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Através dos dicionários Formação de palavras Questões do momento

normatização

Meu caro Doutor: depois de assistir a uma palestra sobre a “normatização das relações sociais na América Latina”, fechou o tempo em nosso grupo de estudos, porque uns dizem que o verbo normatizar não existe e muito menos o substantivo normatização. Eu não vejo nada de estranho nesse vocábulo, mas não encontrei no dicionário e não tive argumentos para defendê-lo. Afinal, essa palavra existe? Ou o certo seria normalização, como querem meus colegas? Lúcia S. — São Paulo (SP)

Minha prezada Lúcia: em primeiro lugar, normatizar não veio para ser usado no mesmo sentido de normalizar; o aparecimento recente deste verbo revela a preocupação em individualizar uma nuança específica. Normalizar, forma mais antiga, deriva do adjetivo e significa “tornar normal”, assim como legalizar e banalizar significam “tornar legal e banal”, respectivamente. Nas últimas décadas, este verbo teve seu alcance ampliado para designar também a atividade de regulamentação de parâmetros e de especificações técnicas, como se pode ver no Aurélio XXI e no Houaiss. No entanto, tudo indica que esse acúmulo de significados por parte do mesmo vocábulo não estava sendo funcional, pois logo surgiu normatizar, também registrado nos dois dicionários mencionados, com o significado específico de “regular algo através de uma norma”. Sua utilidade já pode ser medida pelo tema da palestra a que assististe: normatizar as relações sociais na América é bem diferente de normalizá-las

Transmite a teus colegas uma velha verdade lingüística: as palavras não nascem por acaso; elas são criadas pela própria língua, que é uma verdadeira máquina de formar palavras, para atender a finalidades específicas. Quando se cria um verbo a partir de um substantivo, ou um substantivo a partir de um verbo (e assim por diante), é para permitir a inserção do mesmo conceito em um outro ponto da estrutura sintática. O significado “regular algo por meio de normas” é representado por “normatizar“, que, por sua vez, produziu normatização. Usando este vocábulo, o falante pode encaixar todo o processo “regular algo por meio de normas” no lugar de um sintagma nominal qualquer (pode ser sujeito da frase, objeto, predicativo, etc.). Se não dispuséssemos desse substantivo, uma afirmativa simples do tipo “há interesse na normatização do setor” passaria a um antieconômico “há interesse em regular o setor por meio de normas”. E de que maneira conseguiríamos dizer que “a normatização do setor exige esforço concentrado”? Poderíamos recorrer a um daqueles desajeitados vocábulos de apoio (ato, fato, dado, etc.) e construir uma ladainha do tipo “o ato de regular o setor por meio de normas exige esforço concentrado” — mas aí alguém sentiria a necessidade irreprimível de criar um vocábulo para “o ato de regular”, e tudo voltaria à estaca zero.

Alguém ainda poderia questionar se normatizar é vocábulo bem formado. Eu diria, a esta altura, que já é tarde, e Inês é morta! Embora não seja aceita por algumas instituições tradicionais, como a ABNT, a palavra já anda por aí, viva, saudável, fazendo parte dos dois mais modernos dicionários de nosso idioma, usada alegremente por um grande número de falantes de boa cultura e formação superior. Seu processo de criação pode ter sido similar a dogma:dogmatizar, drama:dramatizar: o sufixo –izar foi acrescentado a um radical que possui, subjacentemente, um /t/, como se pode ver em normativo.

Tua pergunta, Lúcia, veio juntar-se a dezenas de outras que revelam a resistência de muitas pessoas ao surgimento de vocábulos novos! É espantoso como há um grande número de brasileiros letrados, sinceramente interessados no estudo do idioma, que se arrepiam assim que vêem uma palavra nova aparecer na esquina! No fundo, devemos tratar essas novatas com a mesma humanidade que tratamos uma pessoa desconhecida que nos apresentam: vamos observá-las com interesse, tolerância e curiosidade para ver se elas merecem fazer parte de nossa memória ou se vão engrossar o exército daquelas que já esquecemos. Abraço. Prof. Moreno.

P.S.: eu não me espantarei se, um dia desses, aparecer um normativar para indicar “tornar normativo”. Filosoficamente, vou sentar na minha cadeirinha e ficar esperando que surja logo um normativizar para brigar com ele. Se houver sobrevivente, a língua vai incorporar o vocábulo e enriquecer nosso léxico. Isso não é bom?

