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Car@s amig@s

Apesar de toda a sua genialidade, o velho e bom Machado de Assis não previu, entre as várias espécies de loucura que Simão Bacamarte catalogou, a sanha que leva alguns indivíduos a propor reformas na sua língua materna — exatamente aquela que, como diria Cervantes, ele bebeu junto com o leite da mãe. Alguns, talvez entrevendo o tamanho sacrilégio que vão cometer, limitam-se a propor sistemas ortográficos próprios, delirantes, feitos em casa, que ganham os seus quinze minutos de fama na imprensa e terminam melancolicamente na barraca de aberrações do circo gramatical (não é por acaso que a totalidade dessas propostas absurdas — todas elas autoproclamadas “salvadoras” ou “simplificadoras” — venha da pena de autodidatas, que não tiveram em suas vidas um mestre que os ensinasse a evitar tanto desperdício de inteligência e criatividade).

Pois o último grito nesta nau dos insensatos é uma proposta que vai ainda mais fundo que a simples troca de letras: como o leitor pode ver no título desta coluna, trata-se da recomendação de “corrigir” também o sistema morfológico do Português, a fim de “limitar ou eliminar a hegemonia masculina” e “tornar o Português mais próximo do igualitário”, como apregoa, de boca cheia, um de seus arautos. Ora, como se aprende nos primeiros meses de qualquer curso de Letras que mereça esse nome, a tal “hegemonia masculina” não existe; usamos o gênero masculino para designar grupos mistos (o brasileiro é feliz — eles e elas) porque, como demonstrei na coluna anterior, ele é inclusivo, ao contrário do feminino, que exclui (a brasileira é feliz — apenas elas).

Infelizmente, explicar isso a esses malucos é tão inútil quanto pregar aos peixes, pois eles são surdos aos ditames da Ciência. Friso que um adepto dessa seita, horrorizado, jamais escreveria assim, mas optaria entre a arroba ou o “x” para substituir a terminação “o” ou “a” — “el@s são surd@s” ou “elxs são surdxs” — e o pior é que sairia com passo firme, orgulhoso, acreditando ter posto mais uma pedrinha na ereção (epa!) da pirâmide da igualdade dos gêneros. Para quem não se deu conta, esta proposta estapafúrdia (felizmente limitada a alguns ambientes universitários inexpressivos) é uma tentativa de melhorar aquela moda esquisita de sempre mencionar, lado a lado, os dois gêneros, que andou em voga há poucos anos, lembram? O que é uma cortesia perfeitamente aceitável em “senhoras e senhores” fica insuportável em “Quando os professores e as professoras entrarem no recinto, o coro dos alunos e das alunas vai saudá-los (las) com uma polca caprichada”. Melhor seria escrever “quando xs professorxs entrarem no recinto, o coro dxs alunxs vai saudá-lxs com uma polca caprichada”? Convenhamos que a nova alternativa é uma emenda muitíssimo pior que o soneto, e que nada se compara a “quando os professores entrarem no recinto, o coro dos alunos vai saudá-los com uma polca caprichada”.

Gostaria de encerrar com duas mensagens, já que o Ano Novo está logo ali: aos leitores, peço que não se preocupem com essa loucurada toda, que vai fazer ainda algum barulho mas logo se extinguirá como um foguete de estrelinhas; aos adeptos desta reforma radical, peço que não abandonem a luta pela igualdade de direitos para o homem e a mulher, que é nobre, mas que tomem juízo e procurem maneiras mais sensatas e eficientes de fazê-lo. Ah, e que aproveitem o feriado para ler (ou reler) A Reforma da Natureza, do Monteiro Lobato, onde vão certamente aprender algumas coisinhas.

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Conceitos lingüísticos Destaque Flexão nominal

Questão de gênero

Uma colega de Belo Horizonte, Patrícia L., manda uma mensagem que é quase um desabafo: “Prezado Professor, saúde. Há vinte anos leciono Língua Portuguesa na rede pública e confesso que meu trabalho, se nunca foi fácil, vai ficando mais difícil a cada dia que passa. Imagine o senhor que a nossa Câmara Municipal aprovou, esta semana, em primeiro turno, um projeto de lei que determina que os cargos e funções constantes em documentos públicos sejam designados tanto no masculino quanto no feminino! Segundo a autora do projeto, a gramática machista [sic!] torna invisível o trabalho da mulher, quando se fala, por exemplo, em concurso público para o cargo de procurador, e não de procurador e procuradora. Nosso bom e velho Mattoso Câmara deve estar esperneando na tumba!”.

