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Car@s amig@s

Apesar de toda a sua genialidade, o velho e bom Machado de Assis não previu, entre as várias espécies de loucura que Simão Bacamarte catalogou, a sanha que leva alguns indivíduos a propor reformas na sua língua materna — exatamente aquela que, como diria Cervantes, ele bebeu junto com o leite da mãe. Alguns, talvez entrevendo o tamanho sacrilégio que vão cometer, limitam-se a propor sistemas ortográficos próprios, delirantes, feitos em casa, que ganham os seus quinze minutos de fama na imprensa e terminam melancolicamente na barraca de aberrações do circo gramatical (não é por acaso que a totalidade dessas propostas absurdas — todas elas autoproclamadas “salvadoras” ou “simplificadoras” — venha da pena de autodidatas, que não tiveram em suas vidas um mestre que os ensinasse a evitar tanto desperdício de inteligência e criatividade).

Pois o último grito nesta nau dos insensatos é uma proposta que vai ainda mais fundo que a simples troca de letras: como o leitor pode ver no título desta coluna, trata-se da recomendação de “corrigir” também o sistema morfológico do Português, a fim de “limitar ou eliminar a hegemonia masculina” e “tornar o Português mais próximo do igualitário”, como apregoa, de boca cheia, um de seus arautos. Ora, como se aprende nos primeiros meses de qualquer curso de Letras que mereça esse nome, a tal “hegemonia masculina” não existe; usamos o gênero masculino para designar grupos mistos (o brasileiro é feliz — eles e elas) porque, como demonstrei na coluna anterior, ele é inclusivo, ao contrário do feminino, que exclui (a brasileira é feliz — apenas elas).

Infelizmente, explicar isso a esses malucos é tão inútil quanto pregar aos peixes, pois eles são surdos aos ditames da Ciência. Friso que um adepto dessa seita, horrorizado, jamais escreveria assim, mas optaria entre a arroba ou o “x” para substituir a terminação “o” ou “a” — “el@s são surd@s” ou “elxs são surdxs” — e o pior é que sairia com passo firme, orgulhoso, acreditando ter posto mais uma pedrinha na ereção (epa!) da pirâmide da igualdade dos gêneros. Para quem não se deu conta, esta proposta estapafúrdia (felizmente limitada a alguns ambientes universitários inexpressivos) é uma tentativa de melhorar aquela moda esquisita de sempre mencionar, lado a lado, os dois gêneros, que andou em voga há poucos anos, lembram? O que é uma cortesia perfeitamente aceitável em “senhoras e senhores” fica insuportável em “Quando os professores e as professoras entrarem no recinto, o coro dos alunos e das alunas vai saudá-los (las) com uma polca caprichada”. Melhor seria escrever “quando xs professorxs entrarem no recinto, o coro dxs alunxs vai saudá-lxs com uma polca caprichada”? Convenhamos que a nova alternativa é uma emenda muitíssimo pior que o soneto, e que nada se compara a “quando os professores entrarem no recinto, o coro dos alunos vai saudá-los com uma polca caprichada”.

Gostaria de encerrar com duas mensagens, já que o Ano Novo está logo ali: aos leitores, peço que não se preocupem com essa loucurada toda, que vai fazer ainda algum barulho mas logo se extinguirá como um foguete de estrelinhas; aos adeptos desta reforma radical, peço que não abandonem a luta pela igualdade de direitos para o homem e a mulher, que é nobre, mas que tomem juízo e procurem maneiras mais sensatas e eficientes de fazê-lo. Ah, e que aproveitem o feriado para ler (ou reler) A Reforma da Natureza, do Monteiro Lobato, onde vão certamente aprender algumas coisinhas.

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Conceitos lingüísticos Destaque Flexão nominal

Questão de gênero

Uma colega de Belo Horizonte, Patrícia L., manda uma mensagem que é quase um desabafo: “Prezado Professor, saúde. Há vinte anos leciono Língua Portuguesa na rede pública e confesso que meu trabalho, se nunca foi fácil, vai ficando mais difícil a cada dia que passa. Imagine o senhor que a nossa Câmara Municipal aprovou, esta semana, em primeiro turno, um projeto de lei que determina que os cargos e funções constantes em documentos públicos sejam designados tanto no masculino quanto no feminino! Segundo a autora do projeto, a gramática machista [sic!] torna invisível o trabalho da mulher, quando se fala, por exemplo, em concurso público para o cargo de procurador, e não de procurador e procuradora. Nosso bom e velho Mattoso Câmara deve estar esperneando na tumba!”.

Confesso, cara Patrícia, que, ao ler a tua mensagem, tive vontade de imitar o Macunaíma e voltar para a minha rede. “Ai, que preguiça!”, pensei. “Vai começar tudo de novo!”. Lembrei daquelas intermináveis discussões sobre o uso de presidenta, em que os dois lados envolvidos — os prós e os contras — jogavam uns nos outros toda sorte de argumentos, muitos deles emocionais, pouquíssimos deles linguísticos. Porém, como fiquei curioso, fui googlear o tal projeto e constatei que, apesar da fundamentação científica ingênua e equivocada da vereadora, seu objetivo era bem mais modesto do que poderia parecer.

