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Destaque Destaquinho Etimologia e curiosidades

Por falar em paraolimpíada

Confesso que não entendi essa aceitação pacífica — quase ovina, eu diria — com que a maior parte da imprensa brasileira engoliu uma aberração do calibre de “paralimpíada”. 

Os meios de comunicação, sempre tão sensíveis (e críticos) a qualquer inovação vocabular — lembro, por exemplo, de quanta tinta se gastou para comentar o imexível do ministro Magri ou o sugerimento de Dunga, palavras, aliás, formadas dentro dos mais legítimos princípios do idioma —, desta vez aderiram imediatamente a esta malparida “paralimpíada” e ao não menos lamentável adjetivo “paralímpico”.

“Foi exigência do Comitê Nacional”, dizem uns; “do Comitê Internacional”, emendam outros — como se alguma instituição desportiva, política, religiosa, financeira, jurídica ou o que seja, desta ou de qualquer outra galáxia, tivesse o poder de determinar a forma das palavras que nossa língua produz ou deixa ingressar em seu léxico!

Se, com muita boa vontade, equipararmos o nome de um comitê esportivo a uma marca registrada, podemos até admitir que ele seja grafado de acordo com a vontade ou fantasia do dono (ou dos dirigentes).

No entanto, assim como as corporações que produzem a Gillette e o Band-Aid nada podem fazer se resolvemos criar, a partir de seus nomes, os substantivos gilete e bandeide, os referidos comitês não vão influir, com suas decisões privadas, na grafia de palavras como paraolimpíada  e paraolímpico, já de uso comum e assim registradas em todos os nossos bons dicionários.

A língua inglesa, de onde veio a novidade, tem lá suas desculpas por ter produzido essa aberração: segundo o Oxford English Dictionary — o incomparável OED —, o termo paralympic foi cunhado nos anos 50 a partir da união de pedaços dos vocábulos paraplegic e olympic, já que, em sua primeira edição, o evento era dirigido exclusivamente para quem sofria algum tipo de paralisia.

Este tipo de fusão lexical (chamada tecnicamente de amálgamamesclagempalavras-valise, etc.), que junta o segmento inicial de uma palavra ao final de outra para formar uma terceira é bastante produtivo no Inglês: smog (somoke+fog), bit (binary+digit), brunch (breakfast+lunch), fanzine (fan+magazine), freeware (free+software), entre dezenas de outras. Duas delas, inclusive, passaram a fazer parte de nosso vocabulário técnico: mecatrônica (mechanics+electronics) e estagflação (stagnation+inflation).

Em nossa língua, no entanto, esse é um processo exótico, usado principalmente por quem busca o efeito crítico ou jocoso que as palavras amalgamadas despertam: showmícioportunholbrasiguaiobebemorarchafé (café muito diluído), namorido (é mais que um namorado, mas menos que um marido — vocábulo que, misteriosamente, ainda não tem o seu equivalente feminino…), onguessugas (usada para ONGs não muito honestas), chocólatra, etc.

Os humoristas de primeira linha (no meu dicionário, aqueles que descobrem, para alegria geral, as pepitas de humor que se escondem no idioma) exploram bastante este veio. É o caso de barcilo, “bactéria encontrada num bar”; boicejo, “o tédio do marido da vaca”; cartomente, “adivinha que nunca diz a verdade” (todas do Millôr Fernandes); ou de marmúrio, “barulho longínquo do mar”; zerossímil, “que não se parece com nada”; e triglodita, “muito, muito primitivo”, do nosso Luís Fernando Verissimo.

Como se vê, esse curioso processo de criação produz vocábulos efêmeros, apropriados para situações especiais, lúdicas ou literárias, mas não faz parte daquela “máquina de fazer palavras” que todos os falantes do Português usam desde pequeninos.

O interessante é que paralympics tornou-se discutível mesmo no Inglês, sua língua de origem:  como os jogos passaram a incluir portadores de outras deficiências, a ideia primitiva de paraplegics desapareceu, e o vocábulo passou a ser reanalisado como para+olympics, onde o primeiro elemento é o prefixo de origem grega “para”, que significa, entre outras coisas, “semelhante, paralelo” — o mesmo que encontramos em paramilitarparadidático e paramédico, ideia também presente na paraolimpíada, que passou a ser um evento regular, paralelo e estreitamente relacionado à olimpíada.

