Categorias
Destaque Etimologia e curiosidades - Respostas rápidas Gênero

Azul e rosa

Nas cores, tudo são convenções — umas duráveis, outras efêmeras.

Qual é a cor do menininho, perguntam. E da menininha? Ainda vale a oposição azul para o gauchinho, rosa para a prendinha? Ora, diz o velho provérbio, cores e gostos não se discutem: enquanto no Ocidente a cor do luto é o preto, em muitos países do Oriente é o branco que tem este valor. Nossas noivas ainda se vestem de branco, mas na Índia elas preferem o vermelho e na Noruega elas casam de verde. Cada povo — e também cada classe social, cada grupo etário, cada possível agrupamento de indivíduos formado pelos infindáveis critérios de simpatia ou semelhança — difere dos demais nas cores que prefere, nas combinações que valoriza e no simbolismo que a elas atribui.

Há associações inconscientes, aparentemente sem motivo, ao lado de outras que parecem baseadas em razões concretas. O branco está naturalmente ligado à higiene e à saúde (nas ambulâncias, nos hospitais, na roupa dos enfermeiros). Por extensão, branca também é a pureza e a inocência (o vestido de noiva, a roupa do nenê no batizado) e a sabedoria benfazeja (os sábios da lenda sempre têm roupas e barbas brancas).

O amarelo, por sobressair sobre fundos escuros, é a cor por excelência de tudo aquilo que precisa ser chamativo (as bolas de tênis, os botes salva-vidas, as capas de chuva de quem trabalha na estrada). O verde, cor da natureza fecunda, é associado por analogia com a juventude, o que parece natural (nossos verdes anos) — mas, no imaginário popular, por alguma razão inexplicável, os homenzinhos que pilotam os discos-voadores são sempre verdes, assim como os duendes. O azul, cor do céu sereno, ficou naturalmente ligado à paz e à tranquilidade (o azul da Comunidade Européia; os capacetes azuis da Força de Paz; a expressão “está tudo azul”). O vermelho, que era a cor dos imperadores e da nobreza, é atualmente reivindicado pelos partidos de esquerda; por evocar o fogo, é também associado ao perigo (o alerta vermelho, a bandeira vermelha das praias), ao fogo (os caminhões de bombeiros, os hidrantes, os extintores de incêndio). E por aí podemos ir, explorando a aquarela.

No caso em questão − assunto momentoso para quem não tem o que fazer −, a associação hoje vigente é azul para meninos, rosa para meninas. Por que não é ao contrário? Ninguém sabe; há estudos que tentam explicar isso antropologicamente (a maior sensibilidade da mulher para nuanças de cores chamativas, adquirida pela necessidade primitiva de distinguir, na floresta e na savana, os vegetais comestíveis), mas tudo ainda é simples especulação. E desde quando? (afinal, como vimos, os valores mudam com o tempo). Os estudos sérios apontam as primeiras décadas do séc. 19 (ao contrário do propalado − e equivocado − trabalho de Jo Paoletti, que tenta demonstrar que até 1940 o costume corrente era exatamente ao contrário, azul para as meninas e rosa para os meninos). A Wikipedia, desta vez, faz um belo trabalho ao listar registros de revistas de moda e de etiqueta a partir de 1823 (aqui: https://goo.gl/TS21mB).

Na segunda metade do séc. 20, é verdade, a exploração comercial da diferença de gêneros contribuiu para reforçar o que era uma tendência inicialmente espontânea: a distinção entre produtos “masculinos” e “femininos” nas roupas e brinquedos de criança quase duplicou o mercado: até as bicicletas, bens que tradicionalmente passavam pela família inteira, deixaram de ser intercambiáveis entre irmãos e irmãs (eu, aos oito anos, já sabia que a blusa das meninas era abotoada do lado contrário da blusa dos meninos, mas não lembro qual era o lado “certo”). Foi aí que nasceu também a taxa rosa, aquele sobrepreço que onera inexplicavelmente a maior parte dos produtos femininos (um barbeador rosa, por exemplo, custa mais do que um azul − e a única diferença entre eles é a cor). Como vemos, tudo são apenas convenções − umas duráveis, outras efêmeras. Desde 1800, o bebê costuma usar no batizado um gorrinho branco, ou, no máximo, azul, se for menino,  ou rosa, se for menina  − mas nada impede que um orgulhoso papai ninja batize sua filha com uma touquinha preta. E como disse uma amiga minha: quando eu era bebê, usava rosa; agora sou mulher e uso preto, porque emagrece. E chega de nhenhenhém.

Categorias
Através dos dicionários Destaque Etimologia e curiosidades Etimologia e curiosidades - Respostas rápidas

Azulejo vem de azul?

