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Destaque Formação de palavras Origem das palavras

vernissagem

Vernissagem é um vocábulo de origem francesa que designa o dia da inauguração de uma exposição de arte; geralmente consiste numa festividade reservada para convidados escolhidos e para a imprensa. Este seleto público que freqüenta AS vernissagens tem assim uma espécie de elegante pré-estréia da exibição (acompanhada de uma indispensável boca-livre, é claro,  que ninguém é de ferro).  O vocábulo — literalmente “envernizagem” — vem do Francês vernis (o nosso verniz) e remonta ao velho costume de dedicar o dia anterior à abertura de uma exposição para os artistas aplicarem o verniz protetor nas pinturas a óleo ou fazerem os últimos acabamentos em seus quadros.  Na Inglaterra, sempre tão metódica em seus registros, sabe-se que essa tradição vem desde 1809, quando foi oficialmente instituída pela  Royal Academy of Arts. Conta-se, inclusive, que um dos maiores paisagistas ingleses do século passado, o famoso Turner, aproveitava esse dia para fazer mudanças substanciais em suas pinturas.

Um pouco antes da Guerra de 1914, o termo francês vernissage começou a se difundir nos meios artísticos ocidentais, inclusive nas Américas, trazendo com ele o fascínio e o charme da  Belle Epoque. Seu processo de entrada no nosso idioma foi o mesmo de milhares de outros vocábulos importados: primeiro, ingressou aqui como turista, sendo facilmente reconhecível por sua indumentária estrangeira (seu gênero era  masculino e ostentava uma terminação em –age, inexistente no Português).  Depois, no entanto, como os nacionais simpatizassem com ele e o convidassem a fixar residência aqui, abandonou o seu ar gaulês e adotou uma aparência genuinamente vernácula: adaptou sua terminação para o portuguesíssimo –agem e, ipso facto, passou ao gênero feminino — exatamente como fizeram os seus conterrâneos mirage, sabotage, bagage, fuselage, entre muitos outros, que se transformaram em miragem, sabotagem, bagagem, fuselagem. Todos vivem hoje pacificamente ao lado de nossos ferragem, camaradagem, carceragem, vantagem e mais centenas de outros substantivos nativos que têm o mesmo sufixo, sem que puristas xenófobos corram atrás deles com o dedo acusador.

Depois do Acordo:

freqüenta > frequenta

estréia > estreia

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Formação de palavras Lições de gramática

parassíntese

Professor, gostaria muito de saber qual o processo de formação da palavra infelicidade. Obrigada pela atenção.”

Andreza Santos 

Minha cara Andreza: considerando (1) que essa palavra tem uma estrutura mais do que evidente [IN+FELIZ+IDADE]; e (2) que os meus leitores jamais escrevem para perguntar o óbvio, depreendo que procuras reconstituir a ordem em que esses elementos formadores se agregaram ao radical para produzir este substantivo. Bem, ninguém pode negar que ele é formado por derivação, ou seja, para que ele nascesse, a um vocábulo já existente foi acrescentado um afixo (prefixo ou sufixo). O que é quase impossível é determinar a ordem dessa formação: de feliz formou-se felicidade, e dele formou-se infelicidade (o que seria uma derivação prefixal)? Ou de feliz formou-se infeliz, e dele formou-se infelicidade (o que seria uma derivação sufixal)? Ou temos aqui um pequeno estoque de morfemas combináveis, a que recorremos cada vez que precisamos de um derivado de feliz, sem que haja, portanto, um vocábulo que tenha surgido “antes” do outro? Já deves ter percebido que eu me inclino para esta última hipótese; as palavras de uma mesma família não têm aquela ordenação temporal da descendência de Abraão, onde se sabe perfeitamente quem gerou a quem. 

De qualquer forma, o certo é que esse NÃO é um exemplo de derivação parassintética — se era nisso que estavas pensando. Said Ali, em sua valiosíssima Gramática Histórica (está sendo reeditada!), observa que a parassíntese é um curioso processo morfológico que nosso idioma usa para produzir VERBOS a partir de substantivos ou de adjetivos; ocorre quando os dois afixos presentes no vocábulo (um prefixo e um sufixo) são acrescentados simultaneamente ao radical: a+NOIT+ecer, a+MOTIN+ar, en+RAIV+ecer (de substantivos); en+GORD+ar, a+PODR+ecer, en+DUR+ecer (de adjetivos). Cuida, porém, que já vi muito professorzinho e muita banquinha de concurso pensar que palavras como infelicidade, infelizmente, desregulado, etc. são exemplos de parassíntese. Não são, não (soa bonito!). Abraço. Prof. Moreno

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Formação de palavras Lições de gramática

litigância ou litigação

Prezado Professor: trabalho na área jurídica e tenho uma dúvida cuja resposta não encontrei em dicionários ou gramáticas; qual das formações é a correta para o verbo litigar: litigação de má-fé  ou litigância de má-fé? Ficaria muito grato pela resposta.

