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Lições de gramática

soer

Caro Doutor: Saúde e Paz! Como conjugar e usar com propriedade o verbo soer, tão pouco conhecido da nossa gente?

Reverendo C. L. S. — Botucatu (SP) 

Meu caro reverendo, o verbo soer é conjugado exatamente pelo modelo do verbo roer. A única — e importante — diferença é que soer é considerado um verbo defectivo no presente do indicativo; falta-lhe a primeira pessoa do singular: eu […], tu sóis, ele sói, nós soemos, vós soeis, eles soem. Como a pessoa que falta é exatamente a formadora do presente do subjuntivo, este tempo inexiste, na sua totalidade. Enquanto temos, para roer, “que eu roa, tu roas, ele roa, nós roamos, vós roais, eles roam“, o verbo soer não possui pessoa alguma neste tempo do subjuntivo.

Soer já foi um verbo muito freqüente no Português do séc. XVI (Camões usava muito), com o sentido de nosso costumar: “No tempo em que os homens soíam respeitar sua palavra”. No entanto, hoje seu emprego ficou praticamente restrito aos textos e discursos eruditos, em expressões mais ou menos pré-fabricadas do tipo “como sói acontecer”, “como soía ocorrer”. Sempre que tiveres dúvidas sobre a conjugação de algum verbo, meu amigo, eu te recomendo que consultes o Aurélio ou o Houaiss na Edição Eletrônica (para computador), que dá a conjugação de todos os verbos de nosso idioma. Abraço. Prof. Moreno

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Lições de gramática Verbos - conjugação

explodo?

Prezado Professor: faço traduções de filmes, na área de legendação, e preciso traduzir a seguinte frase: “Find something for this kid to do before he blows up“, ou seja “ache algo para esse garoto fazer antes que ele exploda”. Sei que o verbo explodir é defectivo. O Aurélio diz que essa conjugação não existe. O Manual do Estadão também a proíbe. Só que Houaiss, em seu dicionário, conjuga o verbo em todos os tempos e explica que, embora seja considerado defectivo, tem sido usado com conjugação completa, incluindo-se aí o expludo, da primeira pessoa do singular. O que faço?

Arnaldo P. — Miami Beach, Flórida

Meu caro Arnaldo: quem tem o Houaiss do seu lado, o que poderá temer? Como já tive a oportunidade de ressaltar várias vezes, os verbos defectivos sempre o são apenas temporariamente, isto é, até as formas consideradas “inexistentes” passarem a ser usadas pelas novas gerações de falantes, que teimam em continuar nascendo. Na ordem (temporal), primeiro veio o Aurélio, mas depois veio o ouaiss, sem dúvida o melhor dicionário jamais publicado sobre nosso idioma (incluindo os portugueses). Eu não hesitaria duas vezes: fica com explodo, exploda — e trata de desconfiar sistematicamente do Manual do Estadão. Esses manuais são feitos por jornalistas de pouca ciência e muita opinião; são úteis para padronizar o jornal lá deles, mas quase nada valem no mundo aqui fora e não servem como fonte a ser citada em caso de polêmica.

Outra coisa: eu ainda não tive a oportunidade de empregar esse verbo, e confesso que não sei se gostaria de conjugá-lo; talvez, se tivesse de traduzir a frase daquele filme, eu optasse por um rodeio do tipo “ache algo para esse garoto fazer antes que ele possa explodir”, ou “se você não encontrar algo para esse garoto fazer, ele vai explodir”, e coisas do gênero. No entanto, se eu decidisse usá-lo, minha preferência recairia em explodo, no Presente do Indicativo, com o conseqüente exploda do Presente do Subjuntivo. Embora Houaiss registre ambas as formas (explodo e expludo), uma passada pelo Google nos aponta 95 ocorrências de expludo e 230 de expluda, contra 1210 de explodo e 8.690 de exploda. Nota que não se trata de decidir entre o certo e o errado por meio de um plebiscito (que, para cada voto que desse para a peça Édipo Rei, de Sófocles, daria 1.000.000 para qualquer novela de televisão); trata-se apenas de verificar, já que a forma existe, qual é a direção de tendência. Abraço. Prof. Moreno 

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Lições de gramática Verbos - conjugação

eu compito?

Caro professor, tenho dúvida quanto à conjugação de alguns verbos, principalmente daqueles considerados anômalos. Apostei com um amigo meu que existe, sim, a conjugação do verbo competir, na primeira pessoa do singular (eu compito). Já busquei a resposta em várias gramáticas, mas até agora não consegui nada. O senhor poderia me ajudar nesta questão?” 

