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A Reforma adiada (2)

Um dia alguém vai ter de explicar por que os linguistas e professores que integraram a Comissão de Língua Portuguesa do MEC não denunciaram as incongruências do Acordo, que saltam aos olhos a quem lê o texto com o mínimo de atenção.

 

Na coluna anterior, que comemorou o adiamento da obrigatoriedade das novas regras para 2016, começamos a apontar ─ para que meus leitores saibam e não esqueçam ─ os responsáveis, tanto externos quanto internos, por este imbróglio em que agora nos vemos metidos. Acho importante nomeá-los porque, acuados pelo decreto da presidente Dilma, esses mesmos responsáveis começam a se defender acusando os críticos da Reforma de “mal-intencionados ou desinformados”. Eu, que não sou nem um nem outro, resolvi então expô-los à luz do sol, esperando, como na história do Drácula, que os humanos sobrevivam e os vampiros virem pó.

A Comissão ─ Como responsáveis externos, vão para o quadro da infâmia, como vimos, os membros da Comissão que redigiu e aprovou o Acordo, por sua espantosa desonestidade intelectual: ao aceitarem, como fizeram, centenas de grafias divergentes, eles deveriam, se tivessem o mínimo espírito cívico, declarado o encerramento dos trabalhos, admitindo publicamente que o projeto era inexeqüível. Contudo, por vaidade, por interesse político ou por ambos, preferiram prosseguir mesmo assim em direção ao abismo, condenando todos os países lusófonos a esta Reforma tão singular que, como não unifica o que propunha unificar, não diz a que veio ao mundo.

O Governo ─ Os responsáveis internos são muitos. O primeiro ─ e, por isso, o maior de todos ─  foi o governo Lula, pela pressa e pela forma irresponsável com que sancionou o projeto e passou às etapas seguintes de sua implementação. Por que o Brasil não seguiu Portugal, Angola e Moçambique (para citar nossos parceiros mais importantes nesta empreitada), que decidiram esperar até 2016 para concretizar a Reforma? Suspeito que por trás desse açodamento estivesse a intenção de pôr mais uma moeda no cofrinho do “protagonismo político-diplomático brasileiro”;  o Itamarati (sem o ípsilon, revisor; chega dessa frescura! Queremos o mesmo tratamento que têm Itaqui, Ivoti e Panambi, para citar apenas alguns) ─ o Itamarati, repito, deve ter recomendado ao presidente que não esperasse o tiro de partida e desembestasse pista afora, assumindo, “na manha”, a liderança entre os países lusófonos… É por isso que o adiamento decretado pela presidente Dilma está incomodando tanta gente: além de ser uma vitória do bom senso, vem derrubar mais um falso brilhante da coroa com que seu antecessor se pavoneava.

O MEC e a Universidade ─  É absolutamente inadmissível que os sonhos pessoais de um político sejam postos acima das sérias conseqüências culturais e pedagógicas da implantação de uma Reforma desse tipo, mas os defensores do ex-presidente agora alegam que ele foi mal aconselhado pelo MEC ─ o que é inegável. Não sei o que Lula teria feito se o grupo designado para examinar o impacto da Reforma ─ a Comissão de Língua Portuguesa, a tal COLIP ─ tivesse recomendado menos pressa com o andor, mas o fato é que ela não o fez. Inexplicavelmente, os lingüistas e professores de língua portuguesa que integravam a comissão não denunciaram (com raras e corajosas exceções) as incongruências do Acordo, que saltam aos olhos a quem lê o texto com o mínimo de atenção, nem sugeriram cautela na implantação de uma Reforma que, como já se via, servia apenas para introduzir algumas mudanças quase cosméticas no sistema vigente.

A não ser por alinhamento ideológico com o governo que terminou, fica difícil entender o silêncio conivente desses e da quase totalidade dos demais doutores de nossas universidades, os quais, por sua formação e por sua capacitação intelectual, devem ter enxergado, muito antes que os simples habitantes da planície, o esvaziamento do princípio justificador da Reforma e não deram o sinal de alerta. Afinal, a norma ortográfica já estava há muito consolidada; o dispêndio colossal de recursos para implantar um novo modelo (pobre Angola! … pobre Moçambique!) só seria justificado se houvesse um ganho significativo com a mudança ─ o que, todos estamos vendo, simplesmente não vai ocorrer. Os problemas do Acordo e do VOLP, tão evidentes, contrastavam de tal maneira com o silêncio dos acadêmicos que recordei várias vezes, nesta coluna, a trágica figura de Cassandra, a filha de Príamo, o último rei de Tróia, condenada a viver uma situação absurda, mas semelhante à nossa: ela via claramente o que estava prestes a acontecer, mas ninguém parecia ouvir os seus avisos (confira AQUI as honestas advertências que esta coluna vem fazendo desde 2007).

(continua aqui)

Depois do Acordo:

  • inexeqüível > inexequível
  • conseqüências > consequências
  • lingüistas > linguistas
  • Tróia > Troia
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A Reforma adiada (1) – a vitória do bom senso

Ao aceitar um grande número de grafias diferentes entre os vários países lusófonos, os membros da Comissão que elaborou o novo Acordo Ortográfico deveriam ter voltado para suas casas, admitindo a impossibilidade dessa utopia unificadora. Infelizmente, numa constrangedora demonstração de falta de espírito cívico, terminaram por aprovar uma Reforma que trai o seu objetivo principal.

Um dos fatos mais importantes de 2012 para nós, brasileiros, praticamente passou em branco nas indefectíveis retrospectivas de final de ano: atendendo ao clamor de vários setores, a presidente Dilma determinou o adiamento do início da obrigatoriedade da “nova ortografia”, que ocorreria na noite do Ano-Novo, no exato momento em que, concluída a contagem regressiva da Globo, os fogos de artifício da baía da Guanabara espocassem em todos os telões e telinhas desta pobre mas valorosa Pindorama. O decreto presidencial, publicado do Diário Oficial no dia 28 de dezembro, estipula que o uso das novas regras só passará a ser obrigatório em 2016 — o que significa, prezado leitor, que, até lá, você poderá escolher entre dois sistemas ortográficos diferentes mas igualmente válidos.

