transar, obséquio e subsídio

1) Meu caro Mestre Moreno: não é errado transar? Não estou me referindo ao ato em si, mas ao modo com que esta palavra aparece escrita em jornais e revistas. Para mim não resta dúvida: deveria ser tranzar. Aprendi, desde minha alfabetização, já faz muitos anos, que a letra S só tem o som de /z/ quando está entre vogais. Ora, se vejo escrita a palavra transar e escuto na TV falarem /tranzar/, alguma coisa deve estar errada! Será que no ato de tranzarem estão fazendo tranças? Estou parecendo um tanto irônico, mas acho que devemos aprender a escrever corretamente as palavras, sejam elas quais forem… Mesmo que seja um “neologismo”! Concorda? Obrigado! René O. F. — São Paulo

2) Professor, é um prazer ler seus comentários a respeito da nossa língua. Tenho, porém, uma dúvida, mais etimológica que propriamente fonética. Por que o S de obséquio é pronunciado como um /z/?  Obrigada. Gisele Fragoso

3) Prezado Professor, gostaria que esclarecesse a minha dúvida a respeito da pronúncia da palavra subsídio. O S tem som de /z/ ou de /s/?”. Obrigado. Ezequiel P. — Rio de Janeiro

Meus caros amigos: é um princípio geral de nosso sistema ortográfico que o S depois de consoante tenha sempre o som de /s/: observar, subsolo, absoluto, imprensa, denso, lapso. Nessa posição, o S só vai ter o som de /z/ em obséquio (e derivados) e nos vocábulos formados com trans-: transa, transação, transacionar, transalpino, transandino, transamazônico, transatlântico, transoceânico, transe, transeunte, trânsito, transigir, transição, transistor. Notem que isso só não acontece quando o vocábulo originário começa por /s/: transaariano (trans + Saara), transecção, (trans + secção), transecular, (trans + secular), transexual (trans + sexual). 

Por que obséquio e transar se afastam do princípio geral? Podemos descobrir aqui a influência de alguns fatores fonológicos, mas o problema ainda permanece obscuro. Digamos que são idiossincrasias de nosso idioma; cada língua tem as suas manias (o Inglês tem muitas, o Português quase nada — por incrível que possa parecer ao observador leigo). 

Afora esses dois casos, há outros que começam pouco a pouco a despontar, embora ainda sejam repelidos pela fala culta. O primeiro é subsídio. A pronúncia do S em subsolo, subseqüente, subserviente, subsistema aponta para a pronúncia /subcídio/, /subcidiar/. É assim que as gramáticas e os dicionários recomendam, e assim devemos usar na fala cuidada, consciente, de banho tomado e de cabelo penteado. É impossível negar, contudo, que a tendência natural dos falantes é dizer /subzídio/. Eu diria que 95% das pessoas que usam o vocábulo preferem o som de /z/, e isso é muito significativo, não pela força da estatística, mas porque revela a atuação de alguma força concreta e irresistível. Será a mesma que leva os falantes (eu, inclusive) a pronunciar como /z/ o S de subsistência, subsistir, contrariando a lição do próprio Aurélio, que recomenda a pronúncia /subcistência/, /subcistir/? Ou aqui é apenas um caso isolado, que sofre a influência de existência, existir? Não sei dizer, mas mantenho o ouvido atento. Abraço para todos. Prof. Moreno 

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