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Formação de palavras Questões do momento

maloclusão

Prezado Doutor: eu só uso má-oclusão nos meus textos, mas vejo que muitos de meus alunos preferem maloclusão. Como pretendo escrever um artigo condenando esta última forma, peço-lhe uma orientação teórica sobre o assunto.

Professor de Odontologia — São Paulo

Prezado professor: quem te responde não sou eu, mas o grande mestre Luft, que já fez essa pesquisa há muito tempo. Como ele explica muito bem, maloclusão foi trazida prontinha do Inglês malocclusion, da mesma forma que malformação nos veio do Francês malformation. Aos poucos, surgiu uma teoria de que teríamos de readaptar os elementos morfológicos estrangeiros (mal + occlusion), substituindo-os por elementos vernáculos. Ora, como não temos a hipótese de um advérbio (“mal”) modificar um substantivo (“oclusão”), alguns sugeriram empregar o adjetivo como primeiro elemento da composição: *má-oclusão, análoga a mau-humor, má-fé, etc. Ora, diz mestre Luft, “contra tais reanálises e reformulações vernáculas pesa a tendência universalizante das nomenclaturas técnicas. Na ciência e na técnica a humanidade aspira a uma linguagem uniforme, comum. Soluções particulares, nacionais, são indesejáveis”. Por essa mesma razão, acrescenta ele, o termo internacional infarto é preferível ao doméstico enfarte, derivado regressivo de nosso verbo enfartar.

Levanto ainda outra dúvida: mesmo que preferíssemos adotar a solução purista, o vocábulo maloclusão estaria mal formado? Parece que não. Essa desagradável sensação de que estamos juntando um advérbio a um substantivo não tem razão de ser. No Inglês, mal de malocclusion não é advérbio, nem adjetivo; em outras palavras, ele não pode ser interpretado como um elemento independente, pertencente a uma classe específica. Ele é apenas uma forma presa, um radical prefixável, que alguns autores simplesmente classificam como prefixo. No caso do Francês malformation ainda se poderia objetar que repugna juntar um advérbio com um substantivo. A objeção não cabe aqui, no entanto, porque a análise lingüística que estão fazendo é completamente equivocada: não se trata da união de [mal+formation], que seria esquisita também no idioma de Balzac, mas sim de [malformé+ation] — da mesma forma que malcriação não é uma “criação que seja má” (porque então deveria ser “má-criação”, como querem alguns dicionaristas), mas sim a ação típica de alguém que é malcriado.

Não estamos falando de hipóteses, caro professor, mas sim de um processo extremamente produtivo em nosso idioma: a formação de substantivos com a estrutura [advérbio+verbo+sufixo]: maledicência, malevolência (e benevolência), malfeitoria (benfeitoria), malversação (alguém vai defender “*má-versação”?), e por aí vai a valsa. Podes encontrar essa argumentação, com mais detalhes, no livro O romance das palavras, de Celso Pedro Luft (São Paulo, Ática, 1996— p.132-5). Eu acrescento outro detalhe para que penses: e o plural? Se for *má-oclusão, vais ter *más-oclusões, obrigatoriamente — e não me parece ser esse o espírito desse vocábulo. É claro que, como não canso de alertar, o usuário sempre é livre para escolher as formas que quer empregar. No entanto, pediste minha opinião técnica, que é essa exposta acima. Podes continuar a usar a forma *má-oclusão, se preferires, mas não te aconselho a combater a grafia maloclusão, que tem muito mais razão de existir. Abraço. Prof. Moreno

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Emprego das letras Questões do momento

há cerca de

Fui alvo de gozação por ter escrito a seguinte frase: “Ele mora lá há cerca de 30 anos”. Disseram que cerca era sinônimo de “algo cercado” e que “há cerca” não existia. Aconselharam-me até a comprar um dicionário ou gramática. Apesar de ter certeza de que esta forma é certa, não consegui dar uma explicação gramatical que fosse convincente o bastante para dissipar qualquer dúvida sobre a controvérsia. Por isso, venho pedir ajuda do Professor Moreno.” Kecia V.

