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Galicismos

Podemos viver sem as palavras de origem francesa? Imagine se nosso léxico fosse atingido por um raio desgalicizador! Ao acordar pela manhã, você não poderia mais falar em abajur, avalanche, omelete ou tricô.

Em 1882, na abertura de seus Papéis Avulsos, dirigindo-se ao leitor, como de costume, Machado de Assis encerra assim sua apresentação: “Deste modo, venha donde vier o reproche, espero que daí mesmo virá a absolvição”. Ah, não deu outra: na edição seguinte, ele se sente na obrigação de acrescentar uma nota ao final, onde informa, com sua habitual elegância: “Cerca de dois anos para cá, recebi duas cartas anônimas, escritas por pessoa inteligente e simpática, em que me foi notado o uso do vocábulo reproche. Não sabendo como responda ao meu estimável correspondente, aproveito esta ocasião. Reproche não é galicismo” — e segue a explicação, citando autores clássicos e respeitáveis. Duas cartas em dois anos! E de um correspondente educado! Que inveja! Penso no frenético Facebook e imagino hoje o pobre Machado enfrentando aquela lista interminável de opiniões tiradas do oco do umbigo (para não citar outro oco mais ao sul) e de bordões como “Fora Temer” e “Lula na prisão”…

Mas a que se deve essa manifestação de Machado? Por que acusar o  recebimento de uma banal carta anônima? A quem se dirigia, realmente, esta justificativa? Ora, sem dúvida alguma, ao clã dos puristas: no final do 2º Império, a extraordinária (e benéfica, a meu ver) influência da França em nossa cultura e em nossa língua começou a receber a oposição de um seita de radicais conservadores, absolutamente xiitas, que bradavam, com muita vontade e pouca ciência, contra a adoção desses galicismos, termo despectivo com que  tentavam fulminar os vocábulos franceses. Este grupo militante, é claro, pregava aos peixes, exaurindo-se numa causa equivocada, travada bem no momento em que mais forte foi sentida a influência do Francês em nossa vida (é significativo que um simpósio sobre a influência da cultura francesa no Brasil Imperial, ocorrido na USP em 2009, tenha escolhido como mote “O Século 19: um imenso galicismo”. Já o século 20, com as duas guerras e o cinema, traria, como sabemos, a ascensão vertiginosa do Inglês).

Para avaliar a extensão do equívoco dos puristas, imagine o amigo leitor que numa noite trágica nosso léxico fosse banhado por um raio desgalicizador, que eliminasse todos esses intrusos: ao acordar de manhã, você não poderia mais falar em abajur, avalanche, batom, bege, bijuteria, boate, boné, bufê, buquê, cachê, camelô, cassetete, chalé, chantagem, chique, chofer, creche, croquete, cupom, dossiê, filé, garagem, garçom, greve, guichê, lingerie, maiô, maionese, maquete, marrom, menu, omelete, placar, raquete, reprise, revanche, sutiã, toalete, tricô — e isso seria apenas a entrada, porque ainda faltariam os pratos quentes, a sobremesa e o licor. Alguns desses empréstimos eram desnecessários e apenas duplicavam palavras que já tínhamos; o tempo os eliminou, e só os consagrados sobreviveram.

Um caso curioso é rastaquera, que serve de título a esta coluna. Na aparência, poderia ser tomada por uma daquelas  expressões de origem obscura, como brega ou mocorongo, por exemplo; no entanto, ela nos veio do  Francês rastaquouère, termo usado para designar os novo-ricos latino-americanos que ostentavam sua riqueza e seu mau gosto na Paris no final do séc. 19. Incultos, ruidosos, inconvenientes, eles se carregavam “profusamente de joias — para faiscarem de longe”, diz Eça de Queirós (ele escreve rastaquère mesmo, despachando aqueles ditongos incômodos). Os dicionários mais rigorosos da França, no entanto, dizem que o termo é uma adaptação francesa do Espanhol rastracueros, literalmente “arrasta couros”, uma referência ao fato de que esses milionários da América Latina deviam sua fortuna principalmente ao comércio de couro. Não é para nos gabar, mas brasileiro foi usado por muito tempo na Europa como sinônimo para rastaquera, principalmente por causa dos emigrados que voltavam para o Velho Mundo com suas riquezas bem ou mal havidas, dispostos a tudo para “brilhar” na sociedade — até mesmo a enrolar um guardanapo na cabeça para executar, num restaurante grã-fino, aquela constrangedora dancinha que marcou, simbolicamente, o fim de Sérgio Cabral e sua quadrilha.

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espresso?

Os vocábulos importados são como estrangeiros que vêm morar no Brasil: uns já estão naturalizados, outros aguardam o deferimento do pedido e outros, finalmente, vão viver aqui sem mudar sua cidadania de origem.

