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Acentuação Como se escreve Destaque Formação de palavras

sequência de advérbios em -mente

Professor Moreno, sempre tive dúvida em relação à acentuação dos advérbios de modo usados em conjunto. Explico melhor: rapidamente não leva acento, certo? Entretanto, se eu disser “Ele se afastou rapida e silenciosamente“, devo acentuar rápida? Ou considerá-lo como uma espécie de abreviação do advérbio e deixá-lo sem acentuação?

H. Shimura, 17 anos — Guarulhos (SP)

Meu caro Shimura, essa propriedade que os advérbios de modo têm de “fatoração” revelam a sua verdadeira natureza de vocábulos compostos: todos eles são formados da combinação de um adjetivo com o “sufixo” mente (o qual, na verdade, é o nosso velho substantivo mente, o mesmo que aparece em “o poder da mente”, “mente sã em corpo são”).  É por isso que ocorre aquela concordância obrigatória do adjetivo primitivo com o substantivo feminino: duro, dura+mente; pesado, pesada+mente; etc.

Quando, portanto, enumeramos uma série de advérbios desse tipo, acrescentamos  “mente” (que, repito, é historicamente um substantivo) apenas ao último adjetivo da série: “rápida, instantânea e silenciosamente” — o que deixa os dois primeiros intactos, sujeitos às regras de acentuação habituais. Abraço. Prof. Moreno

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Bom dia, bom-dia

Caro Professor, em uma mensagem eletrônica ou em uma carta, o cumprimento “bom diapode ser escrito sem hífen? Lucia — Curitiba

Em qualquer circunstância, Lucia — carta, bilhete, e-mail, etc. —  a saudação vai ser escrita sem hífen: “Bom dia!”. Quando for um substantivo, no entanto, deve ser hifenizado: “Deu um bom-dia sem graça e foi sentar em seu lugar”. Neste caso, tem até plural: “Já estava cansada daqueles bons-dias cheios de segundas intenções”. Pois nada disso muda, com o Acordo; as novas regras de hífen dizem respeito a formação com prefixos — o que não é o caso. Abraço.  Prof. Moreno

Mas caro Professor, de acordo com o VOLP, saudação protocolar é vocábulo grafado com hífen. O Houaiss ratifica tal ponto de vista. Assim, ao iniciar o dia, o bom-dia é um cumprimento, pois não? O Acordo de 1990 não aborda a questão. E aí?

Lucia — Curitiba

Minha cara Lúcia, nota que o Houaiss registra apenas o substantivo masculino (com hífen, aliás, como já te disse na mensagem anterior). Deves perceber que isso nada tem a ver com “Bom dia!”, aquele segmento de frase que dizemos quando encontramos alguém, ou dele nos despedimos. É uma locução, o que significa que já pertence ao mundo da sintaxe — e isso a deixa fora do âmbito do hífen, que fica restrito ao interior de um vocábulo composto. “Bom dia!” é da mesma tribo de “Boas festas!”, “Bons ventos!”, “Bom Carnaval!”, “Boa viagem”,”Bom almoço!”, “Boa hora” (que se diz para as gestantes), e assim por diante. Um exemplo que deixa bem clara esta diferença é “boa tarde”. Compara a concordância de gênero em “Tenha uma boa tarde” (locução) com “Deixo aos ouvintes o meu boa-tarde” (substantivo composto). Abraço. Prof. Moreno

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Acordo ortográfico Artigos Destaque Outros sinais

Não compre o novo VOLP! 3ª parte

[publicado em 19/06/2009]

Neste artigo, como nos dois primeiros, o tema não é o novo Acordo, do qual sou crítico declarado e inimigo irredutível, mas o Vocabulário Ortográfico que nossa Academia deu à luz, em parto desastrado e prematuro. Isso significa que não vou avaliar aqui as mudanças propostas pela última Reforma, sobre (e contra) as quais já escrevi tantas vezes, mas sim apontar ao meu prezado leitor o equívoco que a comissão brasileira cometeu ao tentar interpretá-las, comprometendo irremediavelmente esta quinta edição do VOLP e condenando-a ao depósito de papel velho. É o que pretendo demonstrar.

Quando o Diário Oficial da União publicou o texto do Acordo, percebeu-se que ele continha várias regras conflitantes ou redigidas de maneira confusa. E olhe, caro leitor, que não se trata da opinião pessoal de um adversário birrento como eu; esta foi a mesma impressão que tiveram todos os que se dispuseram a enfrentar aquele estilo pedestre, fossem eles do contra, fossem a favor. Todos nós — os bons e os maus, os crédulos e os descrentes — recolhemos as armas e ficamos na expectativa do vocabulário que a ABL deveria editar. Os acordistas tranquilizavam os aflitos (e a si mesmos) anunciando que todas as dúvidas e perplexidades que porventura restassem deixariam de existir no momento em que ele fosse publicado; os não-acordistas (com hífen, porque é assim que devem escrever aqueles que conhecem o idioma) esperavam, céticos, o parto da montanha, curiosos apenas em saber em que medida o VOLP reduziria o dano anunciado.