Minha cara Kecia: como se diz, estás coberta de razão. Só não entendi em que meio tu te moves: quem, no seu são juízo, pode afirmar que há cerca não existe? Essas pessoas que zombaram de ti já freqüentaram colégio?

Vamos por partes. (1) Qualquer pessoa alfabetizada sabe que podemos usar haver para indicar tempo decorrido: (=faz) dez dias, havia (=fazia) dois anos, etc. Espero que até aqui todos concordem, e não comecem suas zombarias. (2) O advérbio cerca é um sinônimo mais ou menos culto para aproximadamente, mais ou menos: “Cerca de duas mil pessoas estiveram no enterro”. Até aqui, também, espero que não haja dúvidas. (3) Todos aí aceitam “cheguei aqui há aproximadamente três horas”? Mais uma vez, espero que sim; esta expressão faz parte do Português básico.

Ora, muito bem; chegamos ao final da lição: substituam aproximadamente por seus sinônimos, e vamos ter “cheguei aqui há mais ou menos três horas” e — adivinhem! — “cheguei aqui há cerca de três horas”. Pronto, Kecia. Aqui tens a justificativa gramatical de que necessitas; só me indigno com a inversão de valores: a pessoa que escreve certo é que tem de dar explicações aos demais, a eles que — esses sim! — deviam se aproximar um pouco mais das gramáticas e do nosso querido “amansa burro”. Abraço.  Prof. Moreno

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Questões do momento Semântica

a grande maioria

Prezado professor, gostaria que esclarecesse se a expressão grande maioria está correta, já que a tenho ouvido isso de muitas pessoas, principalmente políticos e jornalistas. Segundo o Houaiss, uma das acepções do substantivo feminino maioria é “a maior parte de; a maior quantidade”; logo, no meu modesto entender, a grande maioria parece uma redundância quantitativa.

Ricardo G. — São Paulo

Meu caro Ricardo, sinto muito, mas não tens razão. Aqui todos nós temos uma lição a aprender: quando um grande número de pessoas (de razoável cultura) começa a empregar uma expressão, deve haver algum motivo. Eu, que trabalho com isso há mais de trinta anos, tenho uma atitude diferente da tua: em vez de achar que os outros estão fazendo alguma coisa errada, tento encontrar as razões que levaram tantas pessoas, com a mesma cultura que a minha, a usar esta ou aquela forma.

No caso da maioria, a diferença é gritante. Num grupo qualquer, a metade mais um já constitui maioria; grande maioria é muito mais. “A maioria votou em X” sempre será diferente de “A grande maioria votou em X”. Não é por acaso que vivemos (eu, inclusive) qualificando essas maiorias: a esmagadora maioria, a espantosa maioria, uma expressiva maioria, etc.

De qualquer forma, continua atento para esses fatos da linguagem, porque essa é a melhor maneira de estudar o próprio idioma; experimenta, contudo, inverter, a partir de agora, a direção de tua dúvida. Como linguagem é uma forma de comportamento, começa a indagar por que as pessoas agem assim ou assado; isso vai te fazer compreender muitos usos novos que andam por aí. É claro que se trata de um exercício de compreensão, e não de adesão obrigatória às novas maneiras de dizer. Se não gostas de grande maioria, não precisas usar; eu uso, mas os outros não têm nada a ver com isso — são várias possibilidades dentro da riqueza que é uma língua humana. Abraço. Prof. Moreno

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Conceitos lingüísticos Questões do momento

enfermeiro é doutor?

Professor Moreno, sou enfermeiro e trabalho em um posto de saúde. Encontrei no site do Conselho Federal de Enfermagem uma resolução que reproduzo abaixo e que me deixou confuso. Sua aplicação, creio, pode causar confusão em quem procura o serviço de saúde. Antes de fazer um novo crachá e um novo carimbo gostaria de saber se é legitimo o uso do doutor antes de meu nome. Minha categoria profissional não tem a tradição do uso (popularmente consagrado). Não haveria conflito de identificação para os pacientes? Confesso que até gostaria de ser chamado de doutor, mas não acho muito honesto como os pacientes.

José C.

