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Acentuação Destaque

xiita ou xiíta

As regras de acentuação do Português são aplicadas em níveis diferentes. É por isso que XIITA não é acentuado como SAÍDA ou JESUÍTA, e DESTRÓIER mantém o acento que JIBOIA e PARANOIA perderam com o Acordo.

A regra que determina que o I tônico nos hiatos receba o acento agudo, como ocorre em saída ou ruído, não deveria ser aplicada para se acentuar o vocábulo xiita?

Luiz Fernando R. – Petrópolis (RJ)

RESPOSTA — Meu caro Luiz Fernando: realmente, o segundo I de xiita parece atender às três condições necessárias para que nele se aplique a regra do hiato: (1) é tônico, (2) vem depois de uma vogal e (3) está sozinho na sílaba. Acontece que esta regra — sem dúvida, uma das mais importantes de nosso sistema ortográfico, antes e depois do Acordo — não se aplica SE AS DUAS VOGAIS FOREM IDÊNTICAS. Nunca se deu muita atenção a esta ressalva porque as palavras envolvidas são raras e de uso pouco frequente, como vadiice, mandriice, paracuuba ou sucuuba. Na última década, no entanto, o vocábulo xiita — não no seu sentido original, para designar uma das correntes mais importantes do Islamismo, mas no sentido alternativo de “radical, ortodoxo” — passou a ser amplamente empregado no Brasil, o que torna bem oportuna a tua pergunta.

 P.S.: “E seriíssimo, como ficaria? Não temos aqui vogais idênticas?” —  pergunta Plínio N., membro do grupo Sua Língua, do Facebook.

RESPOSTA: seriíssimo, como toda proparoxítona, leva acento obrigatório; por isso mesmo, não vai ser examinada pela regra do I e do U, que ficam num nível inferior. Existe, no nosso sistema de acentuação, uma hierarquia de regras que pouca gente conhece. Funciona assim: no primeiro nível, opera a regra das proparoxítonas; toda palavra que se enquadrar nela será acentuada, e estamos conversados. As que escapam à primeira vão ser examinadas pela regra seguinte, das oxítonas e paroxítonas; novamente, as palavras atingidas por ela receberão acento, e estamos conversados. Finalmente, os vocábulos que não forem acentuados por estas duas regras passam pela terceira e última etapa, que reúne (1) a regra dos ditongos abertos em oxítonas (fiéis, dói) e (2) a famosa regra do I e do U em hiato. Exemplificando: bau e bauru são ignoradas pela primeira (não são proparoxítonas) e pela segunda regra (oxítonas terminadas em U não levam acento), mas na terceira etapa baú ganha acento, da mesma forma que saúde ou gaúcho.

Foi aqui que a ABL lamentavalmente derrapou: como o atual Acordo reformou a regra dos ditongos abertos (ficam acentuados só os oxítonos; os demais perdem o acento: heróico e paranóia tornam-se heroico e paranoia, por ex.), a primeira edição do VOLP eliminou erradamente o acento de destróier, sem se dar conta (mais tarde voltaram atrás) de que este vocábulo já tinha sido acentuado no segundo nível (é uma paroxítona terminada em R, como dólar  e éter).

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Acordo ortográfico Como se escreve Destaque Questões do momento

Bom dia!

“Bom dia!”, “Boa tarde!”, “Boas festas!”, “Bom jogo!”, “Bom almoço!”, “Boa aula!” ou “Bom enterro!”,  tudo isso se escreve SEM hífen. O “bom-dia” que está no dicionário é vinho de outra pipa.

Bom dia, amigos. Todo professor de Português sabe, por experiência, que aquilo que é dúvida para um geralmente é dúvida também para muitos. Pois ao longo deste ano, três diferentes leitores — Edmilson (de São Carlos), Lúcia (de Curitiba) e Deborah (de São Paulo) — trocaram correspondência comigo sobre a necessidade ou não de usar hífen em bom dia ou boa noite, problema que, acredito, já aflige muitos de meus leitores — ou vai terminar afligindo, porque, como se sabe, o hífen sempre vai ser a pulga da nossa camisola. Para pôr ordem na minha explicação, vou aproveitar a formulação das perguntas que recebi sem fazer a devida identificação de seu autor. Como veremos, ambas as formas — bom-dia ou bom dia — existem, mas correspondem a duas situações completamente diferentes.

