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Através dos dicionários Destaque Isso e aquilo

bimensal

Um leitor de Porto Alegre, que usa o pitoresco pseudônimo de Fenergan, diz não ter entendido muito bem a declaração de um proprietário de casa noturna dada a um telejornal local: depois de informar que tinha contratado uma firma especializada para fazer inspeções bimensais na rede elétrica de seu estabelecimento, aproveitou para avisar o público de que, a cada dois meses, teria de fechar por três dias seguidos para que este serviço pudesse ser feito. “A cada dois meses, professor? Bimensais? Eu jurava que seriam de quinze em quinze dias, mas, para minha surpresa, as obras que fui consultar não me tiraram a dúvida, pois Napoleão Mendes de Almeida, em seu Dicionário de Questões Vernáculas, sustenta que bimensal é sinônimo de bimestral; para tanto, remonta à origem latina e menciona Aulete e Cândido Figueiredo como autoridades”.

Meu caro Fenergan, não há dúvida alguma de que ambos foram feitos do mesmo barro: ambos ostentam o prefixo bi– e ambos derivam de mês. O produto final, contudo, é totalmente diferente. O velho Napoleão Mendes de Almeida, às vezes tão esperto, às vezes nem tanto, faz aqui uma grande mistura de opinião com etimologia. Recorre ao Latim e ao Inglês para nos informar, com veemência, que bimensal e bimestral  vêm do mesmo radical (até aí morreu Neves…), para então deduzir que as duas palavras podem ser usadas uma pela outra, já que dizem mesma coisa. Ora, esse é aquele tipo de raciocínio equivocado que chamamos de non sequitur (“não se segue”, isto é, a conclusão não é apoiada pela premissa), pois nele está escondida a presunção absurda de que uma palavra é imutável como uma pedra preta.

O discutido Cândido Figueiredo, assim como Caldas Aulete, nosso venerável dicionarista da Belle Époque, realmente registraram bimensal com o mesmo significado que atribuímos hoje a bimestral (“de dois em dois meses”). No entanto, se os  dois termos um dia chegaram a ser sinônimos, hoje deixaram de sê-lo, pois felizmente a língua fez aqui o que sempre deveria fazer nessas situações: aproveitou a duplicidade de formas para marcar, com elas, uma utilíssima  diferença semântica. O Aulete atual faz uma distinção taxativa entre os dois vocábulos, acompanhando o Houaiss e o Aurélio: bimestral, que está vinculado a bimestre (da mesma série de trimestre, quadrimestre, etc.), é o que ocorre de dois em dois meses; bimensal, que deriva de mensal, é o que ocorre duas vezes por mês. Uma casa noturna que sofra inspeções bimestrais estaria muito mais segura se elas fossem bimensais; neste último caso, em nome da clareza, seria recomendável falar em quinzenal, uma palavra que todos entendem da mesma maneira.       

Infelizmente, nosso idioma não dispõe de distinção semelhante quando se trata de anos. O léxico não é necessariamente simétrico. Se bimensal significa duas vezes ao mês e biebdomadário significa duas vezes por semana,  bianual deveria corresponder a duas vezes por ano, cabendo a bienal, associada a biênio, designar as coisas que acontecem a cada dois anos. Os falantes, contudo, também usam bianual com este mesmo sentido; a Bienal do Mercosul, por exemplo, é um evento bianual…  Alguns dicionários registram uma terceira forma, bisanual, perigosamente ambígua (e, portanto, inútil), por atribuírem a ela ambos os significados (tanto de dois em dois anos quanto de duas vezes ao ano).  

