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Salve, Jorge!

 

O vocativo vem separado por vírgula para evitar que o leitor o confunda com uma parte integrante da estrutura sintática: “Não coma gordura animal” é muito diferente de “Não coma gordura, animal”. Seja em títulos, saudações, insultos, não importa: “Salve, Jorge!”; “Ave, César!”; “Oh, Susana!”; “Acorda, Brasil!”  — a vírgula sempre estará lá.

Resolvi aproveitar esta coluna para responder, de uma só vez, a vários amigos que escreveram para perguntar se realmente é necessário usar uma vírgula para separar os vocativos — e já vou dizendo, sem delongas, que sim: esta vírgula é absolutamente indispensável, pois evita que o vocativo, que sempre será um corpo estranho na estrutura sintática, seja tomado pelo leitor como parte integrante da frase. É ela que nos permite distinguir entre coisas tão diferentes quanto “Não coma gordura animal” e “Não coma gordura, animal”…

Jéssica, que informa ter 10 aninhos (golpe baixo, porque nunca deixo de responder aos leitores mirins), está um pouco atrapalhada com o tema de Português (colégio bom, esse!): ela quer saber se existe diferença de sentido entre “Você entende Joaquim?”e “Você entende, Joaquim?”. Pois é claro que existe, mocinha. Em “Você entende, Joaquim?” a vírgula assinala a presença de um vocativo — isto é, estamos falando com alguém chamado Joaquim. A versão sem vírgula diz outra coisa; estamos perguntando a alguém se ele entende um tal de Joaquim (como em “Ninguém entende Maria” ou “Só a mãe entende seus filhos”).

Genivaldo, de Fortaleza (esta coluna vai longe, nas asas da internet…), tem outra preocupação: em exclamações de apoio ou repúdio (mas é bem específico esse nosso amigo, hein?), como é que funciona o ponto de exclamação? Escrevemos “Valeu! Amigo!”, ou é obrigatório usar a vírgula no vocativo? Pois caro Genivaldo, a vírgula continua a mesma, e no mesmo lugar; basta deixar o ponto de exclamação no fim, que já é suficiente: “Valeu, amigo!”; “Cuidado, Corisco!”; “Epa, camarada!”; “Vade-retro, Satanás!”; “Cala a boca, Galvão!”.

Já a secretária Rebeca manda dizer que ela e os colegas não chegaram a um acordo sobre a pontuação da frase “Vagabundo, vai estudar” — “A vírgula não estaria separando o sujeito do verbo?”. Não, prezada Rebeca: nesta frase, o sujeito do imperativo é TU (está elíptico); vagabundo é o vocativo e, exatamente por isso, pode se deslocar livremente (sempre acompanhado, é claro, das vírgulas indispensáveis): “Vai estudar, vagabundo”; “Vai, vagabundo, estudar”.  Se trocássemos o sujeito para VOCÊ, o verbo teria de acompanhar: “estudar, vagabundo!”.

Finalmente, uma leitora do Rio de Janeiro escreveu, alguns meses atrás, para reclamar de um erro na TV: “Professor, a pontuação dos títulos não é igual à pontuação normal? Vocativo não leva vírgula? Como é que a atual novela da Globo não tem vírgula?”. Ora, há mais de trinta anos não sei o que é novela; nada tenho contra elas, pois cada um tem o direito de se divertir como quer, mas confesso que, de minha parte, prefiro perder meu tempo assistindo aos vídeos divertidos do Animal Planet. Como nada mais constava na mensagem, fui pedir ajuda à vizinha, noveleira profissional, que me esclareceu que a novela a que a leitora se referia era uma tal de “Salve, Jorge”. A informação não me bastou. Haveria algum personagem chamado Jorge, que devia ser salvo? Nesse caso, o título deveria ser escrito sem vírgula, para não separar o verbo de seu objeto direto: “Salve Jorge” — assim como “Salvem as baleias” ou, mais radical, “Salvem o planeta”. Não, não, respondeu a prestativa vizinha; ela tinha lido uma entrevista em que a autora, Glória Perez, dizia que o título provinha de uma saudação a São Jorge, muito usada nas religiões afro-brasileiras. Bom, então certa estava a leitora: falta uma vírgula no título. “Salve, Jorge!”; “Ave, César!”; “Oh, Susana!” — tudo é vocativo.

A pontuação se assemelha ao xadrez ou a qualquer outro jogo de tabuleiro: as regras devem ser as mesmas para os dois jogadores — no caso, o que escreve e o que lê. É isso que condena ao fracasso, de antemão, qualquer inovação nesta área, pois o que não for consensual simplesmente não vai funcionar (como definiu Garrincha, com aquela precisão invejável, é preciso antes combinar com os russos…). Falando de suas primeiras experiências literárias, Jorge Luís Borges, com seu manso sorriso de esfinge egípcia, recordava a ingenuidade de seus verdes anos: “Na biblioteca de Alexandria, os primeiros editores de Homero inventaram a pontuação; uns dois mil anos depois, nós, poetas jovens, rechaçamos essa perigosa inovação”. Concluo com uma nota imprescindível, maldoso leitor: não, Borges não estava, com isso, ironizando a discutível “inovação estilística” de José Saramago, que pontua seus textos à moda galega; o genial escritor — falo do argentino, é claro —, que nunca foi agraciado com o prêmio Nobel, morreu em 1986 e não chegou a conhecer, portanto, a obra do português, premiada em 1998.

[Zero Hora – 20/07/2013]

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Guia Prático vol. 4: PONTUAÇÃO

Reproduzo, abaixo, as páginas iniciais do Guia Prático-4, lançado esta semana pela L&PM POCKET:

Falar e escrever

A escrita é muito mais pobre que a fala

A relação entre quem fala e quem ouve é muito mais simples que a relação entre quem escreve e quem lê. Quando falamos, somos mais facilmente entendidos do que quando escrevemos, porque, junto com as palavras pronunciadas, fornecemos também a nosso ouvinte várias indicações de como ele deve processar o que estamos dizendo. A entonação, o ritmo, as pausas que fazemos, além de nossos gestos e de nossas expressões faciais, servem, na verdade, como uma espécie de manual de instruções sobre como esperamos ser compreendidos. Além disso, a presença do ouvinte também contribui em muito para o sucesso de nossa comunicação, pois ele emite sinais de que está acompanhando nosso discurso ou de que algo não está lhe parecendo muito claro, dando-nos, assim, a oportunidade de refazer ou reforçar o que estávamos dizendo.

