia — cursou a faculdade de Jornalismo e sempre trabalhou como revisora de texto. “Já usei várias de tuas colunas para amansar clientes teimosos — sabes como é, aqueles que embirram contra as correções que proponho. Também pesquiso bastante no teu site, mas desta vez não achei o que eu preciso: o dono de uma pequena rede de clubes noturnos leu em algum lugar que é errado chamar de consumação aquela quantia mínima que se cobra na entrada, pois o certo seria consumição — aquilo que será consumido. Não posso negar que haja certa lógica no que ele afirma, mas minha intuição e alguns bons dicionários dizem que sempre foi assim e que seria imprudência mexer nisso. Só não tenho nenhum argumento técnico para contrariá-lo; como dizia nosso hino, “pela glória do Instituto e a grandeza do Brasil”, podes ajudar esta velha colega?”.

Posso, sim — e com todo o prazer. Estamos diante de um dos incontáveis exemplos da legítima criatividade linguística — a verdadeira, a genuína —, diferente da criatividade estrutural, intrínseca a qualquer idioma. Como bem sabes, há processos de formação que estão registrados no DNA da língua portuguesa, segundo os quais as mesmas causas sempre vão produzir os mesmos efeitos: a partir de verbos transitivos diretos, por exemplo, podemos gerar adjetivos com o sufixo –vel: lavar, lavável; crer, crível; comer, comível. Quando aquele ministro do Collor se saiu com um imexível, ele não estava criando o termo, como foi dito na época, mas apenas usando um mecanismo regular que o Português põe à nossa disposição.

Do mesmo modo, -ção é um dos sufixos usados para derivar um substantivo abstrato a partir de um verbo: agitar, agitação; atribuir, atribuição; definir, definição. Por esse modelo, consumirconsumição, mesmo — e consumação deriva de consumar (lembro a “consumação do casamento”, por exemplo). No entanto, por influência do Fr. consommation, os brasileiros consagraram o derivado de consumar para exprimir o ato de consumir. Para alguns autores, esta irregularidade basta para condenar o recém-nascido; para outros (que eu prefiro), é nestes desvios da norma que a língua está realmente inovando. E por acaso esses vocábulos tecnicamente “malformados”, esses “acidentes genéticos” não têm o direito de viver?  Quem vai decidir é o plebiscito silencioso do uso: cada vez que alguém o emprega, está votando por sua existência, e hoje, no Google, “consumação mínima” está batendo cinco milhões e meio de ocorrências. Como meu mestre Luft dizia, entre amigos, “palavra nova é como macarrão; atirou na parede e colou? Então essa não morre mais”.

Queres um outro exemplo, dolorosamente atual? Caminhão veio do Fr. camion, termo usado desde o séc. 14 para designar uma carroça reforçada para o transporte de fardos pesados,  pedras de construção ou barricas de vinho (meu Robert Historique é taxativo: não há nenhuma hipótese satisfatória para sua origem, mas isso é lá problema deles). O vocábulo francês entrou em nosso idioma no séc. 20, quando se inventou o automóvel de carga, e camion logo se tornou camião, forma ainda hoje preferida em Portugal.

No entanto — e aqui entram aqueles fatores não previstos pelas regras de formação — por influência de caminho, criou-se a variante caminhão, que sempre foi a preferida dos brasileiros. A depender da forma escolhida para designar o veículo, assim serão seus derivados: camionista, camioneiro ou caminhonista, caminhoneiro. A escolha, assim como o voto, é livre e personalíssima.

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Rubrica

Muita gente prefere RÚBRICA à forma RUBRICA, mais aconselhável. Como vamos ver, há uma razão para isso. 