Peço-te licença, por um momento, para esclarecer aos demais leitores desta coluna a referência a Mattoso Câmara, o decano dos estudos linguísticos no Brasil. A ele devemos a descrição definitiva do sistema de gênero e número de nossos substantivos: a marca do feminino é o A, enquanto o masculino se assinala pela ausência desse A. Sabemos que filha, mestra e cantora são femininos porque ali está a marca; inversamente, sabemos que filho, mestre e cantor são masculinos porque ali não está a marca. Por isso, quando quisermos ser genéricos, usamos o masculino (ou seja, o gênero não-marcado): “O brasileiro vive menos do que o japonês (entenda-se: todos, eles e elas). Aproveitando esse princípio, é assim que o dicionário registra os substantivos de dois gêneros: lobo, menino, anão. O tal “machismo gramatical” é uma fantasia de certos grupos militantes que, invertendo causa e efeito, pensam que podem mudar a realidade mudando a linguagem — como já expliquei várias vezes nesta coluna. Paradoxalmente, o gênero que exclui é o feminino: se dissermos que os professores vão ser pagos em dia (o que não acontece por aqui, infelizmente), isso vale para homens e mulheres; se as professoras vão ser pagas, os homens estarão excluídos.

Voltando agora ao projeto, prezada leitora, posso te assegurar que não há razão para alarme. Apesar da vereadora belo-horizontina usar argumentos pífios, sua causa é mais simples e específica. Ela inspirou seu projeto nos protestos de uma professora da rede municipal que se revoltou por ostentar no crachá funcional o título de professor, como todas as suas colegas. Bom, aí já é de amargar! Por ignorância, preconceito ou desejo de racionalização na impressão dos crachás, os burocratas aqui literalmente pisaram na bola. Se pudéssemos perguntar ao próprio Mattoso Câmara o que ele acha disso, o  bom velhinho diria que esta é uma questão de atitude, e nada tem a ver com a estrutura gramatical de nossa língua. Usar a flexão feminina do substantivo para concordar com a detentora do cargo — procuradora, senadora, diretora, professora, juíza, promotora — é o mínimo que se espera em qualquer instância da administração pública, há muito tempo. Nosso Supremo hoje tem onze juízes; na composição atual, conta com nove juízes e duas juízas apenas.

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Concordância Destaque Flexão nominal

nenhuns

A leitora Frederica W. escreve de lugar não identificado para dizer que levou um susto quando encontrou em Mia Couto, seu autor do momento, a frase “Caiu sem nenhuns sentidos“. Bem-humorada, ela acrescenta: “Não vou perguntar se isso está certo; afinal, se ele escreveu assim, é porque pode — mas bem que eu gostaria de uma explicação para suavizar o golpe…”

Prezada Frederica, este nenhuns que estranhas é o polo oposto do pronome indefinido alguns. Ele sempre esteve lá, em todas as gramáticas, mas uma coisa é vê-lo arrumadinho numa lista de pronomes, onde parece inofensivo como uma aranha espetada num tabuleiro de museu, e outra é vê-lo assim, ao vivo, com cara de que já vai saltar sobre nós.

Se fosses portuguesa, nem terias notado este plural, porque ele continua bem vivo na terra de nossos avós. Em Lisboa, uma campanha publicitária proclama que “Lenços há muitos, mas nenhuns como estes”; um fórum da internet registra, abaixo de uma postagem: “Nenhuns comentários”; no belíssimo fado Partindo-se, que põe em música um poema do séc. XV, Amália Rodrigues canta: “Senhor, partem tão tristes/ Meu olhos por vós, meu bem/ Que nunca tão tristes vistes/ Outros nenhuns por ninguém”.

Antes que alguém pense que se trata de uma dessas inovações “suspeitas” da língua falada, lembro que nenhuns figura abundantemente na obra de escritores importantes como Gil Vicente, Camões, Vieira, Garret, Alexandre Herculano, Júlio Dinis, Eça de Queirós, Mário de Sá Carneiro, entre muitos outros.

Deste lado do Atlântico, contudo, sua sorte foi diferente. Este plural chegou a ser usado por Capistrano de Abreu, José Veríssimo, Rui Barbosa, Euclides da Cunha (“duzentos homens válidos, talvez sem recursos nenhuns“) e até mesmo pelo grande Machado de Assis (“Não eram os primeiros versos que escrevia à moça, mas não lhe entregara nenhuns“; “nenhumas relações estreitas existiam entre mim e ela”), mas não soube bem ao paladar brasileiro, que terminou aposentando-o.

Qualquer um de nós diria “não posso indicar nenhum restaurante” — ou, para os mais elegantes, “não posso indicar restaurante algum“. Já “não posso indicar nenhuns restaurantes” parece um daqueles plurais de brincadeira do saudoso comediante Mussum — de quem muito me lembro, quando vejo na TV a chamada para (mais) um programa de culinária, em que o chef, que tem a figura ideal para representar o personagem Queequeg, o arpoador do filme Moby Dick, tropeçou ao formar o plural de mel. Em vez de optar entre méis (minha preferida) ou meles, ambas dicionarizadas, saiu-se com um impossível mels — concorrendo com Mussum, que chamava qualquer birita (“biritis”, para ele) de , forma reduzida de mel, que ele flexionava sabiamente no plural mézis.

