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Ovação

 

Damos valor às narrativas que reforçam nossas “certezas” e olhamos com desconfiança qualquer versão que as contrarie. Não poderia ser diferente com as palavras.

Pois as tais fake news só vicejam porque encontram terra fertilíssima dentro de nós mesmos. Assim como as lendas urbanas nascem dos nossos temores e desejos mais profundos — e por isso parecem tão verossímeis —, assim essas “notícias falsas” (como se diria em bom vernáculo) parecem bem verdadeiras porque vêm confirmar aquilo que previamente já pensávamos ou sentíamos sobre um tema. Damos valor às narrativas que reforçam nossas “certezas” e olhamos com desconfiança qualquer versão que as contrarie. Sempre foi assim, desde a caverna, e acho que nunca vai mudar. Na versão homérica, os gregos venceram a guerra e destruíram Troia; oitocentos anos depois, Dio Crisóstomo afirmou que isso era uma deslavada mentira, e que Homero havia invertido o desfecho para agradar aos gregos e fazê-los esquecer do vergonhoso fiasco…

Não poderia ser diferente com as palavras. A etimologia pretendia, como diz o nome (do Grego etymon, “verdadeiro”) chegar ao verdadeiro significado das palavras; a realidade, no entanto, reduziu-a aos limites do possível, e ela passou a estudar a história das palavras − ou seja, as narrativas que se tecem sobre elas. Nossos primeiros dicionaristas de renome − Bluteau (1728), e depois dele Morais (1789) − definiam enfezar como “meter fezes”, “encher de fezes o que está limpo”. De onde veio isso? Do Latim? De costumes romanos? Jacaré deu algum exemplo disso? Não? Pois nem eles. Ao menos ambos tiveram a prudência de registrar, como observação lateral, que o termo pode significar também “enfadar muito, fazer encolerizar”. Os dicionários modernos preferem derivá-lo do Latim infensare, “encarniçar-se contra, ser hostil a”, hipótese mais provável que a anterior, mas sempre uma hipótese. Há pontos que ainda falta esclarecer, especialmente no significado, pois hoje enfezar significa tanto “aborrecer, irritar” (“Verias como se pôs a mana Rosa; olha que quando se enfeza é uma víbora” – Macedo) quanto “impedir o desenvolvimento; não se desenvolver; tornar-se raquítico” (“a sexta classe, a cuja frente vinha eu, o mais pirralho e enfezadinho da turma” – Alencar). Veremos qual será a próxima explicação…

O mesmo se dá com ovação. A etimologia popular, na sua comovente simplicidade, fixou-se na evidente semelhança com o radical de ovo e inventou uma história condizente: seria uma cerimônia típica da caserna, uma espécie de trote em que o vencedor era saudado com uma chuva de ovos − podres, acrescentam alguns, para aumentar a macheza da ocasião. Afinal, como disse Flaubert no seu famoso Dictionnaire, a etimologia só precisa de um pouco de Latim e de imaginação…

Os homens de letras, no entanto, contestaram com veemência essa versão ginasiana; diferentemente da espetacular cerimônia do triunfo, que tinha pompa e luxo capazes de matar Hollywood de inveja, a ovação era a comemoração de uma vitória militar de menor importância (combate a escravos ou a piratas, ou vitórias sem derramamento de sangue), ao cabo da qual era sacrificada uma ovelha − em Latim, ovis (daí o nosso ovino). Essa seria, segundo Plutarco, a verdadeira origem do nome. Alguns estudiosos, no entanto, acharam a teoria da ovelha insatisfatória, duvidaram dos conhecimentos que Plutarco teria do Latim (ele só falava e escrevia em Grego) e sugeriram que ovação vem do verbo ovare “lançar gritos de entusiasmo e de alegria”, mais ou menos como o evoé das festas dionisíacas. Achei esta melhor do que as duas outras, até porque existe, em nossa língua, o adjetivo ovante, “triunfante, vitorioso”, que Eça usa mas só fui conhecer agora: “Pus uma rosa ao peito e saí, ovante“, conta o patife do Teodorico, em A Relíquia. E é neste ponto que estamos − por enquanto.

 

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Etimologia e curiosidades Origem das expressões

nas coxas

A moda, neste inculto Brasil de hoje, são as etimologias baratas. Nos últimos dois anos, mais de vinte livros sobre o tema foram lançados com sucesso (não menciono títulos porque não faço propaganda de produto ordinário), escritos quase sempre por amadores, autodidatas ou oportunistas, que emitem suas opiniões sobre a origem das palavras com aquela segurança invejável que só adquire quem tem uma sólida ignorância. Há um ou outro autor sério, estudioso, que faz trabalho honesto, pesquisando em dicionários e embasando suas afirmações com a obra de bons escritores — mas essa seriedade e esse rigor, que para mim são virtudes, são defeitos para o grande público, que prefere a explicação fácil e engenhosa, pouco se lhe dando se foi ou não inventada.

