Categorias
Acordo ortográfico Como se escreve Destaque Outros sinais

lava-a-jato

Na coluna anterior, mencionei en passant a operação Lava-a-Jato — escrita assim mesmo, com tudo aquilo a que tem direito — o hifenzinho e a preposição A. Sempre atenta, a nossa Maria Rita Horn, anjo da guarda da redação, achou prudente me avisar que a imprensa, embora divirja aqui e ali quanto ao emprego do hífen, vem adotando unanimemente a forma sem a preposição. Como é um texto que leva a minha assinatura, deixamos assim como estava, mas prometi explicar os motivos da minha opção por uma grafia que comete a imprudência de contrariar os hábitos de nossa mídia.

Aliás, começo com uma ressalva: não tenho pretensões a ditar moda para a imprensa. Muitas vezes as escolhas linguísticas que os jornalistas fazem serão diferentes das minhas, e vice-versa — até porque, para eles, a linguagem é um instrumento, enquanto, para mim, ela é o próprio assunto. Como em lava-a-jato o “A” átono da preposição desaparece obrigatoriamente na pronúncia (um pequeno exercício de imaginação: se o verbo estivesse, por exemplo, na primeira pessoa, a preposição seria perfeitamente audível: lavo a jato), o vocábulo foi “reformado” na escrita para uma forma mais simples: lava-jato (falarei sobre o hífen daqui a pouco). Pronto! Essa lipoaspiração deixou tudo mais prático, mais leve, mais rápido; até concordo com isso, mas não posso deixar de apontar, caros leitores, que foi uma alteração bizarra, que desconsidera alguns princípios importantes da morfologia de nosso idioma.

O nome, segundo a própria Polícia Federal, surgiu da união do objetivo principal da operação (investigar a lavagem de dinheiro e desvio de verbas públicas) com o primeiro alvo investigado, uma casa de câmbio suspeita que pertencia ao proprietário do Posto da Torre. Lavagem de dinheiro, lavagem de carros — lava-a-jato (friso que esse oportuníssimo batismo nada teve a ver com Breaking Bad, a série de TV cujo protagonista abre uma lavagem de carros para justificar o dinheiro movimentado com a droga; a operação começou em 2004, a série é de 2008).

Se desconstruirmos (ô, verbozinho mequetrefe!) uma série de vocábulos como lava louça, lava carros, lava roupa, lava pratos, lava pés, vamos encontrar uma das estruturas mais frequentes na formação de nossos compostos: um verbo acompanhado de seu objeto direto (como em guarda roupa, tira teima, porta bandeira, etc.). Neste caso, o verbo lavar é seguido pelo nome daquilo que vai ser lavado. Já em lava a frio, lava a quente, lava a seco, lava a mão, o verbo é seguido por um adjunto adverbialcomo é que se lava. É evidente que lava a jato − lavagem usando o jato com alta pressão de água − pertence ao segundo tipo.

Os leitores atentos terão percebido que não empreguei hífen algum no parágrafo anterior; eu pretendo, desta forma, ressaltar o papel importantíssimo que este sinal tem na distinção (nem sempre possível) entre o que é uma locução (um arranjo casual de vocábulos independentes) de um substantivo composto. Grosso modo, podemos afirmar que sempre teremos hífen quando ocorrer a substantivação. “O bebê aumentava de peso dia a dia“; “o filme mostra o dia-a-dia de uma aldeia gaulesa”. “Aquele posto lava carros; ele adquiriu um potente lava-carros“. “Explicou o projeto passo a passo“; “o jornal traz um passo-a-passo para renovar o passaporte”.

Chegamos assim ao meu ponto: “como ele limpa a garagem? Ele lava a jato” (frase aliás ambígua, porque tanto pode se referir ao modo de lavar quanto à rapidez com que ele lava) é diferente de “vou usar meu lava-a-jato para tirar o limo do telhado” ou “vou passar no lava-a-jato para pegar meu carro”. Aí está: lava-a-jato. Os que quiserem me acompanhar, mas hesitam em usar o hífen por causa da confusa interpretação de um artigo do Acordo Ortográfico, que levou muita gente boa a eliminá-lo dos compostos com preposição, sigam ao menos o exemplo do Aulete, um excelente dicionário on-line, que registra lava a jato. Os que quiserem…

Categorias
Acordo ortográfico Destaque Questões do momento

Nova folia ortográfica?

As redes sociais (e os jornais menos avisados) andam ameaçando os pobres brasileiros com uma nova (e radical) reforma ortográfica. Não se assustem; trata-se apenas da proposta pessoal de um professor que pouco ou quase nada entende do riscado. 

Quando o doutor Simão Bacamarte construiu o seu hospício, conta-nos Machado, “de todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos… Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do espírito”. Felizmente naquela época ainda não se manifestavam essas pobres mentes que de vez em quando saem do anonimato para anunciar uma solução mágica para nossa ortografia; caso contrário, tenho certeza de que nosso bom alienista os mandaria internar na Casa Verde.

Como certos fenômenos meteorológicos, aparecem e desaparecem ciclicamente. Sentem-se iluminados por uma inspiração genial e inédita; com aquele olhinho brilhante que tão bem conhecemos, anunciam uma verdade que ninguém, antes deles, em todo o planeta ― nem os filólogos, nem os linguistas, nem os lexicógrafos do mundo inteiro ― ninguém, repito, havia percebido: para eliminar as dificuldades inerentes à escrita, basta criar um sistema em que a cada letra corresponda um só fonema! Puxa, que simples! Como não são especialistas no tema, pouco se lhes dá que nenhum país tenha adotado essa ortografia fonêmica ou que os linguistas reprovem unanimemente essa ideia. Para eles, nada disso conta; afinal, alguém que viu a luz não deve dar ouvidos aos que vivem na treva.