Escrevo esta coluna em Delfos, diante de uma janela que se abre para as impressionantes escarpas que abrigam o oráculo mais famoso do Mundo Antigo. Acabamos de deixar o Peloponeso, por onde viajamos cinco dias visitando aquelas cidades que vão figurar para sempre entre os lugares imortais de nossa imaginação ― Micenas, Corinto, Epidauro, Esparta e Olímpia. Nossa guia, a preciosa Konstantina, uma jovem grega que tem nome de rainha, modos de princesa e um Português que daria inveja a muita gente que conheço, faz um simpático esforço para entender os nomes gregos que pronunciamos à brasileira, tirando a sílaba tônica do lugar a que ela está habituada. Corinto, Epidauro e Olímpia são, para ela, /côrinto/, /epídauros/ e /olimpía/. Dizemos Aristóteles, Cleópatra e Tucídides; ela diz /aristotéles/, /cleopátra/ e /tucidídes/. Não há nada a estranhar: a prosódia do Português ― a colocação da sílaba tônica do vocábulo ― raramente vai coincidir com a prosódia do Grego, mas isso não vai atrapalhar nosso périplo pela Grécia: afinal, como dizia Fred Astaire na música dos irmãos Gershwin, para quem quer viver em harmonia não faz a menor diferença chamar a batata de /poteito/ ou de /potato/, e o tomate de /tomeito/ ou de /tomato/ (ouça aqui).

Ora, já que veio à baila o assunto da prosódia, selecionei, entre as perguntas que estão na lista de espera, uma que trata exatamente sobre este tema ― pergunta, aliás, muito original, como verão em seguida meus leitores. Sem dar o nome, alguém que usa o e-mail “professora.capixaba” escreve: “Até as pedras de Ouro Preto sabem que a palavra rubrica é paroxítona; ela não tem acento, rima com fabrica, do verbo fabricar, e pronunciá-la como /rúbrica/ é um erro clássico de prosódia. Até aqui estamos de acordo, e não canso de mostrar a meus alunos a pronúncia recomendada. O que eu gostaria de saber é por que quase todas as pessoas que conheço são naturalmente atraídas para esta malfadada /rúbrica/? Ela parece que tem um mel que a forma correta, rubrica, decididamente não tem. Isso se explica, professor, ou é modinha assim de gente de pouca instrução?”.

Cara professora, um fato linguístico de tal amplitude não pode ser casual. Se passamos a vida inteira a lembrar nossos alunos de que devemos dizer rubrica é porque deve estar agindo aí uma força que os arrasta no sentido contrário. Simples modinhas não atravessam várias gerações, como é o presente caso. A meu ver, neste verdadeiro cabo-de-guerra entre as duas formas atuam dois fatores que favorecem a opção por /rúbrica/. Primeiro, o grande prestígio que as proparoxítonas têm junto a alma popular, que costuma associá-las, não sem razão, à erudição e à tecnologia; é exatamente por isso que tantas vezes ouvimos, da boca de pessoas que querem falar bonito, estrovengas como /pégada/, /púdico/ ou /filântropo/.

O segundo fator, porém, é mil vezes mais forte que o primeiro. Nossa língua tem alguns processos derivacionais tão corriqueiros que conseguem atuar sobre o falante sem que ele perceba. No caso de rubrica, trata-se da oposição de dois termos ― de um lado, um verbo na 3ª pessoa do singular; do outro, um nome (substantivo ou adjetivo) ―, ambos criados a partir da mesma base, mas com sílabas tônicas diferentes. Alguém musica um poema, mas toca uma música; fabrica automóveis, mas trabalha numa fábrica; autentica um documento, mas tem uma atitude autêntica ― em suma, formam-se pares em que o verbo é paroxítono e o nome é proparoxítono: medica e médica; clinica e clínica; critica e crítica; pacifica e pacífica; pratica e prática; etc. Ora, segundo este modelo, é gigantesca a pressão estrutural para que o par de rubrica (o verbo) venha a ser o substantivo /rúbrica/. Eu não gosto, e muitos outros não gostarão, mas quando isso acontecer ― e assim prediz o oráculo da língua ―, o sistema terá dado mais um passo na sua inexorável regularização.