Com a rapidez de um vírus, essas etimologias de R$1,99 se espalham pela internet e dali chegam aos blogues, aos jornais e às revistas, de onde serão recolhidas novamente por esses catadores de lixo, que irão reciclá-las em novos livros sobre a “origem divertida das palavras”. É um ciclo infernal! O típico autor dessas obras tem escassa ou nenhuma formação lingüística, o que o deixa mais à vontade para escrever a barbaridade que lhe der na telha. Como não sabe como funciona uma língua humana, acha plausível (!) que o vocábulo forró tenha nascido da recepção errada de For all (“para todos”, em Inglês, que soa mais ou menos como /foróu/), que assinalava, nas bases americanas no Nordeste, as festas abertas à comunidade — e se alguém lhe ensina que se trata, na verdade, de uma simples redução de forrobodó (“festança”), vocábulo já encontrável no séc. XVIII, ele torce o nariz e exige que o convençam disso! Como se diverte com esses equívocos com palavras desconhecidas, afirma ingenuamente que a lhama recebeu esse nome por causa de um mal-entendido similar: diante do conquistador espanhol que apontava para o simpático animalzinho e perguntava — decerto aos gritos e com feroz carantonha — “Como se llama?”, algum amedrontado antepassado de Evo Morales, à guisa de resposta, teria apenas balbuciado a última palavra da pergunta — “Llama” — como se fosse o comportamento normal de qualquer ser humano repetir o final da frase quando o interlocutor fala uma língua estrangeira.

Como nosso autorzinho não estudou Latim, que já é coisa ultrapassada, sente-se livre para dizer que enfezar significa “estar cheio de fezes”, ignorando que vem de infensare, “opor-se a alguma coisa com vigor, hostilizar”. Pior é quando ele próprio resolve arriscar uma origenzinha histórica, falsa como tudo o que ele vende: é o caso de aluno, cuja etimologia de araque vem sendo apresentada com sucesso em muitos seminários pedagógicos por aí. O termo viria de *luno (que significaria “luz” — só Deus sabe em que língua!), e a-luno seria aquele que está “sem luz”, à espera de que o professor o tire da obscuridade em que vive — o que tornaria o termo politicamente incorreto (!) para aqueles que defendem uma gestão democrática da escola, sendo mais adequado substituí-lo por estudante… É sinistro ver como uma idéia tão rasteira se alastrou entre muitos dos profissionais encarregados da educação dos pobres brasileirinhos! Mas será que não existe uma boa alma ali que se anime a abrir o dicionário do Houaiss para ver que aluno vem do Latim alumnus, “criança de peito, menino, aluno, discípulo”, derivado de alere, que significa, entre outras coisas, “desenvolver, nutrir, alimentar, criar, fortalecer”?

O nosso etimólogo amador começa, agora, a “corrigir” o passado. O velho provérbio “Quem não tem cão caça com gato” está errado; o certo, diz a sumidade, é “caça como gato”, isto é, sozinho — contrariando todas as obras de paremiologia publicadas até hoje e deixando o próprio Machado com cara de bobo, por escrever “com gato”. Tem mais: não é “Quem tem boca vai a Roma”, mas sim “vaia Roma”… Essa é de cabo-de-esquadra! E o que vamos dizer aos franceses (“Qui langue a, à Rome va“), aos espanhóis (“Preguntando se va a Roma“) e aos italianos (“Chi lingua ha, a Roma va“)? E outra coisa: nas coxas viria do hábito de moldar a telha de argila nas coxas dos escravos, o que a deixava com forma irregular! Que descoberta! Eu pensava, maliciosamente, que era expressão proibida à mesa de refeição porque indicava o velho sexo intercrural (ou interfemoral), já tão praticado na Grécia, conceito muito conhecido pela minha geração mas que os jovens atuais simplesmente não entendem (“Se chegavam na portinha, por que não iam adiante?”), e que fazer nas coxas era fazer algo afobadamente, apressadamente, deixando malfeito e incompleto o que poderia ser melhor — bem do jeito como vem sendo praticada essa etimologia de meia-pataca.

