Categorias
Através dos dicionários Destaque

cuidado com o Novo Houaiss!

Não compre gato por lebre, prezado leitor. A edição do Houaiss que saiu agora há pouco, já adaptada à nova ortografia, é uma VERSÃO REDUZIDA do grande dicionário que aprendemos a admirar.

Se a memória não me trai, a História do Mundo para Crianças, de Monteiro Lobato, reproduz o famoso ladrilho encontrado sob as cinzas de Pompéia que mostra a figurinha de um cachorro acorrentado, encimada pela frase latina “cave canem” — que, em vernáculo, corresponde ao costumeiro aviso de “cuidado com o cão”. É desse mesmo verbo cavere (“tomar cuidado, acautelar-se”), pai do nosso precaver, que vem o substantivo caveat, que nada mais é do que uma advertência, um aviso, uma recomendação de cautela (para os que perderam o seu Latim, lembro que a pronúncia é /cáveat/). Pois esta coluna, meus amigos, é um caveat quanto à nova edição do Houaiss, motivado por uma valiosa (e acabrunhante) descoberta feita por um perspicaz e persistente leitor.

Todos os que acompanham esta coluna sabem que sou um admirador de primeira hora do dicionário de Antônio Houaiss. Assim que foi lançado, publiquei no Caderno de Cultura um extenso artigo de boas vindas, cujo título já anunciava a minha instantânea conversão ao novo credo: “Sai Aurélio, entra Houaiss “. Na ocasião, não hesitei em proclamar: “…terminei virando o Milênio com o Aurélio, e aurelista cheguei até este mês de setembro de 2001. Agora, contudo, troquei: começa a Era do Houaiss“. Hoje, depois de oito anos de convívio diário, tenho certeza de que minha avaliação não estava distorcida pelo deslumbramento da estreia: no momento, este é, sem dúvida alguma, o melhor dicionário da Língua Portuguesa, deste e do outro lado do Atlântico.

Ao entrar em vigor o nosso raquítico Acordo Ortográfico, neste ano da graça de 2009, nem passou pela minha cabeça trocar o exemplar que utilizo por um exemplar atualizado pela nova ortografia. Afinal, como sou do ramo, achei que não valia a pena a considerável despesa de quase meio salário-mínimo para adquirir uma edição concebida às pressas, sem o tempo necessário para que o próprio mundo acadêmico entendesse exatamente quais foram as mudanças introduzidas pela Reforma. Decidido, portanto, a postergar essa compra por mais um ou dois anos, não prestei maior atenção aos anúncios de lançamento do novo produto, imaginando que fosse o mesmo dicionário que possuo, acrescido das (pequenas) alterações na acentuação e no uso do hífen.

O amigo aí pensou o mesmo? Pois então fique sabendo que também caiu na esparrela. Quem levantou esta lebre foi Guilherme Braga, tradutor literário, licenciado em Letras pela nossa UFRGS, que, pensando em adquirir o novo dicionário, teve sua atenção despertada pela considerável diferença no tamanho físico das duas edições. O que ele já tinha, que é igual ao meu, vinha com mais de três mil páginas; o novo, com apenas duas mil. Ora, considerando que o dicionário antigo já é um volume de dimensões avantajadas, no limite da manuseabilidade, não parecia plausível que a editora as tivesse expandido ainda mais para acomodar o mesmo conteúdo em dois terços das páginas originais. Com a pulga atrás da orelha, nosso leitor efetuou um excelente trabalho investigativo. Ele próprio explica: “Anotei o intervalo de palavras constante na primeira página de cada letra do meu antigo Houaiss (a primeira página da letra c, por exemplo, vai de c a caapiá-verdadeiro) e o número de entradas contido neste intervalo – no caso da letra C, 57 entradas. Na edição do novo Houaiss, contei as palavras contidas no mesmo intervalo e elaborei uma tabela indicando a defasagem do novo Houaiss em relação ao antigo”. O resultado confirmou sua suspeita inicial: o “novo” dicionário é uma versão reduzida do anterior, “aliviada” da terça parte do conteúdo! Enquanto o dicionário antigo conta com 228 mil verbetes, o novo vem com míseros 146 mil — ou seja, a redução do conteúdo corresponde exatamente à redução de páginas.

Depois de uma troca de correspondências com a editora Objetiva e com Mauro Villar, atual responsável pelo Instituto Houaiss (o artigo, na íntegra, pode – e deve – ser lido aqui), o enredo ficou esclarecido: apesar de levar o mesmo nome –Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa-, são dois produtos diferentes. O antigo, de 2001, é o verdadeiro; o segundo, de 2009, é um dicionário menor, do tamanho do atual Aurélio. O antigo, que agora passa a ser chamado pela editora Objetiva de Grande Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, terá a ortografia atualizada pelo Acordo em data ainda não prevista. É uma pena que só agora, graças ao Guilherme Braga, sejamos avisados dessa embrulhada, pois muita gente comprou a nova edição pensando estar adquirindo a versão completa. Não posso afirmar que a editora tenha agido com fé –  mas com boa eu tenho certeza que não foi.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.