Diante desta disputa, um daqueles camponeses proverbiais, montado em seu burrico, teria sentenciado, abanando a cabeça: “De mau ovo, mau corvo”. E dito e feito: o VOLP veio decepcionar todo o mundo, pois a nossa comissão, em vez de trazer o bálsamo prometido, só veio aumentar a ardência da ferida, extrapolando sua competência ao tomar decisões que iam além e mesmo contra o que estava disposto. O caso de co-herdeiro foi típico. Em todo o Acordo perpassa a ideia de preservar sempre o H inicial do segundo elemento dos compostos (anti-higiênico, super-homem, neo-helênico, geo-história), o que representa um bem-vindo aperfeiçoamento do sistema de 1943, que não usaria hífen nos dois últimos exemplos acima. Nossa ortografia sempre manteve o H inicial de hora, hábito ou histérico — da mesma maneira que o Francês, o Inglês ou o Espanhol — para deixar visível o DNA desses vocábulos, inserindo-os na tradição greco-romana do Ocidente. Fiel a este espírito, a Reforma determinou que ele também seja conservado no interior dos vocábulos compostos, o que é decididamente um progresso; nossa ABL entendeu tão bem o princípio que o estendeu a um prefixo importante como sub-, transformando os antigos (e absurdos) subumano, subepático e subabitação, por exemplo, nos simpáticos sub-humano, sub-hepático e sub-habitação, com uma construção muito mais transparente para o usuário. Ora, depois de acertar tão bem no prego, essa mesma comissão, por razões insondáveis, resolveu dar uma martelada na tábua e transformou co-herdeiro (que continuamos a escrever assim, seja pelo modelo tradicional, seja pelo princípio atual) num esquisitíssimo *coerdeiro (está assim no VOLP), que desfigura totalmente o segundo elemento. Não importa se foi um cochilo ou se foi uma decisão deliberada, mas é um erro que precisa ser corrigido; escrito assim, o vocábulo contraria o princípio geral e, o que é mais espantoso, vai expressamente contra o texto do Acordo, que usa este vocábulo como exemplo, grafando-o, como era de esperar,  com hífen e com H.

Não é por um detalhe como esse, no entanto, que vamos condenar esta quinta edição. É natural que numa lista de centenas de milhares de itens existam dezenas de pequenos equívocos a corrigir (ainda mais se considerarmos a pressa com que foi feita e a duvidosa qualificação da equipe que a elaborou). Sempre foi assim, com as edições anteriores; mesmo o venerável e consistente vocabulário de 1943, enquanto vigeu, teve várias imperfeições e incoerências apontadas pelos especialistas. O que inutiliza o presente vocabulário, no entanto, é um equívoco teórico de base, que levou a comissão a grafar erradamente várias centenas de vocábulos, escrevendo sem hífen, por princípio, todos os compostos de mais de dois elementos. Num absurdo linguístico, como vou demonstrar na próxima coluna, defendem a retirada do hífen em vocábulos como fora-da-lei, pé-de-moleque, tomara-que-caia, dois-de-paus! É de estarrecer! Assim como está, o VOLP, como se diz, é “impróprio para o consumo”, tão funesto quanto o medicamento vencido ou a merenda estragada; espero sinceramente que já não esteja em curso alguma gigantesca operação para fornecê-lo a todas as escolas “desse” país. A ver.

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Acentuação Como se escreve Destaque

Mário Quintana – com acento

Foi só entrarmos no ano do centenário do Quintana e comecei a receber consultas sobre a maneira mais adequada de grafar seu prenome: devemos escrever Mario, como ele sempre assinou, ou Mário, acentuado, como manda a regra? Eu não hesito em escolher a segunda hipótese: é Mário, rimando fônica e graficamente com o inseparável armário. Sei que muitos defendem exatamente o oposto, baseados principalmente na idéia, ainda muito difundida, de que o nome próprio não está submetido às mesmas regras de uma palavra comum, mas obedece a simples preferências individuais. Na sua grafia, como no jogo do bicho, valeria o que está escrito — seja no registro do cartório, na certidão de batismo ou na própria assinatura do indivíduo. Desculpem, mas nas linhas que seguem eu vou explicar que não é bem assim que a coisa funciona.