Não me cabe criticar os ingleses por persistirem no uso da forma primitiva; afinal, eles têm uma rainha, dirigem do lado errado da estrada e devem ter lá os seus motivos para se conformar com paralympics — mas asseguro que aqui é diferente: não há como justificar, no Português, esta forma esquisita, que causa estranheza a todos os que entram em contato com ela.

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Destaque Destaquinho Flexão verbal Lições de gramática Questões do momento

Chico também escorrega no Imperativo

As regras de formação do IMPERATIVO são tão artificiais que raríssimos são os brasileiros que conseguem navegar por essas águas turvas sem naufragar. Como veremos, nem Chico escapou dessa armadilha.

Prezado Doutor,  gostaria de parabenizá-lo por sua página na Internet.  Minha dúvida encontra-se na letra de uma música de Chico Buarque, compositor pelo qual tenho uma grande admiração. A referida música intitula-se Fado Tropical.  Sua primeira estrofe nos diz:

“Ó, musa do meu fado
Ó, minha mãe gentil,
Te deixo, consternado,
No primeiro abril.
Mas não sê tão ingrata,
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

 Não deveria o ilustre compositor ter utilizado o imperativo negativo na forma mas não sejas tão ingrata? Ou será que a língua escrita em Portugal, notoriamente presente na letra da música, permite aquela outra construção? Agradeço sua atenção.”

João Marcelo ― Fortaleza

RESPOSTA ― Meu caro João Marcelo: o Chico — quem diria! — também tropeçou no imperativo, como seus colegas Gil e Mílton Nascimento (dá uma olhada em lê ou leia).  Na verdade, errou duas vezes: deveria ter escrito não sejas e não esqueças ( e esquece, como está na canção, são formas do imperativo afirmativo, não do negativo). Para tua informação, o imperativo em Portugal é igualzinho ao nosso, e os dois versos estão errados deste e daquele lado do Atlântico.

Agora, esse erro, vindo de quem vem ― o melhor letrista de nosso cancioneiro popular ― serve para confirmar duas teses (que eu defendo, aliás):

(1) o Imperativo negativo da 2a pessoa passou a ser, para a maioria dos falantes, idêntico ao afirmativo (volta, não volta; fica, não fica, etc.). Só não concordam com isso os gramáticos tradicionais ― e, por consequência, as bancas de concurso.

(2) não é qualquer um que pode encarar o tu e sair ileso. Vê só: nesse torvelinho, caíram três dos nossos maiores compositores da MPB!

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Acordo ortográfico Destaquinho Generalidades

ARTIGOS SOBRE REFORMA ORTOGRÁFICA

São muitos os artigos do Sua Língua que falam do Acordo Ortográfico. Reúno, abaixo, em ordem de publicação, os dez textos em que analiso mais de perto as causas, as consequências e os prejuízos desta periclitante Reforma:

01 ─ Deixem a nossa ortografia em paz!

02 ─ Esqueçam essa reforma!

03 ─ O pesadelo de Cassandra

04 ─ O pesadelo de Cassandra continua

05 ─ O que muda na ortografia?

06 ─ Mudanças na ortografia

07 ─ Não compre o novo VOLP! (1)

08 ─ Não compre o novo VOLP! (2)

09 ─ Não compre o novo VOLP! (3)

10 ─ Não compre o novo VOLP (4)

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Concordância Destaquinho Testes

Testes sobre verbos impessoais – Respostas comentadas

[RESPOSTAS DOS TESTES PUBLICADOS AQUI]

 

1 – Em (A), temos a estrutura tratar-se de, o que exclui a possibilidade de “pessoas honestas” ser o sujeito. Em (C), o verbo fazer não poderia estar no plural porque indica um fenômeno da natureza, sendo, portanto, considerado impessoal. Em (D) e (E), o verbo haver está em seu emprego clássico de verbo impessoal; “quatro semanas” e “imprevistos” são considerados meros objetos diretos. A resposta é (B); o verbo haver está no singular por ser impessoal.