Essas diferenças, quando existem, são extremamente valiosas, e a morte de uma delas sempre deixa a língua mais pobre. Uma que está periclitante, atualmente, é a que existe entre atrativo e atraente. “Com as novas taxas, nossos fundos de investimento ficaram muito mais atrativos“, diz o comercial. Não; ficaram mais atraentes. Embora venham ambos do verbo atrair, têm valor e uso diversos. Atraente é o adjetivo que qualifica aquilo que atrai, seduz, encanta: “a proposta  era atraente”, “a solução mais atraente”, “era uma pessoa muito atraente”. Atrativo é o substantivo que designa os detalhes que atraem: “esta ilha tem atrativos turísticos”, “seu maior atrativo era a baixa taxa de juros”, “é difícil resistir a seus atrativos”. Para o uso geral, vale ainda a velha (mas interessante) correlação entre ter e os substantivos  e entre ser e os adjetivos. Lembram os leitores? Os bons professores ensinavam que temos substantivos, mas somos adjetivos: eu tenho medo (substantivo), mas sou medroso (adjetivo); elas têm inteligência (substantivo), mas são inteligentes (adjetivo); a poupança tem novos atrativos (substantivo); ela é (ou ficou, parece, etc.) mais atraente (adjetivo).

Aproveito para lembrar aos amigos que no último DOMINGO da Feira do Livro de Porto Alegre, dia 17,  às 18 horas, estarei autografando (calma, revisor: esta construção é Português da gema!) o terceiro volume de O PRAZER DAS PALAVRAS. Quem puder passar por lá vai me dar grande prazer. 

 

            

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sonso

 

SONSO, assim como TEMPORÃO e HANDICAP, terminou virando uma palavra dupla-face, uma espécie de antônimo de si mesma — o que exige, para seu emprego, que se tomem cautelas muito especiais.

 

Nossa língua — século mais, século menos — tem lá seus novecentos anos de existência, ao longo dos quais não foram poucas as palavras que se afastaram do  sentido original. Queiramos ou não, elas sempre vão mudar, porque este é o seu destino: ao contrário da pedra ou da chuva, elas só existem em nosso pensamento e terão o valor, portanto, que os falantes de uma determinada época, por meio de outras palavras, atribuírem a elas. Algumas mudam tanto que acabam antônimas de si mesmas, verdadeiras palavras dupla-face; este processo linguístico muito chamou a atenção de Freud e é até hoje estudado pela Psicanálise, que o chama pelo nome técnico de enantiossemia — do Grego enantio, “contrário, inverso” e semia, “significado”.

Já comentamos aqui o caso — um belo exemplo para o que acima afirmamos — de temporão. Por muito tempo este termo, nascido da mesma família que o Espanhol temprano (“cedo”), serviu para designar aquilo que acontecia antes do tempo: uma morte temporã era uma morte prematura, assim como os frutos temporões eram aqueles que amadureciam antes da hora prevista. Pois um belo dia (que durou centenas de anos), a palavra sofreu um giro de 180º e passou a significar “tardio”, num sentido diametralmente oposto ao que tinha ao nascer. Para o falante atual, um filho temporão é aquele que vem quando os outros filhos já estão criados, e os frutos temporões amadurecem quando o tempo normal da colheita já terminou. O problema surge quando lemos autores de outras épocas ou de outros países onde também se fala o Português: quando um autor fala de uma “paixão temporã“, só o contexto nos dirá qual dos lados da moeda está valendo.

Depois veio handicap, vocábulo que fomos buscar na Inglaterra, onde significa “desvantagem” (para quem se surpreende, lembro que o Inglês formou daí o termo handicapped, que abrange, de forma genérica, os deficientes físicos). Ora, como é usado para designar, no golfe e no turfe, uma certa soma de pontos que o concorrente melhor precisa ceder ao outro para que a disputa fique parelha (portanto, uma desvantagem para o mais forte, mas uma vantagem para o mais fraco), o termo assumiu no Brasil o sentido inverso daquele que tinha ao nascer, tornando-se duvidosa sua interpretação: sem a oração que vem depois do ponto-e-vírgula, seria impossível ao leitor saber com certeza o que eu quero dizer com uma frase simples como “Seu maior handicap foi ter estudado Medicina em Cuba; agora, aguente as consequências” (a propósito: para quem ainda tem dúvidas sobre qual é o nosso melhor dicionário, recomendo cotejar o verbete handicap do Houaiss com o do Aurélio ou do Aulete; a superioridade do primeiro é constrangedora!).