Num ponto qualquer do litoral de Santa Catarina, pelas asas da internet, chega-me o pedido de ajuda de uma pessoa que me é muito cara: Elisa Prenna, dona do Chicafundó (não por acaso, o meu restaurante preferido), gostaria que eu respondesse, em nome dela, a um de seus frequentadores que reclamou do restaurante — não da comida, que é impecável, mas do Português empregado no menu que ela envia semanalmente por email. Inconformado com o café espresso que o Chica (assim chamado pelos mais íntimos) oferece ao fim de cada refeição, o amigo Cafezinho (à falta de um nome, vou chamá-lo assim), num estilo de dar inveja a qualquer espartano, escreveu: “Erro no fôlder. Expresso é com x. Favor verificar antes de enviar material divulgativo”. Elisa, que nunca cometeu a grosseria de ignorar uma manifestação de cliente seu, fez uso então de um velho contrato tácito que existe entre nós dois: ela me ensina a forma correta de queimar o açúcar do crème brûlée e eu, em troca, oriento seus passos nos pontos mais obscuros do vernáculo.

O problema, meu caro Cafezinho, é que muitos termos culinários estrangeiros ainda não foram (se é que um dia o serão) aportuguesados, como já aconteceu, por exemplo, com os termos usados no futebol. Fique tranquilo, que isso é natural: em todas as línguas do mundo, o vocabulário relativo à cozinha é como aquele espaçoporto do filme Guerra nas Estrelas, em que convivem representantes de todas as galáxias. No nosso caso, a situação dos termos que ingressam em nosso léxico é muito semelhante à dos indivíduos estrangeiros que vêm para o Brasil: uns já estão naturalizados, outros aguardam o deferimento do pedido e outros, finalmente, vão morar aqui sem alterar sua cidadania de origem.

Para não fugir do Chica, fui à sua página na internet (www.chicafundo.com.br) para colher exemplos. Dos que já foram aportuguesados, encontrei pudim, lasanha e nhoque (de pudding, lasagna e gnocchi, respectivamente). Do segundo caso, achei tortilla (tortilha), champignon (champinhom), goulash (gulache), curry (caril) e capuccino (capuchino) — as formas no parêntese já estão dicionarizadas, mas vai demorar muito até serem aceitas pela maioria dos falantes que conhecem esses alimentos. Finalmente, com pouquíssimas chances de vir a ser nacionalizadas, temos paella, chutney, bavaroise, couvert, pizza (as duas formas alternativas até agora propostas, piza e pitza, não convenceram), e sushi (adaptado ao nosso sistema ortográfico, só poderá dar suxi, que, convenhamos, é de fazer bacalhau chorar em porta de venda).

Seguindo o segundo modelo, não há dúvida de que espresso poderá um dia ser nacionalizado para expresso, como já vem ocorrendo em restaurantes mais populares. Ouvi, num bar da Rodoviária, alguém reclamar do tempo de espera: “Se é expresso, por que demora tanto?”. Ele certamente ignorava que o espresso, aqui no Italiano, não significa “rápido”, mas sim que o café foi feito sob pressão, numa máquina especial. Os estabelecimentos mais sofisticados, naturalmente, resistem a expresso assim como resistirão por muito tempo a champinhom ou a capuchino.

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o rei do roque

Se, como vimos, “crack” pode ser nacionalizado como CRAQUE, o que impedirá que “rock” se transforme em ROQUE? Nada — nem mesmo o fantasma de Elvis, nosso rei eterno e incontestável. Tudo vai depender da preferência dos fãs deste tipo de música.

O fato de eu ter afirmado, na coluna anterior, que convivemos atualmente com duas propostas ortográficas para o nome da droga mais mortífera — ou escrevemos crack, na sua forma de origem, ou escrevemos craque, já com roupagem nacional — desagradou a um leitor de Caxias que assina com o sugestivo pseudônimo de “Crazy Metal”. Ao que parece, a capa vermelha que deixou esse tourinho assanhado foi a ideia de que todas as palavras estrangeiras — excetuando-se os casos extremos, como vimos — todas elas, repito, vão terminar passando pelo processo de aportuguesamento. Como eu já disse antes, esta tendência inexorável à padronização é extremamente benéfica para o idioma, pois ajuda, e muito, a evitar a desestabilização de nossa ortografia. No entanto, por várias coisas que nosso Crazy escreveu em seu e-mail, logo deu para perceber que esta nacionalização das palavras estrangeiras choca muito seu senso estético: “Quem decide como vai ficar? Babacas como você?”; “O nome correto da pedra é crack; craque é coisa de chinelão, e eu sei do que estou falando!”; “Só falta querer dizer que rock pode ser escrito roque” — e por aí afora ele ia, o jovem e rabugento metaleiro.

Relevando o “babaca” — ando na minha fase de máxima tolerância, lembram? —, admito que às vezes essas adaptações também me parecem desenxabidas; bulevar não tem o charme de boulevard, copirraite parece um copyright de quem não foi ao colégio, uísque não soa tão sofisticado quando whisky — mas é pura cisma da minha parte: a forma aportuguesada está nos dicionários desde o final da 2ª Grande Guerra! Quer eu goste, quer não, nosso sistema engoliu e digeriu essas palavras, descomendo-as depois já com sua nova feição. Quem decide que vai ser assim? Ora, caro Crazy Metal, claro que não sou eu, nem ninguém especificamente, mas sim as forças internas do próprio sistema, que sempre atuam a favor do falante. Tornando mais concreto o que pode parecer abstrato, vou explicar melhor: pensa numa pedra irregular que seja jogada no leito de um rio: aos poucos, independentemente de nossa vontade, ela naturalmente gastará suas pontas e suas arestas, tornando-se mais lisa e polida. Pois o mesmo acontece com a palavra: jogada na correnteza do uso, vai assumir uma forma cada vez mais arredondada, até que deixe de ser um cascalho incômodo na boca de quem a pronuncia.

