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arma branca

EDU - ARMA BRANCA

O punhal, a adaga, a espada, a lança, o escudo e a armadura fazem parte do conjunto que se convencionou denominar de “armas brancas”. O que têm eles em comum para merecer este nome?

Num jantar, no meio de uma discussão sobre o desarmamento, querem saber por que falamos em armas brancas (as quais, aliás, matam muito mais gente do que as armas de fogo, no Brasil) . Existiria arma preta? Na hora eu não soube responder; agora, depois de várias visitas ao amansa, posso dar meu palpite: a expressão nasceu com a evolução que a palavra arma sofreu desde a Antiguidade. Até a Idade Média, o vocábulo, além das armas propriamente ditas, incluía também a couraça, o escudo, as perneiras, o capacete e tudo o mais; quando se lê em Homero que Hefesto fez novas armas para Aquiles, imagine-se o pacote completo. A vulgarização do uso da pólvora, contudo, terminou colocando em desuso as armaduras e os escudos, e a palavra arma passou a ser entendida de forma mais restritiva, designando os artefatos que ferem ou matam a pessoa ou o animal atingido.

A partir do séc. XVIII, com o desenvolvimento da pistola, do arcabuz e do canhão, o conceito arma ganhou duas subespécies: as armas de fogo, que usam a energia da pólvora, e as armas brancas, geralmente dotadas de lâmina, que dependem da força e do braço humano. Bem nessa época, o dicionário de Bluteau (é de 1720) distingue as armas de fogo das armas brancas, chamadas assim, diz ele,  “porque eram de aço branqueado ou prateado” (é útil lembrar que branco vem do Germano blanck, “reluzente, polido, branco”, o que combina perfeitamente com a aparência do aço).

A expressão arma branca, portanto, nada mais é do que um dos primeiros exemplos de retronímia (ou retroformação, como querem alguns), processo hoje comuníssimo, típico deste século vertiginoso em que vivemos. Leite era leite, não importando de que mamífero viesse. Usávamos a mesma palavra tanto para falar nos banhos de leite de Cleópatra quanto nos rios de leite e mel que nos aguardavam na Terra Prometida. A sociedade industrial, no entanto, sempre generosa na hora de fornecer corda para o consumidor se amarrar mais um pouquinho, passou a oferecer o leite desnatado – e o vocábulo leite, sozinho, deixou de ser suficiente para designar aquilo que o bezerro mama, tendo de receber o auxílio do adjetivo integral. É o mesmo caso de “música ao vivo“: antes de inventarem os sistemas de gravação e reprodução de som, hoje tão banais, um restaurante que animasse o seu jantar com uma orquestra ou um trio instrumental jamais cogitaria em mencionar “ao vivo”, pois a música era feita por músicos de carne e osso, e ponto.

É assim que funciona: o surgimento de uma novidade deflagra a necessidade de rebatizar o termo antigo, genérico, acrescentando-lhe um especificador. Não raro o elemento novo termina “roubando” o termo para si, ficando o elemento antigo reduzido a uma simples subespécie. Por exemplo, se alguém contar aos netos que costumava cheirar uma fraldinha antes de dormir, é bom que acrescente “de pano”, pois fralda, hoje, designa o que inicialmente era chamado de fralda descartável ― algo que, como diria a Emília do Monteiro Lobato, é francamente “incheirável”. Era isso.

Ah, aproveito para convidar os amigos leitores a me acompanhar no grupo Sua Língua no Facebook, onde conversamos sobre tudo o que diz respeito a nosso idioma.

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Abre-te, sésamo!

Quem está acostumado a usar senhas na internet vai entender perfeitamente o sentido da expressão “Abre-te, sésamo”. Aproveito, caro leitor, para lembrar que Ali Babá não CHEFIAVA os 40 ladrões; bem pelo contrário, ele FUGIA deles, e quase foi por eles assassinado.

Um antigo aluno, hoje leitor assíduo desta coluna, vem fazer uma pergunta que, segundo ele, já deveria ter feito há muito tempo: “Um folheto de propaganda que recebi argumenta que os cursos de MBA  têm a vantagem de acrescentar ao currículo três letras que soam como um abre-te Sésamo. Minha dúvida não é quanto ao sentido, que me parece claro: o MBA é um título acadêmico que abre portas, como na história de Ali Babá e seus quarenta ladrões; o problema é esse Sésamo. Sempre usei a expressão sem saber quem era ele; li em algum lugar que podia ser um jumento que acionava o mecanismo da porta, mas achei esta versão idiota demais. E o senhor, o que diz?”.

Pois eu digo, em primeiro lugar, que também já li essa pitoresca (e risível, vamos combinar) versão de que haveria um jumento chamado Sésamo, sempre a postos para abrir ou fechar a caverna do tesouro. Realmente, por ser grafado erroneamente com essa inicial maiúscula, pode passar a impressão de se tratar de um nome próprio ― e aí entra a fantasia: nome de quem? Como a história não menciona nenhum personagem a servir de porteiro, um burrico seria uma hipótese plausível no contexto das 1001 Noites. Note-se, porém, que o imperativo não é “abre”, mas “abre-te”, o que seria muito estranho se fosse dirigido a qualquer ser vivo.