Meu caro José: não sei se ela ainda está em vigor, mas essa resolução é uma das peças mais surrealistas que li neste ano (o texto vai reproduzido abaixo). O Conselho, além de fazer afirmações completamente equivocadas (o título de doutor jamais foi genérico para portadores de diploma de curso superior — só os médicos e os advogados costumam usá-lo, à moda deles, fora do sistema acadêmico de títulos, que só chama de doutor quem fez doutorado), realizou a proeza de atribuir direitos a si mesmo! Por que eles não decidiram, logo, autorizar os enfermeiros a usar o título de lorde ou de bispo? O mesmo disparate seria se o Conselho Regional de Engenharia fizesse o mesmo, ou o de Economistas, ou o de Contabilistas!

Tua hesitação em usá-lo é muito sábia; se leste o que escrevi em eu também quero ser doutor, conheces a minha opinião: de um lado, há o doutor quente, com curso de pós-graduação e defesa pública de tese; este é incontestável, seja ele psicólogo, dramaturgo, enfermeiro, cineasta, matemático, etc., e seu título é reconhecido legalmente no Brasil e no resto do mundo, gerando vários efeitos jurídicos — inclusive a capacidade de postular certas vagas que exigem essa titulação.

Do outro, há o doutor popular, forma cerimoniosa de tratamento dos médicos, dos advogados, de pessoas mais ricas, de poderosos em geral, neste país de imensos contrastes que é o nosso querido Brasil. O guardador de carros da minha rua sempre me chama de doutor, não porque conheça o meu trabalho na universidade ou minhas brincadeiras aqui no Sua Língua, mas porque, na óptica dele, quem tem carro é rico, e quem é rico é doutor. Nesse segundo doutor, teoricamente, cabemos todos nós, porque, se não somos tão poderosos ou ricos quanto um Ermírio de Morais, somos muito mais poderosos ou ricos que o pobre retirante que caça calango para matar a fome. Na pirâmide social, chamaremos de doutor quem está acima de nós, e assim seremos chamados por quem está abaixo — mas isso não se regula com portarias ou resoluções. Depende de uma intrincada rede de fatores sociolingüísticos, na qual intervêm, inclusive, traços de nossa relação subjetiva com nossos interlocutores. Eu trato todos os professores por tu ou você; alguns, no entanto, a quem respeito pela idade ou pela sabedoria, trato de professor. O mesmo acontece com os médicos: trato-os sempre na 2ª pessoa, exceto aqueles que, pelos mesmos motivos, prefiro chamar de doutor. Abraço. Prof. Moreno

Resolução COFEN-256/2001 Autoriza o uso do Título de Doutor, pelos Enfermeiros.

O Conselho Federal de Enfermagem-COFEN, no uso de suas competências e atribuições legais; CONSIDERANDO que o uso do título de Doutor, tem por fundamento procedimento isonômico, sendo em realidade, a confirmação da autoridade científica profissional perante o paciente/cliente; CONSIDERANDO que o título de Doutor, tem por fundamento praxe jurídica do direito consuetudinário, sendo o seu uso tradicional entre os profissionais de nível superior; CONSIDERANDO que a exegese jurídica, fundamentada nos costumes e tradições brasileiras, tão bem definidas nos dicionários pátrios, assegura a todos os diplomados em curso de nível superior, o legítimo uso do título de Doutor; CONSIDERANDO que a não utilização do título de Doutor, leva a sociedade e mais especificamente a clientela, a que se destina o atendimento da prática da enfermagem pelo profissional da área, a pressupor subalternidade, inadmissível e inconcebível, em se tratando de profissional de curso superior; CONSIDERANDO que deve ser mantida a isonomia entre os profissionais da equipe de saúde, e que o título de Doutor é um complemento, ou seja, um “plus”, quanto a afirmação de um legítimo direito conquistado à nível de aprofundamento de uma prática terapêutica, com fundamentação científica; Resolve: Art. 1º- Autorizar aos Enfermeiros, contemplados pelo art. 6º, incisos I, II, III, IV, da Lei 7.498/86, o uso do título de Doutor. Art. 2º- Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação, revogando-se disposições em contrário. Rio de Janeiro, 12 de julho de 200

[Nota minha: a pontuação e a sintaxe são originais]

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Questões do momento

curriculum vitae

Professor, é com muita satisfação que eu uso este excelente mecanismo  de esclarecimentos da Língua Portuguesa… O senhor poderia me dizer qual o pronúncia correta da expressão curriculum vitae ? E qual é o significado? Abraços cordiais.” Renato F. — São Paulo