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Destaque Flexão nominal Lições de gramática

uma paradigma?

O gênero de um substantivo COMUM DE DOIS é definido pelo artigo que o acompanha:   O INTÉRPRETE e A INTÉRPRETE, O ARTISTA e A ARTISTA; já um substantivo SOBRECOMUM apresenta uma forma única, aplicável a ambos os sexos: A TESTEMUNHA (homem ou mulher). A qual desses dois grupos pertence o vocábulo PARADIGMA? E MODELO?

 

Assim que  recomeça a temporada dos concursos públicos, é natural que pipoquem por aqui algumas mensagens com perguntas extremamente específicas. A maioria eu respondo diretamente ao autor; uma que outra eu trago aqui, para compartilhar com vocês. Hoje eu trago a dúvida de Júlia K. (como regra de sobrevivência, sempre omito o sobrenome), concurseira de Florianópolis, que vai direto ao fígado: “Professor, paradigma é um substantivo comum de dois ou sobrecomum? Tenho um tratado de Direito do Trabalho, escrito por uma sumidade do ramo, que escreve uma paradigma. Pode isso?”.

Olha, Júlia, até pode ― mas depende do contexto, como vou explicar. Antes, porém, para proveito de todos, vou desconstruir tua pergunta (e não destruir, como alegou o advogado daquele megaempresário que, como dizem os lusos, está vendo o sol nascer aos quadradinhos…). Lembro, em primeiro lugar, que chamamos de comum de dois o substantivo que tem apenas uma forma (isto é, não flexiona), mas permite que se distinga o feminino do masculino com base no artigo, numeral ou pronome que o antecede: o/a policial, este/esta intérprete,  meu/minha cliente.

O substantivo sobrecomum, por outro lado, tem um gênero gramatical determinado (ele ou é masculino, ou é feminino), mas serve para designar pessoas de ambos os sexos. Um exemplo bem à mão é testemunha, vocábulo exclusivamente feminino (João é minha testemunha; as testemunhas da defesa são os onze jogadores do Palmeiras). Neste caso, se eu precisasse, por algum motivo, distinguir entre homens e mulheres, teria de lançar mão de outras palavras que fizessem o serviço: “As testemunhas femininas serão alojadas no colégio das freiras; as testemunhas masculinas ficarão no quartel”.

Ora, paradigma se enquadra neste último caso. Não custa lembrar que é um vocábulo masculino ― embora muita gente, por causa daquele “A” no final, caia na armadilha e escorregue, produzindo pérolas como “A literatura marginal tem por finalidade romper com as paradigmas estéticas vigentes”. Credo! Em segundo lugar, assim como seus colegas monstro, carrasco ou ídolo, entre outros, o termo é aplicável a ambos os sexos, indiferentemente: “Esta médica é um paradigma de honestidade” (assim como ela pode ser um modelo de eficiência ou um carrasco para seus subordinados).

Chegamos, finalmente, ao cerne da tua pergunta: “Uma paradigma? Pode isso?”. Pode, sim ― e exatamente no contexto do Direito do Trabalho, onde o empregado paradigma é o empregado que serve de base para a equiparação dos demais funcionários. O vocábulo, agora transfigurado, vai admitir flexão de gênero, marcando o feminino, se for o caso: “a paradigma indicada”, “designou uma paradigma falecida”, etc. É a mesma metamorfose que ocorre com modelo: “A médica é um modelo de eficiência”, mas “foi contratada uma modelo“, ou, como escreve L. F. Veríssimo, “Nenhuma modelo me fez mal, ainda. Mas elas simplesmente me apavoram. É aquele ar que elas têm”.

 

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Como se escreve Destaque Flexão nominal

xeica

Xeica - EDU

De uma leitora de Curitiba, Palmira G., veio a pergunta que hoje respondo com especial carinho (ela lecionou Português durante quarenta anos, e, mesmo aposentada, nunca deixou de ensinar o amor ao idioma aos filhos e aos netos): “Sempre que eles têm dúvida, recorrem a mim, mas dessa vez eu fiquei devendo: minha neta mostrou uma notícia que fala de uma xeica que veio nos visitar. Isso existe, professor? O senhor não acha horrível?”. Acho horrível, sim, dona Palmira, mas se a senhora acompanhar minha explicação, verá que existe uma hipótese muito, mas muito pior.

Vamos começar com sheik, termo de origem árabe que serve para designar uma autoridade cuja gradação pode ir do simples chefe de clã ou tribo até chegar a um príncipe ou mesmo a um rei. Em vários países islâmicos ― e, em especial, nos Emirados Árabes ―, as mulheres da mesma hieraquia recebem o título de sheikha. A notícia que a senhora leu seguramente devia tratar da sheikha Mozah bint Nasser Al Missned, esposa do emir do Catar, que esteve no Brasil no ano que acabamos de encerrar.