Em primeiro lugar, lembro que a norma ortográfica estabelecida pelos sucessivos Acordos Ortográficos sempre valeram para todos os vocábulos de nosso idioma, sejam próprios ou comuns. Os meus leitores mais experientes (leia-se “mais velhos do que eu”) devem lembrar a alteração que houve na grafia de muitos topônimos tradicionais: Triumpho virou Triunfo; Trammandahy virou Tramandaí; a nossa Porto Alegre, coitada, virou Pôrto Alegre, até que, em 1971, com a queda do acento circunflexo diferencial, voltou a ser a Porto Alegre de hoje — e não teve coré-coré. Pois fiquem sabendo que o mesmo aconteceu com os antropônimos: passamos a escrever Inácio, Luís, Teresa, Juçara, Paraguaçu, Manuel, Cláudio e Susana. E os que não foram assim registrados? O que aconteceu com o Ignacio, o Luiz, a Tereza, a Jussara, o Manoel, o Claudio e a Suzana? Por que não tiveram de mudar o seu nome, assim como ocorreu com os nomes geográficos?

A resposta é óbvia: porque nome de pessoa não é algo que possa ser alterado assim, à moda galega. Meu nome faz parte de mim, e é natural que eu seja muito sensível quanto à sua realidade física, seja no som, seja na grafia. Espero que os outros o pronunciem como sempre fizeram meus parentes e amigos; quando alguém muda sua pronúncia, trocando o timbre de uma vogal ou alterando a posição da sílaba tônica, sinto-me no direito de corrigi-lo, mostrando-lhe como devo ser tratado. Na escrita, o conjunto de sinais usados para escrever meu nome torna-se uma espécie de grafismo com o qual me identifico e no qual eu me reconheço; desrespeitá-lo representa, no fundo, desrespeitar minha própria pessoa. Não é por acaso que todo cidadão tem, assegurado por lei, o direito de portar o seu nome na grafia em que foi registrado, se quiser. Quem é Ignacio Baptista de Assumpção pode continuar a sê-lo (apesar da inevitável trabalheira que vai ter para explicar, nos infinitos guichês e repartições desta vida, que não se chama Inácio Batista de Assunção). Os Thiagos têm todo o direito a conservar o “th” do seu nomee não faz diferença se nasceram antes da vigência do Acordo de 1943, ou se nasceram na semana passada e foram assim batizados porque este era o nome do avô, ou simplesmente porque os pais acharam que, com esse agazinho, o nome ficava com mais estilo. O direito é o mesmo.

Tudo isso perde o sentido, no entanto, quando um autor deixa este mundo ingrato e passa a integrar a reduzida galeria dos personagens imortais de nossa história cultural. Em pouquíssimo tempo a manutenção da grafia original de seu nome passa a ser impossível e contraproducente, pois as gerações que se sucedem, no seu infindável cortejo, não têm como guardar na memória esses usos peculiares de letras e de acentos, resquícios de antigos sistemas ortográficos que desapareceram. Aqui deverá prevalecer sempre a forma atual: Luís de Camões (e não *Luiz); Eça de Queirós (e não *Queiroz); Casimiro de Abreu (e não *Casemiro); Rui Barbosa (e não *Ruy); Euclides da Cunha (e não *Euclydes). Mário Quintana tinha o prenome inacentuado porque esse era o uso de seu tempo; hoje, contudo (na verdade, desde o Acordo de 1943), ganhou o seu acentinho agudo. As pessoas mais próximas de Quintana certamente vão estranhar a nova forma; talvez até se recusem a empregá-la, pois vão senti-la como um traço falso na lembrança que conservam do poeta. É uma reação compreensível e deve ser respeitada — mas o sistema lingüístico, na sua pressão inexorável pela padronização, já encerrou a questão há muito tempo. Hoje não importa mais saber de que maneira Mário de Sá Carneiro, Mário Palmério, Mário de Andrade ou Mário Quintana assinavam seus nomes, porque agora todos eles são Mários.

 

Depois do Acordo:

idéia > ideia

lingüístico > linguístico

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Destaque Etimologia e curiosidades Faits divers

AOS NOVOS E ANTIGOS LEITORES:

Bem-vindos todos à casa nova do Sua Língua; ele deixa o antigo lar em que nasceu há nove anos para ocupar esta nova vivenda no clicRBS, mais clara, mais luminosa, mais organizada, construída com todos os requintes da moderna tecnologia. Os que me visitam vão perceber que só o ambiente mudou, pois o espírito é o mesmo, o interesse pela Língua Portuguesa é o mesmo, a seriedade é a mesma – e o Doutor continua como sempre foi: paciente com os que precisam de uma explicação, agradecido aos que colaboram, respeitoso com os que fazem críticas bem-educadas, mas implacável com os presunçosos, os malcriados e os insolentes.