O problema é que esta mesma ignorância que os deixa felizes impede que entendam a real importância da ortografia. Ela é que deixa visível o DNA das palavras; ao realçar as semelhanças e diferenças entre elas, agrupa-as em famílias que nosso cérebro pode reconhecer. A grafia diferente do fonema /s/ em obsceno, obcecado e obsessão nos informa que se trata de três conceitos distintos; escrever essas três palavras da mesma forma levaria, em poucas gerações, a um mingau semântico irreversível. Também é por isso que não se pode eliminar o H inicial (uma das vítimas favoritas desses ortógrafos amadores): além de assinalar a família a que a palavra pertence (hombridade está ligada a homem, não a ombro), liga nosso idioma à civilização greco-romana, da qual felizmente fazemos parte. Comparem  hora (Lat.), hour (Ing.), heure (Fr.), hora (Esp.) e hora (Port.), e vejam como fica desfigurado o pobre ora, do Italiano, a única língua ocidental que suprimiu o H… Pois fiquem sabendo que todas as sociedades civilizadas já fizeram essa conta: é melhor conviver com a complexidade da ortografia, com todos os problemas e custos que isso traz, do que destruir a própria essência de nossa apreensão da realidade.

Além disso, há muitos anos a professora Mira Mateus, falando acerca dessas propostas baseadas no “escrever como se fala”, nelas apontou uma contradição essencial que as faz invariavelmente morrer no ovo: o mundo da ortografia precisa ser estável, organizado e uniforme, em contraste com o mundo da fala, ambiente sempre vivo e irrequieto, habitado por incontáveis maneiras de pronunciar as palavras, que se modificam ao sabor dos anos que passam ou da região ou país em que vive o falante.

Digo tudo isso porque uma dessas sumidades se infiltrou na comissão do Senado encarregada de propor ajustes ao Novo Acordo e anda pregando a mesma “simplificação” pedestre que era defendida, em 1940, pelo famoso general Bertoldo Klinger. Trata-se do professor Ernani Pimentel, nome totalmente desconhecido do mundo acadêmico, autor de apostilas para concurso  ― “com mais de 10.000 páginas publicadas”, diz seu saite, que parece substituir a qualidade pela quantidade. A comissão do Senado foi criada para sugerir aperfeiçoamentos ao Acordo assinado pelos países lusófonos; ele acha pouco, e quer botar tudo abaixo! Alguns jornalistas apressados caíram no conto do vigário e apresentaram suas ideias como se fossem oficiais (desmentidas pelo senador responsável; afinal, a comissão não tem poder para propor um novo acordo internacional). O nome do professor Pasquale, outro membro do grupo técnico, apareceu várias vezes nos jornais que noticiaram esta falsa “nova reforma”. Não o conheço pessoalmente, mas quase posso jurar que seu nome entrou aqui como o de Pilatos no Credo; pelo bom senso e boa formação que demonstra no que escreve, dificilmente iria embarcar nessa canoa furadíssima.

Junte-se ao nosso grupo no Facebook:  www.facebook.com/groups/sualingua

 

 

Categorias
Acordo ortográfico Destaque Questões do momento

A Reforma adiada: e agora?

Agora que a Reforma foi adiada, como é que  nós como ficamos? O que vai resultar desse adiamento? Olhe, prezado leitor, há muitos desfechos possíveis. O adiamento, a meu ver, elimina desde já a hipótese de ficar assim como está; haverá alterações de rumo.

Como vimos nas colunas anteriores, a presidente Dilma tinha toda a razão em sustar esta Reforma, adiando a sua definitiva entrada em vigor. Para que o futuro não repita esse erro (não é para isso que serve a História?), tratamos de apontar, pela ordem, os responsáveis, a fim de que o País saiba a quem culpar por este equívoco descomunal: a Comissão Elaboradora, que deu à luz a Reforma, mesmo consciente de que ela não faria o que prometia; o governo Lula, que tratou levianamente uma decisão desse porte em nome de um discutível ganho político; a comissão chapa-branca do MEC, que dissem amém ao projeto, apesar de estar ciente de seus defeitos; a Universidade, que se calou covardemente, traindo a confiança que nela deposita a sociedade que a sustenta; a ABL, que veio jogar gasolina na fogueira, ao lançar unilateralmente o seu Vocabulário Ortográfico e — o que é pior! — introduzir, por conta própria, algumas interpretações desastradas que fogem ao texto original.

Como em qualquer grande desastre, dói muito ficar sabendo — depois que ocorreu — que  houve várias oportunidades de evitá-lo. Bastaria que uma dessas instituições tivesse acenado com uma lanterna vermelha ou acionado os freios da locomotiva, e todos desceriam do comboio para avaliar o tamanho do abismo. No entanto, levados pelos mais diferentes interesses, todos acabaram se omitindo, num silêncio cúmplice que dava a todos nós, os passageiros, a impressão de que tudo corria muito bem sobre os trilhos.

A imprensa também teve lá a sua parcela de culpa, ao aderir cegamente, desde o primeiro minuto, ao novo sistema. Tomando-o como um fato consumado, passou a preocupar-se apenas em explicar o “como usar”; foram publicadas dezenas de matérias que enumeravam “o que muda”, mas nenhuma discutia a conveniência ou a exeqüibilidade da mudança. Foi como se a imprensa, ao ver tantas cabeças coroadas do mundo acadêmico endossarem o Acordo, tivesse considerado desnecessário examinar criticamente o projeto, não concedendo a ele nem um décimo da energia e do entusiasmo investigativo que os jornalistas costumam dedicar, por exemplo, ao corte de árvores em nossas ruas ou aos engarrafamentos de verão na BR-101.

Para piorar, outro fator veio contribuir para anestesiar a opinião pública: o belíssimo papel para presente em que a Reforma veio embrulhada. Afinal, quem não gostaria de unificar a grafia entre os países lusófonos e fortalecer o Português como língua internacional? Diante disso, falar contra a Reforma parecia, ipso facto, opor-se a essas coisas boas e desejáveis, em nome das quais a sociedade assinou ingenuamente esse contrato de compra em que o vendedor, de antemão, sabia que não poderia entregar o produto combinado. O inacreditável é que agora, mesmo depois de tudo o que se sabe, a ABL, em nota recente, continua a usar essas promessas vãs como argumento para lamentar o adiamento decretado pela presidente!