Como o Árabe usa um alfabeto que não é o romano, o vocábulo, ao ingressar no Ocidente, foi transliterado das mais diferentes maneiras: jeque (Esp.), sceicco (It.), Scheich (Al.), cheik (Fr.), sheikh (ou sheik, as preferidas do Inglês, embora o portentoso Oxford English Dictionary registre mais outras dezenove variantes). No Português, como não poderia deixar de ser, a forma tradicional sempre foi xeque  (adotamos sempre a letra X para essas transliterações: xampu, xerife, xarope, Xerazade).

Desde o séc. 16, as páginas de Camões, de João de Barros e de Fernão Mendes Pinto estão repletas de xeques, e assim vivemos muito bem até que Hollywood (e depois a rede Globo) puseram em voga por estas bandas o sheik do Inglês. Nos anos 20, as brasileiras suspiravam quando Rodolfo Valentino, o eterno latin lover, corria pelo deserto, com o albornoz ao vento, nos filmes O Sheik e O Filho do Sheik; quatro décadas depois, nos anos 60, foi a vez da TV brasileira reaproveitar o cenário “romântico” do deserto para lançar a novela O Sheik de Agadir, que fez um grande sucesso na época. Por influência direta dessa forma inglesa, terminou surgindo a variante xeique, menos usada mas também registrada nos bons dicionários.

Agora a senhora vai me entender: a esposa do emir de Catar vem ao Brasil; o repórter, no que fez muito bem, não quer usar a forma inglesa, com o seu exótico SH e, pior ainda, com o KH, cacófato próprio para piada. O que faz ele? Vai ao dicionário e encontra duas opções, xeque ou xeique. Como se trata, porém, de uma dama, ele sabe que precisa usar o vocábulo no feminino. E aí? Existe outra saída? A senhora terá de concordar que, afinal, até que xeica não é tão horrível assim…

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Destaque Flexão nominal Formação de palavras Origem das expressões

freelance

Como se formou e como se flexiona o nome do gado GIROLANDO,? O que significa, realmente, a expressão SOLUÇÃO DE CONTINUIDADE? E FREELANCE, por que se chama assim? Veja a resposta a essas três perguntas, e muito mais! 

Sou gaúcho o suficiente para saber alguma coisa sobre o gado que produz a carne que ponho na brasa, mas  confesso que me pegaram de supresa as perguntas que fez um leitor sobre o gado girolando, sobre o qual ele fala com grande familiaridade. “Professor, girolando tem feminino? E sendo ele o resultado de uma cruza de gado gir com o holandês, por que não deu girolês?”. Antes de responder, fui pesquisar sobre esse bovino que eu desconhecia. Uma publicação da Embrapa veio suprir a lacuna de meus dicionários: na pecuária leiteira, é muito usado o cruzamento da raça holandesa, especializada em leite, com uma das raças de origem indiana, mais rústicas, que formam o grupo Zebu (que inclui o gir, o guzerá e o nelore, entre outros) ― daí o girolando, o guzolando e o nelorando, híbridos lexicais que a língua precisou produzir para designar esses novos membros do rebanho. São vocábulos necessários, mas, convenhamos, não ganhariam nenhum concurso de beleza: Jorge Luis Borges escreveu que o nome do ditador argentino Ongania parecia um tempo de verbo; pois, para mim, a enumeração dessas raças soa como uma lista de gerúndios…

         São duas as dúvidas do leitor. A primeira é saber se girolando tem feminino; não vejo por que não teria, já que este é o paradigma seguido pelos substantivos com dois gêneros. Afinal, se deste cruzamento nascem novilhos girolandos, por que não nasceriam também novilhas girolandas? A segunda se refere aos elementos utilizados na composição: já que o segundo elemento é holandês, por que não se formou girolês? A resposta é muito simples: na estrutura do composto, é imprescindível que os dois radicais (/gir/ e /oland/) estejam presentes para que o nome das duas raças  continuem reconhecíveis ― o que não aconteceria se a contribuição de holandês fosse apenas o sufixo –ês, o que produziria esquisitas formações como  *girês, ou *girandês ― lembrando que a forma sugerida pelo leitor, girolês, é usada para designar a mestiçagem do gir com o charolês.

         Outra consulta vem de uma velha amiga, camiseira de mão-cheia, que passa o dia ao pé do rádio, trabalhando na máquina de costura. “Professor, ouvi ontem o prefeito da minha cidade afirmar que a merenda escolar não vai sofrer solução de continuidade. Fiquei preocupada porque tenho dois netos na escola pública e não entendi muito bem se a notícia é boa ou ruim”. Ora, cara amiga, pode ficar tranqüila; se ele estiver falando a verdade, a merenda escolar vai continuar. O prefeito prometeu que ela não vai sofrer solução de continuidade, isto é, não vai sofrer interrupção ― em suma, a continuidade não vai ser dissolvida. Lembro que esta solução, aqui, não vem do  verbo resolver (um problema, um enigma), mas sim de dissolver (a mesma matriz que nos dá o café solúvel). Esta é uma daquelas expressões que, a meu ver, perdeu toda sua utilidade na fala diária, exatamente porque as pessoas a entendem de maneiras diferentes. Em certos bolsões de linguagem, contudo, continua a ser empregada com sucesso; é o caso, por exemplo, da Medicina, em que “solução de continuidade na pele” designa qualquer corte ou falha neste tecido.