Na verdade, o sésamo (com minúscula) nada mais é do que aquele grãozinho comestível que também atende no Brasil pelo nome de gergelim. Quando pronto para colher, o capucho que contém os grãos estoura ao mais leve contato, produzindo um estalo, dizem, similar ao da lingueta de uma fechadura ao ser acionada. Como se vê, o abre-te,  sésamo ― a vírgula é indispensável, pois temos aqui um vocativo ― foi muito bem escolhido por Xerazade, a princesa que narra a história, para constituir as palavras mágicas que davam acesso ao esconderijo dos salteadores. O irmão invejoso de Ali Babá, Cassim, foi apanhado pelos ladrões com a boca na botija justamente porque, na hora de sair, apavorado, esqueceu a palavra certa e trocou o sésamo por cevada, centeio, trigo e outros grãos comestíveis ― o que, evidentemente, não funcionou, como sabemos nós, acostumados à inexorável objetividade das senhas e das palavras-passe que usamos na internet.

Por fim, uma pequena informação adicional que não pediste, mas que sempre servirá para alguma coisa: a história fala de Ali Babá e os quarenta ladrões, não de Ali Babá e seus quarenta ladrões. Os ladrões não são chefiados por Ali Babá, que é a vítima; bem ao contrário: eles passam a persegui-lo no momento em que percebem que o pobre carvoeiro descobriu o segredo da caverna, e só não o matam por detalhe. Faço questão de esclarecer esse ponto fundamental porque andei lendo, não faz muito, um confuso jornalista que, comentando a roubalheira do Planalto, dizia que, descobertos os ladrões, só faltava agora prender o Ali Babá…

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A quadratura do círculo

Muita gente pensa que buscar A QUADRATURA DO CÍRCULO é coisa de biruta. Muitos gênios da ciência, contudo, dedicaram seu tempo a esta tarefa.

 Às voltas com seu trabalho de conclusão de curso (o temido TCC, no jargão acadêmico), uma aluna de Santa Maria pede ajuda para entender uma frase em que Roland Barthes afirma que a obra de Gilberto Freyre “importa na quase realização da quadratura do círculo dos historiadores”. A leitora quer saber, afinal, se isso é crítica ou elogio. Diz ela: “Professor, o contexto em que Barthes faz essa afirmação parece bem elogioso, mas sempre entendi que procurar a quadratura do círculo era perda de tempo, coisa de cientista biruta. Estive enganada todo esse tempo?”.

Olha, leitora, eu também pensava assim; até ler a tua mensagem, eu também era capaz de jurar que esta expressão servia para designar uma tarefa impossível de realizar, um absurdo em si mesmo, pois, se era círculo, não podia ser quadrado… Ah, a felicidade dos que não sabem! Meu advogado de defesa alegará que tenho atenuantes, pois sou do tempo em que a escola se dividia entre Clássico e Científico, e eu, tendo cursado o primeiro, encerrei muito cedo meus estudos de Matemática, não indo além das equações de 2º Grau. No que se refere à quadratura, contentava-me com a frase de Flaubert, no seu implacável Dicionário das Ideias Feitas: “Não se sabe o que seja, mas deve-se dar de ombros sempre que falarem nisso”. Tua pergunta, porém, acendeu uma luz vermelha: como Roland Barthes sempre foi um admirador da obra do genial Gilberto Freyre, quem ficou em dúvida fui eu, e resolvi aprender.

Não precisei ir muito longe para descobrir que já na Antiguidade esta era uma celebérrima questão de Geometria, tendo ocupado gênios como Hipócrates, Euclides e Arquimedes. Ela consiste em construir um quadrado que tenha a mesma área de um dado círculo, usando apenas um compasso e uma régua sem graduação. Embora já se tenha demonstrado que é tecnicamente impossível resolver o problema usando apenas esses recursos, por mais de dois mil anos uma legião de cientistas e de amadores enfrentou o desafio. A expressão de Barthes, portanto, é um elogio à obra de Freyre, que, segundo ele, quase chega a resolver um problema até agora considerado insolúvel para os historiadores (que problema é este, eu não sei; como não recebi o texto todo, me sinto abandonado no meio do baile…).

Se fosse para expressar uma dessas inutilidades que abundam no mundo acadêmico, a palavra mais adequada, fresquíssima, estalando de nova, recentemente saída do forno do Umberto Eco (pois foi ele que a confeccionou), é a portentosa tetrapilectomia, uma elaborada construção em que se reúnem três elementos heterogêneos: tetra (no Grego, “quatro”); pilus (no Latim, “pelo, cabelo”) e tomia (no Grego, “corte”). Essa palavrona (pois palavrão ela não é) designa a inútil arte de dividir, em quatro partes, um fio de cabelo ao comprido. Exemplo de uso? Aqui vai um: “Aquele lá é o rei da tetrapilectomia. Ele não consegue dizer uma frase sem despejar em cima da gente uma avalanche de detalhes inúteis”. Conheço uma meia dúzia desses.

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caxangá

Às vezes os poemas ou as canções usam vocábulos que não existem, mas foram inventados por amor à rima ou à métrica. Esse parece ser o caso de CAXANGÁ e da TONGA DE MIRONGA DO CABULETÊ.

