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Mudanças na ortografia [6° de 10]

A base de nossa ortografia atual é o Acordo de 1943, implantado por Getúlio Vargas como parte de seu plano de modernizar o país. Antes dele, o brasileiro podia escolher entre diversas maneiras de representar por escrito as palavras do idioma, numa verdadeira babel ortográfica. Hoje é difícil imaginar como seria viver assim, com diferentes sistemas convivendo anarquicamente nas páginas dos jornais, nos livros, nos dicionários e, o que era pior, nos bancos escolares. Foi o Acordo de 1943 que trouxe ao país a unidade que hoje conhecemos, criando um modelo estável que sofreu, em 1971, apenas um pequeno retoque (friso que foi a única modificação ocorrida de 1943 até hoje):

(1) foi suprimido o raríssimo trema que indicava hiato (escrevendo gaüchismo, assinalaríamos que a pronúncia desejada era /ga-u-chis-mo/ e não /gau-chis-mo/, além de evitar que algum leitor tomasse o vocábulo como um derivado de gauche —”esquerda”, em Francês — e lesse /gochismo/;

(2) foi suprimido o acento subtônico dos derivados em –mente e em –zinho (escrevia-se gêniozinho, sòmente, cafèzinho, espontâneamente);

(3) foi suprimido o acento circunflexo diferencial dos pares com E ou O aberto e fechado (gêlo:gelo, almôço:almoço; tôda:toda; mêdo:medo).

Sucinto como deve ser, o texto desta minirreforma gastou apenas um parágrafo para definir os três acentos que deviam ser suprimidos do sistema de 1943 — e pronto.  Em vez de seguir a mesma prática de indicar apenas as supressões, o Acordo assinado este ano é um amontoado de regras desordenadas, mal concebidas e redigidas de maneira pedestre. Os participantes desta amaldiçoada comissão dedicaram-se à tarefa completamente redundante de dizer, de novo, tudo o que 1943 já tinha conseguido dizer de forma mais clara e organizada. A conseqüência é a falsa aparência de complexidade que o texto assume para o leitor não-especializado, que não percebe, por trás desse palavreado cheio de farofa, que a montanha está parindo um esquálido ratinho. Pois esta é a razão de ser da coluna de hoje: definir, com clareza, o que mudará — para o Brasil, para nós, para mim e para você, meu caro leitor — o que mudará, repito, se a comunidade aceitar este novo modelo e consagrá-lo pelo uso.

Para nós, brasileiros, é importante esclarecer que este Acordo só inova, com relação ao modelo de 1943, na acentuação e no emprego do hífen; o emprego das letras fica exatamente como sempre foi. Na acentuação, ocorre a supressão de algumas regras hoje vigentes — e só; no uso do hífen, a comissão propõe mudanças cujas conseqüências ela própria desconhece. Faço questão de assinalar que este artigo seria totalmente diferente se fosse destinado ao leitores portugueses, pois as mudanças que eles vão ter de engolir são de outra ordem e calibre.

Mudanças na acentuação — As regras que vão ser alteradas são poucas e de escassa importância:

1 — Hoje se acentuam os hiatos tônicos ÊE, ÔO: vôo, abençôo, relêem, dêem, etc. O Acordo suprime esta regra: voo, abençoo, releem, deem.

2 — Hoje se acentuam os ditongos abertos éi, éu, ói, onde quer que eles estejam: jibóia, heróico, paranóia, geléia, idéia; réu, herói, dói, réis. O Acordo só mantém esse acento nas oxítonas: réu, herói, dói, réis, troféu, mas jiboia, heroico, paranoia, geleia, ideia, assembleia, apoiam, etc.

3 — Tendo em vista que a letra U — quando colocada entre Q e E, Q e I, G e E, G e I — pode ter três valores diferentes, utilizamos hoje um sistema tripartite que indica claramente quando ela é muda, tônica ou átona: (1) se é muda, fica sem marca (quilo, guerra); (2) se é tônica, leva acento (argúi, argúem); (3) se é átona, leva trema (pingüim, agüenta). O Acordo pretende eliminar esta regra inteirinha, escrevendo tudo sem acento ou trema: quilo, guerra, argui, arguem, pinguim, aguenta. O leitor certamente entenderá que estamos falando de grafia; a pronúncia das palavras não muda, nem pode mudar. Por isso, mesmo que um dia se escreva linguiça (assim, sem trema), o U continuará a ser pronunciado obrigatoriamente.