Confesso, cara Patrícia, que, ao ler a tua mensagem, tive vontade de imitar o Macunaíma e voltar para a minha rede. “Ai, que preguiça!”, pensei. “Vai começar tudo de novo!”. Lembrei daquelas intermináveis discussões sobre o uso de presidenta, em que os dois lados envolvidos — os prós e os contras — jogavam uns nos outros toda sorte de argumentos, muitos deles emocionais, pouquíssimos deles linguísticos. Porém, como fiquei curioso, fui googlear o tal projeto e constatei que, apesar da fundamentação científica ingênua e equivocada da vereadora, seu objetivo era bem mais modesto do que poderia parecer.

Peço-te licença, por um momento, para esclarecer aos demais leitores desta coluna a referência a Mattoso Câmara, o decano dos estudos linguísticos no Brasil. A ele devemos a descrição definitiva do sistema de gênero e número de nossos substantivos: a marca do feminino é o A, enquanto o masculino se assinala pela ausência desse A. Sabemos que filha, mestra e cantora são femininos porque ali está a marca; inversamente, sabemos que filho, mestre e cantor são masculinos porque ali não está a marca. Por isso, quando quisermos ser genéricos, usamos o masculino (ou seja, o gênero não-marcado): “O brasileiro vive menos do que o japonês (entenda-se: todos, eles e elas). Aproveitando esse princípio, é assim que o dicionário registra os substantivos de dois gêneros: lobo, menino, anão. O tal “machismo gramatical” é uma fantasia de certos grupos militantes que, invertendo causa e efeito, pensam que podem mudar a realidade mudando a linguagem — como já expliquei várias vezes nesta coluna. Paradoxalmente, o gênero que exclui é o feminino: se dissermos que os professores vão ser pagos em dia (o que não acontece por aqui, infelizmente), isso vale para homens e mulheres; se as professoras vão ser pagas, os homens estarão excluídos.

Voltando agora ao projeto, prezada leitora, posso te assegurar que não há razão para alarme. Apesar da vereadora belo-horizontina usar argumentos pífios, sua causa é mais simples e específica. Ela inspirou seu projeto nos protestos de uma professora da rede municipal que se revoltou por ostentar no crachá funcional o título de professor, como todas as suas colegas. Bom, aí já é de amargar! Por ignorância, preconceito ou desejo de racionalização na impressão dos crachás, os burocratas aqui literalmente pisaram na bola. Se pudéssemos perguntar ao próprio Mattoso Câmara o que ele acha disso, o  bom velhinho diria que esta é uma questão de atitude, e nada tem a ver com a estrutura gramatical de nossa língua. Usar a flexão feminina do substantivo para concordar com a detentora do cargo — procuradora, senadora, diretora, professora, juíza, promotora — é o mínimo que se espera em qualquer instância da administração pública, há muito tempo. Nosso Supremo hoje tem onze juízes; na composição atual, conta com nove juízes e duas juízas apenas.

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Concordância Destaque Flexão nominal

nenhuns

A leitora Frederica W. escreve de lugar não identificado para dizer que levou um susto quando encontrou em Mia Couto, seu autor do momento, a frase “Caiu sem nenhuns sentidos“. Bem-humorada, ela acrescenta: “Não vou perguntar se isso está certo; afinal, se ele escreveu assim, é porque pode — mas bem que eu gostaria de uma explicação para suavizar o golpe…”

Prezada Frederica, este nenhuns que estranhas é o polo oposto do pronome indefinido alguns. Ele sempre esteve lá, em todas as gramáticas, mas uma coisa é vê-lo arrumadinho numa lista de pronomes, onde parece inofensivo como uma aranha espetada num tabuleiro de museu, e outra é vê-lo assim, ao vivo, com cara de que já vai saltar sobre nós.