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Como se escreve Destaque Emprego das letras

talibã, talebã, taliban ou taleban

O recentíssimo carro-bomba encontrado na Times Square e o vídeo que apareceu na internet com declarações dos possíveis responsáveis trouxeram de novo à baila um problema que tinha ficado esquecido: como se deve escrever o nome do grupo islâmico que reivindica a paternidade do diabólico engenho? A grafia correta seria talibã, talebã, taliban ou taleban? A dúvida se justifica: quem acompanha os últimos acontecimentos encontra todas essas formas empregadas nos jornais, nas revistas e nos sítios de notícias mais importantes, numa dança enlouquecida de grafias alternativas. Dois leitores já escreveram, querendo saber — assim, pão, pão; queijo, queijo qual é o correto. Para quem só quer a respostinha seca, já vou dizendo: escrevo talibã, talibãs. Para quem não se contenta com isso, vou apresentar minhas razões.

Em primeiro lugar, preciso lembrar que em nomes como esse não existe a forma correta, mas sim a mais recomendável. Isso acontece, aliás, com todos os nomes provenientes de línguas que não usam o alfabeto romano (o que aparece no teclado de nosso computador) e que precisam, portanto, ser transliterados, o que vem a ser bem diferente de traduzido. Ao traduzirmos, vamos buscar no estoque da nossa língua uma palavra que tenha um significado equivalente à palavra estrangeira. Ao fazermos a transliteração de um nome, por outro lado, tentamos reproduzir o som que ele tem na sua língua original usando o nosso próprio alfabeto o que sempre vai produzir, é lógico um resultado meramente aproximado, pois tentamos representar fonemas que nossa língua desconhece usando um sistema gráfico elaborado para dar conta da fonologia do Português. Lembro as diferentes propostas de transliteração para Kruschev (ou Khruschev, ou Khruschov, ou Kruchev, etc.), ou para o falecido camarada Mao, que eu cresci chamando de Tse Tung, e hoje aparece como Dze Dong (ou coisa assim). Quem já leu diferentes edições de Dostoiévski (ou Dostoievsky?) está acostumado a mudanças na grafia dos nomes dos personagens.

A forma talibã também é uma transliteração e, portanto, também aproximativa; de todas as outras, contudo, é a que está mais de acordo com a tradição e a que melhor se enquadra em nossos padrões fonológicos:

(1) Por que “I“e não “E” na segunda sílaba? Embora na pronúncia local, dependendo da região, registre-se um som intermediário entre o /i/ e o /e/, nas línguas ocidentais mais importantes vem prevalecendo, como no Português, a forma grafada com “I“, e não com “E“: para o Inglês, é the Taliban; para o Francês, le taliban; para o Espanhol, nosso irmão mais próximo, el talibán.

(2) Por que o final em ? Há muitos nomes asiáticos terminados em /a/ seguido de consoante nasal. Enquanto o Inglês registra tudo como –an (Afghanistan, Pakistan, Jordan; Iran, Teheran, Oman, Ramadan), nós aportuguesamos essa terminação de duas maneiras diferentes: ora como –ão (Afeganistão, Paquistão, Jordão), ora (o que é mais frequente) como (Irã, Teerã, Omã, Ramadã). Como Said Ali muito bem observa em seu Dificuldades da Língua Portuguesa, contudo, os terminados em –ão são casos excepcionais, diante da esmagadora preferência pelo final –ã. Por isso, entre talibão (nossa!) e talibã, a escolha é óbvia. O que nós não temos é o final –an, como o Inglês; é impossível, portanto, em nosso sistema, uma forma como *taliban.

Outro problema que ainda não apareceu por aqui, mas que já vou matando, já que estou com o porrete no ar, é o do plural. Acontece que, no dialeto persa falado pelos talibãs, o vocábulo é uma variante plural do vocábulo árabe talib, que significa “estudante; aquele que procura o conhecimento”; na verdade, “estudante da teologia islâmica” – o que espelha historicamente a origem do movimento, cujos líderes são filhos diretos das movimentações estudantis dos anos 60 (leia-se “anos sessenta”; há por aí os que defendem o indefensável “*anos sessentas”. Credo!). Por esse motivo, a maior parte da imprensa européia usa o vocábulo como se já fosse um plural (“the Taliban are“; “les taliban“; “los talibán“. Julgo, entretanto, que imitar essa prática no Português seria criar uma injustificável exceção ao paradigma (imaginem “os talibã“!) e ignorar a extraordinária capacidade que nosso idioma tem de deglutir os vocábulos estrangeiros e nacionalizá-los fonológica, ortográfica e morfologicamente. Já escrevi várias vezes sobre isso: para entrar no Português, o vocábulo estrangeiro tem de aprender a dançar miudinho, tratando de comportar-se como seus colegas nativos. Um talismã, dois talismãs; um talibã, dois talibãs.