lava-a-jato

Na coluna anterior, mencionei en passant a operação Lava-a-Jato — escrita assim mesmo, com tudo aquilo a que tem direito — o hifenzinho e a preposição A. Sempre atenta, a nossa Maria Rita Horn, anjo da guarda da redação, achou prudente me avisar que a imprensa, embora divirja aqui e ali quanto ao emprego do hífen, vem adotando unanimemente a forma sem a preposição. Como é um texto que leva a minha assinatura, deixamos assim como estava, mas prometi explicar os motivos da minha opção por uma grafia que comete a imprudência de contrariar os hábitos de nossa mídia.

Aliás, começo com uma ressalva: não tenho pretensões a ditar moda para a imprensa. Muitas vezes as escolhas linguísticas que os jornalistas fazem serão diferentes das minhas, e vice-versa — até porque, para eles, a linguagem é um instrumento, enquanto, para mim, ela é o próprio assunto. Como em lava-a-jato o “A” átono da preposição desaparece obrigatoriamente na pronúncia (um pequeno exercício de imaginação: se o verbo estivesse, por exemplo, na primeira pessoa, a preposição seria perfeitamente audível: lavo a jato), o vocábulo foi “reformado” na escrita para uma forma mais simples: lava-jato (falarei sobre o hífen daqui a pouco). Pronto! Essa lipoaspiração deixou tudo mais prático, mais leve, mais rápido; até concordo com isso, mas não posso deixar de apontar, caros leitores, que foi uma alteração bizarra, que desconsidera alguns princípios importantes da morfologia de nosso idioma.

O nome, segundo a própria Polícia Federal, surgiu da união do objetivo principal da operação (investigar a lavagem de dinheiro e desvio de verbas públicas) com o primeiro alvo investigado, uma casa de câmbio suspeita que pertencia ao proprietário do Posto da Torre. Lavagem de dinheiro, lavagem de carros — lava-a-jato (friso que esse oportuníssimo batismo nada teve a ver com Breaking Bad, a série de TV cujo protagonista abre uma lavagem de carros para justificar o dinheiro movimentado com a droga; a operação começou em 2004, a série é de 2008).

Se desconstruirmos (ô, verbozinho mequetrefe!) uma série de vocábulos como lava louça, lava carros, lava roupa, lava pratos, lava pés, vamos encontrar uma das estruturas mais frequentes na formação de nossos compostos: um verbo acompanhado de seu objeto direto (como em guarda roupa, tira teima, porta bandeira, etc.). Neste caso, o verbo lavar é seguido pelo nome daquilo que vai ser lavado. Já em lava a frio, lava a quente, lava a seco, lava a mão, o verbo é seguido por um adjunto adverbialcomo é que se lava. É evidente que lava a jato − lavagem usando o jato com alta pressão de água − pertence ao segundo tipo.

Os leitores atentos terão percebido que não empreguei hífen algum no parágrafo anterior; eu pretendo, desta forma, ressaltar o papel importantíssimo que este sinal tem na distinção (nem sempre possível) entre o que é uma locução (um arranjo casual de vocábulos independentes) de um substantivo composto. Grosso modo, podemos afirmar que sempre teremos hífen quando ocorrer a substantivação. “O bebê aumentava de peso dia a dia“; “o filme mostra o dia-a-dia de uma aldeia gaulesa”. “Aquele posto lava carros; ele adquiriu um potente lava-carros“. “Explicou o projeto passo a passo“; “o jornal traz um passo-a-passo para renovar o passaporte”.

Chegamos assim ao meu ponto: “como ele limpa a garagem? Ele lava a jato” (frase aliás ambígua, porque tanto pode se referir ao modo de lavar quanto à rapidez com que ele lava) é diferente de “vou usar meu lava-a-jato para tirar o limo do telhado” ou “vou passar no lava-a-jato para pegar meu carro”. Aí está: lava-a-jato. Os que quiserem me acompanhar, mas hesitam em usar o hífen por causa da confusa interpretação de um artigo do Acordo Ortográfico, que levou muita gente boa a eliminá-lo dos compostos com preposição, sigam ao menos o exemplo do Aulete, um excelente dicionário on-line, que registra lava a jato. Os que quiserem…

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