testemunha

Max Müller, o renomado filólogo e orientalista do séc. XIX, observou que a alma humana tem uma verdadeira sede de etimologia, um desejo de descobrir, pelo bem ou pelo mal, por que uma determinada coisa recebeu o nome que tem. Eu e você, meu leitor, que compartilhamos esse prazer em olhar as palavras pelo lado do avesso, conhecemos muito bem essa sede e os belos frutos que ela nos traz. Quando analisamos as origens de um vocábulo, não raro desenterramos uma nuança insuspeitada, que vem à luz como uma esmeralda no garimpo. O significado de nostalgia, por exemplo, ficou muito mais denso para mim quando percebi que vem de nostos (em Grego, “retorno para casa”) mais algia (“dor, aflição”) — o suave sofrimento que nos traz a lembrança das coisas passadas, da casa irremediavelmente perdida. Isso é ouro puro; o problema surge quando, levado pela ânsia de descobrir novos tesouros, o etimólogo amador põe a imaginação a funcionar e termina caindo na armadilha das falsas semelhanças. Quantas vezes não ouvimos que cadáver viria das primeiras sílabas da frase latina caro data vermibus (“carne dada aos vermes”), quando, na verdade, vem de cadere (“cair, tombar”)? Ou que o nosso inocente moleque, vocábulo que faz parte da rica herança afro-brasileira (do Quimbundo muleke – “garoto”), seria na verdade uma variante de Moloque, a demoníaca divindade que é mencionada com horror no Antigo Testamento? Isso ficava bem ainda no tempo das Etymologiae, no século 7 d.C., em que Santo Isidoro de Sevilha, com a ingenuidade que a época lhe autorizava, enxergava as mais fantasiosas relações entre vocábulos que nada tinham a ver entre si.

Uma história que poderia ser assinada pelo bom Santo Isidoro (proposto pelo Vaticano para ser o padroeiro da Internet) é a de que a palavra testemunha originou-se de testículo, a partir de uma velha prática dos tribunais romanos: em vez de usar um livro ou objeto sagrado para dar solenidade ao ato, as testemunhas teriam o mau hábito de segurar os testículos enquanto prestavam juramento. Nem preciso dizer que não se encontram registros dessa prática nos autores que descreveram a vida quotidiana dos romanos, mas os defensores desta história da carochinha, sempre cheios de recursos, alegam que essa forma de jurar foi sendo substituída gradativamente pelo gesto de levar a mão ao peito, à medida que se ia atribuindo ao coração o papel de órgão mais precioso. Sorte a nossa, pois essa mudança poupou-nos a constrangedora (se não grotesca) cena que seria a execução de nosso Hino Nacional no desfile militar da Semana da Pátria … 

O curioso, neste caso, é que existe uma relação entre os dois vocábulos, mas em sentido completamente inverso: o vocábulo testículo é que deriva do outro. A palavra latina para testemunha era testis, derivada (para os que acreditam na existência de uma língua indo-européia, anterior às outras) de uma raiz genérica ligada a “três”: a testemunha seria aquele terceiro indivíduo que poderia descrever os fatos com maior isenção do que as duas partes envolvidas na disputa judicial. Essa palavra era usada no plural (testes) para designar também os testículos, por servirem de testemunhas da virilidade de seu proprietário. Essa é uma teoria bem mais plausível, ainda mais se lembrarmos que até hoje o homem do povo atribui a seus órgãos sexuais essa função de atestar sua masculinidade, ao denominá-los (o Houaiss registra) de “meus documentos“. Desse mesmo radical nos vem detestar, contestar, testamento (e derivados). Isso explica também por que o verbo protestar, além do significado de “expressar sua inconformidade com alguma coisa; reclamar”, pode também ser usado com o sentido de “demonstrar, testemunhar”, em frases como “quero protestar meu respeito e gratidão aos mestres que me arrancaram da ignorância em que eu vivia”.

Infelizmente, em linguagem também atua aquele princípio da Economia que conhecemos como a lei de Gresham, segundo a qual a moeda ruim expulsa a moeda boa. As versões populares para a origem de cadáver, de moleque e de testemunha, embora falsas, são muito mais interessantes do que a história verdadeira, o que me faz prever que elas jamais perderão o seu prestígio, por mais que eu escreva artigos como este, em que assumo o antipático papel de um desmancha-prazeres que teima em substituir hipóteses tão bonitas pela fria e insossa realidade.

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