2 -Temos, em (B), o verbo haver corretamente mantido no singular, já que é impessoal (“soluções” é considerado objeto direto). Em (C), a estrutura bastar de é impessoal;  “provocações”, portanto, não é o sujeito. Em (D), o verbo principal da locução verbal é acontecer; o sujeito é “coisas desagradáveis”, e o verbo haver, que aqui é um simples auxiliar, tem de concordar com ele. Em (E), temos outra vez haver como mero auxiliar da locução; a concordância se faz naturalmente com o sujeito “vários acidentes”. A alternativa que tem erro  é (A); o verbo fazer, ao indicar tempo decorrido, deveria ficar no singular.

3 – Nas  locuções verbais, como vimos, o verbo que comanda a concordância é sempre o da direita. Em (A), devem concorda com o sujeito de bastar (“duas colheres de açúcar”). Em (B), o verbo haver torna impessoal a locução; em vista disso, o auxiliar fica invariável. Em (C), o sujeito da locução é “outras saídas”; o verbo haver, que aqui é um mero auxiliar de existir, faz a concordância normal. Em (E), passar de, impessoal, faz com que seu auxiliar (deve) permaneça invariável. A alternativa que tem erro é (D): tratar-se de é uma estrutura invariável, e assim também deveria ficar seu auxiliar.

4 – Outra questão com locuções verbais: deverá fazer, haja sobrado, começa a haver, havia feito e pode haver. Como vimos, a pessoalidade (ou não) da locução é determinada por seu verbo principal (aquele que ocupa a última casa da direita). Em (A), (C), (D) e (E), o verbo principal é impessoal, e seu auxiliar está corretamente no singular. A alternativa em que o auxiliar deveria ser pluralizado é (B), pois aqui haver é um simples auxiliar de sobrar e deveria concordar com “algumas cervejas”.

5 – As duas lacunas envolvem o verbo haver, aqui usado no sentido em que é considerado impessoal. Na primeira, ele é o verbo principal da locução [poder + HAVER]; o auxiliar, neste caso, mantém a impessoalidade do principal: pode haver. Na segunda lacuna, o verbo é usado com o mesmo sentido, ficando, igualmente, na forma do singular. Duas alternativas preenchem os requisitos indicados no cabeçalho da questão: (A) e (C). Contudo, em (A) o verbo não foi conjugado corretamente no futuro do subjuntivo; deveria ser houver, não haver. A resposta é (C).

6 – A primeira lacuna deve ser preenchida pelo verbo fazer, que, neste sentido de tempo decorrido, é considerado impessoal. O verbo da segunda lacuna – faltar – é perfeitamente normal, devendo concordar com o sujeito trinta dias. A resposta é (C).

7 – O verbo haver da primeira e da terceira coluna está no seu clássico emprego como impessoal; vai ficar, portanto, no singular (havia e houvesse). Na segunda coluna, temos uma construção de passiva sintética, cujo sujeito é os trabalhos, o que leva recomeçar para a  3a. pessoa do plural. A resposta é (E).

8 – A primeira lacuna deve ser preenchida pelo verbo faltar, que concorda normalmente com o sujeito “muitos dias”. Na segunda lacuna, temos a locução verbal [dever + FAZER] que deverá ficar invariável, uma vez que o sentido de fazer aqui o torna impessoal. A resposta é (E).

9 – Na primeira lacuna, temos o clássico fazer no sentido de tempo decorrido, que é impessoal. O verbo existir, da segunda lacuna, é um verbo como qualquer outro, concordando com o sujeito “ruínas”. Já o haver da terceira lacuna é o impessoal de sempre. A resposta é (D).

10 – Na primeira lacuna, o verbo haver não tem sujeito e não pode variar, embora a posição em que o objeto direto “todos os parafusos” foi colocado na frase contribua para que um leitor apressado o tome por sujeito. Na segunda lacuna, fazer não está empregado num dos sentidos em que é impessoal; aqui ele é um verbo comum e deve concordar com o sujeito plural (“todos os parafusos faziam falta”) . Na terceira lacuna, o verbo haver, indicando tempo decorrido, fica invariável. A resposta é (B).

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Concordância Destaquinho Testes

Testes sobre a passiva sintética – Respostas comentadas

[Testes sobre a concordância com a passiva sintética]

Respostas comentadas

Questão 1 – Na primeira lacuna, viver fica no plural para concordar com o sujeito, “as civilizações modernas”. O verbo cancelar, que é transitivo direto, está numa construção de passiva sintética; vai para o plural, pois o sujeito é “todas as restrições” (equivale, na passiva analítica, a “todas as restrições SÃO ACEITAS”). Na terceira lacuna, não se trata de passiva sintética, porque o verbo obedecer é  transitivo indireto (notem a presença da preposição A); fica no singular, portanto, pois é um simples caso de sujeito indeterminado. A resposta é  A.

