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Como se escreve Destaque Grafia de estrangeirismos Origem das palavras

espresso?

Os vocábulos importados são como estrangeiros que vêm morar no Brasil: uns já estão naturalizados, outros aguardam o deferimento do pedido e outros, finalmente, vão viver aqui sem mudar sua cidadania de origem.

Num ponto qualquer do litoral de Santa Catarina, pelas asas da internet, chega-me o pedido de ajuda de uma pessoa que me é muito cara: Elisa Prenna, dona do Chicafundó (não por acaso, o meu restaurante preferido), gostaria que eu respondesse, em nome dela, a um de seus frequentadores que reclamou do restaurante — não da comida, que é impecável, mas do Português empregado no menu que ela envia semanalmente por email. Inconformado com o café espresso que o Chica (assim chamado pelos mais íntimos) oferece ao fim de cada refeição, o amigo Cafezinho (à falta de um nome, vou chamá-lo assim), num estilo de dar inveja a qualquer espartano, escreveu: “Erro no fôlder. Expresso é com x. Favor verificar antes de enviar material divulgativo”. Elisa, que nunca cometeu a grosseria de ignorar uma manifestação de cliente seu, fez uso então de um velho contrato tácito que existe entre nós dois: ela me ensina a forma correta de queimar o açúcar do crème brûlée e eu, em troca, oriento seus passos nos pontos mais obscuros do vernáculo.

O problema, meu caro Cafezinho, é que muitos termos culinários estrangeiros ainda não foram (se é que um dia o serão) aportuguesados, como já aconteceu, por exemplo, com os termos usados no futebol. Fique tranquilo, que isso é natural: em todas as línguas do mundo, o vocabulário relativo à cozinha é como aquele espaçoporto do filme Guerra nas Estrelas, em que convivem representantes de todas as galáxias. No nosso caso, a situação dos termos que ingressam em nosso léxico é muito semelhante à dos indivíduos estrangeiros que vêm para o Brasil: uns já estão naturalizados, outros aguardam o deferimento do pedido e outros, finalmente, vão morar aqui sem alterar sua cidadania de origem.

Para não fugir do Chica, fui à sua página na internet (www.chicafundo.com.br) para colher exemplos. Dos que já foram aportuguesados, encontrei pudim, lasanha e nhoque (de pudding, lasagna e gnocchi, respectivamente). Do segundo caso, achei tortilla (tortilha), champignon (champinhom), goulash (gulache), curry (caril) e capuccino (capuchino) — as formas no parêntese já estão dicionarizadas, mas vai demorar muito até serem aceitas pela maioria dos falantes que conhecem esses alimentos. Finalmente, com pouquíssimas chances de vir a ser nacionalizadas, temos paella, chutney, bavaroise, couvert, pizza (as duas formas alternativas até agora propostas, piza e pitza, não convenceram), e sushi (adaptado ao nosso sistema ortográfico, só poderá dar suxi, que, convenhamos, é de fazer bacalhau chorar em porta de venda).

Seguindo o segundo modelo, não há dúvida de que espresso poderá um dia ser nacionalizado para expresso, como já vem ocorrendo em restaurantes mais populares. Ouvi, num bar da Rodoviária, alguém reclamar do tempo de espera: “Se é expresso, por que demora tanto?”. Ele certamente ignorava que o espresso, aqui no Italiano, não significa “rápido”, mas sim que o café foi feito sob pressão, numa máquina especial. Os estabelecimentos mais sofisticados, naturalmente, resistem a expresso assim como resistirão por muito tempo a champinhom ou a capuchino.

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Destaque Etimologia e curiosidades Flexão nominal

Blitzes

Onde os italianos dizem raviolo, ravioli, os brasileiros mudaram para RAVIÓLI, RAVIÓLIS; onde os alemães dizem blitz, blitze, os brasileiros estão mudando para BLITZ, BLITZES.

