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Como se escreve Emprego das letras

O nome do Y e do W

Como é, em Português, o nome das letras W e Y? Dabliú e ipissilone não é nome em Português, ou é? Obrigado. 

Odilon d’Almeida — Curitiba

Meu caro Odilon: apesar das controvérsias, o nome do Y é mesmo ípsilon, com as variantes populares bem conhecidas de ipsilone, ipissilone ou até mesmo “pissilone”, como se pode ver nos pitorescos ABCs da Literatura de Cordel. Caldas Aulete (o genuíno, o da 1a. edição) não hesita: ípsilon. Antônio Geraldo da Cunha, no seu Dicionário Etimológico, acompanha: ípsilon. Gama Kury faz coro: ípsilon. Celso Pedro Luft, meu mestre, no seu incomparável Grande Manual de Ortografia, é taxativo: é ípsilon. E lá do fundo da mata Antenor Nascentes vive repetindo: ípsilon. O pusilânime Vocabulário Ortográfico da Academia registra também as variantes ipsilo e ipsílon — assim mesmo, paroxítonas! — completamente exóticas ao nosso uso, adotadas hoje por alguns poucos excêntricos desgarrados. 

Uma das maiores virtudes do velho Aurélio Buarque de Hollanda era o sólido bom-senso, a qualidade suprema de um bom lexicógrafo. No entanto, desta vez me entristece ver o Aurélio, que foi durante muito tempo meu dicionário favorito, fazer aqui uma mixórdia inaceitável. O Aurélio-vivo (até a 2a. edição) registra ipsilone, ipsilão e ipsilo, mas escolhe como forma canônica a esquisitíssima hipsilo (!) — para terminar reconhecendo, entre parênteses, no final do verbete, que a forma corrente é ípsilon. O Aurélio-póstumo, no entanto, já elege como preferida a forma ipsílon (com a tônica em /si/!), plural ipsílons. Ao final, remata com a mesma observação de que a forma corrente é ípsilon, mas classifica de “imprópria” esta prosódia. Ora, essa observação é completamente inadequada em termos lingüísticos; se a forma corrente é ípsilon (ressalto que é corrente entre os falantes cultos, como, aliás, atestam as opiniões dos autores que citei no parágrafo acima), é esta, e não as outras, a preferível. Esse é o critério válido para as palavras vindas do Grego, que vão apresentar no Português uma prosódia que muitas vezes nada tem a ver com a pronúncia original. Já escrevi sobre isso no artigo sobre clítoris ou clitóris, mas aproveito para repetir o que diz a esse respeito José Inez Louro, um prudente especialista português, em seu O Grego Aplicado à Linguagem Científica: “só por um acaso a sílaba tônica grega continua a ser tônica no Latim ou no Português”. Se no jogo do bicho vale o que está escrito, em prosódia vale o que está sendo dito — “e todo mundo conhece o ípsilon, de dizer ou ouvir dizer” (Luft). 

O W é mais pacífico. A forma mais usada é dáblio, embora também apareçam, nos dicionários, as formas paralelas dable-u, dabliú, doble-vê ou vê-duplo. A oportunidade de pronunciar o nome desta letra multiplicou-se por mil com a implantação da Internet, já que a maioria dos domínios da rede mundial começa por WWWditos dáblio, dáblio, dáblio. Nesse caso, temos mais sorte que nossos vizinhos castelhanos, que se enredam tanto com o “uve doble, uve doble, uve doble” que muitos já se limitam a dizer “triple uve doble“. 

Para terminar, faço questão de incluir aqui a letra de “A, E, I, O, U”, a famosa marchinha de Noel Rosa e Lamartine Babo, em cujo estribilho os autores manifestam sua preferência pela variante dabliú (atenção à rima):

A, E, I, O, U, W, W, 

Na cartilha da Juju, Juju.

A Juju já sabe ler

A Juju sabe escrever

Há 10 anos na cartilha,

A Juju já sabe ler

A Juju sabe escrever

Escreve sal com cê-cedilha”.

 

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Fonologia Lições de gramática

pronúncia de BMW

Fernão P., de São Paulo, queria saber como se deve ler a marca alemã BMW: é /bê-ême-dáblio/ ou /bê-ême-vê/? Na resposta que lhe enviei, recomendei a pronúncia /bê-eme-dáblio/, baseado no que escrevi em o nome do Y e do W. Afinal, é o nosso hábito ignorar a origem das siglas estrangeiras e atribuir-lhes uma leitura genuinamente nacional. Já falei nisso alhures, a propósito de CD (Compact Disc) e de LP (Long Playing), que entraram aqui pronunciadas como qualquer vocábulo nosso — /cedê/ e /elepê/ — e não /cidi/ ou /elpi/, como soam no Inglês.

Foi o que bastou: dois habituais correspondentes escreveram para reclamar da pronúncia à brasileira. Ambos — Alfredo Boeira e Glenda Chaves — sustentam que a pronúncia deve seguir o Alemão, idioma nativo desta marca de carro: /bê-em-vê/. Além disso, ambos (parece coisa ensaiada!) jogam em cima de mim o exemplo do simpático DKW, carro dos anos 60, que a maioria chamava de “dê-cá-vê“, e não “dê-cá-dáblio“. Admito que o exemplo calou fundo, e sou obrigado a aceitar a mesma coisa também para o BMW. No entanto (não achavam que ia ser assim tão fácil, não é?), contesto que as pessoas que dizem /bê-eme-vê/ o façam por fidelidade à língua alemã. Em primeiro lugar, lêem o M como /eme/, e não como /em/, como no Alemão; em segundo lugar (e muito mais importante!), não usam aqui o nome da letra no Português (dáblio) pela simple razão, que só agora me ocorreu, de que lemos o W de todas as siglas como /vê/: WC, para water closet, deveria ser lido /dâbliu-ci/, seguindo o Inglês, ou /dáblio-cê/, seguindo o Português, mas aqui é /vê-cê/ mesmo; WO, para walkover (no Inglês, uma corrida em que só há um cavalo inscrito e que só tem de cumprir a formalidade de caminhar pela pista, até ultrapassar a linha de chegada), deveria ser lido /dâbliu-ou/ ou /dáblio-ó/, mas aqui é /vê-ó/ mesmo. Ou seja: o nosso uso não segue exatamente o que a lógica indicaria, e sabemos que, em confrontos desse tipo, o uso é sempre soberano. Eu continuo pronunciando o nome de cada letra, em Português (/bê-eme-dáblio/), mas começo a sentir que essa não é a música que a maioria está dançando. Sou obrigado a admitir que a leitura /bê-eme-vê/, longe de ser estrangeira, também tem raiz nos hábitos e costumes de nosso idioma e, pelo que conheço de Lingüística, vai terminar suplantando a outra, que é mais lógica do que intuitiva. Abraço para todos. Prof. Moreno

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