Questão 2 –  Na primeira lacuna, expor é transitivo direto; temos aqui um caso de passiva sintética. O sujeito, “os assuntos”, faz o verbo ficar no plural. Cuidado: atrair, na segunda lacuna, fica no singular, porque o sujeito é “a maneira”, e não “assuntos”. O pronome relativo “que”, sujeito da última oração, representa o antecedente “alunos”, levando queixar-se para o plural. A resposta é B.

Questão 3 – Esta é uma excelente questão para mostrar  a diferença entre as duas principais construções em que aparece o SE em nosso idioma: (1) a voz passiva sintética, com verbos transitivos diretos, e (2) o sujeito indeterminado, com intransitivos e transitivos indiretos. Na frase apresentada no cabeçalho, tínhamos “que se LEVANTEM  os problemas” (pas. sintética), “que se REFLITA sobre os assuntos (sujeito indeterminado – o verbo é t. indireto) e “não se TOMEM medidas (pas. sintética). Na substituição proposta, falar, na primeira lacuna, fica no singular, pois é suj. indeterminado; avaliar é transitivo direto, e vai para o plural (pas. sintética); pensar fica no singular, porque seu sujeito também é indeterminado. A resposta é A.

Questão 4 – As duas primeiras lacunas completam estruturas de passiva sintética: “que se READMITAM todos os desempregados” (igual a “que todos os desempregados SEJAM READMITIDOS”) e “que se ESQUEÇAM todos esses desentendimentos” (igual a “que todos esses desentendimentos SEJAM ESQUECIDOS”). A última oração é a mais perigosa, pois está presente o verbo desejar; ora, como vimos, os verbos que exprimem vontade ou intenção bloqueiam a voz passiva (os chamados “auxiliares volitivos”); o verbo fica no singular. A resposta é D.

Questão 5 – Muito semelhante à anterior: as duas primeiras construções são de passiva sintética – “quando se ESGOTAM as possibilidades, BUSCAM-se os pais do casal”. Há uma dificuldade adicional, contudo:  a banca intercalou, entre o verbo e o seu sujeito, expressões no singular (“meu amigo” e “em última instância”), que podem ter levado muitos candidatos a deixar o verbo no singular. A terceira lacuna envolve pretender, outro auxiliar que exprime vontade, o que explica o verbo principal no singular. A resposta é C.

Questão 6 – Da mesma forma que o verbo haver, a construção “tratar-se de” é impessoal (ou seja, não tem sujeito algum), ficando sempre no singular. Resolver está numa estrutura de passiva sintética e, portanto, vai concordar com  coisas (“coisas simples que se RESOLVEM facilmente” = “coisas simples que SÃO RESOLVIDAS facilmente”). A última oração também apresenta a passiva: “EVITEM-se discussões”. A resposta é E.

Questão 7 – A primeira oração é uma passiva sintética: “ali onde se VÊEM as cruzes” = ali onde “as cruzes SÃO VISTAS”. Já na segunda o verbo fica no singular: é um simples caso de sujeito indeterminado, uma vez que assistir, no sentido empregado, é transitivo indireto. A resposta é A.

Questão 8 – No primeiro verbo, temos um caso simples de sujeito posposto (“dúvidas”). O sujeito do segundo está também posposto: “as críticas”. A terceira oração tem uma passiva sintética: “as críticas que SE FIZERAM ao projeto” (na analítica, seria “as críticas que FORAM FEITAS ao projeto”).  A resposta é D.

Questão 9 – Na segunda lacuna, o verbo haver, que é impessoal, faz com que o seu auxiliar estar também se impessoalize: “ESTÁ havendo”. A terceira lacuna recebe o verbo no plural, porque se trata de uma voz passiva sintética, cujo sujeito é “irregularidades”. O sujeito de afirmar, na primeira lacuna, é a oração subjetiva “que está havendo irregularidades”; o verbo ficará, portanto, no singular. A resposta é C.