Meu caro Renato: podes pronunciar /currículum víte/, com acento tônico nos dois “is“; se fores um perfeccionista, tenta dizer /víte/ com a vogal final aberta, mas sei que isso não é fácil, porque não temos esse fonema fora da sílaba tônica. Literalmente, significa “o percurso da vida”. Queres um conselho? Usa a forma aportuguesada currículo (sem a parte da vida); dessa forma, terás um plural fácil de formar (“examinei vários currículos“), ao contrário da forma latina, cujo plural é um estranhíssimo “curricula vitae“. Abraço. Prof. Moreno

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Questões do momento Semântica

absolutamente é negativo?

Caro Prof. Moreno, é com imensa satisfação que lhe dirijo esta pergunta: o uso do advérbio absolutamente deve ser restringido apenas a orações que expressem negação? Explico: enquanto lia seus textos — didaticamente maravilhosos —, deparei-me com esta frase: “O estranho, bizarro, absolutamente insano é dizer um clips!”. Bem, enquanto me preparava para um concurso, minha professora de Português me informou que o uso do advérbio absolutamente deveria se restringir, em suma, ao uso de orações que expressassem negação. Ela ainda usou como exemplo um apresentador de televisão, Jota Silvestre (acho que é assim que se escreve, pois não é do meu tempo), referindo-se a uma expressão usada pelo mesmo: “A resposta está absolutamente correta”. Segundo a professora, o uso de absolutamente nesse caso está incorreto, porque, sendo absolutamente igual a não, o apresentador estaria querendo dizer que a resposta estava errada, diferentemente do que ele pretendia na prática. Usando esse mesmo raciocínio, posso dizer que o senhor quis dizer não insano quando se referiu a um clips ?

Davi E. M. – Porto Alegre

Prezado Davi: Obrigado pelos elogios; continua meu leitor, que isso é elogio suficiente. Quanto aos “ensinamentos” da tua professora, talvez a tua memória esteja te pregando uma peça (ou foi mesmo a mestra que se equivocou). É verdade que nosso absolutamente, usado como resposta, é negativo, enquanto o absolutely do Inglês é positivo. À pergunta “Foi você que fez isso?”, se um brasileiro responder absolutamente, ele estará dizendo que não; se um inglês responder absolutely, ele estará dizendo que sim.

Fora desse contexto, no entanto, absolutamente, ao ser usado como advérbio de intensidade (principalmente junto a adjetivos), não traz nenhum sentido negativo. Desde o séc. XIV os bons escritores empregam esta construção. Em Eça de Queirós vamos encontrar absolutamente acompanhando os adjetivos profundo, belo, irresistível e necessário. Rui Barbosa fala do absolutamente falso, fortuito, legítimo e idêntico; Machado usa absolutamente impossível, desnecessário e popular — e teríamos literalmente centenas de exemplos para mostrar àquela professora. O “Absolutamente certo!” do J. Silvestre estava absolutamente (inteiramente) certo. Abraço. Professor Moreno

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Análise sintática Questões do momento

a persistirem os sintomas

Oi, Professor Moreno: estou no meio de uma grande polêmica na agência onde trabalho, pois temos que finalizar um comercial com a mensagem obrigatória do Ministério da Saúde… Os comerciais que estão no ar dizem o seguinte: “Ao persistirem os sintomas, o médico deverá ser consultado” (esse texto consta nas normas da Vigilância Sanitária). Eu acho que o certo é “A persistirem os sintomas, o médico…”. Gostaria de esclarecer definitivamente esse tema.

