arma branca

EDU - ARMA BRANCA

O punhal, a adaga, a espada, a lança, o escudo e a armadura fazem parte do conjunto que se convencionou denominar de “armas brancas”. O que têm eles em comum para merecer este nome?

Num jantar, no meio de uma discussão sobre o desarmamento, querem saber por que falamos em armas brancas (as quais, aliás, matam muito mais gente do que as armas de fogo, no Brasil) . Existiria arma preta? Na hora eu não soube responder; agora, depois de várias visitas ao amansa, posso dar meu palpite: a expressão nasceu com a evolução que a palavra arma sofreu desde a Antiguidade. Até a Idade Média, o vocábulo, além das armas propriamente ditas, incluía também a couraça, o escudo, as perneiras, o capacete e tudo o mais; quando se lê em Homero que Hefesto fez novas armas para Aquiles, imagine-se o pacote completo. A vulgarização do uso da pólvora, contudo, terminou colocando em desuso as armaduras e os escudos, e a palavra arma passou a ser entendida de forma mais restritiva, designando os artefatos que ferem ou matam a pessoa ou o animal atingido.

A partir do séc. XVIII, com o desenvolvimento da pistola, do arcabuz e do canhão, o conceito arma ganhou duas subespécies: as armas de fogo, que usam a energia da pólvora, e as armas brancas, geralmente dotadas de lâmina, que dependem da força e do braço humano. Bem nessa época, o dicionário de Bluteau (é de 1720) distingue as armas de fogo das armas brancas, chamadas assim, diz ele,  “porque eram de aço branqueado ou prateado” (é útil lembrar que branco vem do Germano blanck, “reluzente, polido, branco”, o que combina perfeitamente com a aparência do aço).

A expressão arma branca, portanto, nada mais é do que um dos primeiros exemplos de retronímia (ou retroformação, como querem alguns), processo hoje comuníssimo, típico deste século vertiginoso em que vivemos. Leite era leite, não importando de que mamífero viesse. Usávamos a mesma palavra tanto para falar nos banhos de leite de Cleópatra quanto nos rios de leite e mel que nos aguardavam na Terra Prometida. A sociedade industrial, no entanto, sempre generosa na hora de fornecer corda para o consumidor se amarrar mais um pouquinho, passou a oferecer o leite desnatado – e o vocábulo leite, sozinho, deixou de ser suficiente para designar aquilo que o bezerro mama, tendo de receber o auxílio do adjetivo integral. É o mesmo caso de “música ao vivo“: antes de inventarem os sistemas de gravação e reprodução de som, hoje tão banais, um restaurante que animasse o seu jantar com uma orquestra ou um trio instrumental jamais cogitaria em mencionar “ao vivo”, pois a música era feita por músicos de carne e osso, e ponto.

É assim que funciona: o surgimento de uma novidade deflagra a necessidade de rebatizar o termo antigo, genérico, acrescentando-lhe um especificador. Não raro o elemento novo termina “roubando” o termo para si, ficando o elemento antigo reduzido a uma simples subespécie. Por exemplo, se alguém contar aos netos que costumava cheirar uma fraldinha antes de dormir, é bom que acrescente “de pano”, pois fralda, hoje, designa o que inicialmente era chamado de fralda descartável ― algo que, como diria a Emília do Monteiro Lobato, é francamente “incheirável”. Era isso.

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