Mas e nós, como ficamos? O que vai resultar desse adiamento? Olhe, prezado leitor, há muitos desfechos possíveis. O adiamento, a meu ver, elimina desde já a hipótese de ficar assim como está; haverá alterações de rumo. Poderíamos (1) simplesmente anular tudo e voltar ao sistema anterior — isso já foi feito em 1945, quando o Brasil desconsiderou o acordo assinado com Portugal e preferiu ficar com o modelo de 1943; (2) revisar e corrigir o texto atual, aproveitando o que vale a pena e descartando os absurdos; (3) eliminar todos os acentos gráficos do idioma — medida que aproximaria extraordinariamente a grafia dos dois países; uma ou duas gerações sofreriam as dores do parto, mas as outras cresceriam risonhas e saudáveis…

Deve haver muitas outras saídas, mas, seja qual for a adotada, fomos empurrados para um brete do qual certamente não sairemos sem grandes prejuízos. O mal está feito; o problema agora é minimizar as conseqüências. Até 2016, vamos viver num limbo ortográfico, com os dois sistemas — o novo e o antigo — convivendo lado a lado, mas ambos inexoravelmente prejudicados: o novo, porque não nos convenceu; o antigo, porque adquiriu um inegável ar de provisório. Espero, ao menos, que todo esse sacrifício nos torne muito mais atentos e vigilantes a qualquer iniciativa “brilhante” que venha propor a troca do modelo ortográfico ou a adoção de novo modelo de tomada elétrica.

NOTA: aproveito para informar aos amigos que inicio, em março, novas turmas do meu curso de Português na Casa de Ideias, no Shopping Total. Mais detalhes no telefone [51]30187740 ou pelo e-mail contato@casadeideias.com.

Depois do Acordo:

exeqüibilidade>exequibilidade
conseqüências>consequências

Categorias
Acordo ortográfico Destaque Questões do momento

A Reforma adiada (3)

A Reforma foi um desastre que resultou de uma trágica sequência de erros e omissões; veja aqui a parcela de responsabilidade que coube à Academia Brasileira de Letras e às editoras brasileiras.

 

Diante do bem-vindo adiamento da entrada em vigor da Reforma Ortográfica, esta é a terceira coluna que dedico a nomear, para que todos guardem, os responsáveis por termos embarcado nesse inconcebível festival de leviandades que tanto prejuízo trouxe e que tanto mais ainda há de trazer ao sofrido povo brasileiro. Na galeria dos culpados, como vimos, o primeiro lugar cabe à Comissão que redigiu o Acordo, que deveria ter encerrado os trabalhos no momento em que se deu conta de que a unificação ortográfica, razão de ser da reforma, era impossível. Em segundo lugar vem o governo Lula, que, obcecado por interesses geopolíticos e diplomáticos discutíveis, jogou o país de ponta-cabeça numa aventura cujas conseqüências tinha a obrigação de prever, mas não previu. Em terceiro lugar vêm o MEC e a Universidade, que calaram por conivência, ou conveniência, deixando de esclarecer, como era o seu dever, o que precisava ser esclarecido. A esses devemos acrescentar, como veremos, a Academia Brasileira de Letras, as editoras e a própria imprensa brasileira.

A Academia — A ABL também não pode se orgulhar da participação que teve neste episódio, pois terminou agravando os danos que o Acordo, por si só, traria ao Brasil. Seus defensores alegam que esta entidade, cuja ação é limitada a nosso país, não tem competência legal para se opor a um tratado assinado por vários Estados soberanos — o que é verdade —, mas, pelo mesmo raciocínio, ela também não tem competência para mudar o que tinha sido decidido, coisa que ela fez sem remorso ou hesitação, para espanto e escândalo de nossos parceiros portugueses. Seu maior erro foi editar o seu próprio Vocabulário Ortográfico, fazendo de conta que não tinha lido, no texto do Acordo, a disposição expressa de que os países signatários deveriam trabalhar na elaboração de um “vocabulário ortográfico comum”. O pior é que, ao ser questionada por essa evidente traição ao espírito que presidiu a Reforma, a respeitável ABL saiu-se com uma resposta de “malandro eshhhhhperto”, algo como “ué, nós já fizemos o nosso; eles que façam lá o seu” — o que soou, aos ouvidos de nossos parceiros, como uma sentença de morte à tão decantada “unificação”. Pronto: com essa atitude de “Mateus, primeiro os meus”, lá se ia água abaixo a concórdia aparente que tinha unido, até ali, os membros da comunidade lusófona, que agora ameaçam seriamente deitar às urtigas tudo o que foi combinado.

As editoras — Desde o início, os editores brasileiros acolheram a ideia de uma nova ortografia como um maná caído do céu, pois julgavam que ela lhes traria uma grande expansão do mercado livreiro (tanto interna quanto externamente), além de facilitar o preparo e o aproveitamento de seus originais. Tinham toda a razão quanto ao mercado interno, pois imediatamente foi necessário fazer vultosas tiragens para suprir as bibliotecas escolares de todo o país, que tiveram de adaptar seu acervo ao novo sistema ortográfico, disputando as impressionantes verbas do Programa Nacional do Livro Didático, talvez o maior do mundo, no seu gênero. Quem apostou nesta ficha se deu bem.

A perspectiva de ampliar o mercado externo, contudo, murchou como balão furado assim que ficou claro que a Reforma tinha muito pouco de unificadora, sepultando para sempre a ideia fantástica (e ingênua), alimentada no início, de que a ortografia unificada viria permitir que um original, com o mesmo trabalho de editoração, fosse consumível em qualquer um dos países signatários do Acordo. Na medida em que estaria livre de marcas ortográficas locais, o mesmo texto poderia circular por todo o mundo lusófono com a mesma facilidade que uma chave mestra abre todas as portas do hotel; um livro composto e impresso no Brasil poderia, desta forma, ser exportado sem a necessidade de ser reeditado com as adaptações necessárias para adequá-lo ao mercado lusitano, e vice-versa.

O irônico é que essa avaliação errônea foi compartilhada  pelos editores daqui e de além-mar, mas com sentimentos opostos: os nossos a se felicitarem pela perspectiva de abocanhar uma nova fatia do mercado (os 40 milhões de leitores que seguem a norma portuguesa); os deles (falo de Portugal), a lamentarem o golpe dado pelo Brasil, que, com seu parque industrial mais moderno e pujante, passaria a ameaçar diretamente a indústria lusitana do livro e sua participação no mercado africano. Ora, como se viu, nada disso aconteceu, pelo simples fato da Reforma — volto a reiterar — não ter unificado coisíssima nenhuma. Parece que nossas editoras não consultaram especialistas (ou não quiseram acreditar nos especialistas que consultaram, o que dá na mesma); se o tivessem feito, teriam se dado conta, desde o início, de que o Acordo era um tigre de papel e de que a Reforma precisava ser implantada com mais estudo e cautela.