Em etimologia, nem tudo que reluz é ouro, nem tudo que balança cai: pode parecer, mas AZULEJO não vem de AZUL.

O assunto foi levantado por uma professora da rede pública estadual de Santa Catarina, do município de Lajes, cujo nome, a pedido seu, não será mencionado: “Professor, sou uma grande fã sua e tenho certeza de que vai me ajudar. Um aluno me perguntou por que, ao lado do azulejo, que obviamente vem de azul, nós não temos também verdejo, branquejo ou vermelhejo. Acho que é brincadeira, não? Que resposta posso dar a ele?”.

Cara professora, a pergunta veio sacudir a árvore da memória e despertou-me a vaga lembrança de já ter tratado deste assunto. Embora conserve hábitos um tanto fora de moda ― escrevo preferencialmente a mão, com caneta tinteiro e tinta preta ―, aderi à informática desde o tempo do Windows 3.1, fazendo do computador um companheiro que só vou abandonar quando deixar este mundo. Usando de feitiço poderoso (na verdade, o Google Desktop), vasculhei os meus arquivos e encontrei, no início de 2000 (credo! já faz tantos anos!), um e-mail de nosso Luiz Achutti, enviado de Paris, comentando uma coluna em que eu afirmava, oblíqua mas claramente, que azulejo viria de azul. Dizia ele: “Escrevo apenas para dizer-te que vi ontem na TV uma matéria  sobre o Museu dos Azulejos  em Portugal. O cara lá pelas tantas falou que a palavra azulejo não veio de azul (como está implícito no teu artigo), mas sim de uma palavra árabe, de som parecido, que teria algo a ver com revestimento. Não lembro qual era a palavra do Árabe, mas espero que mesmo assim faças bom proveito da minha dica”.

A dica foi realmente valiosa; com a pulga atrás da orelha e um dicionário na mão, acabei confirmando que não há nada que ligue azulejo a azul, embora pareçam ser gente da mesma família. Corominas (conquanto seja um dicionário etimológico do Espanhol, sempre é útil quando estudamos formas compartilhadas entre os dois idiomas) diz que azulejo vem de al-zuleig ou al-zuleij (o al é apenas o artigo), que significa, aproximadamente, “pedrinha polida”, uma referência à arte dos mosaicos romanos, que os árabes conheciam tão bem. Por outro lado, azul, a cor, é uma forma reduzida de al-lzaward, vocábulo que o Árabe foi buscar no Persa e que você conhece como o segundo elemento de lápis-lazúli (do Latim lapis, “pedra” + lzaward, “azul”).

Embora haja um marcante predomínio do azul nos ladrilhos portugueses, todas as outras cores sempre estiveram presentes. Numa descrição da China, em 1520, o viajante informa que “As casas são ladrilhadas de azulejos de muitas cores“. Em 1603, Fernão Mendes Pinto (1603) descreve “um coruchéu [campanário] de azulejos de porcelana muito fina brancos e pretos“. Já no séc. 18, contudo, o bom Bluteau se encarregava de espalhar a falsa etimologia em seu dicionário: “azulejo – “espécie de ladrilho envernizado, com figuras ou sem elas; há brancos e verdes, mas pela maior parte são azuis, e desta cor tomou esta obra o nome“. Sendo ele o grande nome que foi em nossa lexicografia, desconfio que tenha contribuído ― e muito! ― para espalhar esta lenda.

 

Categorias
Etimologia e curiosidades Origem das palavras

as palavras e as cores

Diz o velho provérbio que cores e gostos não se discutem: enquanto no Ocidente a cor do luto é o preto ou o roxo, em muitos países do Oriente é o branco que tem este valor. Nossas noivas ainda se vestem de branco, mas na Índia elas preferem o vermelho, na Noruega elas casam de verde. No que se refere ao mundo das cores, cada povo difere dos demais nas suas preferências, nas combinações que valoriza e no simbolismo que a elas atribui; é natural, portanto, que as expressões que usam os nomes das cores não possam ser traduzidas literalmente de uma língua para outra. Vemos, abaixo, as principais expressões “coloridas” empregadas no nosso idioma.

branco — Na nossa cultura, associamos ao branco a pureza e a inocência (o vestido de noiva, a roupa do nenê no batizado, etc.), a higiene, a saúde e a limpeza (ambulâncias, hospitais), a sabedoria (os sábios da lenda sempre têm roupas e barbas brancas, os cientistas sempre usam guarda-pós); por causa do preto no branco da imprensa, esta cor também designa o que está sem marca alguma (livro em branco, cheque em branco). 