(1) “Professor, não entendi exatamente o que os dicionários e o Novo Acordo estabelecem quanto à hifenização de bom dia. Quando se trata de um substantivo, não tenho dúvida em usar o hífen (Ele deu um bom-dia e saiu). Mas, e quando estou simplesmente cumprimentando alguém? Acho que o hífen não é necessário (Bom dia, papai!), mas muita gente defende o contrário, com base no que aparece nos dicionários. O dicionário Houaiss, por exemplo, hifeniza”.

(2) “Caro Professor, em uma mensagem eletrônica ou em uma carta, o cumprimento bom-dia deve ser hifenizado, não é? De acordo com o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, esta habitual saudação é vocábulo grafado com hífen. O Houaiss ratifica tal ponto de vista. Afinal, ao iniciar o dia, o bom-dia é um cumprimento, pois não? Posso pensar assim?”.

(3) “Professor, o Vocabulário Ortográfico registra o vocábulo bom-dia com hífen; achei estranho e escrevi para a Academia Brasileira de Letras, que agora mantém um serviço denominado ABL Responde, para perguntar se haveria alguma outra situação em que se pudesse usá-lo sem hífen. Sabe o que eles me responderam? Que bom-dia cumprimento sempre tem hífen, mas pode ficar separado em casos especiais — como passei um bom dia na casa de veraneio de meu irmão. Não é de amargar?”.

Em primeiro lugar, vamos deixar bem claro que a grafia deste vocábulo não sofre alteração alguma com o Novo Acordo, que não tocou neste assunto. Em segundo lugar, é fundamental que se leiam os dicionários tecnicamente, prestando-se atenção aos mínimos detalhes registrados no verbete. Tanto no Houaiss quanto no Vocabulário Ortográfico o bom-dia hifenizado vem seguido pela abreviatura “s.m.”, que indica tratar-se de um substantivo: “Ele me deu um bom-dia seco e mal-humorado”, ou “Deu um alegre bom-dia e foi sentar em seu lugar”. Neste caso, como bom substantivo que é, pode vir acompanhado dos acessórios de sempre (artigos, possessivos e adjetivos): “Já estou farto desses teus bons-dias cheios de segundas intenções”.

É evidente que isso nada tem a ver com o outro “Bom dia!”, aquele segmento de frase que dizemos quando encontramos alguém ou dele nos despedimos; como num iceberg, só lhe vemos a pontinha,  porque o resto da frase está elíptico: [Desejo que você tenha um] “bom dia!” — o mesmo fenômeno que ocorre com fórmulas de agradecimento como grato ou obrigado, que nada mais são que o final de sequências subentendidas: [fico-lhe] obrigado, [fico-lhe] grato.

Portanto, amigos, seja qual for a circunstância — carta, bilhete, e-mail, etc. — a saudação vai ser escrita sem hífen. É uma locução, ou seja, é uma sequência de vocábulos autônomos; ela pertence ao mundo da sintaxe, o que a  deixa fora da área de alcance do emprego do hífen, sinal que está restrito ao interior de um vocábulo composto. O “Bom dia!” com que abro a coluna de hoje é uma saudação da mesma tribo de “Boas festas!”, “Bons ventos!”, “Bom Carnaval!”, “Boa viagem”, “Bom almoço!”, “Boa hora” (que se diz para as gestantes), e assim por diante.

A diferença entre as duas situações fica ainda mais evidente se compararmos a concordância de gênero que ocorre em “Tenha uma boa tarde” (é uma locução; poderíamos inverter para “Tenha uma tarde boa“) com “Deixo aos ouvintes o meu boa-tarde” (neste caso, um substantivo composto masculino).