(continua)

Depois do Acordo: conseqüências>consequências


Categorias
Acordo ortográfico Artigos Destaque Questões do momento

A Reforma adiada (2)

Um dia alguém vai ter de explicar por que os linguistas e professores que integraram a Comissão de Língua Portuguesa do MEC não denunciaram as incongruências do Acordo, que saltam aos olhos a quem lê o texto com o mínimo de atenção.

 

Na coluna anterior, que comemorou o adiamento da obrigatoriedade das novas regras para 2016, começamos a apontar ─ para que meus leitores saibam e não esqueçam ─ os responsáveis, tanto externos quanto internos, por este imbróglio em que agora nos vemos metidos. Acho importante nomeá-los porque, acuados pelo decreto da presidente Dilma, esses mesmos responsáveis começam a se defender acusando os críticos da Reforma de “mal-intencionados ou desinformados”. Eu, que não sou nem um nem outro, resolvi então expô-los à luz do sol, esperando, como na história do Drácula, que os humanos sobrevivam e os vampiros virem pó.

A Comissão ─ Como responsáveis externos, vão para o quadro da infâmia, como vimos, os membros da Comissão que redigiu e aprovou o Acordo, por sua espantosa desonestidade intelectual: ao aceitarem, como fizeram, centenas de grafias divergentes, eles deveriam, se tivessem o mínimo espírito cívico, declarado o encerramento dos trabalhos, admitindo publicamente que o projeto era inexeqüível. Contudo, por vaidade, por interesse político ou por ambos, preferiram prosseguir mesmo assim em direção ao abismo, condenando todos os países lusófonos a esta Reforma tão singular que, como não unifica o que propunha unificar, não diz a que veio ao mundo.

O Governo ─ Os responsáveis internos são muitos. O primeiro ─ e, por isso, o maior de todos ─  foi o governo Lula, pela pressa e pela forma irresponsável com que sancionou o projeto e passou às etapas seguintes de sua implementação. Por que o Brasil não seguiu Portugal, Angola e Moçambique (para citar nossos parceiros mais importantes nesta empreitada), que decidiram esperar até 2016 para concretizar a Reforma? Suspeito que por trás desse açodamento estivesse a intenção de pôr mais uma moeda no cofrinho do “protagonismo político-diplomático brasileiro”;  o Itamarati (sem o ípsilon, revisor; chega dessa frescura! Queremos o mesmo tratamento que têm Itaqui, Ivoti e Panambi, para citar apenas alguns) ─ o Itamarati, repito, deve ter recomendado ao presidente que não esperasse o tiro de partida e desembestasse pista afora, assumindo, “na manha”, a liderança entre os países lusófonos… É por isso que o adiamento decretado pela presidente Dilma está incomodando tanta gente: além de ser uma vitória do bom senso, vem derrubar mais um falso brilhante da coroa com que seu antecessor se pavoneava.

O MEC e a Universidade ─  É absolutamente inadmissível que os sonhos pessoais de um político sejam postos acima das sérias conseqüências culturais e pedagógicas da implantação de uma Reforma desse tipo, mas os defensores do ex-presidente agora alegam que ele foi mal aconselhado pelo MEC ─ o que é inegável. Não sei o que Lula teria feito se o grupo designado para examinar o impacto da Reforma ─ a Comissão de Língua Portuguesa, a tal COLIP ─ tivesse recomendado menos pressa com o andor, mas o fato é que ela não o fez. Inexplicavelmente, os lingüistas e professores de língua portuguesa que integravam a comissão não denunciaram (com raras e corajosas exceções) as incongruências do Acordo, que saltam aos olhos a quem lê o texto com o mínimo de atenção, nem sugeriram cautela na implantação de uma Reforma que, como já se via, servia apenas para introduzir algumas mudanças quase cosméticas no sistema vigente.

A não ser por alinhamento ideológico com o governo que terminou, fica difícil entender o silêncio conivente desses e da quase totalidade dos demais doutores de nossas universidades, os quais, por sua formação e por sua capacitação intelectual, devem ter enxergado, muito antes que os simples habitantes da planície, o esvaziamento do princípio justificador da Reforma e não deram o sinal de alerta. Afinal, a norma ortográfica já estava há muito consolidada; o dispêndio colossal de recursos para implantar um novo modelo (pobre Angola! … pobre Moçambique!) só seria justificado se houvesse um ganho significativo com a mudança ─ o que, todos estamos vendo, simplesmente não vai ocorrer. Os problemas do Acordo e do VOLP, tão evidentes, contrastavam de tal maneira com o silêncio dos acadêmicos que recordei várias vezes, nesta coluna, a trágica figura de Cassandra, a filha de Príamo, o último rei de Tróia, condenada a viver uma situação absurda, mas semelhante à nossa: ela via claramente o que estava prestes a acontecer, mas ninguém parecia ouvir os seus avisos (confira AQUI as honestas advertências que esta coluna vem fazendo desde 2007).

(continua aqui)

Depois do Acordo:

  • inexeqüível > inexequível
  • conseqüências > consequências
  • lingüistas > linguistas
  • Tróia > Troia
Categorias
Acordo ortográfico Destaquinho Generalidades

ARTIGOS SOBRE REFORMA ORTOGRÁFICA

São muitos os artigos do Sua Língua que falam do Acordo Ortográfico. Reúno, abaixo, em ordem de publicação, os dez textos em que analiso mais de perto as causas, as consequências e os prejuízos desta periclitante Reforma:

01 ─ Deixem a nossa ortografia em paz!

02 ─ Esqueçam essa reforma!

03 ─ O pesadelo de Cassandra

04 ─ O pesadelo de Cassandra continua

05 ─ O que muda na ortografia?

06 ─ Mudanças na ortografia

07 ─ Não compre o novo VOLP! (1)

08 ─ Não compre o novo VOLP! (2)

09 ─ Não compre o novo VOLP! (3)

10 ─ Não compre o novo VOLP (4)

Categorias
Acordo ortográfico Destaque Questões do momento

A Reforma adiada (1) – a vitória do bom senso

Ao aceitar um grande número de grafias diferentes entre os vários países lusófonos, os membros da Comissão que elaborou o novo Acordo Ortográfico deveriam ter voltado para suas casas, admitindo a impossibilidade dessa utopia unificadora. Infelizmente, numa constrangedora demonstração de falta de espírito cívico, terminaram por aprovar uma Reforma que trai o seu objetivo principal.