Roney S. A. — Uberaba (MG) 

Meu caro Roney: nosso idioma dispõe de vários sufixos para obter o mesmo resultado. Na formação de substantivos abstratos de ação (aqueles que derivam de verbos), o Português, entre outros, pode usar –mento (tratamento, abalroamento), –dura (andadura, moedura),  -ção (descrição, provocação),  –ância (tolerância, vigilância). Não raro coexistem formas concorrentes para o mesmo abstrato; por exemplo, para dobrar o Aurélio XXI registra dobradura, dobramento e dobração. Os sufixos –ção e –ância concorrem em vários vocábulos: numa rápida examinada no dicionário encontrei alternação e alternância, aspiração e aspirância, claudicação e claudicância, culminação e culminância. O uso vai preferir uma ou outra forma, por caminhos imponderáveis. 

Em alguns casos, no entanto — concordância e preponderância são bons exemplos —, sequer conseguimos imaginar uma variante terminada em -ção. No caso específico de litigar, eu cresci acostumado ao substantivo litigância. Viste, pelo que expus, que a forma litigação não seria impossível, já que esta hipótese também está prevista em nosso sistema morfológico, como se verifica facilmente em Portugal; contudo, ao que me parece, o plebiscito de séculos de uso, no Brasil, consagrou apenas a forma em -ância. É melhor respeitá-lo. Abraço. Prof. Moreno

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Etimologia e curiosidades Isso e aquilo

locativo ou locatício?

Prof. Moreno, em quase todos os livros de Direito, sentenças judiciais, etc., encontra-se a palavra locatício. Raramente se usa locativo. Consultando o dicionário Aurélio há alguns anos, a informação sobre locatício era de verbete inexistente, sendo o correto locativo. Eu, particularmente, prefiro usar locativo. Assim, indago: qual a forma correta ? Muito obrigada.

Maria Luísa L. — São Paulo

Prezada Maria Luísa: tua pergunta já começou com a resposta, quando dizes “Em quase todos os livros de Direito, sentenças judiciais, etc.”. Não consigo entender como o Houaiss (e o Aurélio) foram ignorar locatício, se a maior parte dos juristas prefere esse adjetivo! É evidente que locativo também está correto, mas a língua produziu a variante em -ício; a raiz pegou, a árvore botou galho e hoje está bem frondosa (uma rápida pesquisa no Google aponta mihares de ocorrências para locatício e flexões). Em linguagem, um resultado desses não pode ser ignorado, principalmente porque os votantes, na sua esmagadora maioria, não são pessoas sem instrução… 

Acho que essa popularidade se deve a dois motivos básicos: primeiro, porque locatício vem fazer companhia a tantos outros termos similares que o profissional da área jurídica usa diariamente (advocatício, pignoratício, empregatício, creditício, etc.); segundo (e talvez o mais importante), porque locativo também é muito usado como um adjetivo relativo a “lugar” — e a funcionalidade do idioma está tratando de especializar o significado das duas formas.

Lembro-te de que não se pode discutir aqui qual seria a forma “correta”, já que ambas existem. O fato de uma delas não estar dicionarizada não quer dizer nada; temos perto de 600.000 vocábulos, e o Houaiss registra apenas 240.000. Aliás, é curioso que no verbete “loc(o)-“, em que Houaiss registra as derivações feitas a partir deste radical, ele inclui “locatício”, sem abrir verbete específico para ele (o que, repito, foi erro técnico; o volume em que esta forma é empregada por pessoas cultas torna obrigatória a sua inclusão nas próximas edições). Além disso, no verbete “locativo”, deixa estranhamente de explicar, na parte referente à Etimologia (geralmente tão consistente), a dupla origem deste vocábulo (local e locar).

A convivência de variantes concorrentes é um dos fatos mais corriqueiros do idioma; só como início de exemplificação, envio-te os seguintes pares que estão por aí, nos dicionários: advocatício e advocatório; castrício e castrense; dotalício e dotal; edilício e edílico; gentilício e gentílico; laudatício e laudatório; pactício e pactual; supositício e supositivo; e assim por diante. Podes, portanto, continuar a usar a forma de tua preferência, mas deves aceitar que outros falantes façam uma escolha diferente. Não te esqueças de que nosso estilo é a soma de nossas escolhas — e não falamos de escolher entre uma forma correta e uma forma errada, mas entre duas ou mais formas igualmente aceitáveis. Abraço. Prof. Moreno

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Através dos dicionários Etimologia e curiosidades

protocolar ou protocolizar?