Há pouco mais de duas semanas, um aluno me questionou sobre a manchete que encontrou em jornal de grande circulação no país: “PM faz blitze sucessivas na favela”. “Confio no meu ouvido, professor, e ele me diz que aqui está faltando um S. O senhor não acha?”. Acho, e sempre achei — e ia começar a apresentar meus argumentos quando um segundo aluno, tão rápido no gatilho quanto interessado na matéria, interveio, triunfante: “Mas a palavra já está no plural! O jornal está correto! Blitze, em Alemão, é plural — e, pior, é masculino: um blitz, dois blitze“. Os dois olharam para mim, esperando o meu veredito (para os que preferem veredicto, forma também correta, lembro que não existe letra muda no sistema brasileiro; aqui na Pindorama, como no jogo do bicho, vale o que está escrito: quem escreve aquele C deve também pronunciá-lo) — como eu dizia, olharam para mim, esperando o veredito, e eu então me senti personagem de uma daquelas edificantes histórias orientais, um verdadeiro Confúcio dos trópicos, porque pude me ouvir respondendo: “Saibam vocês que ambos estão cobertos de razão”.

Tem razão aquele que aponta a origem alemã do vocábulo. Blitz significa “relâmpago”, mas aqui está sendo usado como parte da expressão Blitzkrieg (“guerra relâmpago”), conceito tático-militar que Hitler tornou tristemente famoso, e que meu fiel Oxford English Dictionary define como “ataque ou ofensiva desfechada subitamente, com grande violência, com o objetivo de reduzir imediatamente as defesas”. Os ingleses começaram a usar este termo nos anos 40, quando Londres vivia sob o constante fogo da Luftwaffe; no Brasil, há mais de trinta anos ele é usado pela nossa imprensa para designar as batidas que a polícia faz de surpresa, geralmente com efetivo e armamento reforçados. Pelo sistema morfológico do Alemão, o plural do nominativo é blitze.

Por outro lado, também tem razão aquele que sugere que o plural blitzes calharia bem melhor a nossos olhos e ouvidos. Afinal, uma das grandes vantagens do Português é o princípio básico (e extremamente salutar) que rege o sistema de absorção de vocábulos estrangeiros: qualquer palavra que entra em nossa língua deve acompanhar o comportamento das palavras nativas, assumindo os traços fonológicos, morfológicos e ortográficos a que estamos habituados. As estranhíssimas bazooka, maillot e gnocchi há muito circulam por aqui transformadas em bazuca, maiô e nhoque — o que é bom para os brasileiros, que assim não são obrigados a decifrar grafias exóticas, e para as próprias palavras, que podem agora andar por aí alegremente, sem temer o olho sinistro e acusador dos fascistas do idioma.

Como eu disse, ambos têm razão: blitz realmente é uma palavra estrangeira, que, na língua de origem, tem o plural blitze — mas, de tão usada que é, já deveria ter sofrido a nacionalização definitiva, assumindo o plural blitzes, como gizes ou narizes. Não interessa para nós o comportamento deste vocábulo no Alemão; aqui ele vai dançar conforme nossa música. Pouco se nos dá que enveloppe, no Francês, seja feminino; aqui ele virou masculino, e pronto. E não importa que, no Italiano, raviolo e gnoccho sejam o singular e ravioli e gnocchi sejam o plural; os dois  pratos atravessaram o Atlântico e viraram ravióli (plural raviólis) e nhoque (plural nhoques). Por isso, se blitz é masculino na terra de Goethe, aqui se tornou feminino, num processo totalmente inconsciente dos falantes, certamente influenciados por alguma característica sonora do vocábulo. Se a imprensa aderir à forma modernizada, estou certo de que poucos haverão de reclamar, pois estaremos, como se diz, passando a mão no sentido certo do pêlo do gato.

Depois do Acordo: pêlo > pelo

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Como se escreve Destaque Emprego das letras Questões do momento

tuitar

Antes que o estimado leitor desista de ler esta coluna, apresso-me em esclarecer que, apesar do título [alguns moderninhos escreveriam “de o título”, mas eu, para honrar os bons professores que tive, não posso cair nessa armadilha; a explicação está aqui] — apesar do título, repito, referir-se a um fenômeno da internet, pretendo tratar exclusivamente de assuntos de nosso idioma — aliás, como vem acontecendo aqui nesta coluna, sábado sim, sábado não, há quase oito anos. Marta de tal, revisora de texto (“mas de primeira viagem”, acrescenta ela, simpaticamente), quer saber como ficaria em Português o verbo relativo ao Twitter, atualmente uma das formas mais populares de relacionamento na internet. “Minha colega, também revisora, aportuguesou para tuitar, mas eu defendo twittar, respeitando a origem da palavra. Qual das duas o senhor prefere?”.