Se fosses portuguesa, nem terias notado este plural, porque ele continua bem vivo na terra de nossos avós. Em Lisboa, uma campanha publicitária proclama que “Lenços há muitos, mas nenhuns como estes”; um fórum da internet registra, abaixo de uma postagem: “Nenhuns comentários”; no belíssimo fado Partindo-se, que põe em música um poema do séc. XV, Amália Rodrigues canta: “Senhor, partem tão tristes/ Meu olhos por vós, meu bem/ Que nunca tão tristes vistes/ Outros nenhuns por ninguém”.

Antes que alguém pense que se trata de uma dessas inovações “suspeitas” da língua falada, lembro que nenhuns figura abundantemente na obra de escritores importantes como Gil Vicente, Camões, Vieira, Garret, Alexandre Herculano, Júlio Dinis, Eça de Queirós, Mário de Sá Carneiro, entre muitos outros.

Deste lado do Atlântico, contudo, sua sorte foi diferente. Este plural chegou a ser usado por Capistrano de Abreu, José Veríssimo, Rui Barbosa, Euclides da Cunha (“duzentos homens válidos, talvez sem recursos nenhuns“) e até mesmo pelo grande Machado de Assis (“Não eram os primeiros versos que escrevia à moça, mas não lhe entregara nenhuns“; “nenhumas relações estreitas existiam entre mim e ela”), mas não soube bem ao paladar brasileiro, que terminou aposentando-o.

Qualquer um de nós diria “não posso indicar nenhum restaurante” — ou, para os mais elegantes, “não posso indicar restaurante algum“. Já “não posso indicar nenhuns restaurantes” parece um daqueles plurais de brincadeira do saudoso comediante Mussum — de quem muito me lembro, quando vejo na TV a chamada para (mais) um programa de culinária, em que o chef, que tem a figura ideal para representar o personagem Queequeg, o arpoador do filme Moby Dick, tropeçou ao formar o plural de mel. Em vez de optar entre méis (minha preferida) ou meles, ambas dicionarizadas, saiu-se com um impossível mels — concorrendo com Mussum, que chamava qualquer birita (“biritis”, para ele) de , forma reduzida de mel, que ele flexionava sabiamente no plural mézis.

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Através dos dicionários Destaque Formação de palavras Origem das palavras

Desemalando dinheiro

“Professor, um amigo meu usou o verbo bocaberteou (de boca-aberta) para dizer que o irmão tinha sido descuidado com o celular, que terminou sendo roubado no ônibus. Isso é um neologismo, não é? A gente pode inventar palavras para nossa língua? Essa até que eu achei legal” — pergunta Celso B., estudante de Rio Grande. Pois eu também, Celso; essas brincadeiras feitas com nossa língua são papa-fina para mim, um adicto incorrigível do prazer que as palavras produzem — mas tenho de informar que essas preciosas criações dificilmente vão fazer parte ativa de nosso léxico. São formações momentâneas, expressivas, adequadas a uma situação muito específica, mas que chamam demasiada atenção por sua novidade e estranheza e não atingem a frequência de uso das palavras comuns. Mário de Andrade, por exemplo, brinca maliciosamente com isso: “a musa sentiu-se farta, bifarta, centifarta, multifarta“; “estrambólicas, sonambúlicas e não-me-amólicas“; “o poeta fogo-de-artificiou o Centenário Independentriz e Brasilial“; “entusiasmo pela “luso-poetice guerrajunqueiriz e juliodantal (de Guerra Junqueiro e Júlio Dantas) − tudo isso para falar da obra de um poeta que devemos, pois, “vaiar, fiaufiauizar, batatizar, ovopodrizar“… Servem para o momento, mas não vingam. Outro Mário, o nosso  Quintana, não hesitou em escrever “Um dia, os padres se desbatinaram” − um exemplo mais sutil, de maior finura, mas que também morreu ali mesmo.

