imbróglio?

Um dia desses, em uma entrevista na TV, ao comentar a confusão legislativa que se criou em torno da desastrada reforma ortográfica com que andam nos ameaçando, eu a chamei de imbroglio (“confusão, maçaroca”), vocábulo que muito aprecio, pronunciando-o à italiana — /imbrólho/. Pois duas horas não eram passadas e eu já recebia, pelo correio eletrônico, uma crítica um tanto impertinente de um cidadão que, pelo jeito, não gostou da minha pronúncia e resolveu pedir satisfações. Entre outras coisas, escreveu o ferrabrás: “Trata-se de uma palavra já aportuguesada, pois no dicionário está imbróglio, sem grifo. Como o senhor deve saber, a listagem das palavras oficialmente existentes em nosso léxico é o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, e ali não há nada que impeça a pronúncia da letra G na palavra imbróglio. Portanto, tenho para mim que tal palavra deve ser pronunciada com o G bem destacado, pois, pelo que sei, falamos Português e não Italiano. Peço a Vossa Senhoria que me dê uma resposta a tal dúvida o mais brevemente possível”. Meus leitores deverão ter notado o tom implicante e descortês da cartinha, cheia de expressões mordazes (“como o senhor deve saber” ou “pelo que sei, falamos Português e não Italiano”), bem como a conclusão áspera, intimativa, que parece mais um desafio para um duelo no Parque da Redenção do que o convite para uma discussão filológica. Qual dos dois ele tinha em mente, não importa; seja um ou seja outro, digamos que ele veio bater na porta certa.

Caro cidadão, sinto dizer-te que não tens razão. Foste ao VOLP da Academia, para examinar a lei —  o que é muito bom e saudável — , mas esqueceste um pequeno mas fundamental detalhe: o “O” da sigla VOLP representa “ortográfico”, como tu mesmo bem escreves no extenso. Vou repetir, com pausa entre os dois elementos: ortográficográfico, porque se refere à maneira como deveríamos escrever as palavras, e não pronunciá-las. Não existe — repito, e bem devagar — não existe nenhuma legislação sobre a maneira de pronunciar as palavras do Português, quanto mais as estrangeiras. Isso não é uma omissão da lei, como pode parecer, mas uma sábia decisão, porque assim se assegura que, neste grande Brasil, todos escrevam da mesma maneira, embora não pronunciem da mesma maneira. Uns dizem /pôça/, outros /póça/; uns dizem /dois/, outros /doix/; uns dizem /medicina/, outros /médicina/ — mas todos escrevem essas palavras da mesma forma. As gramáticas e os dicionários fornecem, no máximo, sugestões quanto à pronúncia, baseadas nas preferências de seus autores, os quais, como seria de esperar, nem sempre estão de acordo.

Vamos ao nosso imbróglio. O raciocínio de que a leitura dos vocábulos aportuguesados segue o nosso sistema ortográfico está corretíssimo; o problema é que este é um daqueles vocábulos mutantes que não sofreram o processo completo, e que aparecem nos dicionários numa grafia híbrida, metade nacional, metade estrangeira. A rigor, deveríamos escrever imbroglio (em Italiano e, portanto, em grifo e sem acento) ou imbrolho (em Português), mas fizeram aqui a clássica cruza de jacaré com cobra d’água e criaram a belezinha do imbróglio. Talvez isso seja corrigido um dia, talvez não o seja — mas não vai afetar em nada a sua pronúncia, que continuará a ser /imbrólho/.

Como deverias saber, o aportuguesamento incide fundamentalmente sobre a grafia do vocábulo estrangeiro, adaptando-a ao sistema vigente do Português, mas procurando conservar a pronúncia original. É por isso que abat-jour entrou aqui como abajur, lasagna entrou como lasanha, mousse como musse. Escrever um vocábulo usando letras que não sustentem a sua pronúncia é, para mim, o melhor sinal de que este vocábulo ainda não passou pelo processo de aportuguesamento. Se escrevemos bacon (/bêicon/), pizza (/pitça/) ou mouse (/mause/), é sinal de que eles ainda são estrangeiros em visita ao nosso idioma, que só vão ganhar a nacionalidade brasileira quando tivermos a coragem de escrever bêicon, pitza ou mause. Friso: o que poderá mudar, no futuro, é a grafia; a pronúncia continuará a mesma, usada, inclusive, pelos analfabetos, que utilizam essas palavras sem ter a menor idéia de como elas se escrevem. A escrita obedece à fala, e não o contrário — essa é a primeira grande lição que recebemos no curso de Letras. Em qualquer idioma, a escrita (sistema restrito aos que passaram por uma escola) é uma tentativa, nem sempre bem-sucedida, de representar os sons da fala (sistema usado por todos nós, desde os dois anos de idade, tenhamos ou não escolaridade). Para mim, que sou professor, é muito fácil entender e desculpar o teu equívoco, nascido de uma crença errônea na supremacia da escrita sobre a pronúncia; difícil, mesmo, é tragar esse teu humor birrento de matungo velho.

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