Nossa revisora — que, ao contrário de muitos de seus colegas, tem a rara virtude de confessar que está em dúvida sobre alguma coisa — acrescenta, na sua mensagem, que um professor de Pernambuco defende a mesma forma que ela, alegando que, sendo Twitter um nome estrangeiro, teríamos de aplicar aqui a “regra da nova ortografia que manda escrever com K, W e Y as palavras derivadas de um nome próprio estrangeiro escrito com essas letras”, como darwinismo (de Darwin) ou kardecista (de Kardec). Pois eu, prezada Marta, vou discordar de ti e do insigne professor, baseado em alguns princípios fundamentais que regulam o processo de aportuguesamento de um vocábulo estrangeiro.

Para os que não pertencem à tribo dos cibernautas, explico que o Twitter é uma rede social que nos permite enviar e receber mensagens curtas (apenas 140 toques — o que corresponde ao texto que escrevi do início deste parágrafo até o parêntese de abrir). Como essas curtíssimas mensagens podem ser comparadas a um breve pio, seus idealizadores batizaram a rede de Twitter, verbo do Inglês que, segundo o Oxford English Dictionary, é uma onomatopéia para designar exatamente a voz dos passarinhos. Pois aí já começa a inana: nos países de língua inglesa existe, para este verbo, a variante to tweet. Se simplesmente importássemos (meio à moda galega…) um desses verbos do Inglês, teríamos aqui uma escolha ingrata entre tweetar e twittar (não sei qual dos dois é mais horrendo). No entanto, se fizermos com eles — nota que não importa qual deles — a nacionalização que nossa língua costuma fazer com todos os vocábulos importados, ele vai ingressar aqui necessariamente como tuitar, significando “postar uma mensagem no tuíter“. Esta é a forma que recomendo, assim como recomendo tuíter também para o aportuguesamento do substantivo tweeter, nome dado ao alto-falante para sons agudos, vocábulo corriqueiro para quem trabalha no campo da sonorização de carros e de ambientes.

Outra coisa: aquele professor se refere a uma regra “da nova ortografia” que manda grafar com W os vocábulos derivados de nomes próprios estrangeiros. Para começar, essa regra é velha como a serpente. Sempre foi assim, desde o Acordo de 1943. O Novo Acordo, na sua desonestidade implícita, anunciou como novidade o que já era velho; sempre se escreveu shakespeariano, kleiniano, wagneriano, etc., seguindo o princípio absolutamente sensato de preservar a forma original dos grandes nomes das ciências e das artes que servem para batizar movimentos, teorias, correntes filosóficas e artísticas, incluindo aí vários epônimos médicos e técnicos que derivam do nome de seus inventores e pesquisadores. Se aportuguesássemos keynesiano para queinesiano — como costumamos fazer com os vocábulos comuns — seria muito difícil reconhecer, neste mostrengo, o nome de Lord Keynes, um dos mais importantes teóricos da história da Economia.

Não me parece, no entanto, que o twitter tenha esse perfil. Ele é apenas uma marca registrada estrangeira que, por sua popularidade, acabou se tornando um vocábulo comum em dezenas de idiomas (e por isso, a meu ver, já merece minúscula). Fenômeno similar ocorreu com Jeep, Teletype, Yo-yo ou Bakelite — que figuram alegremente em nossos dicionários como jipe, ioiô, teletipo e baquelite. Até mesmo nome de gente, quando não se enquadrar entre os nomes da ciência e do mundo da cultura a que nos referimos no parágrafo anterior, passa pelas devidas adaptações ortográficas ao ingressar em nosso léxico: por exemplo, de Lynch extraímos linchar, linchamento, etc.; de Boycott, boicote e boicotar. E assim por diante. Por tudo isso, acho que deverias ficar com tuitar, conjugando-o como um bom e pacato verbo regular: eu tuíto, tu tuítas, ele tuíta — ou, quem sabe, ele não tuíta, não tem vontade de tuitar e tem raiva de quem anda tuitando. A propósito: quanto a mim, eu tuíto, sim, com o codinome de @moreno_ — o que se lê, em bom vernáculo, “moreno anderlaine”.

Depois do Acordo: onomatopéia > onomatopeia

[da coluna O PRAZER DAS PALAVRAS – CADERNO DE CULTURA – ZH – 24/4/2010]

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Como se escreve Destaque Emprego das letras

portfolio, portfólio ou portifólio?

Paulo Ricardo, de Porto Alegre, andou pesquisando nos dicionários a grafia de portfolio e continuou com dúvida, porque encontrou também a forma acentuada  portfólio.