Este providencial (e inesperado) ataque de bom senso foi, a meu ver, o melhor presente que o bom Pai Noel poderia nos trazer. O Brasil, que tinha se atirado de ponta-cabeça no abismo das novas regras (num açodamento, aliás, que surpreendeu e assustou os demais países lusófonos, bem mais prudentes do que nós), ganha assim tempo para amadurecer suas decisões, avaliar as tropelias que cometeu em todo esse processo e mudar o que for possível para minimizar os prejuízos que esta Reforma nos trouxe. O imbróglio em que estamos metidos é tão grande que acho indispensável lembrar quem foram os responsáveis — tanto os externos quanto os internos.

Os responsáveis externos são os participantes da Comissão que elaborou o Acordo, que não tiveram a honestidade de abandonar este projeto digno de um Nabucodonosor enlouquecido. Explico melhor: esta Reforma passou a perder seu prestígio e respeitabilidade no momento em que os usuários se deram conta de que ela se baseia numa falsa promessa. Como uma comerciante desonesta, vende o que ela própria não se dispõe a entregar. Espantado, caro leitor? Mas então me diga: o principal fundamento apresentado para abandonar o modelo que tínhamos não era a adoção de um sistema unificado, em que todos os falantes do Português  grafariam as palavras de uma mesma e única forma? Não era este estado quase edênico, do lobo e do cordeiro vivendo juntos e usando os mesmos acentos e letras, a grande justificativa para o esforço e o custo exigidos para implantar esta nova sociedade de igualdade ortográfica? Pois deveria ser, leitor, mas não é — e não sou eu quem diz, e sim a própria Comissão que redigiu o Acordo, ao aceitar e oficializar uma série de diferenças entre o modo de escrever deste e do outro lado do Atlântico, que continuarão intocadas. Aponto alguns exemplos:

1) Os que falam aqui usam certas pronúncias distintas dos que falam no além-mar? Não há problema; a Comissão dá um jeito: o Acordo oficializa centenas de formas duplas como sinônimo e sinónimo, acadêmico e académicogênio e génio, pênis e pénis, fêmur e fémur; bebê e bebé, judo e judô.

2) Portugal distingue foneticamente a 1ª pessoa do plural do presente do indicativo da mesma pessoa do pretério perfeito? Não há problema; a Comissão “unificadora” ajeita, autorizando que esta última seja acentuada por todo aquele que quiser: “Ontem trabalhámos até tarde”.

3) Há divergências na pronúncia de consoantes em fechamento de sílaba? O Acordo abraça ambas as formas de escrever: cetro e ceptro, corrupto e corruto, concepção e conceção. E por aí vai a valsa (ou o samba… ou o fado…).

Ora, aqui está, a meu ver, a grande desonestidade das pessoas que elaboraram este Acordo: ao se ver compelida a institucionalizar tantas duplicidades ortográficas (justificadas, é óbvio, por diferenças reais na pronúncia), a Comissão elaboradora deveria ter admitido a inexequibilidade do projeto e enterrado definitivamente esta proposta de unificação no cemitério das utopias (o qual, aliás, anda muito concorrido, ultimamente…). Que tivesse a hombridade de se definir: se a unificação não é possível, então não se fale mais nisso… No entanto, por vaidade, onipotência ou simplesmente para não perder a viagem, como se diz, ela acabou fazendo aquilo que, no tempo dos sapateiros, era chamado de “meia-sola”: alterou algumas coisas aqui e ali, “ao menos diminuindo um pouco mais a distância do sonho de uma grafia unificada”, como declarou, sem a menor vergonha na cara, um destacado membro da Comissão — como se fosse coisa pouca mexer na ortografia de tantos países para obter resultado tão pífio.

(continua)

Veja AQUI o que já publicamos sobre o Acordo

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Bom dia!

“Bom dia!”, “Boa tarde!”, “Boas festas!”, “Bom jogo!”, “Bom almoço!”, “Boa aula!” ou “Bom enterro!”,  tudo isso se escreve SEM hífen. O “bom-dia” que está no dicionário é vinho de outra pipa.

Bom dia, amigos. Todo professor de Português sabe, por experiência, que aquilo que é dúvida para um geralmente é dúvida também para muitos. Pois ao longo deste ano, três diferentes leitores — Edmilson (de São Carlos), Lúcia (de Curitiba) e Deborah (de São Paulo) — trocaram correspondência comigo sobre a necessidade ou não de usar hífen em bom dia ou boa noite, problema que, acredito, já aflige muitos de meus leitores — ou vai terminar afligindo, porque, como se sabe, o hífen sempre vai ser a pulga da nossa camisola. Para pôr ordem na minha explicação, vou aproveitar a formulação das perguntas que recebi sem fazer a devida identificação de seu autor. Como veremos, ambas as formas — bom-dia ou bom dia — existem, mas correspondem a duas situações completamente diferentes.

(1) “Professor, não entendi exatamente o que os dicionários e o Novo Acordo estabelecem quanto à hifenização de bom dia. Quando se trata de um substantivo, não tenho dúvida em usar o hífen (Ele deu um bom-dia e saiu). Mas, e quando estou simplesmente cumprimentando alguém? Acho que o hífen não é necessário (Bom dia, papai!), mas muita gente defende o contrário, com base no que aparece nos dicionários. O dicionário Houaiss, por exemplo, hifeniza”.

(2) “Caro Professor, em uma mensagem eletrônica ou em uma carta, o cumprimento bom-dia deve ser hifenizado, não é? De acordo com o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, esta habitual saudação é vocábulo grafado com hífen. O Houaiss ratifica tal ponto de vista. Afinal, ao iniciar o dia, o bom-dia é um cumprimento, pois não? Posso pensar assim?”.

(3) “Professor, o Vocabulário Ortográfico registra o vocábulo bom-dia com hífen; achei estranho e escrevi para a Academia Brasileira de Letras, que agora mantém um serviço denominado ABL Responde, para perguntar se haveria alguma outra situação em que se pudesse usá-lo sem hífen. Sabe o que eles me responderam? Que bom-dia cumprimento sempre tem hífen, mas pode ficar separado em casos especiais — como passei um bom dia na casa de veraneio de meu irmão. Não é de amargar?”.