Antonio M. S. — Cuiabá (MT)

Prezado Antônio: em primeiro lugar, deves estar falando em verbos defectivos — aqueles que normalmente não são usados em todas as suas formas. Anômalos são apenas dois — ser e ir —, que foram compostos pelos radicais de três verbos diferentes (compara sou, és e fui, por exemplo).

Quem decide se um verbo é normal, com a conjugação completa, ou defectivo? É aqui, Antônio, com o perdão da expressão grosseira, que a porca torce o rabo: o critério é a sensibilidade do gramático que elabora a lista. Uns acham que emerjo é horrível, e põem emergir na sua lista; outros consideram essa forma absolutamente normal. A maioria dos gramáticos (e Aurélio também) diz que adequar só deveria ser conjugado, no presente, nas formas arrizotônicas (adequamos, mais o inútil adequais); no entanto, a forte pressão do uso está tornando comum eu adequo, tu adequas (com o U tônico); o dicionário do Houaiss atribui-lhe conjugação completa, embora, para meu espanto, prefira adéquo, adéquas, etc. 

Ora, como podes perceber, o critério estético é absolutamente subjetivo; se fosse por feiúra, eu votaria na inexistência de cri (de crer), freges (de frigir), de remedeio (remediar), entre outros, que são feios como a necessidade. Além disso, o que alguns acham inaceitável para colorir (eu coloro, por exemplo, é condenado), aceitam para colorar (verbo, aliás, que eu nunca tive a oportunidade de usar). Compara a lista elaborada por dois gramáticos quaisquer, e verás grandes divergências entre elas.

Quanto ao teu competir, com certeza é conjugado em todas as suas formas, exatamente como repetir: repito, repetes, repete; compito, competes, compete (Bechara). Quando eu era criança, ouvia muito aqueles “ensinamentos” totalmente furados, vindos de professores sem qualquer formação lingüística, que viviam dando palpites sobre nossa língua; alguns ridicularizavam (?) compito com um trocadilho infame, “eu com pito e tu sem pito” — podes ver que sua pouca ciência estava aliada a um humor de terceira… Fica em paz, Antônio: ganhaste tua aposta. Abraço. Moreno

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o verbo adequar

Prezado Professor: Leio sempre sua página, adoro suas dicas, utilizo-as em minhas aulas até na Universidade. Parabéns! Gostei também de saber que se emociona com a palavra lazúli (quem não o faz, bom coração não terá…risos…) Mas ajude-me numa dúvida que tenho: o verbo adequar — muito usado por autoridades em cerimônias de inaugurações — ficaria, na terceira pessoa do singular, adéqua (com a tônica no /é/) ou adequa (com a tônica no /u/)? Penso que a última forma seria a mais correta, dada a situação anômala do verbo, mas gostaria de uma confirmação. Obrigada pela sua atenção.   

Olga M.—  Itajaí-SC

Minha cara Olga: Obrigado pelos cumprimentos; continua minha leitora, que isso já é um elogio suficiente. Quanto ao adequar, temos um problema: os gramáticos o classificam como um daqueles verbos defectivos que só pode ser conjugado nas formas arrizotônicas. Não para ti, que és professora, mas para os outros leitores, explico que estas são as formas cuja vogal tônica fica fora do radical (leVAmos, leVAis), ao contrário das rizotônicas (LEvo, LEvas, LEva, LEvam). Isso nos deixaria, no presente do indicativo, apenas com o nós adequamos, vós adequais. Para que os alunos entendam rapidamente, basta assinalar que este verbo, segundo a opinião dos gramáticos (é bom deixar isso bem claro: opinião), não poderia apresentar nenhuma das formas em que a tônica seria o U (adequo, adequas, etc.).

Ora, como bem sabes, esse negócio de verbo defectivo é muito uma questão de uso e de época; gramáticos tradicionais implicavam com o compito, do competir, que hoje é aceito pela maioria dos autores. Acho que o mesmo está acontecendo com o adequar; vai terminar sendo aceito por todos como um verbo completo. Talvez esse consenso demore um pouco, mas a resposta sobre a prosódia correta deste verbo já foi dada de antemão, pela própria restrição que hoje ainda (?) se aplica a ele: “não deve ser usado nas formas em que o U for tônico“! Está dito com todas as letras: o U é tônico; ele vai ter (ou já tem?) a mesma conjugação do obliquar, que é obliquo, obliquas, obliqua. Houaiss prefere adéquo, adéquas, adéqua, mas aceita também adequo, adequas, adequa (com o U tônico), que eu prefiro. Eu, pessoalmente, evito conjugá-lo porque, como tu sabes, os olhos e ouvidos estão sempre focados na linguagem do professor de Português, mas não vejo o menor inconveniente de conjugar este verbo integralmente no presente do indicativo. Abraço. Prof. Moreno