Meu caro Paulo Ricardo: a forma correta é portfolio — em itálico e sem acento, porque ainda é vocábulo do Inglês (assim registra o mais novo e melhor dicionário que temos em nosso idioma, o Houaiss). Se vier a ser aportuguesada (o que acredito que vai acontecer em breve, tamanho é o uso que se faz desse vocábulo na publicidade e nas artes gráficas), vai dar algo como portifólio, forma que, aliás, eu já uso há alguns anos. Nota que, nesse caso, a palavra passa a ter acento e um “i” para desmanchar aquele encontro consonantal [r+t+f], inexistente nos nossos padrões fonológicos. Aurélio-vivo, o da 2ª edição, registra porta-fólio, que tem lá sua lógica, mas é muito estranha. A forma portfólio — mais uma daquelas cruzas de jacaré com cobra-d’água, pois mantém a estrutura do Inglês, mas com o acento de nosso sistema ortográfico — veio registrada no confuso Aurélio-XXI, que introduziu várias novidades discutíveis depois que faleceu o mestre Aurélio Buarque de Holanda. Abraço. Prof. Moreno

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Como se escreve Destaquinho Emprego das letras

saite, mause e clique

Maneco V., do Rio de Janeiro, diz que tem recebido críticas por escrever alguns termos usuais na Informática da forma em que são pronunciados — saite, mause, clique, etc. — e gostaria de saber o que o Doutor pensa sobre isso.

Meu caro Maneco: tens recebido críticas de quem, cara-pálida? De professores de Português? Aposto que não. Estás apenas exercendo o direito à opção que todos nós temos, diante de vocábulos importados: ou nós os mantemos na forma original (em alguns cenários, isso pode ser até estratégico), ou nós os adaptamos ao sistema fonológico e ortográfico do Português (que é a tendência natural, pois nosso idioma já incorporou, com as devidas alterações, milhares de vocábulos provenientes de todo o mundo). Eu, por exemplo, só uso sítio, mas muitos de meus colegas usam saite; clique já está com verbete (e dos bons) no Houaiss. Mause vai demorar, mas é apenas questão de tempo (uma passadinha do Google me trouxe, agora, milhares de exemplos). Fica em paz, e segue fazendo o que preferires. Abraço. Prof. Moreno

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Como se escreve Emprego das letras

o X do xópin

1) Prezado Doutor: li sua resposta acerca das opções de uso, em língua portuguesa, para a palavra Shopping Center e fiquei curiosa… Por que a sugestão da escrita xópin, xópins? Não seria admissível escrever”chópim ou chópin? Por que a preferência pelo X, uma vez que são poucas (relativamente) as palavras portuguesas iniciadas com esta letra? E, ainda, por que o final da palavra seria com a terminação -in e não com -im, que parece ser muito mais comum na nossa bela língua?  Um grande abraço. 

 Márcia G. Nunes — Belo Horizonte.   

2) Caro Professor Moreno: lendo a matéria sobre o plural de shopping center e a possibilidade de um aportuguesamento, levantei duas dúvidas: (1) se existe uma tradução (centro comercial), seria necessário aportuguesar? (2) em caso de se decidir pelo aportuguesamento, não seria melhor escrevê-la com ch? Para dizer a verdade, me parece estranho esse aportuguesamento, mas enfim… Se acostumamos com futebol e com apagão, no lugar de football e blackout, poderemos nos acostumar com centro comercial no lugar de shopping center. Obrigada pela atenção.”

Rosinha — Rio das Ostras

Minhas prezadas leitoras: em primeiro lugar, quero deixar bem claro que prefiro a tradução centro comercial ao aportuguesamento xópin. Contudo, tenho certeza de que a maioria dos falantes não gosta de centro comercial. Nesse caso, assim como aconteceu com football>futebol, a tendência é passarmos de shopping para xópin.

Por que X, e não CH? A resposta é simples: porque é com X que costumamos nacionalizar os vocábulos estrangeiros grafados com sh: shilling>xelim; shampoo>xampu; shaman>xamã; Shangai > Xangai; Sherazade>Xerazade; Hiroshima> Hiroxima. Celso Pedro Luft aponta como um raro caso divergente o nosso chutar, proveniente do Inglês shoot, que deveria ter dado *xutar, mas não deu, e agora é tarde (. Se um dia vencermos nossas resistências e aportuguesarmos show, a forma resultante vai ser xou — a mesma usada pela Xuxa em seu famoso programa de televisão, que tantos bois-cornetas criticavam (cá para nós, mil vezes essa grafia, por esquisita que seja, do que a original, com seu SH e o seu W!).

