inversível ou invertível?

Prezado Prof. Moreno: sou, há muitos anos, professor universitário de Matemática e sempre zelei pela nosso língua. Em verdade esse zelo foi-me inspirado pelo meu professor Celso Luft. Hoje há entre nós, professores de Matemática, uma dúvida sobre se o correto é dizer inversível ou invertível. Esse adjetivo é importante em nosso meio, pois há necessidade de usá-lo a todo momento. Nos anos idos dizia-se, sem a consciência reclamar, inversível. Nos anos recentes um Matemático influente propalou que o uso correto é invertível, daí a polêmica. Qual a sua opinião? Um grande abraço.

Oclide José Dotto

Meu caro professor: seguindo os ensinamentos de nosso mestre comum, o saudoso Celso Pedro Luft — patrono desta página —, já posso afirmar que considero suspeitas, de antemão, tais “descobertas” adventícias, feitas por essas autoridades que aparecem para me anunciar, com cara de quem está descendo do Monte Sinai, que eu estive cego e surdo todo esse tempo. Infelizmente, essa é uma postura muito comum em nosso país; volta e meia, aparece um maluco, com o olhar esgazeado, a reinventar a roda: um quer que não seja risco de vida, como dizia a avó da minha bisavó, mas risco de morte; outro clama que a entrega a domicílio deve ser em domicílio, ao contrário do que sempre foi usado por todos — incultos, cultos ou cultíssimos. O que esses fanáticos não sabem (até porque, em sua grande maioria, pouco estudo têm de Lingüística e de Gramática) é que, mesmo que a forma que eles defendem seja aceitável, a outra, que eles condenam, já existia muito antes do dia em que eles próprios vieram a este mundo.

Se nos “tempos idos”, como dizes, era usual o emprego de inversível no meio especializado dos professores de Matemática, então este vocábulo, empregado até hoje em centenas, em milhares de textos técnicos, jamais deixará de existir. O que podemos assuntar é a sua vitalidade, em confronto com a de sua irmã, invertível. Vejamos a tabela:

Nota como nesta família, derivada de verbos que se formaram a partir de verter, aparecem alternadamente os alomorfes /vert/ e /vers/ — aliás, como já ocorria no Latim. Os dicionários atuais registram conversível e convertível, reversível e revertível, no que fazem muito bem, por que não lhes cabe decidir, apenas opinar; no entanto, só trazem invertível, apoiando-se na existência de um invertibilis latino e esquecendo, estranhamente, a mesma possibilidade de alomorfia naquele idioma, como se vê na convivência de conversibilis e convertibilis. A ocorrência dessa dupla nas demais línguas românicas também é significativa: no Francês, usa-se apenas inversible; no Espanhol, temos uma preferência de invertible sobre inversible na razão de 2 por 1; no Italiano, quase só se emprega o invertibile. Aqui no Brasil, uma rápida passada pelo Google mostra uma divisão entre as duas formas, com razoável preferência por inversível. Assim é a linguagem humana, em toda sua fluidez e dinamicidade, meu caro Dotto. Qual das duas vai prevalecer? O uso dos técnicos e especialistas é que poderá responder a esta pergunta. No teu caso, trata de defender o inversível, que é boa moeda, contra a opinião de outros, que vão defender invertível; é desnecessário lembrar que esta polêmica só vai discutir preferências, pois nenhum dos lados poderá alegar que a sua é a forma correta. Abraço, e saudações acadêmicas. Prof. Moreno 

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