acriano

O Doutor esclarece: embora ainda seja polêmica a forma correta de grafar certos TOPÔNIMOS, a grafia dos adjetivos gentílicos sempre seguirá, rigorosamente, a norma ortográfica em vigor.

 

1 – Quem mexe em casa de abelha deixa o enxame assanhado, ensinavam os antigos. Não deu outra: na coluna anterior, falamos sobre a forma correta de grafar o nome de Santana do Livramento; foi o que bastou para que um leitor do Acre, atualmente em férias em Porto Alegre, pedisse minha opinião sobre a melhor maneira de escrever o gentílico correspondente àquele estado: acreano ou acriano? Ora, a experiência me ensinou que um dos assuntos mais delicados para quem escreve sobre questões de linguagem é, acreditem, a grafia dos nomes próprios, seja de pessoas, seja de lugares; qualquer discussão neste campo deve ser conduzida com muito tato, já que o nome, muitas vezes, é uma parte extremamente sensível do indivíduo ou da comunidade. Com nomes de gente — os antropônimos é muito fácil evitar animosidades: embora exista uma forma correta de grafá-los, nosso sistema admite, muito sabiamente, o direito de cada um portar seu nome da maneira como recebeu no cartório ou no registro da igreja. Em outras palavras, o nome genérico deve seguir a norma ortográfica; o nome individual, no entanto, é livre para seguir a tradição da família, a fantasia dos pais ou os princípios da numerologia. Quando minha filha escreve para dar notícias e comenta que na sua sala de aula existem um Tomás e uma Teresa, vai usar a forma genérica sem precisar perguntar se o garoto assina Thomaz, Tomaz ou Thomás, e a garota, Thereza, Tereza ou Theresa. Desta forma, todos ficam em paz.

Os nomes geográficos, contudo, seguem necessariamente uma lógica diferente. Por sua própria natureza pública, não podem ter esse caráter subjetivo dos nomes pessoais e precisam se adequar à norma ortográfica que estiver em vigência. Como vimos, o Acordo de 1943 alterou a grafia de centenas de nomes tradicionais: Triumpho passou a Triunfo, Trammandahy a Tramandaí, Manáos a Manaus, Iguassu a Iguaçu, e assim por diante. Joia, no Rio Grande do Sul, tinha acento até entrar em vigor o atual Acordo, que suprimiu o acento dos ditongos abertos nos vocábulos paroxítonos. É assim que funciona, e o registro de fundação do município, diferentemente do registro das pessoas físicas, não dá aos munícipes o direito de manter para sempre a grafia original. Se, no futuro, nova reforma vier a ocorrer, esses nomes sofrerão todas as modificações necessárias para se adequar à nova lei. É claro que as gerações contemporâneas às mudanças sofrem um verdadeiro choque estético diante do que lhes parece uma mutilação (é o que sinto, por exemplo, cada vez que tenho de escrever Troia em vez de Tróia) mas isso passa, assim como nós também, que estamos apenas de passagem por este mundo risonho.

Nem todos, no entanto, aceitam pacificamente essas alterações; indignados, rebelam-se, escrevem a seus parlamentares, fazem abaixo-assinados e promovem jantares de protesto no salão paroquial. Um observador estrangeiro diria que insurgir-se contra uma regra ortográfica é coisa de maluco mas nós, brasileiros, conhecendo muito bem a espantosa elasticidade das leis, sabemos que nem sempre as coisas são como deveriam ser. Pois não existe um exemplo clássico no Acordo de 1943? Como todos sabem, a partir daquela data o H foi eliminado do interior de todos os vocábulos de nosso idioma, sendo mantido apenas nos dígrafos CH, LH e NH. Com essa determinação, nihilismo passou a niilismo, exhausto passou a exausto, rehaver a reaver. No entanto, num exemplo típico do nosso tradicional “carteiraço”, o relator cedeu diante da pressão de seus conterrâneos e inseriu uma clausulazinha salvadora que estabelecia que os “topônimos de tradição secular” ficariam a salvo do novo regulamento; o exemplo que dá, “casualmente”, é o nome de seu estado: a Bahia.

Abria-se, desta forma, uma exceção que até hoje permite que certos municípios mantenham acesa a discussão sobre a grafia de seu nome, alegando enquadrar-se também nesse vaguíssimo critério de “tradição secular”. Embora a idéia me pareça absurda, reconheço que, diante do precedente, eles têm todo o direito de espernear. Não é disso, porém, que estamos tratando aqui, e sim dos vocábulos derivados dos topônimos, especialmente da classe dos adjetivos gentílicos. Estes seguem, na sua formação e na sua grafia, os mecanismos gerais do idioma; são palavras comuns, civis, que vão ser tratadas como todas as suas iguais. Bahia é um vocábulo de exceção, mas como define expressamente o Acordo os seus derivados não têm o mesmo privilégio e não podem ostentar aquele H aristocrático: baiano, baianidade, coco-da-baía, laranja-baía. (continua)

[Publicado no jornal Zero Hora – Coluna O PRAZER DAS PALAVRAS – 10/09/2010]