No caso do craque, atua uma força tão irresistível quanto a gravidade: excetuados uns poucos casos, nossa língua não admite aquelas sílabas terminadas em consoante que são tão frequentes, por exemplo, no Inglês. Por isso, sempre que um desses vocábulos é importado, damos um jeito na sílaba desengonçada, acrescentando-lhe um E: club, turf, surf, clip, lord viram clube, turfe, surfe, clipe e lorde. Isso vale para importados de qualquer língua: crack, cognac, frac, chic e bolchevik (e pensar que esta rima já esteve na moda…) viram craque, conhaque, fraque, chique e bolchevique. E o rock? Ora, más (ou boas?) notícias: se o rack de som já está se metamorfoseando em raque (300.000 ocorrências no Google — o que não é pouco), não seria de espantar que o rock um dia venha a virar roque. É claro que, neste caso, o processo vai ser muito retardado pelo prestígio da forma globalizada, mas já se pode encontrar aqui e ali quem prefira roque, variante já dicionarizada — aliás, o único radical utilizado para formar derivados como roqueiro.

Aproveito agora o espaço para mandar recado para um grande amigo meu, que ouvi no rádio, esta semana. Ele falava em lactantes e lactentes: para ele, a distinção é claríssima: lactante é quem está amamentando, lactente é quem está sendo amamentado. No animal humano, portanto, lactante é a mãe, lactente é o bebê. O que parece simples para o doutor, contudo, pode não sê-lo para seus ouvintes. Dos vários pares de vocábulos que se confundem, este é talvez o mais perigoso que conheço. Em primeiro lugar, porque não é comum, na estrutura do Português, pares que se distingam por uma oposição entre ANTE x ENTE (no vocabulário de uso geral, na verdade, este é o único que conheço). Depois — e aí a coisa fica preta —, como ambos aparecem no mesmo contexto da amamentação, a pessoa que recebe recomendações médicas pode trocar um pelo outro, com as sérias conseqüências  imagináveis. Quem emprega esses vocábulos deve estar consciente de que a maioria das pessoas não sabe sequer da existência dos dois termos; ipso facto, deve tomar todas as precauções para evitar mal-entendidos. Médico que fala em programa de rádio, então, nem pensar: deixe os dois vocábulos para quando estiver entre seus pares.

Após o Acordo: conseqüências > consequências

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Pedra de craque

Comparada ao Chinês ou ao Hebraico, nossa língua é uma jovem senhora de 900 anos, mas já tem seus hábitos e suas manias. Uma delas é impor o seu próprio sistema ortográfico aos vocábulos estrangeiros que aparecem por aqui — medida das mais saudáveis, como veremos.

Na minha caixa de correspondência (não a virtual, mas a verdadeira, daquelas que têm portinha e tudo), apareceu uma folha de papel dobrada contendo uma pergunta irritada, quase uma reclamação: “Ô, Moreno, que aporrinhação é essa agora?  Abro o jornal e só vejo gente discutindo se a pedra fumada é de crack ou de craque!  Isso é coisa do Novo Acordo? Para mim tem o dedo desses carinhas que escondem o rosto nas manifestações! Contestam tudo! E daí? Escrito de um jeito ou de outro, esses viciados vão acabar é morrendo na sarjeta…”. Não tinha assinatura, mas o fato de não estar num envelope me faz supor que se trate de algum morador deste prédio — alguém que reúne algum interesse pela nossa língua a uma rabugenta intolerância com seus semelhantes…

A verdade, anônimo vizinho, é que ambas as formas podem ser usadas. Antes de entrar em detalhes, vamos a algumas verdades básicas: dissipada toda aquela fumaceira que a discussão sobre estrangeirismos levantou, o bom senso deixou em pé um princípio com que todos parecem concordar: só devemos buscar uma palavra em outro idioma se ela não estiver à nossa disposição no Português. É uma importação estratégica: se houver similar nacional, não tem sentido algum deixar a forma vernácula mofando na gaveta para trocá-la pela forma estrangeira — a não ser, é claro, por vaidade, futilidade ou simples semostração.

Ora, ao contrário do que muitos pensam, dos vocábulos estrangeiros que andam por aí pouquíssimos podem ser classificados como desnecessários. Acredita no que digo: palavra supérflua não dura muito. Antes da 1ª Grande Guerra, os elegantes brasileiros usavam palavras como adresse (“endereço”), étagères (“prateleiras”), flâner (“passear”); robe de chambre (“roupão”), rendez-vous (“local de encontro”), réclame (“anúncio”), chalet (“casa rústica”), début (“estreia”), enveloppe (“sobrecarta”), toilette (“traje; quarto de vestir”). O que aconteceu com elas, quando submetidas à implacável peneira do tempo? Agora, no início do séc. 21, vemos que várias delas sumiram, enquanto outras — como toalete, envelope e chalé — continuam por aí, muito pimponas. O chambre já não tem a popularidade de antanho, mas respira. Randevu está nas últimas, rebaixado ao último nível moral e social. Début continua sendo usado, mas será eternamente uma estrangeira, tanto na escrita quanto na fala (não é para menos: sua pronúncia exige o temível “U” com biquinho, que pouca gente consegue reproduzir); em compensação, terminou nos dando debutar, um verbo de razoável utilidade, pelo qual lhe somos gratos. Quem sabe como elas estarão no início do séc. 22?