Explico isso tudo porque uma jovem estudante de Campos, no Rio de Janeiro, inconformada com a correção de uma prova, escreveu para o Sua Língua em busca de socorro e de conforto: numa questão valendo um ponto inteiro, a professora pediu um sinônimo para a palavra sonso nesta frase da Clarice Lispector (A Hora da Estrela) — “Assim é que os senhores sabem mais do que imaginam e estão fingindo de sonsos“. Diz ela: “Eu coloquei tolo e ela marcou errado. Reclamei, mas ela abriu o dicionário e disse que o sentido certo de sonso é dissimulado — e encerrou o assunto.  Mas professor, minha avó até hoje ralha comigo e diz que não é para eu me fazer de sonsa — isso é boba, não é?”.

Em primeiro lugar, minha jovem, vejo que tua avó é tão sabida quanto era a minha, de quem tantas vezes ouvi o “não te faz de sonso” (com o tratamento típico do gaúcho e com o imperativo negativo exatamente como deveria ser, e não com o artificialíssimo “não te faças” que nos impingiram): um dos significados de sonso (o mais antigo, vindo do zonzo do Espanhol) é mesmo o de “tolo, tanso, simplório”. O outro sentido, dominante, é exatamente o oposto. Para Bluteau, é o “maliciosamente simples”; para Morais, é “o astuto e fino que cobre a sua esperteza com ar e mostras de simpleza e tolice” — e assim para todos os dicionários modernos, que destacam o caráter dissimulado da sonsice. Em segundo lugar, fica com a consciência tranquila, pois tua resposta estava certa. A professora fez muito bem em mostrar o dicionário — o aluno só tem a ganhar nesses contatos com o “amansa burro” —, mas não percebeu, como tu percebeste, que o verbo fingir aponta para o significado mais antigo de “tolo, abobado”, já que ninguém “finge ser dissimulado”. Cá para nós, o estilo impreciso de Clarice também contribui para o embrulho: “os senhores sabem mais do que imaginam mas estão fingindo de sonsos” não tem pé nem cabeça, qualquer que seja o sentido que se atribua aqui a sonso — mas nesse banhado eu não entro, que não sou bobo. Fique o abacaxi para a crítica literária.

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PORTUGUÊS PARA CONCURSOS — Comunico aos amigos do Sua Língua que iniciam, no dia 5 de março, novas turmas do meu curso de Português para concursos de nível superior, na Casa de Ideias, no Shopping Total, em Porto Alegre. Para mais informações, basta escrever para portugues@casadeideias.com

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Conceitos lingüísticos Destaque Isso e aquilo

Segredos do betão

A tão propalada unificação do mundo lusófono — uma das promessas mais fantasiosas do Novo Acordo — não ocorreu, não vai ocorrer nem PODE ocorrer. Os brasileiros e os portugueses compartilham o mesmo idioma, mas cada um à sua maneira e feitio.

Quase já não se comenta, nestes últimos meses de 2011, o episódio do Acordo e de sua afobada implementação no Brasil. Aqui por essas bandas, onde “novo” é um adjetivo irresistível, ele é visto como fato consumado, pouco importando se nossos irmãos do Velho Mundo, que têm a paciência e a sabedoria de um povo que já passou pela fome e pela peste, ainda não decidiram se vão ou não tragar este caldo indigesto. A ver…

A esta altura, porém, algo deve ter ficado bem claro para todos — mesmo para aqueles que defenderam a necessidade dessa última reforma: a tão propalada “unificação” do mundo lusófono não ocorreu, nem vai ocorrer — na verdade, não pode ocorrer. Além dos milhares de discrepâncias ortográficas que o próprio texto do Acordo acolheu, os falantes daquém e dalém mar dão nomes diferentes a um sem-número de coisas do dia-a-dia, o que faz com que os portugueses riam tanto de nós quanto nós deles.

