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a maioria dos homens

Professor: tenho 12 anos e estou na 7ª série. Fiquei indignada com a correção que minha professora de Português fez na minha redação, considerando errada a concordância na frase “A maioria dos homens FICA ENCABULADA de fazer os exames de próstata”. Segundo ela, o correto seria ” maioria dos homens FICAM ENCABULADOS”. Ora, tenho quase certeza de que minha forma está correta. Pode haver outra forma para a mesma frase, como a professora sugere? Ou será que ela teria cometido uma falha grave?

Camilla S.

Minha cara Camilla: eu também prefiro a concordância com o núcleo do sintagma (“a MAIORIA dos homens FICA“), mas todos os gramáticos prescritivos concordam em admitir, também (ou seja: é uma “licença” que aqueles senhores “concedem” por causa do uso) a concordância com o termo periférico: “a maioria dos HOMENS FICAM”). Escrevi algo a respeito no meu saite, em concordância com percentuais. Só há um complicadorzinho no teu caso específico, que é o adjetivo encabulado. Se optarmos (como tu e eu) pela concordância com o núcleo maioria, o adjetivo fica encabulada — “A maioria dos homens fica ENCABULADA”, como escreveste — o que não soa tão bem, vamos confessar, quanto “a maioria dos homens ficam ENCABULADOS“. Talvez por isso a professora tenha preferido a concordância opcional com homens. De qualquer forma, o que escreveste está correto; resta saber se ela corrigiu por considerar “errado” ou por estar apenas aconselhando o que fica melhor na frase (coisa que eu faço a toda hora nas redações que examino). Fala com ela. Abraço. Prof. Moreno

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concordância com percentuais

Prezado professor, pediram-me que escrevesse um cartaz em que aparecia a frase:”20% da renda serão destinados a instituições de caridade“. Alguns colega de trabalho argumentaram que o verbo deveria estar no singular para concordar com renda. Como não chegamos a um consenso, resolvi mudar o cartaz para “Serão destinados 20% da renda a instituições….”. Um dia depois, alguém riscou o cartaz, trocando para “será destinado“, e anexou uma “regra” da gramática do Napoleão Mendes de Almeida explicando o assunto. Mesmo assim, entendo que o verbo no plural não esteja errado. O que o senhor acha?

Paulo — Porto Alegre

Meu caro Paulo: tu estavas com a razão desde o início. Na concordância com percentuais, tudo o que for igual ou maior que dois deve ser considerado PLURAL: “2,5% da quota valem muito”, “30% da assembléia votaram …”. É claro que aqui o elemento periférico do sintagma, que se liga ao núcleo por meio de uma preposição (quota, assembléia),  exerce uma forte atração semântica, o que leva muita gente a fazer a concordância com o periférico, e não com o núcleo: “2,5% da quota vale muito”, “30% da assembléia votou“. Todos os gramáticos também aceitam essa hipótese.

Tu já deves ter observado o mesmo fenômeno  com as expressões partitivas do tipo  “a metade dos alunos”, “grande parte dos eleitores”. A concordância normal é com o núcleo: “a METADE dos alunos FALTOU”, “grande PARTE dos eleitores se ABSTEVE”; contudo, é perfeitamente aceitável (e compreensível) “a metade dos alunos faltaram“, “grande parte dos eleitores se abstiveram“. Nota o que estou dizendo: é também aceitável; eu não disse preferível. Eu, particularmente, só faço a concordância com o núcleo, por várias razões que não cabe aqui discutir:

20% da renda SERÃO DESTINADOS a instituições de caridade.

20% da renda SERÁ DESTINADA a instituições de caridade.

As duas hipóteses estão corretas; contudo, a primeira é a determinada pela estrutura de nossa língua — e a que existe por “licença” de uso é a segunda. Se teus colegas preferem a segunda, tudo bem; tu, no entanto, podes ficar com a que escolheste.

Quanto ao Napoleão (autor que eu cito em vários pontos deste saite, sempre com adjetivos como “folclórico”, “peculiar”, etc.), não concordo com as regras dele sobre este caso de concordância. Entre os especialistas, ele é visto como um autodidata muito experiente, agudo observador do idioma, valente defensor da boa linguagem, mas cheio de idéias próprias (e, não raro, completamente fantasiosas). Ele às vezes dá no prego, mas muitas vezes dá na tábua. Eu já encontrei ótimas observações, tanto em  sua Gramática Metódica quanto em seu Dicionário de Questões Vernáculas — mas tive também várias confirmações de que o leitor leigo não consegue distinguir o que é confiável do que é mero palpite.

Achei divertidíssima a mudança que fizeste no teu cartaz: de “20% da renda serão destinados” passaste para “Serão destinados 20% da renda”! Trocaste seis por meia dúzia! A inversão da ordem sujeito—verbo para verbo—sujeito não tem efeito algum sobre a concordância — embora eu reconheça que essa inversão deve ter acalmado alguns de teus opositores, porque deixou o verbo  mais próximo do sujeito. Abraço. Prof. Moreno

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