Andréa G. — Porto Alegre

Minha prezada Andrea, o problema é muito simples: trata-se de duas estruturas diferentes, e vocês deverão optar entre elas com base no que pretendem dizer. “A persistirem os sintomas” é uma estrutura CONDICIONAL; equivale a “se persistirem os sintomas“. “Ao persistirem os sintomas” é TEMPORAL; equivale a “quando persistirem os sintomas”. Não entendo de Medicina, mas nessa frase do Ministério da Saúde parece que o significado implícito é “se os sintomas persistirem”, embora o nexo temporal também tenha lá a sua lógica. Aliás, pergunto: por que vocês não usam o se ou o quando, que vai ser entendido por todos? O fato de teres feito esta consulta (e não foste a primeira!) indica que a interpretação não está muito clara para o leitor em geral. Por que insistir no “A persistirem“, que, apesar de correto, vai dar muito pano para manga? Abraço. Prof. Moreno

Pela volta do correio, a leitora respondeu:

Oi, Professor, obrigada pela dica. Concordo que poderíamos evitar uma polêmica maior substituindo o “A” pelo “Se“. Já fiz algo parecido… Deu o maior “bolo”. Não sabia, na época, que o texto era “imexível”. Fomos obrigados a usar o “Ao“, depois obrigados a trocá-lo pelo “A“. Muito obrigada pela ajuda. Abraços.

Como se depreende da narração de nossa leitora, o Ministério da Saúde não quis abrir mão de sua firme indecisão gramatical …

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Questões do momento

a nível de

Não um, mas dezenas de leitores escreveram sobre o famigerado A NÍVEL. Uns procuravam apoio a favor da expressão, outros (a maioria) pediam que o Doutor os ajudasse a combater esse cacoete. Com a resposta abaixo, espero esclarecer a todos.

(1) A solução simplista — Quando se discute a propriedade dessa expressão, alguns especialistas “da superfície” limitam-se a afirmar que não se usa A NÍVEL, mas sim ao nível ou no nível. Ora, como essa é uma solução prática e simples de aplicar — bastaria acrescentar o artigo definido “O” à preposição “A“, ou trocar o “A” pelo “EM” —, sinto-me, ipso facto, no direito de ficar indignado com essa multidão ignara que insiste em não aprender regra tão simples! Como se verá, não é tão simples assim…

(2) O significado de “nível” — Especialistas de maior substância, entretanto, não se contentam apenas com a indispensável presença do artigo, e fazem outra exigência para que a expressão seja aceita: como ela contém o substantivo nível, só deve ser empregada quando o significado deste vocábulo estiver presente:  Eu não vou descer ao nível dele. Isso deve ser decidido no nível estadual. A cidade foi construída ao (no) nível do mar. Seu caráter não está ao nível de seu gênio. A água chegava-lhe ao nível do rosto. Note-se que, em todos os exemplos acima, a expressão refere-se efetivamente a níveis, no sentido estrito do vocábulo: “altura, grau, categoria”. Todas essas frases implicam altura ou posição relativa de gradação — e na maioria delas a expressão supõe comparação. Frase que não satisfizer esse requisito semântico está mal construída, e não vai ser o simples acréscimo de um artiguinho definido o remédio que vai curá-la. No jornal da TV, dizia a patrulheira rodoviária, fazendo o balanço dos acidentes do feriado: “A nível de mortes, tivemos apenas quatro; agora, a nível de danos materiais, registramos 12 acidentes”. Se trocarmos o “a” por “ao“, essa pérola de frase vai ficar mais palatável? Deus me livre!

(3) O outro uso do “A NÍVEL” — A situação que descrevi acima parece bem clara; as gramáticas e dicionários são firmes e esclarecedores nesse ponto. O verdadeiro enigma, contudo, é a adesão maciça dos brasileiros àquele outro “a nível” que se ouve e se lê por toda a parte, onipresente, muito mais poderoso:

A relação dos dois funciona muito bem a nível de cama.  A greve deve ser avaliada a nível econômico. A nível das últimas estatísticas, podemos afirmar …  Esta escola tem problemas graves a nível de recursos materiais.  São dois produtos que não podem ser comparados a nível de preço.  As modelos brasileiras têm formas mais generosas a nível de busto.