E já que estamos falando de neologismo, aproveito para mandar um recado, por via indireta, para aqueles que ainda empregam esse termo: de uma vez por todas, deixem de lado esse vocábulo, tão inútil, inexato e anticientífico. Já lembrei diversas vezes nesta coluna que este conceito sempre se afoga nas águas profundas do rio do tempo. Como o novo de hoje sempre será o velho de amanhã, o rótulo de “novo” que dou a um vocábulo não terá valor algum para as próximas gerações, a não ser que haja uma contextualização histórica: na primeira metade do séc. 19, quando Dom Pedrinho II começava seu longo reinado no Brasil, o termo cientista acabava de ser criado na Inglaterra; quando chegamos à República em 1889, o vocábulo apendicite era tido como raro e novo; em 1905, The Spectator ainda pedia desculpas aos leitores pelo uso da palavra intelectual, alegando ser um neologismo consciente.

Para demonstrar o quão precária pode ser a nossa avaliação do que é antigo e do que é recente no idioma, proponho (velho vezo de professor!) um pequeno teste para o amigo. Em cada frase há uma palavra em destaque; assinale as que você colocaria no balaio dos neologismos: (1) “A PF pediu a ajuda de um banco para desemalar e contar os milhões encontrados no imóvel de Geddel”; (2) “Era muito desengraçado quando menino, mas tornou-se homem atraente”; (3) “Em vez de ajudar, a opinião dos pais pode desajudar a noiva”; (4) “O camponês desnarigado por um golpe de facão sofreu cirurgia reparativa”; (5) “O laboratório descontinuou a produção do medicamento sem nenhuma justificativa”.

E aí, leitor, quer saber quantas acertou? É muito simples: tantas marcou, tantos erros cometeu. São todas elas palavras velhas, mas bem velhinhas mesmo, que já constavam no empoeirado Bluteau, nosso primeiro grande dicionário, publicado em 1728 — um pouco antes da fundação da cidade de Rio Grande e do início ocupação portuguesa do território gaúcho. Como dá para ver, as aparências enganam.

[a ilustração é do  grande Edu  Oliveira, da ZH]

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Destaque Formação de palavras

desprincesamento

 

Numa coisa todo o mundo concorda: a riqueza de uma língua é medida, em grande parte, pelo número de vocábulos que ela oferece a seus falantes — assim como, em escala menor, a riqueza de cada um de nós se mede pelo número de vocábulos que conhecemos. No entanto, toda hora aparece, na minha caixa de correio, alguém que vem lamentar o nascimento de uma palavra nova. Nesta semana de Natal, um leitor que assina com o pseudônimo de Indignado vem manifestar — por que a surpresa? — a sua indignação com a palavra desprincesamento. “De onde saiu essa doidice? Os jornais publicam assim sem o menor pudor! Até dá para entender o que a palavra quer dizer, mas pode ser assim? É só inventar e pronto? Não se poderia criar um instrumento legal que regulamentasse essas novidades?”.

Meu caro Indignado, está na hora de revisarmos alguns princípios básicos que regem nosso léxico. Em primeiro lugar, não há, neste planeta, lei com poder suficiente para regulamentar o funcionamento de uma língua. O máximo que se consegue fazer é regulamentar a sua ortografia, que é uma pura convenção entre os usuários. Tentar legislar sobre o resto — a sintaxe, a criação de palavras, o sentido que elas têm, etc. — seria tão inútil como pregar aos peixes. No caso do léxico, então, a tarefa é impossível, pois é nele que melhor se enxerga o caráter infinito do idioma.

Ao contrário das sementes, as palavras jamais perdem o seu poder germinativo. No dicionário, em ordem alfabética, as centenas de milhares de vocábulos que ali repousam mantêm, intacta, a capacidade de gerar descendentes. Pardal, por exemplo, ali figurou, durante cinco séculos, como um simples passarinho; no momento em que resolveram assim designar os controladores de velocidade, a semente saiu de sua dormência e produziu pardalizar (as estradas), despardalizar, pardalização, despardalização… Ao contar aquela história em que Pedro Malasartes enche de moedas o fiofó de seu cavalo para enganar o fazendeiro rico e prepotente, um famoso poeta de cordel estampou na capa do folheto “O cavalo que descomia dinheiro”, evitando assim o c*gava do título popular. Aliás, por falar no tema, no tempo do presidente Figueiredo, uma lei sancionada teve de ser dessancionada para correção, sendo algumas horas depois ressancionada — dois novos galhos na árvore da palavra sanção foram criados no espaço de horas!