Faço questão de frisar, indignado leitor, que muitas vezes a caça aos vocábulos estrangeiros é motivada por falta de informação (ou cultura) do caçador, que pensa, erroneamente, ter encontrado um sinônimo idêntico no Português. Não faz muito um jornalista vociferava, no rádio: “Parem com essa mania de usar nome importado para fingir que a coisa é fina! Mas quando se ouviu falar em iogurte? Parem com isso! Iogurte é a nossa velha coalhada!” — e dê-lhe ponto de exclamação! Confesso que fiquei impressionado com a veemência de seu discurso; no entanto, como sempre desconfio daquilo que vem gritado, seja na fala ou na escrita, fui consultar um queijeiro amigo, que me aconselhou a não levar a sério o jornalista, já que os dois — o iogurte e a coalhada — são tão parecidos quanto um porco e uma ovelha…

Portanto, quando encontramos uma palavra realmente intraduzível, devemos convidá-la a morar entre nós, deixando assim nosso léxico mais rico. Ao recebê-la, podemos tratá-la de duas maneiras: a mais comum — e mais desejável — consiste em limpá-la das peculiaridades ortográficas da língua de que proveio e adaptá-la ao nosso próprio sistema, mantendo o máximo possível de sua pronúncia original. Foi o que aconteceu com chalé e randevu, nos exemplos acima, ou com nhoque (gnocchi), blecaute (blackout) ou saite (site). Se esta hipótese for inviável (o produto da adaptação pode ficar tão esquisito que iniba sua adoção pelos usuários), ela então entrará na forma com que nasceu, escrita em grifo ou entre aspas: marketing, pizza, software, freezer. Na linguagem esportiva, o inglês crack, significando o jogador de exceção, há muito foi nacionalizado para craque; quando a mesma palavra passou a designar, no Inglês, a nova droga mortífera, é natural que se abrisse aqui também a possibilidade de designá-la por sua versão aportuguesada (o dicionário Aulete já registra esta variante). As duas formas agora vão disputar nossa preferência. No momento, dá crack de vareio; daqui a cem anos, escrevo outra coluna sobre o assunto.        

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Blitzes

Onde os italianos dizem raviolo, ravioli, os brasileiros mudaram para RAVIÓLI, RAVIÓLIS; onde os alemães dizem blitz, blitze, os brasileiros estão mudando para BLITZ, BLITZES.

Há pouco mais de duas semanas, um aluno me questionou sobre a manchete que encontrou em jornal de grande circulação no país: “PM faz blitze sucessivas na favela”. “Confio no meu ouvido, professor, e ele me diz que aqui está faltando um S. O senhor não acha?”. Acho, e sempre achei — e ia começar a apresentar meus argumentos quando um segundo aluno, tão rápido no gatilho quanto interessado na matéria, interveio, triunfante: “Mas a palavra já está no plural! O jornal está correto! Blitze, em Alemão, é plural — e, pior, é masculino: um blitz, dois blitze“. Os dois olharam para mim, esperando o meu veredito (para os que preferem veredicto, forma também correta, lembro que não existe letra muda no sistema brasileiro; aqui na Pindorama, como no jogo do bicho, vale o que está escrito: quem escreve aquele C deve também pronunciá-lo) — como eu dizia, olharam para mim, esperando o veredito, e eu então me senti personagem de uma daquelas edificantes histórias orientais, um verdadeiro Confúcio dos trópicos, porque pude me ouvir respondendo: “Saibam vocês que ambos estão cobertos de razão”.

Tem razão aquele que aponta a origem alemã do vocábulo. Blitz significa “relâmpago”, mas aqui está sendo usado como parte da expressão Blitzkrieg (“guerra relâmpago”), conceito tático-militar que Hitler tornou tristemente famoso, e que meu fiel Oxford English Dictionary define como “ataque ou ofensiva desfechada subitamente, com grande violência, com o objetivo de reduzir imediatamente as defesas”. Os ingleses começaram a usar este termo nos anos 40, quando Londres vivia sob o constante fogo da Luftwaffe; no Brasil, há mais de trinta anos ele é usado pela nossa imprensa para designar as batidas que a polícia faz de surpresa, geralmente com efetivo e armamento reforçados. Pelo sistema morfológico do Alemão, o plural do nominativo é blitze.