O assunto veio à baila porque um amigo hospedou uma arquiteta portuguesa que veio a Porto Alegre especialmente para conhecer o belíssimo museu de mestre Siza; como a visitante trouxe na bagagem seus dois filhos pequenos — “os miúdos”, como dizem por lá —, os filhos do meu amigo, também “miúdos”, tiveram uma excelente experiência da diversidade linguística que separa um país do outro. Em plena praça, no recanto infantil, os portuguesinhos correram alegremente para os balanços, saudando-os pelo nome de baloiços — e essa foi fácil, porque a palavra é parecida e, mais importante, o objeto estava ali, diante dos olhos. Mas que diabo seria o tal balancê (com a bênção do Acordo “unificador”, eles escrevem balancé, assim como escrevem bebé e caraté), o tal balancê, repito, que eles em vão se puseram a procurar? A mãe tentou ajudar e lembrou que o nome do brinquedo, no seu tempo de menina, era arre-burrinho — e desenhou, com traço profissional, aquilo que chamamos de gangorra… Depois, examinando com olho crítico o solo macio e regular do parquinho, os dois petizes sentenciaram que aquele era o chão ideal para jogar berlindes — palavra estranha que, como meu amigo verificou depois, era o que chamávamos de bolinhas de gude (aliás, também um nome esquisito e de origem obscura).

O gabinete de curiosidades linguísticas, contudo, ainda tinha atrações por vir: a visitante, encantada com a quantidade de árvores que encontrou em nossas praças e ruas (seu anfitrião mora no bairro Petrópolis), lamentou que na região em que ela vive “o betão praticamente tenha destruído o verde”. Ao se referir, em seguida, ao grande número de auto-estradas e barragens construídas na última década, lamentou, mais uma vez, o avanço da selva de betão — e, com isso, forneceu o contexto necessário para que meu amigo, fazendo as sinapses necessárias, percebesse que ela estava falando simplesmente do concreto, e não de algum vândalo destruidor de florestas, primo português do Ricardão.

Naturalmente curioso, meu amigo veio aqui em casa perguntar por que cargas d’água os portugueses resolveram chamar de betão o que o mundo inteiro chama de concreto. Expliquei que não era uma idiossincrasia lusitana, mas que eles simplesmente tinham adotado um radical derivado do Francês beton, o qual, por sua vez, veio do Latim bitumen, enquanto nós tínhamos escolhido o mesmo caminho do Inglês concrete, que tomou como modelo o concretus latino — embora, fechando o circuito, nosso concreto seja misturado na betoneira. Satisfeito com a descoberta, andou pesquisando na internet portuguesa e deu boas risadas ao encontrar preciosidades (para nossos ouvidos, é claro) do tipo “betão armado”, “betão fresco”, “a cura do betão”, “betão pré-esforçado” (sossegue, leitor; é simplesmente o nosso concreto protendido) — além de um manual intitulado “Mil segredos do betão”.

Ora, estranho por estranho, estamos tão acostumamos com concreto que não percebemos que este vocábulo também é um conceito filosófico fundamental, oposto a abstrato — e que, portanto, um título como “A fragmentação do concreto” pouco nos informa sobre o conteúdo do livro. E o que dizer dos hispanohablantes, nossos vizinhos aqui e na Europa, que chamam o concreto de hormigón? Algo a ver com formiga? Sim. Corominas informa que vem de hormigo, um doce semelhante ao nosso pé-de-moleque, feito com mel e pedacinhos de nozes, cuja textura sugere a do concreto e cujo nome vem mesmo da formiga, por lembrar os grãos que este laborioso e aborrecido insetinho acumula em seus celeiros subterrâneos. Com todo o respeito, vamos convir que hormigón armado sugere aqueles monstros terríveis (em todos os sentidos) que povoavam os filmes B de nossas antigas matinês (ou matinés, para os lusos).

Depois do Acordo:
lingüísticas > linguística

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Destaque Isso e aquilo

desmitificar ou desmiStificar?

Prezado professor, tenho uma dúvida que vem me incomodando há tempos. A forma correta é desmitificar, ou o correto seria desmistificar? Para mim parece mais lógico desmitificar, de mito. Que me dizes?

Carolina R. — Porto Alegre

Prezada Carol, esses dois verbos são tão parecidos quanto um porco e uma ovelha: ambos andam de quatro e têm o focinho do lado oposto à cauda, mas significam coisas bem diferentes. Desmitificar é “tirar o caráter mítico de alguma coisa, torná-la comum, sem mistério”: “À medida que se conhece melhor a história da América Latina das últimas duas décadas, a figura de Che vai sendo progressivamente desmitificada” (leia-se: o caráter mítico do personagem vai dando lugar ao homem real).

