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Etimologia e curiosidades Origem das expressões

sic

Sic é um advérbio latino que significa literalmente “assim”. Está presente em muitas frases célebres da tradição ocidental, entre elas o famoso Sic transit gloria mundi (“assim passa a glória deste mundo”), palavras que são ditas (três vezes) na cerimônia de posse um novo papa, como para lembrá-lo de quão breve e vã é a glória deste mundo. Segundo alguns especialistas nas Línguas Românicas, deste advérbio teriam saído o sim do Português e o si do Espanhol. É usado internacionalmente para indicar ao leitor que aquilo que ele acabou de ler, por errado ou estranho que pareça, é assim mesmo.

Quando estou citando o texto de alguém, o sic serve para indicar ao meu leitor que eu sei que o texto original contém um erro ou que estou estranhando aquilo que ali está. Quando intercalo um sic no meu próprio texto, estou dizendo que é assim mesmo que eu quero que conste, por estranho ou errado que pareça. É como se eu dissesse ao leitor: “É assim mesmo como você está vendo; não foi erro de cópia ou de impressão”.  Quando se tratar de um óbvio equívoco de digitação, que não se pode imaginar como erro do autor, não devemos utilizar o sic. Se encontro “um cidavão brasileiro” (por cidadão)”, “no Hosdital de Clínicas” (por hospital), “Cabral avistou nossa costa no ano de 7500“, trato de corrigir ao fazer a transcrição. Agora, se estou citando um autor em cujo texto aparece obsessão com SC (*obscessão, que Deus nos livre!), tenho diante de mim dois caminhos: (1) ignoro o erro do texto original e já o transcrevo da forma correta (no mundo acadêmico, isso é o que se deve fazer com os amigos), ou (2) reproduzo-o exatamente, acrescentando-lhe o sic. Neste caso, o funciona como um poderoso instrumento retórico, já que permite que eu estabeleça com o meu leitor uma cumplicidade superior contra o autor que estou sicando. Na verdade, estou fazendo um impiedoso comentário do tipo “olha só como esta besta escreve errado!” . Eu não quero fazer a correção: eu quero mesmo é desqualificar o argumento deste autor, mostrando que ele deve ser ignorante, já que escreve tão mal assim (é evidente que isso é falacioso, mas sempre funcionou muito bem em argumentação). Há casos, porém, em que eu não posso fazer espontaneamente a correção, porque a natureza do item que está evidentemente errado ou que me causou estranheza não me permite arriscar uma “correção” subjetiva. Por exemplo: “Ele só tinha 34 [sic] dedos na mão direita” (o erro é óbvio, mas não sua correção: eram 3 ou 4?); “Naquele ano Jobim compôs 97 [sic] músicas de sucesso” (parece um exagero; pode estar errado ou não).

Hoje, o sic já está sendo usado como uma forma de transmitir minha opinião sobre a posição de um autor ou sobre um determinado item. Por exemplo, se alguém diz “Esse foi o erro de Freud”, posso citá-lo como “Esse foi o erro [sic] de Freud” — e neste caso estarei criticando a posição do autor citado, que está implícita na escolha que fez do vocábulo erro, bem como estarei marcando a minha própria posição (os mais exaltados costumam, aqui, combinar o sic com o ponto de exclamação: “Esse foi o erro [sic!] de Freud”; outros apenas usam a exclamação entre parênteses (“Esse foi o erro (!) de Freud”); outros, a interrogação (“Esse foi o erro (?) de Freud”). Exatamente por esse valor reprobatório inerente ao sic, muitas vezes o renome, o respeito, o saber de quem está sendo citado nos obriga a usar, para avisar o leitor de que estamos conscientes da estranheza do que está escrito, de fórmulas mais prudentes e diplomáticas ([estava assim no original], [aqui parece ter havido erro de impressão], etc.), cujo emprego mostra que estamos tentando apenas constatar um fato, sem intenção crítica ou agressiva.

O sic também é muito usado por profissionais de áreas que lidam diretamente com o público (magistrados, escrivãos, médicos, enfermeiros, etc.) e que são obrigados a registrar declarações e depoimentos. Serve para o mesmo propósito: mostrar que o registro foi fiel, mas que o autor está atento para a estranheza ou a incongruência do que está sendo dito pelo réu, pela testemunha ou pelo paciente. O curioso é que muitos deles me disseram que sic é a sigla para “Segundo Informações Colhidas”! É uma interpretação deveras engenhosa para o Português; apenas esquecem que os ingleses, os franceses, os alemães, os poloneses, até os próprios húngaros (!) (mas o que há com os húngaros? Leia Retrato Íntimo de um Idioma, e logo você vai entender) usam o mesmo sic, que é um vocábulo latino, não uma abreviação. Deve ser escrito em negrito ou itálico, entre colchetes (que é a pontuação recomendada para qualquer intromissão nossa no texto alheio — [o grifo é meu], [aqui foram apagadas três linhas completas], etc. Já nasceu dele um verbo derivado, sicar, que é bem usado no mundo acadêmico: “Eu o siquei três vezes”, “Ninguém tem coragem de sicar um autor deste porte”. Quando um mesmo erro se repete em várias passagens de um texto, usa-se [sic passim] – “está assim por toda parte”.

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