Em primeiro lugar, vamos deixar bem claro que a grafia deste vocábulo não sofre alteração alguma com o Novo Acordo, que não tocou neste assunto. Em segundo lugar, é fundamental que se leiam os dicionários tecnicamente, prestando-se atenção aos mínimos detalhes registrados no verbete. Tanto no Houaiss quanto no Vocabulário Ortográfico o bom-dia hifenizado vem seguido pela abreviatura “s.m.”, que indica tratar-se de um substantivo: “Ele me deu um bom-dia seco e mal-humorado”, ou “Deu um alegre bom-dia e foi sentar em seu lugar”. Neste caso, como bom substantivo que é, pode vir acompanhado dos acessórios de sempre (artigos, possessivos e adjetivos): “Já estou farto desses teus bons-dias cheios de segundas intenções”.

É evidente que isso nada tem a ver com o outro “Bom dia!”, aquele segmento de frase que dizemos quando encontramos alguém ou dele nos despedimos; como num iceberg, só lhe vemos a pontinha,  porque o resto da frase está elíptico: [Desejo que você tenha um] “bom dia!” — o mesmo fenômeno que ocorre com fórmulas de agradecimento como grato ou obrigado, que nada mais são que o final de sequências subentendidas: [fico-lhe] obrigado, [fico-lhe] grato.

Portanto, amigos, seja qual for a circunstância — carta, bilhete, e-mail, etc. — a saudação vai ser escrita sem hífen. É uma locução, ou seja, é uma sequência de vocábulos autônomos; ela pertence ao mundo da sintaxe, o que a  deixa fora da área de alcance do emprego do hífen, sinal que está restrito ao interior de um vocábulo composto. O “Bom dia!” com que abro a coluna de hoje é uma saudação da mesma tribo de “Boas festas!”, “Bons ventos!”, “Bom Carnaval!”, “Boa viagem”, “Bom almoço!”, “Boa hora” (que se diz para as gestantes), e assim por diante.

A diferença entre as duas situações fica ainda mais evidente se compararmos a concordância de gênero que ocorre em “Tenha uma boa tarde” (é uma locução; poderíamos inverter para “Tenha uma tarde boa“) com “Deixo aos ouvintes o meu boa-tarde” (neste caso, um substantivo composto masculino).

 

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Ainda as paraolimpíadas (conclusão)

Veja por que os esquisitíssimos *paralimpíada e *paralímpico jamais poderão conviver pacificamente com os demais vocábulos que compõem o nosso léxico.

Como deixei bem claro na coluna anterior, é impossível conviver com uma formação tão esdrúxula quanto a famigerada “paralimpíada”, que não só contraria o que já foi consagrado pelo uso e pelos dicionários (Houaiss, Aulete e o próprio VOLP só registram paraolimpíada), como também viola princípios básicos do funcionamento da língua portuguesa. A criação lexical não vai parar nunca, enquanto o Português for uma língua viva, mas os vocábulos — tanto os que já existem como os que haverão de ser criados — nascem seguindo determinados parâmetros imutáveis, gravados, digamos assim, no DNA do idioma.

É possível que surja, de vez em quando, um vocábulo tecnicamente “malformado”, mas ele só vai conviver em nosso meio se os falantes, de alguma maneira, nele enxergarem uma fisionomia conhecida. Um excelente exemplo é vestibulando: de alimentar, graduar, adotar e analisar produzimos substantivos com a noção implícita de “aquele que deve fazer ou ser”: o alimentando, o graduando, o adotando, o analisando. Não seria descabido, portanto, afirmar que este sufixo serve para formar substantivos a partir de verbos da 1ª conjugação. Ora, os falantes aplicaram esta regra ao adjetivo vestibular (para entrar na universidade, prestamos um concurso vestibular — isto é, de ingresso) e geraram vestibulando, que decididamente não é “aquele que vai ou deve se vestibular”. E daí? Por ser fruto de um acidente genético, não tem direito a viver? Quem vai decidir é o plebiscito silencioso do uso: cada vez que alguém o emprega, está votando por sua existência, e hoje, no Google, ele está batendo dois milhões e meio de ocorrências. Como meu mestre Luft dizia, em off (vocábulo tupi-guarani que até hoje conserva grande utilidade): “Palavra nova é como macarrão; atirou na parede e colou? Então essa não morre mais”.

Infelizmente, “paralimpíada” não tem, como tem vestibulando, aquele rosto conhecido que a faria passar despercebida no meio das outras. Sua nota destoante —     o que realmente nos incomoda — é o desfiguramento do radical olímpico com a eliminação do “o” inicial, algo impensável no nosso sistema de formação de palavras. No Português, o radical não costuma perder fonemas, principalmente aqueles que o iniciam. Explico melhor: os radicais são os donos da casa, os prefixos são eventuais visitantes. Se, ao unirmos os dois, for necessário suprimir algum fonema vocálico, quem vai sofrer a amputação será — invariavelmente! — o prefixo. Por exemplo, ao formarmos vocábulos como para+estatal, para+esportista e para+esgrimista (estou usando o símbolo “+” apenas para assinalar o limite entre os dois componentes), o prefixo não perde fonema algum de sua configuração original. Nem sempre, porém, ele vai ter esta sorte: em par+encéfalo, par+estesia, par+odontia, sua vogal final foi suprimida para permitir uma ligação harmoniosa com o radical.  Repito: se alguém tem de ceder, não vai ser o radical, que precisa estar intacto para ser reconhecido.