Por outro lado, também tem razão aquele que sugere que o plural blitzes calharia bem melhor a nossos olhos e ouvidos. Afinal, uma das grandes vantagens do Português é o princípio básico (e extremamente salutar) que rege o sistema de absorção de vocábulos estrangeiros: qualquer palavra que entra em nossa língua deve acompanhar o comportamento das palavras nativas, assumindo os traços fonológicos, morfológicos e ortográficos a que estamos habituados. As estranhíssimas bazooka, maillot e gnocchi há muito circulam por aqui transformadas em bazuca, maiô e nhoque — o que é bom para os brasileiros, que assim não são obrigados a decifrar grafias exóticas, e para as próprias palavras, que podem agora andar por aí alegremente, sem temer o olho sinistro e acusador dos fascistas do idioma.

Como eu disse, ambos têm razão: blitz realmente é uma palavra estrangeira, que, na língua de origem, tem o plural blitze — mas, de tão usada que é, já deveria ter sofrido a nacionalização definitiva, assumindo o plural blitzes, como gizes ou narizes. Não interessa para nós o comportamento deste vocábulo no Alemão; aqui ele vai dançar conforme nossa música. Pouco se nos dá que enveloppe, no Francês, seja feminino; aqui ele virou masculino, e pronto. E não importa que, no Italiano, raviolo e gnoccho sejam o singular e ravioli e gnocchi sejam o plural; os dois  pratos atravessaram o Atlântico e viraram ravióli (plural raviólis) e nhoque (plural nhoques). Por isso, se blitz é masculino na terra de Goethe, aqui se tornou feminino, num processo totalmente inconsciente dos falantes, certamente influenciados por alguma característica sonora do vocábulo. Se a imprensa aderir à forma modernizada, estou certo de que poucos haverão de reclamar, pois estaremos, como se diz, passando a mão no sentido certo do pêlo do gato.

Depois do Acordo: pêlo > pelo

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Deixem nossa língua em paz! (final)

“Os estrangeirismos são os judeus da linguagem”

Theodor AdornoMinima Moralia

Quando vocês, caros amigos, estiverem lendo esta coluna, fiquem sabendo  que a malparida lei contra estrangeirismos (aqui) finalmente foi vetada pelo governador Tarso Genro, que não parecia, desde o início, disposto a endossar este disparate legislativo. Ora, mesmo que o dragão tenha morrido sob o peso de seus próprios defeitos, vou manter minha promessa e mostrar por que considero autoritário este projeto, esperando que isso sirva de vacina para nos imunizar, por muito tempo, contra aventuras semelhantes.

Em primeiro lugar, todo purismo tem cunho fascista. Quando falam numa língua pura (quem conhece a história de qualquer língua ocidental sabe que isso é uma alucinação), eu saco logo o meu revólver – ou o talão de cheques (tanto faz, pois ambos vieram do Inglês, revolver e check). É assim que as coisas começam: apontar estrangeirismos, limpar, expurgar — tudo isso em nome de uma pureza lingüística; depois, vem a limpeza étnica; depois, a ideológica. Nós já vimos este filme.

A ideia de banir os elementos estrangeiros da linguagem sempre foi muito popular em regimes totalitários, tanto da direita quanto da esquerda. Estados fortes tentam regular até a maneira de seus súditos se expressarem. Na Itália de Mussolini, a Academia desencadeou uma campanha “purificadora” do italiano, publicando listas periódicas dos vocábulos que deveriam ser banidos. A Espanha franquista assistiu a movimento idêntico. Na França dos anos 90 (para minha decepção), surgiu a Lei Toubon, logo associada a Le Pen e à direita furiosa. Na Alemanha corre um movimento contra o que eles chamam exageradamente de Denglish (mistura de Deutsch com English), apoiada pelos velhos partidários do nacionalismo — e tanto o Irã de Ahmadinejad quanto a China do capitalismo sem sindicatos lançaram ofensivas semelhantes.

Em segundo lugar, ninguém tem o direito de se arvorar em juiz dos seus semelhantes. Muitas das pessoas com quem conversei, embora considerem natural que usemos vocábulos estrangeiros para suprir as lacunas do nosso léxico, condenam aqueles que os empregam por pura moda ou exibicionismo. “Mas o senhor não acha ridículo usarem sale em vez de liquidação?”, pergunta uma leitora, num tom que chega a sugerir que ela está perdendo a paciência comigo. Acho, madame — assim como acho ridículo organizar uma festa caríssima para comemorar o aniversário do cachorro ou escolher a data da cesariana para que o nenê nasça dentro do “signo certo”. Acho errado, ridículo e muito mais — mas os outros nada têm a ver com a minha opinião.

Falemos francamente: o alvo desta celeuma toda não é qualquer vocábulo vindo do exterior: os que vêm do Francês, do Espanhol, do Italiano, do Russo ou das línguas da Ásia não chamam atenção e não dão brotoeja. O que nos incomoda são os que vêm do Inglês. Falando ainda mais francamente, são os que representam a sufocante influência dos Estados Unidos nos mais ínfimos recônditos de nossa vida. Pois saiba, prezado leitor, que trocar um vocábulo inglês por seu equivalente nacional em nada vai reduzir o imperialismo cultural a que estamos submetidos. Chamar o Halloween de Festa das Bruxas (ou Bailanta do Bruxaredo, para quem prefere uma dicção mais  gaudéria) não vai diminuir o mal-estar que sinto diante da adesão cada vez maior de nossas crianças a esta festa completamente exótica à nossa cultura, que nem ao menos tem a atenuante de incluir, entre suas figuras, o Saci, o Boitatá, o Curupira e a Mula-sem-Cabeça.