Um leitor que mora no outro lado do Atântico pede uma informação que a mim também anda fazendo falta. Diz ele, na sua saborosa sintaxe lusitana: “Vai perdoar a minha ignorância, mas gostava que o Professor me dissesse o que significa a palavra caxangá na cantiga de roda Escravos de Jó, que aprendi no curso de teatro que frequento”. Pois não há o que perdoar, amigo, pois vieste bater à porta de alguém que também não sabe. Há muito ando no rastro deste vocábulo, mas sempre acabo entrando em algum beco sem saída…

Segundo consta no Houaiss, o caxangá é simplesmente um dos nomes para o nosso tradicional siri, vizinho do peixe e primo da lagosta; secundariamente, também pode designar uma espécie de gorro de marinheiro. Só isso. Como estás a ver, nenhum dos dois se encaixa nos escravos de Jó que jogavam caxangá. Para piorar, a etimologia fornecida no final do verbete é digna de manicômio: o termo viria do Tupi caá-çangá, que significa “mata extensa”! Antes que tu, tão distante deste nosso exótico mundo tropical, te ponhas a indagar o que tem a ver com isso o siri, ou o gorro, ou os escravos de Jó, aviso-te que a informação provém do confusíssimo Vocabulário Tupi-Guarani-Português, de Silveira Bueno, autor que às vezes sai com uma ideia que parece tirada da unha do pé. Ele defende, por exemplo, que o brasileiríssimo ““, que usamos para concordar, não é a forma reduzida de está, mas sim um advérbio de origem indígena! Acho que mais não preciso dizer.

Aproveitando que o Google faz uma varredura em mais de trinta milhões de páginas em Português, procurei caxangá, caxengá, caxingá, (depois experimentei todas elas, trocando o X por CH), e não encontrei nada que fizesse sentido como um tipo de jogo. Um desses anônimos da internet levantou, acho eu, um ponto interessante: trata-se de escravos de — portanto, de um personagem da Bíblia, exótico ao Brasil e às etnias indígenas e africanas que formaram nosso povo, o que pode ser um indício de que devemos buscar a origem dessa cantiga em outras línguas ou culturas.

Além disso, é impossível explicar como é que um jogo chamado caxangá só aqui seja mencionado, nunca tendo sido descrito pelos antropólogos e etnólogos que estudaram e estudam as nossas tradições populares. Talvez a investigação possa progredir se imaginarmos que caxangá, aqui, é siri mesmo, e que o vocábulo alterado pela tradição tenha sido exatamente o jogavam. Pode ser que a canção usasse um outro verbo qualquer (juntavam, etc.), que terminou sendo substituido por jogar; pode ser também que o jogavam, aqui, não se refira a “praticar um jogo”, mas sim a “lançar” — os escravos lançavam os caxangás no cesto, ou na testa, sei lá.

Se queres saber, isso me parece uma daquelas letras que não tem propriamente sentido, misturando vocábulos reais com vocábulos inventados ou modificados apenas pelo amor da sonoridade e da rima. Foi o que aconteceu com “a tonga da mironga do cabuletê“, que não significa nada em língua alguma — ao menos era isso o que Vinícius informava a quem vinha lhe perguntar. Como estávamos em plena da ditadura, no entanto, muitos preferiram acreditar que o poeta tivesse escondido, por trás dessas palavras africanas, uma ofensa ao governo militar. Na internet, onde tudo é possível, corre a lenda (discretamente estimulada pelo parceiro sobrevivente do poeta) de que a tradução seria algo como “o cabelo do c* da mãe”, dito em nagô!

É claro que, no contexto, a “tonga da mironga do cabuletê” não é coisa boa, não. A letra termina com os versos “Vou lhe rogar uma praga / Eu vou é mandar você/ Pra tonga da mironga do cabuletê” — mas temos de convir que qualquer expressão colocada ali, naquele lugar, teria uma inegável conotação pejorativa. Lembro que nos tempos de ginásio costumávamos usar a expressão “vai pra planfa que te lamblanfa”, nas situações em que era impossível empregar o genuíno “puta que pariu” — e tenho certeza de que os leitores devem conhecer várias outras expressões como essa, que não significam nada, especificamente, mas dizem tudo. A “tonga da mironga” deve ser algo similar.

Assim mesmo, fui conferir no indispensável Novo Dicionário Banto do Brasil, de Nei Lopes, a melhor obra que temos sobre africanismos em nosso idioma. Lá encontrei: (1) tonga (do Quicongo), “força, poder”; (2) mironga (do Quimbundo), “mistério, segredo”; (3) cabuletê (de origem incerta), “indivíduo desprezível, vagabundo”. Como vês, são vocábulos que existem, mas provenientes de línguas diferentes, com significados que não têm relação alguma com a música (muito menos com a fantasiosa versão de “cabeludos (literalmente) palavrões em nagô”). Vinícius, com o ouvido que só os poetas têm, simplesmente os escolheu por sua sonoridade e combinou-os numa expressão sem valor semântico, mas de alto poder sugestivo.

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freelance

Como se formou e como se flexiona o nome do gado GIROLANDO,? O que significa, realmente, a expressão SOLUÇÃO DE CONTINUIDADE? E FREELANCE, por que se chama assim? Veja a resposta a essas três perguntas, e muito mais! 