Desmistificar, por sua vez, é “desmascarar, acabar com aquilo que era uma mistificação, um embuste”. No Tartufo, de Molière, o impostor é desmistificado no final da peça. Periodicamente aparecem no mundo videntes e fazedores de milagres que iludem os crédulos e os ingênuos por algum tempo, até que são desmistificados. Abraço. Prof. Moreno

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Etimologia e curiosidades Isso e aquilo

dolorido e doloroso

Como esses dois vocábulos só se distinguem pelo sufixo, já que foram criados a partir do mesmo radical primitivo (dolor – “dor”, em Latim), é natural que a linha que delimita o uso de um e de outro não seja bem precisa. Contudo, apesar dessa faixa gris de indefinição, podemos estabelecer significativas distinções, mais ou menos correspondentes à oposição entre CAUSAR e SOFRER. Doloroso, de uso mais amplo, é qualquer coisa que possa CAUSAR dor: a notícia foi dolorosa; teve uma morte dolorosa (por oposição a uma morte sem dor, indolor); no mesmo sentido, o tratamento pode ser doloroso ou indolor. Enumerando os mistérios do Rosário, o Padre Vieira diz que há “uns gozosos, outros dolorosos, outros gloriosos, e em cada uma destas distinções outros cinco mistérios também distintos” — uns trazem o gozo, outros a dor, outros a gória. Machado de Assis, voltado agora para os mistérios deste mundo, descobre na alma humana um “doloroso gosto de falar da mulher amada” . 

dolorido, com sua terminação de particípio, liga-se mais ao pólo passivo: é o que SOFRE, é o que sente dor, é aquilo que está doendo. Tem o sentido de magoado, machucado, lastimoso: a alma ficou dolorida; arrastava os pés doloridos; o local da pancada ficou dolorido. Não haveria o que confundir: levou uma pancada dolorosa, ficou com a perna dolorida. No entanto, ouço, com freqüência, falarem em “injeção dolorida” . Ora, o que as injeções podem ser é dolorosas; o local da injeção é que fica dolorido. Esta curiosa expressão nasce, com certeza, do costume familiar de chamar também de “injeção” o local onde o medicamento foi injetado. Afinal, quem já não ouviu — ou disse — “ele bateu bem na minha injeção”; “cuidado com a minha injeção, que está doendo”? 

Em geral, é observada a distinção entre os dois vocábulos. Não por acaso, na gíria dos velhos freqüentadores de botequim, a conta, ou despesa, pode ser chamada de “a dolorosa”, mas jamais de “a dolorida”.

Na luta para evitar que a Língua se empobreça, devemos tentar manter vivas as distinções entre palavras parecidas. Quando escrevo “ouvimos em silêncio aquelas palavras dolorosas“, espero que meu leitor entenda que as palavras ouvidas nos causaram sofrimento, bem diferente do que Machado pretendia, ao dizer “estas palavras arrancadas da alma, tão doloridas, — ia dizer tão lacrimosas”. 

Depois do Acordo: pólo > polo

freqüência > frequência

freqüentadores > frequentadores

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Etimologia e curiosidades Isso e aquilo

lactante e lactente

Lactante é quem está amamentando; lactente é quem está sendo amamentado. No animal humano, portanto, lactante é a mãe, lactente é o bebê. Parece simples, mas não é. Dos vários pares de vocábulos que se confundem, este é talvez um dos mais perigosos que andam por aí. Em primeiro lugar, porque não é comum, na estrutura do Português, pares que se distingam por uma oposição entre -ANTE e -ENTE (no vocabulário de uso geral, na verdade, este é o único que conheço). Depois — e aí a coisa fica preta —, como ambos aparecem no mesmo contexto da amamentação, a pessoa que recebe recomendações médicas pode trocar um pelo outro, com as sérias conseqüências imagináveis (medicações receitadas para a lactante — a mãe — podem ser ministradas ao lactente — o bebê, ou vice-versa). Quem emprega esses vocábulos deve estar consciente de que a maioria das pessoas não sabe sequer da existência de dois termos; ipso facto, deve tomar todas as precauções para evitar mal-entendidos. Médico que fala em programa de rádio, então, nem pensar: deixe os dois vocábulos para quando estiver entre seus pares.