[publicado no jornal ZH em 6/01/2007]

Depois do Acordo: lingüística > consequências

idéia > ideia

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nas coxas

A moda, neste inculto Brasil de hoje, são as etimologias baratas. Nos últimos dois anos, mais de vinte livros sobre o tema foram lançados com sucesso (não menciono os títulos porque não faço propaganda de produto ordinário), escritos quase sempre por amadores, autodidatas ou oportunistas, que emitem suas opiniões sobre a origem das palavras com aquela segurança invejável que só adquire quem tem uma sólida ignorância. Há um ou outro autor sério, estudioso, que faz trabalho honesto, pesquisando em dicionários e embasando suas afirmações com a obra de bons escritores — mas essa seriedade e esse rigor, que para mim são virtudes, são defeitos para o grande público, que prefere a explicação fácil e engenhosa, pouco se lhe dando se foi ou não inventada.

Com a rapidez de um vírus, essas etimologias de R$1,99 se espalham pela internet e dali chegam aos blogues, aos jornais e às revistas, de onde serão recolhidas novamente por esses catadores de lixo, que irão reciclá-las em novos livros sobre a “origem divertida das palavras”. É um ciclo infernal! O típico autor dessas obras tem escassa ou nenhuma formação lingüística, o que o deixa mais à vontade para escrever a barbaridade que lhe der na telha. Como não sabe como funciona uma língua humana, acha plausível (!) que o vocábulo forró tenha nascido da recepção errada de “For all” (“para todos”, em Inglês, que soa mais ou menos como /foróu/), que assinalava, nas bases americanas no Nordeste, as festas abertas à comunidade — e se alguém lhe ensina que se trata, na verdade, de uma simples redução de forrobodó (“festança”), vocábulo já encontrável no séc. XVIII, ele torce o nariz e exige que o convençam disso! Como se diverte com esses equívocos com palavras desconhecidas, afirma ingenuamente que a lhama recebeu esse nome por causa de um mal-entendido similar: diante do conquistador espanhol que apontava para o simpático animalzinho e perguntava — decerto aos gritos e com feroz carantonha — “Como se llama?”, algum amedrontado antepassado de Evo Morales, à guisa de resposta, teria apenas balbuciado a última palavra da pergunta — “Llama” — como se fosse o comportamento normal de qualquer ser humano repetir o final da frase quando o interlocutor fala uma língua estrangeira.

Como nosso autorzinho não estudou Latim, que já é coisa ultrapassada, sente-se livre para dizer que enfezar significa “estar cheio de fezes”, ignorando que vem de infensare, “opor-se a alguma coisa com vigor, hostilizar”. Pior é quando ele próprio resolve arriscar uma origenzinha histórica, falsa como tudo o que ele vende: é o caso de aluno, cuja etimologia de araque vem sendo apresentada com sucesso em muitos seminários pedagógicos por aí. O termo viria de *luno (que significaria “luz” — só Deus sabe em que língua!), e a-luno seria aquele que está sem luz, à espera de que o professor o tire da obscuridade em que vive — o que tornaria o termo politicamente incorreto (!) para aqueles que defendem uma gestão democrática da escola, sendo mais adequado substituí-lo por estudante... É sinistro ver como uma idéia tão rasteira se alastrou entre muitos dos profissionais encarregados da educação dos pobres brasileirinhos! Mas será que não existe uma boa alma ali que se nime a abrir o dicionário do Houaiss para ver que aluno vem do Latim alumnus, “criança de peito, menino, aluno, discípulo”, derivado de alere, que significa, entre outras coisas, “desenvolver, nutrir, alimentar, criar, fortalecer”?

O nosso etimólogo amador começa, agora, a “corrigir” o passado. O velho provérbio “Quem não tem cão caça com gato” está errado; o certo, diz a sumidade, é “caça como gato”, isto é, sozinho — contrariando todas as obras de paremiologia publicadas até hoje e deixando o próprio Machado com cara de bobo, por escrever “com gato”. Tem mais: não é “Quem tem boca vai a Roma”, mas sim “vaia Roma”… Essa é de cabo-de-esquadra! E o que vamos dizer aos franceses (“Qui langue a, à Rome va“), aos espanhóis (“Preguntando se va a Roma“) e aos italianos (“Chi lingua ha, a Roma va“)? E outra coisa: nas coxas viria do hábito de moldar a telha de argila nas coxas dos escravos, o que a deixava com forma irregular! Que descoberta! Eu pensava, maliciosamente, que era expressão proibida à mesa de refeição porque indicava o velho sexo intercrural (ou interfemoral), já tão praticado na Grécia, conceito muito conhecido pela minha geração mas que os jovens atuais simplesmente não entendem (“Se chegavam na portinha, por que não iam adiante?”), e que fazer nas coxas era fazer algo afobadamente, apressadamente, deixando malfeito e incompleto o que poderia ser melhor — bem do jeito como vem sendo praticada essa etimologia de meia-pataca.

[Coluna O Prazer das Palavras — publicado no jornal ZH em 6/01/2007]

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