Aqui se inclui também o desprincesamento, palavra feinha que surgiu em contraposição a princesamento, outra novidade. Uma mãe em Curitiba achou importante e necessário abrir uma escola para ensinar às meninas aquelas artes e atitudes que, segundo ela, caracterizam uma verdadeira princesa; a iniciativa teve tanto sucesso que já se abriram várias filiais. Outras mães, ao contrário, vendo nisso uma submissão precoce das meninas a estereótipos de gênero, trouxeram do Chile a ideia de uma escola de desprincesamento, para incutir desde cedo nas garotas a consciência do novo papel da mulher na sociedade.

Como se pode ver, o processo é incontrolável; os vocábulos resultantes entram na implacável filtragem pelo uso e, aos poucos, vai-se vendo quais são as criações que já ingressaram na corrente sanguínea e quais vão ficar adormecidas, talvez para sempre. Gostar delas ou não, empregá-las ou não, criticá-las ou não — tudo depende da simples decisão de cada usuário. Para consolo do amigo Indignado, ofereço outra criação do mesmo quilate, o desencapetamento: já vi anúncio na internet oferecendo um “método fácil e eficaz para desencapetar um homemsexual“. Feliz Ano Novo!

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Crase Destaque Lições de gramática

sutilezas da crase

 

Tenho certeza, caro leitor, que você sabe muito bem que só os ingênuos acreditam em soluções simples para problemas complexos — e isso vale também para a gramática. O acento de crase  é um bom exemplo: há tantos fatores envolvidos em seu emprego que, percebendo que o gelo é fino e a mata é espessa, nenhum de nós se arrisca a usá-lo sem antes fazer uma pausa para pensar. Uma certa dose de angústia é inevitável aqui (há até quem se benza!), mas  asseguro que um pouco de calma e reflexão há de nos pôr no bom caminho.

Pois é exatamente sobre crase a consulta feita por uma enfermeira que, por razões pessoais, pede que eu não publique seu nome. Em seu trabalho na transcrição de consultas médicas, recorre constantemente a dicionários e a gramáticas, mas não consegue entender por que o A não deve ser acentuado em construções do tipo “paciente submetido A cirurgia de catarata”. Diz ela: “Um médico afirmou que é sem acento, mas, para mim, as duas condições de crase estão presentes: submetido pede a preposição A e o segundo termo é um substantivo feminino: não seria o suficiente?”.

Não, prezada amiga, não seria o suficiente. Assim como para o tango, são necessários dois participantes para que ocorra a crase: a preposição A está ali, como você percebeu, mas ela está sozinha; o outro parceiro, o artigo feminino A, não compareceu. Apesar de cirurgia ser palavra feminina, está sendo usada de modo indeterminado e, portanto, desacompanhada de artigo definido. Fica mais fácil de explicar se usarmos substantivos masculinos, pois a presença ou ausência do artigo O termina deixando tudo mais visível. Note que escrevemos “paciente submetido A exame de dependência toxicológica” — e não “ao exame”, o que prova que temos apenas a preposição. 

O que parece ser uma complicação inerente à crase não passa, na verdade, de uma sutileza do emprego do artigo, uma palavra injustiçada, que tem de importante o que tem de nanica. O que está por trás disso é a diferença entre o dado e o novo, categorias que raramente são mencionadas nas gramáticas tradicionais. Quando nos referimos ao novo, não há artigo definido: “Polícia evita assalto na BR-101″ (e não “O assalto”). 

A presença (ou não) do artigo faz muita diferença. Compare “Referindo-se A peça infantil a que assistiu na Rocinha, a deputada…” com “Referindo-se À peça infantil a que assistiu na Rocinha, a deputada…”. Ambas estão corretas, mas dizem coisas diferentes. Na primeira, peça é um dado novo, sendo usado com sentido indefinido (“uma peça”); na segunda, pressupõe-se que os leitores compartilhem o conhecimento prévio de que a deputada tinha assistido a um espetáculo infantil na Rocinha. Seu Fulaninho informa que uma vez operou a catarata; na ficha dele se registra “paciente submetido a cirurgia de catarata” (“uma cirurgia”). Seu Fulaninho comenta que não ficou satisfeito com o resultado: “referindo-se à cirurgia de catarata, o paciente… (ele está falando daquela cirurgia já mencionada). 