Por trás desta preocupação em banir os estrangeirismos  encontramos o mesmo fundamento em que se baseiam os defensores do “politicamente correto”: a ingênua crença de que podemos mudar a realidade se mudarmos a linguagem — quando a experiência e a ciência nos ensinam que o vento sopra exatamente em sentido contrário. O certo é “Liberte sua mente, que o resto vem atrás (inclusive a linguagem)”, e não “Liberte sua linguagem, que a mente vem atrás” (não é por acaso que o lema daquela campanha anti-homofóbica dos EUA era “Free your mind and your ass will follow“, e não o contrário, como alguns marotos sugeriram — e só não traduzo porque pode haver crianças na sala).

Em outras palavras, esta lei, se fosse aplicada, não cumpriria o objetivo que orientou sua concepção. Que o vocabulário da informática venha todo do Inglês não é o verdadeiro problema, mas sim que toda informática nos torne dependentes da tecnologia americana — e trocar mouse por ratón, como fazem os argentinos, não é motivo para orgulho nacional, se continuarmos a utilizar este dipositivo para navegar nas ondas do Windows, da Microsoft Corporation.

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tsunami

Por que fomos pedir emprestado ao japonês o vocábulo TSUNAMI? Nossa língua não tem palavra própria para designar um vagalhão desse tamanho?

 

Raros serão os leitores desta coluna que já ouviram falar no dr. Castro Lopes, homem de letras que chegou a gozar de certa notoriedade no final do século XIX. Defensor fanático de uma causa equivocada — ele se opunha à “invasão” de vocábulos estrangeiros —, este filólogo diletante acabou se tornando um personagem cômico, que muito fez rir Machado de Assis e seus contemporâneos com sua indignação de opereta contra os estrangeirismos e com as soluções estapafúrdias que propunha para substituí-los. Seu livro mais conhecido é de 1889, Neologismos indispensáveis e barbarismos dispensáveis (“barbarismos” seriam os vocábulos provenientes de outros idiomas), obra em que relaciona cinqüenta palavras estrangeiras muito em voga por aqui, na época, condena-as sem piedade e, sem muito estudo ou modéstia, propõe trocá-las por vocábulos que ele próprio ia criando com retalhos do Grego e do Latim. Como a Igreja faz com seus dogmas, diz Machado, o Dr. Castro Lopes compõe palavras novas “com os elementos que tira da sua erudição, dá-lhes a bênção e manda-as por esse mundo”…

Ora, a julgar pela boa saúde de que até hoje desfrutam palavras que ele condenou (e pelo riso que despertam suas sugestões, que coloquei entre os parênteses), pode-se dizer que ele tinha razão quando se queixava aos amigos de ser tratado como Cassandra, a princesa de Troia a que ninguém dava ouvidos. Estavam na sua lista negra: abajur (lucivelo), piquenique (convescote), turista (ludâmbulo), engrenagem (entrosagem), feérico (fádico, de “fada”), drenar (haurinxugar), massagem (premagem), engomar (telisar, de “tela” + “alisar”), golpe de Estado (legicídio social), greve (operinsurreição, “insurreição de operários”), chalé (castelete). Castro Lopes também cismou com avalanche, sem se dar conta de que era natural que não tivéssemos um vocábulo para designar um fenômeno como esse, tão raro em Portugal e completamente desconhecido na geografia do Brasil. Sua sugestão foi nada menos que runimol, um pequeno frankenstein formado de ru (do Lat. ruere, “correr precipitadamente”) + ni (de nix, nivis, “neve”) + mol (de moles, “massa”): “uma massa de neve que se precipita”. Prevendo o fiasco, apontou a possibilidade de usarmos, para o mesmo fim, a palavra alude, a qual, embora não tivesse a sonoridade de runimol (segundo ele), tinha ao menos a virtude de ser muito nossa — no que também se equivocava nosso bom doutor, pois esta é uma velha importação do Espanhol…

Além disso, ele não poderia perceber que estava em andamento, aos poucos, um movimento de globalização linguística, especialmente na área científica, que veio a se consolidar com o rádio, o cinema e, mais tarde, a TV e a internet. Começava a surgir um elenco de “palavras internacionais”, sem pátria e sem fronteira, adotadas por quase todas as línguas modernas do mundo (respeitadas as evidentes peculiaridades ortográficas de cada uma). Palavras como álcool, banana, canguru, chocolate, elefante, fax, futebol, gay, hotel, jazz, jeans, microfone, ninja, planeta, rádio, sauna, táxi, teatro, telefone, tigre, vídeo, violino, xerox, ioga, zoom foram se separando gradativamente de suas línguas originais, passando a integrar um fundo lexical comum, cada vez mais numeroso. Avalanche (ou avalancha, como preferem alguns) hoje está presente em dezenas de idiomas, muito usado também pelo sentido figurado de “quantidade avassaladora” (“uma avalanche de protestos”, “uma avalanche de pedidos”).