Sou gaúcho o suficiente para saber alguma coisa sobre o gado que produz a carne que ponho na brasa, mas  confesso que me pegaram de supresa as perguntas que fez um leitor sobre o gado girolando, sobre o qual ele fala com grande familiaridade. “Professor, girolando tem feminino? E sendo ele o resultado de uma cruza de gado gir com o holandês, por que não deu girolês?”. Antes de responder, fui pesquisar sobre esse bovino que eu desconhecia. Uma publicação da Embrapa veio suprir a lacuna de meus dicionários: na pecuária leiteira, é muito usado o cruzamento da raça holandesa, especializada em leite, com uma das raças de origem indiana, mais rústicas, que formam o grupo Zebu (que inclui o gir, o guzerá e o nelore, entre outros) ― daí o girolando, o guzolando e o nelorando, híbridos lexicais que a língua precisou produzir para designar esses novos membros do rebanho. São vocábulos necessários, mas, convenhamos, não ganhariam nenhum concurso de beleza: Jorge Luis Borges escreveu que o nome do ditador argentino Ongania parecia um tempo de verbo; pois, para mim, a enumeração dessas raças soa como uma lista de gerúndios…

         São duas as dúvidas do leitor. A primeira é saber se girolando tem feminino; não vejo por que não teria, já que este é o paradigma seguido pelos substantivos com dois gêneros. Afinal, se deste cruzamento nascem novilhos girolandos, por que não nasceriam também novilhas girolandas? A segunda se refere aos elementos utilizados na composição: já que o segundo elemento é holandês, por que não se formou girolês? A resposta é muito simples: na estrutura do composto, é imprescindível que os dois radicais (/gir/ e /oland/) estejam presentes para que o nome das duas raças  continuem reconhecíveis ― o que não aconteceria se a contribuição de holandês fosse apenas o sufixo –ês, o que produziria esquisitas formações como  *girês, ou *girandês ― lembrando que a forma sugerida pelo leitor, girolês, é usada para designar a mestiçagem do gir com o charolês.

         Outra consulta vem de uma velha amiga, camiseira de mão-cheia, que passa o dia ao pé do rádio, trabalhando na máquina de costura. “Professor, ouvi ontem o prefeito da minha cidade afirmar que a merenda escolar não vai sofrer solução de continuidade. Fiquei preocupada porque tenho dois netos na escola pública e não entendi muito bem se a notícia é boa ou ruim”. Ora, cara amiga, pode ficar tranqüila; se ele estiver falando a verdade, a merenda escolar vai continuar. O prefeito prometeu que ela não vai sofrer solução de continuidade, isto é, não vai sofrer interrupção ― em suma, a continuidade não vai ser dissolvida. Lembro que esta solução, aqui, não vem do  verbo resolver (um problema, um enigma), mas sim de dissolver (a mesma matriz que nos dá o café solúvel). Esta é uma daquelas expressões que, a meu ver, perdeu toda sua utilidade na fala diária, exatamente porque as pessoas a entendem de maneiras diferentes. Em certos bolsões de linguagem, contudo, continua a ser empregada com sucesso; é o caso, por exemplo, da Medicina, em que “solução de continuidade na pele” designa qualquer corte ou falha neste tecido.

         Por fim, a surpresa (para mim, é claro; para você, leitor, pode ser informação mais velha que o jornal de anteontem): folheando o clássico Ivanhoé, de Walter Scott (preciso dizer que era uma edição da Inglaterra, onde preferem a afetada pronúncia /aivanrou/…), em busca de uma passagem perdida, encontrei, lá pelas folhas tantas, o bravo cavaleiro de Bracy dizer que tinha falado com o rei Ricardo Coração de Leão, oferecendo-lhe “the service of my free lances” ― algo assim como “o serviço de meus mercenários”.  Na Idade Média, era comum que cavaleiros e soldados veteranos oferecessem seus serviços a senhores que estivessem dispostos a pagar. Esses soldados da fortuna ― free lances (literalmente, “lanças livres”) ― eram aventureiros que ora se engajavam sozinhos em alguma força militar, ora compunham poderosas corporações (é o caso das Grandes Companhias, que atuaram ao lados dos franceses na Guerra dos Cem Anos). Uma repassada no Oxford me informou que essa expressão (também grafada freelance) passou a ser usada para o político que pula de partido em partido, sempre em busca de proveito próprio, até chegarmos ao nosso frila, pessoa que trabalha por conta própria, sem vínculo específico com qualquer empresa ― palavra que usei todos esses anos sem jamais suspeitar que trouxesse uma lança escondida em seu bojo. 

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Como nasce uma palavra

Quando procuramos a origem das palavras, podemos contar com o valiosíssimo testemunho dos textos escritos, mas, mesmo assim, é praticamente impossível descobrir a gênese de certos vocábulos ou expressões que surgem de repente e acabam fazendo parte de nosso léxico.

 

Uma aluna de pós-graduação escreve para perguntar se posso ajudá-la a determinar, com alguma segurança, quando foi formada e de onde veio a palavra periguete (ou piriguete, sua  variante menos culta — se é que isso é possível). A edição mais recente do Aurélio Escolar, lançado na última Bienal do Livro, já inclui o termo, definido ali como “moça ou mulher que, não tendo namorado, demonstra interesse por qualquer um”, mas nada esclarece sobre sua origem. A leitora, que está fazendo uma pesquisa séria sobre vocábulos utilizados na mídia feminina, saiu desapontada da pesquisa que fez na internet, pois as hipóteses que pôde pescar na rede pareceram-lhe mais falsas do que aquele dinheiro de plástico que circulou por aí.