Em certos casos, até, podem coexistir variantes que se distinguem apenas pelo maior ou menor grau de concatenação dos dois elementos (o que vem a ser, como o leitor já deve ter percebido, a velha diferença que se estabelecia entre a aglutinação e a justaposição): os dicionários nos permitem escolher entre termo+elétrica ou term+elétrica, hidro+avião ou hidr+avião — mas não podemos sequer imaginar formações em que a vogal final do prefixo seja preservada à custa do sacrifício da vogal inicial do radical. Vocábulos como *termo+létrica e *hidro-vião seriam tão absurdos quanto seriam, no parágrafo anterior, *para+ncéfalo, *para+stesia e *para+dontia.  Que se aceitem, ao lado de para+olimpíada e para+olímpico, variantes como par+olímpico e par+olimpíada é perfeitamente defensávelmas jamais abantesmas do calibre de *para+límpico ou de *para+limpíada, como querem nos impingir, que parecem muito mais associadas a limpo e limpar do que a olímpico e olimpíada. Os ingleses não se importam com paralympics e paralympism porque, para eles, os efeitos colaterais são inexistentes; aqui, no entanto, dizer que tal medalhista é o “grande destaque do paralimpismo brasileiro” sugere atividades mais relacionada à limpeza que ao esforço esportivo e permite (não fosse o brasileiro malicioso!) algumas ilações bem escatológicas… 

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Finalizando, aproveito para comunicar aos amigos que em outubro, na segunda quinzena, terá lugar uma nova edição do meu curso de quatro encontros sobre as mudanças que o Acordo Ortográfico introduziu na nossa maneira de escrever. Mais detalhes pelo fone 30187740 ou em  www.casadeideias.com.

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Ainda as paraolimpíadas

 É de amargar! Como num passe de mágica, a maior parte da imprensa brasileira perdeu o seu tradicional espírito crítico (juntamente com o bom-senso) e aderiu cegamente a esta malparida PARALIMPÍADA.        

 

Confesso que não entendi essa aceitação pacífica — quase ovina, eu diria — com que a maior parte da imprensa brasileira engoliu uma aberração do calibre de “paralimpíada”. Os meios de comunicação, sempre tão sensíveis (e críticos) a qualquer inovação vocabular — lembro, por exemplo, de quanta tinta se gastou para comentar o imexível do ministro Magri ou o sugerimento de Dunga, palavras, aliás, formadas dentro dos mais legítimos princípios do idioma —, desta vez aderiram imediatamente a esta malparida “paralimpíada” e ao não menos lamentável adjetivo “paralímpico”. “Foi exigência do Comitê Nacional”, dizem uns; “do Comitê Internacional”, emendam outros — como se alguma instituição desportiva, política, religiosa, financeira, jurídica ou o que seja, desta ou de qualquer outra galáxia, tivesse o poder de determinar a forma das palavras que nossa língua produz ou deixa ingressar em seu léxico! Se, com muita boa vontade, equipararmos o nome de um comitê esportivo a uma marca registrada, podemos até admitir que ele seja grafado de acordo com a vontade ou fantasia do dono (ou dos dirigentes). No entanto, assim como as corporações que produzem a Gillette e o Band-Aid nada podem fazer se resolvemos criar, a partir de seus nomes, os substantivos gilete e bandeide, os referidos comitês não vão influir, com suas decisões privadas, na grafia de palavras como paraolimpíada  e paraolímpico, já de uso comum e assim registradas em todos os nossos bons dicionários.

A língua inglesa, de onde veio a novidade, tem lá suas desculpas por ter produzido essa aberração: segundo o Oxford English Dictionary — o incomparável OED —, o termo paralympic foi cunhado nos anos 50 a partir da união de pedaços dos vocábulos paraplegic e olympic, já que, em sua primeira edição, o evento era dirigido exclusivamente para quem sofria algum tipo de paralisia. Este tipo de fusão lexical (chamada tecnicamente de amálgama, mesclagem, palavras-valise, etc.), que junta o segmento inicial de uma palavra ao final de outra para formar uma terceira, é bastante produtivo no Inglês: smog (smoke+fog), bit (binary+digit), brunch (breakfast+lunch), fanzine (fan+magazine), freeware (free+software), entre dezenas de outras. Duas delas, inclusive, passaram a fazer parte de nosso vocabulário técnico: mecatrônica (mechanics+electronics) e estagflação (stagnation+inflation).

Em nossa língua, no entanto, esse é um processo exótico, usado principalmente por quem busca o efeito crítico ou jocoso que as palavras amalgamadas despertam: showmício, portunhol, brasiguaio, bebemorar, chafé (café muito diluído), namorido (é mais que um namorado, mas menos que um marido — vocábulo que, misteriosamente, ainda não tem o seu equivalente feminino…), onguessugas (usada para ONGs não muito honestas), chocólatra, etc. Os humoristas de primeira linha (no meu dicionário, aqueles que descobrem, para alegria geral, as pepitas de humor que se escondem no idioma) exploram bastante este veio. É o caso de barcilo, “bactéria encontrada num bar”; boicejo, “o tédio do marido da vaca”; cartomente, “adivinha que nunca diz a verdade” (todas do Millôr Fernandes); ou de marmúrio, “barulho longínquo do mar”; zerossímil, “que não se parece com nada”; e triglodita, “muito, muito primitivo”, do nosso Luís Fernando Verissimo. Como se vê, esse curioso processo de criação produz vocábulos efêmeros, apropriados para situações especiais, lúdicas ou literárias, mas não faz parte daquela “máquina de fazer palavras” que todos os falantes do Português usam desde pequeninos.

O interessante é que paralympics tornou-se discutível mesmo no Inglês, sua língua de origem:  como os jogos passaram a incluir portadores de outras deficiências, a ideia primitiva de paraplegics desapareceu, e o vocábulo passou a ser reanalisado como para+olympics, onde o primeiro elemento é o prefixo de origem grega “para”, que significa, entre outras coisas, “semelhante, paralelo” — o mesmo que encontramos em paramilitar, paradidático e paramédico, ideia também presente na paraolimpíada, que passou a ser um evento regular, paralelo e estreitamente relacionado à olimpíada.

Não me cabe criticar os ingleses por persistirem no uso da forma primitiva; afinal, eles têm uma rainha, dirigem do lado errado da estrada e devem ter lá os seus motivos para se conformar com paralympics — mas asseguro que aqui é diferente: não há como justificar, no Português, esta forma esquisita, que causa estranheza a todos os que entram em contato com ela. (continua)

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tudo a ver

Há mais de trinta anos uma leitora procura justificativas para a grafia “tudo haver”. Talvez seja um alívio para ela saber que a forma correta é “tudo A VER” — e que “tudo haver”, “tudo a haver” ou “tudo há ver” são combinações inaceitáveis em nosso idioma.