Questão 10 – A primeira lacuna envolve uma passiva sintética: “que SE FAÇAM todas as recomendações”. Na segunda, aparece o verbo fazer impessoal (indicando tempo decorrido); fica no singular, portanto. Na terceira, temos nova passiva: “que SE COMETEM os mesmos erros” (igual a “que SÃO COMETIDOS os mesmos erros”). A resposta é D.

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Destaque Destaquinho Generalidades

Primeiro aniversário: um milhão de leitores

Hoje, dia 18 de junho, faz um ano que nos mudamos para este endereço, de roupa nova e cabelo penteado. Os leitores que nos acompanhavam há alguns anos foram unânimes em aprovar as modificações: além de ter sido totalmente redesenhado pela talentosa equipe do clicRBS, o Sua Língua ganhou uma estrutura mais ágil e mais dinâmica, facilitando bastante a pesquisa e a leitura.

Não tenho equipe; trabalho sozinho e vou mantendo, como posso, o ritmo das atualizações, pois todos os textos são de minha autoria, da  primeira maiúscula até o ponto final — assim como também sou eu quem responde às perguntas que recebo. A recompensa está aí: neste primeiro aninho, o Sua Língua teve mais de UM MILHÃO de acessos individuais (para ser mais preciso, 1.054.098, no momento em que escrevo estas linhas). Sei que isso não seria nada demais para um blogue sobre política ou celebridades, mas, para uma página dedicada exclusivamente ao nosso idioma, é o suficiente para me encher de orgulho e gratidão.

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Destaque Destaquinho Etimologia e curiosidades Origem das palavras

aluno (final)

(conclusão)

Há quem acredite que a etimologia, que investiga o significado inicial das palavras que usamos, sempre nos aproxima de alguma verdade originária que ficou encoberta sob o manto do tempo. Sob esta óptica, os etimologistas seriam verdadeiros “decifradores” da realidade, encarregados de apontar para o homem comum  uma série de relações que ele jamais enxergaria sem a devida assistência. Pois não é bem assim ou, dizendo melhor, é quase isso: a determinação da origem de um vocábulo não revela nada sobre aquilo que ele denomina, mas sim sobre as crenças e concepções que nossos antepassados tinham sobre as coisas. Eles pensavam, por exemplo, que a malária era causada pelo ar estagnado dos pântanos daí o nome, derivado do Italiano mala + aria,  “mau ar” (isso, é claro, antes da Humanidade saber que existiam protozoários responsáveis pela doença e que um simples mosquito podia ser seu agente transmissor). Como se vê, a etimologia nada acrescenta ao conhecimento que temos da enfermidade, mas serve para nos lembrar quanto tempo levamos para descobrir os micro-organismos…

Atendendo a um apelo de Luís Carlos Valério, professor de Filosofia formado pela UFSM, vimos na coluna anterior que o vocábulo aluno vem do Lat. alumnus, derivado do verbo alere, “nutrir, alimentar”, e não tem relação alguma com lumen, “luz”. Inicialmente, portanto, significava “aquele que é alimentado”, e não, como sugerem alguns, “aquele que não tem luz”. Esta etimologia de caracacá é insistentemente  defendida por pedagogos de várias instituições, os quais devem ter constituído, em segredo, a Associação dos Inimigos da Palavra Aluno, certamente dotada de estatuto, hino e juramento secreto.

Pois agora alguns membros mais espertos desta seita, vendo que não havia fundamento algum para atacar a palavra por sua etimologia, adotaram a estratégia de condená-la pelo uso que dela faziam os romanos, seus legítimos donos. Esta palavra, dizem eles, está irremediavelmente maculada na sua origem, pois há vários textos antigos em que o termo alumnus é usado para designar um menor criado fora de sua família, às vezes adotado, às vezes meramente tolerado no seio das famílias poderosas, uma espécie de moleque exposto às diversões (e talvez perversões) de seus senhores. Desta vez, ao menos, não é uma versão ridícula como aquela do “sem luz” mas também, já vou avisando, não pode ser levada ao pé da letra.