Isso também ocorre com outros vocábulos que designam fenômenos naturais específicos de determinadas regiões. Falamos de fiordes em várias partes do mundo — inclusive no Chile e na Argentina —, embora o original venha da Noruega (fjord). Gêiser vem do Inglês geyser, que veio, por sua vez, do Islandês Geysir, nome de uma fonte de água quente no sul da Islândia, mas existem gêiseres nos EUA, na Rússia, na Guatemala, na Indonésia, na Islândia, no Japão, etc. O iceberg (já existe a grafia semiaportuguesada icebergue) vem do Noruguês is (“gelo”) + berg (“montanha”), mas está presente em dezenas de idiomas. É aqui que entra tsunami, palavra vinda do Japonês, pronunciada até a náusea nos últimos dias. Para alguns cientistas, não precisamos dela, pois designaria a onda gigantesca que também chamamos de maremoto, produzida por um terremoto oceânico; para outros, porém, maremoto designa o sismo ocorrido no mar, e tsunami seria apenas a onda por ele produzida. Seja como for (os geólogos e sismólogos que decidam), já é uma palavra do nosso léxico, que o adotou como substantivo masculino, passível de flexionar também em número: o tsunami, os tsunamis.

Depois do Acordo:
cinqüenta > cinquenta
lingüística > linguística

 

 

Sobre o GÊNERO de tsunami

Alvaro S., de Criciúma (SC), quer saber qual é o gênero dessa onda gigante que afetou a Ásia e trouxe confusão à vida de milhões. “Eu aprendi que, nas palavras novas, o uso é que vai determinar o gênero. Por ser uma onda, seria feminino. O raciocínio está correto?”

Meu caro Alvaro: tsunami já está dicionarizado, registrado como masculino tanto no Houaiss quanto no Aulete. Agora que a palavra entrou no vocabulário do falante comum, vamos ver se esse gênero se confirma, ou se a preferência vai para o feminino. Agora, não me venhas com essa de subentender onda; os técnicos vão te redarguir que eles subentendem vagalhão (eta, palavrinha feia essa!). Já fiz minhas pesquisas com algumas cobaias que estão mais perto de mim, perguntando o que eles pensam quando ouvem tsunami; a resposta deles (pode não ser correta, geograficamente, mas é o que lhes veio à cabeça) é que tsunami é um maremoto. Estás a ver como são as coisas? Por isso é que a prudência recomenda: vamos esperar, para ver como a sensibilidade dos brasileiros vai receber o termo. Abraço. Prof. Moreno



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o pen drive

A musse ou O musse? A fondue ou O fondue? A pen drive ou O pen drive? Veja as escolhas do Professor nessas questões de gênero. 

A coluna de hoje vai para a jovem gauchinha que nos mandou sua pergunta diretamente de Milwaukee, nos EUA. Ela ainda não completou seus dez aninhos, mas pertence a uma geração que, ao contrário de muitos dos que lêem esta coluna, considera o computador tão corriqueiro quanto era, na minha infância, o bom rádio de válvulas. Nossa pequena correspondente se mostra completamente à vontade na internet, tem seu próprio endereço eletrônico e está acostumada a folhear a ZH pelo ClicRBS (que inveja, hein, professor Leite?). Acontece que, lá no frio e distante Wisconsin onde ela está, ninguém da família conseguiu esclarecer sua dúvida a respeito do gênero desse útil dispositivo — se eu escrevesse em Inglês, usaria o termo gadget; na minha vida civil, diria simplesmente trequinho… —, essa memória de bolso que atende pelo nome de pen drive. Aconselhada pela mãe, que já foi minha aluna, a filha veio perguntar: “Minha madrinha vai me dar um presente. Eu quero UM pen drive da Barbie, mas o pai acha que se fala UMA pen drive. Qual delas o senhor prefere?”. Em três linhas, respondi que continuasse a usar o masculino — como, aliás, já estava usando —, e pedi que não se acanhasse em me consultar quando tivesse qualquer outra dúvida. O que segue, abaixo, é uma explicação mais detalhada do meu ponto de vista.

Este não é o primeiro, nem será o último caso em que nossos falantes vão ter dúvida quanto ao gênero de palavras importadas.  A hesitação é praticamente inevitável, já que nada pode nos dizer, de antemão, se o vocábulo vai ser masculino ou feminino quando chegar aqui. É claro que isso não ocorre naqueles vocábulos que se referem a seres sexuados, como bode e cabra, lobo e loba, galo e galinha, em que a Natureza já se encarregou de desmanchar qualquer indefinição; nos demais substantivos, no entanto, a atribuição de um gênero ou outro obedece a princípios nem sempre muito claros, geralmente ligados ao perfil fonológico da palavra (entre os países, por exemplo, só os terminados em -A átono são considerados femininos, com exceção do Quênia e do Cambodja; as árvores frutíferas têm o mesmo gênero que a fruta que produzem, com exceção da figueira; e assim por diante).