Na escrita, nada disso existe. O leitor está sozinho diante daquilo que escrevemos. Nosso texto, ao contrário de nossa voz, não vem carregado das ênfases ou das sutilezas de tom que fazem parte da fala. Ele se materializa apenas como letras e sinais que distribuímos organizadamente no branco do papel, na esperança de que o leitor possa compreender o que pensamos ter escrito.

1 – O leitor colabora

É por isso que a leitura jamais será uma atividade passiva, pois precisamos colaborar no esforço de extrair o significado do texto. Para compreender uma frase, colocamos em ação o nosso mecanismo de processamento de linguagem; em geral, escolhemos um dos caminhos a que estamos habituados e vamos percorrê-lo até perceber que não há saída – isto é, até perceber que nossa escolha foi equivocada. Quando (e se) isso chegar a ocorrer, nós – que, como todo leitor, somos solidários com o autor – trataremos de refazer o caminho do ponto em que tinha começado o equívoco. Veja a frase abaixo:

(1) Enquanto ele fotografava o macaco derrubou o tripé com a cauda.

Nossa primeira tendência é considerar “enquanto ele fotografava o macaco” como um segmento unitário:

(2) [Enquanto ele fotografava o macaco] derrubou o tripé com a cauda.

No entanto, ao prosseguir na leitura, percebemos que macaco não é o complemento de fotografar, mas sim o sujeito de derrubou; voltamos atrás e refazemos, então, a leitura, desta vez na forma correta:

(3) [Enquanto ele fotografava] o macaco derrubou o tripé com a cauda.

Todo esse trabalho seria evitado se o autor já tivesse usado uma vírgula para sinalizar a segmentação correta:

(4) Enquanto ele fotografava, o macaco derrubou o tripé com a cauda.

Precisamos admitir que a presença de elementos como macaco e cauda nos permitiria entender a frase mesmo que ela estivesse sem pontuação – ou, o que é ainda pior, mesmo que estivesse com pontuação errada -, mas fica claro que a presença da vírgula no local adequado tornou a leitura muito mais rápida e mais fluida, exigindo menos esforço de processamento. Esta é, como veremos, a única (e preciosa) função dos sinais de pontuação: orientar o leitor para a melhor maneira de percorrer os textos que escrevemos.

Embora sejam poucos os brasileiros que estão preocupados com a pontuação – como você, que lê este livro -, ela exerce uma inegável influência no momento da leitura. As pessoas podem não saber muito bem onde ou por que empregar as vírgulas, mas vão perceber a diferença se o texto estiver (ou não) bem pontuado.

2 – O texto é uma estrada a percorrer

Nada é mais parecido com a pontuação do que o sistema de sinalização de uma estrada. Imagine, caro leitor, que deram a você a incumbência de sinalizar uma estrada novinha em folha, ainda sem uso. Por enquanto, ela é apenas uma extensa faixa de asfalto liso, sem manchas ou buracos, que vai de um ponto a outro do estado; quando for inaugurada, no entanto, deverá estar completa, com as faixas pintadas no seu leito e com todos os sinais e placas necessários espalhados ao longo da via. Então você a percorre várias vezes, nos dois sentidos, estudando-a com cuidado, assinalando em sua planilha todos os pontos que lhe parecem significativos. Você sabe que a tarefa que lhe deram é vital para o motorista que vai passar por ali, pois é através da sinalização que a estrada fala com ele, avisando-o de tudo aquilo que ele precisa saber para fazer uma viagem segura (aliás, este é o principal motivo pelo qual as autoridades de trânsito exigem que o condutor seja alfabetizado: ele precisa ler o que a estrada tem a dizer).

Vamos supor – já que estamos fazendo um exercício de imaginação – que você então apresente a seu supervisor a planilha em que marcou os pontos em que pretende colocar cada sinal de trânsito. “Por que estas quatro placas tão próximas?”, pergunta ele, apontando para determinado trecho. Como você fez um exame minucioso da estrada, pode justificar sua decisão: “Aqui há uma forte curva para a direita, mas eu não notei que o ângulo era tão acentuado até entrar nela; se eu não estivesse rodando devagar, não teria conseguido controlar o carro! Acho que o motorista deve ser avisado bem antes, com tempo suficiente para diminuir a velocidade e se preparar para a manobra. É muito perigosa, e por isso vamos colocar quatro placas indicativas, de 100 em 100 metros, antes daquela que assinala o ponto exato em que a curva inicia”. “E uma só não basta?”. Você é taxativo na resposta: “Não; não podemos correr o risco de que um motorista distraído deixe de receber esta mensagem ou não lhe dê a atenção que ela merece; quem entrar naquela curva na velocidade normal da estrada vai fatalmente rolar barranco abaixo”.

Se você for justificando, uma a uma, as placas que pretende colocar, vai perceber que elas obedecem a uma lógica muito simples: tudo o que não for previsível para o motorista deverá ser assinalado ao longo do trajeto. Você vai avisá-lo que existe, à frente, um estreitamento na faixa da direita, ou uma escola rural (com a natural movimentação de crianças na hora da entrada e da saída), ou um desnível entre a pista e o acostamento, ou um trecho que não oferece visibilidade suficiente para ultrapassagem, etc. Se você for um bom engenheiro de trânsito, vai, inclusive, prever possíveis reações dos condutores.

É por isso que extensos trechos em linha reta, com ampla visibilidade, embora favoreçam uma rodagem extremamente segura, geralmente recebem dois tipos de placas: por um lado, as que lembram a velocidade máxima permitida; por outro, as que aconselham o condutor a descansar no acostamento em caso de sonolência. Antes de liberar a estrada para o público, você pode pedir a dois ou três técnicos amigos que testem a sinalização que você concebeu; é possível que ainda seja necessário acrescentar mais alguma coisa. Por exemplo, você não tinha notado que determinado trecho fica escorregadio em dias de chuva, ou que, durante a semana, há trânsito intenso de caminhões no entroncamento da via principal com um desvio que leva a uma pedreira – e assim por diante. Quanto mais bem sinalizada a estrada, mais segura será a viagem.