Antes que algum boi-corneta, iludido com o tratamento ponderado que estou tentando dar a este assunto, venha me acusar de demagogo, quero deixar bem claro que todas as frases acima são uma tortura para meu ouvido e que eu JAMAIS escreveria assim. O que me desagrada nelas, todavia, não é o emprego da preposição isolada; afinal, já estamos acostumados a muitas outras locuções adverbiais com a mesma construção, como a propósito, a rigor, a respeito de, a exemplo de, a despeito de, etc. O que me assusta é ver que a locução A NÍVEL cresceu como uma dessas criaturas da Ficção Cientifíca que vão aumentando de tamanho à medida que devoram suas vítimas; ela está gigantesca! Para muitos de nossos conterrâneos, ela já engoliu em relação a, quanto a, no que se refere a, relativamente a, no que tange, no que respeita, no âmbito, numa escala, na esfera, com relação, referentemente a, no que concerne, do ponto de vista de — isso só de aperitivo! Por que essa preferência? Bom, dessa vez não dá para dizer que é “imitação do estrangeiro”, porque essa teoria ingênua pressuporia que todos — ou quase todos — estivessem expostos a línguas estrangeiras (ainda mais se considerarmos o fato de que esta locução teve a audácia de não vir do Inglês!). Fiquem sabendo que, lá fora, a gritaria é igual: os franceses reclamam do au niveau de — e não é de hoje! Le Bon Usage, o rigoroso guia de etiqueta escrito por Grevisse para o Francês, lamenta que a expressão tenha aparecido em meados do séc. XX e que tenha sido, desde então, empregada “a torto e a direito, no lugar de diversas outras preposições tradicionais”. Os espanhóis também vociferam contra o a nivel de, considerado por muitas autoridades como uma expressão “semiculta” (acho que é uma maneira delicada de dizer “semiburra”). O manual de estilo do estupendo El País (na minha modesta opinião, um dos melhores jornais do mundo) não tem meias palavras e simplesmente proíbe esse uso “degenerado” da locução. Não sei qual é a opinião dos especialistas italianos, mas sei que na Itália também viceja o a livelo de. Como uma aftosa lingüística, a expressão terminou disseminada por todas as filhas do Latim. Pergunto de novo: por que este cartaz todo?

(4) A chave do mistério? — A qualificação de “semiculta”, dada pelos espanhóis, parece uma boa pista. O segredo do sucesso desse A NÍVEL esquisito é (1) sua aparência de linguagem cuidada e (2) seu valor como chave-mestra, que serve em qualquer fechadura. Como certas peças de roupa caras, mas de gosto duvidoso (será que eu não canso de comparar a linguagem à vestimenta?), o A NÍVEL deixa o usuário confiante, orgulhoso, crente de que está abafando. É ilusão? Nem tanto; enquanto as pessoas que já afinaram seu gosto nos bons textos do Português sorriem da ingenuidade e da pretensão de quem usa essa locução tão brega (uns, menos pacientes, até esbravejam!), os que tiveram pouca leitura ficam impressionados com o ar “moderno” e “tecnológico” da inovação. Se isso já não bastasse para atrair multidões, some-se o fato de que o A NÍVEL poupa ao cristão o trabalho de conhecer todas aquelas locuções adverbiais usadas até agora pelos escritores e o incômodo de procurar, entre elas, a forma mais adequada para cada frase. Economia, brilho fácil, cores vivas, versatilidade — qualidades invencíveis no mercado das roupas e das palavras. Meus leitores vão concordar que o problema é, no fundo, a miséria vocabular. Se um dos que me lêem, movido por minhas palavras, resolvesse banir o A NÍVEL de sua vida e o trocasse, em todas as suas frases, por “quanto a“, ou “no que se refere a“, a pobreza seria a mesma. Nosso idioma generosamente oferece à nossa escolha uma série de formas e expressões para introduzir essa mudança no assunto (ou tópico) de que estamos falando; infelizmente, muitos de nós não querem (ou não sabem) aproveitar essa riqueza. Estamos com o A NÍVEL debaixo da mira só porque ele está vencendo; nós o detestamos porque ele representa a vitória dessa insensibilidade crescente para com as coisas belas — entre elas, as palavras. Abraço para todos. Prof. Moreno

P.S.: Para meditar: meu mestre, o professor Luft, escreveu: “Pessoalmente, não gosto de A NÍVEL, nem uso. Mas, e os outros com isso?”.

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Questões do momento Regência

entrega a domicílio

Às vezes eu me surpreendo (ingenuidade a minha!) com a veemência com que certas perseguições lingüísticas são desencadeadas em nosso pouco culto país. Vindas do nada, ondas de intolerância atravessam o pequeno espaço onde se discute nossa língua, banindo certas formas ou corrigindo outras já consagradas. “Não pode ser risco de vida, só pode ser risco de morte“, vociferam uns; “não existe televisão A cores; o que temos é televisão EM cores”, berram outros. “Está na hora DE O governo assumir”, exigem outros tantos; é errado dizer “está na hora DO governo assumir”, porque sujeito não pode estar regido por preposição (errados estão eles, mas isso fica para outro artigo).