4 — Hoje se acentuam o I e o U tônicos quando vierem depois de vogal ou ditongo e estiverem sozinhos ou formando sílaba com S: juízes, gaúcho, saíste, reúno, feiúra, baiúca. O Acordo apenas suprime o acento quando a vogal vier depois de ditongo decrescente: continuamos a escrever juízes, gaúcho, saíste e reúno, mas passamos a escrever feiura, baiuca, gaiuta, bocaiuva, reiuno.

5 — Caem os acentos diferenciais de pélo(s), péla(s), côa(s), pólo(s), pêra e (não consigo entender por quê!) o de pára. Continua o de pôr e pôde, e torna-se facultativo o de fôrma, antiga reivindicação de mestre Aurélio Buarque de Holanda. 

Mudanças no hífen com prefixos — Aqui as mudanças propostas atingem um número muito maior de palavras e parecem obedecer a um princípio mais racional. Os futuros desdobramentos que essas regras terão, contudo, não podem ser avaliados enquanto a Academia não editar o novo Vocabulário Ortográfico. As alterações mais importantes são as seguintes:

1 — Usaremos hífen quando o prefixo terminar por vogal idêntica à que inicia o segundo elemento: anti-inflamatório, micro-onda, micro-organismo, neo-ortodoxo. Se as vogais forem diferentes, contudo, não há hífen: antiestático, microindústria, neoexpressionismo, infraestrutura, autoestrada.

2 — Usaremos hífen sempre que o segundo elemento começar por H: geo-história, mini-hospital, sub-habitação, co-herdeiro.

3 — Não há hífen quando o prefixo terminar em vogal e o segundo elemento iniciar por R ou S; como sempre fizemos em casos semelhantes, o R ou o S serão duplicados: contrarregra, autosserviço, contrassenha, neorrealismo, ultrassom, antissemita.

Em princípio, caro leitor, é isso aí. A partir de 2009, os documentos oficiais vão ter de se submeter bovinamente ao novo estilo; nós, os outros, ainda teremos ainda três anos de carência, durante os quais — como ardentemente espero — a sociedade civil do Brasil e de Portugal vai acabar rejeitando essas alterações insensatas. Os editores ingênuos, que hoje ainda alimentam a fantasia de que a unificação trará a abertura de novos mercados, virão juntar-se a este coro de descontentes no momento em que perceberem que um original brasileiro, para ser publicado em Portugal ou na África, continuará a exigir uma trabalhosa adaptação ortográfica, já que Acordo, ao admitir demagogicamente dezenas de regras “facultativas”, não unifica coisíssima nenhuma. Vocês vão ver.

Depois do Acordo: conseqüência > consequência

[artigo publicado em 25/10/2008. O lançamento do VOLP pela Academia Brasileira de Letras, em março de 2009, não altera em nada o teor do que aqui foi escrito]

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O que muda na ortografia? [5° de 10]

Depois de demonstrar, com uma mancheia de exemplos, que a tão propalada unificação da grafia é um mero delírio de amadores, que vai terminar como a famosa Batalha de Itararé — “a que não houve” —, vamos ao que interessa: o que vai mudar em nossa ortografia, se o Acordo entrar em vigor? Para mim, para meu leitor, para nós, os aflitos, que mudanças a reforma trará? Pouca coisa, eu diria — mas o suficiente para perturbar a quem está quieto em seu cantinho e para inutilizar todas as bibliotecas escolares de que dispomos. O fato do texto — nota para os zoilos de plantão: não acredito que alguém aí fora ainda pense que é de bom-tom escrever “o fato de o texto“! Cruz, credo! Gramática neles! — o fato do texto do Acordo, repito, ser extenso deve-se mais à prolixidade e ao estilo pedestre de quem o redigiu do que propriamente ao número de mudanças introduzidas. A nós, brasileiros, caberiam as seguintes novidades:

(1) o desaparecimento do trema e do acento agudo no U, nos ambientes “G_E”, “G_I”, “Q_E” e “Q_I”; hoje escrevemos pingüim, argúi, averigúem, seqüestro, que passariam a pinguim, argui, averiguem, sequestro, como em Portugal.

(2) O desaparecimento do circunflexo nos hiatos EE e OO; zôo, vôo, abençôo, lêem passariam a zoo, voo, abençoo, leem, como em Portugal.

(3) O desaparecimento, nas paroxítonas, do acento nos ditongos abertos EI e OI. Heróico, lambisgóia, diarréia, geléia passariam a heroico, lambisgoia, diarreia, geleia — mas continuaríamos a acentuar as oxítonas: céu, réu, dói, herói, papéis — tudo exatamente como é lá na pátria do mestre Álvaro Siza (o qual, como era de esperar de sumidade tamanha, também gostaria de mandar às urtigas este Acordo chinfrim).