De tudo aquilo que a escola nos ensina, nada nos marca mais fundo que as palavras que ouvimos de nossos mestres prediletos. Nas séries iniciais, então, a confiança na sabedoria da professora é ampla, total e irrestrita — e ai do sacrílego que ousar corrigir algum de seus ensinamentos! (Perguntem se alguma vez consegui convencer filho meu ou filha minha de que determinada regra de Português aprendida no colégio estava errada… Jacaré conseguiu? Pois nem eu…). É claro que muitas dessas “verdades” vão pouco a pouco perdendo o brilho à medida que nos distanciamos no tempo, mas algumas delas se entranham de tal forma nos tecidos de nossa mente que nos custa admitir que está na hora de expulsá-las, mesmo desconfiando de que são moeda falsa.

Um exemplo tocante é a leitora Elena V., de São Paulo, que escreveu a esta coluna em busca de um aliado para uma idéia que ela defende, quixotescamente, há muito tempo. “Professor, tenho esta dúvida desde que deixei o ensino fundamental, há mais de trinta anos, mas não tive sucesso em solucioná-la: na 5ª série, aprendi com minha professora de Português que a expressão correta seria “tudo haver”, e não “tudo a ver”, como escrevem por aí. No entanto, eu era sempre rechaçada quando empregava a forma que considero correta. Mesmo na faculdade perdi pontos em trabalhos e exames pela grafia “tudo haver”, que era corrigida por todos os professores. A coisa ficou pior quando a TV Globo começou a usar “tudo a ver” como bordão de sua programação, porque aí todos mencionavam a emissora para mostar que eu estava errada”.

Numa comovente fidelidade às ideias transmitidas pela antiga professora, ela continua narrando sua cruzada: “Comecei então a pesquisar em gramáticas e em sites dedicados à língua portuguesa, mas as referências a qualquer uma dessas duas formas de grafia eram inexistentes. Consultei, inclusive, estudiosos e nativos de outros idiomas (de origem latina e germânica), e alguns deles responderam que, pela lógica dos próprios idiomas, a grafia correta poderia ser “tudo a ver”, o que só me confundiu ainda mais. Numa pesquisa no Google, percebi que as duas formas são usadas atualmente, embora haja predominância do “tudo a ver”. Pergunto-lhe: será que há luz no fim do túnel? Será que um dia a forma que defendo vai finalmente prevalecer?”.

Pois então, minha cara Elena, sinto desiludir-te, mas sempre foi “tudo a ver”, “nada a ver”. A TV Globo, desta vez, não tem culpa alguma: assim está no Houaiss, assim está no Aurélio, mansamente registrado. Não há motivo para dúvida; haver, aqui, não caberia em nenhum de seus sentidos, e as sequência “*nada haver”, ou  “*nada a haver”, assim, com o verbo no infinitivo, são absolutamente impossíveis no Português. Vais encontrar, aliás, a mesma estrutura no Francês, língua irmã da nossa, na qual “isso nada tem a ver comigo” fica exatamente “ça n’a rien à voir avec moi” (o Espanhol usa “tiene que ver“, igual ao “tem que ver”, que também usamos aqui no Brasil.

É assim que vais encontrá-la em Rubem Braga: “E se na verdade não somos pescadores nem aviadores, que temos a ver com o vento?”; “Afinal, o leitor nada tem a ver com o que me aconteceu em Casablanca”. E em Monteiro Lobato: “Que tem a Lua a ver com isso?”. Dentre as dezenas de ocorrências em Nelson Rodrigues, escolho duas: “Aquele que estava diante de mim nada tinha a ver com o suave, o melífluo, o pastoral d. Hélder da vida real” e “As nossas conversas eram tristes, porque o amor nada tem a ver com a alegria e nada tem a ver com a felicidade”. Em Érico Veríssimo também: “Pois esta revolução, meu filho, não tem nada a ver com jogo de xadrez”; “A inteligência não tem nada a ver com a fé — replicou Rodrigo”. Em Carlos Drummond de Andrade, nosso poeta maior: “Eu preparava pastas de documentos e as mandava para lá, não tinha nada a ver com a política do governo”; “Eu sofria quando ela me dizia: — Que tem a ver com as calças, meu querido?”. Do outro lado do Atlântico, comparecem Saramago (“prova de que o meu íntimo não tem nada a ver com este caso”) e Lobo Antunes (“Porque não tinha a ver com o processo”). Queres mais? Clarice Lispector: “Que é que você e o sol têm a ver com a poesia?”. Carlos Heitor Cony: “Zizinha aceitava tudo, achou até que o amor àquela cobra tinha alguma coisa a ver com são Francisco de Assis” — e muitos, muitos outros, que não preciso mencionar porque acho que já dei exemplos bastantes. Algo me diz, no entanto, que minha resposta não vai pôr fim ao teu tormento de tantos anos, e vais continuar procurando alguém que te justifique o “haver”… Esquece isso, Elena; absolve tua professora, que devia ser excelente, a julgar pela marca que deixou na tua vida, e parte para uma nova dúvida, que um novo ano se aproxima.

Depois do Acordo: idéia > ideia

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festas julinas?

Aviso ao arraial: toda festa com pipoca, amendoim, fogueira e bandeirinha, casamento na roça e danças caipiras marcadas pelo som da sanfoninha são FESTAS JUNINAS – não importa o mês em que elas acontecem.

Lembro que junho, durante muito tempo, foi um mês especial para mim: chegava o inverno, com seus dias mais curtos, e com ele as festas dedicadas aos três santos de maior devoção dos brasileiros, Santo Antônio, São João e São Pedro. Ando completamente desligado desses festejos, mas houve época em que eu ainda me entusiasmava com eles. Sem opor a menor resistência, aceitava um bigodinho feito com rolha queimada, uma camisa de xadrezes exagerados e um chapéu de palha com a borda desfiada, e pronto: lá ia eu para o colégio, vestido como caipira paulista, no figurino de Jeca Tatu, que Monteiro Lobato imortalizou no inesquecível almanaque do Biotônico Fontoura (nos anos 50, ainda não estavam na moda os gauchinhos de hoje).