Quanto à possibilidade de usar M no final, confesso que não me parece totalmente absurda a hipótese. Entretanto, prefiro o N pelo fato de todos os vocábulos terminados em -im serem oxítonos: capim, aipim, espadim, etc. Abraço para as duas. Prof. Moreno

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Como se escreve Emprego das letras

New York ou Nova Iorque?

Prezado Prof. Moreno: gostaria de saber qual é a tradução correta para New York; seria Nova Iorque? Nova York é aceitável ou errado? Existe realmente uma regra? Como ficaria para outras cidades, Nova Jérsei ? Muito obrigada. 

Denise Savaget — Rio de Janeiro

Minha cara Denise: ou usas New York, ou Nova Iorque (ou tudo em Inglês, ou tudo em Português); eu prefiro a segunda hipótese. Nem sempre poderás optar pelo aportuguesamento do nome, porque o processo de adaptar nomes geográficos só foi ativo até meados do século XVI. Depois disso, usamos os nomes como eles são lá fora. Iorque (a velha), no entanto, já era comum no Português, e a criação, na América, de uma cidade do mesmo nome, com o adjetivo Nova, não nos atrapalhou nem um pouco. Do mesmo modo Jersey/Jérsei, New Jersey/Nova Jérsei. Há cidades que só são chamadas por seu nome aportuguesado: Londres (e não London), Munique (e não München), Marselha (e não Marseille), etc. Outras, embora exista a forma aportuguesada, são chamadas preferencialmente pelo seu nome original: Nuremberg, Avignon, Canterbury (e não, como muito se sugeriu em Portugal, Nuremberga, Avinhão, Cantuária).

Friso um detalhe que talvez tenha passado despercebido: evitei, em minha resposta, falar em “tradução” do nome geográfico. É que Nova Iorque, por exemplo, é tradução só no que se refere ao adjetivo nova; Iorque é uma simples adaptação do nome estrangeiro ao nosso sistema ortográfico e fonológico. Assim também Londres, Bolonha, Marselha — não são traduções de London, Bologna e Marseille. Abraço. Prof. Moreno

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Como se escreve Emprego das letras

clipe de papel

Recebo da Maria Amália, de Teresina, uma curiosa pergunta: “A palavra clips tem singular? Não estou falando de “grampo”, mas sim daquele aramezinho dobrado que a gente usa no escritório para prender as folhas de papel”. Eu sei o que é, leitora; conheço bem esse engenhoso artefato de arame dobrado, hoje considerado uma das grandes invenções do Séc. XX, que serve para prender folhas de papel e tem mais mil outras utilidades, principalmente se desdobrado. Criado pelo noruguês Johann Vaaler e patenteado na Alemanha, é conhecido como clip (pl.: clips) nos países de língua inglesa; no Brasil, deve ser chamado de clipe (pl.: clipes). Por quê?

A forma das palavras que usamos segue determinados moldes próprios ao nosso idioma (certamente diferentes dos moldes presentes no Francês, no Inglês ou em qualquer outra língua). Por exemplo: enquanto os vocábulos do Inglês podem ter finais consonantais (get, cab, golf, proud, lag, stop, etc.), raras são as consoantes que podem figurar no final de um vocábulos do Português: L; R; S, X ou Z (/s/); e as nasais M e N.

Quando um vocábulo de outro idioma é absorvido pelo nosso, uma das principais marcas dessa assimilação é assumir ele o nosso molde fonológico, passando a circular entre as palavras nativas como se fosse de casa. Por exemplo: não temos S formando sílaba sozinho em início de palavra; por esse motivo, as palavras estrangeiras que ingressam em nosso léxico recebem um E que lhes dá uma forma viável: score, vinda do Inglês, vira escore; spaghetti, do Italiano, vira espaguete. Essa mesma vogal E, que é a grande “completadora” do Português, vai entrar no final das palavras importadas que terminem em consoante: club, turf, chic e lord viram clube, tufe, chique e lorde. É comum entrar a vogal simultaneamente no início e no final: stress e snob, por exemplo, viram estresse e esnobe.