(4) O desaparecimento do acento no U tônico, depois de ditongo: em vez de baiúca, gaiúta e bocaiúva, passaríamos a escrever baiuca, gaiuta e bocaiuva — como é na terra de Camões e do bacalhau à Gomes de Sá.

(5) A eliminação dos acentos diferenciais de pélo, pélas, péla (v. pelar); pêlo(s); pólo(s), que passariam a pelo, pelas, pela; pelo(s); polo(s). Aqui, absurdamente, o acento de pára (v. parar), sempre útil, também seria condenado.

Além disso, haverá também movimentações no misterioso pântano do hífen; várias das regras atuais, incompreensíveis e contraditórias, serão substituídas por outras tantas, da mesma laia. Neste passo, o Acordo acrescenta esta obra-prima de imprecisão: “Certos compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a noção de composição”, grafam-se sem hífen, entre eles mandachuva, paraquedas, paraquedista, etc. — deixando-nos a matutar sobre quem serão as certas pessoas que vão determinar os certos casos em que se perdeu, em certa medida, a noção de composição… Esse nó Górdio só vai ser cortado quando — e se — for publicado um Vocabulário Ortográfico oficial (só o Português tem essa aberração jurídico-lingüística…), que aponte para o brasileiro comum o que é pão e o que é queijo.

Enquanto isso, lá do outro lado do Atlântico, os nossos irmãos portugueses estarão enfrentando as suas mudanças — sim, mudanças que valem só para eles, mas que para nós não trazem novidade alguma. Por exemplo, eles vão deixar de escrever aquelas consoantes que escrevem, mas não pronunciam: Egipto, acção, afectivo, colecção, exacto, adoptar passarão a ser escritos de acordo com a pronúncia culta do Português Europeu: Egito, ação, afetivo, coleção, exato e adotar. Herva e húmido passarão a erva e úmido (como já é aqui). E assim por diante.

Como o leitor deverá ter percebido, o Acordo realmente trabalha em nome de uma aproximação recíproca: as concessões que o Brasil e Portugal farão, embora sejam diversas de um país para o outro, tendem a eliminar as diferenças entre os dois sistemas, diferenças, aliás, que têm raízes históricas: Portugal adota o modelo de 1945, que foi formalmente assinado e ratificado pelo Brasil, mas rejeitado pelos brasileiros, que voltaram ao Acordo de 1943, ainda vigente por estas bandas. Na óptica dos burocratas que defendem a Reforma, será dado mais um passo (um pequeno passo que leva a uma longa marcha, diria o presidente Mao…) para a unificação, mas é muito pouco — e muito caro. A montanha vai parir um mísero ratinho, num parto caríssimo que vai sobrecarregar, em nome de uma utopia irresponsável, o nosso raquítico sistema educacional e acarretar uma renovação obrigatória de todas as bibliotecas escolares. Nos governos corruptos do passado, poderíamos até supor que os verdadeiros beneficiados com a reforma fossem as grandes editoras, de olho nessas reedições milionárias, e os funcionários do MEC encarregados das licitações. Felizmente tudo mudou, e o atual governo é austero e incorruptível como nunca Dantas, digo, dantes “nesse” país… 

Depois do Acordo: lingüística > linguística

[artigo publicado em 19/07/2008, muitos meses antes do lançamento do VOLP pela Academia Brasileira de Letras. Tudo o que foi escrito neste artigo continua valendo — inclusive as críticas]

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Esqueçam essa reforma! [2° de 10]

Na coluna anterior, já qualifiquei de apressada e desnecessária essa reforma que, se for aprovada, vai fazer com que os brasileiros (mais) e os portugueses (menos) mudem sua maneira de escrever. Antes de prosseguir, contudo, acho melhor mostrar aos meus leitores as modificações anunciadas.

Primeiro, ela propõe que nosso alfabeto passe a incluir também as letras k, w e y. Isso muda alguma coisa? Não, porque seu uso obedecerá às mesmas regras de hoje: só nos símbolos científicos internacionais e nos vocábulos derivados de nomes próprios (shakespeariano, darwinista, keynesiano, etc.). A novidade é que, fazendo parte do alfabeto oficial, a escola deverá ensinar às crianças o lugar que essas três letras ocupam na ordem alfabética.