Um dos fatos mais importantes de 2012 para nós, brasileiros, praticamente passou em branco nas indefectíveis retrospectivas de final de ano: atendendo ao clamor de vários setores, a presidente Dilma determinou o adiamento do início da obrigatoriedade da “nova ortografia”, que ocorreria na noite do Ano-Novo, no exato momento em que, concluída a contagem regressiva da Globo, os fogos de artifício da baía da Guanabara espocassem em todos os telões e telinhas desta pobre mas valorosa Pindorama. O decreto presidencial, publicado do Diário Oficial no dia 28 de dezembro, estipula que o uso das novas regras só passará a ser obrigatório em 2016 — o que significa, prezado leitor, que, até lá, você poderá escolher entre dois sistemas ortográficos diferentes mas igualmente válidos.

Este providencial (e inesperado) ataque de bom senso foi, a meu ver, o melhor presente que o bom Pai Noel poderia nos trazer. O Brasil, que tinha se atirado de ponta-cabeça no abismo das novas regras (num açodamento, aliás, que surpreendeu e assustou os demais países lusófonos, bem mais prudentes do que nós), ganha assim tempo para amadurecer suas decisões, avaliar as tropelias que cometeu em todo esse processo e mudar o que for possível para minimizar os prejuízos que esta Reforma nos trouxe. O imbróglio em que estamos metidos é tão grande que acho indispensável lembrar quem foram os responsáveis — tanto os externos quanto os internos.

Os responsáveis externos são os participantes da Comissão que elaborou o Acordo, que não tiveram a honestidade de abandonar este projeto digno de um Nabucodonosor enlouquecido. Explico melhor: esta Reforma passou a perder seu prestígio e respeitabilidade no momento em que os usuários se deram conta de que ela se baseia numa falsa promessa. Como uma comerciante desonesta, vende o que ela própria não se dispõe a entregar. Espantado, caro leitor? Mas então me diga: o principal fundamento apresentado para abandonar o modelo que tínhamos não era a adoção de um sistema unificado, em que todos os falantes do Português  grafariam as palavras de uma mesma e única forma? Não era este estado quase edênico, do lobo e do cordeiro vivendo juntos e usando os mesmos acentos e letras, a grande justificativa para o esforço e o custo exigidos para implantar esta nova sociedade de igualdade ortográfica? Pois deveria ser, leitor, mas não é — e não sou eu quem diz, e sim a própria Comissão que redigiu o Acordo, ao aceitar e oficializar uma série de diferenças entre o modo de escrever deste e do outro lado do Atlântico, que continuarão intocadas. Aponto alguns exemplos:

1) Os que falam aqui usam certas pronúncias distintas dos que falam no além-mar? Não há problema; a Comissão dá um jeito: o Acordo oficializa centenas de formas duplas como sinônimo e sinónimo, acadêmico e académicogênio e génio, pênis e pénis, fêmur e fémur; bebê e bebé, judo e judô.

2) Portugal distingue foneticamente a 1ª pessoa do plural do presente do indicativo da mesma pessoa do pretério perfeito? Não há problema; a Comissão “unificadora” ajeita, autorizando que esta última seja acentuada por todo aquele que quiser: “Ontem trabalhámos até tarde”.

3) Há divergências na pronúncia de consoantes em fechamento de sílaba? O Acordo abraça ambas as formas de escrever: cetro e ceptro, corrupto e corruto, concepção e conceção. E por aí vai a valsa (ou o samba… ou o fado…).

Ora, aqui está, a meu ver, a grande desonestidade das pessoas que elaboraram este Acordo: ao se ver compelida a institucionalizar tantas duplicidades ortográficas (justificadas, é óbvio, por diferenças reais na pronúncia), a Comissão elaboradora deveria ter admitido a inexequibilidade do projeto e enterrado definitivamente esta proposta de unificação no cemitério das utopias (o qual, aliás, anda muito concorrido, ultimamente…). Que tivesse a hombridade de se definir: se a unificação não é possível, então não se fale mais nisso… No entanto, por vaidade, onipotência ou simplesmente para não perder a viagem, como se diz, ela acabou fazendo aquilo que, no tempo dos sapateiros, era chamado de “meia-sola”: alterou algumas coisas aqui e ali, “ao menos diminuindo um pouco mais a distância do sonho de uma grafia unificada”, como declarou, sem a menor vergonha na cara, um destacado membro da Comissão — como se fosse coisa pouca mexer na ortografia de tantos países para obter resultado tão pífio.

(continua)

Veja AQUI o que já publicamos sobre o Acordo

Categorias
Acordo ortográfico Como se escreve Destaque Questões do momento

Bom dia!

“Bom dia!”, “Boa tarde!”, “Boas festas!”, “Bom jogo!”, “Bom almoço!”, “Boa aula!” ou “Bom enterro!”,  tudo isso se escreve SEM hífen. O “bom-dia” que está no dicionário é vinho de outra pipa.

Bom dia, amigos. Todo professor de Português sabe, por experiência, que aquilo que é dúvida para um geralmente é dúvida também para muitos. Pois ao longo deste ano, três diferentes leitores — Edmilson (de São Carlos), Lúcia (de Curitiba) e Deborah (de São Paulo) — trocaram correspondência comigo sobre a necessidade ou não de usar hífen em bom dia ou boa noite, problema que, acredito, já aflige muitos de meus leitores — ou vai terminar afligindo, porque, como se sabe, o hífen sempre vai ser a pulga da nossa camisola. Para pôr ordem na minha explicação, vou aproveitar a formulação das perguntas que recebi sem fazer a devida identificação de seu autor. Como veremos, ambas as formas — bom-dia ou bom dia — existem, mas correspondem a duas situações completamente diferentes.

(1) “Professor, não entendi exatamente o que os dicionários e o Novo Acordo estabelecem quanto à hifenização de bom dia. Quando se trata de um substantivo, não tenho dúvida em usar o hífen (Ele deu um bom-dia e saiu). Mas, e quando estou simplesmente cumprimentando alguém? Acho que o hífen não é necessário (Bom dia, papai!), mas muita gente defende o contrário, com base no que aparece nos dicionários. O dicionário Houaiss, por exemplo, hifeniza”.

(2) “Caro Professor, em uma mensagem eletrônica ou em uma carta, o cumprimento bom-dia deve ser hifenizado, não é? De acordo com o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, esta habitual saudação é vocábulo grafado com hífen. O Houaiss ratifica tal ponto de vista. Afinal, ao iniciar o dia, o bom-dia é um cumprimento, pois não? Posso pensar assim?”.