Pois o texto, exatamente como a estrada, é uma linha que deve ser percorrida de um ponto a outro. Entre o leitor e o autor existe a mesma combinação tácita que existe entre o motorista e o construtor da estrada: “Vou ler o seu texto, mas, em troca, você não deixará de me avisar de tudo aquilo que eu preciso saber para ter sucesso nesta leitura”. Quanto mais bem pontuada uma frase ou um texto, maiores as chances de que a mensagem seja entendida pelo leitor tal como o autor a idealizou. Aqui entram os sinais de pontuação, os quais, como você já terá percebido, equivalem às placas e aos sinais da rodovia e, como estes, devem ser usados também para assinalar tudo o que for inesperado ou imprevisível na estrutura normal de nossa língua. O princípio básico é cristalino:

FRASE NORMAL NÃO TEM VÍRGULA; FRASE QUE TEM VÍRGULA NÃO É FRASE NORMAL

A pontuação assinala modificações introduzidas nos padrões normais da frase; por causa disso, jamais um sinal de pontuação poderá interromper um vínculo sintático essencial – ou seja, como explicava Celso Pedro Luft, jamais haverá pontuação separando o sujeito do verbo, o verbo de seus complementos, o termo regente do termo regido, o termo modificado do seu modificador.

[……..]

4 – O leitor é que importa

Da Grécia antiga até hoje, numa jornada de dois mil e quinhentos anos, o Ocidente veio amadurecendo o sistema de pontuação que utilizamos. Para quê? Para fornecer ao leitor uma orientação segura de como pretendemos que ele interprete o que escrevemos e, ao mesmo tempo, deixar o texto balizado de tal modo que essa leitura seja feita com o menor esforço possível.

Jamais devemos esquecer, portanto, que os sinais que colocamos em nossos textos estão ali para ser vistos pelos olhos do leitor, para avisá-lo de alguma coisa. Se os colocarmos nos lugares adequados, vamos ajudar o destinatário a processar confortavelmente nossa mensagem e a extrair dela o significado que tínhamos em mente ao escrevê-la. É por isso que só pontuam bem aqueles que conseguem se colocar na mente de quem vai lê-los, isto é, aqueles que conseguem ler seu próprio texto com os olhos de outrem para se antecipar a suas possíveis dificuldades e hesitações. Esta é uma habilidade que se adquire com tempo e treinamento; se você ainda não a domina, use o antiquíssimo expediente de recorrer a um amigo, colega ou parente – em suma, um leitor real – que seja paciente e solidário o bastante para examinar o seu texto, mas sincero o suficiente para assinalar os pontos em que encontrou dificuldade.

 

Sumário

Introdução – Falar e escrever

Princípios gerais

A pontuação nos dicionários
A vírgula não existe para marcar pausas
Vírgula com sujeito posposto
Vírgula com sujeito posposto – o retorno.
A pontuação nos escritores
Como posso indicar uma pausa na fala?
Vírgula depois de sujeito oracional
Separar o sujeito do predicado?
Vírgula entre o sujeito e o verbo?
Por que cometem esse erro?
Vírgula antes de “é”

Curtas

Nem tudo a pontuação pode representar
Vírgula entre o sujeito e o verbo
Vírgulas de um convite
Vírgulas e pausas não coincidem.
Vírgula depois do nome de autores
Água também é vida!
A frase de Saramago
Quem ama, educa

Pontuação interna

I. A vírgula

1 – Separando os itens de uma enumeração

Enumerações abertas
A pontuação do etc
Enumeração com vírgula antes do “E”
Enumeração de adjuntos adverbiais
Curtas
Vírgula em nome próprio
Ponto depois do etc.

2 – Separando orações coordenadas

Orações com sujeitos diferentes
O “E” com valor adversativo
Pontuação do POIS
A frase pode começar com E ou MAS?.
Curtas
“E” com valor adversativo.
E sim.
Vírgula estranha antes do “E”
Quando “E” não for conjunção aditiva.

3 – Separando o adjunto adverbial deslocado

Adjunto adverbial curto
Vírgula a ser evitada
Advérbios em -MENTE
Adjunto adverbial no convite de casamento
Desta feita.
Curtas
Ontem à noite
Adjunto adverbial deslocado
Ad referendum: adjunto adverbial deslocado
Vírgula com data

4 – Separando o aposto

Aposto ou vocativo?
Alexandre, o Grande
Aposto entre travessões
Curtas
Diretor em exercício

5 – Separando o vocativo

Vocativo não é sujeito.
Bom dia, Vietnã!
Suje-se gordo!.
Curtas
O vocativo
Cuidado frágil
Vocativo x sujeito
Pontuação com interjeição
Quantas vírgulas?
Muda o sentido

6 – Separando outros elementos intercalados

Vírgula depois de parênteses.
Travessão seguido de vírgula.
Interrogação dentro da intercalação
Curtas
Além disso
Conjunção seguida de expressão intercalada

7 – Indicando a elipse do verbo

Supressão do verbo ser.
Vírgula obrigatória?
Curtas
Vírgula estranha
Falso caso de elipse

8 – Separando as adjetivas explicativas

Aposto e oração explicativa
Aposto restritivo
Ensinando as adjetivas
Orações adjetivas no subjuntivo
Aposto circunstancial
Elementos não restritivos.
Curtas
Adjetiva explicativa reduzida.
Classificação das orações
Adjetiva com pronome pessoal.
Restritivas x explicativas: diferença de significado
Aposto restritivo
Subjuntivo nas restritivas.
Explicativa após pronome pessoal

II. O ponto-e-vírgula

1 – Organizando enumerações complexas
2 – Ligando orações coordenadas assindéticas
3 – Separando orações introduzidas por conjunções pospositivas
Os dois tipos de POIS
Pontuação das adversativas
Pontuação da segunda coordenada
Maiúsculas depois do ponto-e-vírgula
Ponto ou ponto-e-vírgula?

III. O dois-pontos

1 – Introduzindo uma enumeração
2 – Introduzindo uma citação
3 – Assinalando uma relação de causa ou consequência
Dois-pontos e aposto enumerativo.
Dois-pontos com enumeração
Minúscula depois de dois-pontos

IV. O travessão

Travessão simples.
Travessão duplo x parênteses
Travessão duplo x vírgula dupla
O hífen não é travessão
Como digitar um travessão.
Travessão com vírgula?
A ponte Rio–Niterói

Pontuação final

I. O ponto

Ponto final e ponto da abreviatura.
Título deve ser pontuado?

II. O ponto de interrogação

Interrogação indireta
Pergunta retórica

III. O ponto de exclamação

Para distinguir uma frase declarativa de uma exclamação.
Depois de uma interjeição
Para caracterizar chamado ou interpelação.
Em frases imperativas
Pontuação com interjeição
Usar ou não usar o ponto de exclamação.
Pontuação mista

IV. As reticências

Nas enumerações exemplificativas
Para indicar cortes em citações
Espaço antes ou depois das reticências
O professor que odiava reticências

V. Diversos

O ponto fica antes ou depois das aspas?
Ponto dentro e fora das aspas?
E/OU – valor da barra inclinada
Barra inclinada ou travessão?
Sem espaço antes da vírgula
O uso de colchetes
Pontuação no cabeçalho de correspondência.
Pontuação: charadas

 

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Suje-se gordo!