Outra área em que haverá inovação é a das chamadas consoantes mudas. Quanto a elas, nada vai se alterar para os brasileiros. Elas permanecem nas palavras em que sempre foram pronunciadas, como em compacto, ficção, convicto, adepto, apto, eucalipto, núpcias, etc.; são consideradas facultativas nos vocábulos em que há divergência entre as normas cultas dos dois países (aspecto ou aspeto, dicção ou dição, facto ou fato, sector ou setor, ceptro ou cetro, corrupto ou corruto, recepção ou receção, amígdala ou amídala, amnistia ou anistia, sumptuoso ou suntuoso), aliás, como sempre aconteceu, numa convivência para lá de pacífica; finalmente, desaparecem nas palavras em que são mudas — o que significa que Portugal e os países africanos vão ter de eliminá-las de palavras como acção, afectivo, acto, director, exacto, adoptar, baptizar; no Brasil, elas não são usadas desde 1943.

Na acentuação é que o ônus da mudança é mais pesado para o Brasil, pois deixaremos de aplicar algumas regras que Portugal já não adota há muito:

(1) seriam eliminados os acentos que marcam o ditongo aberto em palavras como jóia, heróico, idéia, assembléia;

(2) desapareceriam o trema e o acento agudo no U, depois de G e de Q, em palavras como sagüi, lingüiça, seqüestro, argúem, averigúem;

(3) seria eliminado o acento circunflexo dos hiatos ÊE, ÔO (vêem, vôo, enjôo, relêem).

Continuam facultativos, como sempre, (1) o acento da 1ª pessoa do plural do pretérito perfeito (na pronúncia lusa, amámos e levámos, para distinguir de amamos e levamos, do presente do indicativo); (2) o acento agudo ou circunflexo sobre o E ou o O, nas palavras em que há divergência quanto ao timbre: acadêmico, académico; Antônio, António; Amazônia, Amazónia; fenômeno, fenómeno; gênio, génio; fênix, fénix; ônix, ónix; fêmur, fémur; sêmen, sémen; tênis, ténis; Vênus, Vénus; bônus, bónus; bebê, bebé; caratê, caraté; guichê, guiché; e muitas mais.

A meta obsessiva é diminuir ao máximo as diferenças entre Portugal e Brasil, cobrando de cada país sua taxa de sacrifício. Considerando a unificação gráfica do Português como um valor supremo — o que é perfeitamente discutível, se considerarmos o preço que se vai pagar por isso —, a reforma não hesita em limar aqui, aparar ali, lixar acolá, numa sucessão de “retoques” que parecem feitos por quem não é do ramo. Isso fica muito claro nas mudanças na acentuação, insignificantes para trazer uma verdadeira melhora no sistema, mas amplas o suficiente para perturbar a vida de todos nós.

Na verdade, deveríamos ou deixar tudo como está, ou eliminar o acento de uma vez por todas. Na primeira hipótese (a mais econômica), daremos ao sistema atual o tempo indispensável para sua maturação; o trabalho que começou em 1971 deve prosseguir por mais cem anos, no mínimo, quando então ele estará consolidado, infiltrado até mesmo no movimento da mão que traça as palavras, perfeitamente assimilado por brasileiros que já terão nascido dentro dele, sem ter conhecido o sistema de 1943 ou anteriores. A segunda hipótese é muito mais radical e trabalhosa, pois exigiria um grande esforço de todos os já alfabetizados, obrigando-os a evitar, no texto escrito, as armadilhas de interpretação que hoje o acento se encarrega de desfazer — mas projetaria um futuro muito mais simples para os netos de nossos netos, pois teriam muito maior facilidade em dominar o sistema ortográfico. Não duvido que custo fabuloso dessa mudança fosse compensado, a médio prazo, pela maior eficiência dos programas de alfabetização.

O que não tem cabimento é continuar usando acentuação mas mudar algumas regras em nome de uma unificação que é utópica e impossível, pois, considerando o grande número de formas facultativas que foram mantidas, os livros do Brasil e de Portugal continuarão a ser diferentes. A unificação ortográfica, que era a razão de ser da reforma, cai como um castelo de cartas — sem falar nas incontornáveis diferenças lexicais entre um país que apregoa “berbequim para betão ao desbarato” de outro que anuncia “furadeira para concreto em oferta” — e estão falando da mesma coisa.

[publicado em 19/05/2007 – A Reforma, como sabem, entrou em vigor em 2009, e todos puderam ver que a alteração introduzida na ortografia foi pequena demais para simplificar nosso sistema, mas grande o suficiente para enriquecer as editoras]