Pois na minha verdadeira alma mater, o grupo escolar Juvenal Miller, em Rio Grande, onde me ensinaram a ler, a escrever e a fazer contas — o que, juntamente com um bom Google, é tudo de que preciso —, essas festas juninas raramente entravam julho adentro. Agora, no entanto, com a grande complexidade dos calendários escolares, é muito comum transferirem a fogueira para o mês seguinte, o que fez pipocar, aqui e ali, o adjetivo julinas para designá-las — juntamente com as perguntas dos usuários, preocupados com a novidade do vocábulo. É o caso de Silvana P., professora do Ensino Fundamental de Toledo, no Paraná: “O pessoal da escola confeccionou um cartaz em que consta Festa Julina. Procurei este adjetivo mas não encontrei em dicionário algum. O que encontrei foram os adjetivos júlio (decreto júlio, lei júlia) e juliano (calendário juliano) mas eles, além de esquisitos, se referem a Júlio César e não ao mês de julho. Um colega aqui da casa sugeriu escrever Festa de Julho e terminar logo com a discussão. O senhor é contra julina?”.

Ora, Silvana, eu sempre me coloco, em princípio, do lado de qualquer palavra nova que surja espontaneamente, pois há muito compreendi que o aumento do léxico só pode trazer vantagens para todos nós. Essas criações vão enfrentar o plebiscito do uso, que vai decidir se elas sobreviverão ou apenas deixarão um registro fugaz de sua passagem pelo idioma. Não posso ser, portanto, contra julina só acho que ela é mais uma criação artificial, cerebrina, do que um rebento natural na grande árvore da nossa língua. As festas de nossos santos são juninas; embora este adjetivo seja originalmente um derivado de junho, passou a descrever um determinado tipo de festa que pode ocorrer em qualquer época do ano, com características reconhecidas em todo o território brasileiro: quadrilhas, brincadeiras em torno da fogueira, sanfona, quentão, canjica, amendoim, pinhão (nos estados do sul), casamento na roça e outros que tais.

Atribuirmos a junina o sentido estrito de “ocorrida em junho” ensejaria a criação de um adjetivo para cada mês, gerando preciosidades do tipo julina, agostina, setembrina e quejandos. Assim como podemos fazer um carnaval em agosto, em Nova Iorque, podemos fazer, em maio, uma festa junina para comemorar um aniversário infantil, ou, em outubro, receber os presidentes da Bolívia e da Argentina com uma legítima festa junina para deixar bem claro, de uma vez por todas, que eles têm toda a razão em nos tratar como meros caipiras. Se o cartaz da tua escola, prezada Silvana, anunciar uma Festa Junina — seja ela realizada em qualquer mês, de janeiro a dezembro —, os participantes saberão o que vão encontrar.

Para concluir, um pequeno registro sobre o futuro do Acordo Ortográfico: se eles foram generosos o bastante para permitir que optemos livremente entre grafar fôrma ou forma, não vejo por que não estender esta indulgência — e com muito mais razão — ao verbo parar na 3ª pessoa do singular. São inúmeras as situações em que este acento é decisivo para orientar nossa leitura. Recolhi um punhado delas, mas gostaria que o leitor me enviasse por e-mail os exemplos que tiver encontrado por aí. Para perceber a utilidade do acento, basta imaginar as frases sem ele: “Alguém pára o Barcelona?”; “Chegada de contêineres pára porto de Paranaguá”; “Fulano, que faz tudo para voltar para o partido, não pára o trabalho”; “Caravana de drag queens que ia para Pelotas refaz a rota, pára o Rio Grande e reacende a discussão sobre homofobia”; “A microusina fornece luz suficiente — mas pára três dias”. Tenham dó!

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O feminino nos diplomas

Foi editada, há alguns dias, uma leizinha que torna obrigatória a distinção masculino/feminino nos diplomas e certificados de todas as instituições de ensino do País. Embora ela represente mais um pequeno degrau que subimos em direção à igualdade de gêneros, sua consequência para nosso idioma, ao contrário do que muita gente andou apregoando por aí, é igual a ZERO.

 

Há coisa de um mês entrou em vigor a Lei 12.605, que torna obrigatória a diferenciação masculino/feminino nas profissões e graus que constam nos diplomas e certificados expedidos por qualquer instituição de ensino desta incomparável Pindorama. Para uma leitora que perguntou se esta lei mudaria alguma coisa no uso que fazemos do idioma, sou obrigado a dizer, com franqueza, que não muda nada, ou pouco mais que nada. É uma lei pequenina, tanto no texto quanto nos efeitos: a partir de agora, se uma filha minha se graduar em Arquitetura ou Enfermagem, terá a merecida satisfação de ver que seu diploma não lhe confere o antipático título de “Arquiteto” ou de “Enfermeiro”, como ainda fazem muitas instituições de ensino bem conhecidas, mas sim o de “Arquiteta” ou “Enfermeira”.

É só isso? É. Do ponto de vista sociológico, a lei até poderá contribuir um pouco para arejar a burocracia acadêmica, geralmente tão conservadora nestas questões de gênero; do ponto de vista lingüístico, no entanto, ela faz tanto efeito quanto aplicar clister em defunto. Como ela dispõe apenas sobre a forma de redigir o texto dos diplomas e certificados, dirige-se exclusivamente aos secretários de escola, que os emitem, e não a simples mortais como nós, que os recebemos. Pode ser que a lei provoque alguma comoção nos departamentos de registros das universidades, que terão de abandonar sua inexplicável resistência em usar os femininos que a língua põe à nossa disposição — mas em nada vai afetar nossa linguagem usual, que felizmente sempre foi muito mais democrática que a linguagem petrificada dos diplomas.