Recebo duas interessantes consultas sobre pontuação, ambas sobre o emprego da vírgula. A primeira vem dos Estados Unidos: um de nossos leitores, que está para concluir seu curso de pós-graduação na Universidade de Chicago, ficou surpreso quando seu orientador exigiu que ele colocasse uma vírgula antes do E que antecede o último elemento das enumerações. Diz ele: “Eu pensava que as regras de pontuação do Inglês fossem similares às nossas, mas começo a mudar de idéia. O Manual de Estilo aqui da casa é taxativo: quando os dois últimos elementos de uma série são ligados por E, a vírgula antes da conjunção é obrigatória. Por que essa diferença do Português?”.

Ora, meu caro leitor, parece que o destino o levou a esbarrar numa das raríssimas diferenças entre a pontuação do Inglês e a nossa. Essa curiosa vírgula, conhecida como “Oxford comma” (“vírgula de Oxford”, porque se tornou uma exigência tradicional dos editores e revisores da famosa Oxford University Press), tem uma certa razão de existir para os falantes do Inglês. Como você deve saber muito bem, naquela língua os adjetivos ficam à esquerda do substantivo que modificam, o que acaba criando um problema que o Português desconhece. Numa frase como “Ele recortava todas as matérias que saíam no jornal sobre cinema, política internacional E negócios”, a posição do adjetivo internacional não deixa dúvida de que ele se refere a política, não a negócios. Em Inglês, no entanto, como o adjetivo fica do lado esquerdo e simplesmente nunca se flexiona, cria-se uma estrutura ambígua; “international politics and business” pode ser lido como “política internacional e negócios” ou como “política e negócios internacionais”. É onde entra em ação a vírgula de Oxford, desfazendo a má leitura: “international politics, and business“.

Embora algumas instituições (a Universidade de Chicago é justamente uma delas) recomendem o uso automático desta vírgula, muitas outras preferem aplicá-la apenas aos casos em que realmente existe o perigo de ambigüidade. Esta postura, que me parece muito mais sensata, não é nada diferente do que fazemos aqui quando surge o mesmo problema: “Os convidados eram João e Maria, Paulo e Virgínia, E eu” (eu estava desacompanhado); “As almofadas podem ser feitas em branco e preto, vermelho e branco, E azul” (ou vermelho e branco, ou azul). O bem-humorado Quinion, no seu incomparável www.worldwidewords.org, brinca com a hipótese de alguém dedicar seu livro “To my parents, Mary and God“, (“Para meus pais, Maria E Deus”). Tanto lá quanto aqui devemos usar uma vírgula antes do “E” para evitar que os leitores tomem Maria e Deus como aposto de meus pais e nos mandem internar no hospício por absoluto delírio de grandeza: “Para meus pais, Maria, E Deus”.

A segunda consulta vem de Campos, no Rio de Janeiro. Uma leitora quer saber se alguma regra proíbe a vírgula em títulos: “Aprendi que o vocativo — Fica quieto, menino! — sempre deve vir separado por vírgula; por que, então, o nome do conto Suje-se gordo!, de Machado de Assis, não vem pontuado?”.

Não se preocupe, prezada leitora, que não se trata de um cochilo de Machado de Assis, nem existe qualquer regra contra o uso de pontuação nos títulos. Um romance de José Cândido de Carvalho se intitula Olha para o céu, Frederico; Camilo Castelo Branco escreveu Coração, cabeça e estômago; o próprio Machado nos deu os contos “Vênus! Divina Vênus!”, “Vinte anos! Vinte anos!“, “O Cônego, ou Metafísica do estilo” e “Casa, não casa“. Acho que você ainda não leu o conto inteiro, e daí sua pergunta. Não há um vocativo aqui; “Suje-se gordo!” não é uma ordem para que um gordinho se suje (aí seria “Suje-se, gordo!” – o que corresponderia a “Gordo, suje-se!”), mas um estranho princípio moral defendido pelo personagem, que acha que não vale a pena transgredir a lei por ninharias: “Vi que não era um ladrão reles, um ladrão de nada, sim de grande valor. O verbo é que definia duramente a ação. ‘Suje-se gordo!’. Queria dizer que o homem não se devia levar a um ato daquela espécie sem a grossura da soma. A ninguém cabia sujar-se por quatro patacas. Quer sujar-se? Suje-se gordo!”.

Aqui você tem um bom exemplo desses adjetivos transformados em advérbio de modo, fenômeno tão comum no Português Brasileiro: “Eles comiam rápido“, “Ela falava baixo“, “A cerveja desce redondo“. “Suje-se gordo“, portanto, aqui significa “Suje-se para valer“. Machado deve ter previsto a possível confusão de gordo com um vocativo, pois fez questão de incluir a expressão numa seqüência definitivamente esclarecedora: “Suje-se gordo! Suje-se magro! Suje-se como lhe parecer!”. Se serve como consolo, fique sabendo que você não é a única a ter esta dúvida; muitas editoras continuam a grafar este título com aquela vírgula equivocada.

Depois do Acordo:

idéia>ideia

ambigüidade>ambiguidade

seqüência >sequência

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E/OU — valor da barra inclinada

Prezado professor: assim como no futebol todos se consideram técnicos, muitos se consideram especialistas no nosso idioma, principalmente no ambiente acadêmico. A discussão comeu solta em nossa universidade a respeito da seguinte frase:

Serão considerados docentes permanentes os professores que desenvolvam atividades de ensino na graduação E/OU pós-graduação.

Por causa deste e/ou, um grupo defende que o professor, para ser considerado docente permanente, terá de estar obrigatoriamente ligado à graduação, sendo opcional seu vínculo com a pós-graduação. Outro grupo, no entanto, entende que o artigo acima permite que um professor seja classificado como docente permanente mesmo que esteja ligado apenas à pós-graduação. Sem entrar no mérito da questão, mas exclusivamente dentro da visão lingüística, qual dos dois grupos faz a interpretação correta?