Ao ingressar em nosso idioma, portanto, qualquer vocábulo importado deverá ser classificado mentalmente pelo falante num dos dois gêneros que o Português reconhece, sem garantia alguma de que vá coincidir com o gênero que tinha no idioma de origem. Há casos clássicos de palavras que mudaram de gênero na travessia do Atlântico: robe e brioche, que são femininos no Francês, entraram aqui como masculinos; como já mencionei em outro artigo, la cocarde virou O cocar, la purée virou O purê (ou, na linguagem das crianças, o pirê) e  la enveloppe virou O envelope. Esses são casos decididos, mas existem os que ainda estão sub judice, aguardando o julgamento silencioso do uso. O primeiro deles é fondue; no Francês e no Italiano, é vocábulo feminino (la fondue e la fonduta, respectivamente), mas aqui, embora ambos os gêneros sejam aceitos por dicionários modernos como o Houaiss e o Aulete, o masculino vai liderando na razão de dez por um (para não deixar dúvida)!

Croquete é outro caso que, mesmo havendo alguma divergência nos dicionários, já está decidido, a meu ver. No séc. XIX, quando o vocábulo fazia sua estreia na nossa língua, Machado ainda fala em “UMA croquette“, à francesa, mas logo o uso privilegiou amplamente o masculino, chegando hoje à razão esmagadora de trinta por um (para isso também serve o Google) — o que torna incompreensível, para mim, a teimosia solitária do Houaiss em registrá-lo exclusivamente como substantivo feminino (posso imaginar a turma do velho Pasquim falando, fesceninamente, em “agasalhar UMA croquete“!). Um pouco mais indefinido é o caso de musse; os dicionários recomendam o feminino, com o que concordo (a musse, uma musse), mas vejo que um grupo crescente de falantes emprega o masculino; enquanto o tempo não dá sua sentença final, teremos de aceitar ambas as formas.

O pen drive é mais um tipo de drive, entre os muitos que um computador envolve. No Inglês, que é o idioma falado pela Informática, existem também os flash drives, os usb drives, os hard drives, os external drives, e por aí vai a valsa. O pen drive recebeu este nome por ter a forma (aproximada) de uma caneta. Como acontece no Inglês, o modificador vem ANTES do núcleo, mas nosso bom povo brasileiro, não sabendo disso, inverteu o processo e pensa que se trata de uma caneta (pen), da qual o drive seria apenas uma especificação: assim como temos caneta-tinteiro, teríamos uma caneta [que é drive] — quando, na verdade, temos um drive [que é caneta]. Daí o masculino.

Depois do Acordo: lêem > leem

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INTERNET é hibridismo?

Professor! Preciso da sua ajuda! Caiu num concurso que a palavra internet, quanto a sua formação, é caso de hibridismo. Eu, no entanto, entendo ser uma palavra de origem inglesa, e que, portanto, não segue as regras e denominações da gramática brasileira. O senhor pode me ajudar?

Cristiane N.

Prezada Cristiane, palavras estrangeiras como internet, modem, mouse, etc. nada têm a ver com os processos internos de formação de palavras do Português. Se perguntarem qual o processo que deu origem a PASSATEMPO, a resposta é composição; DEGRADÁVEL é uma derivação sufixal; MOTO é uma redução ou abreviação de MOTOCICLETA; INFELIZ é uma derivação prefixal; INTERNET, assim como LASER ou HAMBÚRGUER, é uma importação (ou empréstimo, como preferem chamar aqueles que, pelo visto, um dia pretendem devolver). É simples assim.

Ninguém pode obrigar um candidato a identificar, na língua de origem, o processo de formação de um vocábulo importado, pois isso implicaria conhecer os mecanismos de formação próprios do Inglês, do Alemão, do Francês, do Malaio, do Chinês e de tantos outros que compõem a grande lista dos idiomas que forneceram palavras para nosso léxico. Posso te assegurar, aliás, que nem mesmo os doutos professores que elaboraram a prova dominam todas essas línguas…. Se a banca marcou hibridismo (que, além disso, como todo o mundo acadêmico sabe, já é um conceito totalmente ultrapassado…), errou feio. Abraço. Prof. Moreno

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Como se escreve Destaque Emprego das letras

portfolio, portfólio ou portifólio?

Paulo Ricardo, de Porto Alegre, andou pesquisando nos dicionários a grafia de portfolio e continuou com dúvida, porque encontrou também a forma acentuada  portfólio.

Meu caro Paulo Ricardo: a forma correta é portfolio — em itálico e sem acento, porque ainda é vocábulo do Inglês (assim registra o mais novo e melhor dicionário que temos em nosso idioma, o Houaiss). Se vier a ser aportuguesada (o que acredito que vai acontecer em breve, tamanho é o uso que se faz desse vocábulo na publicidade e nas artes gráficas), vai dar algo como portifólio, forma que, aliás, eu já uso há alguns anos. Nota que, nesse caso, a palavra passa a ter acento e um “i” para desmanchar aquele encontro consonantal [r+t+f], inexistente nos nossos padrões fonológicos. Aurélio-vivo, o da 2ª edição, registra porta-fólio, que tem lá sua lógica, mas é muito estranha. A forma portfólio — mais uma daquelas cruzas de jacaré com cobra-d’água, pois mantém a estrutura do Inglês, mas com o acento de nosso sistema ortográfico — veio registrada no confuso Aurélio-XXI, que introduziu várias novidades discutíveis depois que faleceu o mestre Aurélio Buarque de Holanda. Abraço. Prof. Moreno