         Por fim, a surpresa (para mim, é claro; para você, leitor, pode ser informação mais velha que o jornal de anteontem): folheando o clássico Ivanhoé, de Walter Scott (preciso dizer que era uma edição da Inglaterra, onde preferem a afetada pronúncia /aivanrou/…), em busca de uma passagem perdida, encontrei, lá pelas folhas tantas, o bravo cavaleiro de Bracy dizer que tinha falado com o rei Ricardo Coração de Leão, oferecendo-lhe “the service of my free lances” ― algo assim como “o serviço de meus mercenários”.  Na Idade Média, era comum que cavaleiros e soldados veteranos oferecessem seus serviços a senhores que estivessem dispostos a pagar. Esses soldados da fortuna ― free lances (literalmente, “lanças livres”) ― eram aventureiros que ora se engajavam sozinhos em alguma força militar, ora compunham poderosas corporações (é o caso das Grandes Companhias, que atuaram ao lados dos franceses na Guerra dos Cem Anos). Uma repassada no Oxford me informou que essa expressão (também grafada freelance) passou a ser usada para o político que pula de partido em partido, sempre em busca de proveito próprio, até chegarmos ao nosso frila, pessoa que trabalha por conta própria, sem vínculo específico com qualquer empresa ― palavra que usei todos esses anos sem jamais suspeitar que trouxesse uma lança escondida em seu bojo. 

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Destaque Flexão nominal Lições de gramática

cãozão

Nossa língua tem três plurais diferentes para os nomes em “ÃO” — IRMÃOS, LEÕES, ALEMÃES —, mas um deles, pouco a pouco, vai deixando os outros para trás.

Martina tem onze anos e está cursando a 5ª série de uma escola da região serrana. De quinze em quinze dias, seus pais — amigos meus de longa data — vêm a Porto Alegre para visitar as livrarias. Às vezes nos encontramos, por acaso, na Livraria Cultura, onde costumo passear com minha filha menor. Na última vez que os vi, Martina me olhava com ar desconfiado, e só rompeu o silêncio porque a mãe, risonha, insistiu: “Vamos! Pergunta para ele! Pergunta, que ele sabe!”. Sem muita convicção, ela disse que era um desafio proposto à turma pela professora, cuja resposta não se encontra em lugar nenhum: se o plural de cão é cães, o plural de cãozão seria cãozães? “Claro que não”, respondi; “é cãezões — assim mesmo, com dois tis”. Eu estava apressado, eles estavam apressados, e combinamos que eu trataria deste assunto, com pormenores, nesta coluna — na qual faço questão de explicar, para quem torceu o nariz, qual deve ter sido o objetivo da professora ao levantar a questão.

Pois, caros amigos, o plural dos nomes terminados em -ão não é coisa muito simples, como vocês devem saber. O quadro atual é curoso: temos uma só forma no singular (leão, irmão, alemão), mas três formas no plural (leões, irmãos, alemães). A pergunta da professora poderia ser traduzida da seguinte forma: qual dessas três terminações (-ões, –ãos ou –ães) vai formar o plural de cãozão?

Como é que se escolhe entre elas? Quando as gramáticas registram a tripla possibilidade para o plural de vilão (vilões, vilães e vilãos) ou para aldeão (aldeões, aldeães e aldeãos), estão apenas refletindo o estado de hesitação de nossa língua, que teve paralisado, pela difusão do texto escrito, um movimento em direção a uma forma única de plural (-ões, sem dúvida alguma). Essa seria a situação ideal: ou teríamos três singulares, correspondendo aos três plurais diferentes, ou apenas um singular e apenas um plural. No entanto, ficamos assim suspensos no meio da evolução, com um único singular e três plurais diferentes, e temos de conviver com isso. Felizmente, o quadro tem algumas constantes: por exemplo, todos os aumentativos e todos os novos vocábulos em -ão que ingressam no Português fazem o plural em -ões, o que aponta esta como a forma escolhida como o plural canônico para os vocábulos com essa terminação. Os outros (poucos) que escolhem -ãos e -ães são facilmente memorizados pelos falantes (mão, mãos; irmão, irmãos; pão, pães) — isso quando não terminam também aderindo ao genérico -ões: é o caso de corrimão, cujo plural original é corrimãos (já que vem de mão), mas que aparece também, em todos os dicionários, com a variante corrimões.