Em primeiro lugar, porque alumnus era usado com um sentido muito mais amplo e digno do que os textos mencionados, escolhidos a dedo, sugerem. Como era extremamente comum recorrer a amas-de-leite, alumnus designava aquilo que chamamos, em vernáculo, de “filho de leite” — passando, por causa disso, a designar também o discípulo com relação a seu mestre. A literatura da época está repleta de exemplos; como desconfio que os membros dessa seita não tenham muito convívio com os autores clássicos, faço questão aqui de fornecer alguns. Ovídio conta que Baco, ao nascer, é confiado por Zeus à ninfa Ino e usa o termo alumnus. Mais tarde, quando o jovem deus é educado por Sileno, torna-se também seu alumnus. O nobre Eneias, quando lamenta a morte de sua velha ama, declara ser seu alumnus. Amiano Marcelino, em sua História, conta que Juliano, ao falar na sua sucessão à testa do exército romano, declara, com orgulho: “Como verdadeiro alumnus da pátria que sou, desejo ardentemente que o exército escolha um chefe à sua altura”. Onde está o depreciativo?

Em segundo lugar, foi este sentido de filho ou discípulo que a tradição ocidental atribuiu ao vocábulo. Camões que eles também não devem ter lido exalta, no Canto VIII, o grande Nuno Álvares Pereira:

Ditosa pátria que tal filho teve!

Mas antes, pai, que enquanto o Sol rodeia

Este globo de Ceres e Netuno,

Sempre suspirará por tal aluno.

Francisco Manuel de Melo, elogiando Antônio de Menezes, diz que com sua morte “a Pátria perdeu um aluno, Marte um discípulo, as Musas um amigo”.

E aí? Acho que não preciso demonstrar que o sentido, aqui, é antes laudatório do que pejorativo… É exatamente por isso que os americanos que concluem o curso superior intitulam-se, com orgulho, de alumni da sua universidade, a que denominam significativamente de sua Alma Mater (“mãe nutridora”). Não me venham, portanto, com histórias; este sempre foi o sentido que a palavra teve em nosso idioma. Aliás, quem conheceu verdadeiros professores costuma prestar a eles uma homenagem ao dizer “Fui seu aluno” com gratidão e orgulho. Eu, por exemplo, fui (e continuo sendo) aluno do professor Luft, e dele falarei na próxima coluna.

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Destaque Destaquinho Etimologia e curiosidades Origem das palavras

aluno

Quem conhece os doze trabalhos de Hércules deve lembrar o quanto penou nosso herói para matar a Hidra de Lerna, uma monstruosa serpente de sete cabeças, todas elas dotadas de presas venenosíssimas. Parecia uma tarefa impossível, pois para cada cabeça cortada brotavam outras duas, novinhas em folha — e estariam se multiplicando até hoje, infinitamente, se Hércules não tivesse a idéia de cauterizar os pescoços decepados com a chama de uma tocha (para mais detalhes, sugiro uma volta aos Os Doze Trabalhos de Hércules, na versão genial de Monteiro Lobato). É a esta mesmíssima Hidra, aliás, que estamos nos referindo quando chamamos uma tarefa difícil de “bicho-de-sete-cabeças”.

Sempre me lembro dela e de suas cabeças renováveis quando vejo renascerem velhos mitos lingüísticos que há muito foram sepultados. Confesso que alguns deles são realmente duros de matar! Apesar de transpassados pela espada da razão e pela lança da ciência, não é que volta e meia eles reaparecem para assombrar os cristãos? Pois um leitor de Santa Maria acaba de enviar um apelo para que eu o ajude a enterrar — se possível, de forma definitiva — aquela já tão desacreditada versão de que a palavra aluno carregaria consigo um sentido pejorativo. Mas de novo? Depois de tudo o que se escreveu sobre isso, alguém ainda insiste em defender uma tão rematada tolice? Acho que posso imaginar o desânimo de Hércules, ao ver as hediondas cabeças renascerem…

A palavra aluno vem do Latim alumnus (até aí morreu Neves), da família do verbo alere (“criar, alimentar”). Designa a criança que ainda precisa ser nutrida e cuidada — inicialmente no sentido do alimento físico, passando mais tarde ao sentido do alimento do espírito. Circula por aí — principalmente nos meios pedagógicos, o que é, no mínimo, curioso — a interpretação macarrônica de que a palavra viria, na verdade, da junção do prefixo privativo a- (“que não tem”) com o substantivo lumen (“luz”; corresponde ao nosso lume). Isso a tornaria uma palavra politicamente incorreta, ao sugerir que o estudante seria alguém que vive na treva, à espera da iluminação do professor — o que, dizem algumas vozes modernosas, descreve uma relação desigual, de cima para baixo, quando, na verdade, o professor e o estudante deveriam idealmente manter uma relação de colaboração, funcionando à semelhança dos dois pauzinhos que, atritados um contra o outro, acabam produzindo fogo. Como na Idade da Pedra.