Jacob W. – Campinas (SP)

Meu caro Jacob, o emprego do E/OU sempre traz esse perigo; apesar de ser um operador muito útil, acho que ainda não está suficientemente difundido para ser usado sem causar discórdia. Há, inclusive, quem o considere uma invenção pedante e desnecessária, mas me atrevo a dizer, com base na experiência que acumulei na minha página da internet, que a maior parte dos que se opõem a ele mudaria de ideia se soubesse exatamente para que  finalidade ele foi criado.

Sua origem se explica por uma daquelas diferenças bem marcantes que existem entre a linguagem da Lógica Formal e a linguagem humana, principalmente no valor de conectores como E, OU e MAS. Onde usamos nosso OU, o Latim usava duas palavras diferentes, vel e aut. O primeiro era um OU fraco, inclusivo, significando “um ou outro, possivelmente ambos“; o segundo era um OU forte, exclusivo, significando “ou será um, ou será outro“.

1 – OU inclusivo (qualquer um dos dois):

É uma flor delicada; o frio OU o calor excessivos podem fazê-la morrer.

Ele aceita trocar o carro por ações OU por mercadorias.

2 – OU exclusivo (ou um, ou outro):

O cargo de presidente, que está vago, será ocupado por João OU Pedro.

Esta chave deve pertencer a Pedro OU àquele professor visitante.

A Lógica Formal resolveu o problema criando dois símbolos diferentes, um para cada tipo de OU. Uma língua natural como o Português, porém, não pode “criar” conjunções ou preposições; por causa disso surgiu a prática (adotada por alguns, mas não por todos os usuários) de usar uma barra entre o E e o OU para indicar que se trata do OU fraco (o vel do Latim), isto é, o OU inclusivo. A frase abaixo é um bom exemplo:

O calor acima dos 50 graus e/ou a umidade acima de 70% podem alterar esta substância.

Esta frase contém três afirmações diretas:

(1) o calor acima dos 50 graus pode alterar a substância,

(2) a umidade acima dos 70% pode alterar a substância,

(3) o calor e a umidade juntos podem alterar a substância.

A frase que vocês discutiram — “serão considerados docentes permanentes os professores que desenvolvam atividades de ensino na graduação E/OU pós-graduação” — afirma, claramente, que será classificável como docente permanente

(1) o professor que só atua na graduação,

(2) o professor que só atua na pós-graduação e

(3) o professor que atua em ambas.

Como acontece em qualquer disjunção inclusiva (este é o nome técnico empregado pela Lógica), só ficará excluído o professor que não se enquadrar em nenhuma dessas três hipóteses.

Se o burocrata que escreveu esse texto sabe usar o E/OU, foi isso o que ele disse. Se tivesse escrito “na graduação E na pós-graduação”, teria dado margem à interpretação, por parte de alguns leitores, de que só seria enquadrado aquele que atuasse nas duas áreas, excluindo-se aqueles que atuassem em apenas uma delas. Por outro lado, se tivesse escrito “na graduação OU na pós-graduação”, teria dado margem à interpretação, por parte de outros, de que só se enquadraria nesta classificação aquele que lecionasse ou na graduação, ou na pós-graduação — excluindo-se o que lecionasse em ambas. Ao usar o E/OU, matou a questão: só fica excluído aquele que não leciona em nenhuma das duas.

[Extraído do Guia Prático do Português Correto – V. 4: PONTUAÇÃO, já no prelo]

Depois do Acordo: lingüística > linguística

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Quem sabe, sabe

Como pedrada em abelheiro, as recentes colunas sobre o ponto-e-vírgula levantaram uma revoada de perguntas sobre pontuação. Um leitor muito qualificado (já explico o epíteto) quer saber se a regra que proíbe a vírgula entre sujeito e predicado não pode ter exceções, pois na peça “A vida é sonho”, de Calderón de la Barca, vem “La vida es sueño, y sueños, sueños son” — o que, em vernáculo, daria “A vida é sonho, e sonhos, sonhos são”. O exemplo, além de cultíssimo — afinal, por estas plagas, quem anda lendo Calderón no original? —, é excelente, pois nos obriga a trazer para a luz alguns princípios fundamentais.

Antes de mais nada, é preciso deixar  bem claro que  não existe uma regra que proíba a vírgula entre o sujeito e o predicado, mas sim a recomendação veemente, por parte dos professores e gramáticos de todo o país, para não fazê-lo. No entanto, como já frisei várias vezes, esta regra de pontuação é mais um conselho do que uma regra propriamente dita. Ela não tem, como as regras de acentuação, aquela obrigatoriedade que não admite divergências, e haverá casos, como este, em que é necessário (ou aconselhável) contrariá-la deliberadamente, a fim de tornar a leitura mais fluente.

O princípio geral é muito simples: como devemos reservar a vírgula para assinalar tudo aquilo que foge à normalidade sintática, é evidente que não há razão para separar o sujeito do verbo, nem o verbo de seu complemento, já que esta é a ordem canônica da frase no Português. Todavia, quando o sujeito for oracional (representado por uma oração subordinada substantiva), os bons escritores empregam, muitas vezes, uma vírgula para assinalar com maior clareza o fim do bloco do sujeito. Em Machado de Assis encontramos tanto exemplos sem vírgula (“Quem não viu aquilo não viu nada”; “Quem for mãe que lhe atire a primeira pedra”) quanto com vírgula (“Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência”; “Quem viesse pelo lado do mar, veria as costas do palácio, os jardins e os lagos…”; “Quem morreu, morreu”). Um excelente exemplo pode ser encontrado em Vieira: “…ninguém se atreva a negar que tudo quanto houve, passou, e tudo quanto é, passa”. Não podemos negar que a vírgula empregada nos exemplos acima apenas veio facilitar o trabalho de processamento da frase; se ela fosse inadequada, ocorreria o efeito oposto. Foi certamente por isso que os nossos estudiosos sempre consideraram facultativa a vírgula nesta posição.

Num breve passeio pelo mundo dos provérbios portugueses, há muitos exemplos em que esta vírgula, embora possível, pode ser dispensada: “Quem avisa amigo é”; “Quem bate no cão bate no dono”; “Quem dá o mal dá o remédio”; “Quem quer o fim quer os meios”, “Quem não deve não teme”. Ela passa a ser muito útil, no entanto, nos casos de construção paralela, em que o verbo da oração substantiva é seguido imediatamente pelo verbo da oração principal: “Quem quer, faz; quem não quer, manda”. “Quem sabe, faz; quem não sabe, ensina”. “Quem procura, acha; quem guarda, sempre tem”. “Quem não faz, leva”. Agora, se o verbo for idêntico nas duas orações, esta vírgula passa a ser indispensável: “Quem deu, dará; quem pediu, pedirá”. “Quem vai, vai; quem fica, fica”. “Quem sabe, sabe”. “Quem pode, pode” – isso sem falar naqueles casos em que a forma verbal pode se confundir com um substantivo homógrafo, criando-se uma ambiguidade que a vírgula desmancha imediatamente: “Quem quiser, peça“; “Quem ama, cobra“; “Quem teme, ameaça“; “Quem deseja, casa” (não se trata de alguém que “quer peça”, ou “ama cobra”, ou “teme ameaça”, ou “deseja casa”).