Ora, prezada leitora, a palavra parece ser uma criação espontânea, popular, feita a partir do radical de perigo, acrescido do sufixo –ete (como em chacrete ou maluquete) — e isso é tudo, e para mim já bastaria. No entanto, como já observamos várias vezes nesta coluna, a etimologia é, para algumas mentes fracas, droga mais alucinógena que a ayahuasca ou o suco da jurema; algumas explicações apresentadas para periguete, por exemplo, chegam às raias do delírio. Uma delas afirma categoricamente que a palavra nasceu de um equívoco linguístico: na Bahia, visitantes estrangeiros que se dedicavam ao seu inocente turismozinho sexual de costume, “tentando imitar os brasileiros, chamavam as mulheres de gatinhas” — Epa! Frase ambígua! É melhor explicar: tanto os romeus quanto as julietas estavam em pé, e não de quatro; “gatinhas”, aqui, seria o apelativo “carinhoso” usado para enternecer as meninas. Mas segue o samba do etimólogo doido: “Eles se confundiam e, em vez de falar little cat, falavam pretty cat (ou pretty girl, alegam alguns dissidentes); os locais, ao tentar imitar os turistas (por quê, mesmo?), acabavam embolando as duas palavras e pronunciavam /piriquéte/ — e daí piriguete“. Como a Bahia atrai brasileiros de todos os estados, e a Ivete Sangalo canta uma música que ostenta este vocábulo na letra, nada mais natural, então, que ele tenha se espraiado pelo país afora…

Pois que vou dizer vale não só para periguete: é praticamente impossível descobrir a gênese dessas palavras ou expressões que surgem de repente e acabam fazendo parte de nosso léxico. Vamos encontrar muita opinião boba por aí, dando informações precisas do local, data e autor dessas invenções, mas não passam de palpites bem intencionados. O OED (Oxford English Dictionary) que o diga: este, que é o melhor dicionário do mundo, orgulha-se de incluir o primeiro registro escrito conhecido para cada palavra que examina; pois o OED passou uns dez anos sem conseguir descobrir qual tinha sido a primeira vez que a sigla HIV foi empregada no Inglês — hesitavam entre quatro ou cinco jornais de San Francisco — e isso que não se tratava de uma expressão da gíria, mas de uma sigla de origem médica, presente em centenas de artigos da imprensa laica e das publicações científicas.

Só podemos ter certeza sobre a concepção e o nascimento uma palavra quando existirem depoimentos expressos feito pelo próprio criador ou por seus interlocutores. Cícero, um dos intelectuais romanos que mais contribuiu para o crescimento do vocabulário latino (e, por tabela, do léxico de todo o Ocidente), discute explicitamente a necessidade de criar, entre outras, qualitas, individuum, vacuum, definitio, differentia e notio (“qualidade”, “indivíduo”, “vácuo”, “definição”, “diferença” e “noção).  Já o termo cientista nasceu em 1834, na Inglaterra. Uma tal Associação Britânica de amigos da ciência discutia, em reunião, qual a melhor maneira de denominar os seus membros; o grupo recusou filósofo, por ser amplo demais, e sábio, por ser pretensioso. Foi quando (está registrado na ata!) “um engenhoso cavalheiro presente propôs que, por analogia com artista, formassem a palavra cientista“. Pronto! Eis uma palavra com registro em cartório — o que é raríssimo.

Outras têm a sorte de aparecer pela primeira vez numa determinada obra literária ou cinematográfica. Em 1920, Karel Capek, escritor tcheco, escreveu a peça R.U.R, na qual foi empregado pela primeira vez o termo robô (criado a partir do Tcheco robota, “trabalho forçado”). Apontado como criador do vocábulo em muitos dicionários e enciclopédias, Kapek um dia veio a público e declarou, por escrito, que ele era apenas o seu divulgador, já que o verdadeiro inventor tinha sido seu irmão Josef. Da mesma forma, Fellini, no filme La Dolce Vita, ao imortalizar a figura do fotógrafo Paparazzo, acabou contribuindo com uma palavra que ingressou no léxico da maior parte das línguas ocidentais: paparazzo (plural paparazzi). Infelizmente, exemplos como esses são excepcionais, e duvido que possa existir algo semelhante para nos esclarecer sobre o surgimento das periguetes.

[publicado no jornal ZH em 03/12/2011]

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pessoa humana

Aos que consideram PESSOA HUMANA um constrangedor pleonasmo, o Doutor informa que  esta é uma expressão usada por um grande número de escritores e de entidades do mundo inteiro.

 

Um especialista em Conan Doyle explicou, certa feita, que a importância que a correspondência por escrito desempenha nas histórias de Sherlock Holmes só poderá ser bem avaliada se lembrarmos que na Londres vitoriana o correio fazia doze entregas por dia, com o intervalo de uma hora! Computando o tempo destinado à coleta e à distribuição, uma carta levava no máximo três horas para chegar ao destinatário, o que permitia a Holmes rabiscar pela manhã um bilhete apressado para Watson e receber a resposta quando se preparava para acender o tradicional cachimbo de depois do almoço. Com toda essa facilidade, era natural que as pessoas se carteassem intensamente, fazendo com a pena o que depois seria feito pelo telefone. Veio então a santa internet, e todos voltaram a escrever; o correio eletrônico, com sua rapidez de foguete, permite, num ritmo de bate lá, volta cá, um volume espantoso de produção escrita interpessoal (se o leitor computar o número de linhas que costuma escrever por dia, entenderá por que aumentou tanto o interesse por artigos e blogues dedicados a diferentes aspectos de nosso idioma).

Pois um jovem leitor (assim ao menos eu o imagino) escreveu para saber se na frase “todos os especialistas são unânimes” não haveria um erro brabo, um pleonasmo grosseiro como “subir para cima”. Em ritmo de pingue-pongue, respondi-lhe sumariamente que não era o caso; o falante tem uma tendência natural a reforçar os vocábulos cujo significado original “desbotou” com o tempo, isto é, deixou de ser percebido por sua comunidade lingüística — precisamente o que deveria estar acontecendo com o adjetivo unânime. Assim se explicaria, portanto, aquele reforço com o pronome todos.