Parece que voltamos aos tempos de Isidoro de Sevilha, dicionarista da Idade Média, que era mestre em torcer o bracinho da etimologia até que ela confessasse o que ele desejava ouvir. Como teólogo (depois santificado), via na “origem” das palavras a evidência das Escrituras; por exemplo, para ele, a morte (em Latim, mors) vem de morsus (“mordida”), pois o homem só passou a ser mortal depois da primeira mordida que o pai Adão deu na maçã… No caso de aluno, nota-se o mesmo desrespeito à realidade lingüística para fins ideológicos. Não vou discutir aqui a concepção pedagógica que está por trás dessa interpretação forçada, com a qual não concordo, mas vou me ater exclusivamente à etimologia do termo. Já falamos nisso aqui nesta coluna: o prefixo privativo a- é do Grego (acéfalo, analfabeto, etc.), enquanto lumen é do Latim. É verdade que palavras modernas — amoral, televisão — podem ser formadas pela união de elementos de línguas diferentes, mas este não é o caso; em alumnus, vocábulo latino muito antigo, não existe prefixo algum, muito menos grego.

Para tentar pôr um fim a essa lengalenga, recomendo a leitura urgente de um valiosíssimo livrinho que todo pedagogo deveria incluir entre suas obras de referência: trata-se de um “dicionário etimológico para ensinar e aprender”, intitulado Oculto nas Palavras, de Luis Castello e Claudia Mársico, professores de Letras Clássicas da Universidade de Buenos Aires (traduzido aqui pela Editora Autêntica, de Belo Horizonte, em 2007). Ali encontrarão, bem explicada e fundamentada, a etimologia de uma centena e meia de palavras pertinentes ao ensino e à educação (como educar, orientar, adolescente, discípulo, tutor, mestre, etc.). Tenho certeza de que os verbetes, que são muito completos e muito bem escritos, serão de grande utilidade para os estudiosos e pesquisadores da área, principalmente por colocarem uma pedra sobre o tão pernicioso “achismo” de nosso mundo acadêmico. A respeito de aluno, por exemplo, os autores começam dizendo, com serenidade e firmeza: “O termo foi, curiosamente, objeto de uma explicação etimológica disparatada(…) Aluno seria ‘o que não possui luz’, ‘o que está no escuro’, e que, portanto, busca ‘iluminar-se’ mediante o estudo. Essa explicação, decerto, não resiste à menor análise histórica ou lingüística“. E por aí eles vão.

(segue)

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E/OU — valor da barra inclinada

Prezado professor: assim como no futebol todos se consideram técnicos, muitos se consideram especialistas no nosso idioma, principalmente no ambiente acadêmico. A discussão comeu solta em nossa universidade a respeito da seguinte frase:

Serão considerados docentes permanentes os professores que desenvolvam atividades de ensino na graduação E/OU pós-graduação.

Por causa deste e/ou, um grupo defende que o professor, para ser considerado docente permanente, terá de estar obrigatoriamente ligado à graduação, sendo opcional seu vínculo com a pós-graduação. Outro grupo, no entanto, entende que o artigo acima permite que um professor seja classificado como docente permanente mesmo que esteja ligado apenas à pós-graduação. Sem entrar no mérito da questão, mas exclusivamente dentro da visão lingüística, qual dos dois grupos faz a interpretação correta?

Jacob W. – Campinas (SP)

Meu caro Jacob, o emprego do E/OU sempre traz esse perigo; apesar de ser um operador muito útil, acho que ainda não está suficientemente difundido para ser usado sem causar discórdia. Há, inclusive, quem o considere uma invenção pedante e desnecessária, mas me atrevo a dizer, com base na experiência que acumulei na minha página da internet, que a maior parte dos que se opõem a ele mudaria de ideia se soubesse exatamente para que  finalidade ele foi criado.

Sua origem se explica por uma daquelas diferenças bem marcantes que existem entre a linguagem da Lógica Formal e a linguagem humana, principalmente no valor de conectores como E, OU e MAS. Onde usamos nosso OU, o Latim usava duas palavras diferentes, vel e aut. O primeiro era um OU fraco, inclusivo, significando “um ou outro, possivelmente ambos“; o segundo era um OU forte, exclusivo, significando “ou será um, ou será outro“.

