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palimpsesto

Prezado Doutor: li numa crônica que a vida humana é um palimpsesto, mas meu dicionário diz que é uma espécie de pergaminho. Pode ter outro significado?

Maria Susana C. Porto, Portugal

Prezada Maria: não sei qual dicionário andas usando, mas aconselho-te a trocar por algum mais completo — talvez o Houaiss, que acaba de ser lançado aí em Portugal, numa edição especial, ou o próprio Aurélio, que também tem substância. É verdade que o palimpsesto é uma espécie de pergaminho, mas essa informação que o teu dicionariozinho traz é tão insignificante quando afirmar que o camelo é um mamífero, tal qual a vaca e a ovelha: ficou faltando o mais importante, que é a diferença!

Os palimpsestos são pergaminhos que, depois de lavados e raspados para apagar o texto primitivo, são reutilizados para outro texto; o próprio nome já diz: palim (Grego, “de novo”) e psestos (“raspar”). Deves saber que o pergaminho sempre foi caro e escasso, já que é, nada mais, nada menos, que o couro de uma ovelha ou de uma cabra beneficiado e aparado para formar uma grande folha de escrever. Os monges copistas da Idade Média (deves ter assistido ao filme O Nome da Rosa , que retrata muito bem esse mundo anterior a Gutenberg), na falta de material para trabalhar, muitas vezes recorreram a esse expediente de reciclar o material já usado.

O processo era muito simples, dadas as características naturais dos pergaminhos: estes eram couros curtidos, lavados, raspados cuidadosamente com lâminas especiais e com pedra-pomes, e depois branqueados com gesso ou cal. Para reutilizá-los, bastava lavá-los com uma solução alcalina, para remover a tinta, e poli-los mais uma vez com pedra-pomes. Do ponto de vista prático, era muito mais rápido e econômico reciclar um pergaminho usado do que fabricar um novo.

Podemos avaliar quantas obras importantes não foram apagadas para que se copiassem tratados ou comentários que, na cabeça do ingênuo copista, valia mais a pena preservar! Além disso, estudos modernos sugerem que a Igreja primitiva também se aproveitou desse costume para estabelecer uma forma de censura prática: obras dos autores “pagãos” da Antigüidade iam sendo substituídos por textos religiosos e edificantes. Felizmente as técnicas medievais não eram muito avançadas e não conseguiam remover totalmente o pigmento da tinta do texto primitivo, permitindo que aparelhos modernos de radiografia e de infravermelho “leiam” o que está escrito por baixo do texto atual. Por exemplo, foram descobertos, debaixo das inocentes páginas de um livro de rezas, vários textos inéditos de Arquimedes sobre Matemática; grande parte da obra De Re Publica, de autoria de Cícero, que era considerada perdida, foi achada sob o texto de um livro de Santo Agostinho. Sabe-se lá o que ainda poderá ser encontrado, nos museus e nas bibliotecas, debaixo do texto de centenas de milhares de folhas manuscritas!

Agora, na tua crônica, o autor estava usando uma metáfora bem conhecida para a vida humana: todos nós seríamos esse conjunto de inúmeras camadas superpostas, nem sempre visíveis a olho nu, que foram se acumulando ao longo de nossa existência; todos nós somos “palimpsestos”, escritos e reescritos continuamente. É uma imagem literária tão bonita que chego a hesitar em estragar o final deste artigo com uma observação mordaz, mas, como sabes, o Doutor não se agüenta, e precisa te informar que outro belo exemplo de palimpsesto humano é o Michael Jackson. Desculpa o mau gosto. Abraço. prof. Moreno

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