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2 – Além de receber merecidas críticas da maior parte dos especialistas, o novo Vocabulário Ortográfico (o famigerado VOLP), que veio à luz em 2009, provocou também a indignação de todos  os brasileiros que moram no Acre ao registrar apenas o gentílico acriano. A Assembléia e a Academia de Letras daquele estado se uniram à frente de um movimento cívico que reivindica o direito de usar a grafia acreano, alegando ser esta a forma que sempre se usou desde o início do século 20, quando se consolidou, de uma vez por todas, a identidade regional. Segundo os líderes deste curioso movimento, “um gentílico não se muda por força de Acordo, Decreto ou Lei”, e a legitimidade da forma acreano pode ser atestada em dezenas de “registros em cartório, documentos oficiais, livros, artigos científicos, contos populares, folclore, com uso consagrado por mais de um século de lutas e conquistas heroicas”.

A um amigo que pediu minha opinião sobre o debate, só pude responder que o primeiro dos argumentos acima está errado e que o segundo nada tem a ver com a questão. Primeiro, uma reforma ortográfica modifica, sim, a grafia dos adjetivos gentílicos, como pode modificar a grafia dos verbos, dos substantivos ou de qualquer outra classe gramatical. Segundo, o critério de antiguidade e tradição não pode ser alegado neste caso, pois ele só é levado em consideração quando se discute a manutenção da grafia antiga do topônimo (como o exemplo de Bahia, que examinamos na coluna anterior), e não do adjetivo derivado dele (que é baiano, e não *bahiano). É decisão antiga que as palavras derivadas desses nomes de lugar sigam eles a regra ou gozem de alguma “licença” para manter a grafia tradicionai sejam construídas pelos mecanismos comuns que atuam em nosso idioma.

Ora, a representação gráfica dos adjetivos formados com o sufixo “-ano” ou suas variantes sempre nos causou uma certa dor de cabeça. Basta examinar uma lista de palavras com este sufixo para perceber o quanto o quadro parece confuso: ao lado de formas simples em “-ano” (curitibano), encontramos vocábulos em “-eano” (coreano) e em “-iano” (açoriano). Em benefício dos leitores que não são iniciados nos arcanos da Lingüística, vou passar ao largo das questões teóricas de Morfologia e de Fonologia envolvidas nessas derivações e tratar de estabelecer uma distinção prática para o emprego de “-iano” e “-eano”, seguindo o padrão definido (e mantido) desde 1943.

Comparando-se a desproporcional ocorrência das duas formas, podemos dizer numa linguagem amigável, de sala de visita que “-iano” seria a forma normal, e “-eano”, a forma excepcional. O princípio é muito simples: usamos sempre “-iano”, a não ser nos raros casos em que temos de usar “-eano”. E que casos são esses? Somente aqueles em que o radical do vocábulo primitivo apresenta um “E” final (friso: falamos aqui do radical, não da vogal temática): Taubaté, taubateano; Galileu, galileano. Uma pesquisa nos dicionários de sempre colheu, além desses dois, uma lista assaz reduzida de exemplos: bruneano (Brunei), coreano (Coréia), daomeano (Daomé), gouveano (Gouveia), guaxupeano (Guaxupé), guineano (Guiné), lineano (Lineu), mallarmeano (Mallarmé), montevideano (Montevidéu), nazareano (Nazaré), poconeano (Poconé) pompeano (Pompeia), tieteano (Tietê), traqueano (traqueia), varzeano (várzea) e vaqueano (este, por empréstimo do Espanhol). Todos os demais vão apresentar a forma “-iano”, que se acrescenta ao radical depois da queda da vogal temática “E”: açoriano (Açores), iraquiano (Iraque), bocagiano (Bocage), baudelairiano (Baudelaire), borgiano (Borges), goethiano (Goethe), nietzschiano (Nietzsche), sartriano (Sartre), shakespeariano (Shakespeare), booliano (Boole). O teatro de Nelson Rodrigues é rodriguiano; a lírica de Chico Buarque é buarquiana; o estilo de Euclides da Cunha é euclidiano; quem nasce no Acre, portanto, é acriano.

É verdade que o próprio dicionário da Academia de 1943 registrou acreano, numa evidente contradição com os princípios que defendia. Celso Luft chamava isso de “erro ginasiano” de seus elaboradores; Aurélio, mais diplomático, dizia que era uma variante “menos boa”. Na edição de 1981, o VOLP registrava acreano, mas já indicava sua preferência por acriano; o VOLP atual, no entanto, só registra esta última, coerentemente, introduzindo a correção que deveria ter sido feita há mais de cinquenta anos. Eu fico com esta, já que defendo, por princípio, tudo que colabore na  padronização da grafia. Conheço muito bem a relutância que todos nós temos em abandonar nossos hábitos de escrita, mas gostaria de lembrar a meus amigos acrianos que, orgulhos regionais à parte, seu movimento de resistência vai servir apenas para perturbar o nosso sistema ortográfico, que deveria ser homogêneo em todo o território nacional.

[Publicado no jornal Zero Hora – Coluna O PRAZER DAS PALAVRAS – 24/09/2010]

Após o Acordo:

  • idéia>ideia
  • Assembléia>Assembleia
  • Lingüística>Linguística

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