(3) “Professor, o Vocabulário Ortográfico registra o vocábulo bom-dia com hífen; achei estranho e escrevi para a Academia Brasileira de Letras, que agora mantém um serviço denominado ABL Responde, para perguntar se haveria alguma outra situação em que se pudesse usá-lo sem hífen. Sabe o que eles me responderam? Que bom-dia cumprimento sempre tem hífen, mas pode ficar separado em casos especiais — como passei um bom dia na casa de veraneio de meu irmão. Não é de amargar?”.

Em primeiro lugar, vamos deixar bem claro que a grafia deste vocábulo não sofre alteração alguma com o Novo Acordo, que não tocou neste assunto. Em segundo lugar, é fundamental que se leiam os dicionários tecnicamente, prestando-se atenção aos mínimos detalhes registrados no verbete. Tanto no Houaiss quanto no Vocabulário Ortográfico o bom-dia hifenizado vem seguido pela abreviatura “s.m.”, que indica tratar-se de um substantivo: “Ele me deu um bom-dia seco e mal-humorado”, ou “Deu um alegre bom-dia e foi sentar em seu lugar”. Neste caso, como bom substantivo que é, pode vir acompanhado dos acessórios de sempre (artigos, possessivos e adjetivos): “Já estou farto desses teus bons-dias cheios de segundas intenções”.

É evidente que isso nada tem a ver com o outro “Bom dia!”, aquele segmento de frase que dizemos quando encontramos alguém ou dele nos despedimos; como num iceberg, só lhe vemos a pontinha,  porque o resto da frase está elíptico: [Desejo que você tenha um] “bom dia!” — o mesmo fenômeno que ocorre com fórmulas de agradecimento como grato ou obrigado, que nada mais são que o final de sequências subentendidas: [fico-lhe] obrigado, [fico-lhe] grato.

Portanto, amigos, seja qual for a circunstância — carta, bilhete, e-mail, etc. — a saudação vai ser escrita sem hífen. É uma locução, ou seja, é uma sequência de vocábulos autônomos; ela pertence ao mundo da sintaxe, o que a  deixa fora da área de alcance do emprego do hífen, sinal que está restrito ao interior de um vocábulo composto. O “Bom dia!” com que abro a coluna de hoje é uma saudação da mesma tribo de “Boas festas!”, “Bons ventos!”, “Bom Carnaval!”, “Boa viagem”, “Bom almoço!”, “Boa hora” (que se diz para as gestantes), e assim por diante.

A diferença entre as duas situações fica ainda mais evidente se compararmos a concordância de gênero que ocorre em “Tenha uma boa tarde” (é uma locução; poderíamos inverter para “Tenha uma tarde boa“) com “Deixo aos ouvintes o meu boa-tarde” (neste caso, um substantivo composto masculino).

 

Categorias
Acordo ortográfico Artigos Como se escreve Destaque Questões do momento

acriano

O Doutor esclarece: embora ainda seja polêmica a forma correta de grafar certos TOPÔNIMOS, a grafia dos adjetivos gentílicos sempre seguirá, rigorosamente, a norma ortográfica em vigor.

 

1 – Quem mexe em casa de abelha deixa o enxame assanhado, ensinavam os antigos. Não deu outra: na coluna anterior, falamos sobre a forma correta de grafar o nome de Santana do Livramento; foi o que bastou para que um leitor do Acre, atualmente em férias em Porto Alegre, pedisse minha opinião sobre a melhor maneira de escrever o gentílico correspondente àquele estado: acreano ou acriano? Ora, a experiência me ensinou que um dos assuntos mais delicados para quem escreve sobre questões de linguagem é, acreditem, a grafia dos nomes próprios, seja de pessoas, seja de lugares; qualquer discussão neste campo deve ser conduzida com muito tato, já que o nome, muitas vezes, é uma parte extremamente sensível do indivíduo ou da comunidade. Com nomes de gente — os antropônimos é muito fácil evitar animosidades: embora exista uma forma correta de grafá-los, nosso sistema admite, muito sabiamente, o direito de cada um portar seu nome da maneira como recebeu no cartório ou no registro da igreja. Em outras palavras, o nome genérico deve seguir a norma ortográfica; o nome individual, no entanto, é livre para seguir a tradição da família, a fantasia dos pais ou os princípios da numerologia. Quando minha filha escreve para dar notícias e comenta que na sua sala de aula existem um Tomás e uma Teresa, vai usar a forma genérica sem precisar perguntar se o garoto assina Thomaz, Tomaz ou Thomás, e a garota, Thereza, Tereza ou Theresa. Desta forma, todos ficam em paz.

Os nomes geográficos, contudo, seguem necessariamente uma lógica diferente. Por sua própria natureza pública, não podem ter esse caráter subjetivo dos nomes pessoais e precisam se adequar à norma ortográfica que estiver em vigência. Como vimos, o Acordo de 1943 alterou a grafia de centenas de nomes tradicionais: Triumpho passou a Triunfo, Trammandahy a Tramandaí, Manáos a Manaus, Iguassu a Iguaçu, e assim por diante. Joia, no Rio Grande do Sul, tinha acento até entrar em vigor o atual Acordo, que suprimiu o acento dos ditongos abertos nos vocábulos paroxítonos. É assim que funciona, e o registro de fundação do município, diferentemente do registro das pessoas físicas, não dá aos munícipes o direito de manter para sempre a grafia original. Se, no futuro, nova reforma vier a ocorrer, esses nomes sofrerão todas as modificações necessárias para se adequar à nova lei. É claro que as gerações contemporâneas às mudanças sofrem um verdadeiro choque estético diante do que lhes parece uma mutilação (é o que sinto, por exemplo, cada vez que tenho de escrever Troia em vez de Tróia) mas isso passa, assim como nós também, que estamos apenas de passagem por este mundo risonho.