No belíssimo exemplo do Calderón que deu origem a esta coluna, basta comparar a versão com vírgula — “E sonhos, sonhos são” — com a versão que seria, segundo alguns, a “correta” — “E sonhos sonhos são” — para ver que aquela vírgula é decisiva para a imediata compreensão do verso por parte do leitor. Aqueles que protestam contra essa flexibilidade demonstram que não compreenderam que a razão de ser da pontuação é o leitor. Não se trata, aqui, de voltar àquela antiga visão de pontuação subjetiva, submetida ao simples capricho de quem escreve; bem pelo contrário: a finalidade exclusiva dos sinais de pontuação é orientar o leitor no trabalho de decodificar as frases que escrevemos. Tudo que contribuir para isso será bem-vindo (e vice-versa).

Ah, e já que estamos falando nisso, informo aos amigos que acabo de entregar à L&PM os originais do meu livro sobre pontuação. A ver…

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O ponto-e-vírgula vive! — (segunda parte)

Já que estou em plena campanha para tirar o ponto-e-vírgula do ostracismo em que se encontra, volto a exaltar suas virtudes, na esperança de revigorar seus aficionados e, quem sabe, conquistar novos adeptos. Ora, sendo esta uma coluna dedicada, como diz seu nome, ao prazer de falar sobre linguagem, acho que não caberiam aqui recomendações detalhadas sobre o emprego deste sinal — que virão bem explicadas no Guia Prático do Português Correto-Pontuação, a ser lançado em breve pela L&PM. Em vez disso, resolvi apresentar algumas situações em que o ponto-e-vírgula mostra, com galhardia, o que veio fazer neste mundo.

Para começar, ele é indispensável para deixar clara uma frase que enumera uma série de elementos que já contenham vírgulas: “A ordem do cortejo era uma verdadeira aula de sociologia: o rei, isolado e autoritário, vinha na frente; o clero e a nobreza, na direita; os indecisos, alguns burgueses e alguns mercadores, no centro; os camponeses, trabalhadores e pobres, na esquerda”. Qualquer que seja sua ideologia pontuacional, o prezado amigo vai ter de concordar que este trecho ficaria um verdadeiro labirinto se trocássemos os ponto-e-vírgulas por vírgulas; os sinais, em vez de orientar o leitor, exigiriam dele um trabalho extra de interpretação, perdendo assim a sua única razão de existir. Se os trocássemos por pontos, o efeito seria igualmente danoso: além de destruirmos a enumeração anunciada pelo dois-pontos, teríamos criado uma frase ridícula e desagradável, vazada naquele horrendo estilo saltitante, de passinho curto, que eu costumo chamar de “estilo tico-tico”.

O ponto-e-vírgula também serve para avisar o leitor de que a sequência vai continuar, o que ressalta a ligação entre as partes e estabelece uma relação semântica entre elas. Num conto de Machado, a personagem principal, Dona Benedita, convida para jantar um jovem oficial da Marinha que, sem que ela saiba, está enamorado de sua filha Eulália: “Olhe, disse D. Benedita, vá amanhã. Mascarenhas foi, e foi mais cedo. D. Benedita falou-lhe da vida do mar; ele pediu-lhe a filha em casamento “. Como fica fácil de ver, o ponto-e-vírgula não separa as partes de uma frase; bem pelo contrário: ao usá-lo, Machado encontrou uma maneira genial de reunir duas idéias que, a rigor, não poderiam ser ligadas pelas fórmulas costumeiras de coordenação ou subordinação.

Outras vezes, é graças a este sinal que o leitor pode enxergar o tronco e os ramos da argumentação:

Os americanos viam o escravo negro como um ser inferior, a meio caminho entre o homem e o animal; muitos anos se passaram, depois da abolição, até que a lei tolerasse os primeiros casamentos interraciais nos EUA. Os portugueses já traziam sangue africano nas veias, herança de muitos séculos da presença árabe na Península; entre nós, que descendemos deles, a miscigenação nunca foi proibida ou hostilizada.

Aqui, é o ponto-e-vírgula que sustenta a arquitetura do contraste entre os EUA e o Brasil. Se nós o substituíssemos pelo ponto, teríamos quatro frases estanques, enfiadas como as contas de um rosário, que caberia ao leitor ligar à sua maneira:

Os americanos viam o escravo negro como um ser inferior, a meio caminho entre o homem e o animal. Muitos anos se passaram, depois da abolição, até que a lei tolerasse os primeiros casamentos interraciais nos EUA. Os portugueses já traziam sangue africano nas veias, herança de muitos séculos da presença árabe na Península. Entre nós, que descendemos deles, a miscigenação nunca foi proibida ou hostilizada.

De qualquer forma, é um sinal que desperta paixões violentas, seja a seu favor, seja contra. Escritores como Proust e Machado não podiam viver sem ele; os franceses usam-no com naturalidade e elegância; George Orwell tentou abandoná-lo, mas acabou tendo uma recaída; Hemingway, como a maior parte dos americanos modernos, evitou-o deliberadamente em toda sua obra. O ataque mais violento veio de Kurt Vonnegut, escritor americano que já foi importante; não sei que planta ele andou mastigando (talvez o cacto amargo do ressentimento) para dizer, numa famosa conferência sobre a arte de escrever:

“Regra nº 1: não use ponto-e-vírgulas. Eles são hermafroditas travestidos que não representam coisíssima nenhuma. Só servem para mostrar que você fez faculdade”.

Que não se use, nada mais natural: a pontuação, afinal, admite uma série de escolhas pessoais; que não se entenda a razão dele existir, é aceitável — principalmente vindo de quem não tem muita leitura; que se combata o ponto-e-vírgula, no entanto, é, como diria o velho Camilo, coisa de maluco sem intervalos.

Depois do Acordo:

seqüência > sequência

idéias> ideias

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o ponto-e-vírgula vive!