Acredite, leitora: neste quesito, somos muito mais avançados que os franceses. Se sociedade brasileira ainda não oferece oportunidades idênticas aos dois sexos, ao menos nossa cultura sempre distinguiu o gênero das profissões. Aqui, no mundo real, a mulher que trabalha é professora, médica, ministra, técnica, reitora ou catadora de lixo, enquanto lá, no hexágono francês, ainda se cultiva a estranha tradição de empregar nomes exclusivamente masculinos. As combativas feministas francesas tentam criar e divulgar as formas femininas correspondentes, mas ainda é comum empregarem le ministre, le médecin ou le peintre tanto para homens quanto para mulheres. Sem conhecer o contexto, uma simples nota na coluna social como “le gendarme s’est marié en robe blanche”  vira um verdadeiro enigma, já que não sabemos (estamos no séc. 21, gente!) se foi A ou O policial que casou de vestido branco.

Esta lei vem se juntar a outra bem mais antiga, quase tão inócua quanto ela: em 1956, o presidente Juscelino assinou a Lei 2.749, ainda vigente, que torna obrigatório o uso do gênero feminino (quando houver) na denominação dos cargos públicos ocupados por mulheres. Seu alcance também é limitadíssimo, pois a ela só estão sujeitas “as repartições da União Federal”, as autarquias e os serviços “cuja manutenção dependa, totalmente ou em parte, do Tesouro Nacional” — ou seja, é uma norma interna do serviço público, semelhante à que estabelece o uso de gravata ou à que define o tamanho oficial dos envelopes. Em outras palavras, leitora, ela nada tem a ver com a linguagem que eu e você usamos.

Ora, por que os legisladores, nos dois casos, reduziram tanto o âmbito de aplicação de suas normas? Por que não tornaram a obrigação extensiva a todos os brasileiros? É simples: porque teriam assinado um atestado de burrice e seriam objetos de chacota eterna, aqui e fora de nossas fronteiras. Há muito tempo o Ocidente aprendeu que é o consenso dos falantes que regula o uso de uma língua, e que não há poder instituído que possa controlá-lo, como ilustra o conhecido episódio que ocorreu com Sigismundo, imperador do Sacro Império Romano-Germânico: durante o Concílio de Constança,  em 1414, ele empregou como feminina a palavra cisma (que era neutra, no Latim, como é masculina, hoje, no Português). Ao ser advertido do erro, respondeu que, como imperador, ele podia muito bem decidir que cisma tinha trocado de gênero — ao que se levantou um arcebispo e lançou-lhe nas barbas a famosa frase “Caesar non supra grammaticos” (literalmente, “César não está acima dos gramáticos”), que deve ser lido como “O Estado não tem poder sobre as palavras”.

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Depois do Acordo: lingüístico > linguístico


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ventosa

Aluno não aprende sozinho, ciscando como um pinto solto entre livros e apostilas. A aprendizagem sem professor é difícil, demorada e geralmente imperfeita, pois só ele é capaz de identificar os desvios e os becos sem saída em que o pensamento do aluno se perdeu.

Ao contrário do que alguns andam apregoando por aí, aluno não aprende sozinho, ciscando como um pinto solto entre livros e apostilas. A aprendizagem sem professor é difícil, demorada e geralmente imperfeita, pois só ele é capaz de identificar os desvios e os becos sem saída em que o pensamento do aluno se perdeu. Um bom professor deve ser um obsessivo leitor de sinais — as expressões do rosto, as exclamações, as perguntas, tudo vai contribuir para que ele descubra a melhor maneira de ajudar aquele que está ali, à sua frente, à espera desta ajuda. É mais ou menos o que acontece aqui quando me fazem uma pergunta: sem entender exatamente onde reside a dúvida do leitor, é impossível auxiliá-lo — mas, acreditem, isso exige paciência e muita atenção.

De uma pequenina cidade do agreste do Rio Grande do Norte — santa internet! —escreveu uma leitora para pedir notícias sobre o paradeiro de um vocábulo que sua família sempre usou mas que, como verificou com surpresa, não consta no dicionário. “Professor, cresci ouvindo meu pai dizer que a praia de Pirangi era muito ventosa, batida pelos ventos do Atlântico — mas o dicionário que consultei não registra este significado. É um sentido arcaico da palavra, ou não passa mesmo de fala de matuto?”.

É evidente que não levei a informação dela muito a sério, porque a experiência me ensinou que a trágica frase “não consta no dicionário” muitas vezes quer dizer, na verdade, “procurei num dicionariozinho escolar caindo aos pedaços — o único que temos aqui em casa — e não encontrei”. Por isso, com muito tato, tratei de aconselhar à leitora que pesquisasse num dicionário melhor — um Aurélio, um Houaiss, um Aulete —, já que não se trata de regionalismo ou palavra obsoleta, mas, bem ao contrário, de adjetivo usado correntemente, significando “com ventos fortes, com muito vento”. Meu conselho era didaticamente honesto: procura — e encontrarás!

A resposta não se fez esperar: ela costumava consultar nada mais, nada menos que o Houaiss on-line, e podia jurar que lá não havia menção alguma a esta associação com o vento, que tanto ela quanto eu atribuíamos ao vocábulo. “Só pode ser falha deles! Acho que não dá para confiar nesses dicionários da internet; digitei ventosa várias vezes e sempre deu a mesma coisa: fala de tratamento médico, de polvos, de árvores, mas nada sobre o vento”. Bingo! — só então me dei conta de qual era o verdadeiro problema que a afligia, qual era o nó que precisava ser desatado: apesar de escrever com certa desenvoltura, minha leitora não conhecia os rudimentos básicos de uma consulta ao dicionário. Coube a mim explicar-lhe que a palavra que estava procurando era um adjetivo — e que todos os adjetivos vêm sempre registrados no masculino, sobrando para os usuários a tarefa de deduzir o plural e o feminino; que encontramos bonito, mas não bonita, bonitos e bonitas; e que, portanto, se ela digitasse ventoso, finalmente apareceria o adjetivo que buscava, com o sentido de “com muito vento”, mais antigo do que a Sé de Braga. Daí as tardes ventosas, a praia ventosa de Pirangi. Como ela digitava indevidamente o feminino, abria-se o verbete ventosa, agora um substantivo, vocábulo de origem latina que designa aquilo que o polvo tem nos tentáculos e, por semelhança, aquelas campânulas de vidro que se aplicavam nas costas do paciente, consideradas pela medicina antiga como um meio eficaz para tratar diferentes problemas do organismo. Estava solucionada a questão: ela tivera a coragem de perguntar, e eu, felizmente, a coragem de explicar um detalhe que me parecia vergonhosamente óbvio, mas que, como ela mesma confidenciou depois, jamais lhe teria ocorrido espontaneamente.