Como você pode ver, a resposta é complexa porque este não é mesmo um caso tão simples —  ou tosco, como a de um leitor indignado que escreveu, em estilo meio arrevesado: “O acento craseado [sic] foi colocado em um texto na palavra ègua (credo!). Em qual caso na língua portuguesa se utiliza esse tipo de acento?”. Meu pensamento voou. Éguas, cavalos, jumentos… confesso que a tentação foi grande, mas engoli a piada.

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Destaque Etimologia e curiosidades Formação de palavras Origem das palavras

propinocracia

 

 

A algumas semanas da eleição, poucos foram os brasileiros que ficaram indiferentes à denúncia oferecida contra o ex-presidente Lula pelos procuradores da operação Lava a Jato — uns a criticar, outros tantos a aplaudir. Entre estes últimos certamente se inclui nosso leitor Alberico Z., de Caxias do Sul, o qual, depois de elogiar muito esta coluna (“Recorto sempre e mostro para os amigos”), lamenta que os jovens integrantes da força-tarefa do Ministério Público tenham maculado sua apresentação ao empregar o termo propinocracia, que não está nos dicionários. “Professor, entendo o que eles querem dizer com isso, mas acho que um neologismo deste quilate destoa como um resto de feijão no dente. O senhor não concorda?”.

Não, caríssimo leitor, não concordo — e aconselho que você puxe uma cadeira e aproveite o divertido desfile dessas palavras que nascem da recombinação de elementos que todos conhecem. Como sabem que o termômetro e o barômetro são instrumentos de medir, os falantes criaram, por analogia, palavras como olhômetro, impostômetro, sonegômetro e bafômetro, que são muito úteis e de significado muito claro. Os hotéis equiparam cada quarto com um frigobar? Pois um folheto anuncia um passeio ecológico pela Serra do Mar, em que os participantes serão acompanhados por um guia e um paciente frigoburro. Não é uma beleza?

Além disso, a palavra propinocracia já não é tão nova assim. Em 2011, por exemplo, Cláudio Noronha publicou em seu blogue um texto facecioso em que deita e rola, descrevendo uma suposta república propineira, que segue o regime da propinocracia. O poder é dividido entre propinocratas novos e velhos — os neopropinocratas e os propinossauros, todos eles imbuídos do mais legítimo espírito propinocrático.  O problema, diz o autor, é que “recente pesquisa, feita pelo Instituto de Propinologia
e disponibilizada na propinet, revelou uma tendência perigosa da sociedade se polarizar, opondo propinistas contra antipropinistas” — e por aí vai a valsa. 

Como podemos ver, não precisamos consultar um dicionário para entender essas palavras, pois nosso léxico é como um imenso Lego: as peças estão na caixa, à disposição do falante, que pode usá-las para produzir centenas de milhares de combinações que, é quase certo, não haverão de estar dicionarizadas. O blogueiro Cláudio Noronha ou os procuradores, portanto, não inventaram propinocracia ou o também recente propinoduto; elas já existiam virtualmente no nosso estoque de palavras possíveis, à espera de que a realidade produzisse as condições necessárias para que alguém as empregasse. É isso que explica, aliás, a cara de paisagem que faço quando me perguntam quantas palavras tem nosso idioma…

Ah, outra coisa: o amigo disse que costuma recortar e guardar o que escrevo — no que muito me honra; talvez lhe interesse saber, por isso mesmo, que a Coleção Pocket da editora L&PM inclui três volumes de O Prazer das Palavras, reunindo uma
boa parte das colunas aqui publicadas.

(Ilustração do incomparável Edu – Jornal ZH) 

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Análise sintática Concordância Concursos - análise de questões Destaque

Concordância em concurso

A questão pedia para assinalar a alternativa com erro de concordância. Segundo a banca, a frase com erro seria “Tanto aos capitalistas mais liberais quanto aos socialistas mais ortodoxos parecem de pouca importância o que não diz respeito ao campo estrito da economia”, mas não entendi por quê. Sujeitos ligados por “tanto.. quanto…” não levam o verbo para o plural?