Na hora do cafezinho, numa das pontas da mesa, brotou uma daquelas bem-humoradas discussões que coroam todo jantar em que bons amigos se reúnem em torno da boa comida. Falavam, não sei por quê, em espécies em extinção; citaram o panda-gigante, a ararinha-azul, o mico-leão-dourado e o ex-cantor Sting. “E o ponto-e-vírgula?”, perguntei, em tom de brincadeira — “Quando vão formar uma ONG para defender este pobre bichinho?”. Para minha surpresa, um dos presentes, grande admirador da belíssima primeira-dama da França, informou que o presidente Sarkozy, faz alguns meses, havia instruído todo o seu ministério a reabilitar o uso deste sinal nos documentos administrativos, tendo fixado, por página, o mínimo de três ponto-e-vírgulas (mas cá para nós, que plural mais “singular”!). Tal medida teria como objetivo combater a tirania da frase curta, curtíssima verdadeira praga que assola o estilo moderno , fazendo voltar os elegantes e articulados períodos que sempre caracterizaram a sintaxe da língua em que brilharam Bossuet, Voltaire e Flaubert.

Embora desconfiado com a veracidade da informação, declarei, na hora, que morria de inveja dos franceses, pois o máximo que nossos políticos sabiam propor, em termos de idioma, eram asneiras como proibir estrangeirismos ou juro que não estou fazendo troça abolir a crase! É claro que, chegando em casa, fui correndo à internet para conferir o ato de Sarcozy e, como eu já suspeitava, era apenas uma brincadeira. Inteligente, sim, mas brincadeira, a começar pela falsa “portaria” governamental, datada de 1/4/2008, ou seja, bem no primeiro de abril, dia internacional dos crédulos e dos tolos… Alguns jornalistas perceberam imediatamente o logro, outros demoraram um pouco mais, mas o que realmente importa os autores conseguiram, com seu trote bem-intencionado, despertar uma ampla discussão sobre a utilidade do ponto-e-vírgula e as perspectivas de sua sobrevivência.

O que realmente me deu inveja, admito, foi ver que lá, entre os franceses, ainda perdura um certo respeito por este sinal, mesmo por aqueles que confessam não usá-lo há muitos anos. O depoimento das novas gerações, infelizmente, deixa entrever que o ponto-e-vírgula vai se tornar cada vez mais raro na França, como já o é na maioria dos países ocidentais, incluindo o nosso a menos que se desenvolva uma campanha permanente para esclarecer os efeitos que ele traz para uma pontuação bem estruturada. O pequeno prestígio de que ele hoje desfruta entre nós como se diz por aqui, ele anda com um “baixíssimo ibope” é devido, imagino, ao velho equívoco teórico, ainda disseminado na maior parte das gramáticas e dos livros escolares, de associar os sinais de pontuação com as pausas que fazemos durante a leitura.

O que vou dizer é óbvio, mas deve ser dito: faz muito tempo que as pausas deixaram de ser o motivo para pontuar um texto. Esse era o modelo antigo, que imperou, absoluto, da Antiguidade Clássica até a Idade Média, quando o Ocidente ainda não havia introjetado o hábito da leitura silenciosa. Até o Renascimento, a maioria dos leitores liam em voz alta; os sinais de pontuação serviam, portanto, para marcar as pausas e as entonações. À medida que a leitura passou a ser silenciosa (e, por esse motivo, muito mais rápida), deixou de ser necessário fazer a marcação das pausas, liberando a pontuação para outra finalidade muito mais importante: facilitar ao leitor o reconhecimento instantâneo da estrutura sintática das frases. Ao pontuarmos um texto, estamos fornecendo indicações que vão permitir a nossos diferentes leitores percorrê-lo sem hesitações ou embaraços.

Apesar do predomínio absoluto da leitura silenciosa, ainda hoje não se consolidou completamente a passagem do antigo sistema de pontuação para o atual, baseado na estrutura sintática. Em 1737, o tratado Bibliotheca Technologica, do erudito inglês Benjamin Martin, tenta ingenuamente fixar a duração dessas pausas: “A pausa da vírgula dura o tempo que você leva para dizer um; a do ponto-e-vírgula dura o tempo de contar até dois; a do dois-pontos, o tempo de contar até três; e a do ponto final, o tempo que você leva para contar até quatro“. Pois não é que, até hoje, nossos melhores dicionários continuam com a mesma lengalenga? O próprio Houaiss, meu preferido, define o ponto-e-vírgula como “sinal de pontuação que indica pausa mais forte que a da vírgula e menos que a do ponto”! Coitadinho! Na divisão das competências, coube-lhe uma função indefinida e subalterna, a meio caminho entre a vírgula e o ponto. Com um valor tão impreciso assim, não espanta que seu emprego tenha se tornado cada vez mais raro.

(Continua)

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espaço antes da vírgula?

Professor Moreno, gostaria saber se existe alguma regra formal que obrigue a pontuação a ficar “encostada” à palavra da esquerda. Um colega de trabalho costuma colocar um espaço entre a última palavra escrita (ou digitada) e o sinal de pontuação, seja vírgula, dois-pontos, ponto final, ponto de interrogação ou de exclamação. Argumentei que esse não era o costume, mas me desafiou a apresentar a norma que proíbe que isso seja feito. Pesquisei exaustivamente e consultei alguns professores, mas não achei o que procurava, pois a maioria das pessoas acha que é só um costume estético. Há algum fundamento gramatical?

José Francisco C.  — Sorocaba (SP)

Prezado José, este é um daqueles casos em que o costume acaba se tornando lei. As vírgulas, os pontos, etc. realmente costumam ficar encostados na palavra anterior, não por força de alguma regra gramatical, mas sim por herança da forte tradição tipográfica que antecedeu o nosso mundo de textos digitais. Eu pensava que, com o tempo, este detalhe acabaria se tornando irrelevante, já que um processador de texto como o Word, ao justificar as linhas, às vezes produz um efeito visual em que o espaço entre as palavras, ou entre elas e os sinais de pontuação, parece consideravelmente aumentado

Acontece que eu não estava enxergando o óbvio, e foi necessário que um leitor de Porto Alegre, Alfredo Kauer, me chamasse a atenção para um princípio fundamental de digitação que, embora não seja uma regra gramatical, encerra definitivamente a questão: ao teclarmos um texto no computador, o processador de texto interpreta cada toque de espaço como o aviso de que uma palavra terminou e que vai começar outra; por isso, nunca devemos inserir um espaço antes do sinal (seja vírgula, ponto, ponto-e-vírgula, parênteses, aspas, etc.), mas sim depois, para que o sinal se torne, aos olhos do processador, parte integrante da palavra anterior. Como a mudança automática de linhas sempre se dá depois de uma palavra completa, a vírgula, estando “encostada”, não vai passar para a linha seguinte.