Outro leitor — sintonizado, aliás, com o atual clima de Páscoa —, veio perguntar se a  expressão “entrou como Pilates no Credo” serve para crítica ou elogio, porque ouviu usarem-na a respeito de um amigo recentemente nomeado para cargo importante numa emissora estatal de televisão. Tenho de ser sincero: é uma crítica, meu caro leitor. Pôncio Pilatos (e não Pilates, que é o método de ginástica…) era o governador romano da Judeia quando Cristo foi crucificado; como seu nome é casualmente mencionado no Credo (do Latim, “creio”), uma das orações mais tradicionais da Igreja Católica, ele acabou se tornando, por isso, o símbolo do sujeito que não tem nada a ver com a situação em que se encontra — aquilo que o povo descreve como “entrar de gaiato”.

Após o Acordo: Judéia > Judeia

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Cigano (conclusão)

Expurgar o dicionário do lado “ruim” das palavras, retirar do verbete as acepções depreciativas de cigano, como quer o procurador, implicaria apagar uma parte da nossa história, fechando a possibilidade de entendermos determinadas posturas que nossa sociedade assumiu ao longo do tempo, por mais condenáveis que elas possam parecer ao observador de hoje.

 

Na coluna anterior, manifestei minha apreensão diante da absurda hipótese de vermos o Houaiss censurado por força de uma ação do Ministério Público Federal, que enxergou um “claro caráter discriminatório” na redação do verbete cigano daquele dicionário. Como o assunto é muito sério — talvez muito mais do que pareça, à primeira vista —, prometi que a ele voltaria, promessa que agora vou cumprir.

Como vimos, há um equívoco fundamental no raciocínio que embasa esta ação. Para seu autor, procurador federal de Uberlândia, o dicionário seria uma obra que, “pela própria natureza, encerra um sentido de verdade” — e que, portanto, ao incluir no verbete  significados depreciativos como cigano velhaco e trapaceiro, estaria demonstrando uma “postura preconceituosa e discriminatória” contra aquela injustiçada etnia.

Ora, isso é ignorar supinamente a natureza de um dicionário como o Houaiss (ou como o Aurélio, o Aulete ou o Michaelis), que é, como dizem os alemães com seus imponentes vocábulos, um Sprachwörterbuch (dicionário de palavras, também conhecido como dicionário de língua), e não  um Sachwörterbuch (dicionário de coisas). Um dicionário de língua não tem a pretensão de definir o que as coisas são, mas de relacionar o que as palavras significam (ou melhor, relacionar os significados que brasileiros e portugueses atribuíram a cada vocábulo ao longo do tempo). E é exatamente por fazer isso que um bom dicionário constitui a chave indispensável para abrir as portas da tradição, pois nele estão registradas as marcas que nossa história social e cultural vem deixando nas palavras desde o primeiro texto que se escreveu em língua portuguesa.

Pois a palavra cigano, além de designar o povo propriamente dito, pode ter vários outros empregos. “É uma nossa-senhorazinha, é uma cigana, é uma coisa/Que me faz chorar na rua, dançar no quarto”, diz o poema de Vinícius, falando de uma doce namoradinha — e para que possamos entender a intenção do poeta, o dicionário nos informa que cigana pode designar uma pessoa graciosa, sedutora. “Tornar-me-ia de novo meio cigano, meio selvagem, andaria numa corrida vagabunda pelas fazendas sertanejas”, diz Graciliano Ramos — e devemos saber que termo aqui se refere a uma vida errante e solitária. “E se te aparecem uns valdevinos, uns vagabundos, uns ciganos, se te assaltam e roubam, se te matam”, escreve Saramago — agora se referindo a indivíduos perigosos, ladrões e malfeitores. “Emília sempre fora interesseira…virou uma perfeita cigana, dessas que não fazem nada de graça” — e descobrimos, com Monteiro Lobato, que o vocábulo também foi empregado como sinônimo de “avarento, pão-duro”. Para minha saudosa avó, embalada pelas novelas da Rádio Nacional na década de 50, a palavra cigano sempre evocou um povo romântico e passional, fanático por casamentos, que dançava em volta das fogueiras ao som de violinos (no vocabulário dela, o povo suspeito de sequestrar crianças e roubar cavalos não eram os ciganos, mas os “beduínos”; eu e meus primos éramos avisados para tomar cuidado, quando havia “beduínos” na cidade…).

Pois todos esses diferentes significados precisam ser enumerados, explicados, apresentados em ordem de importância e — como fez o Houaiss, tecnicamente impecável —, classificados com rótulos de uso que alertem o consulente para isso só se usa no Sul do país, aquilo é  estritamente informal, aquiloutro tem valor pejorativo, e assim por diante. Expurgar o dicionário do lado “ruim” das palavras, retirar do verbete as acepções depreciativas de cigano, como quer o procurador, implicaria apagar uma parte da nossa história, fechando a possibilidade de entendermos determinadas posturas que nossa sociedade assumiu ao longo do tempo, por mais condenáveis que elas possam parecer ao observador de hoje. Locais religiosos como sinagoga e pagode já foram empregados com o significado de “confusão, balbúrdia”; xiita, que é uma das correntes mais respeitadas do Islã, é usado com o sentido genérico de “radical” (uma vegetariana xiita); missa pode designar uma tarefa interminável (Foi uma missa!); gaúcho já foi sinônimo de “vagabundo”; coronel pode designar aquele que sustenta mulheres; judeu aparece às vezes com o sentido de usurário — e tudo isso deve constar no dicionário, seja para esclarecer o significado do texto, seja para deixar registrados os preconceitos do passado. Suprimir estas informações do dicionário seria iniciar aquele apavorante revisionismo linguístico que, como Orwell já anunciava em seu profético 1984, sempre foi e sempre será uma característica de todos os regimes totalitários.

Depois do Acordo: seqüestro > sequestro