A frase que marquei como errada foi  “Superaram-se, sim, no campo da técnica todas as expectivas, mas também se registre que todas as desigualdades sociais se agravaram”, porque acho que o pronome indefinido “todas” pediria o verbo no plural.

Patricia F. — Osasco, SP

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Cara Patrícia: sinto muito, mas a frase apontada pela banca realmente está errada. O verbo parecer deveria estar no singular, já que o sujeito é “o que não diz respeito ao campo estrito da economia“. Na ordem direta, fica “O que não diz respeito ao campo estrito da economia parece de pouca importância tanto aos capitalistas mais liberais quanto aos socialistas mais ortodoxos”.

O tanto e o quanto, aqui, não têm a menor importância para a concordância, simplesmente porque introduzem objetos indiretos (“tanto aos capitalistas“, “quanto aos socialistas“) — e não sujeitos.

Sinto dizer-te, também, que está corretíssima a concordância dos dois verbos da frase que assinalaste como incorreta: “Superaram-se, sim, no campo da técnica, todas as expectivas, mas também se registre que as desigualdades sociais se agravaram”. São dois casos de voz passiva sintética; o sujeito de “superaram-se” é “todas as expectativas”, e por isso ele está no plural; o de “se registre” é a oração seguinte (“que as desigualdades sociais se agravaram”) — e, como em qualquer caso de sujeito oracional, o verbo fica no singular.

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Antes do sol nascer

 

ANTES DO SOL NASCER - EDU

 

Como é possível que se defendam construções tão malsoantes como “Antes DE o sol nascer”, “Depois DE ele chegar”? Esta é uma regra artificial, inventada por defensores da análise lógica no início do séc. XX.

 

 Dona Lia, uma gaúcha gentil que mora em Florianópolis, escreve para tecer comentários elogiosos a esta coluna e aproveita a viagem para dizer que estranhou uma construção que empreguei um dia desses — “O fato DA maioria falar assim não justifica…”. Diz ela: “Aprendi que nesse caso e semelhantes, não se pode fazer a combinação da preposição de com o artigo a; eu escreveria o fato DE a maioria falar assim… Estou certa ou estou errada?”.

Olha, dona Lia, a regra a que a senhora se refere é uma regra pedagógica (não gramatical) de meados do séc. XIX, difundida por nomes importantes como Eduardo Carlos Pereira e repetida por muitos autores depois dele. Nosso idioma passava por um período em que pontificavam autoridades sem formação linguística científica, que imaginavam que a linguagem deveria ser um “sistema lógico”. Essa foi a mesma atitude equivocada que tentou, por exemplo, condenar a dupla negação como agramatical, desconhecendo que essa é uma maneira normal — em alguns casos, inclusive, obrigatória — de reforçar a negação (por exemplo, não podemos usar nada se não houver uma palavra negativa anterior: não ganhei nada).

Confundindo a análise lógica com a análise sintática e fonética, esses autores condenavam frases como “na hora DO papai chegar” alegando que papai, que é o sujeito do verbo, não poderia vir regido pela preposição de e que, por isso, deveríamos manter o artigo separado (“na hora DE o papai chegar”). Ora, autores da importância de Evanildo Bechara e Celso Pedro Luft apontam o equívoco dos gramáticos de antanho: isso nada tem a ver com subordinação sintática; a sequência de + o se transforma em do por um processo meramente fonético que recebe o nome de elisão. E tem mais: como já notou Sousa da Silveira, na fala essa elisão é obrigatória — o que é bom deixar bem claro. Que ninguém se ponha a pronunciar a preposição separada do pronome, porque tamanho disparate nunca se viu no vernáculo.

Na escrita, essa elisão foi praticada pelos melhores autores de nosso idioma: “São horas da baronesa dar o seu passeio pela chácara” (Machado). “Antes dele avistar o palácio de Porto Alvo” (Camilo). “Sabia-o antes do caso suceder” (Herculano). “Antes do sol nascer, já era nascido” (Padre Vieira). “Apesar das couves serem uma só das muitas espécies de legumes” (Rui Barbosa). Fica evidente que por séculos esta era uma construção correta, antes que alguém tentasse impor uma restrição quanto a ela, certamente levado por um raciocínio equivocado.