1 – OU inclusivo (qualquer um dos dois):

É uma flor delicada; o frio OU o calor excessivos podem fazê-la morrer.

Ele aceita trocar o carro por ações OU por mercadorias.

2 – OU exclusivo (ou um, ou outro):

O cargo de presidente, que está vago, será ocupado por João OU Pedro.

Esta chave deve pertencer a Pedro OU àquele professor visitante.

A Lógica Formal resolveu o problema criando dois símbolos diferentes, um para cada tipo de OU. Uma língua natural como o Português, porém, não pode “criar” conjunções ou preposições; por causa disso surgiu a prática (adotada por alguns, mas não por todos os usuários) de usar uma barra entre o E e o OU para indicar que se trata do OU fraco (o vel do Latim), isto é, o OU inclusivo. A frase abaixo é um bom exemplo:

O calor acima dos 50 graus e/ou a umidade acima de 70% podem alterar esta substância.

Esta frase contém três afirmações diretas:

(1) o calor acima dos 50 graus pode alterar a substância,

(2) a umidade acima dos 70% pode alterar a substância,

(3) o calor e a umidade juntos podem alterar a substância.

A frase que vocês discutiram — “serão considerados docentes permanentes os professores que desenvolvam atividades de ensino na graduação E/OU pós-graduação” — afirma, claramente, que será classificável como docente permanente

(1) o professor que só atua na graduação,

(2) o professor que só atua na pós-graduação e

(3) o professor que atua em ambas.

Como acontece em qualquer disjunção inclusiva (este é o nome técnico empregado pela Lógica), só ficará excluído o professor que não se enquadrar em nenhuma dessas três hipóteses.

Se o burocrata que escreveu esse texto sabe usar o E/OU, foi isso o que ele disse. Se tivesse escrito “na graduação E na pós-graduação”, teria dado margem à interpretação, por parte de alguns leitores, de que só seria enquadrado aquele que atuasse nas duas áreas, excluindo-se aqueles que atuassem em apenas uma delas. Por outro lado, se tivesse escrito “na graduação OU na pós-graduação”, teria dado margem à interpretação, por parte de outros, de que só se enquadraria nesta classificação aquele que lecionasse ou na graduação, ou na pós-graduação — excluindo-se o que lecionasse em ambas. Ao usar o E/OU, matou a questão: só fica excluído aquele que não leciona em nenhuma das duas.

[Extraído do Guia Prático do Português Correto – V. 4: PONTUAÇÃO, já no prelo]

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Concordância Destaquinho Lições de gramática

a maioria dos homens

Professor: tenho 12 anos e estou na 7ª série. Fiquei indignada com a correção que minha professora de Português fez na minha redação, considerando errada a concordância na frase “A maioria dos homens FICA ENCABULADA de fazer os exames de próstata”. Segundo ela, o correto seria ” maioria dos homens FICAM ENCABULADOS”. Ora, tenho quase certeza de que minha forma está correta. Pode haver outra forma para a mesma frase, como a professora sugere? Ou será que ela teria cometido uma falha grave?

Camilla S.

Minha cara Camilla: eu também prefiro a concordância com o núcleo do sintagma (“a MAIORIA dos homens FICA“), mas todos os gramáticos prescritivos concordam em admitir, também (ou seja: é uma “licença” que aqueles senhores “concedem” por causa do uso) a concordância com o termo periférico: “a maioria dos HOMENS FICAM”). Escrevi algo a respeito no meu saite, em concordância com percentuais. Só há um complicadorzinho no teu caso específico, que é o adjetivo encabulado. Se optarmos (como tu e eu) pela concordância com o núcleo maioria, o adjetivo fica encabulada — “A maioria dos homens fica ENCABULADA”, como escreveste — o que não soa tão bem, vamos confessar, quanto “a maioria dos homens ficam ENCABULADOS“. Talvez por isso a professora tenha preferido a concordância opcional com homens. De qualquer forma, o que escreveste está correto; resta saber se ela corrigiu por considerar “errado” ou por estar apenas aconselhando o que fica melhor na frase (coisa que eu faço a toda hora nas redações que examino). Fala com ela. Abraço. Prof. Moreno