“porém” tem dígrafo ou ditongo?

Professor, sempre leio as questões elaboradas para concursos que vêm nos jornais; uma delas, no entanto, me deixou muito cismada quanto à resposta. A questão era: As palavras porém e quero têm:

a) ditongo decrescente oral e dígrafo
b) ditongo crescente nasal e dígrafo
c) ditongo crescente nasal e ditongo crescente 
d) ditongo decrescente nasal e dígrafo 
e) dígrafo e dígrafo

Bom, eu, com toda a minha segurança, “crente que estava abafando”, marquei a alternativa E, mas segundo o jornal a resposta certa seria a D. Já quebrei a cabeça, tentando encontrar onde está o ditongo da palavra porém, mas até agora não consegui nada. Conto com sua ajuda.

Danielly A. —  Realengo (RJ)

Minha cara Danielly, aceita um conselho do Doutor: quando fizeres testes de concursos e de vestibulares, JAMAIS leves a sério os que falam de dígrafos, ditongos, hiatos, etc. Acredita: a Fonologia, para uma grande parte dos professores de Português, ainda é um mundo completamente desconhecido. Nenhum colega meu que se preze, ao elaborar uma prova, vai incluir questões como essa que transcreveste. Ela se baseia numa visão ingênua e reducionista da Fonologia (que aparece, infelizmente, nas gramáticas escolares), em que tudo seria claro, preciso e com contornos bem definidos. Ora, quem faz um bom curso de Letras sabe que é interminável a discussão entre o que é ditongo e o que é hiato (há autores sérios que põem em dúvida, inclusive, a existência de ditongos crescentes em nosso idioma); se há semivogais ou semiconsoantes; se existem vogais nasais, no Português, ou se há um fonema nasalizador que trava a sílaba nasal; e assim por diante, numa sucessão interminável de pontos controvertidos. É claro que esse panorama assustador que estou pintando é absolutamente normal no mundo científico — principalmente se considerarmos que (1) a Lingüística é uma das ciências mais novinhas (e mais: dentro dela, a Fonologia é uma das áreas de maior ebulição acadêmica, no momento), e que (2) ela, diferentemente das ciências ditas “exatas”, luta por elaborar os próprios critérios e parâmetros que vai aplicar no estudo da língua. Ou dito de forma mais concreta: enquanto um ictiólogo (biólogo especializado em peixes) sabe, de antemão, que os peixes que vai estudar têm partes já definidas — barbatanas, escamas, cauda, etc. —, um fonólogo, antes de começar a analisar os sons do Português, é obrigado a definir o que ele entende por sílaba, por acento, por vogal, por consoante, etc., etc. É por isso que qualquer trabalho em Lingüística, antes de entrar no tema propriamente dito, precisa definir a metodologia que vai ser utilizada e delimitar os conceitos que vai empregar, numa rotina que, apesar de indispensável, torna muito desagradável a leitura dos trabalhos acadêmicos feitos com seriedade (eu mesmo perpetrei alguns…).

Ora, como é que podemos, então, basear uma questão de escolha múltipla em conceitos tão movediços? Se bem te entendi, deves ter considerado o final de porém como um dígrafo porque o M, em final de sílaba, é considerado, por alguns, como um simples nasalizador da vogal anterior. Ora, duas letras para representar um só fonema = dígrafo. Fica sabendo, no entanto, que outros consideram esta nasal como uma verdadeira consoante, o que os levaria a recusar, aqui, a hipótese de um dígrafo. Além disso, há autores que postulam, nesses casos, a existência de um ditongo descrescente: bem seria /beyn/; a sílaba final de cantam seria /tãw/; e assim por diante. Todas essas opiniões vêm fundamentadas com argumentos científicos, e o mundo acadêmico convive com essas divergências, naturais em qualquer ciência. O que não se justifica é usar esses pontos de grande controvérsia para elaborar questões alegadamente “objetivas”. Depois as bancas se queixam do grande número de recursos dos candidatos inconformados…

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