Infelizmente, a imprensa foi mordida pelo mosquito e passou a separar sistematicamente a preposição do artigo, dando a aparência de obrigatória a uma regra que Cegalla, na mosca, classifica de uma “inovação ao arrepio da tradição da língua”. O uso, porém, ficou tão generalizado que não se pode mais considerar errada esta construção, apesar do que ela tem de artificial e malsoante. Acerta, portanto, quem mantém a preposição separada, e acerta quem faz a elisão com o artigo ou o pronome. Como podem ver pelo título desta coluna, este é o meu caso — muito faceiro, aqui, de braço dado com o padre Vieira e com Machado de Assis.   

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Destaque Formação de palavras Lições de gramática

Janta

Injustamente condenada por velhos gramáticos, a palavra JANTA é filha legítima do verbo JANTAR, da mesma forma que VISITA e DESOVA nasceram de  VISITAR e DESOVAR.

 

Em algum desvão esquecido do meu computador, reencontro uma pergunta que me fez, há tempos, a talentosa Haydée Porto, caríssima amiga, figura imprescindível do nosso teatro: “Uma conhecida me criticou bastante por causa de uma palavra que usei: janta. Na verdade, nunca tinha me dado conta disso. Nós, gaúchos, estamos errados ao falar assim?  Ela é portuguesa, dona de uma escola famosa em SP, e se orgulha de não cometer erros de Português ― mas diz “meia cansada”! Quando chamei sua atenção para isso, quase morreu de susto! Mas e nós, hein, Moreno, como ficamos com a nossa janta?”.

Ficamos muito bem, minha cara Haydée. Janta é um substantivo formado por derivação regressiva do verbo jantar, criado à semelhança de dezenas de outros que extraímos de verbos (chamados, por isso mesmo, de deverbais): por exemplo, suplicar deu súplica, alcançar deu alcance, baixar deu baixa e almoçar deu almoço. Por que, então, jantar não poderia dar janta? Na fronteira com os países do Prata já ouvi muita gente dizer suba (“Vou comprar o carro antes da suba do dólar”), como substantivo para subir. Eu acho estranho esta suba (que Houaiss registra como variante do Rio Grande do Sul), assim como tua amiga deve ter achado estranho a nossa janta ― e  assim como nós, os brasileiros, não estamos habituados ao termo apanha, muito usado em Portugal (“No Alentejo, a apanha da azeitona começa em outubro”). E daí? É natural que, de uma região para outra, haja preferências distintas em tudo ― na maneira de fazer churrasco, na música que toca no rádio e, mais do que em todas as demais áreas reunidas, nos vocábulos que empregamos.

Uma passada no Google (em setembro de 2015) deu mais de 13 milhões de ocorrências para janta; mesmo que isso não possa ser considerado argumento “científico”, é, no entanto, uma evidência amazônica da vitalidade desta variante. Todos os bons dicionários a registram, embora a assinalem com o rótulo de “popular” ou “familiar” ― uma forma prudente de alertar o usuário para o fato de que ela pode ser considerado inadequada em registros mais formais, o que está de acordo, a meu ver, com a nossa realidade. Eu, por exemplo, reservo jantar para uma refeição especial, geralmente comemorativa e com mais formalidade: jantar de formatura, jantar dançante, jantar de encerramento. Janta, para mim, designa a nossa refeição usual da noite (às vezes carinhosamente chamada de jantinha), seja na família, seja entre amigos ―  como, aliás, aparece em todos os autores modernos: “Finda a janta, o primeiro arroto real ecoa” (Monteiro Lobato); “A mulher mandará a empregada pôr a janta, e perguntará se ele quer tomar banho” (Rubem Braga); “resto de janta abaianada” (João Cabral de Melo Neto); “A janta posta” (Vinícius de Morais); “Devia ser hora de se comer a janta” (Guimarães Rosa). Diz para tua amiga que, ao usarmos janta, estamos em excelente companhia… E diz para ela, também, que os deuses da gramática há muito estabeleceram uma lei inexorável: quem se mete a corrigir os outros, logo, logo acaba sendo corrigido.