Nem vinte minutos eram passados e lá veio ele de novo, fazendo-se de sonso, com um ás tirado da manga: pois não é que tinha esquecido de mencionar, na primeira mensagem, que a frase vinha de uma coluna escrita por mim e publicada aqui, no Sua Língua? “Pelo menos o senhor é coerente”, acrescentou, “mas ainda acho que juntar todos com unânimes é pleonasmo indesculpável”. Pronto, pensei. É daqueles que vêm pedir minha opinião só para ter a oportunidade de discordar — o que, convenhamos, já poderia ter anunciado logo de saída. Pois que seja: um rápido passeio pela internet (ela, de novo e sempre!) forneceu-me centenas de exemplos saídos da pena de juristas, teólogos, sociólogos, escritores e tutti quanti, mas, por brevidade, contentei-me em apresentar-lhe um exemplo de Júlio Dinis, em As Pupilas do Senhor Reitor (“Agora já todos foram unânimes“) e outro do próprio Machado de Assis, em A Pianista (“É essa pianista, cuja modéstia todos são unânimes em celebrar…”).

Ao que parece, os dois exemplos o convenceram: uma hora depois, o novo e-mail do Burro Falante (este é o seu pseudônimo; convenhamos que tem espírito!) que chegou continha apenas um polido agradecimento pela atenção que lhe dei e uma reclamação final, quase um resmungo: “Por que os escritores clássicos têm tanto prestígio e credibilidade para você, a ponto de considerá-los como referência do que é certo ou do que é errado? Só falta dizer que temos de escrever como eles!”. Respondi que não era isso — bem pelo contrário. As gramáticas tradicionais, é verdade, usavam os exemplos dos clássicos como modelos que deveriam ser seguidos; na visão moderna, contudo — outro grande ensinamento do meu mestre Celso Luft —, os exemplos dos bons escritores têm valor porque mostram as variadas possibilidades da língua que podemos usar, se quisermos. Ao lembrar que Machado escreveu “todos são unânimes”, não estou recomendando que o leitor faça como ele, mas apenas defendendo esta construção como uma forma também válida de se expressar. É simples assim: se o grande Machado, com sua extraordinária sensibilidade lingüística , sentiu-se confortável com ela, temos de incluí-la entre as escolhas possíveis do vasto repertório que é a língua portuguesa.

O mesmo vale, como já mencionei num texto sobre pleonasmos, para outras construções que os apressadinhos de hoje vivem a condenar injustamente: elo de união (Machado e Joaquim Nabuco); criar novos (Eça de Queirós, Alencar); exultar de felicidade (Machado); pequenos detalhes (Mário de Sá-Carneiro); regra geral (Vieira, Camilo); estrelas do céu (Eça, Rui e Machado); sorriso nos lábios (Eça, Rui e Camilo); recordar o passado (G. Dias e Camilo). Esses que só veem aqui erros a evitar demonstram a intolerância de quem leu muito menos do que devia, e essas lacunas na formação, esse desconhecimento do passado — como alertava o velho Câmara Cascudo, falando sobre os jovens folcloristas desinformados — faz tudo parecer novidade.

Mas voltemos ao exame da expressão que escolhi como título deste artigo: pessoa humana. Numa matéria especial sobre a linguagem de nossos candidatos, a revista Veja pediu a professores e gramáticos uma relação dos modismos e cacoetes mais frequentes no discurso político, analisando-os um a um de forma ponderada, sem aqueles esgares de cachorro louco que costumavam caracterizar os debates desse tipo. Com muito bom-senso, a reportagem procura desmascarar esses mitos modernos que brotam como ervas daninhas ali onde escasseia a chuva revigorante da tradição; entre outras coisas, defende a legitimidade do risco de vida, consagrado pelos escritores, e mostra que é Português do melhor quilate combinar a preposição com o artigo que acompanha o núcleo do sujeito (“na hora da onça beber água“, em vez do artificial “na hora de a onça beber água”). O único deslize dos autores da matéria foi, a meu ver, condenarem taxativamente a expressão pessoa humana, apresentando um argumento que lhes pareceu suficiente para fulminá-la: “Existirão por acaso pessoas suínas — ou asininas?”.

Não, é claro que não, seus engraçadinhos — mas existem as pessoas jurídicas, as pessoas físicas, as pessoas divinas, etc. Na obra de nossos escritores há dezenas de exemplos em que o adjetivo humano foi usado para se opor a outros tipos de pessoas. No séc. 16, Manuel Pires de Almeida compara, na obra de Camões, as pessoas deificadas com as pessoas humanas; Camilo Castelo Branco respeita a adoração de um jovem enamorado, para o qual a noiva é uma pessoa divina, prometendo que não vai “pô-la em confronto com os lapsos das pessoas humanas“; Rubião herda a fortuna de Quincas Borba com a condição de cuidar muito bem do cachorro — cuidar dele, no fundo, “como se cão não fosse, mas pessoa humana“; e Saramago, em A Caverna, afirma “que nem tudo se encontra resolvido na relação entre as pessoas humanas e as pessoas caninas“.