expressões com branco: a bandeira branca indica trégua; as armas brancas incluem facas, espadas e lâminas de toda espécie; se autorizo alguém a fazer tudo o que for necessário, dou-lhe carta branca; quem pratica magia branca só admite fazer o bem; na greve branca, os empregados se declaram em greve, mas continuam trabalhando; versos brancos são os que não têm rima; se não saiu premiado, é um bilhete branco; se nenhum dos candidatos da cédula foi assinalado, temos um voto em branco; posso ficar branco de medo ou de susto.

verde — O verde é a cor da esperança e, naturalmente, da natureza e da ecologia; por analogia com o crescimento dos vegetais, também simboliza a juventude. Em certos casos, contudo, pode sinalizar algo demoníaco (o monstro verde do ciúme, de Shakespeare) ou estranho (os homenzinhos que pilotam os discos-voadores são, no imaginário popular, sempre verdes, assim como os duendes). 

Expressões com verde: quem recebe sinal verde tem autorização para prosseguir; a adolescência são os saudosos verdes anos; chamamos de fruta verde toda fruta que não está madura, independentemente de sua cor verdadeira; a Amazônia foi apelidada de inferno verde pelos viajantes europeus do séc. XIX; fica-se verde de inveja (embora alguns também fiquem roxos); as verdinhas são as notas de dólares, que têm a mesma cor em todos os valores, e o pano verde designa as mesas de jogos de azar.

amarelo — É a cor, por excelência, do que precisa ser chamativo (as bolas de tênis, os botes salva-vidas, as capas de chuva de quem trabalha na estrada); está associada à luz e ao sol, ao fogo e à energia — mas também à palidez do medo e da doença. 

Expressões com amarelo: A imprensa amarela (também chamada de imprensa marrom) explora o sensacionalismo; perigo amarelo era como a contrapropaganda chamava os asiáticos (especialmente chineses e japoneses); um sorriso forçado, contrafeito, é o famoso sorriso amarelo, enquanto amarelar é se acovardar.

azul — É a cor do infinito e de tudo o que está distante (o azul do horizonte, o mar azul); por sua presença no céu, ficou associada à paz e à tranqüilidade (o azul da ONU, da Comunidade Européia; os capacetes azuis da Força de Paz). Hoje está muito ligada à água, como se vê na embalagem de qualquer água mineral. 

Expressões com azul: quem pertence à nobreza tem sangue azul; receber o bilhete azul é ser demitido; pescar na água azul é pescar fora da plataforma continental, no mar profundo; quando tudo corre bem, está tudo azul; quem se deixa seduzir pela ambição foi mordido pela mosca azul.

negro — No Ocidente, sempre foi a cor da noite, da morte e da tristeza; por ser austera, associou-se também à autoridade (basta ver as vestes dos padres e dos magistrados; até bem pouco tempo atrás, o juiz de futebol usava sempre fardamento preto). Modernamente, traz também um aspecto de elegância: os homens usam smoking e black-tie, enquanto as mulheres portam o seu “pretinho básico”. 

Expressões com negro: a magia negra, ao contrário da branca, quer sempre prejudicar alguém; na lista negra, só entram os nomes que vão ser vetados ou boicotados; a ovelha negra da família destoa do grupo por seu comportamento reprovável; o câmbio negro (assim como o mercado) era clandestino, mas já não é tão combatido, passando a ser chamado de paralelo; o ouro negro é o petróleo, e continente negro era como se chamava a África.

vermelho — Era a cor dos imperadores e da nobreza, do sangue e da paixão; hoje também está associada ao perigo (o alerta vermelho, a bandeira vermelha das praias), ao fogo (os caminhões de bombeiros, os hidrantes, os extintores de incêndio), aos partidos de esquerda e ao que precisa ser assinalado na escrita (as correções feitas pelo professor, os lançamentos negativos na contabilidade). É considerada a cor favorita das crianças, que sempre preferem balas, doces, bebidas e brinquedos nessa cor. 

Expressões com vermelho: Estender o tapete vermelho para alguém é recebê-lo com todas as pompas e honras; Marte é o planeta vermelho; um telefone vermelho é uma ligação direta entre duas autoridades; levar o cartão vermelho é ser expulso, ser mandado embora (até de um namoro); quem tem saldo devedor está no vermelho; fica vermelho quem ainda tem a capacidade de ruborizar-se.

outras cores — É pequena a sua contribuição: vê a vida cor-de-rosa quem olha a realidade com um otimismo ingênuo e exagerado; uns têm muita, outros têm pouca massa cinzenta (o cérebro); podemos ficar roxos de vergonha, de fome ou de frio; ter aquilo roxo é ter coragem para dar e vender. Por último, chamamos de vida incolor ou descolorida aquela que é vivida sem graça e sem entusiasmo. 

Depois do Acordo: tranqüilidade > tranquilidade

européia > europeia