Algo que pode nos ajudar — e muito! — nesses casos é olhar por cima do muro e ver o que nosso vizinho de sempre, o Espanhol, anda fazendo, pois lá existem três singulares para três plurais: hermano, hermanos; leon, leones; alemán, alemanes! A boa notícia é que podemos aproveitar isso para nossa língua (há estudos sérios sobre o assunto, mas vou simplificar): o -ano, -anos deles correspondem aos nossos -ão, -ãos (hermano, hermanos: irmão, irmãos); -on, –ones, aos nossos -ão, -ões (leon, leones: leão, leões); e -án, -anes, aos nossos -ão, -ães (alemán, alemanes: alemão, alemães). Quem souber Espanhol, deve aproveitar a comparação; pode haver um ou outro vocábulo desviante, mas em geral o sistema funciona direitinho.

Ao escolher cãozão como tema do desafio, a professora apostou na curiosidade natural dos jovens para fazê-los se dar conta de vários fenômenos importantes de nossa morfologia: primeiro, que há uma incômoda multiplicidade de plurais para os nomes em -ão; segundo, que o plural de todos os aumentativos seleciona a terminação -ões; e terceiro, que ocorre com -zão o mesmo plural interno que ocorre com -zinho: cão, cãozinho, cãozão: cães, cãezinhos, cãezões. Sorte a da Martina, que tem uma professora competente como essa!


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Destaque Flexão nominal Questões do momento

O feminino nos diplomas

Foi editada, há alguns dias, uma leizinha que torna obrigatória a distinção masculino/feminino nos diplomas e certificados de todas as instituições de ensino do País. Embora ela represente mais um pequeno degrau que subimos em direção à igualdade de gêneros, sua consequência para nosso idioma, ao contrário do que muita gente andou apregoando por aí, é igual a ZERO.

 

Há coisa de um mês entrou em vigor a Lei 12.605, que torna obrigatória a diferenciação masculino/feminino nas profissões e graus que constam nos diplomas e certificados expedidos por qualquer instituição de ensino desta incomparável Pindorama. Para uma leitora que perguntou se esta lei mudaria alguma coisa no uso que fazemos do idioma, sou obrigado a dizer, com franqueza, que não muda nada, ou pouco mais que nada. É uma lei pequenina, tanto no texto quanto nos efeitos: a partir de agora, se uma filha minha se graduar em Arquitetura ou Enfermagem, terá a merecida satisfação de ver que seu diploma não lhe confere o antipático título de “Arquiteto” ou de “Enfermeiro”, como ainda fazem muitas instituições de ensino bem conhecidas, mas sim o de “Arquiteta” ou “Enfermeira”.

É só isso? É. Do ponto de vista sociológico, a lei até poderá contribuir um pouco para arejar a burocracia acadêmica, geralmente tão conservadora nestas questões de gênero; do ponto de vista lingüístico, no entanto, ela faz tanto efeito quanto aplicar clister em defunto. Como ela dispõe apenas sobre a forma de redigir o texto dos diplomas e certificados, dirige-se exclusivamente aos secretários de escola, que os emitem, e não a simples mortais como nós, que os recebemos. Pode ser que a lei provoque alguma comoção nos departamentos de registros das universidades, que terão de abandonar sua inexplicável resistência em usar os femininos que a língua põe à nossa disposição — mas em nada vai afetar nossa linguagem usual, que felizmente sempre foi muito mais democrática que a linguagem petrificada dos diplomas.

Acredite, leitora: neste quesito, somos muito mais avançados que os franceses. Se sociedade brasileira ainda não oferece oportunidades idênticas aos dois sexos, ao menos nossa cultura sempre distinguiu o gênero das profissões. Aqui, no mundo real, a mulher que trabalha é professora, médica, ministra, técnica, reitora ou catadora de lixo, enquanto lá, no hexágono francês, ainda se cultiva a estranha tradição de empregar nomes exclusivamente masculinos. As combativas feministas francesas tentam criar e divulgar as formas femininas correspondentes, mas ainda é comum empregarem le ministre, le médecin ou le peintre tanto para homens quanto para mulheres. Sem conhecer o contexto, uma simples nota na coluna social como “le gendarme s’est marié en robe blanche”  vira um verdadeiro enigma, já que não sabemos (estamos no séc. 21, gente!) se foi A ou O policial que casou de vestido branco.

Esta lei vem se juntar a outra bem mais antiga, quase tão inócua quanto ela: em 1956, o presidente Juscelino assinou a Lei 2.749, ainda vigente, que torna obrigatório o uso do gênero feminino (quando houver) na denominação dos cargos públicos ocupados por mulheres. Seu alcance também é limitadíssimo, pois a ela só estão sujeitas “as repartições da União Federal”, as autarquias e os serviços “cuja manutenção dependa, totalmente ou em parte, do Tesouro Nacional” — ou seja, é uma norma interna do serviço público, semelhante à que estabelece o uso de gravata ou à que define o tamanho oficial dos envelopes. Em outras palavras, leitora, ela nada tem a ver com a linguagem que eu e você usamos.