Estou muito mais inclinado a admitir que foi algum motivo sutil, e não um afrouxamento estilístico, que terá levado nossos escritores a empregarem também pessoa humana no sentido genérico. Em Machado: “os romancistas … se presumem grandes analistas da pessoa humana“; “cheio de mistérios científicos, que ele não podia, sem desdouro nem perigo, desvendar a nenhuma pessoa humana“. Em Lima Barreto: “estávamos diante da mais terrível associação de males que uma pessoa humana pode reunir”; “há um cristal de pureza inalterável como núcleo eterno da pessoa humana“. Em Rui Barbosa: “Aí não há senão a altitude da pessoa humana, do mérito individual na solitária sublimidade do seu poder”. Em Drummond: “na pessoa humana vamos redescobrir aquele lugar”. Em Nelson Rodrigues: “Stalin e Hitler se juntaram contra a pessoa humana“. O leitor vai concordar que quase todos esses exemplos ficariam capengas se retirássemos o adjetivo e deixássemos apenas pessoa.

Esta mesma sutileza deve ser a responsável pela presença de idêntica combinação em outros idiomas. No Preâmbulo da Declaração dos Direitos do Homem, onde se lê, em vernáculo, “na dignidade e no valor da pessoa humana“, lê-se human person no Inglês, personne humaine no Francês, persona humana no Espanhol e persona umana no Italiano (que infelizmente desfigurou sua herança latina ao eliminar o H inicial…). Por que será que ela aparece também no texto das constituições, no título de milhares de livros filosóficos, jurídicos ou religiosos, nas mensagens do Vaticano, nos documentos da Unesco e da Onu? Não tenho certeza, mas suspeito que o fator determinante para o acréscimo do adjetivo limitador seja a elasticidade cada vez maior do conceito de pessoa. Os estudos sobre a inteligência e a psicologia dos golfinhos, por exemplo, levaram alguns cientistas a classificá-los como pessoas não-humanas, enquanto grupos modernos de filosofia e de ética começam a classificar os recém-nascidos, os doentes mentais e os anciãos desvalidos de humanos que não são pessoas — o que deixa claro que uma coisa não pressupõe necessariamente a outra.

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Santana ou Sant’Ana?

Os cidadãos têm o direito de escrever seu nome da maneira como consta no registro; os municípios, no entanto, como não gozam desse privilégio, devem seguir a norma ortográfica vigente.

 

Um amigo santanense que veio me visitar aproveitou — muito de leve, entre um mate e outro, assim como quem não quer nada para sondar o que eu achava da polêmica sobre o município gaúcho de Santana do Livramento. “Voltaram a discutir por lá a grafia do nome Santana“, explicou. “Sei que muita gente prefere escrever como uma coisa só, mas eu acho mais bonito com o apóstrofo entre as duas partes, como manda a tradição igual ao Paulo Sant’Ana! Bem que podiam fazer um plebiscito e decidir isso de uma vez por todas”, concluiu, passando a cuia e a palavra de volta para mim. Entendi o recado, e aqui vai minha resposta, a ele e aos vários amigos que tenho em Livramento.

Em primeiro lugar, confesso que a dieta maciça de autores do Romantismo que a escola costumava servir acabou me tornando um nostálgico admirador do apóstrofo. Alencar intitulou um de seus mais adocicados romances de Sonhos d’Ouro elegante, delicado, sugestivo; Sonhos de Ouro, ao contrário, parece mais adequado para um daqueles paradouros de Santo Antônio da Patrulha em que, nos anos 60, a caminho das praias do Atlântico, a família gaúcha renovava suas forças com sonhos fritos e café preto. Por isso, se fosse questão de gosto, eu não hesitaria em escolher Sant’Ana.

Friso: se fosse questão de gosto… mas não é. Em casos como este, não importa a minha preferência ou o meu senso estético assim como também não importa, como alguns tentam alegar, que assim está nos documentos da fundação da cidade. Todo cidadão tem o direito de portar o nome da maneira como foi registrado, é verdade; muita gente não sabe, porém, que esta regra não vale para os nomes geográficos. A grafia do nome de um município está submetida às regras ortográficas vigentes, independentemente da forma como constava nas atas de fundação. Este princípio é fundamental para um país que, como o nosso, já tem municípios com mais de 450 anos: seria quase impossível administrar todos esses nomes (o Brasil já anda lá pelos seis mil, atualmente) se cada um conservasse a grafia original, muitas vezes atribuída em épocas em que não existia uma ortografia oficial ou em que vigiam outras normas que não as atuais. Pode-se imaginar o caos que se instauraria nas placas dos automóveis, na sinalização das estradas, nos documentos públicos, nos livros didáticos e em todas as outras situações em que precisamos escrever o nome do município!

Não sei, por exemplo, como consta no registro inicial da cidade, mas sei que durante muito tempo Triumpho se escreveu assim, com ph. Com o Acordo de 1943, passou automaticamente a ser grafado Triunfo e pronto. Trammandahy, Trammanday ou Tramandahy? Não importa; na ortografia atual, é Tramandaí. A regra dos acentos diferenciais, no Acordo de 1943, deu um chapeuzinho (circunflexo) a Porto Alegre, que passou a Pôrto Alegre assim permanecendo até 1971, quando uma pequena reforma eliminou o referido acento e voltamos a escrever Porto Alegre. Se amanhã decidirem que alegre passará a ter acento no “E” (já não duvido de nada…), lá vamos nós escrever Porto Alégre e assim por diante. É assim que funciona (e deve funcionar).