O pequeno clip, portanto, também ganhou este E final quando foi nacionalizado: um clipe, dois clipes. Sempre pode haver um pedante saudosista que faça questão de usar o vocábulo ainda no Inglês; neste caso, vai ficar com um clip, dois clips. O estranho, bizarro, absolutamente insano é dizer “um” clips!

Outra coisa: esta adaptação fonológica de clip para clipe não leva em consideração o sentido em que estamos usando o vocábulo. Vale também para o clipe musical (que, se lembro bem, Jô Soares chamou de “música para surdos”). É a mesma coisa: o vocábulo é o mesmo (o Aurélio registra a forma clipe para ambos os significados). Abraço. Prof. Moreno

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Como se diz Como se escreve

recorde

Prof. Moreno: em todos os livros de Português, vejo a palavra recorde com a sílaba tônica assim: /reCORde/. Por que, então, nos telejornais (Globo, Record, Bandeirantes…) e em jornais de rádio, alguns conceituados como a Jovem Pan, além do Jô Soares, enfim… toda essa mídia, fala-se /REcord/e (puxado com a fonética do Inglês record)? Que salada! Por favor, qual, afinal, é a forma correta?

Geraldo.

Meu caro Geraldo: não existe a “forma correta”. Se considerares (como eu e a maioria dos que escrevem sobre nosso idioma) o vocábulo como já aportuguesado, vais defender /reCORde/; se, no entanto, ainda o considerares um vocábulo estrangeiro, vais defender /REcord/, com a tônica no /re/. Tanto no Houaiss quanto no Aurélio já se encontra a forma nacionalizada recorde, sem acento (portanto, paroxítona), com o “e” epentético no final. Tua hesitação, no entanto, é natural: todos os vocábulos estrangeiros que entram no Português passam por um tempo de indefinição, em que as forças mais progressistas defendem a forma adaptada e as forças conservadoras se plantam ainda na forma tradicional, estrangeira. Eu, por exemplo, já uso xópin, no lugar de shopping; e tu? 

Agora, por que tanta gente na mídia prefere a forma em Inglês, isso eu não sei responder não; posso apenas especular que deve se tratar de uma tentativa de soar chique, sofisticado. A vizinha da minha avó costumava dizer que ia ao /restorã/, quando falava no restaurante; seu marido, para combinar, só tomava /vermu/ (em vez de vermute) doce. Pode? Abraço. Prof. Moreno

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Como se escreve Emprego das letras

Gay ou Guei?

Caríssimo Professor, sou um grande admirador de seu trabalho na internet. Existe um sítio brasileiro sobre a homossexualidade que insiste em usar o termo guei e não gay. Eu acho isso um puritanismo lingüístico bastante nacionalista, bem extremista. Eu prefiro usar o termo reconhecido internacionalmente, e defendo o seu uso, pois acho que a palavra homossexual carrega um certo tom clínico nem sempre apropriado em meios sociais. Ademais, não sei de nenhuma palavra para gay em português que seja positiva, ou mesmo neutra — tudo me parece muito pejorativo. Seria um grande prazer receber um resposta sua. 

Paul B.  — Seattle, WA – USA

Meu caro Paul: gay é a forma internacional (acho melhor, porque é instantaneamente reconhecida), guei é uma forma que acrescenta ao significado já tradicional um nítido posicionamento nacionalista, como bem percebeste. Cada um se alinha entre as hostes que prefere, e a escolha das palavras ou da forma de grafá-las expressa também uma tomada de posição. Intitular-se gay é aderir a uma comunidade sem fronteiras; intular-se guei é, além disso, reforçar uma identidade nacional e, o que pode ser o caso, assumir uma postura politizada. Quanto à escolha entre gay (ou guei) e homossexual, não há dúvida de que são conotativamente diferentes (embora denotativamente idênticas); a segunda é a única forma aceitável, a meu ver, em textos filosóficos ou psicanalíticos, enquanto a primeira, além de ser a única cabível no discurso do quotidiano, é mais coloquial e descontraída. Nos guias de viagens vais encontrar a rubrica “hotel gay“, “boate gay“, mas seria impensável “hotel homossexual”, “boate homossexual”. Quanto ao léxico do Português, parece que realmente ainda não temos nenhuma designação para gay que não tenha coloração pejorativa — nem mesmo no vocabulário da comunidade GLS. Sabes muito bem, Paul, que a linguagem apenas espelha a cultura que lhe corresponde; se um dia ela mudar, o vocábulo aparecerá.  Abraço. Prof. Moreno