Juliana G., de Palmas (TO) vive em eterna discussão com seus colegas de trabalho por causa da bendita derivação da palavra protocolo. O correto é protocolar ou protocolizar? Qual é a forma correta: “Sr. Francisco, dirija-se ao setor de protocolo para protocolizar seu documento” ou “Sr. Francisco, dirija-se ao setor de protocolo para protocolar seu documento”?

Prezada Juliana, para fazer um protocolo, tanto podes protocolar como protocolizar. Ambas as formas se encontram no Houaiss e no Aurélio. Escolhe a que melhor te parece, levando em conta as derivações que cada uma dessas formas vai produzir (protocolação, protocolização, etc.). Num dos recentes (e lamentáveis) acontecimentos envolvendo a propina e a compra de parlamentares, o deputado Severino Cavalcante, que ainda não tinha sido cassado, anunciou que ia protocolizar um dos incontáveis pedidos de CPI — e imediatamente foi vítima da crítica de conhecidos jornalistas de alcance nacional, que sempre se metem de pato a ganso, opinando sobre aquilo que eles mal e mal conhecem. Como diria minha professora do primário, esses senhores deveriam frequentar mais seguidamente o velho “amansa”… Abraço. Prof. Moreno

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Através dos dicionários Etimologia e curiosidades

sugerimento

Numa entrevista, ao falar da roupa que vestia, Dunga disse que seguia os sugerimentos de sua filha, que é estilista de moda. Ouvindo aquilo, o Brasil inteiro correu para o dicionário e, ao constatar que o termo não estava lá, extraiu do fato duas desastradas conclusões: primo, o tal vocábulo não existe; secundo, o Dunga fala tão errado quanto algumas importantes figuras desta Pindorama… Como era de esperar, alguns leitores escreveram perguntando o que eu achava disso tudo. Bem, em princípio eu sempre fico satisfeito com qualquer episódio que faça as pessoas se reencontrarem com o velho “amansa” que estava esquecido na estante, mas sou obrigado a meter a minha colher torta nesta tigela.

Em primeiro lugar, por trás da primeira conclusão está a ngênua de que o dicionário seja o repositório de todas as palavras existentes de nossa língua, uma espécie de cartório de registro de nascimentos onde os falantes podem conferir a existência ou não de um vocábulo. Nada mais falso; um dicionário é apenas uma seleção dos vocábulos que o seu autor considera mais importantes neste momento. Por exemplo, para que o Aurélio e o Houaiss pudessem ser editados como um volume único, os autores tiveram de fazer uma pesada seleção dos vocábulos que deveriam entrar — uma verdadeira lista de Schindler, onde nem sempre foram incluídas as palavras que mereciam. O Aurélio traz as palavras que Aurélio Buarque de Holanda escolheu; o Houaiss traz as palavras que Antônio Houaiss escolheu — e pronto! 

Quem vai ao Houaiss encontra várias palavras que não aparecem no Aurélio: agronegócio, apagão, auditar, autolimpante, biopirataria, carteirada, cartelização, cartolagem, conspiratório, emancipacionista, fitossanitário, hidroginástica,mexível, meritocracia, parquímetro ou soropositivo. Essa diferença pode nos dizer alguma coisa sobre o tamanho e a cobertura dos dois dicionários, mas nada sobre as próprias palavras em si — assim como o fato de não encontrarmos bivolt, bloqueto, cadeirante, degravação, drogadição, drogadito, intensivista, fumódromo, mecatrônica ou rinsagem em nenhum dos dois não nos autoriza a concluir que esses vocábulos, vivíssimos em nosso idioma, não existam… 