Ora, por que os legisladores, nos dois casos, reduziram tanto o âmbito de aplicação de suas normas? Por que não tornaram a obrigação extensiva a todos os brasileiros? É simples: porque teriam assinado um atestado de burrice e seriam objetos de chacota eterna, aqui e fora de nossas fronteiras. Há muito tempo o Ocidente aprendeu que é o consenso dos falantes que regula o uso de uma língua, e que não há poder instituído que possa controlá-lo, como ilustra o conhecido episódio que ocorreu com Sigismundo, imperador do Sacro Império Romano-Germânico: durante o Concílio de Constança,  em 1414, ele empregou como feminina a palavra cisma (que era neutra, no Latim, como é masculina, hoje, no Português). Ao ser advertido do erro, respondeu que, como imperador, ele podia muito bem decidir que cisma tinha trocado de gênero — ao que se levantou um arcebispo e lançou-lhe nas barbas a famosa frase “Caesar non supra grammaticos” (literalmente, “César não está acima dos gramáticos”), que deve ser lido como “O Estado não tem poder sobre as palavras”.

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Para encerrar, informo aos amigos que na próxima semana inicio novas turmas de Português para Concursos, no Shopping Total. Para mais detalhes, basta ligar para 30187740 ou visitar o saite www.casadeideias.com.

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Conceitos lingüísticos Destaque Flexão nominal

Popurri: grafia fonética, parônimos, gravidezes

Em plena 57ª Feira do Livro de Porto Alegre, ofereço aos meus leitores este popurri* de questões de linguagem (* do Fr. pot-pourri, “mistura de elementos heterogêneos; miscelânea”).

1 — GRAFIA FONÉTICA — Um leitor que se assina Usuário da Silva (este comovente pseudônimo me trouxe saudades daqueles personagens da minha infância que portavam nomes ingênuos como Concordino ou Sujismundo…) pergunta se não seria mais lógico fazer uma reforma ortográfica que tornasse fonética a nossa maneira de escrever. “Por que ninguém pensou nisso?”, conclui ele, sem ironia — e é por isso, sem ironia, que vou responder: simplesmente porque não seria possível. Isso explica, aliás, por que nunca foi tentado em qualquer lugar civilizado que valha a pena mencionar. A inteligência dos sistemas ortográficos existentes no mundo reside exatamente nisso: eles permitem escrever de uma forma única aquilo que os falantes podem pronunciar de várias maneiras diferentes. Escrevemos dois, mas o carioca diz /doix/, o gaúcho diz /dois/; escrevemos medicina, mas o pernambucano diz /médicina/, enquanto nós dizemos /mêdicina/; escrevemos mas, e dizem /más/, /mais/ ou /mãs/. Um sistema fonético seria baseado na fala de que região? E as outras? E as diferenças individuais de pronúncia, que são bem marcadas mesmo dentro de uma mesma área geográfica? Creia, meu caro Usuário: nosso sistema é o melhor possível para desempenhar esta incrível tarefa de dar uma forma razoável, na escrita, à soma infinita de todas as pronúncias.

2 — GRAVIDEZES — Outro leitor vem deplorar certos plurais que, a seu ver, são “angustiantes”. Assistindo a uma  palestra sobre gestação em adolescentes, estremeceu ao ouvir falar em gravidezes; numa cerimônia de produtores rurais, sentiu-se agredido com a forma arrozes; finalmente, fugiu de uma bucólica produtora de mel  quando ela comentou que o Piauí tem os melhores méis do mundo. “Sei que são plurais possíveis, mas são um insulto ao bom gosto!”. Ora, prezado leitor, bom ou mau gosto são critérios muito vagos. Gravidezes, gizes, arrozes, méis, etc. vêm sendo usados há séculos (não é figura de linguagem: são séculos, mesmo), mas em contextos que não são muito frequentes no nosso quotidiano. Tenho certeza de que um médico ou uma parteira não estranham gravidezes (até porque não existe outra maneira de dizer: “A paciente, depois de tantas …..). O arroz, o mel, a soja, o trigo são nomes não-contáveis (mass nouns, no Inglês, lembra?) e, por isso, ficam sempre no singular — na nossa linguagem usual. Quando me refiro, no entanto, a várias espécies, é muito comum pluralizá-los: “o calor da brasa carameliza os açúcares da carne”, “o arbóreo não está entre os arrozes produzidos no Brasil”, e por aí vai a valsa.

3 — ÓCIOS DO OFÍCIO? — Outro leitor implica com a expressão ossos do ofício. O correto não seria ócios? Não, meu caro, é osso mesmo — a parte ruim, a parte dura, que qualquer atividade pode encerrar; afinal, como a sabedoria popular já decretou, quem comeu a carne que roa os ossos. Antenor Nascentes, com mais cerimônia, diz que são “os percalços, as contrariedades inerentes a um mister, uma arte, uma indústria, um cargo”.