Nem todos, no entanto, aceitam pacificamente essas alterações; indignados, rebelam-se, escrevem a seus parlamentares, fazem abaixo-assinados e promovem jantares de protesto no salão paroquial. Um observador estrangeiro diria que insurgir-se contra uma regra ortográfica é coisa de maluco mas nós, brasileiros, conhecendo muito bem a espantosa elasticidade das leis, sabemos que nem sempre as coisas são como deveriam ser. Pois não existe um exemplo clássico no Acordo de 1943? Como todos sabem, a partir daquela data o H foi eliminado do interior de todos os vocábulos de nosso idioma, sendo mantido apenas nos dígrafos CH, LH e NH. Com essa determinação, nihilismo passou a niilismo, exhausto passou a exausto, rehaver a reaver. No entanto, num exemplo típico do nosso tradicional “carteiraço”, o relator cedeu diante da pressão de seus conterrâneos e inseriu uma clausulazinha salvadora que estabelecia que os “topônimos de tradição secular” ficariam a salvo do novo regulamento; o exemplo que dá, “casualmente”, é o nome de seu estado: a Bahia.

Abria-se, desta forma, uma exceção que até hoje permite que certos municípios mantenham acesa a discussão sobre a grafia de seu nome, alegando enquadrar-se também nesse vaguíssimo critério de “tradição secular”. Embora a idéia me pareça absurda, reconheço que, diante do precedente, eles têm todo o direito de espernear. Não é disso, porém, que estamos tratando aqui, e sim dos vocábulos derivados dos topônimos, especialmente da classe dos adjetivos gentílicos. Estes seguem, na sua formação e na sua grafia, os mecanismos gerais do idioma; são palavras comuns, civis, que vão ser tratadas como todas as suas iguais. Bahia é um vocábulo de exceção, mas como define expressamente o Acordo os seus derivados não têm o mesmo privilégio e não podem ostentar aquele H aristocrático: baiano, baianidade, coco-da-baía, laranja-baía. (continua)

[Publicado no jornal Zero Hora – Coluna O PRAZER DAS PALAVRAS – 10/09/2010]

_________________________________

2 – Além de receber merecidas críticas da maior parte dos especialistas, o novo Vocabulário Ortográfico (o famigerado VOLP), que veio à luz em 2009, provocou também a indignação de todos  os brasileiros que moram no Acre ao registrar apenas o gentílico acriano. A Assembléia e a Academia de Letras daquele estado se uniram à frente de um movimento cívico que reivindica o direito de usar a grafia acreano, alegando ser esta a forma que sempre se usou desde o início do século 20, quando se consolidou, de uma vez por todas, a identidade regional. Segundo os líderes deste curioso movimento, “um gentílico não se muda por força de Acordo, Decreto ou Lei”, e a legitimidade da forma acreano pode ser atestada em dezenas de “registros em cartório, documentos oficiais, livros, artigos científicos, contos populares, folclore, com uso consagrado por mais de um século de lutas e conquistas heroicas”.

A um amigo que pediu minha opinião sobre o debate, só pude responder que o primeiro dos argumentos acima está errado e que o segundo nada tem a ver com a questão. Primeiro, uma reforma ortográfica modifica, sim, a grafia dos adjetivos gentílicos, como pode modificar a grafia dos verbos, dos substantivos ou de qualquer outra classe gramatical. Segundo, o critério de antiguidade e tradição não pode ser alegado neste caso, pois ele só é levado em consideração quando se discute a manutenção da grafia antiga do topônimo (como o exemplo de Bahia, que examinamos na coluna anterior), e não do adjetivo derivado dele (que é baiano, e não *bahiano). É decisão antiga que as palavras derivadas desses nomes de lugar sigam eles a regra ou gozem de alguma “licença” para manter a grafia tradicionai sejam construídas pelos mecanismos comuns que atuam em nosso idioma.

Ora, a representação gráfica dos adjetivos formados com o sufixo “-ano” ou suas variantes sempre nos causou uma certa dor de cabeça. Basta examinar uma lista de palavras com este sufixo para perceber o quanto o quadro parece confuso: ao lado de formas simples em “-ano” (curitibano), encontramos vocábulos em “-eano” (coreano) e em “-iano” (açoriano). Em benefício dos leitores que não são iniciados nos arcanos da Lingüística, vou passar ao largo das questões teóricas de Morfologia e de Fonologia envolvidas nessas derivações e tratar de estabelecer uma distinção prática para o emprego de “-iano” e “-eano”, seguindo o padrão definido (e mantido) desde 1943.

Comparando-se a desproporcional ocorrência das duas formas, podemos dizer numa linguagem amigável, de sala de visita que “-iano” seria a forma normal, e “-eano”, a forma excepcional. O princípio é muito simples: usamos sempre “-iano”, a não ser nos raros casos em que temos de usar “-eano”. E que casos são esses? Somente aqueles em que o radical do vocábulo primitivo apresenta um “E” final (friso: falamos aqui do radical, não da vogal temática): Taubaté, taubateano; Galileu, galileano. Uma pesquisa nos dicionários de sempre colheu, além desses dois, uma lista assaz reduzida de exemplos: bruneano (Brunei), coreano (Coréia), daomeano (Daomé), gouveano (Gouveia), guaxupeano (Guaxupé), guineano (Guiné), lineano (Lineu), mallarmeano (Mallarmé), montevideano (Montevidéu), nazareano (Nazaré), poconeano (Poconé) pompeano (Pompeia), tieteano (Tietê), traqueano (traqueia), varzeano (várzea) e vaqueano (este, por empréstimo do Espanhol). Todos os demais vão apresentar a forma “-iano”, que se acrescenta ao radical depois da queda da vogal temática “E”: açoriano (Açores), iraquiano (Iraque), bocagiano (Bocage), baudelairiano (Baudelaire), borgiano (Borges), goethiano (Goethe), nietzschiano (Nietzsche), sartriano (Sartre), shakespeariano (Shakespeare), booliano (Boole). O teatro de Nelson Rodrigues é rodriguiano; a lírica de Chico Buarque é buarquiana; o estilo de Euclides da Cunha é euclidiano; quem nasce no Acre, portanto, é acriano.

É verdade que o próprio dicionário da Academia de 1943 registrou acreano, numa evidente contradição com os princípios que defendia. Celso Luft chamava isso de “erro ginasiano” de seus elaboradores; Aurélio, mais diplomático, dizia que era uma variante “menos boa”. Na edição de 1981, o VOLP registrava acreano, mas já indicava sua preferência por acriano; o VOLP atual, no entanto, só registra esta última, coerentemente, introduzindo a correção que deveria ter sido feita há mais de cinquenta anos. Eu fico com esta, já que defendo, por princípio, tudo que colabore na  padronização da grafia. Conheço muito bem a relutância que todos nós temos em abandonar nossos hábitos de escrita, mas gostaria de lembrar a meus amigos acrianos que, orgulhos regionais à parte, seu movimento de resistência vai servir apenas para perturbar o nosso sistema ortográfico, que deveria ser homogêneo em todo o território nacional.