E assim segue o desfile de bobagens pregadas em tom carrancudo e pretensamente erudito, sempre repressivo, policialesco, onde não posso deixar de perceber sempre, ao fundo, aquele espírito vingativo e invejoso das almas pequenas. Seus agentes são incrivelmente ativos, espalhados por toda parte: na área jurídica (já foi mais pretensiosa; agora começa a perceber, aos poucos, que a Língua Portuguesa não é assunto de sua competência), na área médica, na área política (pois não é que temos deputados federais metendo a colher torta em nosso idioma?), na imprensa — e como tem jornalista por aí dissertando sobre a Língua Portuguesa! E manual de redação de jornal servindo de base para estudos do idioma! Mas quem são eles, meu deus! Não se enxergam, não? Deveria ser obrigatório, em qualquer escola de jornalismo, o estudo do vocábulo ultracrepidário.

É claro que todos nós, independentemente do que fazemos para viver, podemos trazer valiosas contribuições aos estudos do Português — o médico, o jurista, o geólogo, o dramaturgo, o publicitário, até o jogador de futebol, todos podem iluminar um uso especial que ainda não foi registrado nos dicionários gerais, ou o significado de expressões técnicas, pertencentes a uma terminologia específica — mas cada um na sua competência. O açougue que entrega a carne na casa do cliente faz entrega a domicílio; nossos censores de plantão querem que seja “em domicílio”, por analogia com “em casa”. “Não se entrega a casa; logo, não se entrega a domicílio“. O professor Sírio Possenti, da Unicamp, acerta um direto no queixo desse raciocínio de jerico: se aqui está operando uma analogia, quem disse que o pólo correto é “entrega em casa“? Por que não considerar “a domicílio” como a base do modelo, e considerar errado “entrega em casa“? A resposta dos gramatiquinhos seria, indubitavelmente, “porque sempre se disse e se escreveu, no Brasil, em casa” — o que viraria imediatamente contra eles, porque também sempre se disse e se escreveu no Brasil “a domicílio“.

Não existe obrigatoriedade de uso da mesma preposição em situações de paralelismo semântico: volto A pé, volto A cavalo, mas volto DE carro, volto DE avião. Além disso, há várias estruturas sintáticas em que o A e o EM são intercambiáveis: a tempo, em tempo; em busca de, à busca de; na falta de, à falta de; em favor de, a favor de. E daí? Ninguém prometeu que a língua seria simétrica e lógica; ela é como ela é, nos seus secretos (mas sempre sábios) desígnios. E com o verbo levar? Leva-se EM casa, mas leva-se A domicílio (os portugueses usam entrega ao domicílio, levar ao domicílio).

Na verdade, a domicílio e em domicílio são duas iguarias totalmente diferentes que a língua está cozinhando. A preposição A que usamos em a domicílio é a mesma preposição que o Português geralmente seleciona para indicar movimento. Por isso, entrega-se, leva-se a domicílio. Assim confirmam Houaiss e Celso Pedro Luft, só para citar esses dois bambas. A preposição EM, por outro lado, é preferida para indicar permanência, local onde se está. O Decreto nº 94.406, que regulamenta o exercício de Enfermagem, diz que ao parteiro incumbe “assistir ao parto normal, inclusive em domicílio“. A Lei de Fiscalização de Entorpecentes, de 1938, diz, no Art. 28, que “não é permitido o tratamento de toxicômanos em domicílio“. Nossa Constituição fala, no Art. 139, V, em “busca e apreensão em domicílio“. O Art. 83 da CLT dispõe que “é devido o salário mínimo ao trabalhador em domicílio, considerado este como o executado na habitação do empregado ou em oficina de família”. E assim por diante. Agora sim: este em domicílio é genuíno; aqui realmente seria um absurdo oceânico tentar usar a preposição A. O trabalhador EM domicílio, uma das modalidades crescentes de emprego deste século, realiza suas tarefas ali onde mora; um trabalhador A domicílio iria realizar seu trabalho no local determinado por quem contratasse seu serviço.

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