4 —PARÔNIMOS? — Letícia W., de Novo Hamburgo, tenta abrir caminho no meio do cipoal terminológico: “Gostaria de conhecer uma definição mais clara de parônimos, pois na minha cabeça eles se confundem com os homófonos e os homógrafos”. Pois fique sabendo, minha cara leitora, que este é um conceito que está praticamente condenado entre os  especialistas, e por um motivo bem razoável: os parônimos seriam aquelas palavras “parecidas” que deixam o usuário confuso na hora de escolher a forma correta. Ora, este conceito de “parecido” é cultural (isto é, depende da cultura do falante) e, por isso mesmo, vago e amplo demais para ser científico. Para uma pessoa de pouca instrução, horta e aorta, figo e fígado são parônimos; para mim e para meus leitores, não são. Os termos tráfego e tráfico são parônimos porque as duas sílabas que vêm depois da tônica soam da mesma forma em ambos; são parônimos também eminente e iminente porque tanto o E quanto o I (letras) são pronunciados como /i/, na posição pretônica. Cessão, sessão e seção são parônimos porque são homófonos, sem ser homógrafos. Sustar e suster são parônimos porque se confundem miseravelmente durante sua conjugação (responda depressa: a qual dos dois verbos pertence sustinha? E sustava? E susteve? E sustou?). Intimorato (destemido) e intemerato (puro, íntegro) são parônimos porque a cara dum é o focinho do outro; etc. Como podes ver, nem todos são homófonos, nem todos são homógrafos — mas, como diria um jovem de hoje, com sua precisão peculiar, é “tipo tudo parecido”.

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Blitzes

Onde os italianos dizem raviolo, ravioli, os brasileiros mudaram para RAVIÓLI, RAVIÓLIS; onde os alemães dizem blitz, blitze, os brasileiros estão mudando para BLITZ, BLITZES.

Há pouco mais de duas semanas, um aluno me questionou sobre a manchete que encontrou em jornal de grande circulação no país: “PM faz blitze sucessivas na favela”. “Confio no meu ouvido, professor, e ele me diz que aqui está faltando um S. O senhor não acha?”. Acho, e sempre achei — e ia começar a apresentar meus argumentos quando um segundo aluno, tão rápido no gatilho quanto interessado na matéria, interveio, triunfante: “Mas a palavra já está no plural! O jornal está correto! Blitze, em Alemão, é plural — e, pior, é masculino: um blitz, dois blitze“. Os dois olharam para mim, esperando o meu veredito (para os que preferem veredicto, forma também correta, lembro que não existe letra muda no sistema brasileiro; aqui na Pindorama, como no jogo do bicho, vale o que está escrito: quem escreve aquele C deve também pronunciá-lo) — como eu dizia, olharam para mim, esperando o veredito, e eu então me senti personagem de uma daquelas edificantes histórias orientais, um verdadeiro Confúcio dos trópicos, porque pude me ouvir respondendo: “Saibam vocês que ambos estão cobertos de razão”.

Tem razão aquele que aponta a origem alemã do vocábulo. Blitz significa “relâmpago”, mas aqui está sendo usado como parte da expressão Blitzkrieg (“guerra relâmpago”), conceito tático-militar que Hitler tornou tristemente famoso, e que meu fiel Oxford English Dictionary define como “ataque ou ofensiva desfechada subitamente, com grande violência, com o objetivo de reduzir imediatamente as defesas”. Os ingleses começaram a usar este termo nos anos 40, quando Londres vivia sob o constante fogo da Luftwaffe; no Brasil, há mais de trinta anos ele é usado pela nossa imprensa para designar as batidas que a polícia faz de surpresa, geralmente com efetivo e armamento reforçados. Pelo sistema morfológico do Alemão, o plural do nominativo é blitze.

Por outro lado, também tem razão aquele que sugere que o plural blitzes calharia bem melhor a nossos olhos e ouvidos. Afinal, uma das grandes vantagens do Português é o princípio básico (e extremamente salutar) que rege o sistema de absorção de vocábulos estrangeiros: qualquer palavra que entra em nossa língua deve acompanhar o comportamento das palavras nativas, assumindo os traços fonológicos, morfológicos e ortográficos a que estamos habituados. As estranhíssimas bazooka, maillot e gnocchi há muito circulam por aqui transformadas em bazuca, maiô e nhoque — o que é bom para os brasileiros, que assim não são obrigados a decifrar grafias exóticas, e para as próprias palavras, que podem agora andar por aí alegremente, sem temer o olho sinistro e acusador dos fascistas do idioma.

Como eu disse, ambos têm razão: blitz realmente é uma palavra estrangeira, que, na língua de origem, tem o plural blitze — mas, de tão usada que é, já deveria ter sofrido a nacionalização definitiva, assumindo o plural blitzes, como gizes ou narizes. Não interessa para nós o comportamento deste vocábulo no Alemão; aqui ele vai dançar conforme nossa música. Pouco se nos dá que enveloppe, no Francês, seja feminino; aqui ele virou masculino, e pronto. E não importa que, no Italiano, raviolo e gnoccho sejam o singular e ravioli e gnocchi sejam o plural; os dois  pratos atravessaram o Atlântico e viraram ravióli (plural raviólis) e nhoque (plural nhoques). Por isso, se blitz é masculino na terra de Goethe, aqui se tornou feminino, num processo totalmente inconsciente dos falantes, certamente influenciados por alguma característica sonora do vocábulo. Se a imprensa aderir à forma modernizada, estou certo de que poucos haverão de reclamar, pois estaremos, como se diz, passando a mão no sentido certo do pêlo do gato.

Depois do Acordo: pêlo > pelo