Aposto que os textos digitados pelo teu colega de trabalho apresentam, às vezes, algum sinal de pontuação isolado no início de certas linhas — o que, além de esquisito, torna muito penoso o trabalho do leitor, obrigando-o a voltar à linha que já tinha lido. Se essa observação é notícia antiga para os usuários mais experientes dos processadores de texto, muito poderá esclarecer os novatos, que às vezes ficam olhando intrigados para aquele sinal solitário no começo da linha, atribuindo-o a alguma daquelas entidades misteriosas que volta e meia se manifestam no nosso monitor, como a desanimadora tela azul ou aquela mensagem, tão antipática quanto apocalítica, que nos informa que acabamos de cometer um “erro fatal”. Abraço. Prof. Moreno

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vírgula depois de sujeito oracional

Um livro muito conhecido traz o título de “Quem ama, educa”. Podemos considerar correta essa vírgula, embora ela esteja separando o sujeito oracional do resto da frase? O Doutor mostra que sim.

Existe algum caso na língua portuguesa em que se separa o sujeito do predicado por vírgula? Vejo esse erro com freqüência, até mesmo em veículos da grande imprensa; sempre achei que se tratava de um equívoco, mas fiquei em dúvida quando li a seguinte frase no seu artigo  os nomes do peru: “Só sei que naquela época esta era a regra do jogo – quem domina e coloniza, dá o nome”. “Quem domina e coloniza” e “dá o nome” não são, respectivamente, sujeito e predicado da frase?

Guilherme Netto  – Paris, França

Sim, Guilherme, está correta sua análise da frase que escrevi, assim como também é verdade que não se deve colocar, na pontuação moderna, uma vírgula entre o sujeito e o predicado. No entanto, como já frisei várias vezes, esta regra de pontuação é mais um conselho do que uma regra propriamente dita. Ela não tem, como as regras de acentuação, aquela obrigatoriedade que não admite divergências, e haverá casos, como este, em que é necessário (ou aconselhável) contrariá-la deliberadamente, a fim de tornar a leitura mais fluente.

O princípio geral é muito simples: como devemos reservar a vírgula para assinalar tudo aquilo que foge à normalidade sintática, é evidente que não há razão para separar o sujeito do verbo, nem o verbo de seu complemento, já que esta é a ordem canônica da frase no Português. Todavia, quando o sujeito for oracional (representado por uma oração subordinada substantiva), os bons escritores empregam, muitas vezes, uma vírgula para assinalar com maior clareza o fim do bloco do sujeito. Em Machado encontramos tanto exemplos sem vírgula (“Quem não viu aquilo não viu nada”; “Quem for mãe que lhe atire a primeira pedra”) quanto com vírgula (“Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência”; “Quem viesse pelo lado do mar, veria as costas do palácio, os jardins e os lagos…”; “Quem morreu, morreu”). Um excelente exemplo pode ser encontrado em Vieira: “…ninguém se atreva a negar que tudo quanto houve, passou, e tudo quanto é, passa”. Não podemos negar que a vírgula que foi empregada nos exemplos acima apenas veio facilitar o trabalho de processamento da frase; se ela fosse inadequada, ocorreria o efeito oposto. Foi certamente por isso que os nossos literatos sempre consideraram facultativa a vírgula nesta posição.

Num breve passeio pelo mundo dos provérbios portugueses, há muitos exemplos em que esta vírgula, embora possível, pode ser dispensada: “Quem avisa amigo é”; “Quem bate no cão bate no dono”; “Quem dá o mal dá o remédio”; “Quem quer o fim quer os meios”, “Quem não deve não teme”. Ela passa a ser muito útil, no entanto, nos casos de construção paralela, em que o verbo da oração substantiva é seguido imediatamente pelo verbo da oração principal: “Quem quer, faz; quem não quer, manda”. “Quem sabe, faz; quem não sabe, ensina”. “Quem procura, acha; quem guarda, sempre tem”. “Quem não faz, leva”. Agora, se o verbo for idêntico nas duas orações, esta vírgula passa a ser indispensável: “Quem deu, dará; quem pediu, pedirá”. “Quem vai, vai; quem fica, fica”. “Quem sabe, sabe”. “Quem pode, pode” — isso sem falar naqueles casos em que a forma verbal pode se confundir com um substantivo homógrafo, criando-se uma ambigüidade que a vírgula desmancha imediatamente: “Quem quiser, peça“; “Quem ama, cobra“; “Quem teme, ameaça“; “Quem deseja, casa” (não se trata de alguém que quer peça, ou ama cobra, ou teme ameaça, ou deseja casa).

Aqueles que protestam contra essa flexibilidade demonstram que não compreenderam que a razão de ser da pontuação é o leitor. Não se trata, aqui, de voltar àquela antiga visão de pontuação subjetiva, submetida ao simples capricho de quem escreve; bem pelo contrário: a finalidade exclusiva dos sinais de pontuação é orientar o leitor no trabalho de decodificar as frases que escrevemos. Tudo que contribuir para isso será bem-vindo (e vice-versa). 

Depois do Acordo:  freqüência > frequência           ambigüidade> ambiguidade

leia também:  Quem sabe, sabe 

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a segunda vírgula do aposto

Olavo Panseri quer saber se deve ou não colocar uma vírgula APÓS “o Grande” e “a Louca” em casos como Alexandre, o Grande ou Dona Maria I, a Louca. Diz ele: “Parece-me que alguns consideram que os nomes seriam [Alexandre, o Grande] e [Dona Maria I, a Louca], o que não justificaria o uso da vírgula, ficando a pontuação assim: “Dona Maria I, a Louca foi rainha de Portugal”. O que fazer? Virgular ou não virgular?”.

Meu caro Olavo, mas que pergunta! Claro que tens de colocar o aposto entre vírgulas! Quem escreve “Dona Maria, a Louca foi rainha de Portugal” está informando à Dona Maria que a Louca foi a rainha de Portugal! O aposto, o vocativo, o adjunto adverbial deslocado, entre outros, são elementos sempre intercalados, e devem vir assinalados na escrita por pontuação parentética: vírgulas duplas (o mais comum), travessões duplos ou parênteses. Abraço. Prof. Moreno