Em segundo lugar, não podemos afirmar que sugerimento esteja errado; acho horrível o termo, mas, como vamos ver, ele está rigorosamente dentro das formações possíveis por derivação, que é, quero frisar, a mais poderosa máquina de criar palavras do Português. O princípio é muito simples: de uma mesma base existente, formam-se novos substantivos, adjetivos ou verbos, pelo acréscimo de prefixos ou sufixos. Às vezes, temos à nossa disposição vários elementos para a mesma finalidade; por exemplo, para formar substantivos abstratos a partir de verbos, podemos escolher o sufixo -ura (feitura, leitura), ou –ção (realização, repetição), ou –mento (nascimento, recrutamento), ou –agem (regulagem, filtragem), entre outros. Saber uma língua, muito mais do que dominar uma lista de palavras, é conhecer esses elementos formadores e o conjunto de regras que nos permite combiná-los. É importante ressaltar o caráter aleatório dessas combinações; nada nos diz qual desses sufixos será usado para uma determinada base. Aqui ocorre uma escolha em que parecem intervir critérios que ainda não foram bem estudados. Por que recrutamento e não recrutação ou recrutagem? Por que filtragem e não filtramento ou filtração? Quantos verbos formados pelo sufixo –izar estão lá, no estoque virtual de nosso idioma, que ainda não vieram à luz? Quantos substantivos abstratos em –mento

Em muitos casos, diferentes sufixos combinam com uma mesma base para formar vocábulos concorrentes, que passam a disputar a preferência dos falantes. No dicionário, encontramos, lado a lado, lavagem, lavação, lavamento e lavadura; sedução e seduzimento; desflorestamento e desflorestação; concluimento e conclusão. Submetidas ao invisível plebiscito popular, aquelas que parecem soar melhor vão conquistar mais falantes, mas isso não significa que as derrotadas vão desaparecer. Uns se dirigem ao bufê das palavras e compõem um prato com alface, palmito, tomate e salada de batatas (é uma combinação consagrada, assim como feijão, arroz e bife ou, na sobremesa, morango com chantili); outros vão lá e misturam no mesmo prato o feijão com a salada de batata, tudo isso com um pouco de sorvete por cima. Fazer mal não faz; é tudo uma questão de gosto. Os do primeiro tipo preferem escolha, conclusão, incômodo e sugestão; os do segundo, escolhimento, concluimento, descômodo e sugerimento. Depois, cada um com seu prato, voltam todos para a mesma mesa, para compartilhar a refeição do idioma — de preferência, em paz. 

(da coluna O PRAZER DAS PALAVRAS– Jornal Zero Hora – 25/11/2006)

 

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Através dos dicionários Etimologia e curiosidades

aidético

Caro Cláudio Moreno: entre nós que trabalhamos com doenças infecciosas — eu sou médico infectologista — a palavra aidético tem uma conotação pejorativa. É como se nós nos referíssemos a um paciente com câncer como canceroso. Para mim, ainda mais, não havia sequer razão para a sua existência, já que a raiz aids não daria aidético, no máximo um aidesético. Para minha surpresa o Aurélio pôs no dicionário o termo sem nenhum alerta sobre seu uso perigoso. E eis que o Houaiss vem e faz o mesmo. Esses nossos dicionaristas não estariam aceitando termos acriticamente? O que o senhor acha disso? Estão autorizando a nós, médicos, usarmos o termo de forma vernacular em nossos artigos científicos? Abraços.

Helio B.

Meu caro Hélio: a língua corrente usa as palavras independentemente das considerações éticas que um médico possa levantar. Essa distância entre o uso especializado e o uso comum é observável em qualquer área do conhecimento; enquanto o vocabulário jurídico distingue entre roubar e furtar, a diferença inexiste para o cidadão que teve seu carro levado por ladrões. Para este mesmo cidadão, o vocábulo aidético designa simplesmente os indivíduos contaminados pelo vírus da Aids; ele não percebe aí a carga pejorativa que um médico vê e procura evitar. É como louco ou maluco, vocábulos que um falante comum utiliza, sem malícia, para designar quem sofre das faculdades mentais, mas que deixam toda a comunidade de psiquiatras e psicólogos com os cabelos (e as barbas) em pé.

Aidético é o adjetivo que nasceu de Aids, e ninguém mais poderá matá-lo, mesmo que fosse malformado — no que, aliás, também tenho as minhas dúvidas. Por que deveria ser *aidesético? Não temos nenhum vocábulo com essa terminação “-esético”; além disso, vejo que lues deu luético e herpes deu herpético, com a desconsideração da sibilante final, como ocorre com aidético

Agora, o fato de todos os bons dicionários registrarem o termo não significa sinal verde para usá-lo em trabalhos científicos; lembra-te, por exemplo, de que todos os palavrões estão dicionarizados, mas isso não nos autoriza a empregá-los num artigo ou numa tese. Dicionário apenas registra e informa; a nós cabe decidir o que é correto ou adequado para as situações concretas, de acordo com nossa formação e nossa sensibilidade. Como muito bem observaste, médicos que se referem a seus pacientes como “cancerosos” ou “sifilíticos” parecem não ter a humanidade e a compreensão indispensáveis para um profissional dessa área. Abraço. Prof. Moreno