Depois do acordo: conseqências > consequências

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Etimologia e curiosidades Isso e aquilo

marinho, marítimo

Ambos os adjetivos se referem a mar, mas mantêm entre si uma diferença básica: marinho é o que nasce no mar, que é natural do mar, que pertence ao ecossistema do mar; marítimo é o que está junto ao mar, o que foi posto no mar pelo homem, o que o homem realiza no mar. Dessa forma, temos aves marinhas, leões e lobos marinhos, brisa marinha, monstros marinhos, cavalo marinho, sal marinho, deuses e ninfas marinhas, de um lado, e cidades marítimas, terminal marítimo, batalha marítima, viagens marítimas, procissão marítima, plataforma marítima, desastre marítimo, orla marítima, navegação marítima, do outro. 

No caso das correntes que existem no mar, contudo, a distinção não foi observada, pois os falantes preferem, na proporção de dois para um, chamá-las de correntes marítimas. Um gramaticão intolerante já começaria a dizer que está errado, pois o certo deveria ser corrente marinha. Os bons dicionários, contudo, sabem que não cabe a eles decidir, e tratam de registrar as duas formas. Cada vez que um falante empregar uma delas, estará colocando seu voto na urna no eterno plebiscito do idioma. O resultado vai sair daqui a alguns séculos.

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locativo ou locatício?

Prof. Moreno, em quase todos os livros de Direito, sentenças judiciais, etc., encontra-se a palavra locatício. Raramente se usa locativo. Consultando o dicionário Aurélio há alguns anos, a informação sobre locatício era de verbete inexistente, sendo o correto locativo. Eu, particularmente, prefiro usar locativo. Assim, indago: qual a forma correta ? Muito obrigada.

Maria Luísa L. — São Paulo

Prezada Maria Luísa: tua pergunta já começou com a resposta, quando dizes “Em quase todos os livros de Direito, sentenças judiciais, etc.”. Não consigo entender como o Houaiss (e o Aurélio) foram ignorar locatício, se a maior parte dos juristas prefere esse adjetivo! É evidente que locativo também está correto, mas a língua produziu a variante em -ício; a raiz pegou, a árvore botou galho e hoje está bem frondosa (uma rápida pesquisa no Google aponta mihares de ocorrências para locatício e flexões). Em linguagem, um resultado desses não pode ser ignorado, principalmente porque os votantes, na sua esmagadora maioria, não são pessoas sem instrução… 

Acho que essa popularidade se deve a dois motivos básicos: primeiro, porque locatício vem fazer companhia a tantos outros termos similares que o profissional da área jurídica usa diariamente (advocatício, pignoratício, empregatício, creditício, etc.); segundo (e talvez o mais importante), porque locativo também é muito usado como um adjetivo relativo a “lugar” — e a funcionalidade do idioma está tratando de especializar o significado das duas formas.

Lembro-te de que não se pode discutir aqui qual seria a forma “correta”, já que ambas existem. O fato de uma delas não estar dicionarizada não quer dizer nada; temos perto de 600.000 vocábulos, e o Houaiss registra apenas 240.000. Aliás, é curioso que no verbete “loc(o)-“, em que Houaiss registra as derivações feitas a partir deste radical, ele inclui “locatício”, sem abrir verbete específico para ele (o que, repito, foi erro técnico; o volume em que esta forma é empregada por pessoas cultas torna obrigatória a sua inclusão nas próximas edições). Além disso, no verbete “locativo”, deixa estranhamente de explicar, na parte referente à Etimologia (geralmente tão consistente), a dupla origem deste vocábulo (local e locar).

A convivência de variantes concorrentes é um dos fatos mais corriqueiros do idioma; só como início de exemplificação, envio-te os seguintes pares que estão por aí, nos dicionários: advocatício e advocatório; castrício e castrense; dotalício e dotal; edilício e edílico; gentilício e gentílico; laudatício e laudatório; pactício e pactual; supositício e supositivo; e assim por diante. Podes, portanto, continuar a usar a forma de tua preferência, mas deves aceitar que outros falantes façam uma escolha diferente. Não te esqueças de que nosso estilo é a soma de nossas escolhas — e não falamos de escolher entre uma forma correta e uma forma errada, mas entre duas ou mais formas igualmente aceitáveis. Abraço. Prof. Moreno

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tráfego ou tráfico

Em uma das reportagens do canal de notícias do Terra, encontrei a seguinte frase: “Os protestos também atingiram portos da costa do Atlântico e o porto de Marselha, no Mediterrâneo, bloqueando o TRÁFICO para a Córsega e o norte da África”. O vocábulo mais correto para essa situação seria tráfego, não seria?”