[Publicado no jornal Zero Hora – Coluna O PRAZER DAS PALAVRAS – 24/09/2010]

Após o Acordo:

  • idéia>ideia
  • Assembléia>Assembleia
  • Lingüística>Linguística
Categorias
Acordo ortográfico Artigos Como se escreve Destaque Outros sinais

o “não” como prefixo

Professor, não tenho certeza sobre como devo grafar “anti-inflamatórios não-esteróides (é uma classe de medicamento). As gramáticas que consultei não falam sobre o emprego daquele hífen depois do não, mas sei que é assim, hifenizado, que o vocábulo aparece em muitos livros e manuais médicos. Afinal, qual é o correto? Em que casos podemos usar o hífen depois da palavra não?

Áurea A. – São Paulo (SP)

 

Prezada Áurea: para desmentir aqueles que vivem resmungando que nosso idioma só piora com o passar do tempo, este não com valor de prefixo, estrela recém-chegada no firmamento da língua, constitui um notável (e moderníssimo) mecanismo para a formação de antônimos. Você quer saber quando ele vem seguido de hífen? Pois sou obrigado, por desencargo de consciência, a registrar que há uma certa controvérsia sobre este ponto, principalmente depois das trapalhadas da última edição do VOLP (mais sobre isso depois). Por isso, como você terá de escolher um dos lados desta disputa, faço questão de lhe fornecer os subsídios que julgo necessários para uma decisão consciente. Em primeiro lugar, reproduzo, abaixo, o que consta sobre o tema no livro Português para Convencer, escrito por Túlio Martins e por este seu criado:

 

“Historicamente, o Português sempre formou palavras negativas usando os prefixos i(n)– e des: ilegal, improdutivo, intempestivo; desleal, desarmônico, descabido. Desde o século passado, no entanto, teve início a prática (também presente em outras línguas, como o Inglês, o Francês e o Espanhol) de usar o não como um prefixo negativo universal, que se acrescenta a um vocábulo já existente (geralmente adjetivo ou substantivo abstrato) para formar um antônimo perfeito.

“O uso do não como prefixo foi uma das grandes novidades com que a língua nos brindou no fim do século XX, permitindo que tudo possa ser dividido em duas categorias complementares, X e não-X — o que constitui uma ferramenta muito útil no discurso argumentativo. Com esse providencialíssimo não, podemos criar divisões binárias de praticamente tudo o que quisermos: os votantes e os não-votantes, os alfabetizados e os não-alfabetizados, os hispânicos e os não-hispânicos, os marxistas e os não-marxistas. Ele até nos permite falar no não-eu ou no não-ser, vocábulos que seriam impensáveis com nossos prefixos negativos clássicos, o ine o des. (…)

“Em muitos vocábulos esse prefixo vai concorrer com os tradicionais prefixos negativos, e geralmente com vantagem. É o que está acontecendo entre duas formações relativamente recentes, inocorrência e não-ocorrência. Ambos são amplamente usados em textos jurídicos, com uma leve preferência, por enquanto, pela primeira forma, que é tradicional. No entanto, não temos dúvida de que a segunda vai prevalecer em poucos anos; o não prefixal permite uma decodificação muito mais rápida do significado do vocábulo por parte do leitor, o que é sempre uma grande vantagem na disputa entre duas formas linguísticas concorrentes.”

[MORENO & MARTINS. Português para Convencer. São Paulo, Ática, 2006. p. 169]

 

Como você pode ver, não se trata de uma simples moda, mas sim de um processo que veio para ficar, superior em muito às outras formas de antonímia porque preserva integralmente o vocábulo original que está sendo antagonizado. Este recurso permite uma simetria perfeita entre afirmativa e negativa, o que nem sempre se consegue através de construções tradicionais.

Qual é a natureza deste processo? Não importa. Sejam formadas por derivação prefixal ou por composição (para muitos, aliás, dois nomes para um mesmo fenômeno), as novas palavras ficam melhor com hífen. Alguns gramáticos mais antigos negavam-se a usá-lo, mas a prática já o consagrou, especialmente porque ele serve para assinalar que o não, aqui, não é um advérbio de negação, mas sim um elemento da composição do vocábulo. Os bons dicionários o usam; o Houaiss, embora declare textualmente que considera este hífen mais adequado em substantivos (não-violência, não-proliferação, não-alinhamento), não deixa de registrar também adjetivos hifenizados, “especialmente no caso de tecnônimos, pois o uso assim os havia consagrado no jargão técnico ou tecnológico escrito”. Apuradas as urnas, constata-se que há uma inegável tendência a empregar o hífen, mesmo que persistam divergências quanto a alguns punhados de palavras.

Sempre coerente na sua onipotência, contudo, a comissão de Lexicologia da ABL, encarregada de elaborar o novo VOLP, foi muito além das chinelas — isto é, foi muito além do texto do Acordo Ortográfico e anunciou, em uma Nota Explicativa, que tinha decidido excluir o hífen dos casos em que a palavra não funciona como prefixo, mencionando, como exemplos, não-agressão e não-fumante, grafados por ela como não agressão e não fumante. No entanto, logo depois, no parágrafo seguinte da mesma Nota — talvez prevendo a inevitável reação contra esta decisão unilateral —, a douta comissão dá uma contemporizada tipicamente brasileira: “Está claro que, para atender a especiais situações de expressividade estilística com a utilização de recursos ortográficos, se pode recorrer ao emprego do hífen nestes e em todos os outros casos que o uso permitir”. Que tal? Firmes como uma rocha…

Eu escreveria, sem a menor hesitação, “anti-inflamatórios não-esteróides“, seguindo o consenso da maioria culta; respeito a decisão dos que preferem não fazê-lo, mas não me venham alegar uma pretensa “grafia oficial” a seu favor, pois aquela Nota Explicativa é apenas a opinião isolada de alguns acadêmicos e não integra o Acordo que o Brasil assinou com os demais países lusófonos. Agora cabe a você, Áurea, escolher o caminho que lhe aprouver. Abraço. Prof. Moreno.

 

Depois do Acordo: esteróides > esteroides