Ora, sendo o Brasil um país historicamente católico, Santana do Livramento, embora date do séc. 19, é apenas um dos vários municípios que traz Santana no nome. Numa rápida busca no IBGE encontrei mais de quinze Santanas: Santana de Parnaíba (SP) o mais antigo, fundado no séc. XVII , Santana do Matos (RN), Santana do Cariri (CE), Santana da Boa Vista (RS), Santana do Acaraú (CE), Santana da Ponte Pensa (SP), Santana da Vargem (MG), etc. além de Barra de Santana (PB), Campo de Santana (PB), Capela de Santana (RS), Feira de Santana (BA), Riacho de Santana (BA), Santana (AP), Santana (BA) todos grafados da mesma maneira, sem apóstrofo.

Aqui podemos avaliar o quão sábio é o princípio de submeter esses nomes geográficos ao sistema ortográfico vigente: se cada município resolvesse defender a grafia que recebeu no seu batismo, teríamos um desfile de variantes que incluiria “Sant’Ana”, “Sant’Anna”, “Santanna”, “Santana”, “Sant’ana” e sabe-se lá quantas outras mais. É exatamente por isso que a grafia desses nomes não está submetida à vontade ou à preferência de seus habitantes, ou dos prefeitos e vereadores. Podemos fazer um plebiscito para trocar o nome, mas não para contrariar a norma ortográfica. É perfeitamente aceitável que os habitantes de Embu, em São Paulo, votem para decidir se vão ou não trocar o nome para Embu das Artes mas seria impensável fazê-lo para mudar sua grafia para *Embú (com acento). A lei assegura aos santanenses o direito de definir o nome do município, trocando-o, se assim decidirem, por Santana, Livramento do Sul, Palomas ou qualquer outro mas não sua grafia.

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coletivo de moto

Rafael Bunese, de São Paulo, pergunta: “O senhor poderia me dizer qual o coletivo de moto? É frota?”

Prezado Rafael: frota era originariamente aplicado apenas a embarcações. Contudo, seu sentido foi-se ampliando e hoje o Houaiss registra, como seu segundo emprego, “conjunto de quaisquer veículos, em geral pertencentes a uma mesma pessoa física ou jurídica”. É por isso que se usa – e bastante! – frota de tratores, frota de automóveis, frota de ambulâncias, frota de motocicletas, frota até de bicicletas.

Como o conceito de frota está ligado ao de “propriedade”, é evidente que o vocábulo não pode ser usado à toa para designar qualquer conjunto  de motos, paradas ou em movimento. “Na estrada, fomos ultrapassados por uma *frota de motos” ou “O estacionamento do clube estava ocupado por uma *frota de motos” são exemplos desse emprego inadequado. Como nosso idioma não se preocupa mais em formar novos coletivos, aqui só podemos recorrer aos genéricos (grupo, bando, monte, montão, etc.); jocosamente, porém, sempre se pode arriscar “uma motaiada”, “uma motança”, ou outras formações de brincadeira. Abraço. Prof. Moreno

 

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Lições de gramática Origem das expressões Verbos - conjugação

particípios abundantes

Professor, minha dúvida é com o uso do particípio, tendo os verbos ter/haver e ser/estar como auxiliares. Sei que ter/haver impõem particípios regulares (“Tinha matado“, “havia gastado“). E que, com ser/estar, os particípios tornam-se irregulares: “Foi morto“, “estava gasto“. Porém, frequentemente leio nos jornais (e na fala coloquial) frases como, por exemplo, “o time tinha ganho o jogo”, ou “o homem havia pego o ônibus errado”. Gostaria de esclarecer se a regra que citei permite exceções. E se existem, em que casos. Obrigado pela atenção.” Nivaldo N. — São Paulo

Meu caro Nivaldo, os verbos que têm particípios duplos são poucos (não chegam a cem — perto dos 50 ou 60.000 verbos de nossa língua). Os gramáticos tentam fazer listas completas; contudo, se cotejares duas ou três listas, verás que há uma razoável discrepância entre elas. De qualquer forma, QUANDO HOUVER DOIS PARTICÍPIOS, funciona um princípio geral de uso: a forma longa, regular (em -ado ou -ido) é usada nas locuções verbais na voz ativa, com o auxiliar TER ou HAVER, enquanto a forma mais curta, irregular, é usada com SER e ESTAR: “Eu tinha acendido o fogo/ o fogo já estava aceso; a gráfica havia imprimido as cédulas falsas / as cédulas foram impressas no exterior”.

Nota que esse é um princípio geral. Em primeiro lugar, muitos verbos abundantes estão perdendo a forma regular, em virtude da preferência do falante pela forma mais curta em qualquer situação: “a conta já foi paga/ela tinha pago a conta”, “este dinheiro foi ganho com meu trabalho/eu tinha ganho este dinheiro com meu trabalho”. Eu ainda uso pagado e ganhado, mas percebo que meus ouvintes estranham; isso significa que, em breve, deixarão de ser abundantes e ficarão, como dizer e fazer, apenas com o particípio curto (dito, feito).

Em segundo lugar, a língua, em seus caminhos misteriosos, se encarrega de anular, às vezes, o princípio geral: é o caso de imprimir, que, se é abundante em seu sentido normal (dei exemplos acima), no sentido de “introduzir, incutir” só vai ter o particípio regular, mesmo em locução com o verbo SER: “A entrada do atacante tinha imprimido maior velocidade ao ataque/Um novo ritmo foi imprimido ao trabalho da equipe” (e não *impresso). E assim por diante; continuo a usar aquele princípio por ser didático, sabendo, no entanto, que não é absoluto.

Recomendo-te a leitura do tópico sobre pego e pegado. O que escrevi ali é um importante complemento ao que expus acima. Abraço. Prof. Moreno.