Guilherme Nedel

Prezado Guilherme: no Português atual, damos a tráfego o sentido de “fluxo, trânsito”; a tráfico, o de “comércio ilícito”. Do que está falando a reportagem que citas? Pode ser que tenha sido bloqueado o tráfego; seria o mais comum. Contudo, tratando-se da ligação entre Marselha e a Córsega, pode ser que tenha sido bloqueado o tráfico, mesmo, já que esta sempre foi uma das rotas preferidas pelos traficantes de todas as épocas.

Entretanto, é bom registrar que essa cômoda e funcional distinção entre os dois vocábulos é mais ou menos recente em nosso idioma. Traficar era usado para designar as atividades normais de comércio, sem a noção pejorativa que foi adquirindo. Com o tempo, no entanto, assumiu o caráter de “ilicitude” que hoje tem. Morais, no século passado, já aponta essa tendência: define o traficante como aquele “que trata em comércios, e vive de indústria”, mas acrescenta: “de ordinário se diz à má parte”. Para ele, traficar é “negociar com gírias, ardis, não lisamente; por exemplo, o que contrai dívidas e vai sucessivamente pedindo dinheiro a uns para pagar aos outros, e faz semelhantes obras”.             

Quanto a trafegar, o Aurélio e o Houaiss dão como uma variante de traficar, enquanto Morais diz que é outra forma de trasfegar, vocábulo hoje praticamente desconhecido, que significa “transfundir, passar”: “trasfegar o vinho de uns vasos para outros”. Essa me parece a hipótese mais provável, já que o Catalão, língua irmã do Português, tem trafegar para “decantar o vinho”.

O curioso é que o Inglês traffic e o Francês trafic acumulam numa só forma os sentidos de “tráfego” e de “tráfico” — pior para eles. Com certeza a notícia sobre a paralisação dos portos deve ter sido colhida em alguma agência de notícias estrangeira — daí o equívoco do redator brasileiro. Abraço. Moreno

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poesia e poema

“Tenho dúvidas específicas sobre um tema: eu escrevo, mas gostaria de saber se o que escrevo é poesia ou poema. Não sei muito bem a diferença entre eles. Gostaria de saber se poderiam esclarecer essa dúvida. Além disso, é necessário colocar ponto final em cada linha? Preciso pular uma linha entre uma fala e outra? Como gostaria de oferecer o meu projeto de livro às editoras na forma mais correta possível, queria saber se existe algum livro que possa esclarecer essas dúvidas.”

Daniela

Minha cara Daniela: quando escrevemos POEMAS, estamos fazendo POESIA. “Gosto muito da POESIA de Carlos Drummond; dele, prefiro os seguintes POEMAS”. Qualquer “antologia da POESIA brasileira” vai incluir POEMAS dos principais poetas. Estás a ver que são coisas diferentes, embora essa distinção fique um pouco embaçada pelo hábito popular, bem nosso, de chamar o poema (que é uma composição individual) de poesia. Quando alguém diz “Vou te ler uma poesia de Fernando Pessoa”, a rigor, deveria estar dizendo, aqui, um poema. 

Quanto às tuas outras dúvidas, Daniela, parece-me que precisas ler um pouco de POESIA antes de escrever os teus POEMAS. No dia em que tiveres tomado contato com a Cecília Meireles, o Manuel Bandeira (esse é dez!), o Carlos Drummond, o João Cabral do Melo Neto, a Adélia Prado, entre outros, verás que vais perder todas essas dúvidas que hoje tens. Ler os bons poetas — este é o único meio de aprender a fazer poesia. Nem mesmo no curso de Letras se estuda o que estás perguntando; vai direto na fonte, vê como fazem os mestres, e logo entenderás o que estou dizendo. Abraço. Prof. Moreno